Arqueólogos da Fundação Côa Parque puseram a descoberto novas gravuras do período Solutrense, com mais de 23.000 anos, no sítio do Fariseu, que abrem uma nova janela de investigação no Vale do Côa, disse um dos investigadores
O período Solutrense corresponde a um
estágio cultural do Paleolítico superior, característico da Europa Ocidental,
nomeadamente da Península Ibérica, aproximadamente situado entre os 20.000 anos a.C. e os 15.000 a.C..
Em declarações à agência Lusa, o coordenador científico
da Fundação Côa Parque, Thierry Aubry, explicou que as novas descobertas foram
feitas na chamada “Rocha 9” do Sítio do Fariseu, no Parque Arqueológico do Vale
do Côa, onde o trabalho começou em 2020 e onde foi descoberto o maior auroque
do mundo picotado no xisto há mais de 23.000 anos e que dão continuidade artística a este painel em
xisto do Paleolítico Superior.
“Após descoberta do maior auroque do mundo em 2020, houve
uma acumulação de sedimentos devido às cheias no rio [Côa], ao longo dos
últimos seis anos, e agora, com novos trabalhos de prospeção arqueológica,
foram colocadas a descoberto novas gravuras que representam bois, vitelos,
cervas, cavalos, cabras, entre outros, que ainda não estão totalmente
identificados, correspondentes à época do Solutrense”, indicou o também
arqueólogo.
Nem o calor intenso que se faz sentir no Vale do Côa
demoveu os investigadores de fazer estas novas descobertas, nesta rocha que
fica a cerca de 50 metros do rio Côa, “um dos locais mais fascinantes deste
sítio arqueológico devido ao seu potencial pré-histórico e científico”.
“Decidimos remover todos os sedimentos que se acumularam
em torno desta rocha, para manter a integralidade dos motivos gravados. Não se
pode correr o risco de se perderem, em caso de outras cheias. E assim
apareceram novas gravuras que estavam por baixo da camada de terra, que de
imediato despertaram a atenção”, explicou Thierry Aubry.
Os arqueólogos descobriram duas novas gravuras completas
e algumas que ainda é preciso estudar, elevando para 40 o número de gravações
na chamada “Rocha 9″ do Sítio do Fariseu, a qual tem cerca de 10 metros de
comprimento.
O Sítio do Fariseu é um dos núcleos de arte rupestre mais
singular e importantes no Vale do Côa, na região de Vila Nova de Foz Côa, no
distrito da Guarda, e ficou “mundialmente famoso” pela descoberta, em 2020, de
uma enorme gravura paleolítica com cerca de 23.000 anos e 3,5 metros de comprimento, que
representa um auroque (boi selvagem).
A chamada “Rocha 09” do Fariseu representa um dos
principais núcleos de arte rupestre no Parque Arqueológico do Vale do Côa,
classificado como Monumento Nacional, e inscrito na Lista do Património Mundial
da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
Segundo Thierry Aubry, há neste momento capacidade para
se afirmar que há uma homogeneidade estilística, porque havia dúvidas antes da
remoção de sedimentos. A nova descoberta mostra uma cena do quotidiano dos
grandes bovinos no Vale do Côa, há 23.000 anos, o que o arqueólogo classificou como “muito
interessante”.
“Neste momento podemos ver uma associação entre um
auroque fêmea e uma jovem cria repetidas várias vezes na mesma rocha. Há também
argumentos do ponto de vista técnico, onde, ao que parece, foi utilizado o
mesmo tipo de ferramenta para fazer estas novas gravuras”, descreveu o
investigador.
Para o arqueólogo, este local é um dos quatro abertos a
visitas e, devido às semelhanças e técnicas utilizadas, é mais fácil mostrar ao
público todas as cenas da fauna selvagem picotadas neste painel.
“Aqui encontramos utensílios utilizados para fazer as
gravações na rocha de xisto, mas não encontramos vestígios de ocupação nesta
fase do Solutrense e que está fora da área do acampamento”, explicou.
Para já, no âmbito de uma tese de doutoramento em curso,
estão a ser investigadas as camadas geológicas próximas deste local, a 50
metros do rio Côa, o que permitirá desenvolver novas sondagens.
“A grande limitação em termos de prolongamento das
sondagens são as cheias que acontecem ciclicamente no rio Côa devido às
descargas na barragem do Pocinho, e só com a remoção das duas ensecadeiras do
Côa, que ficaram após o abandono da construção da barragem, se pode seguir em
frente”, sublinhou Thierry Aubry.
Por seu lado, o presidente da Fundação Côa Parque, João
Paulo Sousa, disse que este ano já foram descobertas 60 novas gravuras
rupestres, no Parque Arqueológico.
“Passados 30 anos da sua classificação, o Vale do Côa
continua a surpreender pelas suas novas descobertas e uma história que continua
a ser narrada através da investigação e de parcerias que a Fundação tem vindo a
desenvolver. Quanto mais dedicação dermos ao Côa, mais descobertas teremos”,
afirmou o responsável.
Quando da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa,
em agosto de 1996, foram identificadas 190 rochas com arte rupestre.
Atualmente, e segundo o presidente da Fundação Côa
Parque, há 1600 rochas identificadas, repartidas por 104 sítios arqueológicos,
num total de mais de 15.650
motivos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há cerca de
30 mil anos, num ciclo artístico de arte rupestre que nunca foi interrompido.
A Arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em
1997 e, em 1998, como Património Mundial pela UNESCO.
Como uma imensa galeria ao ar livre, o Parque
Arqueológico do Vale do Côa ocupa 20 mil hectares de terreno que estão
distribuídos pelos concelhos Vila Nova de Foz Côa, Mêda, Pinhel e Figueira de
Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda, a que se junta o concelho de Torre de
Moncorvo, no distrito de Bragança, com manifestações de arte rupestre. In “Bom dia
Europa” – Luxemburgo com “Lusa”
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