Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Brasil - Golpe, invasão e roubo de nossas terras raras

Infelizmente não tenho bola de cristal e não posso prever o futuro, mas, com base em certas evidências, podemos imaginar certos riscos próximos à democracia e à soberania brasileiras. A existência desses riscos decorre da tolerância mantida com relação a certos políticos dispostos a traírem o país em favor dos Estados Unidos e aceitarem desempenhar funções de lacaios, em troca de terem apoio para instaurar uma ditadura familiar, uma dinastia, e assim desfrutarem do poder.

Ainda recentemente, o candidato Flávio Bolsonaro confirmou sua vocação golpista ao afirmar que libertará imediatamente seu pai, preso por tentativa de golpe, e reagirá contra o STF se seus ministros quiserem impedir essa libertação em nome de inconstitucionalidade.

Faz alguns dias, afirmou com seu sorriso cínico, que seu pai subirá com ele a rampa do Planalto na posse como presidente.

Diante dessa declaração, o jornalista e crítico político Reinaldo Azevedo disse, no canal Metrópoles, querer ter mais detalhes. Como seu pai poderá subir a rampa sem ter sido libertado e como Flávio poderá libertar seu pai antes de ser empossado? Ora, só depois de eleito Flávio poderia decretar o indulto e, mesmo assim, teria de esperar a reação do STF! Ou Flávio estaria programando um golpe logo depois das eleições, ou mais precisamente, logo depois de sua derrota nas eleições?

E outra: num encontro para o qual foram convidados embaixadores e representantes de diversos países, Flávio Bolsonaro veio com a velha história de urnas não seguras, defendida pelo pai e que lhe custou a inelegibilidade: a de que a Smartmatic, empresa venezuelana fabricante das urnas eletrônicas, não garante invulnerabilidade. Por que teria repetido o mesmo argumento já desmentido? Sua expectativa é a de que o Tribunal Superior Eleitoral, agora dirigido pelo ministro Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, aceite a história das urnas não seguras e crie um caos logo após a apuração, na hipótese mais provável de ser derrotado?

São três narrativas golpistas ou mesmo três projetos golpistas fadados ao fracasso, piores e menos consistentes que o plano golpista paterno. Mas aqui poderia entrar um apoio inexistente na derrota de Jair Bolsonaro: em lugar de apelar às Forças Armadas como costuma ocorrer nos países sul-americanos, Flávio e seu irmão Eduardo, mais o foragido neto de ditador, Paulo Figueiredo estariam negociando uma intervenção norte-americana no Brasil, a pretexto a priori de ter havido eleições fraudulentas, tema preferido do presidente Donald Trump. Um golpe rápido capaz de impedir reações e evitar uma guerra civil, perto do modelo aplicado na Venezuela. Para isso contariam com o apoio dos Estados governados por bolsonaristas e suas estruturas policiais e militares. O apoio de São Paulo e Estados sulistas seria decisivo, junto com o apoio religioso evangélico.

Si non è vero è bene trovato, como diria o filósofo Giordano Bruno, queimado pela Inquisição em 1600.

Descrevemos o quadro e os riscos, mas ficaria a pergunta: por que os EUA endossariam a intervenção e apoiariam o golpe?

Razões existem e seria bom ficarmos alertas. A imprensa francesa deu eco aos temores brasileiros do uso da força militar e a Agência France Presse e o jornal Le Figaro não deixaram por menos: "O Brasil se inquieta quanto ao risco dos EUA recorrerem à força militar no seu território, depois que Washington classificou como organizações terroristas dois grupos criminosos brasileiros". Na verdade, essa classificação é pretexto para justificar qualquer intervenção norte-americana no Brasil, mesmo porque, diz o jornal, "a oposição de direita saudou a decisão de Washington".

E por que tanto interesse pelo Brasil?

Antes já havia muitos países de olho nas riquezas da Amazônia. Agora, isso continua, mas reforçado com a cupidez pelas chamadas terras raras. E o jornal suíço Le Temps sintetiza bem essa ganância no título de primeira página - "O Brasil no centro de uma guerra fria econômica entre a China e os Estados Unidos por suas terras raras".

O texto trata do controle da sociedade mineira e de minerais Terra Brasil Minerals pelos EUA e Emirados Árabes com a participação da Inglaterra, Canadá, Austrália e União Europeia para a exploração de terras raras no Brasil, com o objetivo de concorrer com a China, detentora das maiores jazidas dessas terras.

O Brasil possui grandes jazidas mas é um simples exportador dessa matéria-prima, como ocorre com o ferro e a soja. O Brasil sabe extrair mas não tem o controle do processo que permite transformar a rocha em tecnologia e a tecnologia em soberania, comenta o jornal. E dá um exemplo, o lítio bruto exportado por 800 dólares a tonelada é importado, já transformado em hidróxido de lítio, por 8000 dólares.

O Brasil quer ter sua soberania nesse setor, mas a ganância norte-americana por essas terras pode criar mudanças políticas e fazer o Brasil continuar como simples exportador. Isso é o que tramam os chamados patriotas, na verdade traidores da pátria políticos e entreguistas de nossas riquezas. É o limiar de uma luta pela soberania e controle das terras raras como foi a luta da Petrobras pelo petróleo e que os patriotas também querem privatizar. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Final da Copa - de que cor eram os fogos de artifício?

Faz apenas quatro dias, mas já parece longe a Copa do Mundo de futebol. Entretanto, ainda circulam pelas redes sociais algumas imagens reais, outras fakes geradas pela IA e muitas críticas ao comportamento de alguns jogadores argentinos ao final do último jogo vencido pela Espanha.

Parecia mesmo irreal ver o anfitrião Donald Trump ter descido do seu trono para entregar taça e medalhas aos jogadores, ao lado de Gianni Infantino, o suíço todo poderoso dirigente da FIFA. Já eram amigos ou foi a maneira autoritária como dirigem os EUA e a FIFA que os aproximou?

O episódio do cartão vermelho ao jogador Folarin Balogun da seleção norte-americana, anulado por Gianni Infantino a pedido de Trump, foi uma espécie de troca de favores entre dois manda-chuvas. Satisfeito, Trump disse à imprensa apoiar Infantino para deixar a FIFA e ir dirigir a ONU. Não é para se levar a sério esse tipo de proposta, que nem o próprio Infantino aceitaria, pois na FIFA é ele quem manda, enquanto no angú de países da ONU, nem o Guterres manda.

Mas o poder de Infantino na FIFA não é absoluto, tem de respeitar certas restrições. Ao que circulou nas redes sociais europeias como rumores entre comentaristas esportivos, tão criativos e bem informados como os comentaristas políticos, o troféu da Copa do Mundo estaria destinado à Argentina. Seria uma maneira de melhorar o Ibope do presidente Milei, da mesma patota do Trump e Infantino mas com dificuldades junto ao povo, esse eterno insatisfeito.

Isso poderia ser debitado como conversa mole de locutor esportivo, mas assumiu feições de verossímil ao se lançarem e se iluminarem os fogos de artifício em torno do MetLife Stadium.

Imaginem o que devem ter dito os espanhóis da Rioja ao verem surgir as cores azul e branca em lugar do vermelho e amarelo!!! Teria sido um crasso erro dos artífices mestres em colorir os fogos de artifício? Pouco provável, os fogos de artifício se preparam com dias de antecedência, para se ter as cores vermelha e amarela da bandeira espanhola seria preciso juntar compostos metálicos de estrôncio e sódio à pólvora. Mas, em lugar disso, tinham juntado cobre para se ter a cor azul da bandeira argentina.

Essa versão das cores dos fogos de artifício circula como verdadeira, mas o jornal suíço 20 Minutes destrói tudo como uma bela mentira, fake. Na verdade, os fogos teriam sido brancos tendo como fundo o céu azul. Foi uma simples montagem que circulou pelas redes sociais, principalmente Instagram, mostrando ser quase tudo possível com o uso da Inteligência Artificial.

No que se acreditar, no que desconfiar e no que rejeitar como fake?

Em todo caso, são verdadeiras as cenas de confusão e mesmo início de agressões, rapidamente controladas, ao final do jogo, vencido pela Espanha contra a Argentina. Nelas, o jogador argentino Leandro Paredes agride o espanhol Eric Garcia. A FIFA vai investigar e poderá haver punição para a equipe argentina. Também são verdadeiras as cenas mostrando parte da equipe argentina dando as costas para a cerimônia de premiação da equipe espanhola. Rui Martins - Suíça

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Brasil - Morreu Celso Lungaretti, o náufrago da utopia

Morreu o Celso Lungaretti, combatente contra a ditadura militar. Como defini num texto aqui recentemente publicado – Celso personificava o Náufrago da Utopia, seu blog e seu livro. Apesar da distância, éramos amigos e trocávamos textos publicados ou a publicar. Deixo registrada minha tristeza e peço para distribuir para seus amigos jornalistas e companheiros que lutaram e lutam contra as ditaduras.


Celso carregava sequelas das torturas. Uma delas estava nos joelhos. Num último whatsapp, retomando a conversa interrompida, me disse – “caí, querem me levar ao hospital”. Tinha quebrado o fêmur, foi operado, ficou muitos dias mal sem se recuperar. Sentindo que viria o pior, publiquei meu texto em homenagem, que convido para ler ou reler, clicando na ligação. Mais um combatente que se vai… Rui Martins – Suíça

Artigo de Celso Lungaretti publicado no:Observatório da Imprensa

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Rui Martins – Direto da Suiça – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI



 

 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Irão - A ingenuidade de Tom Altman no Opera Mundi

 

Um dos traços principais do jornalista é a curiosidade. ele sempre quer saber o que há por detrás da porta. Felizmente, porque assim são expostas situações nem sempre muito claras, facilitando ao público a formação de sua opinião. O curioso remexe nas estantes de livros, levanta panos, abre gavetas, desce até o porão ou sobe ao sótão ou, mais moderno, vai ao Google, aciona IA, até encontrar a ponta de alguma coisa que lhe intriga, por mera curiosidade...

Vez ou outra, nós jornalistas somos convidados a uma inauguração, ao lançamento de uma peça teatral, a um festival de cinema, a uma exposição de pinturas, sem custos de nossa parte, com a única obrigação de escrevermos ou falarmos a respeito na nossa mídia. A favor ou contra? tanto faz, o objetivo é falar a respeito, elogios ou críticas são bem-vindos.

Mas nem sempre é assim. Quando envolve um investimento, uma atração ou o lançamento de um investimento turístico, espera-se do jornalista convidado um certo envolvimento. Aceita o convite quem quiser. Porém, o convite pode estar inserido numa campanha publicitária a ser lançada pelo jornal, tevê ou canal. Neste caso, o jornalista obedece ao editor.

Entretanto, quando o convite envolve um país com interesse político na formação de sua imagem internacional, esperam-se reportagens favoráveis. Mesmo porque o convidado partilha das mesmas ideias.

Por que toda essa introdução?

Porque fiquei muito curioso com a viagem de alguns jornalistas brasileiros ao Irão para cobrir o funeral do aiatolá Ali Khamenei, num momento em que tais viagens são praticamente impossíveis, fora o risco do jornalista viajante ser preso como espião.

Exceto se tais viagens fossem organizadas pelo próprio Irão. E foi assim que ocorreu: um pequeno grupo de jornalistas brasileiros - três pelo menos, Tom Altman, Stefani Costa e Leila Salim - foi levado ao Irão e ali permaneceu por uma semana.

Tomei conhecimento pelo anúncio do canal

Opera Mundi - O funeral do aiatolá Ali Khamenei, com Breno Altman entrevistando Tom Altman. Como o jovem Tom não contou quem organizou a viagem e nem Breno perguntou, dei uma procurada e fiquei sabendo ter sido o Canal Notícias Arresala, Vozes do Sul Global, ativo no Instagram, dedicado a cobrir temas de política, economia, sociedade e cultura para as comunidades islâmicas, com foco no Líbano e geopolítica do Oriente Médio. Faz parte do Centro Islâmico no Brasil com sede em São Paulo.

Curioso, ouvi o longo relato de viagem do jovem Tom Altman sobre o Irão, me chamando a atenção seu entusiasmo pelos iranianos, todos nacionalistas unidos contra o agressor norte-americano, e afirmando haver mesmo iranianos da diáspora retornando ao país para participar de uma resistência. Tom desmente ter havido qualquer tipo de pressão sobre a população iraniana para ir ao enterro e acompanhar seu trajeto.

Para ele 90% da população iraniana é devota, estava no enterro por religiosidade sem serem obrigados a isso. Havia, sim ódio e raiva daquele pessoal contra os EUA e Israel. E cartazes diziam: vamos matar o Trump e o Netanyahu, inclusive carregados por crianças. É um povo sem medo. Bem politizados querem primeiro defender o país para depois resolver os problemas internos.

Para Tom, as Faculdades iranianas são muito boas e 60% dos alunos são mulheres - uma conclusão um tanto apressada para quem ficou apenas sete dias. Ele também afirma que as pessoas vivem bem, poucos pobres e poucos ricos, a maioria é classe média. O Irão, segundo Tom, vive uma vida normalizada.

Ele acha haver no Irão uma democracia evidente, com eleições, mesmo se o aiatolá tem a última palavra. Para Tom, ninguém tem medo da Guarda Revolucionária, não se sabe no que se baseia. Nacionalistas, estão lá para defender o país, nem que a população seja sacrificada. O islamismo é uma religião revolucionária e coletiva. O Irão é um país bom de se viver. Não tem ninguém pedindo dinheiro nas ruas. Ele nega que tenha havido tantos assassinatos nas recentes manifestações, isso foi inventado ou exagerado. Eles se manifestam mas não para derrubar o governo.

Tom mostra ingenuidade ao aceitar as explicações do governo iraniano e recusar ter havido mais de mil mortos na repressão da Guarda Revolucionária aos manifestantes. Nem havia controle das entrevistas que fazia... diz ele.

"Temos de ser justos, é uma sociedade conservadora, na qual há códigos de vestimentos, das funções dos homens e mulheres na sociedade, certos trabalhos que cabem às mulheres e aos homens. As mulheres devem ser médicas, professoras, etc. mas há mulheres, embora em número reduzido no parlamento. Há trabalhos só para mulheres e trabalho só para homens e para ambos. As mulheres são por mudanças mas sem intervenção externa.

E vai por aí, depois de mais de uma hora, acabei frustrado por não ter ouvido nada sobre os grandes problemas da ditadura teocrática iraniana, a violência contra as manifestações do movimento feminino Mulher, Vida e Liberdade pela paridade e igualdade com os homens e por mais liberdade dentro da família.

Embora Tom Altman tenha se entusiasmado com o Irão, num canal respeitado de esquerda, ficaram de fora questões importantes levantadas em tantos filmes iranianos, premiados em Cannes, Berlim ou Locarno, dirigidos por cineastas como Jafar Panahi, Mahammadi Rasoulof (que fugiu do Irão para não ser preso), Mehdi Mahmoudian, Mostafa Al-Ahmad, e outros.

Não podem ser esquecidos os crimes cometidos pelo Líder Supremo, falecido, e sua Guarda Revolucionária, os enforcamentos matinais de jovens por terem se manifestado contra o regime, a morte da jovem Amina Mahsi por não ter colocado direito o véu cobrindo os cabelos, assim como a prisão da líder feminina Narges Mohammadi, prêmio Nobel em 2023 por ter lutado pelos direitos humanos e denunciado a opressão contra as mulheres no Irão.

E são verdadeiras as denúncias de recentes massacres, em diversas cidades iranianas, de manifestantes contra a situação econômica no Irão.

Tanto Anistia Internacional como Mediapart ou Reporters sans Frontières condenam a ditadura teocrática iraniana, cujos crimes já eram cometidos antes mesmo dos ataques dos EUA e Israel. Seguem, em primeiro lugar, alguns links das publicações condenando o Irão. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins - Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Brasil - Fim do voto feminino?

Marli Gonçalves, a editora do site “Chumbo Gordo”, criado em 2015 por Carlos Brickmann, já falecido, talvez tenha sido quem deu o berro mais alto ao chamar Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, "de um imbecil, geneticamente transtornado".

Porquê? Por ter defendido num áudio, nos EUA onde está foragido, e distribuído pelas redes sociais a ideia de que as mulheres não sabem votar -"Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido".

Não é essa a primeira imbecilidade postada nas redes sociais, existem milhares invadindo seu celular ou computador. Mas essa declaração, logo depois curtida por milhares de outros transtornados, se tornou importante por ter sido dita e defendida pelo amigo próximo de dois filhos do ex-presidente, um deles, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência nas próximas eleições de outubro. E isso se agrava, quando lembramos ser o próprio ex-presidente Bolsonaro um convicto misógino.

Origem: Chumbo Gordo

Mas para quem acha ser uma brincadeira de mau gosto essa história de acabar com o voto feminino, a realidade norte-americana mostra ser um projeto em andamento, defendido pela extrema-direita e por grupos evangélicos. 

A ideia básica é a de que as mulheres são emotivas na escolha de seus candidatos. Por isso, a solução seria a de se acabar com o voto individual feminino em favor do voto familiar, que poderia ser debatido dentro de casa, mas caberia ao marido, chefe do lar, exercer o ato de votar, havendo só seu nome na lista de votantes.

Uma reportagem no The New York Times mostra haver mesmo mulheres conservadoras favoráveis ao fim do voto feminino.

O direito ao voto feminino foi uma longa luta das chamadas sufragistas e entrou na Constituição em 1920. Para muitos conservadores, entre eles líderes evangélicos, o voto das mulheres é, na maioria, pelo partido democrata, progressista, em favor do aborto e pela política de gênero.

Entre os líderes contra o voto feminino, como Paulo Figueiredo, amigo de Flávio Bolsonaro, estão os pastores Douglas James Wilson, Dale Partridge e o influenciador Jack Neel Nick Fuentes.

O escritor norte americano Douglas Kennedy escreveu um livro tratando de uma secessão provocada pelo crescimento dos evangélicos conservadores (cujos missionários vieram ao Brasil) e pelo desenvolvimento do chamado nacionalismo cristão, seguidores da teologia do domínio, pela qual as regras bíblicas devem ser aplicadas na sociedade dirigida por líderes evangélicos pentecostais.

Um sinal estranho ocorreu no dia 9 de março, quando o governo dos Estados Unidos se negou a assinar, na ONU, as conclusões da Comissão da Condição Feminina. 

O mais estranho é constatar que essa ameaça de regressão dos direitos das mulheres nos EUA por pressão religiosa, combatida pela esquerda, progressistas e feministas em geral, já é realidade nos países islâmicos, inclusive na teocracia iraniana, sem haver o mesmo protesto e a mesma mobilização da esquerda, dos progressistas e feministas.

Talvez com uma ligeira diferença, as mulheres podem votar no Irão mas não são consideradas iguais aos homens e não podem se candidatar aos postos de comando. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Brasil - Lungaretti, o náufrago da utopia

Celso Lungaretti, eterno combatente contra o capitalismo e contra as ditaduras, desde seus anos de secundarista, prepara a publicação do segundo volume do seu livro Náufrago da Utopia. No momento, Celso está hospitalizado, se recuperando de uma queda na qual quebrou uma perna.

Celso sabe que sua primeira luta contra a ditadura militar de 1964-85, que lhe deixou sequelas no corpo, precisou se ampliar com a atual transformação do capitalismo num monstro maior, naquilo que o escritor e político suíço Jean Ziegler, outro combatente recentemente falecido, qualificou de “canibalismo oligárquico”: a acumulação excessiva da riqueza por alguns bilionários paralela a novas regulações trabalhistas que penalizam ainda mais os pobres.

A incansável luta de Celso Lungaretti, iniciada com sua participação na luta armada, continua ainda ativa num blogspot, Náufrago da Utopia, com textos renovados semanalmente. Embora o blog tenha ultrapassado a marca dos 5 milhões de acessos, desde sua criação em 2008, Lungaretti não se lançou com a mesma força nos novos meios de comunicação como instagram ou nas redes sociais do Youtube e Facebook.

Enquanto aguardo o lançamento do Náufrago da Utopia 2: Memória e Legado, cujo objetivo é o de deixar um legado histórico sobre a geração que enfrentou a ditadura militar nos anos 60 e 70, minha intenção é a de lembrar a participação política de Lungaretti, um dos últimos combatentes daquela época ainda vivos.  Ele colaborava com o Observatório da Imprensa, quando Carlos Brickmann trabalhava com Alberto Dines.

No seu primeiro texto, no Observatório da Imprensa, Lungaretti criticava duramente a revista Veja, por um texto relacionado com o movimento MR-8, sob o título Um perigo chamado Veja.

Logo depois, outro texto criticava a colega Mônica Bergamo por ter noticiado. na Folha, o lançamento do livro de Carlos Brilhante Ustra, sem explicar se tratar do torturador do Doi-Codi, cuja ficha criminosa já havia sido publicada, na própria Folha pelo colunista Elio Gaspari, seguindo-se o protesto do colega jornalista Alípio Freire à Folha, não publicado. E o texto de Lungaretti ao ombudsman da Folha, também não publicado.

Destaque também para um texto em memória do jornalista Paulo Francis, "o mais influente jornalista brasileiro do século passado", para quem "tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação".

Seu último texto no OI lembra o sofrimento das famílias vítimas da repressão da ditadura, das famílias de seus companheiros mortos pela repressão. Depois de citar Eunice Paiva e Zuzu Angel, conta momentos emocionantes com a família do jovem Eremias Delizoicov, jovem de 18 anos assassinado pela repressão militar. E ainda a família de Massafumi Yoshinaga, que se suicidou depois de libertado pelo DOPS.

Foi também importante a luta de Celso Lungaretti em defesa do italiano Cesare Battisti, junto com Carlos Lungarzo e Eduardo Suplicy, luta da qual participei na Europa com a escritora Fred Vargas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

França - A menina Lyhanna, vítima de um pedófilo

O assassinato de uma menina de 11 anos, depois de violentada por um homem de 41 anos, pai de duas crianças que frequentavam a mesma escola da vítima, traumatizou toda França.

O crime poderia ter sido evitado, pois o pedófilo já havia traumatizado outra criança em outra cidade, cuja mãe dera queixa à polícia, sem ter havido sequer convocação do acusado e muito menos abertura de um processo. A denúncia tinha se perdido no meio da papelada na delegacia da cidade de Gers.

Diante da alegação da falta de recursos da Justiça para tratar de tantas denúncias, o governo francês afirmou não estar havendo priorização pela polícia e Justiça para os crimes de violência sexual contra menores.

O crime contra a menina Lyhanna revelou a situação de vulnerabilidade vivida pelas meninas diante de seus predadores, não só na França mas em todo o mundo.

A UNICEF, Fundos Internacionais das Nações Unidas para a Infância, denuncia haver milhões de mulheres, em todo mundo, que já foram forçadas a atos sexuais antes dos 18 anos.

A mesma UNICEF denuncia a ocorrência no mundo de casamentos de adultos com menores que, apesar de uma aparente legalidade, constituem, na verdade, uma violação dos direitos humanos por privar as meninas de sua infância, de sua escolaridade, serem mais facilmente alvos de violência doméstica e as exporem a riscos de saúde.

Isso não tem impedido certas religiões de permitirem tais casamentos.

Uma proteção aos menores e principalmente às meninas é a inclusão nos currículos escolares de aulas de educação sexual. Além de lhes permitirem conhecer melhor seu sexo e suas particularidades, essas aulas lhes informam como melhor se proteger.

Entretanto, nem todos os governos são favoráveis à educação sexual nas escolas. É o caso de Gorgia Melloni, primeira-ministra italiana, com seu projeto de deixar aos pais a decisão de permitir que seus filhos frequentem ou não as aulas de educação sexual. 

Na Bélgica, os cursos de educação sexual provocaram muitos debates e rejeição por parte de grupos de pais de religião islâmica. Esses cursos são obrigatórios para alunos de 11 e 12 anos e visam principalmente orientar as crianças no que se refere ao consentimento, prevenção e respeito. Os pais não podem impedir essas aulas aos seus filhos a pretexto de religião ou ingerência na educação familiar. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Suíça - Morreu Jean Ziegler, o inimigo dos bancos suíços

Morreu, na quarta-feira, dia 10 de junho, aos 92 anos, o suíço Jean Ziegler, um suíço como nenhum outro. Professor, sociólogo, escritor, político e, o mais importante, o inimigo número 1 dos bancos suíços, cujo livro A Suíça Lava mais Branco, foi denúncia internacional, editado também no Brasil.

Ziegler foi o intelectual suíço mais detestado e mais criticado na Suíça e, ao mesmo tempo, o mais amado e respeitado no que se chamava de Terceiro Mundo. Foi amigo de Sartre, de Simone de Beauvoir, de Guevara e dos grandes líderes de esquerda da época.

Quando num encontro com Guevara, disse querer ir lutar na América Latina, Guevara lhe respondeu - "Não, você tem de ficar na Suíça, onde está a cabeça do monstro".

Ziegler foi professor universitário, deputado federal suíço e relator especial da ONU sobre direito à alimentação.


Era detestado na Suíça

O nome de Jean Ziegler começou a ser detestado pelos financistas, pela elite financeira e bancos suíços em 1976 com a publicação do livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, no qual Ziegler denunciava os lucros das multinacionais suíças às custas dos países pobres, o segredo bancário incentivador da sonegação de impostos com a fuga para a Suíça de capitais estrangeiros e o controle das instituições suíças pelos meios financeiros.

Alvo de numerosos processos por bancos e entidades financeiras, Ziegler revelava, no fim da vida numa entrevista para Swissinfo, ter perdido seus bens nas condenações de que fora alvo. Felizmente, tinha o cargo de relator da ONU para a Alimentação e havia a publicação de uma vintena de livros com bastante sucesso no Exterior.

No dizer da imprensa, seus livros eram suas armas, tanto que o jornal suíço Le Temps chamou-o de "guerrilheiro da sociologia", ao noticiar sua morte.

Um desses livros, responsável por processos e notoriedade no Exterior, foi A Suíça Lava mais Branco, pelo qual seus colegas deputados federais lhe tiraram a imunidade parlamentar. Veio a seguir A Suíça, o Ouro e os Mortos, tratando da neutralidade suíça, durante a Segunda Guerra Mundial. Os livros de Jean Ziegler eram publicados no Brasil pela Editora Brasiliense.

Embora de família suíço-alemânica protestante e conservadora, Ziegler aderiu ao marxismo ao estudar Direito em Paris.

Eu havia lido, em Paris, seu livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, e ao me mudar para a Suíça, onde trabalhei para a Rádio Suíça Internacional, quis logo conhecer e entrevistar Jean Ziegler. Fiz diversas reportagens sobre ele para a Rádio Suíça Internacional e, mais tarde, para jornais e rádios brasileiros e portugueses.

Acabamos ficando amigos e quando estourou o escândalo do desvio de dinheiro público para bancos suíços pelo ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf, recebi o convite do Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial para contar num livro minhas reportagens para a CBN sobre Maluf. Foi Jean Ziegler quem escreveu o prefácio desse livro, cujo título é Dinheiro Sujo da Corrupção.

Essas reportagens tinham custado minha demissão da CBN, como contou para o Observatório da Imprensa o jornalista paraibano Carlos Aranha.

Também o jornalista Lúcio Vilar, no texto Políticos Viraram Marionetes, publicado no Correio da Paraíba e Observatório da Imprensa, escreveu: "Se o dinheiro é o sangue dos pobres... os milhões de dólares transferidos por Maluf e escondidos na Suíça, com a cumplicidade dos banqueiros suíços, são o sangue e as lágrimas dos favelados de São Paulo" assim escreveu Jean Ziegler... no prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.



 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Brasil - Jornalista da Folha de São Paulo em reportagem especial durante doze dias no Irão

A Folha de São Paulo tem um pioneirismo: foi o primeiro grande jornal brasileiro a enviar uma correspondente ao Irão, logo depois dos ataques dos Estados Unidos e Israel. Trata-se da colega Patrícia Campos Mello, repórter especial, que ficou 12 dias no Irão.

Essa reportagem foi importante por levar aos leitores da Folha uma visão neutra, jornalística, de um país sobre o qual se criaram mitos, existindo muita curiosidade sobre a real situação das mulheres e sobre a estrutura política de governança no país. A atual guerra dos EUA e Israel contra o Irão tem dificultado uma fria avaliação do país entre os progressistas brasileiros, mesmo porque o Irão faz parte do Brics e se inclui entre os países antiimperialistas ou antiocidentais, embora muito diferenciados, do Sul Global.

Nem todos puderam ler a série de reportagens publicada pela Folha, mas o  Uol ao convidar Patrícia para uma entrevista, um tanto curta, permitiu se fazer uma ideia resumida do Irão e sua estrutura político-religiosa. E, ao mesmo tempo, com base nos comentários e críticas publicados online, pode-se ter uma ideia de como o público ia reagindo no decorrer da entrevista.

Até agora, certos canais e redes sociais vinham favorecendo a ideia de uma república iraniana com eleições e minimizando a questão da situação das mulheres em termos de direitos humanos, realçando ser um país onde as mulheres são bem escolarizadas e ocupam posições importantes nas estruturas do país. A ideia de ser uma teocracia, para não dizer ditadura religiosa, e de ter um ditador com amplos poderes é sempre descartada mesmo nos canais de esquerda.

Uma exceção foi a entrevista, no canal Opera Mundi, de Breno Altman com a historiadora e escritora Arlene Clemesha, na qual se fica sabendo que, o 12. imã xiita iraniano, infalível e escolhido por Deus, foi substituído pelo aiatolá Líder Supremo, numa teocracia fundamentalista patriarcal, na qual as mulheres são secundárias e não chegam aos postos de comando.

Nem todos os comentários elogiaram ou aprenderam com as informações trazidas do Irão por Patrícia, principalmente quando ela acentuou ser "um governo que oprime as mulheres" ou quando lembrou ter havido, em 2022, uma revolta principalmente feminina depois da morte da jovem curda iraniana Mhasa Amini, por não usar o hijab ou o véu cobrindo os cabelos. "Não é super-tranquilo ser mulher no Irão, existem muitas leis, como no divórcio, que são repressivas".

O lado positivo de ser mulher, para Patrícia durante sua reportagem, foi uma maior facilidade para ter acesso às mulheres e famílias locais, nem sempre usando o véu nos cabelos. "Havia muitas restrições para fazer a reportagem, lá não existe liberdade de imprensa. Há mesmo um jornalista japonês preso, desde janeiro, por estar cobrindo os protestos contra o governo". Sabendo haver jornalistas presos, ela tomou a decisão com a redação da Folha, de só serem publicados os textos mais sensíveis da reportagem - sobre Internet, censura ao governo, condição das mulheres - quando já estivesse de volta no Brasil.

"Enquanto eu estava lá, fui alertada por alguns recados recebidos, que me deixaram preocupada, pois não estava acostumada com isso, quando publiquei sobre a inflação e a vida difícil das pessoas. Diante disso é que decidimos segurar os textos mais sensíveis. Eu fiquei com medo, é um país em guerra e não é um país democrático".

Josias de Souza quis saber se a guerra reforçou o nacionalismo iraniano. Patrícia acha que sim, "a tentativa de mudança de regime pelo regime Trump saiu pela culatra. Não há uma pesquisa de opinião, mas na parcela que apoia o governo, que é grande, toda noite existem manifestações, principalmente das camadas religiosas. Essas pessoas estão muito mobilizadas, a guerra incentivou o patriotismo e o nacionalismo.

Existe uma parcela que se opõe ao governo, difícil de calcular o tamanho, mas eles estão com medo. Ainda que essas pessoas sejam contra o governo não irão apoiar os EUA e pedir para que venham ajudar".

Continua no Irão a interrupção do acesso à Internet. É o mais longo bloqueio à Internet, 80 dias, já registrado num país. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Brasil - Mulheres de esquerda nos canais Youtube

Este texto não é exatamente um comentário, mas nasceu de uma curiosidade: depois de ter acompanhado alguns canais do Youtube dirigidos por mulheres politicamente de esquerda, eu quis saber se esses vídeos tinham muitas visualizações e inscritos. Fiquei sabendo e houve também muitas surpresas.

Assim, lancei na Internet o tema - vídeos feitos por mulheres de esquerda no Youtube - e logo surgiram diversas informações, entre as quais a mais precisa vinha pelo Instagram do canal "mídialivreoficial", me exibindo uma lista atualizada dos maiores canais de esquerda do Youtube. Bastava ir separando os canais de direção feminina.

Minha surpresa foi a de constatar ser da jornalista, Ana Lesnovski, doutora em Comunicação, o canal com maior número de inscritos, num total de 1,78 milhão. Meteoro Brasil foi criado em abril de 2017 com o objetivo de divulgar cultura pop, política, ciência e jornalismo. Nessa época e até 2024, o canal pertencia ao casal Ana Lesnovski e Álvaro Borba. Com a separação do casal, comentada aqui no OI, Ana herdou o canal Meteoro e passou a contar com a participação da jornalista Sophia La Banca, passando a se dedicar apenas aos comentários políticos e entrevistas.

Na sétima posição dos maiores e mais vistos vem o canal de Rita von Hunty, com o título de Tempero Drag, que eu ainda não conhecia e me apressei a visitar e me inscrever. Na verdade, Rita não existe, é uma "persona" criada e vivida por Guilherme Terreri Lima Pereira, drag queen, formado em arte cênica, ator, Youtuber. O sucesso de Rita von Hunty é espetacular porque a soma de seus seguidores, nos canais em diversas redes, ultrapassa 3 milhões. O canal Tempero Drag tinha por objetivo tratar de veganismo, mas hoje Rita discorre com bastante verve, na sua excelente e rápida expressão oral, sobre marxismo, política, ecologia, LGBTQIA, feminismo, sociologia e literatura.

Na oitava posição, vem a influenciadora Andréa Gonçalves, cujo crescimento no Youtube acompanhei, logo nos seus primeiros posts. Ela comenta três vezes ao dia, ao vivo, as principais atualidades políticas. Advogada, teve um crescimento rápido no Youtube, ultrapassando em pouco tempo os canais Ninja, o Portal do José e o portal do Clayson e reunindo mais de 1,30 milhão de inscritos. Não tem papas na língua.

Reunindo política e humorismo vem a pernambucana Damares de Oliveira com seu canal com nome bem sugestivo -  Igreja Biscateriana, no qual ela se identifica como Bispa Damares sem Goiabeira. Numa entrevista para o canal Forum, no qual fala do seu estilo escrachado, da sua linguagem chula, na qual distorce e debocha, (deboche santo, diz ela) dos nomes e dos políticos da extrema-direita bolsonarista.

Ela conta ter recebido um telefonema da senadora Damares, no qual ela pedia para não usar seu nome e nem a referência à goiabeira (a senadora dizia ter tido um encontro com Jesus, quando tinha subido numa goiabeira). Mas a Youtuber explicou ter também o nome de Damares, só poderia mesmo tirar a goiabeira. Agora seus vídeos têm a assinatura Damares sem Goiabeira. Ex-empregada de supermercado, sem ter completado seu curso de jornalismo, Damares diz viver hoje do seu canal e das contribuições por Pix dos inscritos.

Enfim, ainda não colocada entre os canais mais vistos, vem a influenciadora Aline Câmara, a primeira especialista brasileira na Síndrome do Trauma Religioso, como ela mesmo define, uma epidemia nacional vivida pelos evangélicos.

De origem pobre, lutadora e boa debatedora, Aline, ex-evangélica, tendo sofrido as repressões próprias da religião, faz no Youtube o inverso dos pastores - prega com inteligência e bons argumentos o ateísmo.  Seu sucesso chamou a atenção do influenciador Breno Altman, que a entrevistou no canal Opera Mundi. Rui Martins - Suíça

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Suíça - Quer fechar as portas

Dia 14 de junho, o povo decidirá por voto secreto se a Suíça deverá limitar sua população em 10 milhões de habitantes. Essa votação foi provocada pelo partido da extrema-direita, UDC, com o objetivo de impedir a entrada de novos imigrantes na Suíça. A sondagem mais recente mostra uma pequena vantagem dos conservadores favoráveis a um limite da população.

A Suíça é um raro país governado pela democracia direta. Isso significa a possibilidade dos suíços proporem modificações nas leis do país nas esferas municipais, cantonais ou estaduais e federais. Não é fácil, mas diversas leis vigentes tiveram sua origem por iniciativa popular, aprovada pela maioria dos votantes em todos os cantões.

Desde sua criação em 1891, já houve mais de 200 iniciativas federais propondo modificações na Constituição suíça, das quais 26 foram aprovadas e entraram em vigor. A mais recente foi a criação e aprovação pelo povo, em 2024, de um décimo terceiro pagamento anual para os aposentados. (Nisso, o Brasil antecipou a Suíça de 61 anos, o décimo-terceiro salário brasileiro criado em 1962, incluiu também a aposentadoria em 1963, no governo João Goulart, deposto no ano seguinte com o Golpe militar de 1964-85).

Existe hoje, na Suíça, uma preocupação pelas consequências negativas, caso a iniciativa popular "Não a uma Suíça de 10 milhões" seja aprovada pelo povo. Experiências parecidas vividas por outros países reforçam as más previsões econômicas para uma Suíça de fronteiras fechadas. Mesmo porque a Suíça seria obrigada a romper compromissos e tratados com a União Europeia tratando da livre circulação de pessoas.

Ainda na semana passada o primeiro-ministro inglês Keir Starmer, logo depois de sua derrota eleitoral, reconhecia os prejuízos da política isolacionista do Brexit e falava numa reaproximação com a União Europeia, embora evitasse tocar num retorno com anulação do Brexit pelas complicações políticas e econômicas decorrentes.

Na verdade, o Brexit foi um tiro no pé, mas a União Europeia não acredita num "Breturn", depois da vitória, nas eleições municipais do partido Reform UK, de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit, junto com Boris Johnson e David Cameron. Um "Swissexit", provocado por um voto popular suíço isolacionista, não teria o mesmo efeito negativo do referendo Brexit?

Outro exemplo de contenção do aumento da população foi o da política do filho único na China, de 1979 a 2015, com o objetivo de garantir o desenvolvimento chinês. Isso acabou criando um desequilíbrio de gênero na China, pois a maioria dos casais, obrigados a ter um só filho, preferia ter menino. A população foi se tornando idosa sem ser gradativamente substituída por jovens, isso gerando uma diminuição da força de trabalho. Desde 2021, os casais podem ter três filhos, mas agora são os casais que decidem ter um ou dois filhos provocando baixa taxa de natalidade e um desequilíbrio demográfico.

Para complicar ainda mais a situação, a China enfrenta uma explosão de casos de demência (síndrome designativa de funções cognitivas que incluem o Alzheimer) na sua enorme população de idosos. Sem esquecer da falta de "cuidadores" dentro da família chinesa para cuidar dos avós e pais envelhecidos. A política do filho único criou para os jovens a responsabilidade de assumir, durante a vida, os cuidados dos 4 avós e dos 2 pais.

O cronista Yves Petignat, do jornal suíço Le Temps, comenta como reagirá a Suíça, se o povo votar, no 14 de junho, pela limitação da população suíça. E destaca o paradoxo de que o partido UDC, autor da iniciativa popular, tem sua força justamente na Suíça rural, longe dos centros urbanos, onde a população está envelhecendo, existe desequilíbrio demográfico e a maioria dos jovens prefere ir viver nos centros urbanos.

Sem os imigrantes, a população suíça já estaria em declínio, principalmente nas zonas rurais. E isso implicaria na falta de mão de obra na lavoura e no tratamento do gado leiteiro. O exílio dos jovens em busca de melhores empregos nas cidades implicaria no fechamento de escolas, enquanto os idosos ficariam sem seus médicos, atraídos por melhores condições e ganhos nos centros urbanos.

Em síntese, uma Suíça egoísta, isolada e fechada, será também um tiro no pé como foi o Brexit para os ingleses. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.