Procurando novas informações na
Internet, vi o título O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato, cliquei, havia
um aviso: "Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se
esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas
ressalvas."
O aviso, colocado pelo próprio autor, queria dizer ser
alguma coisa por ele bem elaborada, alguém ciente de ter escrito algo capaz de
ferir, mas sua paciência esgotada levara a tirar os filtros com que se tratam
certos temas.
Esse tipo de aviso preparatório funciona como um
chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou
mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma
tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e
holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses
dois povos europeus me lembrou textos da extrema-direita, textos racistas.
Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e
Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao
escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e
preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois
os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.
Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa
a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar
de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da
Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus?
Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do
assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os
Estados Unidos, mas antes de se criticar o Império americano, não resiste à
tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e
holandeses, "gente que pode ser desagradável e detestável", será que
isso não se chama preconceito?
E, enfim, o autor se define, depois das piruetas
iniciais, Hannah Arendet inclusive, ele vai falar de Israel, "que nunca
deveria ter sido criado", do sionismo, "mas não propriamente do povo
judeu e dos judeus em geral". E, en passant, vai falar do Irão.
Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa
me chamou a atenção - praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda,
estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247,
Carta Capital, etc.
Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como
sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus
comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir:
esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.
Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de
alguns críticos europeus do chamado movimento Sul Global, principalmente a
professora socialista Renée Fregosi da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não
tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução
no Brasil, pode me contatar).
Não é minha intenção responder ao texto tão viralisado ou
polemizar com o autor, na base um economista de formação, mas destacar dentro
do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar
a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente,
que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.
Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irão,
já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos. Sobre o Irão já deixei
muito comentários, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura
religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando
principalmente nos depoimentos cinematográficos de importantes cineastas
iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados
ao exílio para não serem presos.
Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar
brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda
do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da
época, Sartre e Foucault.
Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico
no Irão, se desfez com a criação de uma república factóide, na verdade uma
teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os
homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.
No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o
autor faz questão de exprimir seu desejo: "Vida longa ao Irão e ao grande
povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e
outros inimigos da humanidade!"
Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse de apoio
ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na
qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e
está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.
Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os
Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas,
ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a
situação das mulheres no Irão?
Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua
decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada
por munições, mísseis e drones. Ou em outras palavras, que Israel seja
destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irão, o império persa
ex-zorotroatista, do livre-arbítrio e da ética, transformado numa ditadura
teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irão, como o
Hamas. Rui Martins – Suíça
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Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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