Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Brasil - Jornalista da Folha de São Paulo em reportagem especial durante doze dias no Irão

A Folha de São Paulo tem um pioneirismo: foi o primeiro grande jornal brasileiro a enviar uma correspondente ao Irão, logo depois dos ataques dos Estados Unidos e Israel. Trata-se da colega Patrícia Campos Mello, repórter especial, que ficou 12 dias no Irão.

Essa reportagem foi importante por levar aos leitores da Folha uma visão neutra, jornalística, de um país sobre o qual se criaram mitos, existindo muita curiosidade sobre a real situação das mulheres e sobre a estrutura política de governança no país. A atual guerra dos EUA e Israel contra o Irão tem dificultado uma fria avaliação do país entre os progressistas brasileiros, mesmo porque o Irão faz parte do Brics e se inclui entre os países antiimperialistas ou antiocidentais, embora muito diferenciados, do Sul Global.

Nem todos puderam ler a série de reportagens publicada pela Folha, mas o  Uol ao convidar Patrícia para uma entrevista, um tanto curta, permitiu se fazer uma ideia resumida do Irão e sua estrutura político-religiosa. E, ao mesmo tempo, com base nos comentários e críticas publicados online, pode-se ter uma ideia de como o público ia reagindo no decorrer da entrevista.

Até agora, certos canais e redes sociais vinham favorecendo a ideia de uma república iraniana com eleições e minimizando a questão da situação das mulheres em termos de direitos humanos, realçando ser um país onde as mulheres são bem escolarizadas e ocupam posições importantes nas estruturas do país. A ideia de ser uma teocracia, para não dizer ditadura religiosa, e de ter um ditador com amplos poderes é sempre descartada mesmo nos canais de esquerda.

Uma exceção foi a entrevista, no canal Opera Mundi, de Breno Altman com a historiadora e escritora Arlene Clemesha, na qual se fica sabendo que, o 12. imã xiita iraniano, infalível e escolhido por Deus, foi substituído pelo aiatolá Líder Supremo, numa teocracia fundamentalista patriarcal, na qual as mulheres são secundárias e não chegam aos postos de comando.

Nem todos os comentários elogiaram ou aprenderam com as informações trazidas do Irão por Patrícia, principalmente quando ela acentuou ser "um governo que oprime as mulheres" ou quando lembrou ter havido, em 2022, uma revolta principalmente feminina depois da morte da jovem curda iraniana Mhasa Amini, por não usar o hijab ou o véu cobrindo os cabelos. "Não é super-tranquilo ser mulher no Irão, existem muitas leis, como no divórcio, que são repressivas".

O lado positivo de ser mulher, para Patrícia durante sua reportagem, foi uma maior facilidade para ter acesso às mulheres e famílias locais, nem sempre usando o véu nos cabelos. "Havia muitas restrições para fazer a reportagem, lá não existe liberdade de imprensa. Há mesmo um jornalista japonês preso, desde janeiro, por estar cobrindo os protestos contra o governo". Sabendo haver jornalistas presos, ela tomou a decisão com a redação da Folha, de só serem publicados os textos mais sensíveis da reportagem - sobre Internet, censura ao governo, condição das mulheres - quando já estivesse de volta no Brasil.

"Enquanto eu estava lá, fui alertada por alguns recados recebidos, que me deixaram preocupada, pois não estava acostumada com isso, quando publiquei sobre a inflação e a vida difícil das pessoas. Diante disso é que decidimos segurar os textos mais sensíveis. Eu fiquei com medo, é um país em guerra e não é um país democrático".

Josias de Souza quis saber se a guerra reforçou o nacionalismo iraniano. Patrícia acha que sim, "a tentativa de mudança de regime pelo regime Trump saiu pela culatra. Não há uma pesquisa de opinião, mas na parcela que apoia o governo, que é grande, toda noite existem manifestações, principalmente das camadas religiosas. Essas pessoas estão muito mobilizadas, a guerra incentivou o patriotismo e o nacionalismo.

Existe uma parcela que se opõe ao governo, difícil de calcular o tamanho, mas eles estão com medo. Ainda que essas pessoas sejam contra o governo não irão apoiar os EUA e pedir para que venham ajudar".

Continua no Irão a interrupção do acesso à Internet. É o mais longo bloqueio à Internet, 80 dias, já registrado num país. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Brasil - Master vai acabar em pizza como Boi Gordo?

O golpe do Banco Master terminará em pizza e Daniel Bueno Vorcaro vai rir da nossa cara, enquanto estiver tomando seu uísque à beira-mar de um resort de renome, curtido só por milionários?

Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos mas em 34 mil pequenos investidores da classe média.

O professor Marcos Assi, no seu site e também na revista Exame, foi mais longe, e publicou os 6 golpes financeiros que enganaram milhares de investidores em todo mundo. Ficou faltando, por ser mais recente, o sétimo golpe, o do Banco Master, no qual existe uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, até Estados e empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de dólares.

E, nessa coletânea de golpes, há uma exceção saltando aos olhos - o trambiqueiro Paulo Roberto de Andrade, criador e gestor da pirâmide ou safadeza das Fazendas Reunidas Boi Gordo, nunca foi preso, depois de um habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Depois da programada delação, Daniel Vorcaro também sairá livre e poderá comemorar com seus amigos que viajavam no seu avião?

Mais de vinte anos depois da falência do Boi Gordo, a Justiça se arrasta na venda das fazendas tomadas de Andrade, cujo total serviria para indenizar parcialmente os investidores lesados. Quem conta com pessimismo é o advogado de muitos dos lesados, Aurélio de Almeida Paiva.

E, embora grande parte dos investidores tenham enviado seus investimentos em dólares para Miami, até hoje a Justiça brasileira, encarregada da falência, não pediu aos Estados Unidos o retorno total desses investimentos ao Brasil.

Diante do escândalo do Banco Master, me lembrei da falência das Fazendas Reunidas Boi Gordo e quis fazer um paralelo. Achei um resumo no site do agronegócio, o Notícias Agrícolas, e só no momento de copiar o link percebi ser texto meu publicado em 2009, no Correio do Brasil! Um texto de descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem evidente já no título: "Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre".

O "empresário" Paulo Roberto de Andrade tinha sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13. Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, concedeu a liminar alegando que o "TJ paulista não podia determinar a prisão, antes do trânsito em julgado da sentença".

Enfim, o Superior Tribunal de Justiça anulou a ação penal contra Paulo de Andrade e reconheceu a prescrição do processo, resumiu o jornal gaúcho Gazeta do Povo, na edição de 13 de agosto de 2009.

Mas acrescentou um parágrafo bem elucidativo: "É a pizza. Fazer o quê?, afirma o promotor de Justiça Eronides Aparecido Rodrigues dos Santos, da Vara de Falências de São Paulo. Lamento a anulação de um caso emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não haverá responsabilização penal". Procurado por meio da assessoria de imprensa, o ministro Nilson Naves, responsável pela decisão do STJ, está ocupado e não tinha tempo para a atender".

Vai ser assim com Daniel Vorcaro? Quem viver verá! "A lei, ora a lei", dizia Getúlio Vargas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Internacional - Discurso antissemita viraliza na Internet

Procurando novas informações na Internet, vi o título O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato, cliquei, havia um aviso: "Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas."

O aviso, colocado pelo próprio autor, queria dizer ser alguma coisa por ele bem elaborada, alguém ciente de ter escrito algo capaz de ferir, mas sua paciência esgotada levara a tirar os filtros com que se tratam certos temas.

Esse tipo de aviso preparatório funciona como um chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses dois povos europeus me lembrou textos da extrema-direita, textos racistas.

Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.

Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus?

Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os Estados Unidos, mas antes de se criticar o Império americano, não resiste à tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e holandeses, "gente que pode ser desagradável e detestável", será que isso não se chama preconceito?

E, enfim, o autor se define, depois das piruetas iniciais, Hannah Arendet inclusive, ele vai falar de Israel, "que nunca deveria ter sido criado", do sionismo, "mas não propriamente do povo judeu e dos judeus em geral". E, en passant, vai falar do Irão.

Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa me chamou a atenção - praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda, estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247, Carta Capital, etc.

Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir: esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.

Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de alguns críticos europeus do chamado movimento Sul Global, principalmente a professora socialista Renée Fregosi da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução no Brasil, pode me contatar).

Não é minha intenção responder ao texto tão viralisado ou polemizar com o autor, na base um economista de formação, mas destacar dentro do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente, que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.

Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irão, já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos. Sobre o Irão já deixei muito comentários, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando principalmente nos depoimentos cinematográficos de importantes cineastas iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados ao exílio para não serem presos.

Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da época, Sartre e Foucault.

Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico no Irão, se desfez com a criação de uma república factóide, na verdade uma teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.

No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o autor faz questão de exprimir seu desejo: "Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!"

Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse de apoio ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.

Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas, ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a situação das mulheres no Irão?

Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada por munições, mísseis e drones. Ou em outras palavras, que Israel seja destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irão, o império persa ex-zorotroatista, do livre-arbítrio e da ética, transformado numa ditadura teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irão, como o Hamas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Irão - Aiatolá Khamenei, herói ou tirano?

Quem era Ali Khamenei, o chefe da teocracia iraniana, líder e guia supremo do governo do Irão?

Vamos deixar de lado se Israel e os Estados Unidos têm o direito de bombardear o Irão, ou vamos deixar de lado uma pergunta parecida mas relacionada com outros países - a Rússia tinha o direito de invadir e tem o direito de manter uma guerra de quatro anos contra a Ucrânia?

Por uma questão de direito internacional e de respeito à soberania, a resposta seria "não", mas por uma questão política, que alguns poderão qualificar de hipocrisia, quem justifica a invasão da Ucrânia pela Rússia geralmente condena os ataques ao Irão pelos EUA e Israel e vice-versa.

Será que a figura do aiatolá Khamenei consegue uma unanimidade de avaliação? O sucessor do aiatolá Khomeini, líder da revolução iraniana que derrubou o Xá Reza Phalevi, que desde 1989, até ontem, encarnava o Guia Supremo da Revolução Islâmica Iraniana, isso durante 37 anos, pode ser saudado na sua morte, ou assassinato, como um herói?

Ou será, como resume o jornal francês Le Monde, que Khamenei encarnava o governo islâmico, decidindo a linha política interna e externa do país, e no seu reinado optou por um endurecimento do regime e por uma repressão feroz de toda contestação? Ele era a autoridade suprema, guardião do dogma teocrático. Ou, fazendo-se um resumo - era um ditador e um tirano.

E surge, então, uma pergunta - quando os tiranos são aceitáveis e mesmo glorificados? O cinema brasileiro, na época da ditadura militar, denunciava os militares tiranos da época, o cinema iraniano denunciava e continua denunciando os crimes da tirania iraniana.

Foram os Festivais de Cinema de Berlim e de Locarno, nos quais fui um assíduo frequentador como jornalista, os primeiros a me chamarem a atenção para uma gradativa e discreta politização do cinema iraniano, depois do sucesso dos filmes de Abbas Kiarostami. Até ali, a esquerda estava entusiasmada com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão ao poder do imã Ruhollah Musavi Khomeini, o líder xiita iraniano.

Mas uma parte ficou de sobreaviso com a criação da chamada República Islâmica do Irão, quando se fundaram as bases de uma teocracia fundamentalista com perseguição dos próprios comunistas, que haviam apoiado a revolução contra o Xá, dos homossexuais e um rebaixamento do status feminino pondo fim à igualdade entre os sexos.

A República do Irão nada tinha e nada tem a ver com as repúblicas democráticas laicas ocidentais, era um governo repressivo, apoiado pelos Guardiães da Revolução, encarregados de repelir pela força seus opositores. É dessa época a fátua decretada por Khomeini contra o escritor Salman Rushdie por ter escrito o livro Versos Satânicos.

Com a morte do imã promovido a aiatolá, Khomeini, dez anos depois da revolução islâmica e queda do Xá, seu sucessor, com mais poderes que os de um Papa cristão, Ali Khamenei, apertou ainda mais os rigores do governo teocrático, provocando reações duramente reprimidas como aos manifestantes pelo assassinato da jovem curda Amina Mahi pelos guardiães da teocracia, pelo simples delito de não colocar corretamente o véu sobre os cabelos. Em fevereiro novas manifestações contra o regime foram ainda mais duramente reprimidas.

Mas retornando ao papel do cinema como divulgador do regime autoritário iraniano, por cineastas premiados em festivais como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof, cabe registrar uma feliz, embora infeliz coincidência. 

Dois filmes denunciam o tema e atos de tirania e concorrem mesmo ao próximo prêmio Oscar. São o Agente Secreto, de Kleber Mendonça, que trata da ditadura brasileira, na época do coronel Ustra, do Doi Codi; e do filme Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi premiado em Cannes, que trata da repressão, crimes e torturas, durante a teocracia iraniana.

Será que a repressão, a tortura, a tirania têm pesos diferentes segundo o cenário político e econômico internacional? São desculpáveis e elogiáveis ou condenáveis e puníveis? Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Irão, os cineastas resistem

Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do cenário do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão, e indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irão, o realizador desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irão, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e morreram de 20 a 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução Iraniana, como eles chamam a polícia da ditadura islâmica, criada em 1979 pelo aiatolá Khomeini, transformada numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.

Mas qual a oportunidade deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história ou deformações sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana, afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, "mártires" vítimas dos agitadores, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, nem o líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, qualificando o de ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irão. Mesmo porque, embora muitos tenham esquecido ou fossem jovens para saberem, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeini, tão logo se implantou a ditadura teocrática islâmica no Irão.

Outro absurdo muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citada mesmo como avanço na frente dos ocidentais, é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos. Essa assimilação de homossexuais, trans e bissexuais submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou morte é pouco divulgada. E minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

É difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciavam a ditadura militar.

É estranho, mas pode ser falta de informação ou falsa informação, uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não são farinha do mesmo saco?

Trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país”. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Trump em Davos: o show-man megalômano

Parecia a estreia de um grande espetáculo, havia filas para entrar, a sala estava cheia, muita gente ficou de fora. No centro do palco, de pé, como um star americano que, ao final, seria aplaudido de pé pela plateia numa standing ovation, o show-man, conhecido por criar suspense, contava lorotas nas quais era sempre o melhor ou o ganhador. Era Donald Trump, presidente dos EUA, que havia ameaçado a Dinamarca de empregar a força, caso não lhe vendesse um enorme pedaço de gelo, a Groenlândia.

O lugar era o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, durante alguns dias o centro da economia ocidental. Trump já esteve por lá outras vezes, mas nunca num clima de tanta expectativa, pois uma parte dos europeus temia uma guerra se houvesse uma invasão da Groenlândia pelos Estados Unidos.

Na metade da sua hora e doze minutos de show, como qualificaram alguns jornalistas suíços, Trump garantiu não usar a força para obter seu grande pedaço de gelo, essencial, segundo ele, para garantir a segurança dos EUA. E chamou a Dinamarca de ingrata pois "se não fossem os Estados Unidos, hoje estaria falando alemão ou japonês", referindo-se à participação dos EUA na libertação da Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.

Irreverente ou mais precisamente mal-educado, Trump procurou ridicularizar o presidente francês Emmanuel Macron e a ex-presidenta do conselho federal suíço Karin Keller-Sutter. Ao contar à sua maneira a conversa telefônica mantida com um e outro, é sempre Trump, o esperto e mais forte, quem sai ganhando.

A Europa voltou a respirar mais tranquila, após o encontro do secretário-geral da OTAN com Trump, no qual Mark Rutte praticamente jurou fidelidade e apoio, no caso de uma guerra envolvendo os EUA. Ambos negociaram, depois do discurso de Trump no Fórum de Davos, a instalação e utilização de bases militares norte-americanas soberanas e autônomas na Groenlândia.

Trump se demonstrou satisfeito com esse acordo pelo qual pode dominar a região ártica. Mas existe um problema, o governo dinamarquês não participou e poderá vetar, em nome da soberania do país. O acordo inclui uma ajuda norte-americana para a exploração dos recursos minerais da ilha de gelo. Será o próximo capítulo.

Com base nesse acordo, o poderoso Trump anulou suas ameaças de um tarifaço suplementar em fevereiro e junho para os europeus.

O atual presidente suíço, Guy Parmelin, sempre cortês e calmo, mostrou a Trump não haver um déficit comercial de 41 bilhões de dólares favorável à Suíça, mas um superávit de 8,8 bilhões em favor dos Estados Unidos. Trump teria se mostrado surpreso e não teria se irritado, como acontece quando é contraditado.

Aproveitando o encontro com o presidente suíço, Trump se mostrou curioso quanto ao funcionamento do rodízio presidencial no conselho federal suíço. E, de acordo com o jornal suíço Le Temps, logo perguntou se um presidente suíço poderia exercer duas vezes seu mandato, revelando sua intenção de prorrogar seu mandato.

Embora no seu discurso megalomânico tudo pareça um sucesso, parece haver uma erosão do apoio a Trump entre os republicanos e entre seus eleitores. As eleições de meio mandato, em novembro, revelarão se Trump poderá continuar se mostrando como o star do MAGA. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Esquerda rejeita revolução iraniana - Trump ameaçou, mas recua

Vai haver um ataque dos EUA às instalações do governo iraniano e aos quartéis dos Guardiães da Revolução em represália à violenta repressão contra o povo, revoltado e pedindo o fim da ditadura teocrática islâmica, no poder desde 1979?

Talvez não, essa a impressão nesta quinta-feira. Trump teria se dado por satisfeito diante das notícias de que, segundo ele, "teria parado a matança no Irão e não seria executado nenhum preso". Por sua pressão e ameaças ao Irão, é claro!

Mas, na verdade, Trump teria recuado depois de avaliar o risco da resposta iraniana afetar a segurança das bases norte-americanas na região e comprometer sua imagem dentro dos EUA. Acabaria se transformando numa repetição da guerra contra o Iraque.

Ninguém precisa se iludir com a imagem de um Trump preocupado com a vida dos iranianos anti-Khamenei! Quase ao mesmo tempo seus guardiães do ICE, a polícia contra imigrantes, está espalhando o terror, numa menor escala, na cidade de Minneápolis, a maior cidade de Minnesota, depois do assassinato (também com tiros na cabeça como no Irão) de Renée Nicole Good, norte-americana mãe de três crianças, acusada de ser dona de casa terrorista! Sem esquecermos da ameaça de invasão da Groenlândia!

Nem sempre funciona o refrão "o povo unido derruba a ditadura", principalmente quando não se tem armas diante de ferozes inimigos.

É válida uma ajuda externa? Aqui entra o argumento de que a queda do Xá Reza Pahlevi teve apoios, embora indiretos, da França, do Iraque, da União Soviética e de intelectuais de esquerda como Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault que, na luta contra o capitalismo e os EUA, não imaginavam estar incentivando o surgimento de uma ditadura religiosa retrógrada, no lugar da monarquia também ditatorial mas secular, modernista e pró-ocidente.

A monarquia do Xá procurava acentuar o passado persa do país, anterior ao islamismo, retirou parte das terras dos religosos e deu o direito de voto às mulheres, decisões mal vistas pelos religiosos. Embora o país crescesse com o petróleo e o aço, o regime do Xá favorecia as elites, enquanto o povo pobre se apegava ao islamismo e iria, mais tarde, preferir o aiatolá Khomeine ao país secularizado e ocidentalizado do Xá.

A chegada dos religiosos ao poder, acabou criando uma nova casta, a dos molás, e o fanatismo islâmico levou ao financiamento dos movimentos extremos pela expansão do Islão, contra o Ocidente e contra Israel.

De acordo com o sociólogo francês Gilles Kepel, autor de uma vintena de livros, o equilíbrio no Oriente Médio foi rompido com o atentado terrorista do 7 de outubro, cometido pelo Hamas, financiado pelo Irão, que também financiava o Esbolá. A fuga do ditador sírio Bachar-al-Assad, mais o aniquilamento do Hamas e do Esbolá isolaram e enfraqueceram o Irão, acentuando sua crise econômica com maior inflação, causada também por sanções ocidentais em represália ao financiamento do terrorismo, e o povo, também descontente com o desvio do dinheiro do Irão para o financiamento de grupos terroristas, saiu às ruas.

A repressão tem sido sangrenta e violenta. Não se viu nenhuma tentativa de apaziguamento por parte da ditadura teocrática. Ao que se informa, os guardiães da revolução têm a ordem de balear os manifestantes na cabeça e o número de mortos, ainda incerto pela falta de Internet, varia de três mil a doze mil, enquanto se fala em 20 mil presos. A maioria desses presos serão julgados rapidamente, sem advogado, e condenados, na maioria, à morte na forca, senão agora, dentro de alguns meses, como ocorreu com os manifestantes depois do assassinato da jovem curda Amina Mahsi.

O governo iraniano dirigido pelo aiatolá Khamenei cortou o acesso à Internet em todo país, diante da rebelião do povo iraniano contra a ditadura teocrática islâmica. Quase ao mesmo tempo, os chamados canais progressistas ou de esquerda deixaram de fazer comentários sobre essa situação de revolta popular ou acusaram ser uma revolta insuflada pelos EUA.

Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de esquerda e não entendo porque companheiros de esquerda, que deram destaque a pirataria do ditador Trump, decidem fechar os olhos à ditadura teocrática islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à revolta popular iraniana.

Em 1979, eu era um dos exilados em Paris contra a ditadura militar brasileira. Vivia no Quartier Latin, mais precisamente na rue de la Sorbonne, e acompanhava os movimentos da esquerda em Paris contra o Xá Reza Pahlevi, movimentos liderados pelo aiatolá Khomeini, com o apoio de Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault.

A queda do Xá foi comemorada por todos, mas a alegria durou pouco porque o aiatolá, logo transformado em Guia Supremo, instaurou um regime religioso islâmico extremamente severo baseado na Charia.

As mulheres, consideradas cidadãs de segunda classe, se revoltaram e criaram recentemente o movimento Mulher Vida e Liberdade, depois de muita repressão e mortes.

Houve grande agitação depois do assassinato pelos chamados guardiães da revolução ou policiais da fé islâmica, da jovem curda Mahsa Amini por não ter colocado corretamente o véu na cabeça.

O que me obrigou a inserir aqui um comentário foi ter visto e ouvido, numa entrevista ao canal Opera Mundi, por um companheiro de esquerda, depois de uma viagem ao Irão de quinze dias mas sem falar farsi, o idioma iraniano, a versão de que não foram os policiais que mataram a jovem curda Mahsa Amini, adotando a versão da ditadura iraniana.

Isso me lembrou que, durante a ditadura militar no Brasil, também o Doi Codi sempre tinha uma outra versão para seus assassinatos, como aconteceu com Vladimir Herzog e Rubens Paiva. Não faz muito tempo, alguém no Canal GGN, tinha qualificado o ex-presidente iraniano, logo depois de sua morte num acidente de helicóptero, como um humanista! Ora Ebrahim Raisi, autor da condenação à morte na forca de mais de 8 mil pessoas, era conhecido como açougueiro!

Tenho acompanhado e publicado o processo de islamização da esquerda não só no Brasil como na França. Não se pode fazer seleção de ditadores, condenando uns e aceitando outros. Trump é um proto ditador perigoso, Maduro era também um ditador. Não se pode condenar o ato de pirataria na Venezuela sem condenar a invasão da Ucrânia e a ameaça de tomada de Taiwan.

Não se pode ser de esquerda e fechar os olhos às denúncias mostradas em filmes contra a ditadura teocrática islâmica, cujos diretores são presos e proibidos de ir aos festivais. Entrevistei alguns deles nos Festivais de Berlim e Locarno. O realizador do filme A Semente do Figo Sagrado, Mohammad Rasoulof, teve de fugir do Irão pelas montanhas para não ser preso. Jafar Panahi, premiado em Cannes, passou anos na prisão.

Para o 247 não existe uma revolução popular, mas uma situação criada por pressões e sanções econômicas. Ditadura teocrática islâmica? O que é isso?

Basta um trecho: “o colapso econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para dentro”. Num longo artigo, nenhuma menção à estrutura ditatorial religiosa do país.

Prefiro ficar com o povo iraniano e sua revolução contra o “evangelismo” iraniano e contra sua ditadura teocrática islâmica. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sábado, 26 de julho de 2025

Brasil - Agosto, mês de cahorro louco

Agora, eles querem a nossa soberania, mas não vamos ceder, vamos nos unir, direita e esquerda, católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, ateus, para dizer que o Brasil é nosso, quem faz as leis e as aplica no judiciário somos nós os brasileiros

Mais alguns dias e chegaremos ao primeiro de agosto. Agosto, mês de cachorro louco, é verdade. Na história que o Brasil vai viver a partir do primeiro de agosto, tem cachorro e tem louco.

Vocês escolhem quem é o cachorro e quem é o louco, entre o presidente dos Estados Unidos que vai taxar nossas exportações para os americanos em 50%, e o patriota filho do ex-presidente Bolsonaro, que foi aos Estados Unidos, pedir ao Trump para ferrar o Brasil, para o Trump sacanear o Brasil e provocar uma crise econômica, que tornará tudo mais caro e tornará ainda mais difícil a vida das famílias pobres.

Graças ao Eduardo Bolsonaro, para quem não interessa se o Brasil sifo... , para ele o importante é seu pai não ser condenado por ter tentado dar um golpe militar e se tornar ditador.

Você que se enrola na bandeira brasileira, você que se dizia e era chamado de patriota, acampado diante dos quartéis, você concorda que outro país faça chantagem com o Brasil e ameace de nos fazer uma guerra econômica se não nos curvarmos e não aceitarmos fechar a STF e demitirmos o Lula?

Você acha que um gringo, que está expulsando de maneira violenta brasileiros que estavam vivendo nos EUA, que um gringo tem o direito de provocar uma crise na exportação da carne, da soja e cereais, numa chantagem para ser anistiado o ex-presidente Bolsonaro, da tentativa de golpe?

Não somos nós brasileiros que devemos dizer o que é bom para o Brasil? Essa guerra econômica é como se os fuzileiros navais dos gringos entrassem nas nossas casas no Amazonas, Goiás, Pernambuco, São Paulo, Rio ou Rio Grande do Sul, para citar só alguns Estados.

Você acha que Deus e Cristo estão do lado dos gringos e do Trump, nessa chantagem contra o Brasil e que o jeito é mesmo de baixar as calças e trocar de bandeira e cantar o hino nacional deles, para o Trump acabar com a guerra econômica que declarou contra o Brasil?

Faz quase cem anos, eles queriam ficar com nosso petróleo, e nós dissemos Sai pra lá gringo, o petróleo é nosso! Agora, eles querem a nossa soberania, mas não vamos ceder, vamos nos unir, direita e esquerda, católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, ateus, para dizer que o Brasil é nosso, quem faz as leis e as aplica no judiciário somos nós os brasileiros.

Todos unidos contra Trump e contra o traidor brasileiro, que colocou Trump contra nós. Rui Martins - Brasil 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Estados Unidos da América - Trump, Epstein e o controle da imprensa no país

Até onde irá o presidente Trump, decidido a perseguir a imprensa independente, deixando a impressão de preparar o terreno para governar sem contestação, obter um terceiro mandato e se tornar o primeiro ditador nos EUA, considerado até agora o paraíso da democracia e liberdade?

Essa indagação resulta, entre outras, da atual reação de Trump a uma publicação no Wall Street Journal, acompanhada de um seu desenho lascivo e obsceno do púbis de uma mulher, enviado há alguns anos a Jeffrey Epstein. Por ocasião dos 50 anos do ricaço boa pinta, muitos de seus amigos lhe enviaram, em 2003, uma carta ou uma lembrança para ser integrada num álbum comemorativo, entre elas havia a carta com desenho erótico de Trump.

Essa publicação no Wall Street Journal relançou o caso Epstein, o gestor de fortunas que se tornou milionário, acusado de pedofilia e de utilizar jovens menores numa rede de prostituição de luxo, tendo mesmo comprado para isso uma ilha, onde promovia festas com presença de milionários e políticos. Denunciado por proxenetismo e pedofilia, Epstein teria se suicidado na prisão aos 66 anos, embora exista o rumor de ter sido assassinado para não comprometer gente importante. Trump havia prometido, na campanha eleitoral, revelar os nomes de todos os clientes de Epstein.

Trump entrou com uma queixa por difamação contra o jornal, alegando não saber desenhar, pedindo uma enorme fortuna como indenização moral. Entretanto, a imprensa lembra de ter havido muitos desenhos de Trump vendidos, no começo deste século, chegando mesmo a serem vendidos por alto preço em leilão pelo Sotheby, quando se tornou conhecido como político. Trump mente, mas para não ser desmentido precisa controlar a grande imprensa ou coagir e ameaçar quem puder contar a verdade.

Outra possibilidade é a de provocar novos escândalos para desviar a atenção dos seus seguidores do caso Epstein. O The Washigton Post conta os malabarismos de Trump para desviar a atenção de seus seguidores tratando da ex-administradora da agência USAID, da equipe de futebol Washington Commanders, de uma antiga conspiração contra ele pela administração do governo Obama e criou mesmo um vídeo fake com a prisão de Obama e anunciou a publicação de centenas de documentos sobre o assassinato do pastor Martin Luther King em 1968.

Trump é especialista em criar novos problemas para desviar a atenção das questões que possam embaraçá-lo. O problema atual é o caso Epstein ter provocado descontentamentos na própria base republicana e entre seus seguidores. Uma espécie de feitiço contra o feiticeiro, pois Trump tinha sempre utilizado o caso Epstein contra os democratas.

Como se não bastasse, anulou as credenciais dos jornalistas do Wall Street Journal para terem acesso ao Air Force One, nas viagens presidenciais. Essa não foi a primeira reação contra a imprensa, em fevereiro, Trump havia proibido à agência Associated Press de entrar no Salão Oval da Casa Branca, onde se realizam as entrevistas presidenciais, por um motivo mais ameno: a agência AP se negou a trocar o nome do Golfo do México para Golfo da América como decidido pelo presidente.

Trump mudou também o sistema de acesso privilegiado ao presidente, já existente há muito anos, elaborado com a participação da Associação dos jornalistas na Casa Branca. Eram os próprios jornalistas que formavam um pool para viagens ou encontros especiais com o presidente, criando uma espécie de rodízio entre os jornalistas das principais agências e jornais.

Depois do atrito com a agência AP, o pool, grupo reduzido de jornalistas na Casa Branca, é escolhido pela administração Trump e passou a incluir os mais vistos influenciadores trumpistas de canais e podcasts.

Tudo leva a crer existir um plano de Trump para modular a imprensa norte-americana, reforçando o risco de um controle gradativo da liberdade de informação.

A ironia é ser esse governo, empenhado em jugular a liberdade de imprensa nos EUA, que tenta intervir e utilizar mesmo de chantagem para impedir o julgamento de um ex-presidente e alguns generais envolvidos numa tentativa de provocar um golpe militar e implantar uma ditadura no Brasil. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Sacanagem e chantagem de Trump contra o Brasil

Você já leu, ouviu ou viu na tv, Trump criou um imposto de 50% para os produtos brasileiros exportados para os americanos, ou seja, o preço desses produtos nos EUA vai custar ainda mais da metade do que custava, isto é, o que custava 10 dólares vai custar 15, o que custava 20 custará 30 e daí por diante

Nos EUA, isso vai atingir em cheio, principalmente o café da manhã, o suco de laranja, a carne e os produtos agrícolas. Mas existem as exportações de petróleo, de ferro, celulose, aço e mesmo de aviões. Para o agronegócio brasileiro vai ser um choque a partir de agosto e essa imposição absurda, antes era da ordem de 10% vai provocar desemprego nessas áreas e perdas entre os empresários nacionais.

Ou seja, muitos imigrantes brasileiros expulsos pela polícia de Trump, não encontrarão emprego nem no Brasil, exceto se os exportadores encontrarem rapidamente países compradores dos produtos brasileiros. Resumindo, vai haver uma crise.

Até agora não existia nenhum problema com os EUA e os Estados Unidos ganham ao comerciar com o Brasil, pois vendem mais do que compram.

Então porque Trump decidiu tratar o Brasil como um inimigo? Por que essa sacanagem? Porque o babaca do filho do Bolsonaro, Eduardo, faz nos EUA, junto com mais três bandidos – o Alan dos Santos, Paulo Figueiredo neto do antigo ditador, e Rodrigo Constantino, uma campanha contra o Brasil, com a finalidade de evitar o processo e a prisão de Bolsonaro com sua anistia.

E acabaram convencendo o Trump de que existe no Brasil uma ditadura perseguindo o coitado do Bolsonaro.

Trump enviou uma carta desrespeitosa a Lula, praticamente exigindo com o tarifaço, a anulação do processo contra Bolsonaro.

E você, o que acha?

Os chamados patriotas estão comemorando essa intromissão do gringo Trump na Justiça brasileira, os líderes bolsonaristas na Câmara e Senado babam de alegria, mais um pouco baixando mastro nossa bandeira verde amarela, que usam como trapo para enrolar no corpo, e hasteiam a bandeira norte-americana.

Até o governador de São Paulo, Estado que mais vai sofrer com o tarifaço, evita criticar Trump mas coloca a culpa em Lula. Uma atitude tão rasteira que o crítico do Uol qualificou de preferir ser vassalo do Trump. Tarcísio que será candidato a presidente, já deu a nota – se fosse eleito, vai ser vassalo obediente ao Trump.

O que você acha disso?

Essa gente que vive de verde e amarelo agora aplaude uma espécie de invasão, uma ameaça às nossas instituições judiciárias, um ataque à nossa economia com o tarifaço? Um ataque à nossa soberania?  Não acha que nos envergonham, que são uns traidores e entreguistas? Uns canalhas que não querem taxar os ricos e apoiam a taxação do Brasil pelos EUA que irá repercutir na vida da população trabalhadora brasileira!

O que acha do Tarcísio e desses evangélicos que continuam achando ser Trump o enviado de Deus! Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Portugal - Defesa ou desenvolvimento?

Os 2% do PIB em Defesa correspondem a cerca de um quarto da totalidade das verbas do PRR. O PRR, sim, é um instrumento de desenvolvimento

Num país como Portugal, onde as dificuldades estruturais são profundas e persistentes, o investimento de 2% do PIB em Defesa levanta dúvidas morais e económicas incontornáveis. É muito difícil conceber que este seja o melhor uso dos nossos limitados recursos.

A aposta no armamento, por mais necessário ou até inevitável que possa parecer no plano geoestratégico, hipoteca o verdadeiro desenvolvimento do país. É ilusório pensar que este tipo de investimento trará um retorno multiplicador sustentável. A indústria militar, assente numa lógica de destruição, não gera inovação com impacto duradouro na produtividade, na coesão social ou na competitividade do país. O seu efeito resume-se, no curto prazo, à criação de emprego e a um aquecimento relativo da economia. Nada mais. Grande parte dos recursos aplicados na Defesa não geram utilidade prática na vida das pessoas. Ampliar a dimensão industrial do país e as oportunidades de negócio a partir de produção que ocorre para explodir ou destruir não gera, decerto, efeito multiplicador sustentável.

Para termos uma noção do desvio, basta perceber que os 2% do PIB em Defesa correspondem a cerca de um quarto da totalidade das verbas do PRR. O PRR, sim, é um instrumento de desenvolvimento.

Em junho, haverá uma nova cimeira da NATO. Se subirmos os números para 3,5% ou 5%, então estarmos a falar de metade ou dois terços das verbas do PRR alocadas a Portugal. E, no entanto, com referência a 2023, Portugal ocupa o último lugar da Europa no ranking do investimento público em 10 anos. É um quadro que nos devia embaraçar.

Durante anos, sacrificámos o investimento público em nome da consolidação orçamental. Agora, estranhamente, as novas metas militares poderão vir a abrir exceções a essa contenção. Segundo o Conselho de Finanças Públicas, o esforço acrescido com a Defesa agravará o rácio da dívida pública entre 2026 e 2029, ano após ano. É o oposto do que recomendava a Comissão Europeia, que previa para Portugal uma das maiores reduções da dívida da Zona Euro, precisamente à custa do desinvestimento.

Este nível de esforço não era sequer estritamente obrigatório. Mesmo assim, preferimos as contas certas à reconstrução do país. Agora, optamos pela Defesa como exceção à regra, mas sem cuidar das infraestruturas de que a economia precisa para crescer.

O que vemos, na prática, é o país a falhar consecutivamente em matérias centrais para o seu desenvolvimento. O investimento líquido das administrações públicas tem sido negativo ano após ano. O stock de capital continua a deteriorar-se. Em 2023, o investimento público ficou 26% abaixo do previsto no OE2023. Em 2024, o desvio foi de 17,5%. Tudo isto compromete a função produtiva da economia. Estamos muito aquém do nível necessário de manutenção ou ampliação de ferrovias, hospitais, escolas, aeroportos, entre outros. Vai ficando tudo fica para depois.

Mais grave ainda, hipotecámos a aplicação correta do PRR, por falta de trabalhadores na construção civil. Agora, com o desvio de recursos para a Defesa, acentuaremos esse défice. A escassez de mão de obra e de capital público aponta para um resultado em que o país se torna cada vez menos competitivo e atrativo para o investimento estrangeiro. E o investimento direto estrangeiro é absolutamente indispensável para Portugal.

A escolha é moral. Os portugueses vivem com dificuldades e num país economicamente débil. Neste momento da sua História, Portugal parece ser obrigado a escolher canhões em vez de pontes. João Santos – Portugal in “Sapo”

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João Rodrigues dos Santos - Professor Associado e Coordenador da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia