Lisboa – O presidente da Associação Maense em Portugal (AMP), Carlos Frederico, defendeu que a CPLP deve colocar os cidadãos no centro da sua acção, considerando que 30 anos após a sua criação continua “demasiado próxima dos governos”.
Em entrevista à Inforpress, a propósito do 30.º
aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinalado a
17 de Julho, o dirigente associativo considerou que a organização deve fazer
“uma reflexão profunda” sobre o impacto da sua acção na vida dos mais de 300
milhões de cidadãos dos nove Estados-membros.
“Ao longo de mais de 20 anos à frente de uma associação
que acompanha centenas de estudantes e emigrantes, aprendi uma lição
incontornável: os cidadãos não vivem de comunicados finais, vivem de
oportunidades”, afirmou.
Na sua perspectiva, é precisamente nesta vertente que a
CPLP “continua a falhar”, defendendo que o principal problema da comunidade não
reside nos seus princípios fundadores, mas na dificuldade em concretizá-los.
Segundo Carlos Frederico, a CPLP nasceu com “propósitos
nobres”, como promover e difundir a língua portuguesa, fortalecer a cooperação
multilateral, facilitar a mobilidade entre os Estados-membros, estimular o
desenvolvimento económico e social e aproximar culturas e construir uma
comunidade assente na solidariedade entre povos irmãos.
“Tudo isto continua a fazer sentido. O problema nunca
esteve na ideia fundadora, mas sim na sua execução”, afirmou.
O presidente da AMP apontou como principais desafios a
mobilidade entre os países da comunidade, o reconhecimento de diplomas e
qualificações profissionais, os processos migratórios e os obstáculos
enfrentados por estudantes, trabalhadores e empresários.
“Todos os anos testemunhamos uma realidade frustrante:
jovens que enfrentam obstáculos colossais para estudar noutro país lusófono,
profissionais impedidos de exercer as suas funções devido a processos
administrativos excessivamente burocráticos e famílias separadas por
procedimentos migratórios lentos, complexos e desgastantes”, afirmou.
Perante esta realidade, questionou “onde está a CPLP
quando os cidadãos mais precisam dela”.
Embora reconheça o trabalho desenvolvido pela organização
em áreas como cultura, saúde, cooperação técnica, segurança alimentar e
concertação diplomática, Carlos Frederico considerou que “actividade
institucional não deve ser confundida com impacto real na vida das pessoas”.
“Uma organização internacional não deve aferir o seu
sucesso pelo número de reuniões realizadas, mas pela melhoria tangível do
quotidiano das populações. E é esta ligação que permanece, infelizmente,
frágil. A CPLP mantém-se demasiado próxima dos governos e excessivamente
distante dos cidadãos”, defendeu.
Na entrevista, apelou a uma mudança de prioridades,
propondo maior investimento em bolsas de estudo, emprego jovem, programa de
mobilidade académica e profissional, reconhecimento mais rápido de competências
e incentivo ao empreendedorismo entre os Estados-membros.
Na sua opinião, a comunidade tem um enorme potencial,
reunindo mais de 300 milhões de pessoas, uma língua comum, uma juventude
dinâmica, universidades, empresas e uma vasta diáspora espalhada pelo mundo.
Carlos Frederico defendeu igualmente um maior
envolvimento da sociedade civil na construção do futuro da CPLP.
“A língua portuguesa não é propriedade dos governos.
Pertence aos milhões de cidadãos que a falam, que nela sonham, trabalham e
constroem diariamente o amanhã”, afirmou, deixando claro que não pretende
“diminuir” a CPLP com tais declarações.
Questionado sobre os desafios para os próximos 30 anos da
CPLP, o presidente da AMP sublinhou que as suas críticas não visam diminuir a
organização, mas contribuir para o seu fortalecimento, defendendo que a
comunidade deve abandonar uma lógica excessivamente institucional e colocar, de
forma efectiva, os cidadãos no centro das suas políticas.
“(…) Uma comunidade de língua comum apenas será
verdadeiramente coesa e forte quando os seus povos sentirem que habitam um
espaço onde as oportunidades fluem com a mesma naturalidade e facilidade que as
palavras.”, conclui. Feliciano Monteiro – Agência Inforpress
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