Na atmosfera acalorada do salão de reuniões de Saint-Denis, em Seine-Saint-Denis, Jean-Luc Mélenchon optou, no domingo, 7 de junho de 2026, por não falar primeiramente sobre o poder de compra ou pensões, mas sim sobre a questão mais explosiva que a República Francesa enfrenta: a sua arquitetura institucional e o destino dos territórios localizados nas fronteiras da França continental. Para o líder do partido La France Insoumise, candidato declarado à eleição presidencial de 2027, o tempo dos ajustes tímidos acabou. Trata-se de uma ruptura com o passado, que ele abraça integralmente.
Falando para uma plateia receptiva, Mélenchon traçou uma
linha clara: a Nova Caledónia caminharia "rumo à independência" sob
uma presidência rebelde; a Córsega seria apoiada "rumo à autonomia
ampliada que o seu povo exige"; quanto às Antilhas, Guiana Francesa e
Reunião, não haveria "tabus" em relação à autonomia, com a
perspectiva de um "direito pleno à autonomia" quando as populações
envolvidas o desejassem e no ritmo que escolhessem.
Isto é mais do que uma promessa eleitoral. É um ataque
frontal ao modelo jacobino, ao centralismo herdado da Revolução que, durante
tanto tempo, fez de Paris o coração pulsante e único de uma República "una
e indivisível". Ao colocar a descolonização inacabada e o direito dos
povos à autodeterminação no centro do seu discurso, Mélenchon reposiciona a
França Insubmissa como herdeira de uma esquerda radical, pós-colonial e
pluralista.
Um cálculo político e uma convicção
A escolha de Saint-Denis não é insignificante. Esta
cidade, símbolo da diversidade francesa, onde descendentes de imigrantes dos
territórios ultramarinos e da França continental convivem, permite a Mélenchon
consolidar um eleitorado popular e ultramarino, muitas vezes negligenciado.
Mas, para além da tática, o discurso revela uma mudança doutrinária. O político
inflamado, que durante muito tempo defendeu a unidade republicana, criticando
as suas tendências neocoloniais, abraça agora abertamente uma visão confederal
ou diferenciada da República.
Para a Nova Caledónia, ainda marcada pelos Acordos de
Matignon e Nouméa e pela violência recente, a promessa é direta. Para a
Córsega, faz parte de um diálogo contínuo com os nacionalistas. Para os
departamentos e regiões ultramarinos (DROM), a formulação permanece cautelosa —
condicionada à vontade popular —, mas abre a caixa de Pandora institucional que
sucessivos governos, tanto de direita quanto de esquerda, sempre fecharam com
firmeza.
Casamansa: um espelho inesperado
Como jornalista da Casamansa, que há décadas observa as
convulsões da política francesa que muitas vezes influenciam indiretamente a
dinâmica africana, este discurso ressoa com particular força. A Casamansa, este
território verdejante, outrora autónomo durante a colonização portuguesa e
francesa, carrega as cicatrizes de um conflito de independência com o Estado
senegalês há mais de quarenta anos. O Movimento das Forças Democráticas da
Casamansa (MFDC) forjou a sua luta em torno de queixas históricas: o processo
de descolonização, a marginalização económica, a exploração dos recursos
naturais e a integração forçada num Estado-nação de estilo jacobino, modelado
em parte no sistema francês.
Ver um dos principais candidatos da esquerda francesa, o
herdeiro intelectual do pensamento universalista, reconhecer explicitamente o
"direito à autonomia" e até mesmo à independência de povos insulares
ou remotos não pode deixar ninguém indiferente. É claro que os contextos são
diferentes: a França é uma potência democrática pós-imperial que luta com o seu
legado colonial; o Senegal é um jovem Estado soberano, ansioso por preservar a sua
unidade territorial fragmentada diante do risco de balcanização.
No entanto, os paralelos são impressionantes. O
jacobinismo senegalês, centralizador e por vezes desconfiado das
particularidades culturais e históricas da Casamansa (fulanis, diolas,
mandincas, balantes, diahankeses, etc.), há muito responde com repressão,
promessas não cumpridas e uma descentralização superficial. Os sucessivos
acordos de paz permaneceram letra morta, mas a questão do estatuto específico da
Casamansa permanece sem solução, como uma ferida que não cicatrizou
completamente.
O discurso de Mélenchon, por extensão, levanta uma
questão incómoda para os líderes africanos: se até mesmo para a França, a
histórica guardiã do centralismo, é forçada a evoluir sob a pressão das suas
populações ultramarinas, por quanto tempo os estados pós-coloniais poderão
ignorar as legítimas aspirações por um maior controlo local sobre os recursos,
a cultura e as instituições?
Reações e armadilhas
Na França, essa declaração forçará os outros candidatos a
posicionarem-se. A direita e o centro a verão como uma ameaça à unidade
nacional; Emmanuel Macron ou os seus potenciais sucessores serão acusados de
fraqueza se não responderem com firmeza. Em Reunião e Martinica, onde a
autonomia tem raízes, mas a independência ainda é uma visão minoritária, o
debate corre o risco de se polarizar violentamente.
Para Mélenchon, a aposta é arriscada: consolida a sua
base ativista, mas pode assustar uma parcela do eleitorado francês apegada à
ideia de uma República indivisível. Ele também está a explorar questões
históricas, lembrando aos eleitores que a descolonização não estará completa
até 2026.
Na Casamansa, onde os acontecimentos na França são
acompanhados com uma mistura de esperança e ceticismo, este encontro serve como
um lembrete de que as grandes potências não mudam por filantropia, mas sob a
pressão combinada das urnas, da opinião pública e da história. A busca de
Casamansa por uma paz justa, baseada na verdade histórica e no reconhecimento do
seu caráter único, não deve nada esperar diretamente de Paris. Mas pode
encontrar ali um incentivo intelectual: o direito dos povos à autodeterminação
não é mais apenas um slogan terceiro-mundista dos anos 1960. Está-se a tornar,
ainda que timidamente, um tema de debate no coração da metrópole.
Resta saber se Jean-Luc Mélenchon, caso chegue ao poder,
traduzirá essas palavras em ações. O histórico de promessas eleitorais
relativas aos territórios ultramarinos franceses sugere cautela. Mas a mensagem
foi transmitida: a França pluralista que ele idealiza não pode mais ignorar as
vozes vindas das ilhas, das florestas equatoriais… e, por extensão, dos
arrozais da Casamansa. Abdou Diallo – Casamansa in “Le
Journal du Pays”
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