As
pegadas no passeio do vento
Tu
dormes minha virgem África!
Dormes
mais que uma pedra estática
Enquanto
não despertas
O
teu mundo murcha.
Levanta-te
do silêncio
E
esgravata no meu corpo precioso.
Ó
mãe África misteriosa
Vestida
do aroma de ouro
E
mineral
Como
vagueias no alto da solidão?
Minha
mãe
Minha
rainha
Minha
virgem
E
idolatrada vaidosa
Enxergo-te
a lacrimejar
Entre
as paredes insólitas da panela de barro
Curvando-se
aos pés da cacana e nhangana;
Das
resinas verdes sob as folhas do embondeiro.
Minha
mãe
Teus
olhos nus reflectem
Feridas
de desespero
Marcas
de solidão
Sorrisos
de omissão
Governação
histórica
E
mortes das órbitas nos hospitais.
Mãe
Enxergo-te
clamando
Sobre
as montanhas do Zambeze
Rios
e lagos do Nilo.
Lamento
seus acutilantes sorrisos
Que
hoje te condenam à solidão e desespero.
Mãe
Oiço
o romper da sua corda vocal
Chorando
a histeria de uma política
(velha
e caiada).
Seus
filhos (em troca da liberdade)
Recatando
feitiços
E
dívidas acumuladas.
Condenados
ao trabalho
E
à glória atrasada
Enxergo-te
a lamentar
(de
joelhos) cavando túmulos
Desterradas
no umbigo do seu olhar.
Minha
mãe
Oiço-te
a gargalhar com a sua enxada de pau
Rasgando
a terra por uma migalha.
Diz-me
mãe
Porque
carregas cicatrizes
Meu
berço coração
Filhos
magistrados condenados sem razão?
Seu
sangue mãe
Irrigando
areia no orvalho da manhã
Porque
tantos mistérios?
Guerras
no save
E
delírios das armas em muchungwe
Estiagem
e secas imundos.
Minha
mãe
Seu
corpo põe-me a duvidar
De
ti, minha amada
Mamã
África.
Ernesto Moamba – Moçambique
In Liberta-te, Mãe África, (2016, Brasília, Editora
do Carmo)
1º
Prémio Internacional Varal Literário, Divinópolis, Brasil
____________________
Ernesto
António Moamba (Ernesto Moamba), nasceu a 04 de Agosto de 1994, na
cidade de Maputo, Moçambique, África, onde reside. Concluiu o seu nível
pré-universitário em 2014, hoje é formado em Contabilidade Geral Básica e
Financeira, Gestão de Materiais e Educação Financeira. Poeta e escritor,
iniciou com apresentação dos seus trabalhos literários (poesias, contos,
crónicas) nas escolas e mais tarde resolveu divulgá-los em jornais, revistas e
redes sociais. A temática de sua escrita é marcada pela dor, desespero e o
sofrer da sua África esquecida. O poeta sublinha ter participado de duas
Antologias (nacional e internacional), nomeadamente O mundo dos sonhadores
e Corpo Negro, na qual teve participação de 4 países lusófonos
(Moçambique, Angola, Portugal e Brasil). Em 2014-2016, recebeu Menção Honrosa
nos prémios Quatro estacões e XIV Concurso Fritz Teixeira de Salles de poesia,
com os poemas “Mãe África“ e “liberta-te África”, respectivamente. Pela
primeira vez o autor participa na revista literária intitulada “kamba” editada
em Angola com participação de 4 países lusófonas.
É
membro do grupo Intercâmbio dos Escritores da Língua Portuguesa e presidente do
grupo Lusofonidades-: Divulgando literatas lusófonas. In “Wordpress.com”

Ernesto Moamba,
um garoto da África, um poeta maduro, filho da pura essência do sofrimento
humano, inequivocamente a sua poesia singular foi forjada neste crisol
incomparável. Não encontrei nas suas lágrimas poéticas, nem nos seus raros
sorrisos de encantamento existencial, nas suas frases ou versos alguma
influência direta de Camões ou de Fernando Pessoa, grandes mestres da poética
portuguesa. Todavia o que me parece é que aquilo que Moamba expressa no seu
canto de lamento, é algo muito visceral, a sua voz é a voz da verdade, da sua
própria alma, que se debate nas paredes de uma prisão cultural, num país que
ainda não se libertou das algemas da escravidão social que priva os africanos
da dignidade mínima que merece a alma humana. Por isso o título é tão
apropriado, Liberta-te Mãe África. Portanto não se trata de mais uma
cópia de poeta clássico, como Rimbaud, que desenvolveu a sua arte de fazer
poesia copiando e reescrevendo grandes nomes da poesia ocidental. Ernesto é
puro, simples e verdadeiro, sem firulas ou retóricas consegue atingir o seu
objetivo, o de nos convencer que é um estupendo poeta na flor da sua idade
biológica. Contudo, com apenas 22 anos não tem idade para escrever como
escreve, sobretudo poesia, e poesia com uma inconfundível paixão e
autenticidade que intrigam poetas experientes e a mim em uma análise breve como
faço hoje. A poesia de Ernesto é um cântico de lamento, uma ODE à África que
reverbera em todas as almas que têm sensibilidade e empatia com a dor do homem.
Viva a África, viva e venha para imortalidade efémera da poesia, Senhor Ernesto
Moamba.
Evan do Carmo, Brasília, em 15 de julho de 2016. In “Editora
do Carmo”
Principais obras publicadas:
Liberta-te, Mãe África – Foi o seu livro de estreia e reúne poemas marcados
pela temática da dor e sofrimento de África — uma “ode à África”. Publicado
originalmente pela Editora do Carmo, Brasília (2016).
Free Yourself, Mother Africa – (em
inglês). Versão traduzida de Liberta-te,
Mãe África, publicada nos Estados Unidos, em Nova Iorque (2020).
Libérate, Madre África – (em espanhol). Tradução da obra em espanhol, publicada
na Colômbia pela Editorial Torcaza (2020).
O Coelho Fugitivo: Entre a Esperteza e o Medo – literatura infanto-juvenil. Publicado pela Editora
Folheando, Pará, Brasil (2018-2020).
O Abecedário que se Fingiu de Mudo – literatura infanto-juvenil. Publicado pela Ibis Libris
Editora; baseia-se numa narrativa reflexiva sobre identidade e valor pessoal
via personagens do alfabeto (2022).
O Julgamento e a Sentença – Poesia. Mencionado como sendo a sua segunda obra de
poesia, publicada em Belém (Brasil) pela Editora Folheando.
O Coelho e o Crocodilo às Margens do Rio – literatura infanto-juvenil. Título mencionado entre as
suas obras infanto-juvenis publicadas no Brasil (2022).
Abecedário que Finge ser Mudo – Publicada na cidade da Beira, Moçambique pela Editorial
Fundza.
A Rainha e os Sábios do Campo – literatura infanto-juvenil editada no Brasil pela Avant
Gard Edições. (2024).
Angola – Escritor moçambicano Ernesto Moamba apresenta o
livro infantil "Abecedário que se fingiu de mudo"
Moçambique
- Livros de Andreia Edna da Silva e Ernesto Moamba lançados no CCBM