Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 26 de julho de 2026

Portugal – Adultos têm nível baixo de vitamina D

Médico de família alerta que viver num dos países mais soalheiros da Europa não garante níveis adequados de vitamina D. Estilo de vida, envelhecimento e fatores de risco ajudam a explicar o fenómeno


Portugal é um dos países mais ensolarados da Europa, mas essa realidade não se traduz, necessariamente, em níveis adequados de vitamina D. Apesar das muitas horas de sol ao longo do ano, cerca de dois em cada três adultos portugueses apresentam níveis insuficientes desta vitamina, segundo um estudo representativo da população nacional.

À primeira vista, trata-se de um aparente contrassenso. Afinal, a vitamina D é produzida sobretudo através da exposição da pele à radiação ultravioleta B (UVB). Então, porque continua a deficiência a ser tão frequente?

Para Bruno Moreno, médico de família da Unidade de Saúde Familiar Coimbra Sul, a resposta está muito para além das condições climatéricas. “O verdadeiro paradoxo português não é a falta de sol. É continuarmos a encontrar níveis insuficientes de vitamina D num dos países mais soalheiros da Europa”, afirma.

O problema não acontece apenas no inverno

A ideia de que a deficiência de vitamina D é uma preocupação exclusiva dos meses mais frios continua enraizada, mas o médico explica que essa perceção está longe da realidade.

Embora o inverno reduza naturalmente a exposição solar, a insuficiência pode manter-se durante todo o ano. A produção de vitamina D depende de vários fatores, como a idade, a pigmentação da pele, a área corporal exposta, a intensidade da radiação solar e o tempo de exposição. A alimentação e, quando indicada clinicamente, a suplementação também desempenha um papel importante.

Passamos cada vez menos tempo ao sol

Uma das principais razões para este fenómeno é a mudança dos estilos de vida. Hoje, a maioria das pessoas passa grande parte do dia em ambientes fechados, seja no trabalho, na escola ou durante as deslocações. Mesmo no verão, a exposição solar efetiva acaba por ser muito inferior à percecionada.

“O número de horas de sol disponível não corresponde, necessariamente, ao tempo em que a nossa pele está efetivamente exposta à radiação que permite produzir vitamina D”, explica Bruno Moreno.

Ao mesmo tempo, a crescente consciencialização para os riscos da exposição solar levou a uma maior utilização de protetor solar e de outras medidas de fotoproteção.

Segundo o médico, esta evolução é positiva e não deve ser posta em causa. “A mensagem não é expormo-nos mais ao sol sem proteção, mas compreender que a simples existência de muitas horas de sol não garante, por si só, níveis adequados de vitamina D.”

Um problema silencioso

Na maioria dos casos, a insuficiência de vitamina D não provoca sintomas evidentes, o que faz com que muitas pessoas desconheçam que apresentam níveis baixos.

Quando a deficiência é mais acentuada e prolongada, pode surgir fraqueza muscular, dores ósseas e um aumento do risco de quedas e fraturas, sobretudo entre a população idosa.

A importância da vitamina D na saúde óssea está bem estabelecida, uma vez que é essencial para a absorção do cálcio e para a manutenção da resistência do esqueleto.

Quem está mais vulnerável?

Embora qualquer pessoa possa apresentar níveis insuficientes, existem grupos que requerem maior vigilância clínica.

Entre eles encontram-se os idosos, pessoas institucionalizadas ou com mobilidade reduzida, pessoas com obesidade, doentes com patologias que dificultam a absorção intestinal e quem toma medicamentos que interferem com o metabolismo da vitamina D.

Nestes casos, a avaliação médica individualizada assume particular relevância.

Nem toda a gente precisa de fazer análises

Perante a elevada prevalência de insuficiência, pode parecer lógico defender o rastreio universal da vitamina D. No entanto, essa não é a recomendação da evidência científica atual.

Bruno Moreno sublinha que os adultos saudáveis não devem realizar análises por rotina apenas para avaliar os níveis desta vitamina.

“A decisão de dosear a vitamina D deve resultar da avaliação clínica e da existência de fatores de risco”, afirma, defendendo uma abordagem personalizada que evite exames e tratamentos desnecessários.

Mais literacia, menos mitos

Para o médico de família, o principal desafio passa por aumentar a literacia em saúde sobre este tema, combatendo a ideia de que viver num país com muito sol é suficiente para garantir bons níveis de vitamina D.

A mensagem, conclui, é simples: mais do que contar as horas de sol, importa compreender os fatores de risco, adotar estilos de vida saudáveis e recorrer à avaliação médica sempre que exista indicação clínica. Num país onde o sol nunca falta, o verdadeiro desafio pode estar, afinal, na forma como vivemos e não na quantidade de luz que recebemos. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


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