Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Brasil - Mulheres de esquerda nos canais Youtube

Este texto não é exatamente um comentário, mas nasceu de uma curiosidade: depois de ter acompanhado alguns canais do Youtube dirigidos por mulheres politicamente de esquerda, eu quis saber se esses vídeos tinham muitas visualizações e inscritos. Fiquei sabendo e houve também muitas surpresas.

Assim, lancei na Internet o tema - vídeos feitos por mulheres de esquerda no Youtube - e logo surgiram diversas informações, entre as quais a mais precisa vinha pelo Instagram do canal "mídialivreoficial", me exibindo uma lista atualizada dos maiores canais de esquerda do Youtube. Bastava ir separando os canais de direção feminina.

Minha surpresa foi a de constatar ser da jornalista, Ana Lesnovski, doutora em Comunicação, o canal com maior número de inscritos, num total de 1,78 milhão. Meteoro Brasil foi criado em abril de 2017 com o objetivo de divulgar cultura pop, política, ciência e jornalismo. Nessa época e até 2024, o canal pertencia ao casal Ana Lesnovski e Álvaro Borba. Com a separação do casal, comentada aqui no OI, Ana herdou o canal Meteoro e passou a contar com a participação da jornalista Sophia La Banca, passando a se dedicar apenas aos comentários políticos e entrevistas.

Na sétima posição dos maiores e mais vistos vem o canal de Rita von Hunty, com o título de Tempero Drag, que eu ainda não conhecia e me apressei a visitar e me inscrever. Na verdade, Rita não existe, é uma "persona" criada e vivida por Guilherme Terreri Lima Pereira, drag queen, formado em arte cênica, ator, Youtuber. O sucesso de Rita von Hunty é espetacular porque a soma de seus seguidores, nos canais em diversas redes, ultrapassa 3 milhões. O canal Tempero Drag tinha por objetivo tratar de veganismo, mas hoje Rita discorre com bastante verve, na sua excelente e rápida expressão oral, sobre marxismo, política, ecologia, LGBTQIA, feminismo, sociologia e literatura.

Na oitava posição, vem a influenciadora Andréa Gonçalves, cujo crescimento no Youtube acompanhei, logo nos seus primeiros posts. Ela comenta três vezes ao dia, ao vivo, as principais atualidades políticas. Advogada, teve um crescimento rápido no Youtube, ultrapassando em pouco tempo os canais Ninja, o Portal do José e o portal do Clayson e reunindo mais de 1,30 milhão de inscritos. Não tem papas na língua.

Reunindo política e humorismo vem a pernambucana Damares de Oliveira com seu canal com nome bem sugestivo -  Igreja Biscateriana, no qual ela se identifica como Bispa Damares sem Goiabeira. Numa entrevista para o canal Forum, no qual fala do seu estilo escrachado, da sua linguagem chula, na qual distorce e debocha, (deboche santo, diz ela) dos nomes e dos políticos da extrema-direita bolsonarista.

Ela conta ter recebido um telefonema da senadora Damares, no qual ela pedia para não usar seu nome e nem a referência à goiabeira (a senadora dizia ter tido um encontro com Jesus, quando tinha subido numa goiabeira). Mas a Youtuber explicou ter também o nome de Damares, só poderia mesmo tirar a goiabeira. Agora seus vídeos têm a assinatura Damares sem Goiabeira. Ex-empregada de supermercado, sem ter completado seu curso de jornalismo, Damares diz viver hoje do seu canal e das contribuições por Pix dos inscritos.

Enfim, ainda não colocada entre os canais mais vistos, vem a influenciadora Aline Câmara, a primeira especialista brasileira na Síndrome do Trauma Religioso, como ela mesmo define, uma epidemia nacional vivida pelos evangélicos.

De origem pobre, lutadora e boa debatedora, Aline, ex-evangélica, tendo sofrido as repressões próprias da religião, faz no Youtube o inverso dos pastores - prega com inteligência e bons argumentos o ateísmo.  Seu sucesso chamou a atenção do influenciador Breno Altman, que a entrevistou no canal Opera Mundi. Rui Martins - Suíça

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Estados Unidos da América - Trump, Epstein e o controle da imprensa no país

Até onde irá o presidente Trump, decidido a perseguir a imprensa independente, deixando a impressão de preparar o terreno para governar sem contestação, obter um terceiro mandato e se tornar o primeiro ditador nos EUA, considerado até agora o paraíso da democracia e liberdade?

Essa indagação resulta, entre outras, da atual reação de Trump a uma publicação no Wall Street Journal, acompanhada de um seu desenho lascivo e obsceno do púbis de uma mulher, enviado há alguns anos a Jeffrey Epstein. Por ocasião dos 50 anos do ricaço boa pinta, muitos de seus amigos lhe enviaram, em 2003, uma carta ou uma lembrança para ser integrada num álbum comemorativo, entre elas havia a carta com desenho erótico de Trump.

Essa publicação no Wall Street Journal relançou o caso Epstein, o gestor de fortunas que se tornou milionário, acusado de pedofilia e de utilizar jovens menores numa rede de prostituição de luxo, tendo mesmo comprado para isso uma ilha, onde promovia festas com presença de milionários e políticos. Denunciado por proxenetismo e pedofilia, Epstein teria se suicidado na prisão aos 66 anos, embora exista o rumor de ter sido assassinado para não comprometer gente importante. Trump havia prometido, na campanha eleitoral, revelar os nomes de todos os clientes de Epstein.

Trump entrou com uma queixa por difamação contra o jornal, alegando não saber desenhar, pedindo uma enorme fortuna como indenização moral. Entretanto, a imprensa lembra de ter havido muitos desenhos de Trump vendidos, no começo deste século, chegando mesmo a serem vendidos por alto preço em leilão pelo Sotheby, quando se tornou conhecido como político. Trump mente, mas para não ser desmentido precisa controlar a grande imprensa ou coagir e ameaçar quem puder contar a verdade.

Outra possibilidade é a de provocar novos escândalos para desviar a atenção dos seus seguidores do caso Epstein. O The Washigton Post conta os malabarismos de Trump para desviar a atenção de seus seguidores tratando da ex-administradora da agência USAID, da equipe de futebol Washington Commanders, de uma antiga conspiração contra ele pela administração do governo Obama e criou mesmo um vídeo fake com a prisão de Obama e anunciou a publicação de centenas de documentos sobre o assassinato do pastor Martin Luther King em 1968.

Trump é especialista em criar novos problemas para desviar a atenção das questões que possam embaraçá-lo. O problema atual é o caso Epstein ter provocado descontentamentos na própria base republicana e entre seus seguidores. Uma espécie de feitiço contra o feiticeiro, pois Trump tinha sempre utilizado o caso Epstein contra os democratas.

Como se não bastasse, anulou as credenciais dos jornalistas do Wall Street Journal para terem acesso ao Air Force One, nas viagens presidenciais. Essa não foi a primeira reação contra a imprensa, em fevereiro, Trump havia proibido à agência Associated Press de entrar no Salão Oval da Casa Branca, onde se realizam as entrevistas presidenciais, por um motivo mais ameno: a agência AP se negou a trocar o nome do Golfo do México para Golfo da América como decidido pelo presidente.

Trump mudou também o sistema de acesso privilegiado ao presidente, já existente há muito anos, elaborado com a participação da Associação dos jornalistas na Casa Branca. Eram os próprios jornalistas que formavam um pool para viagens ou encontros especiais com o presidente, criando uma espécie de rodízio entre os jornalistas das principais agências e jornais.

Depois do atrito com a agência AP, o pool, grupo reduzido de jornalistas na Casa Branca, é escolhido pela administração Trump e passou a incluir os mais vistos influenciadores trumpistas de canais e podcasts.

Tudo leva a crer existir um plano de Trump para modular a imprensa norte-americana, reforçando o risco de um controle gradativo da liberdade de informação.

A ironia é ser esse governo, empenhado em jugular a liberdade de imprensa nos EUA, que tenta intervir e utilizar mesmo de chantagem para impedir o julgamento de um ex-presidente e alguns generais envolvidos numa tentativa de provocar um golpe militar e implantar uma ditadura no Brasil. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Brasil - O fim da submissão do governo ao Centrão?

O governo de Lula chegou a um ponto de confronto com seus adversários no Congresso e isso poderá mudar o clima político brasileiro?

A chamada traição do presidente da Câmara Hugo Motta, em conluio com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, convocando na calada da noite os parlamentares para rejeitarem o decreto do governo de aumentar os impostos nas operações financeiras de capitais, IOF, poderá criar o clima político reclamado por lideranças de esquerda descontentes com a chamada submissão ou concertação do presidente com seus inimigos na Câmara e no Senado.

Uma reação com resultados agora imprevisíveis, podendo mesmo levar a um impeachment, se os movimentos sociais, identitários de esquerda e petistas não conseguirem recuperar o espaço perdido nas eleições parciais do próximo ano. Existe também um risco exterior, representado pela proximidade dos governos de Trump e Milei, identificados com o abandono das bandeiras sociais, mas não parece haver outra opção viável.

Até agora, algumas redes sociais de esquerda têm lamentado uma falta de informação junto ao povo das iniciativas do presidente Lula, em outras palavras, a falta de uma certa publicidade capaz de fazer frente à campanha constante, nas redes sociais, de desmoralização pessoal do presidente e do seu governo, bancada por grupos bolsonaristas de influência evangélica, ainda ativos.

Esses grupos utilizaram ao máximo em seu favor, distorcendo os fatos, o escândalo dos descontos indevidos do INSS nas aposentadorias.

Diante da próxima conclusão do processo contra militares e políticos golpistas, falando-se na prisão, já em outubro, do ex-presidente Jair Bolsonaro, é normal um clima de excitação geral e de passagem de armas na direita e extrema direita, com a substituição do chefe e sacralização do governador Tarcísio de Freitas como seu sucessor, que promete um indulto a Bolsonaro e, sem dúvida, aos seus cúmplices, depois de sua eleição a presidente em 2026, considerada como certa.

Como se houvesse uma barreira inexpugnável de desinformação, uma grande parcela do povo parece ignorar os bons índices do governo, prejudicados pelo aumento de preços provocados por fatores externos ou por uma intenção de  descredibilizar o governo.

Um exemplo gritante são os comentários publicados no site da CNN, logo após a decisão do presidente Lula de judicializar a questão, recorrendo ao Supremo Tribunal Federal, diante da rejeição do decreto IOF, aumentando o imposto sobre transações de capitais pertencentes a titulares da classe média para cima.

Uma parte dos comentários é contra o decreto, por achar que o povo não aguenta mais imposto e quer diminuição, ignorando que o IOF, permitirá a isenção de impostos para a grande parte do povo vivendo com baixos salários. Uma parcela da população trabalhadora, mal informada, parece desconhecer esse pormenor e corre o risco de defender as transações de capitais de pessoas abastadas em detrimento do seu pequeno salário.

Entretanto, enquanto a desinformação sobre o governo de Lula vinha funcionando nas redes sociais, reforçando uma espécie de oposição populista, pela primeira vez, surgem indícios de uma conscientização popular provocada por mais um abuso dos parlamentares criando  mais 18 cargos de deputados.

Uma espécie de manifesto contra os abusos dos parlamentares, seus salários e seus privilégios começou a circular pela Internet. Insensíveis até agora aos argumentos, as chamadas camadas populares bolsonaristas parecem sensíveis aos números dos abusos. Teremos chegado ao ponto de uma inversão de tendências, no qual o pastor Henrique Vieira trará para si os fanáticos seguidores de Silas Malafaia?

A esquerda e os petistas voltarão às ruas, tomando os lugares deixados vazios pelo recuo dos bolsonaristas, numa retomada das praças por um populismo de esquerda? Ficção política ou reviravolta do possível?

A decisão do presidente Lula de recorrer ao STF, contra a derrubada do aumento do imposto sobre operações financeiras, levou o líder da oposição a declarar guerra contra Lula. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Alemanha - As células comunistas e as igrejas evangélicas no Brasil

Seria possível se fazer observações paralelas entre realidades distantes, como o comportamento dos eleitores da antiga Alemanha Oriental comunista (ex-RDA) atraídos pela extrema-direita (AFD), com o crescente alinhamento das camadas populares de antigas áreas urbanas e industriais brasileiras às propostas da extrema direita calcadas numa linguagem fundamentalista de fundo religioso?

O que nos atrai nessa sutil comparação são certas semelhanças existentes entre a antiga população da Alemanha Oriental com o imaginário político do proletariado ou operariado das regiões urbanas brasileiras.

De acordo com uma sondagem feita na RDA e publicada em 2009, um quinto da população vivia com nostalgia dos tempos do Muro de Berlim com seu regime comunista. Para eles, a região tinha sido uma espécie de "paraíso social", onde havia emprego e moradia para todos.

Vivendo uma crise econômica, os alemães do Leste esqueciam as privações de liberdade, os pequenos salários, as dificuldades de viajar para fora da Alemanha, a censura, a polícia Stasi e outras tantas.

Numa outra pesquisa, nesse mesmo ano, publicada pelo jornal Der Spiegel, 57% dos alemães do Leste não hesitavam em defender o antigo regime de partido único.



Mas 16 anos depois, o resultado das eleições legislativas demonstrou, as boas lembranças se perderam e os alemães orientais não aceitam os atrasos ainda existentes numa comparação com a Alemanha Ocidental.

E já reencontraram, como no passado, os responsáveis: são os imigrantes. E o partido de extrema-direita Alternativa Para a Alemanha (AFD), que dobrou o número de votos e ultrapassou os 30% na antiga RDA, tem a solução: a remigração ou a expulsão de todos os imigrantes.

Alice Weibel, a dirigente do AFD, partido também qualificado como neonazista, rejeita qualquer sanção contra a Rússia, nega mudança climática, quer a saída da zona Euro e da União Europeia, defende a família tradicional e os sexos masculino e feminino como modelos. Seu slogan, populista e nacionalista, Tudo pela Alemanha vai na linha dos adotados pela extrema-direita nos EUA e no Brasil. Elon Musk, próximo do presidente Donald Trump, fez campanha eleitoral para Alice Weibel e utilizou também a plataforma X para isso.

Qual a semelhança com a evolução da política brasileira?

Talvez a nova geração não saiba e os mais velhos tenham esquecido, mas as ideias marxista fizeram seu caminho no fim dos anos 1930 e, nas primeiras eleições depois da ditadura de Vargas, em 1945, o Partido Comunista teve candidato próprio para presidente, Ledo Fiúza com 10% dos votos. O candidato mais votado para o Senado foi Luiz Carlos Prestes e foram eleitos 14 deputados federais.

Com o PCB na legalidade, concorreram nas eleições intelectuais e artistas de prestígio como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Candido Portinari, Mario Schemberg e Di Cavalcanti. Em 1947, o PCB foi declarado ilegal e os eleitos tiveram seus mandatos cassados. 

O mais grave foi a repressão policial fechando todas as células do partido em todo país. O PCB era forte na cidade portuária de Santos, com maioria eleita na Câmara e chamada de Cidade Vermelha, nas cidades do ABC e São Paulo, em fase de industrialização e com grande população operária.

Embora mantendo influência nos meios universitários, entre intelectuais e artistas, a proibição e perseguição do Partido impediu uma popularização e influência política, embora surgissem líderes carismáticos de esquerda como Leonel Brizola.

Até o surgimento do Partido dos Trabalhadores com a liderança de Lula, criando um populismo ou militantismo de esquerda com a criação de conquistas sociais, na sequência das criadas por Vargas.

Em 1947, o movimento social e político comunista era extremamente ativo e crescia nas camadas populares com as células que promoviam cursos, reuniões políticas, mas igualmente festejos em espaços abertos em bairros e cidades com participação de jovens e mesmo crianças, numa espécie de grandes reuniões populares de famílias. Me lembro dessas festas no Morro de São Bento, na cidade de Santos, para onde me levava meu pai.

Esses tipos de encontros populares desapareceram, nem o PT conseguiu refazê-los com a mesma constância, criando vínculos entre as pessoas e as famílias.

Até chegarem os evangélicos com suas congregações e igrejas, seus cultos, reuniões de jovens, mulheres, escolas dominicais, uniões de mocidade e festas preparadas por seus pastores e fiéis. Na verdade, revivem as células do partido comunista, que permitiam sociabilidade, fortaleciam as amizades e se multiplicavam.

O formato é quase o mesmo, com ligeiras variações, mas o conteúdo é muito diferente, com a religião como fator agregador e a política como objetivo, servindo como propagador do credo fundamentalista, próximo da extrema-direita.

Nem as redes sociais conseguem o mesmo resultado porque essas células garantem o contato humano direto e se tornam imbatíveis.

Quaisquer semelhanças entre essas duas realidades, alemã e brasileira, pode ser mera coincidência. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Moçambique – Uma análise de Ungulani Ba Ka Khosa às eleições gerais de 2024

Para quem, como eu, tem acompanhado, ao longo de mais de quarenta anos, como professor e, acima de tudo, escritor, o percurso da Frelimo, em tanto que Frente de libertação de Moçambique e, subsequentemente, como Partido de orientação marxista, desembocando em Partido sem estratégia ideológica, estas eleições não me surpreenderam de todo


Ao acompanhar a leitura dos resultados feita pelo Presidente da Comissão Nacional de Eleições, veio-me à mente a durabilidade no poder de um outro partido do sul global, o PRI (partido revolucionário institucional), do México, que esteve no poder entre 1929 e 2000. 71 anos no poder. Longo e asfixiante tempo! As críticas que se faziam, nas sucessivas eleições, centravam-se na fraude eleitoral, na sucessiva repressão contra os eleitores, na sistemática violação dos princípios democráticos, na falta de lisura no trato da coisa pública. Tal e qual a nossa situação. 

A propósito, o grande Poeta e intelectual mexicano Octávio Paz, dizia, com a linguagem que lhe era característica: “Os moralistas escandalizam-se diante das fortunas acumuladas pelos antigos revolucionários, mas não reparam que a este florescimento material corresponde outro verbal: a oratória transforma-se no género literário de pessoas prósperas. Mais que um estilo é uma marca, um distintivo de classe.

Ao lado da oratória e das suas flores de plástico, triunfa e se propaga a sintaxe bárbara nos jornais; as inépcias nos programas de televisão; a desonra diária da palavra nos alto-falantes e nos rádios, a cafonice enjoativa da publicidade – toda esta asfixiante retórica, ao mesmo tempo nauseabunda e açucarada, de gente satisfeita e amodorrada por comer demais. Sentados sobre o México, os novos senhores e os seus cortesãos e parasitas lambem os beiços diante de gigantescos pratos de lixo florido.

Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que gangrena é a linguagem. A crítica da sociedade, em consequência, começa com a gramática e com o restabelecimento dos significados.”  Atenção intelectuais e sociedade civil! Li, algures, por entre os textos que circulam nas redes, uma máxima que me encantou e que restabelece, de facto, os significados: “O povo não é prejudicado pela greve. O povo está em greve por ser prejudicado.” 

É profundo. E é a resposta popular à recente política editorial dos média, e não só, em dar enfoque aos prejuízos económicos resultantes das manifestações. Uma manifestação, a ideia não é minha, li-a algures, é sempre um simulacro de revolução. Ela visa inquietar o poder, abanar os alicerces corroídos, provocar rupturas, e influenciar as decisões do governo. Não esqueçamos que o nosso modelo democrático funda-se na representatividade, na delegação do poder. Se a árvore que nos representa não dá frutos, é  preciso repensar na sua utilidade dentro do nosso espaço  vital.

No nosso caso, a população quer mudanças profundas, está cansada da esperança prometida, quer que a realidade do dia a dia mude radicalmente, em actos e propostas urgentes; mas o poder, anquilosado na cadeira que o sustenta há mais de 49 anos, não quer ver a realidade que está nas ruas. E isso pode ser fatal para um partido que já foi uma Frente de Libertação e que soube, a seu jeito, adaptar-se aos conturbados momentos da luta de libertação. Mas quando se transformou em Partido, a ortodoxia e o conservadorismo tomou as rédeas do que era o movimento de libertação. Afirmações desconexas e infantis do comandante geral da polícia, bem como o comunicado tão fora do tempo histórico, como o que foi proferido pela senhora Alcinda Abreu, em nome da Comissão Politica da Frelimo, revelam uma pobreza intelectual e ideológica tão confrangedora que me custa afirmar que a Frelimo está à deriva, desconectada da realidade, e muito longe de um ancoradouro sustentável. Mas está mesmo! 

Reencontrem-se e dialoguem com esta juventude que representa o Futuro. O futuro pertence-lhes! E a nós também. Ungulani Ba Ka Khosa – Moçambique in “Moz Entretenimento” com “Facebook”


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Brasil - Sobre os maus resultados do PT nas municipais

O segundo turno da eleição para prefeito da cidade de São Paulo foi um importante teste para se avaliar as forças políticas que voltarão a se enfrentar dentro de dois anos. O resultado desse teste não é nada animador para o PT e por tabela para o presidente Lula.

Os petistas perderam em quase todas as principais cidades brasileiras e ganharam apenas em Fortaleza, revelando uma perda de fôlego na corrida aos postos executivos municipais. Essa situação provocou mesmo uma crise dentro da direção do partido com duras críticas à sua presidenta, Gleisi Hoffmann, acompanhadas de uma reflexão negativa quanto à possibilidade de Lula se reeleger.

Gleise se defendeu atacando Padilha, uma espécie de porta-voz do governo, mas dificilmente escapará de um remanejamento na estrutura do PT, para evitar o pior em 2026 com perda de governo e retorno dos bolsonaristas à direção do país. Onde tem errado a estratégia do PT? Ou é o governo de compromissos de Lula com o centrão o principal culpado?

Talvez ambos. Os velhos militantes do PT não perceberam as mudanças sociais, relações de trabalho e outras formas de exploração aplicadas pelos detentores do capital, mais uma série de inovações tecnológicas que vêm revolucionando o modo de vida das populações às quais o PT não se adaptou, nem em termos simples de dominar o conhecimento e o uso das redes sociais.

Face à linguagem populista da extrema-direita e à utilização das fake news, que já haviam elegido Bolsonaro em 2018, o PT não inovou e não encontrou nem um antídoto, preferindo repetir chavões sem ressonância. Faltam figuras criativas como a de Carlito Maia no passado, um misto de publicitário político, criador de slogans até hoje ainda utilizados, porém sem o mesmo efeito de quarenta anos atrás.

Na campanha eleitoral para a mais importante prefeitura brasileira, a de São Paulo, houve uma espécie de choque entre as ultra-modernas técnicas populistas dominadoras das redes sociais com o esquema clássico já ultrapassado de publicidade política, tipo discursos, entrevistas, depoimentos na televisão. Mal comparando, são as calmas missas tradicionais católicas frente aos cultos evangélicos barulhentos entremeados de cânticos, tanta é a participação direta dos fiéis aos brados e comandos dos pastores. Não basta ter um 247, no estilo clássico, é preciso uma equipe de jovens inovadores e dominadores das redes sociais.

As lições colhidas em São Paulo, onde a esquerda tinha o hábito de ganhar, são preocupantes para o PT, que se vê diante de uma mudança de comportamento do eleitorado. Teria sido a presença inusitada de um candidato de extrema-direita até então desconhecido, sem um programa definido mas com uma linguagem nova e provocadora?

Sem dúvida! A chegada de Pablo Marçal à campanha eleitoral com seu estilo neofascista de contato com o eleitorado utilizando mentiras, ofensas, agressões verbais para desmoralizar os adversários, conjugado com a maestria no uso das redes sociais, fazendo circular seus verbetes e slogans na proporção de 600 milhões de visualizações para apenas 80 milhões de seus adversários reunidos, como contou o especialista Renato Dolci, numa entrevista à CNN.

Uma visão rápida dos resultados do segundo turno em São Paulo revela algo um tanto inédito - o atual prefeito Ricardo Nunes foi reeleito com cerca de 31% dos votos do total dos eleitores paulistanos, porém, somando-se o número dos votos brancos, nulos com as abstenções, obtém-se 36%.

Ou seja, Nunes, embora reeleito, foi indiretamente rejeitado pela maioria do eleitorado. O grande número de abstenções teria sido também decorrente da decisão de Pablo Marçal, eliminado no primeiro turno, de não pedir aos seus eleitores para votarem em Nunes. Essa fragmentação da extrema-direita torna ainda mais dramática a derrota de Guilherme Boulos, colocado num distante terceiro lugar, depois dos brancos, nulos, abstenções e Ricardo Nunes, sem chegar aos 30% dos eleitores habituais do PT na capital paulista.

Enfim, outro fator, praticamente ignorado pela direção do PT em suas autocríticas é o peso dos votos dos evangélicos nas eleições. Assim como ocorre nos EUA, onde o voto fundamentalista e conservador dos evangélicos permanece estável, o voto evangélico no Brasil corresponde ao de um partido em expansão. E porquê?

Porque a maioria das igrejas e congregações evangélicas funcionam como se fossem, embora oficialmente não sejam, diretórios dos partidos bolsonaristas, alimentados doutrinariamente semanalmente. A fusão religião-política fundamentalista obtida nos EUA, e que poderá significar a vitória de Trump, é também uma nova realidade brasileira, que nenhum partido de esquerda, como o PT, poderá ignorar. Embora Lula durante seus governos passados tivesse favorecido os evangélicos, na esperança de receber um retorno, a situação atual é a de representarem uma forte e bem organizada oposição. E os recentes pronunciamentos de Lula contra Israel só reforçaram essa oposição religiosa, já que os evangélicos se identificam e apoiam a política de extrema-direita de Israel. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Brasil - Pablo Marçal não é o primeiro a atrair os paulistanos

A rápida ascensão política de Pablo Marçal na campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo não é novidade. Ainda sem as facilidades criadas pelas redes sociais digitais, houve um clima parecido de sensação eleitoral, em 1953, quando um deputado estadual, ex-vereador, decidiu enfrentar as forças políticas da época com uma campanha populista, na qual o símbolo era uma vassoura, para varrer a corrupção.

Outra coincidência, Jânio Quadros, o fenômeno eleitoral eleito prefeito com o voto dos bairros populares, não era paulistano mas matogrossense, quase da mesma região de Pablo Marçal, que é goiano.

Agora uma diferença, Jânio tinha sido vereador trabalhador e um tanto minucioso; como deputado combatia a corrupção e fazia a fiscalização dos gastos públicos. Em síntese, um populista de direita, com discurso conservador, preocupado com a pauta de costumes: era contra os jogos de azar, contra a prostituição e chegou a proibir o uso do biquini.

Apesar de Jânio ter frustrado seus seguidores com sua renúncia e de ser considerado um dos principais responsáveis pela instabilidade política brasileira que levou ao Golpe militar, Jânio manteve o rigor na defesa dos bens públicos e no combate à corrupção.

O retorno do populismo ao poder depois dos governos petistas de Lula e Dilma, foi com outra roupa, sem as caspas de Jânio, e o combate às corrupção ficou só nas palavras. Deixou de ser populismo de direita para se afirmar como populismo de extrema-direita, sem independência internacional, atrelado aos EUA e à política trumpista republicana, visando o desmantelamento do Estado e o enfraquecimento das regras republicanas, tudo consubstanciado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Esse novo populismo mais extremo veio acompanhado de um novo elemento também importado dos EUA, destinado a assegurar mais coesão e fidelidade entre os seguidores pertencentes às camadas mais pobres e menos instruídas: a presença religiosa invisível mas penetrante do evangelismo e suas variantes neopentecostais, capazes de obter contrôle e submissão sem um aparelho repressor visível.

É nesse quadro que surge Pablo Marçal, justamente quando havia a impressão ou esperança da sociedade civil estar se desembaraçando do populismo bolsonarista. Bolsonaro parece agora como um aprendiz de feiticeiro diante do esperto Marçal, conhecedor do funcionamento das redes sociais, capaz de se transformar em algumas semanas num dos prováveis eleitos para a prefeitura de São Paulo.

Ao mesmo tempo, o surgimento das redes sociais criou uma nova maneira de se fazer política com o investimento dos candidatos e dos partidos na publicidade digital. A intensa publicidade de Pablo nas redes levou-o à imprensa escrita e televisão, onde o candidato ganhou terreno e em pouco tempo, com promessas mirabolantes mas difíceis de realizar, alcançou os primeiros colocados Boulos e Nunes à Prefeitura de São Paulo. A vitória de um dos três primeiro-colocados dependerá, no segundo turno, da transferência de votos dos candidatos derrotados.

Até que ponto a Justiça Eleitoral pode intervir impedindo, até novembro, a participação de Pablo nas eleições municipais da maior cidade brasileira? Nos EUA, sem justiça eleitoral, o candidato Donald Trump prossegue candidato apesar de ser alvo de diversos processos. Terão algum resultado as acusações claras e precisas da candidata Tábata Amaral?

Provavelmente não. Em todo o caso, Pablo não cumpriu os 4 anos e cinco meses de prisão por furto qualificado, porque a Justiça Federal reconheceu já ter prescrito o crime. Isso lembra Paulo Roberto de Andrade, que deu o golpe do Boi Gordo, enganou mais de 30 mil investidores, mas saiu livre dos processos por prescrição do crime. Ou seja, a prescrição acaba valendo como declaração de não culpabilidade.

Se tiver assegurada sua impunidade, a presença de Pablo Marçal na campanha para a Prefeitura de São Paulo muda o quadro político por enfraquecer a imagem do governador paulista Tarcísio de Freitas e esvaziar a candidatura de Ricardo Nunes. Na hipótese de Pablo ir para o segundo turno com Boulos, é quase certo ter o voto dos bolsonaristas e ser eleito.

Se isso ocorrer, a vitória de Pablo poderá significar o fim definitivo para Bolsonaro e família, pois ficará difícil continuar a receber a totalidade dos votos dos evangélicos. Diante disso, Pablo já começa a negociar a possibilidade de receber um apoio do clã Bolsonaro, ofendendo e rejeitando o apoio de Joyce Hasselmann, chamando-a de traíra ou traiçoeira, enquanto acena aos evangélicos, declarando seu apoio à pauta de costumes por eles defendida. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

França - A Nova Frente Popular poderá evitar o caos?

Para uma grande parte da imprensa francesa e mundial, o presidente da França, Emmanuel Macron, com a dissolução da Assembléia Legislativa há três semanas e convocação de novas eleições de deputados, propôs uma espécie de poker eleitoral, no qual com a ousadia de um jogador, apostava na sua capacidade de blefar.


Entretanto, os resultados das eleições de domingo, no primeiro turno para a formação da nova Assembléia, foram um fracasso para a direita macroniana e confirmaram as sondagens de uma vitória da extrema-direita do partido Reunião ou Reagrupamento Nacional, da família Le Pen, contra o qual têm feito barragem, há 60 anos, a esquerda e a direita republicanas e democráticas. A Nova Frente Popular com direita republicana, socialistas, comunistas e extrema-esquerda conseguiu resultados melhores, mas ficou em segundo lugar distante da Reunião ou Reagrupamento Nacional.

Em outras palavras, a França está a dois passos de enterrar seu passado de defesa dos trabalhadores e aposentados, dos direitos sindicais, dos direitos das minorias, de luta contra o racismo, defesa e liberdade das mulheres e proteção dos imigrantes, conquistas que poderão retrogredir com um governo de extrema-direita nacionalista.

Por isso, o chargista Chappatte do jornal Le Temps utiliza a palavra "dissolução" com o sentido de uma auto-dissolução do próprio Macron, rejeitado por muitos franceses e criticado por alguns de seus ministros, que não conseguiram se reeleger no domingo, no poker de Macron, como deputados, perdendo assim a metade de seus mandatos.

En passant, a França não é o único país envolvido na onda da extrema-direita. Outros países europeus já antecederam a França, como a Hungria, Itália, Holanda, Dinamarca, Eslováquia, Suécia e Finlândia. Sem se esquecer dos países onde a extrema-direita tem partido forte e pode chegar logo ao poder, como Polónia, Áustria, Roménia, Estónia, Bélgica e Alemanha. Na Alemanha, existe o partido AFD, Alternativa pela Alemanha, com características nazifascistas. Há ainda o partido Vox na Espanha e o Chega em Portugal.

Perigo à vista: a expansão e extensão dos partidos de extrema-direita pode chegar até o Parlamento Europeu, onde o número de deputados de diversos países começa a crescer e formar grupos, de tendências moderadas e radicais, inclusive com os novos deputados franceses da Reunião ou Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen, recentemente eleitos.

O negacionista norte americano Steve Bannon, da equipe do ex-presidente Trump, tentou criar em 2017, uma estrutura para facilitar o acesso da extrema-direita no Parlamento, mas sem sucesso. Na Suíça, o partido conservador UDC, majoritário no Parlamento, tem seu lado populista democrático, mas alguns de seus dirigentes mantêm ligações com a extrema-direita europeia como o holandês Geert Wilders e o francês Eric Zemmour.

De Steve Bannon chegamos aos EUA, onde a extrema-direita é alimentada pelos fundamentalistas evangélicos. Diante de participantes do movimento Fé e Liberdade, Trump se auto-chamou de "um cruzado cristão". O movimento religioso evangélico neo-pentecostal norte americano chegou ao norte do Brasil no começo do século passado, se alastrou e, politicamente acabou assumindo, com uma parte do ramo protestante vindo da Reforma de Lutero e Calvino, mais forte no sul do Brasil, a defesa do Golpe de 1964.

Essa aproximação do poder militar pelas lideranças evangélicas levou, depois do fim da ditadura militar, a uma aproximação do poder civil, nos governos Lula e Dilma, e, logo depois, a uma adesão à teologia do domínio, também importada dos EUA, e ao apoio ao candidato Jair Bolsonaro, que significou adesão à extrema-direita e apoio aos quatro anos de seu governo. A prova é a linha política e de costumes da Bancada Evangélica.

Como ficará a França depois do segundo turno de domingo?

Até às 18 horas de terça-feira, era quase certa a vitória da extrema-direita francesa de Marine Le Pen e de seu protegido Jordan Bardella. Com 33,8% dos votos, a Reunião ou Reagrupamento Nacional frente aos 28,2% da Nova Frente Popular tinha tudo para conquistar a maioria absoluta e governar a França.

Porém, diante desse risco criou-se uma união entre as esquerdas e direitas republicanas e democráticas, além de uma mobilização popular. Quinze minutos depois de anunciados os resultados do primeiro turno das eleições e diante da catástrofe iminente. O líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon anunciou a desistência dos candidatos do seu partido, colocados em terceiro lugar, em favor de candidatos melhor colocados para impedir a vitória dos candidatos do RN de Marine Le Pen.

Foram 218 desistências que permitirão diminuir o impacto da vitória da extrema-direita e impedir assim a maioria absoluta necessária para governar. Neste caso, a nova Assembléia será plural, e os partidos de esquerda e direita republicana poderão formar coligações, segundo os projetos de seus interesses, isolando a influência da extrema direita.

Entretanto, é bom acentuar, nem todos os eleitores franceses vão seguir a chamada "barragem contra a extrema-direita" criada pela Nova Frente Popular. No confronto Reunião ou Reagrupamento Nacional contra Nova Frente Popular, muitos deixarão de votar ou votarão nulo por terem receio da extrema-esquerda de Mélenchon. Ele é considerado culpado por ter feito campanha eleitoral usando a guerra em Gaza como pano de fundo, provocando um surto de antissemitismo e perdendo o apoio da enorme comunidade judáica na França, para obter o apoio da comunidade imigrante muçulmana, numerosa em diversas cidades e periferias.

Em todo caso, se a extrema-direita obtiver a maioria absoluta, Macron ainda tem maioria no Senado e no Conselho Constitucional. Bardella não poderá fazer o que quiser, mas, é claro, poderá haver caos e muita agitação. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

O Brasil será um Evangelistão?

Há muita gente preocupada com a insistência das redes sociais de extrema-direita e evangélicas em continuar repisando velhas mentiras ou criar novas versões sem perda de seguidores. Essa fidelidade capaz de reunir meio-milhão de vistas e centenas de milhares de curtidas em algumas horas foi reforçada com a atualidade das críticas do proprietário do twitter, agora X, Elon Musk ao ministro Alexandre de Moraes do STF e poderá chegar a um máximo com o encontro de domingo em Copacabana, reunindo o ex-presidente Bolsonaro, o Pastor Silas Malafaia e os mais representativos políticos bolsonaristas. Embora no encontro de 25 de fevereiro, na avenida Paulista em São Paulo, o clima tenha sido comedido com o ex-presidente propondo anistia para todos, a recente intervenção estrangeira de Elon Musk relançou o clima de polarização e deverá trazer de volta os discursos de ódio contra o presidente Lula e o STF. 

Alguns canais de esquerda se perguntam por que o governo de Lula não é mais ativo nas redes sociais para mostrar as realidades positivas de seu governo, a fim de estancar esse constante desgaste provocado por fake-news e discursos de ódio.

Ou é simplesmente impossível chegar até aos adeptos bolsonaristas, mesmo se grande parte são negros, pardos, pobres e mulheres, insensíveis aos alertas de que seu líder é racista, indiferente às medidas contra a pobreza e mesmo contra à liberdade para as mulheres?

Só alguns começam agora a perceber haver uma impermeabilidade impedindo aos bolsonaristas a recepção de "narrativas" ligadas aos direitos sociais. Essa impermeabilidade é criada pela maneira como funcionam as seitas neopentecostais. Elas funcionam como comunidades, incentivam atividades capazes de criar proximidade entre as pessoas e são como células ativas com reuniões periódicas toda semana. As pregações, as escolas bíblicas para crianças e jovens são constantes, semanais ou bissemanais, não deixando espaços para outros tipos de preocupações depois do trabalho. Nisso lembram as antigas células do partido comunista com atividades para estudantes, donas de casa e operários. Hoje, nenhum partido faz isso, porém os evangélicos além de religião se tornaram partido político fundamentalista.

Numa longa entrevista concedida ao Uol, o líder petista José Dirceu afirma que Lula e o PT devem ir ao encontro dos evangélicos. Não deixou nada preciso, mas lembrou que a igreja católica entrou em decadência ao reprimir a teologia da libertação, que ia ao encontro do povo, e deixou o caminho aberto para os neopentecostais.

Muitos bolsonaristas esqueceram de que foi Lula quem favoreceu a criação da marcha para Cristo, facilitou os alvarás de funcionamento para as igrejas evangélicas funcionarem em garagens e da presença oficial da então presidente Dilma na inauguração do Templo de Salomão, de Edir Macedo. A ideia de Lula ir ao encontro dos evangélicos não é assim tão simples, pois não houve retorno favorável aos esforços petistas do passado. Muito ao contrário, para impedir a eleição de Lula, em 2022, os líderes evangélicos usavam as redes sociais para amedrontar seus fiéis com a chegada do comunismo e o fechamento de igrejas caso Lula fosse eleito. Ainda hoje a bancada evangélica procura boicotar o governo de Lula.

Embora a maioria evangélica continue sendo bolsonarista, existe mesmo uma minoria de esquerda, como o atual e combativo do Psol, o deputado federal Henrique Vieira, e a ministra verde Marina Silva.

Entretanto, quando se fala na maioria de pastores e seguidores evangélicos ela é fundamentalista, foi golpista e se confunde com a extrema-direita. Recentemente, o canal Opera Mundi dedicou um grande espaço para dois pesquisadores com livros publicados, João Cezar de Castro Rocha e Bruno Paes Manso, explicarem quais são as linhas mestras do evangelismo ou neopentecostalismo brasileiro, seguidas também por grande parte de igrejas protestantes tradicionais, como presbiterianos, metodistas e batistas.

Na verdade, quase se poderia falar num desvio evangélico ou numa refundação da teologia evangélica, por influência da igreja assembléia de Deus e de teólogos fundamentalistas norte-americanos, cujos seguidores nos EUA apoiam Donald Trump para a presidência. Trata-se da Teologia do Domínio, que num rápido resumo consiste numa recalibragem da mensagem cristã evangélica misturando-se com os preceitos básicos do Deus de Israel do Velho Testamento. O cristianismo deixa de ser só mensagem de paz e amor, como se pregava, para juntar conceitos guerreiros do Deus de Abrãao. Quem seguiu pela televisão o encontro bolsonarista do 25 de fevereiro talvez tenha percebido: não se falava nunca em Jesus Cristo, mas sempre em Deus, subentendido o Deus de Israel, donde uma identificação dos evangélicos com os israelenses (embora não sejam cristãos) a ponto de ostentarem e respeitarem a bandeira de Israel.

Nessa linha, os novos evangélicos são guerreiros do Bem contra o Mal, ou seja, defendem os valores vigentes ainda na metade do século passado sendo contra o aborto, contra o homossexualismo e contra o feminismo. Nos EUA, onde a colonização foi guerreira e a posse e o uso de armas é comum na população, há o risco de guerra civil, no caso de Trump ser derrotado ou não puder disputar a eleição presidencial. Ao que parece, pelo menos os fatos demonstram, a teologia guerreira do domínio, já transformada em partido político de extrema-direita e orientada no sentido de garantir a eleição de Bolsonaro, não funcionou com os evangélicos brasileiros, cujo pacifismo inato, mesmo no 8 de janeiro em Brasília, decepcionou os líderes golpistas.

Resta uma dúvida: por que Deus escolheu como líderes Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil? Para isso há uma explicação: Deus unge ou escolhe pessoas que nem sempre são perfeitas. E logo é citado o caso do rei Davi, herói contra Golias, escolhido por Deus, mesmo se havia pecado no caso de Urias e Bethsaba, crime e adultério. Os pastores sabem que Deus escolheu Trump, nos EUA, mesmo com todos seus erros, e Bolsonaro, no Brasil, apesar de todas suas falhas e pecados.

Há alguma lógica ou racionalidade nisso? Não, nenhuma. Entretanto, os evangélicos poderão ultrapassar os 50% da população em 2050 e criar novas leis favorecendo seu credo conservador e fundamentalista. Não será uma exceção: o Irã é uma teocracia islâmica e o governo do Hamas em Gaza é uma teocracia islâmica. E Israel é quase uma teocracia. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Donald Trump quer ser o Putin americano?

No terceiro aniversário do ataque dos trumpistas ao Capitólio, no 6 de janeiro, numa tentativa de impedir a posse de Joe Biden sob a alegação de fraude nas urnas, e dez meses antes da eleição presidencial nos EUA, as sondagens dão uma ligeira diferença em favor do retorno de Donald Trump.

E isso provoca inquietação, não só dentro dos Estados Unidos como na comunidade internacional, diante das intenções declaradas do ex-presidente Trump de reformular diversas leis e criar, na primeira potência mundial do planeta, um governo forte, para não dizer uma inédita ditadura de extrema-direita nos Estados Unidos, um contraponto a Vladimir Putin na Rússia.

Num dos seus primeiros discursos na campanha eleitoral por sua reeleição, o presidente Joe Biden é bem claro: “Está acontecendo alguma coisa perigosa na América. Existe um movimento extremista que não participa dos valores fundamentais da nossa democracia.”

Essa não é uma simples frase de campanha eleitoral. Realmente, se Trump não se tornar inelegível por haver incitado o ataque ao Capitólio, no qual seus seguidores excitados poderiam ter liquidado deputados e senadores democratas, e se reeleger presidente, estará aberta a mitológica Caixa de Pandora.

Os Estados Unidos vivem um momento de polarização, no qual a extrema-direita nacionalista, liderada por Trump, poderá criar leis autoritárias e arbitrárias, podendo levar os EUA à mesma aventura vivida no passado pela Alemanha, dando-se a Trump os poderes para “resolver todos os problemas do país”. Sua política externa poderia acabar com o precário equilíbrio mundial existente.

Um de seus planos, segundo o New York Magazine, seria o de assumir o controle total da administração norte-americana descartando os atuais altos funcionários, valendo-se para isso da cumplicidade da Alta Corte, na qual, quando presidente, já construiu a maioria para ter sempre seu controle.

Não se trata de temores infundados ou de um alarme excessivo, diante da hipótese de Trump, personalidade dotada de grande egolatria, chegar novamente à presidência. Ainda recentemente, um escritor canadense, Stephen Marche, previa no seu novo livro “A Próxima Guerra Civil,” o declínio das instituições democráticas norte-americanas.

Quase ao mesmo tempo, o escritor norte-americano Douglas Kennedy publicou, em junho, um livro, cuja capa é uma bandeira dos EUA rasgada ao meio, sobre uma nova secessão entre os Estados, depois de uma rápida guerra civil. Surgem dois países totalmente opostos, um com bastante liberdade e outro religioso cristão fundamentalista onde aborto, divórcio, homossexualidade são pecados punidos severamente.

Essa apreensão diante do futuro dos EUA, coincide com o reforço da extrema-direita na Europa. Fator importante nos EUA, Trump significa o reforço da influência religiosa e o controle pela religião com seus dogmas na elaboração das leis e nos julgamentos do judiciário. Assim como ocorreu no Brasil com Bolsonaro, os evangélicos norte-americanos são os grandes apoiadores de Trump. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Portugal sem estratégia para China e a evitar confrontos diplomáticos, diz relatório

O ‘think tank’ europeu Network on China (ETNC) considera que Portugal é um dos países europeus que não assume uma estratégia face à China, apesar de ter desenvolvido relações próximas com Pequim e continuar a tentar evitar confrontos diplomáticos

Num relatório agora divulgado, este ‘think tank’- que reúne especialistas em política chinesa e que tem sede em Bruxelas – explica que Portugal “carece da capacidade de pensamento estratégico” face a Pequim, num posicionamento que se mantém desde 1979, quando os dois países estabeleceram pela primeira vez relações diplomáticas.

O autor do capítulo sobre Portugal neste relatório – Carlos Rodrigues, professor da Universidade de Aveiro – defende que apesar dessa falta de estratégia, “Portugal conseguiu desenvolver relações estreitas e estáveis com a China”, revelando forte pragmatismo ao longo das últimas quatro décadas.

No relatório, o ETNC concluiu que, nos últimos anos, os países da Europa endureceram estratégias para resistir às suas ambições económicas.

Contudo, uma minoria de países divulgou oficialmente documentos estratégicos sobre o seu posicionamento face a Pequim, com apenas seis países a formalizar essa estratégia e com a maioria, incluindo Portugal, a não assumir oficialmente um posicionamento definido perante a China.

De qualquer forma, o relatório assume que Portugal, embora sem o assumir formalmente, tem procurado evitar qualquer forma de confronto com a China, uma situação que poderá mudar com um novo ambiente geopolítico que tem promovido maior hostilidade entre a Europa e a China. “A crescente lógica de confronto trazida por uma mudança do ambiente de geopolítica internacional, como esperado, perturbou o ‘continuum’ positivo que marca a história das relações bilaterais entre Portugal e a China”, escreveu o relator Carlos Rodrigues.

Ainda assim, lembra o relatório, as autoridades chinesas reconhecem que Portugal tem mantido um ambiente de acolhimento amigável do investimento chinês, como fica provado pelas declarações do ex-chefe da diplomacia de Pequim, Wang Yi, em Setembro de 2022, durante um encontro com o seu homólogo português à margem da Assembleia Geral da ONU. “A relação China-Portugal resistiu ao teste das mudanças do cenário internacional e alcançou um sólido desenvolvimento, com base na compreensão e confiança mútuas”, disse Wang, citado no relatório do ETNC.

No entanto, Portugal não esquece as suas ligações à NATO e à União Europeia (UE) e respeita o posicionamento de cautela face às ambições expansionistas de Pequim, mas procurando preservar as vantagens das relações com a China. “Há também sinais de alguma resistência a medidas que potencialmente possam prejudicar as relações económicas com a China”, diz o relatório, lembrando que quando a UE determinou mecanismos de triagem para o investimento chinês na Europa, em 2019, o primeiro-ministro António Costa reagiu com cautela. “Uma coisa é usar o rastreio para proteger setores estratégicos, outra coisa é usar o rastreio para abrir a porta ao protecionismo”, disse nessa altura António Costa, citado no relatório do ETNC. InPonto Final” – Macau com “Lusa”

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Japão – Apoia formação de jornalistas na cobertura política e de eleições em Timor-Leste


Díli – A Embaixada do Japão disponibilizou 50 mil dólares americanos para a formação de jornalistas nas áreas de cobertura de assuntos políticos e eleições.

A iniciativa será implementada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Conselho de Imprensa (CI), que celebraram um acordo para a implementação do projeto “Covid – Eleições Resilientes em Timor-Leste” (CORE-TL).

A Chefe Adjunta da Missão da Embaixada nipónica em Timor-Leste, Kazumi Yamada, explicou que o apoio tem como objetivo ajudar os eleitores a estarem informados e a fazerem boas escolhas.

Já a Representante do PNUD, Munchtuya Antagerel, disse que, tendo em conta a crise provocada pela covid-19, o acesso a informação é um elemento crítico para eleições de sucesso e seguras.

“A comunicação social é o quarto pilar da democracia. O PNUD, em parceria com entidades do Governo, apoia a formação dos jornalistas”, afirmou a representante do PNUD, no âmbito da celebração do acordo, em Kintál Boot, Díli.

Os jornalistas vão receber formação sobre jornalismo da paz, política inclusiva, a forma responsável como se produzem reportagens e resiliência em tempos de covid-19. Pretende-se que o público tenha acesso à perspetiva dos diferentes partidos políticos através dos órgãos da comunicação social e a informações adequadas.

A representante sublinhou ainda que o PNUD e o CI vão desenvolver um manual para a cobertura jornalística das eleições no país.

O Diretor-Executivo do CI, Rigoberto Monteiro, explicou que o guia elaborado pelas duas entidades abordará as questões das reportagens nas eleições e os mecanismos de autorregulação de assuntos específicos, como a igualdade de género e ambiente.

O responsável considera que o manual vai ajudar os jornalistas na prevenção de conflitos durante as campanhas e nas eleições.

Agradeceu ainda ao PNUD a formação e o apoio financeiro do povo japonês para o projeto CORE-TL. Jesuína Xavier – Timor-Leste in “Tatoli”


 

domingo, 2 de maio de 2021

Angola – Palavras sempre sensatas de Marcolino Moco

Surpreendo-me com a comiseração de muitos com a situação, aparentemente degradante, do antigo chefe de Estado, apresentada num vídeo, acompanhado pelo nosso embaixador nos Emirados Árabes Unidos

Suspeito que muitos dos que tomam esta atitude de comiseração para com esta situação particular – componentes da elite da nossa sociedade, aquela que verdadeiramente condiciona os rumos do nosso devir – são daqueles mesmo que reagiram, tão adversamente, à minha proposta de saída do universo de 15 anos de Eduardismo, pós-guerra civil, através de um modelo de perdão geral, para iniciarmos uma nova vida em Angola, menos amarrada aos equívocos e situações mesmo muito graves do passado.

A minha ideia é que, independentemente das responsabilidades que tenhamos tido (eu próprio, por exemplo) em relação a esses erros do passado, até 2017, a História de Angola poderia nos absolver, se tivermos em conta a complexidade da situação com que partimos, em 1975. Eu, por exemplo, era apenas um rapaz de 22 anos de idade e só queria saber da independência, com o meu MPLA no comando, sem avaliar os modelos e as transições necessárias. Era o tempo das estratégias de exclusão.

Não é questão de me sentir iluminado, mas penso que muita gente, dentro e fora da MPLA, me fará justiça, reconhecendo que há muitos anos, e com algumas consequências gravosas para a minha vida pessoal, me referi à necessidade de encontrarmos uma solução global para Angola, sem exclusões. Daí, provavelmente, o meu entusiasmo (não fui o único) com os discursos e algumas práticas, infelizmente efêmeras, da liderança inicial do Presidente João Lourenço. É que se tinha ido tão longe que era difícil imaginar que continuássemos na mesma.

Mas o que mais me exaspera é que do tempo das estratégias de exclusões definitivas ou com alguma estabilidade temporária, entramos na era das estratégias reactivas. O pior de tudo é que de muitas dessas reações não sabemos contra o quê. Já me perguntei uma vez porque é que se mudam governadores de Luanda, quase de um em um ano, sem sabermos as razões e ficamos espantados, que em algumas alturas, as moscas se esvoacem alegremente pelas nossas casas adentro ou não se possa programar nada contra as saídas de águas das chuvas nos bairros, o que parecia, por exemplo, estar a fazer o jovem governador falecido Luther Rescova, quando inopinadamente, e sem qualquer explicação, foi transferido para o Uíge. Antes, o mesmo acontecera com o governador Adriano Mendes de Carvalho, este despachado para Cuanza Norte, sem mais nem quê. Por falta de espaço, aliás porque já levei uma reacção por isso, não vou mais falar aqui do que se faz com a oposição. Também falaria aqui do que se faz com os jornalistas e jornais, programas radiofónicos e televisivos, de forma tão escancaradamente visível e notória que dá pena vermos as pessoas submetidas a tantos vexames.

Termino repetindo que é minha convicção que só encontrando uma solução global, estaremos a resolver o problema de Angola, que para além evitar vermos um ex-presidente que passou pacificamente o poder, a passar o que passa – e isso não dignifica o actual Presidente e seus acompanhantes – impedirá, sobretudo, que a vida dos angolanos continue assim, quase insustentável. E não é resolver só o problema interno do MPLA, para depois se partir desalmadamente contra os “demónios” da oposição, ganhar as eleições a todo custo e continuar tudo na mesma. Temos mesmo é que resolver o problema institucional global de Angola, que isso chega para todos. Marcolino Moco – Angola in “Angola 24 Horas”