Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

São Tomé e Príncipe - 6 roças classificadas como património mundial pela UNESCO

São Tomé e Príncipe, que é o primeiro país do mundo, em que todo o território foi classificado pela UNESCO como património mundial da biosfera, recebeu neste fim de semana, mais uma distinção internacional pelas roças, um dos mais valiosos patrimónios do país.


As roças preenchem quase 100% do território do arquipélago africano. São cerca de duas centenas, mas para já apenas 6 candidataram-se a património mundial.

A roça Água Izé que ostenta o nome do Barão português que introduziu a cultura do cacau na ilha de São Tomé no século XIX, a roça Diogo Vaz actualmente produtora de chocolate biológico, Monte Café cujas terras se estendem do centro ao norte da ilha de São Tomé, e a roça São João localizada nas portas da cidade de Angolares no sul da Ilha de São Tomé.

Sundy na ilha do Príncipe, a roça onde experimentos liderados por Albert Einstein comprovaram a teoria da relatividade é património mundial pela UNESCO, assim como a roça Belo Monte. Nas duas roças da ilha do Príncipe o património histórico, cultural e arquitectónico alimenta o turismo ecológico.

Num país de roças, outras centenas poderiam ser classificadas como património do mundo, não fosse a acelerada degradação das infra-estruturas, e em muitos casos pelo simples abandono.

O singular valor histórico, cultural e arquitectónico das roças expressa-se na confluência de gentes de várias origens que a habitaram. Principalmente os escravos depois chamados de contratados de Angola, Moçambique e Cabo Verde nas senzalas e os patrões portugueses nas casas grandes.

No terreiro das Roças a convergência de povos forjou manifestações culturais, que passaram a ser são-tomenses, nomeadamente a Puíta e a Tafua vindos de Angola.

A arquitectura das roças moldou o património são-tomense, à semelhança dos antigos feudos medievais na Europa. As roças funcionavam como um Estado dentro do outro Estado, tinham a sua própria igreja, o hospital, a morgue, a padaria, as oficinas mecânicas, de serralharia, de carpintaria, sem esquecer do sino que anunciava para os serviçais a hora do recolher obrigatório, e também a hora para a formatura no terreiro antes de começar o trabalho.

O quintal era vedado por grandes portões que impediam o acesso de pessoas estranhas à roça. Os serviçais de uma roça não poderiam ausentar-se, para visitar alguém numa outra roça, sem o aval por escrito do seu patrão. Para entrar numa outra roça tinha de apresentar a guia de marcha emitida pelo seu patrão.

«A nossa gratidão pela inscrição das roças de São Tomé e Príncipe, do sistema colonial e de migração forçada na lista de património mundial», afirmou a Ministra da Educação e Cultura Isabel de Abreu na Assembleia anual da UNESCO que decorreu na cidade de Busan, na Coreia do Sul.

Principal polo da economia do país durante vários séculos, as roças alimentaram a economia colonial através do cultivo da cana e os engenhos de açúcar, depois a cultura do café, e no início do século XIX com a cultura do cacau.

«Quando falamos agora da candidatura de 6 roças do país para património da UNESCO, e deveremos ter boas notícias sobre isso em 2026, temos que ter visão para proteger o património, mas também sabermos tirar rendimento deste mesmo património que nós protegemos», alertou João Carlos Silva em dezembro de 2025, numa entrevista concedida ao Téla Nón no terreiro da Roça São João.

Para a UNESCO as roças de São Tomé e Príncipe «ilustram o funcionamento de um sistema agroindustrial colonial em grande escala, baseado na migração e nos trabalhos forçados, desde o final do século XIX até meados do século XX, concebido para sustentar a produção de matérias-primas após a abolição da escravatura».

A protecção do património das roças representa um dos caminhos para a transformação económica do país, através do turismo. O antigo trabalho e vivência escravocrata nas roças garante hoje o desenvolvimento sustentado do turismo.

«Os próprios turistas fazem -se de trabalhadores, porque eles querem viver experiências únicas. São eles que colhem o cacau, que tratam da matabala, da mandioca, porque querem levar depois imagens e experiências. São os nossos contratados hoje. Nós revertemos as coisas, até brincamos com eles, e eles acham piada. Eles pagam para ser nossos trabalhadores», pontuou João Carlos Silva na Roça São João.

As Roças representam o passado, o presente e o futuro de São Tomé e Príncipe. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in Téla Nón


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