Vai haver um ataque dos EUA às
instalações do governo iraniano e aos quartéis dos Guardiães da Revolução em
represália à violenta repressão contra o povo, revoltado e pedindo o fim da
ditadura teocrática islâmica, no poder desde 1979?
Talvez não, essa a impressão nesta quinta-feira. Trump
teria se dado por satisfeito diante das notícias de que, segundo ele,
"teria parado a matança no Irão e não seria executado nenhum preso".
Por sua pressão e ameaças ao Irão, é claro!
Mas, na verdade, Trump teria recuado depois de avaliar o
risco da resposta iraniana afetar a segurança das bases norte-americanas na
região e comprometer sua imagem dentro dos EUA. Acabaria se transformando numa
repetição da guerra contra o Iraque.
Ninguém precisa se iludir com a imagem de um Trump
preocupado com a vida dos iranianos anti-Khamenei! Quase ao mesmo tempo seus
guardiães do ICE, a polícia contra imigrantes, está espalhando o terror, numa
menor escala, na cidade de Minneápolis, a maior cidade de Minnesota, depois do
assassinato (também com tiros na cabeça como no Irão) de Renée Nicole Good,
norte-americana mãe de três crianças, acusada de ser dona de casa terrorista!
Sem esquecermos da ameaça de invasão da Groenlândia!
Nem sempre funciona o refrão "o povo unido derruba a
ditadura", principalmente quando não se tem armas diante de ferozes
inimigos.
É válida uma ajuda externa? Aqui entra o argumento de que
a queda do Xá Reza Pahlevi teve apoios, embora indiretos, da França, do Iraque,
da União Soviética e de intelectuais de esquerda como Sartre, Simone de
Beauvoir e Michel Foucault que, na luta contra o capitalismo e os EUA, não
imaginavam estar incentivando o surgimento de uma ditadura religiosa
retrógrada, no lugar da monarquia também ditatorial mas secular, modernista e
pró-ocidente.
A monarquia do Xá procurava acentuar o passado persa do
país, anterior ao islamismo, retirou parte das terras dos religosos e deu o
direito de voto às mulheres, decisões mal vistas pelos religiosos. Embora o
país crescesse com o petróleo e o aço, o regime do Xá favorecia as elites,
enquanto o povo pobre se apegava ao islamismo e iria, mais tarde, preferir o
aiatolá Khomeine ao país secularizado e ocidentalizado do Xá.
A chegada dos religiosos ao poder, acabou criando uma
nova casta, a dos molás, e o fanatismo islâmico levou ao financiamento dos
movimentos extremos pela expansão do Islão, contra o Ocidente e contra Israel.
De acordo com o sociólogo francês Gilles Kepel, autor
de uma vintena de livros, o equilíbrio no Oriente Médio foi rompido com o
atentado terrorista do 7 de outubro, cometido pelo Hamas, financiado pelo Irão,
que também financiava o Esbolá. A fuga do ditador sírio Bachar-al-Assad, mais o
aniquilamento do Hamas e do Esbolá isolaram e enfraqueceram o Irão, acentuando
sua crise econômica com maior inflação, causada também por sanções ocidentais
em represália ao financiamento do terrorismo, e o povo, também descontente com
o desvio do dinheiro do Irão para o financiamento de grupos terroristas, saiu
às ruas.
A repressão tem sido sangrenta e violenta. Não se viu
nenhuma tentativa de apaziguamento por parte da ditadura teocrática. Ao que se
informa, os guardiães da revolução têm a ordem de balear os manifestantes na
cabeça e o número de mortos, ainda incerto pela falta de Internet, varia de
três mil a doze mil, enquanto se fala em 20 mil presos. A maioria desses presos
serão julgados rapidamente, sem advogado, e condenados, na maioria, à morte na
forca, senão agora, dentro de alguns meses, como ocorreu com os manifestantes
depois do assassinato da jovem curda Amina Mahsi.
O governo iraniano dirigido pelo aiatolá Khamenei cortou
o acesso à Internet em todo país, diante da rebelião do povo iraniano contra a
ditadura teocrática islâmica. Quase ao mesmo tempo, os chamados canais
progressistas ou de esquerda deixaram de fazer comentários sobre essa situação
de revolta popular ou acusaram ser uma revolta insuflada pelos EUA.
Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de
esquerda e não entendo porque companheiros de esquerda, que deram destaque a
pirataria do ditador Trump, decidem fechar os olhos à ditadura teocrática
islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à
revolta popular iraniana.
Em 1979, eu era um dos exilados em Paris contra a
ditadura militar brasileira. Vivia no Quartier Latin, mais precisamente na rue
de la Sorbonne, e acompanhava os movimentos da esquerda em Paris contra o Xá
Reza Pahlevi, movimentos liderados pelo aiatolá Khomeini, com o apoio de Jean
Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault.
A queda do Xá foi comemorada por todos, mas a alegria
durou pouco porque o aiatolá, logo transformado em Guia Supremo, instaurou um
regime religioso islâmico extremamente severo baseado na Charia.
As mulheres, consideradas cidadãs de segunda classe, se
revoltaram e criaram recentemente o movimento Mulher Vida e Liberdade, depois
de muita repressão e mortes.
Houve grande agitação depois do assassinato pelos
chamados guardiães da revolução ou policiais da fé islâmica, da jovem curda
Mahsa Amini por não ter colocado corretamente o véu na cabeça.
O que me obrigou a inserir aqui um comentário foi ter
visto e ouvido, numa entrevista ao canal Opera Mundi, por um companheiro de
esquerda, depois de uma viagem ao Irão de quinze dias mas sem falar farsi, o
idioma iraniano, a versão de que não foram os policiais que mataram a jovem
curda Mahsa Amini, adotando a versão da ditadura iraniana.
Isso me lembrou que, durante a ditadura militar no
Brasil, também o Doi Codi sempre tinha uma outra versão para seus assassinatos,
como aconteceu com Vladimir Herzog e Rubens Paiva. Não faz muito tempo, alguém
no Canal GGN, tinha qualificado o ex-presidente iraniano, logo depois de sua
morte num acidente de helicóptero, como um humanista! Ora Ebrahim Raisi, autor
da condenação à morte na forca de mais de 8 mil pessoas, era conhecido como
açougueiro!
Tenho acompanhado e publicado o processo de islamização
da esquerda não só no Brasil como na França. Não se pode fazer seleção de
ditadores, condenando uns e aceitando outros. Trump é um proto ditador
perigoso, Maduro era também um ditador. Não se pode condenar o ato de pirataria
na Venezuela sem condenar a invasão da Ucrânia e a ameaça de tomada de Taiwan.
Não se pode ser de esquerda e fechar os olhos às
denúncias mostradas em filmes contra a ditadura teocrática islâmica, cujos
diretores são presos e proibidos de ir aos festivais. Entrevistei alguns deles
nos Festivais de Berlim e Locarno. O realizador do filme A Semente do Figo
Sagrado, Mohammad Rasoulof, teve de fugir do Irão pelas montanhas para não
ser preso. Jafar Panahi, premiado em Cannes, passou anos na prisão.
Para o 247 não existe uma revolução
popular, mas uma situação criada por pressões e sanções econômicas. Ditadura
teocrática islâmica? O que é isso?
Basta um trecho: “o colapso econômico iraniano precisa
ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para
dentro”. Num longo artigo, nenhuma menção à estrutura ditatorial religiosa do
país.
Prefiro ficar com o povo iraniano e sua revolução contra
o “evangelismo” iraniano e contra sua ditadura teocrática islâmica. Rui
Martins – Suíça
_______
Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
Sem comentários:
Enviar um comentário