Médico de família alerta que viver num dos países mais soalheiros da Europa não garante níveis adequados de vitamina D. Estilo de vida, envelhecimento e fatores de risco ajudam a explicar o fenómeno
Portugal é um dos países mais
ensolarados da Europa, mas essa realidade não se traduz, necessariamente, em
níveis adequados de vitamina D. Apesar das muitas horas de sol ao longo do ano,
cerca de dois em cada três adultos portugueses apresentam níveis insuficientes
desta vitamina, segundo um estudo representativo da população nacional.
À primeira vista, trata-se de um aparente contrassenso.
Afinal, a vitamina D é produzida sobretudo através da exposição da pele à
radiação ultravioleta B (UVB). Então, porque continua a deficiência a ser tão
frequente?
Para Bruno Moreno, médico de família da Unidade de Saúde
Familiar Coimbra Sul, a resposta está muito para além das condições
climatéricas. “O verdadeiro paradoxo português não é a falta de sol. É
continuarmos a encontrar níveis insuficientes de vitamina D num dos países mais
soalheiros da Europa”, afirma.
O problema não acontece apenas no inverno
A ideia de que a deficiência de vitamina D é uma
preocupação exclusiva dos meses mais frios continua enraizada, mas o médico
explica que essa perceção está longe da realidade.
Embora o inverno reduza naturalmente a exposição solar, a
insuficiência pode manter-se durante todo o ano. A produção de vitamina D
depende de vários fatores, como a idade, a pigmentação da pele, a área corporal
exposta, a intensidade da radiação solar e o tempo de exposição. A alimentação
e, quando indicada clinicamente, a suplementação também desempenha um papel
importante.
Passamos cada vez menos tempo ao sol
Uma das principais razões para este fenómeno é a mudança
dos estilos de vida. Hoje, a maioria das pessoas passa grande parte do dia em
ambientes fechados, seja no trabalho, na escola ou durante as deslocações.
Mesmo no verão, a exposição solar efetiva acaba por ser muito inferior à
percecionada.
“O número de horas de sol disponível não corresponde,
necessariamente, ao tempo em que a nossa pele está efetivamente exposta à
radiação que permite produzir vitamina D”, explica Bruno Moreno.
Ao mesmo tempo, a crescente consciencialização para os
riscos da exposição solar levou a uma maior utilização de protetor solar e de
outras medidas de fotoproteção.
Segundo o médico, esta evolução é positiva e não deve ser
posta em causa. “A mensagem não é expormo-nos mais ao sol sem proteção, mas
compreender que a simples existência de muitas horas de sol não garante, por si
só, níveis adequados de vitamina D.”
Um problema silencioso
Na maioria dos casos, a insuficiência de vitamina D não
provoca sintomas evidentes, o que faz com que muitas pessoas desconheçam que
apresentam níveis baixos.
Quando a deficiência é mais acentuada e prolongada, pode
surgir fraqueza muscular, dores ósseas e um aumento do risco de quedas e
fraturas, sobretudo entre a população idosa.
A importância da vitamina D na saúde óssea está bem
estabelecida, uma vez que é essencial para a absorção do cálcio e para a
manutenção da resistência do esqueleto.
Quem está mais vulnerável?
Embora qualquer pessoa possa apresentar níveis
insuficientes, existem grupos que requerem maior vigilância clínica.
Entre eles encontram-se os idosos, pessoas
institucionalizadas ou com mobilidade reduzida, pessoas com obesidade, doentes
com patologias que dificultam a absorção intestinal e quem toma medicamentos
que interferem com o metabolismo da vitamina D.
Nestes casos, a avaliação médica individualizada assume
particular relevância.
Nem toda a gente precisa de fazer análises
Perante a elevada prevalência de insuficiência, pode
parecer lógico defender o rastreio universal da vitamina D. No entanto, essa
não é a recomendação da evidência científica atual.
Bruno Moreno sublinha que os adultos saudáveis não devem
realizar análises por rotina apenas para avaliar os níveis desta vitamina.
“A decisão de dosear a vitamina D deve resultar da
avaliação clínica e da existência de fatores de risco”, afirma, defendendo uma
abordagem personalizada que evite exames e tratamentos desnecessários.
Mais literacia, menos mitos
Para o médico de família, o principal desafio passa por
aumentar a literacia em saúde sobre este tema, combatendo a ideia de que viver
num país com muito sol é suficiente para garantir bons níveis de vitamina D.
A mensagem, conclui, é simples: mais do que contar as
horas de sol, importa compreender os fatores de risco, adotar estilos de vida
saudáveis e recorrer à avaliação médica sempre que exista indicação clínica.
Num país onde o sol nunca falta, o verdadeiro desafio pode estar, afinal, na
forma como vivemos e não na quantidade de luz que recebemos. In “Bom dia
Europa” - Luxemburgo
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