Um dos traços principais do jornalista
é a curiosidade. ele sempre quer saber o que há por detrás da porta.
Felizmente, porque assim são expostas situações nem sempre muito claras,
facilitando ao público a formação de sua opinião. O curioso remexe nas estantes
de livros, levanta panos, abre gavetas, desce até o porão ou sobe ao sótão ou,
mais moderno, vai ao Google, aciona IA, até encontrar a ponta de alguma coisa
que lhe intriga, por mera curiosidade...
Vez ou outra, nós jornalistas somos convidados a uma
inauguração, ao lançamento de uma peça teatral, a um festival de cinema, a uma
exposição de pinturas, sem custos de nossa parte, com a única obrigação de
escrevermos ou falarmos a respeito na nossa mídia. A favor ou contra? tanto
faz, o objetivo é falar a respeito, elogios ou críticas são bem-vindos.
Mas nem sempre é assim. Quando envolve um investimento,
uma atração ou o lançamento de um investimento turístico, espera-se do
jornalista convidado um certo envolvimento. Aceita o convite quem quiser.
Porém, o convite pode estar inserido numa campanha publicitária a ser lançada
pelo jornal, tevê ou canal. Neste caso, o jornalista obedece ao editor.
Entretanto, quando o convite envolve um país com
interesse político na formação de sua imagem internacional, esperam-se
reportagens favoráveis. Mesmo porque o convidado partilha das mesmas ideias.
Por que toda essa introdução?
Porque fiquei muito curioso com a viagem de alguns
jornalistas brasileiros ao Irão para cobrir o funeral do aiatolá Ali Khamenei,
num momento em que tais viagens são praticamente impossíveis, fora o risco do
jornalista viajante ser preso como espião.
Exceto se tais viagens fossem organizadas pelo próprio
Irão. E foi assim que ocorreu: um pequeno grupo de jornalistas brasileiros -
três pelo menos, Tom Altman, Stefani Costa e Leila Salim - foi levado ao Irão e
ali permaneceu por uma semana.
Tomei conhecimento pelo anúncio do canal
Opera
Mundi - O funeral do
aiatolá Ali Khamenei, com Breno Altman entrevistando Tom Altman. Como o jovem
Tom não contou quem organizou a viagem e nem Breno perguntou, dei uma procurada
e fiquei sabendo ter sido o Canal Notícias Arresala, Vozes do Sul Global, ativo
no Instagram, dedicado a cobrir temas de política, economia, sociedade e
cultura para as comunidades islâmicas, com foco no Líbano e geopolítica do
Oriente Médio. Faz parte do Centro Islâmico no Brasil com sede em São Paulo.
Curioso, ouvi o longo relato de viagem do jovem Tom
Altman sobre o Irão, me chamando a atenção seu entusiasmo pelos iranianos,
todos nacionalistas unidos contra o agressor norte-americano, e afirmando haver
mesmo iranianos da diáspora retornando ao país para participar de uma
resistência. Tom desmente ter havido qualquer tipo de pressão sobre a população
iraniana para ir ao enterro e acompanhar seu trajeto.
Para ele 90% da população iraniana é devota, estava no
enterro por religiosidade sem serem obrigados a isso. Havia, sim ódio e raiva
daquele pessoal contra os EUA e Israel. E cartazes diziam: vamos matar o Trump
e o Netanyahu, inclusive carregados por crianças. É um povo sem medo. Bem
politizados querem primeiro defender o país para depois resolver os problemas
internos.
Para Tom, as Faculdades iranianas são muito boas e 60%
dos alunos são mulheres - uma conclusão um tanto apressada para quem ficou
apenas sete dias. Ele também afirma que as pessoas vivem bem, poucos pobres e
poucos ricos, a maioria é classe média. O Irão, segundo Tom, vive uma vida
normalizada.
Ele acha haver no Irão uma democracia evidente, com
eleições, mesmo se o aiatolá tem a última palavra. Para Tom, ninguém tem medo
da Guarda Revolucionária, não se sabe no que se baseia. Nacionalistas, estão lá
para defender o país, nem que a população seja sacrificada. O islamismo é uma
religião revolucionária e coletiva. O Irão é um país bom de se viver. Não tem
ninguém pedindo dinheiro nas ruas. Ele nega que tenha havido tantos
assassinatos nas recentes manifestações, isso foi inventado ou exagerado. Eles
se manifestam mas não para derrubar o governo.
Tom mostra ingenuidade ao aceitar as explicações do
governo iraniano e recusar ter havido mais de mil mortos na repressão da Guarda
Revolucionária aos manifestantes. Nem havia controle das entrevistas que
fazia... diz ele.
"Temos de ser justos, é uma sociedade conservadora,
na qual há códigos de vestimentos, das funções dos homens e mulheres na
sociedade, certos trabalhos que cabem às mulheres e aos homens. As mulheres
devem ser médicas, professoras, etc. mas há mulheres, embora em número reduzido
no parlamento. Há trabalhos só para mulheres e trabalho só para homens e para
ambos. As mulheres são por mudanças mas sem intervenção externa.
E vai por aí, depois de mais de uma hora, acabei
frustrado por não ter ouvido nada sobre os grandes problemas da ditadura
teocrática iraniana, a violência contra as manifestações do movimento feminino
Mulher, Vida e Liberdade pela paridade e igualdade com os homens e por mais
liberdade dentro da família.
Embora Tom Altman tenha se entusiasmado com o Irão, num
canal respeitado de esquerda, ficaram de fora questões importantes levantadas
em tantos filmes iranianos, premiados em Cannes, Berlim ou Locarno, dirigidos
por cineastas como Jafar Panahi, Mahammadi Rasoulof (que fugiu do Irão para não
ser preso), Mehdi Mahmoudian, Mostafa Al-Ahmad, e outros.
Não podem ser esquecidos os crimes cometidos pelo Líder
Supremo, falecido, e sua Guarda Revolucionária, os enforcamentos matinais de
jovens por terem se manifestado contra o regime, a morte da jovem Amina Mahsi
por não ter colocado direito o véu cobrindo os cabelos, assim como a prisão da
líder feminina Narges Mohammadi, prêmio Nobel em 2023 por ter lutado pelos
direitos humanos e denunciado a opressão contra as mulheres no Irão.
E são verdadeiras as denúncias de recentes massacres, em
diversas cidades iranianas, de manifestantes contra a situação econômica no Irão.
Tanto Anistia Internacional como Mediapart ou Reporters sans Frontières condenam
a ditadura teocrática iraniana, cujos crimes já eram cometidos antes mesmo dos
ataques dos EUA e Israel. Seguem, em primeiro lugar, alguns links das
publicações condenando o Irão. Rui Martins – Suíça
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Rui Martins -
Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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