As redes familiares e de amizade continuam a desempenhar um papel determinante na integração dos portugueses que se estabelecem no cantão de Zurique, na Suíça. A conclusão é do estudo publicado no capítulo “Os novos migrantes portugueses no cantão de Zurique: integração, redes e experiência vivida” que faz parte da obra “Integração e Regresso na Emigração Portuguesa”, do Observatório da Emigração
A investigação realizada por Maria
Carolina Pinto (emigrante residente em Zurique) indica que a integração é um
processo “não linear” e profundamente influenciado por fatores relacionais,
estruturais e individuais. O estudo conclui que o apoio de familiares e amigos
é decisivo, sobretudo nos primeiros tempos, ajudando os emigrantes a encontrar
habitação, emprego, a ultrapassar barreiras administrativas e linguísticas e a
adaptar-se à nova realidade.
“No contexto suíço, em particular no cantão de Zurique,
as redes migratórias revelam-se determinantes na instalação dos migrantes
portugueses. Atuam como mecanismos de mobilização de recursos, ajudando a
mitigar as dificuldades iniciais. No entanto, a forte presença de redes
intranacionais pode ter efeitos ambivalentes se, por um lado, facilitam a
adaptação nos primeiros tempos, por outro, tendem a restringir o acesso a
contextos de inserção mais amplos e a oportunidades de integração plena”, lê-se
no referido estudo.
Os dados mostram que cerca de 66% dos participantes
viveram inicialmente com familiares ou com o cônjuge quando chegaram ao cantão
de Zurique, enquanto 58% emigraram já com uma oferta de emprego garantida. Além
disso, 80,1% referiram não ter tido dificuldades em encontrar alojamento e
83,7% conseguiram aceder rapidamente ao seguro de saúde obrigatório, fatores
que contribuíram para uma instalação mais estável.
A autora conclui que estas redes informais funcionam como
uma verdadeira estrutura de acolhimento. Para além do apoio emocional,
facilitam o acesso a informação, ao mercado de trabalho e aos serviços
essenciais, assumindo muitas vezes um papel mais relevante do que as próprias
instituições formais.
O estudo baseou-se numa metodologia mista, que combinou
um questionário feito a 361 portugueses residentes no cantão de Zurique com
entrevistas autobiográficas e semiestruturadas, permitindo analisar não só
indicadores objetivos de integração, como o emprego e a habitação, mas também a
forma como os próprios emigrantes avaliam o seu percurso.
Um dos aspetos relevantes da investigação prende-se com o
tipo de apoio considerado mais importante pelos emigrantes no processo de
integração. Os contactos com colegas suíços surgem em primeiro lugar, sendo
considerados importantes ou muito importantes por 62,1% dos inquiridos,
seguindo-se as redes de familiares e amigos portugueses (60,2%). Já os grupos
de emigrantes nas redes sociais, como o Facebook, são valorizados por 32,3% dos
participantes. Em sentido inverso, as associações portuguesas e as instituições
públicas, tanto portuguesas como suíças, foram percecionadas pela maioria dos
inquiridos como tendo um papel menos relevante no apoio direto ao percurso de
integração.
Outro dado que se destaca é o perfil dos novos emigrantes
portugueses. Mais de metade dos inquiridos (53,5%) possui formação superior,
contrariando a imagem tradicional de uma emigração pouco qualificada. A maioria
tem entre 30 e 39 anos, encontra-se em idade ativa e desenvolve projetos de
permanência de médio e longo prazo na Suíça.
Apesar da avaliação globalmente positiva do processo de
integração, a investigação identifica desafios que persistem. O domínio da
língua alemã, a construção de relações de proximidade com a sociedade de
acolhimento e alguns sentimentos de distância simbólica continuam a marcar a
experiência de muitos portugueses residentes em Zurique.
Segundo a autora, a integração deve ser entendida como um
processo dinâmico e multidimensional, que não depende apenas do esforço
individual dos emigrantes, mas também das políticas públicas, das instituições
e das redes de apoio existentes na sociedade de acolhimento.
A obra “Integração e Regresso na Emigração Portuguesa” é
o segundo volume da coleção “Estado da Emigração” e apresenta sínteses de
resultados de cinco teses de doutoramento recentes, efetuadas entre 2018 e
2023, centrando-se em duas dimensões fundamentais da experiência migratória: a
integração nos países de destino e o regresso a Portugal. In “Bom dia
Europa” - Luxemburgo
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