Obra
do pesquisador Nireu Cavalcanti faz um levantamento das moradias em que viveu o
grande autor
I
Conhecer o verdadeiro percurso do casal
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) e Carolina Augusta Xavier de Novaes
Machado de Assis (1835-1904) pelas ruas do Rio de Janeiro foi o objetivo do
historiador e pesquisador Nireu Cavalcanti em Machado de Assis:
Caminhos de suas moradias no Rio de
Janeiro (Rio de Janeiro, Editora Lacre, 2026), que conta com extenso e
percuciente prefácio de Alexei Bueno (1963-2026), um dos últimos textos deste
poeta, crítico e editor recentemente falecido.
Trata-se de obra que vai além do seu principal objetivo, ao
recolher e verificar documentos que recuam até os anos da fundação do Rio de
Janeiro, com a marca de um pesquisador, que se tem destacado por sua incansável
busca nos arquivos do Brasil e Portugal, que lhe permitiu recontar em grande
parte a História do País.
Acima de tudo, é obra muito bem documentada que vem para
ratificar a ignorância que tem marcado a atuação dos nossos homens públicos,
geralmente pessoas de baixa qualificação intelectual e pouca leitura, tantos
são os equívocos históricos que foram cometidos ao longo dos anos na tentativa
de assinalar o percurso de vida de um escritor que é considerado o clássico
máximo da Literatura Brasileira, fundador e primeiro presidente da Academia
Brasileira de Letras (ABL).
Como observa no prefácio o saudoso Alexei Bueno, não foram
poucos os historiadores e literatos que afirmaram que Machado de Assis era
filho de uma “negra analfabeta”, quando, na verdade, sua mãe era uma portuguesa
que de analfabeta nada tinha. Sem contar aqueles que viram no escritor um
funcionário público bem sucedido economicamente, quando, na realidade, como
mostra Nireu Cavalcanti, ele sempre pagou aluguel pelas várias moradias que
habitou em sua cidade natal.
Aqui, porém, reside um mistério apontado pelo investigador:
o funcionário Machado de Assis, já homem de meia-idade, ganhava um salário
considerável no Ministério da Agricultura e as despesas do casal seriam
moderadas, mas não se sabe por que nunca se interessou em comprar o chalé.
Tampouco se sabe porque a condessa de S. Mamede e seu segundo marido Miguel,
irmão de Carolina, milionários, proprietários do imóvel, nunca se interessaram
em dar de presente o imóvel ao escritor. É de se acreditar que, se o chalé tivesse
sido propriedade do casal, após a morte de ambos, provavelmente, a memória do
imóvel teria sido preservada.
Afinal, se não deixou “o legado de sua miséria”, ao não ter
descendentes, Machado de Assis ofereceu
para a posteridade uma obra reverenciada hoje ao lado daquelas escritas por
grandes mestres da literatura universal, como Dostoievski (1821-1881), Franz
Kafka (1883-1924), Charles Dickens (1812-1870), Edgard Alan Poe (1809-1849),
Jorge Luis Borges (1899-1986) e outros.
O ridículo chegou ao máximo quando as autoridades
municipais, a pretexto de homenagear o insigne escritor, mandaram colocar uma
placa em determinada fachada de um prédio da rua da Lapa, com a afirmação de
que ali vivera Machado de Assis, embora no alto do prédio apareça a data de sua
construção, ou seja, 1909, quando o homenageado já não vivia. A moradia
verdadeira ainda se encontra no local sob o nº 264.
II
Só que não param por aqui os equívocos. Pelo contrário. O
historiador faz ainda um apelo para que a Prefeitura do Rio de Janeiro retire a
placa que, em 2022, foi colocada na fachada do prédio de nº 174 da rua Cosme
Velho, na esquina com a rua Marechal Pires Ferreira, como sendo o local em que
viveu seus últimos anos o casal Machado de Assis. E que a recoloque na fachada
do prédio de nº 136, pois teria sido ali que existiram o chalé em que o
escritor e sua esposa viveram, derrubado no início da década de 1930, e o
terceiro chalé vizinho, demolido na década de 1960, por uma construtora para
levantar um edifício de gosto duvidoso.
Naquele chalé, o escritor produziu obras-primas como Quincas
Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó
(1904) e Memorial de Aires (1908). Antes já havia
publicado o memorável romance Memórias póstumas de Brás
Cubas (1881) e o livro de contos Papéis avulsos (1882). Em
1884, publicou Histórias sem data, reunindo contos que,
provavelmente, teriam sido escritos quando residia em outros locais.
Como reconhece o investigador, localizar com exatidão cada
endereço de moradia de Machado de Assis, solteiro e a partir de 1869, quando se
deu seu casamento com Carolina, é hoje tarefa muito difícil, já que houve
numerosas mudanças de numeração nas ruas da cidade, entre 1839 e 1908, bem como
em logradouros que mudaram de nome, como o Caminho da Cancela que virou rua São
Luiz Gonzaga e a rua do Fogo que passou a se chamar rua dos Andradas, ou a sua
vizinha rua da Conceição.
Mesmo assim, em meio às conhecidas menções às moradias em
que o inquilino Machado de Assis viveu, às ruas dos Andradas, de Santa Luzia,
da Lapa e de Laranjeiras, o investigador acrescentou outra até aqui
desconhecida, localizada à rua da Alfândega, 123, onde o escritor morou em
1867, antes de seu casamento.
III
Os equívocos são muitos. Em sua obra, Nireu Cavalcanti mapeia
nove endereços exatos onde o escritor viveu, desfazendo lendas urbanas como a
de que o escritor teria nascido no alto do morro,
sede da chácara do Livramento, já que veio ao mundo numa casa térrea da rua do Livramento, 151, hoje com três pavimentos.
Entre outros achados, localizou outra moradia dos pais do escritor no bairro de
São Cristóvão, à rua São Luiz Gonzaga.
A quarta morada teria sido na rua dos Andradas, mas deste
endereço, nos dias de hoje restou apenas a fachada. A obra esclarece também um
erro sobre o sobrado que seria a sétima morada, à rua das Laranjeiras, 22, dado
pelos biógrafos como demolido, e descarta a famosa lenda de que ele teria
morado numa casa na rua Matacavalos (atual rua do Riachuelo). Da rua das
Laranjeiras, o casal, em 1879, já se mudara para a sua oitava moradia, uma casa
térrea à rua do Catete, 206.
A última moradia, a nona, teria sido aquela localizada à
rua Cosme Velho, 14, onde o casal viveu de 1884 a 1908, lembrada pelo poeta
Olavo Bilac (1865-1918) em cerimônia realizada pela ABL no primeiro ano do
falecimento de Machado de Assis, seguida da colocação de uma placa de bronze
alusiva à data. Depois disso, como constatou o pesquisador, não houve a menor
referência quanto à aquisição do imóvel para a preservação da simbólica
moradia, uma prova inequívoca da indigência mental que sempre marcou a maioria
dos governantes brasileiros.
Exceção ao movimento da Sociedade dos Amigos de Machado de
Assis, criada em 1958, sob a direção do intelectual Plínio Doyle (1906-2000). A
Sociedade tinha dois objetivos: desapropriar e tombar o terceiro chalé que
estava de pé (ocupado por várias famílias) e, após o restauro, instalar o Museu
Machado de Assis e construir no alto do Morro do Livramento uma escola pública
com o nome do escritor. Nada conseguiram, apesar das promessas das autoridades
em ajudar na realização desse sonho de Plínio Doyle.
Até que, por volta de 1937, a picareta da indústria
imobiliária colocou abaixo a casa, tendo seus restos permanecido no local até
1960, quando foi demolido o chalé vizinho e construído o atual edifício que
leva o número 136. Em suas pesquisas, o historiador ainda levantou dados sobre
as famílias que ali residiram depois do falecimento de Machado de Assis.
Na parte final da obra, o historiador teve a louvável
preocupação de mostrar como era o Rio de Janeiro ao tempo de Machado de Assis, especialmente
os lugares que ele costumava frequentar, como teatros, livrarias, confeitarias,
restaurantes, charutarias e lojas de moda, além do provável caminho que fazia, de segunda
à sexta-feira, de sua casa até o seu local de trabalho, no Ministério da
Agricultura, situado na praça de D. Pedro II (atual praça Quinze), que, em seus
arredores, inclui a famosa rua do Ouvidor, sítio arquitetônico mais importante
da cidade à época, local que costumava reunir as figuras públicas mais
conhecidas daquele tempo.
Ao fazer um resumo histórico do local, o investigador não
deixa de mostrar, inclusive, foto do prédio onde funcionava o local de trabalho
do escritor, hoje totalmente descaracterizado, como anexo do Palácio
Tiradentes, onde funciona a Assembleia Legislativa, bem como outras fotos antigas
dos principais locais e paisagens da região. E termina por apresentar
ilustrações de seu próprio punho que retratam personagens femininas machadianas,
inclusive reconstituindo hipoteticamente a família Assis: pai, mãe e a criança
Joaquim Maria Machado de Assis.
IV
Historiador, desenhista, artista plástico e arquiteto
formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do
Brasil, Nireu Cavalcanti (1944) é doutor em História Social, com ênfase em
História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional
e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982).
Nascido em Alagoas, migrou para o Rio de Janeiro em 1962.
Arquiteto, com projetos no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, e artista
plástico, que participou da Bienal da Bahia em 1968, e de exposições coletivas
e individuais, é professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de
2003 a 2007. É autor, com Hélio Brasil (1931-2025), de Tesouro: o Palácio
da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos
do Rio de Janeiro (Pébola Casa Editorial, 2015); e O
Rio de Janeiro setecentista: a vida e
a construção da cidade da invasão francesa
até a chegada da Corte (Jorge Zahar Editor,
2004), seu trabalho de doutoramento, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª
Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ, em 2004.
Publicou ainda Histórias e conflitos no
Rio de Janeiro colonial: da Carta de
Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807
(Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho
de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas
históricas do Rio colonial (Civilização
Brasileira/Faperj, 2004); Santa Cruz – uma paixão
(Relume-Dumará, 2004); Construindo a violência urbana
(Madana Editora, 1986); Rio de Janeiro, centro histórico:
marcos da colônia (1998); e Rio de Janeiro: Centro histórico
colonial 1567-2015 (Andrea Jackobsson Estúdio/Faperj, 2016). Por último,
publicou Borbulhar da memória (Edições Júlio e Maria,
2024).
É autor do artigo “Silêncio no Ipiranga”, publicado no
jornal O Globo, de 18/9/2010, p. 42, em que sustenta que a
independência do Brasil foi proclamada no dia 1º de agosto de 1822, no Rio de
Janeiro, em manifesto que contém o plano de governo de d. Pedro e a convocação
dos “brasileiros em geral para que se unissem em torno da causa da
Independência”. Ou seja, segundo o historiador, como mostram os documentos da
época, às margens do rio Ipiranga, próximo à cidade de São Paulo, no dia 7 de
setembro de 1822, o que houve foi apenas um ato que referendou a independência
já proclamada.
Publicou também o ensaio “Veredas da arquitetura modernista
no Rio de Janeiro” (Revista do Instituto Histórico e
Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ), nº 27,
202, pp. 117/157. É também um dos autores do livro Rio, da Glória
à Piedade, organizado por Hélio Brasil e publicado por Rosmaninho
Editora de Arte, em Santarém, Portugal, em 2023. Foi cronista do Jornal do
Brasil entre 1999 e 2000. Adelto Gonçalves - Brasil
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Machado de Assis:
Caminhos de suas moradias no Rio de
Janeiro, de Nireu Cavalcanti, com prefácio de Alexei Bueno e texto de
apresentação de Eliezer Moreira. Rio de Janeiro, Editora Lacre, 294 páginas,
2026. E-mail do autor: contato@nireu.com
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os vira-latas da madrugada
(José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o
poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na
Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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