A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP, celebra aniversário com debate de representantes das nações que formam a organização; integração, mulheres em espaços de decisão, afirmação da língua portuguesa, democracia e paz foram alguns dos temas debatidos, em evento da juventude lusófona em Cascais, Portugal
Com um encontro de jovens e para ouvir
os jovens, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP, iniciou a última
semana de celebrações que antecedem o seu aniversário de 30 anos neste 17 de
julho.
O evento coorganizado com entidades parceiras como o
Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas, IPDAL, foi realizado
durante o fim de semana, em Cascais, Portugal.
Passaporte lusófono
A ONU News conversou com alguns dos participantes
para saber o que eles esperam deste novo momento da CPLP, e o que pode ser
feito na prática para acelerar não só a integração, mas o desenvolvimento e a
contribuição da juventude das nações que falam português.
Um dos participantes, Vitor Andrade, líder da organização
Conexão Lusófona, defendeu a criação de um “passaporte lusófono” para que os
jovens possam estudar e trabalhar em qualquer país de língua portuguesa.
“Temos um conjunto de prioridades mais assertivas. Uma
delas é, sem dúvida, a questão ambiental. A questão ecológica. É verdade que a
nossa geração já nasceu com ela que preocupa bastante. Temos outra prioridade
que afeta o quotidiano dos nossos jovens dos nossos países: questões como a
parte migratória. Infelizmente, cada vez mais países estão a ter medidas de
força na área migratória e tornando mais difícil trabalhar num Estado diferente
e, portanto, trabalhamos também a esse nível.”
Mulheres no Executivo
O Encontro de Política Externa e Pensamento Estratégico
reuniu estudantes da Guiné-Bissau, Angola, Brasil, Cabo Verde, Portugal, São
Tomé e Príncipe, e de estudantes de países como Argentina, Itália e Cazaquistão
que falam o português como língua estrangeira.
Dentre os temas debatidos estiveram a saúde das
democracias na lusofonia e outras partes do mundo e a sub-representação nos
países de língua portuguesa da liderança feminina em cargos executivos.
Atualmente, todas as nações lusófonas são chefiadas por homens.
Para a estudante brasileira de mestrado em Direito da
Universidade de Lisboa, Nicole Brito, é hora de corrigir este défice elegendo
mulheres para cargos legislativos e levando mais representação feminina a
postos de comando.
Democracia e futuro
“Olha, infelizmente, eu sinto que ainda faltam mulheres,
eu sinto que ainda existe uma resistência, eu sinto que ainda existe uma falta
de representatividade.”
Participaram da mesa de debates, a secretária-executiva
da CPLP, a embaixadora angolana, Fátima Jardim, o presidente do IPDAL, Paulo
Neves, e o embaixador aposentado, António Almeida-Ribeiro.
A nova realidade geopolítica foi um dos temas neste
momento de aniversário da CPLP. Para a jovem guineense, Luísa Aminata, a crise
da democracia é um entrave para que jovens, como ela, possam se expressar sobre
o que esperam de seus governos e de seu futuro.
“Neste evento, estamos a falar sobre democracia sob
pressão, e então para termos uma boa democracia precisamos investir na
educação, principalmente na educação das meninas. Nesse caso, eu tenho uma
página que criei chamada Madrinha das Meninas, com a intenção de motivar mais
jovens meninas para eles fazerem sentir que são capazes de realizar tudo o que
querem, que são capazes também de participar nas decisões do nosso país, nas
decisões do mundo, porque é muito importante que nós mulheres também tenhamos
essa oportunidade.”
Concertação político-diplomática
Desde a independência de Portugal, vários países de
língua portuguesa, especialmente na África, enfrentaram múltiplos desafios com
longas guerras civis, combate à corrupção e à pobreza, golpes de Estado e a
consolidação da paz e da segurança. Com a chegada da CPLP, o bloco passou a
cooperar em várias áreas de concertação político-diplomática até a entrada de
Timor-Leste em 2002, que abriu os horizontes da organização para o sudeste da
Ásia.
Desde então, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
tem visto aumentar o número de membros-observadores que hoje já são mais de 30
nações incluindo França, Reino Unido, Estados Unidos e Catar, além de um número
recorde de entidades da sociedade civil e organizações não-governamentais que
atuam com status consultivo no bloco. Essa presença de cidadãos é um dos
diferenciais da CPLP ao ser comparada com outros pares, por exemplo.
Para a cabo-verdiana Odara dos Santos, a Comunidade é um
espaço que relembra que os jovens têm uma voz dentro das democracias e que
podem ajudar a combater a desinformação.
Mundo digital e voz da juventude
“Falando da CPLP, são diferentes países e com distância
continental que merece aproximação entre esses países de forma física. Também
no mundo digital é muito importante aprimorarmos isso mais entre esses países e
é preciso que haja um intercâmbio mais aprofundado, mas também que os jovens
entendam que eles têm uma voz dentro da democracia. Eles podem construir pontes
e desenvolver os seus países desde agora, independentemente da idade, porque o
mundo se faz do conjunto de pessoas e que de diferentes gerações se constrói um
mundo melhor.”
Em 1989, quando chefes de Estado dos sete países
lusófonos se reuniram para criar a CPLP, no estado do Maranhão, no Brasil, eles
desenharam também a estrutura de um Instituto Internacional de Língua
Portuguesa, IILP, que tem sede em Cabo Verde.
Segundo a entidade, existem mais de 330 línguas no espaço
da lusofonia. E mais de 185 são indígenas. Uma das línguas mais faladas na
diáspora, o português é considerado hoje a quinta ou sexta língua mais usada no
mundo e a mais falada no Hemisfério Sul. Para o estudante angolano Gaspar da
Silva, a CPLP é importante para a integração das diversas diásporas de língua
portuguesa espalhadas pelo mundo.
Português gera empregos
“A CPLP vem para conciliar os interesses de todos os nove
países que dela fazem parte, para que haja conexão entre eles e quem está na
diáspora. Há aqui uma grande relação e um papel muito importante que a CPLP
tem, para que, de certa forma, tem nos juntado para que jovens e tomadores de
decisão de muitos países discutam mesmas ideias e pensamentos para a resolução
de problemas da mesma comunidade CPLP.”
Ayrton Pahula afirma que a maior presença da língua
portuguesa como língua oficial de organizações internacionais também gera
empregos e oportunidades para a lusofonia.
“Os jovens podem até falar noutras línguas, mas falar na
sua língua materna é diferente. Pensar na sua língua materna é diferente.
Então, neste sentido, eu penso que devemos explorar pensar muito a questão da
língua em função dessas oportunidades que se perdem”.
E um desses exemplos é o próprio secretário-geral do IPDAL,
Gastón Ocampo. Ele nasceu na Argentina, mas aprendeu o português para trabalhar
com jovens lusófonos, o que segundo ele abriu um mundo de oportunidades.
“Eu não estaria aqui se não fosse pelo português. Eu acho
que o português abriu-me portas e abriu-me também a cabeça para nós também
pensarmos num futuro em que eu me vejo também na África Lusófona. Vejo-me em
Timor-Leste, em Macau, quem sabe?”
Em evento separado, durante a sua passagem pelo Fórum
Político de Alto Nível, em Nova Iorque, a secretária de Estado de Portugal, Ana
Isabel Xavier, foi entrevistada pela ONU News e afirmou que a CPLP é
simplesmente insubstituível.
“CPLP é insubstituível”
“Nós estamos, de facto, agora a celebrar os 30 anos da CPLP,
a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e estamos a celebrar com um
optimismo de facto, bastante reforçado. Quando nós olhamos hoje para a CPLP,
olhamos desde logo para um espaço lusófono que partilha uma cultura comum, uma
identidade comum, mas mantendo também aquilo que é a identidade única de cada
um destes países, que, em conjunto, formam uma comunidade de princípios e de
valores que é absolutamente insubstituível.” Eleutério Guevane e Monica
Grayley – ONU News – Nações Unidas
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