O mais recente poemário de Kalunga, (Perfil
Criativo - Edições ©, ano de 2026, coleção “Poesia no Bolso”), reúne mais de
quarenta textos num livro-objeto de valor estético inegável, minimalista,
sóbrio e delicado. Lê-se também pelo toque e cabe no bolso: é pouco maior do
que um telemóvel; e friso-o por atravessarmos uma época em que muitos de nós lemos
poesia neste formato e neste suporte. Porém, a luz que emana dos textos de Matéria
Negra só é suscetível de ser regulada pela recetividade do leitor e pela
sua apetência para absorver as alusões enigmáticas, sedutoras e
desconcertantes, tão caraterísticas de Kalunga.
Não é um livro barulhento: é, ao contrário, um puzzle de
silêncios acorrentados uns aos outros onde se murmura e se alude à sociedade
devoradora na qual nos enredamos atabalhoadamente. Mas trata também de amor e
desejo, do planeta e de mistério, com códigos secretos ou dissimulados em pequenos
diálogos intertextuais (“…No espelho do verão/ Verão/ Eles passarão na matéria/
Eu passarão alquimista…”). Todo o livro se assemelha a minúsculos fragmentos de
cristais, compondo uma teia de cores e luzes através da leitura. Li-o de todas
as maneiras possíveis: folheando-o primeiro com curiosidade, deslizando por
ele, escutando as palavras, as reticências; correndo atrás dos versos e procurando
o eixo de cada texto, o verso destacado a negrito, as mil e uma minudências
que, afinal, são a alma de cada poema-conversa-sussurro-objeto de contemplação.
Sem surpresa encontramos o tom da crítica social e do
neoliberalismo selvagem, algo intrínseco em Kalunga, mas também uma linguagem
mais metafórica que nos arranca ao marasmo com luvas de seda. O poeta exalta o
valor da paz e da liberdade, flerta com o ecopoema, glorifica a água em todas
as suas manifestações e desilude-se com a depredação do planeta. Por outro
lado, Matéria Negra propõe-se encorajar o diálogo intergeracional, a
fraternidade sem preconceitos, valorizando a ética e o espaço que ocupa o
Tempo, ouvindo o sofrimento do mundo com humanidade.
O texto é um manto de subtilezas e pequenas alusões, tão
amenas na forma como vigorosas no fundo e na intenção.
Para além disso o poeta namora insistentemente a palavra.
Já nos habituou a pequenas recreações - e recriações - que o leitor descobrirá
verso a verso. A escolha judiciosa do negrito e a forma “i” em substituição de
“e”, conjunção coordenativa, são pequenos sinais luminosos que Kalunga oferece,
alguns dos quais descodifica em textos de apresentação, como a questão das
reticências.
“(…) dediquei-me a ter uma visão multidisciplinar,
estudar as terríveis histórias do mundo. Das ideias do surgimento do homem ao
surgimento da propriedade privada. Da produção de bens à produção do mal. Da
criação dos capitais à obsolescência programada. Dos erros dos julgamentos
humanos aos preconceitos (…).” – diz o autor no seu texto lido perante o
público presente no lançamento da obra.
A comunicação de Ana Mafalda Leite, que ouvi na Voz do Operário
(no dia inaugural de Matéria Negra, no passado dia 13 de maio), é também
de leitura obrigatória, pela sensibilidade e rigor com que analisa e expõe sem
“escancarar” esta encruzilhada poética de Kalunga. O leitor tanto pode começar
a abordagem à obra pelos poemas (curtos, laminares), para se impregnar de cada
um deles - da atmosfera, da envolvência -, como pode entrar no ambiente pelos
textos de apresentação. Cada escolha lhe irá proporcionar experiências
distintas.
Os textos de Kalunga abrem-se sobre o terreno da memória,
da observação, do sensorial também. Apresentam-se por vezes em tom da confissão
íntima, terreno híbrido entre o real e o imaginado, oficina do pensamento, onde
a plasticidade da palavra nos conduz à ideia seguinte, ao próximo verso, às
nossas próprias referências. O poeta labora na continuidade e homogeneidade, assegurando
uniformização na linguagem. Outrossim, fomenta a dispersão das ideias,
evocações etéreas e translúcidas. É uma voz polifónica que hierarquiza sonho,
memória e auscultação. A vida corre dentro e fora do sujeito lírico: sente-se e
observa-se. É objeto de registo e julgamento: depois entranha-se na concisão
das palavras.
Este livro reconstrói e reconfigura identidades, usa
experiências amovíveis que replanta e adapta. Assemelha-se a uma janela por
onde se vislumbra um laboratório de sentimentos e leituras microscópicas de um
mundo em plena efervescência.
“…. Agarra três lágrimas
Tempera-as com trovoadas
Planta-as no céu
Vai
Tens um rio escondido no rosto (…)”
A língua portuguesa acentua-se em ritmos, sotaques e
melodias diversas. Oscilando entre a elegia e a fotografia da ruína, por meio
de um estilo mormente mordaz e ácido, Kalunga escreve com todos os sentidos. A
sua poesia, em plena maturação, redescobrindo sempre novos caminhos de penumbra
e nuvens recortadas sobre a luz solar, revela aguda lucidez, benevolência, e
traz, ao mesmo tempo, o caos e a mansuetude.
Tudo nele são raízes e um desassossegado nomadismo,
viagem, movimento e permanência. A palavra encontra abrigo no verso e no
desenrolar do poema, qual tapete persa deslumbrando o leitor. Luísa Fresta –
Portugal
___________________
Kalunga é o
cognome do angolano João Fernando André. Escritor, consultor cultural e
professor de língua portuguesa e literaturas. Matéria Negra é dedicado ao
malogrado poeta Gonçalo Domingos Salvador Quizela (Handyman).
Ana Mafalda Leite - Poeta e ensaísta. Professora universitária na FLUL –
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Voz do Operário -
https://www.vozoperario.pt/