A Folha de São Paulo tem um
pioneirismo: foi o primeiro grande jornal brasileiro a enviar uma
correspondente ao Irão, logo depois dos ataques dos Estados Unidos e Israel.
Trata-se da colega Patrícia Campos Mello, repórter especial, que ficou 12 dias
no Irão.
Essa reportagem foi importante por levar aos leitores da
Folha uma visão neutra, jornalística, de um país sobre o qual se criaram mitos,
existindo muita curiosidade sobre a real situação das mulheres e sobre a
estrutura política de governança no país. A atual guerra dos EUA e Israel
contra o Irão tem dificultado uma fria avaliação do país entre os progressistas
brasileiros, mesmo porque o Irão faz parte do Brics e se inclui entre os países
antiimperialistas ou antiocidentais, embora muito diferenciados, do Sul Global.
Nem todos puderam ler a série de reportagens publicada
pela Folha, mas o Uol ao convidar Patrícia para uma
entrevista, um tanto curta, permitiu se fazer uma ideia resumida do Irão e sua
estrutura político-religiosa. E, ao mesmo tempo, com base nos comentários e
críticas publicados online, pode-se ter uma ideia de como o público ia
reagindo no decorrer da entrevista.
Até agora, certos canais e redes sociais vinham
favorecendo a ideia de uma república iraniana com eleições e minimizando a
questão da situação das mulheres em termos de direitos humanos, realçando ser
um país onde as mulheres são bem escolarizadas e ocupam posições importantes
nas estruturas do país. A ideia de ser uma teocracia, para não dizer ditadura
religiosa, e de ter um ditador com amplos poderes é sempre descartada mesmo nos
canais de esquerda.
Uma exceção foi a entrevista, no canal Opera Mundi, de Breno Altman com a
historiadora e escritora Arlene Clemesha, na qual se fica sabendo que, o 12.
imã xiita iraniano, infalível e escolhido por Deus, foi substituído pelo
aiatolá Líder Supremo, numa teocracia fundamentalista patriarcal, na qual as
mulheres são secundárias e não chegam aos postos de comando.
Nem todos os comentários elogiaram ou aprenderam com as
informações trazidas do Irão por Patrícia, principalmente quando ela acentuou
ser "um governo que oprime as mulheres" ou quando lembrou ter havido,
em 2022, uma revolta principalmente feminina depois da morte da jovem curda
iraniana Mhasa Amini, por não usar o hijab ou o véu cobrindo os cabelos. "Não
é super-tranquilo ser mulher no Irão, existem muitas leis, como no divórcio, que
são repressivas".
O lado positivo de ser mulher, para Patrícia durante sua
reportagem, foi uma maior facilidade para ter acesso às mulheres e famílias
locais, nem sempre usando o véu nos cabelos. "Havia muitas restrições para
fazer a reportagem, lá não existe liberdade de imprensa. Há mesmo um jornalista
japonês preso, desde janeiro, por estar cobrindo os protestos contra o
governo". Sabendo haver jornalistas presos, ela tomou a decisão com a
redação da Folha, de só serem publicados os textos mais sensíveis da reportagem
- sobre Internet, censura ao governo, condição das mulheres - quando já
estivesse de volta no Brasil.
"Enquanto eu estava lá, fui alertada por alguns
recados recebidos, que me deixaram preocupada, pois não estava acostumada com
isso, quando publiquei sobre a inflação e a vida difícil das pessoas. Diante
disso é que decidimos segurar os textos mais sensíveis. Eu fiquei com medo, é
um país em guerra e não é um país democrático".
Josias de Souza quis saber se a guerra reforçou o
nacionalismo iraniano. Patrícia acha que sim, "a tentativa de mudança de
regime pelo regime Trump saiu pela culatra. Não há uma pesquisa de opinião, mas
na parcela que apoia o governo, que é grande, toda noite existem manifestações,
principalmente das camadas religiosas. Essas pessoas estão muito mobilizadas, a
guerra incentivou o patriotismo e o nacionalismo.
Existe uma parcela que se opõe ao governo, difícil de
calcular o tamanho, mas eles estão com medo. Ainda que essas pessoas sejam
contra o governo não irão apoiar os EUA e pedir para que venham ajudar".
Continua no Irão a interrupção do acesso à Internet. É o
mais longo bloqueio à Internet, 80 dias, já registrado num país. Rui Martins
– Suíça
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Rui Martins,
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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