Parecia a estreia de um grande
espetáculo, havia filas para entrar, a sala estava cheia, muita gente ficou de
fora. No centro do palco, de pé, como um star americano que, ao final, seria
aplaudido de pé pela plateia numa standing ovation, o show-man,
conhecido por criar suspense, contava lorotas nas quais era sempre o melhor ou
o ganhador. Era Donald Trump, presidente dos EUA, que havia ameaçado a
Dinamarca de empregar a força, caso não lhe vendesse um enorme pedaço de gelo,
a Groenlândia.
O lugar era o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, durante
alguns dias o centro da economia ocidental. Trump já esteve por lá outras
vezes, mas nunca num clima de tanta expectativa, pois uma parte dos europeus
temia uma guerra se houvesse uma invasão da Groenlândia pelos Estados Unidos.
Na metade da sua hora e doze minutos de show, como
qualificaram alguns jornalistas suíços, Trump garantiu não usar a força para
obter seu grande pedaço de gelo, essencial, segundo ele, para garantir a
segurança dos EUA. E chamou a Dinamarca de ingrata pois "se não fossem os
Estados Unidos, hoje estaria falando alemão ou japonês", referindo-se à
participação dos EUA na libertação da Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.
Irreverente ou mais precisamente mal-educado, Trump
procurou ridicularizar o presidente francês Emmanuel Macron e a ex-presidenta
do conselho federal suíço Karin Keller-Sutter. Ao contar à sua maneira a
conversa telefônica mantida com um e outro, é sempre Trump, o esperto e mais
forte, quem sai ganhando.
A Europa voltou a respirar mais tranquila, após o
encontro do secretário-geral da OTAN com Trump, no qual Mark Rutte praticamente
jurou fidelidade e apoio, no caso de uma guerra envolvendo os EUA. Ambos
negociaram, depois do discurso de Trump no Fórum de Davos, a instalação e
utilização de bases militares norte-americanas soberanas e autônomas na
Groenlândia.
Trump se demonstrou satisfeito com esse acordo pelo qual
pode dominar a região ártica. Mas existe um problema, o governo dinamarquês não
participou e poderá vetar, em nome da soberania do país. O acordo inclui uma
ajuda norte-americana para a exploração dos recursos minerais da ilha de gelo.
Será o próximo capítulo.
Com base nesse acordo, o poderoso Trump anulou suas
ameaças de um tarifaço suplementar em fevereiro e junho para os europeus.
O atual presidente suíço, Guy Parmelin, sempre cortês e
calmo, mostrou a Trump não haver um déficit comercial de 41 bilhões de dólares
favorável à Suíça, mas um superávit de 8,8 bilhões em favor dos Estados Unidos.
Trump teria se mostrado surpreso e não teria se irritado, como acontece quando
é contraditado.
Aproveitando o encontro com o presidente suíço, Trump se
mostrou curioso quanto ao funcionamento do rodízio presidencial no conselho
federal suíço. E, de acordo com o jornal suíço Le Temps, logo perguntou se um
presidente suíço poderia exercer duas vezes seu mandato, revelando sua intenção
de prorrogar seu mandato.
Embora no seu discurso megalomânico
tudo pareça um sucesso, parece haver uma erosão do apoio a Trump entre os
republicanos e entre seus eleitores. As eleições de meio mandato, em novembro, revelarão
se Trump poderá continuar se mostrando como o star do MAGA. Rui Martins –
Suíça
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Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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