Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Irão - A ingenuidade de Tom Altman no Opera Mundi

 

Um dos traços principais do jornalista é a curiosidade. ele sempre quer saber o que há por detrás da porta. Felizmente, porque assim são expostas situações nem sempre muito claras, facilitando ao público a formação de sua opinião. O curioso remexe nas estantes de livros, levanta panos, abre gavetas, desce até o porão ou sobe ao sótão ou, mais moderno, vai ao Google, aciona IA, até encontrar a ponta de alguma coisa que lhe intriga, por mera curiosidade...

Vez ou outra, nós jornalistas somos convidados a uma inauguração, ao lançamento de uma peça teatral, a um festival de cinema, a uma exposição de pinturas, sem custos de nossa parte, com a única obrigação de escrevermos ou falarmos a respeito na nossa mídia. A favor ou contra? tanto faz, o objetivo é falar a respeito, elogios ou críticas são bem-vindos.

Mas nem sempre é assim. Quando envolve um investimento, uma atração ou o lançamento de um investimento turístico, espera-se do jornalista convidado um certo envolvimento. Aceita o convite quem quiser. Porém, o convite pode estar inserido numa campanha publicitária a ser lançada pelo jornal, tevê ou canal. Neste caso, o jornalista obedece ao editor.

Entretanto, quando o convite envolve um país com interesse político na formação de sua imagem internacional, esperam-se reportagens favoráveis. Mesmo porque o convidado partilha das mesmas ideias.

Por que toda essa introdução?

Porque fiquei muito curioso com a viagem de alguns jornalistas brasileiros ao Irão para cobrir o funeral do aiatolá Ali Khamenei, num momento em que tais viagens são praticamente impossíveis, fora o risco do jornalista viajante ser preso como espião.

Exceto se tais viagens fossem organizadas pelo próprio Irão. E foi assim que ocorreu: um pequeno grupo de jornalistas brasileiros - três pelo menos, Tom Altman, Stefani Costa e Leila Salim - foi levado ao Irão e ali permaneceu por uma semana.

Tomei conhecimento pelo anúncio do canal

Opera Mundi - O funeral do aiatolá Ali Khamenei, com Breno Altman entrevistando Tom Altman. Como o jovem Tom não contou quem organizou a viagem e nem Breno perguntou, dei uma procurada e fiquei sabendo ter sido o Canal Notícias Arresala, Vozes do Sul Global, ativo no Instagram, dedicado a cobrir temas de política, economia, sociedade e cultura para as comunidades islâmicas, com foco no Líbano e geopolítica do Oriente Médio. Faz parte do Centro Islâmico no Brasil com sede em São Paulo.

Curioso, ouvi o longo relato de viagem do jovem Tom Altman sobre o Irão, me chamando a atenção seu entusiasmo pelos iranianos, todos nacionalistas unidos contra o agressor norte-americano, e afirmando haver mesmo iranianos da diáspora retornando ao país para participar de uma resistência. Tom desmente ter havido qualquer tipo de pressão sobre a população iraniana para ir ao enterro e acompanhar seu trajeto.

Para ele 90% da população iraniana é devota, estava no enterro por religiosidade sem serem obrigados a isso. Havia, sim ódio e raiva daquele pessoal contra os EUA e Israel. E cartazes diziam: vamos matar o Trump e o Netanyahu, inclusive carregados por crianças. É um povo sem medo. Bem politizados querem primeiro defender o país para depois resolver os problemas internos.

Para Tom, as Faculdades iranianas são muito boas e 60% dos alunos são mulheres - uma conclusão um tanto apressada para quem ficou apenas sete dias. Ele também afirma que as pessoas vivem bem, poucos pobres e poucos ricos, a maioria é classe média. O Irão, segundo Tom, vive uma vida normalizada.

Ele acha haver no Irão uma democracia evidente, com eleições, mesmo se o aiatolá tem a última palavra. Para Tom, ninguém tem medo da Guarda Revolucionária, não se sabe no que se baseia. Nacionalistas, estão lá para defender o país, nem que a população seja sacrificada. O islamismo é uma religião revolucionária e coletiva. O Irão é um país bom de se viver. Não tem ninguém pedindo dinheiro nas ruas. Ele nega que tenha havido tantos assassinatos nas recentes manifestações, isso foi inventado ou exagerado. Eles se manifestam mas não para derrubar o governo.

Tom mostra ingenuidade ao aceitar as explicações do governo iraniano e recusar ter havido mais de mil mortos na repressão da Guarda Revolucionária aos manifestantes. Nem havia controle das entrevistas que fazia... diz ele.

"Temos de ser justos, é uma sociedade conservadora, na qual há códigos de vestimentos, das funções dos homens e mulheres na sociedade, certos trabalhos que cabem às mulheres e aos homens. As mulheres devem ser médicas, professoras, etc. mas há mulheres, embora em número reduzido no parlamento. Há trabalhos só para mulheres e trabalho só para homens e para ambos. As mulheres são por mudanças mas sem intervenção externa.

E vai por aí, depois de mais de uma hora, acabei frustrado por não ter ouvido nada sobre os grandes problemas da ditadura teocrática iraniana, a violência contra as manifestações do movimento feminino Mulher, Vida e Liberdade pela paridade e igualdade com os homens e por mais liberdade dentro da família.

Embora Tom Altman tenha se entusiasmado com o Irão, num canal respeitado de esquerda, ficaram de fora questões importantes levantadas em tantos filmes iranianos, premiados em Cannes, Berlim ou Locarno, dirigidos por cineastas como Jafar Panahi, Mahammadi Rasoulof (que fugiu do Irão para não ser preso), Mehdi Mahmoudian, Mostafa Al-Ahmad, e outros.

Não podem ser esquecidos os crimes cometidos pelo Líder Supremo, falecido, e sua Guarda Revolucionária, os enforcamentos matinais de jovens por terem se manifestado contra o regime, a morte da jovem Amina Mahsi por não ter colocado direito o véu cobrindo os cabelos, assim como a prisão da líder feminina Narges Mohammadi, prêmio Nobel em 2023 por ter lutado pelos direitos humanos e denunciado a opressão contra as mulheres no Irão.

E são verdadeiras as denúncias de recentes massacres, em diversas cidades iranianas, de manifestantes contra a situação econômica no Irão.

Tanto Anistia Internacional como Mediapart ou Reporters sans Frontières condenam a ditadura teocrática iraniana, cujos crimes já eram cometidos antes mesmo dos ataques dos EUA e Israel. Seguem, em primeiro lugar, alguns links das publicações condenando o Irão. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins - Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


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