Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"CPLP demasiado próxima dos governos e excessivamente distante dos cidadãos" afirma activista social

Lisboa – O presidente da Associação Maense em Portugal (AMP), Carlos Frederico, defendeu que a CPLP deve colocar os cidadãos no centro da sua acção, considerando que 30 anos após a sua criação continua “demasiado próxima dos governos”.

Em entrevista à Inforpress, a propósito do 30.º aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinalado a 17 de Julho, o dirigente associativo considerou que a organização deve fazer “uma reflexão profunda” sobre o impacto da sua acção na vida dos mais de 300 milhões de cidadãos dos nove Estados-membros.

“Ao longo de mais de 20 anos à frente de uma associação que acompanha centenas de estudantes e emigrantes, aprendi uma lição incontornável: os cidadãos não vivem de comunicados finais, vivem de oportunidades”, afirmou.

Na sua perspectiva, é precisamente nesta vertente que a CPLP “continua a falhar”, defendendo que o principal problema da comunidade não reside nos seus princípios fundadores, mas na dificuldade em concretizá-los.

Segundo Carlos Frederico, a CPLP nasceu com “propósitos nobres”, como promover e difundir a língua portuguesa, fortalecer a cooperação multilateral, facilitar a mobilidade entre os Estados-membros, estimular o desenvolvimento económico e social e aproximar culturas e construir uma comunidade assente na solidariedade entre povos irmãos.

“Tudo isto continua a fazer sentido. O problema nunca esteve na ideia fundadora, mas sim na sua execução”, afirmou.

O presidente da AMP apontou como principais desafios a mobilidade entre os países da comunidade, o reconhecimento de diplomas e qualificações profissionais, os processos migratórios e os obstáculos enfrentados por estudantes, trabalhadores e empresários.

“Todos os anos testemunhamos uma realidade frustrante: jovens que enfrentam obstáculos colossais para estudar noutro país lusófono, profissionais impedidos de exercer as suas funções devido a processos administrativos excessivamente burocráticos e famílias separadas por procedimentos migratórios lentos, complexos e desgastantes”, afirmou.

Perante esta realidade, questionou “onde está a CPLP quando os cidadãos mais precisam dela”.

Embora reconheça o trabalho desenvolvido pela organização em áreas como cultura, saúde, cooperação técnica, segurança alimentar e concertação diplomática, Carlos Frederico considerou que “actividade institucional não deve ser confundida com impacto real na vida das pessoas”.

“Uma organização internacional não deve aferir o seu sucesso pelo número de reuniões realizadas, mas pela melhoria tangível do quotidiano das populações. E é esta ligação que permanece, infelizmente, frágil. A CPLP mantém-se demasiado próxima dos governos e excessivamente distante dos cidadãos”, defendeu.

Na entrevista, apelou a uma mudança de prioridades, propondo maior investimento em bolsas de estudo, emprego jovem, programa de mobilidade académica e profissional, reconhecimento mais rápido de competências e incentivo ao empreendedorismo entre os Estados-membros.

Na sua opinião, a comunidade tem um enorme potencial, reunindo mais de 300 milhões de pessoas, uma língua comum, uma juventude dinâmica, universidades, empresas e uma vasta diáspora espalhada pelo mundo.

Carlos Frederico defendeu igualmente um maior envolvimento da sociedade civil na construção do futuro da CPLP.

“A língua portuguesa não é propriedade dos governos. Pertence aos milhões de cidadãos que a falam, que nela sonham, trabalham e constroem diariamente o amanhã”, afirmou, deixando claro que não pretende “diminuir” a CPLP com tais declarações.

Questionado sobre os desafios para os próximos 30 anos da CPLP, o presidente da AMP sublinhou que as suas críticas não visam diminuir a organização, mas contribuir para o seu fortalecimento, defendendo que a comunidade deve abandonar uma lógica excessivamente institucional e colocar, de forma efectiva, os cidadãos no centro das suas políticas.

“(…) Uma comunidade de língua comum apenas será verdadeiramente coesa e forte quando os seus povos sentirem que habitam um espaço onde as oportunidades fluem com a mesma naturalidade e facilidade que as palavras.”, conclui. Feliciano Monteiro – Agência Inforpress


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