Os teatros da Amazónia, nesta segunda-feira (27/07), foram aprovados, na cidade de Busan, Coreia do Sul, como Património Mundial
Após uma grande avaliação, a Unesco
(Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), na sua
48.ª edição que se realizou em Busan, na Coreia do Sul, anunciou que o Teatro
Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, seriam reconhecidos como
Património Cultural Mundial, representando os primeiros bens culturais da
região Norte a conseguirem tal feito.
O Teatro Amazonas é um dos maiores símbolos culturais do
Brasil e um dos mais famosos da América Latina. A sua história está ligada
diretamente ao Ciclo da Borracha, que ocorreu no final do século XIX, sendo
este um período de grande movimentação económica no estado. A sua construção
ocorreu para mostrar a prosperidade e o desenvolvimento da cidade.
O Teatro foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896, tendo
como a sua primeira apresentação a ópera “La Gioconda", do compositor
italiano Amilcare Ponchielli. A arquitetura do Teatro possui materiais
importados de toda Europa, como por exemplo mármore italiano, vidros e cristais
franceses e estruturas metálicas da Inglaterra.
Após um declínio económico da cidade de Manaus, o teatro
passou por um longo período com poucas atividades, sendo assim obrigado a
fechar por vários anos. Na segunda metade do século XX, o edifício foi
restaurado.
Atualmente, o Teatro Amazonas virou um património histórico
para todo o Brasil. Há diversos concertos, óperas, apresentação de dança, peças
de teatro e eventos culturais, como o Festival Amazonas de Ópera.
Já o Theatro da Paz, em Belém, surgiu também por conta do
ciclo da Borracha, no século XIX. O objetivo de construir o Theatro era para
suprir os desejos da elite paraense de assistir a espetáculos e óperas. A sua
arquitetura representa o estilo neoclássico.
O seu projeto começou em 1869, mas só foi concluído em
1878 por conta de atrasos e mudanças no projeto. Em 1878, foi inaugurado com a
apresentação do drama françês “As Duas Orfãs”, do dramaturgo Adolphe d’Ennery.
Até hoje, o Theatro da Paz recebe óperas, companhias de teatro e concertos.
Os dois teatros foram candidatados pelo Governo
Brasileiro como “Teatros da Amazónia”, criando dois grupos, sendo assim: o
Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião, em Manaus, e o Theatro da Paz e a
Praça da República, em Belém.
Desta forma, o Brasil passou a ter 26 sítios reconhecidos
pela organização da ONU, sendo eles 16 culturais, 9 naturais e 1 misto. In “Vatican
News” – Vaticano
A presença portuguesa nos teatros da Amazónia aconteceu
logo no final do séc. XIX através da Companhia de Operetas Portugueza dirigida
pelo maestro Thomaz Del Negro e propriedade do empresário Juca Carvalho. Nela
participou o ator Alfredo Carvalho. Primeiro, a Companhia apresentou-se no Teatro
Amazonas em Manaus, tendo o teatro perdido o seu arquivo da época. Seguidamente
a Companhia deslocou-se para o Theatro da Paz em Belém, onde a comunicação
social referenciou a sua presença, destacando os enormes êxitos dos espetáculos
e cuja investigação de Mário Alexandre Dantas Barbosa do Colégio Pedro
II e da Universidade Federal do Rio de Janeiro
compilou em documento apresentado no final de 2015.
Nele, o autor destaca a notícia
publicada no jornal A Província do Pará, publicado a 09 de dezembro de
1899, na página 3, na secção Espectáculos e Concertos onde se elogia o maestro
Thomaz Del Negro como diretor musical da Companhia Portugueza de Operetas e
compositor de uma das peças por ela postas em cartaz. Aqui fica o seu registo:
“Maestro Thomaz Del Negro - Entregue á
laboriosidade do seu cargo de empresario e director da orchestra da companhia
portugueza de operetas que acaba de nos deixar, mal teve tempo para uma modesta
ividenciação, despercebida tem sido entre nós a estada de Thomaz Del Negro, uma
incontestavel individualidade musical do paiz nosso irmão e amigo.
Para os que andam ao corrente da
actividade da vida artistica dos grandes centros europeus e que acompanham o movimento
d’esses meios de arte - para esses, diziamos, o nome que epigrapha estas linhas
não é o de um desconhecido; desde annos e bem annos que a sua reputação se tem
vindo fazendo, consolidando-se no merito, fortificando-se no esforço
intelligente, alentando-se nas próprias difficuldades que aqui como em toda a
parte surgem aquelles que trilham a verdade da arte. Está hoje entre nós, e
muito não é que esta secção, dedicada exclusivamente á divulgação de tudo que
de perto ou de longe se ligue a coisas de arte, registre a sua estada no Pará,
noticie mesmo o seu breve apparecimento em publico, rodeado e solicitado como
está pelas nossas melhores summidades musicaes.
Motivos estranhos ao nosso espontaneo
desejo fazem com que deixemos escapar esta occasião para transladarmos aqui
notas biographicas de importantes revistas italianas e portuguezas sobre o
merito do musicista primoroso e compositor fulgurante. O pouco que possamos dar
extrahimol-o d’O Amphiom, o magnifico jornal de arte pouco avezo ao
elogio e mais rigorista nos seus principios.
É um modesto que só um grande valor
tem conseguido inferiorizar aquella qualidade, diminuindo o prejuizo que lhe
tem causado. Vivendo para si e para a sua arte, os applausos e os encomios não
o têm despertado para a exteriorização da vida; entregue ao goso do seu intimo,
tem olvidado do o que há de carencia para o artista, quando este se isola no
seu merito e deixa que a fama leve nas azas pandas da reclame muita vulgaridade
desvalorizada pelo commum.
Apezar de todo o seu temperamento
contrario á divulgação, Thomaz Del Negro não tem conseguido passar
desconhecido, razão pela qual o seu valor é de ha muito tempo conhecido,
inclusive no Brazil, onde trabalhos seus têm merecido honrosíssimas referencias
da imprensa e critica fluminense.
Como Cyriaco Cardoso, Alfredo Kell,
Freitas Gazul, Arnoso e outras celebridades musicaes de Portugal, o maestro Del
Negro é hoje no seu paiz um dos compositores valorizados pelo seu
inconstestavel merito, valor que se accentuou desde o seu primeiro anno como
discipulo do conservatorio de Lisboa, estabelecimento onde Del Negro tem o seu nome
como o do alumno mais premiado. Mais tarde foi nomeado professor de
instrumentos de metal do mesmo estabelecimento.
Cêrca de vinte e cinco annos foi o 1º
trompa de São Carlos, ocupando idêntico logar durante dois annos no Real
Theatro de Madrid. Por essa occasião foi agraciado com a nomeação de musico da
real camara da côrte de Madrid. Ao regressar ao seu paiz, o rei dom Fernando concedeu-lhe
identica graça.
Já no reinado do finado rei dom Luiz
foi por este soberano agraciado Cavalleiro da Ordem de Christo.
A notavel agremiação musical Vinte e Quatro de Junho, de Lisbôa, por diversas vezes o teve como seu director, e ainda estão á memoria de muitos os grandes concertos classicos que organizou em Portugal, por si dirigidos, e dos quaes faziam parte músicos taes como Barbieri, Metra, Ed.Colenne, Rodroff e outras notabilidades.
Voltando novamente a Espanha, foi
nomeado 1º trompa da grande sociedade de concertos de Madrid, e sócio honorario
da Union Musical d’aquella cidade.
Como maestro, tem regido as orchestras
do Principe Real, Dom Affonso e São João, do Porto, e Gymnasio e Dona Amelia,
de Lisbôa. Além de innumeras peças para piano, canto, bandas, pequenas
operetas, revistas, etc.
Thomaz Del Negro tem partituras suas
de um grande successo, como sejam: Kinfá na China, Filhos do Capitão Mór,
Tentação, Kiki, Ilha do Diabo, Capitão Lobisomen, Aventura Regia, Basoche, Rosario
- peças estas representadas nos theatros de Lisbôa, Porto e Rio de Janeiro,
onde despertaram grande agrado. Não é, portanto, uma vulgaridade o artista de
quem hoje nos occupamos; tem um passado supedaneando o presente, e este não é
mais do que a prova da sua intelligencia, o resultado do seu estudo, a
consequencia do seu trabalho.
Apresentando-o, não o fazemos para os
seus irmãos de arte, estes o conhecem pelo seu merito; trazemos o seu nome a
publico como uma noticia que queremos dar e que despertará na nossa sociedade
espiritual e de gosto delicado uma anciedade: alguns membros da honrada colônia
portugueza, unidos a distinctos musicistas do Pará, promovem um sarau dramatico
musical em homenagem ao nosso distincto hospede.
Se visar este fim o motivo d’estas
linhas, uma outra utilidade ellas tiveram: evidenciar o merito onde elle
existe.” Rio de Janeiro, v. 29, n.
1, p. 165-179, jan./jun. 2016
173 Revista Brasileira de Música - Programa de Pós-Graduação
em Música - Escola de Música da UFRJ
Joaquim Thomaz Del Negro era tio
materno do poeta José Miguel Barros de Seixas. Baía
da Lusofonia
Sem comentários:
Enviar um comentário