Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Brasil - Lungaretti, o náufrago da utopia

Celso Lungaretti, eterno combatente contra o capitalismo e contra as ditaduras, desde seus anos de secundarista, prepara a publicação do segundo volume do seu livro Náufrago da Utopia. No momento, Celso está hospitalizado, se recuperando de uma queda na qual quebrou uma perna.

Celso sabe que sua primeira luta contra a ditadura militar de 1964-85, que lhe deixou sequelas no corpo, precisou se ampliar com a atual transformação do capitalismo num monstro maior, naquilo que o escritor e político suíço Jean Ziegler, outro combatente recentemente falecido, qualificou de “canibalismo oligárquico”: a acumulação excessiva da riqueza por alguns bilionários paralela a novas regulações trabalhistas que penalizam ainda mais os pobres.

A incansável luta de Celso Lungaretti, iniciada com sua participação na luta armada, continua ainda ativa num blogspot, Náufrago da Utopia, com textos renovados semanalmente. Embora o blog tenha ultrapassado a marca dos 5 milhões de acessos, desde sua criação em 2008, Lungaretti não se lançou com a mesma força nos novos meios de comunicação como instagram ou nas redes sociais do Youtube e Facebook.

Enquanto aguardo o lançamento do Náufrago da Utopia 2: Memória e Legado, cujo objetivo é o de deixar um legado histórico sobre a geração que enfrentou a ditadura militar nos anos 60 e 70, minha intenção é a de lembrar a participação política de Lungaretti, um dos últimos combatentes daquela época ainda vivos.  Ele colaborava com o Observatório da Imprensa, quando Carlos Brickmann trabalhava com Alberto Dines.

No seu primeiro texto, no Observatório da Imprensa, Lungaretti criticava duramente a revista Veja, por um texto relacionado com o movimento MR-8, sob o título Um perigo chamado Veja.

Logo depois, outro texto criticava a colega Mônica Bergamo por ter noticiado. na Folha, o lançamento do livro de Carlos Brilhante Ustra, sem explicar se tratar do torturador do Doi-Codi, cuja ficha criminosa já havia sido publicada, na própria Folha pelo colunista Elio Gaspari, seguindo-se o protesto do colega jornalista Alípio Freire à Folha, não publicado. E o texto de Lungaretti ao ombudsman da Folha, também não publicado.

Destaque também para um texto em memória do jornalista Paulo Francis, "o mais influente jornalista brasileiro do século passado", para quem "tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação".

Seu último texto no OI lembra o sofrimento das famílias vítimas da repressão da ditadura, das famílias de seus companheiros mortos pela repressão. Depois de citar Eunice Paiva e Zuzu Angel, conta momentos emocionantes com a família do jovem Eremias Delizoicov, jovem de 18 anos assassinado pela repressão militar. E ainda a família de Massafumi Yoshinaga, que se suicidou depois de libertado pelo DOPS.

Foi também importante a luta de Celso Lungaretti em defesa do italiano Cesare Battisti, junto com Carlos Lungarzo e Eduardo Suplicy, luta da qual participei na Europa com a escritora Fred Vargas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Irão, os cineastas resistem

Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do cenário do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão, e indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irão, o realizador desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irão, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e morreram de 20 a 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução Iraniana, como eles chamam a polícia da ditadura islâmica, criada em 1979 pelo aiatolá Khomeini, transformada numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.

Mas qual a oportunidade deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história ou deformações sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana, afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, "mártires" vítimas dos agitadores, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, nem o líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, qualificando o de ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irão. Mesmo porque, embora muitos tenham esquecido ou fossem jovens para saberem, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeini, tão logo se implantou a ditadura teocrática islâmica no Irão.

Outro absurdo muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citada mesmo como avanço na frente dos ocidentais, é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos. Essa assimilação de homossexuais, trans e bissexuais submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou morte é pouco divulgada. E minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

É difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciavam a ditadura militar.

É estranho, mas pode ser falta de informação ou falsa informação, uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não são farinha do mesmo saco?

Trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país”. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

domingo, 28 de outubro de 2018

Brasil – Caetano Veloso: tempos sombrios estão a chegar ao meu país

No final da década de 60, a ditadura militar no Brasil deteve e prendeu muitos artistas e intelectuais pelos seus ideais políticos. Eu fui um deles. Os militaristas estão de volta



RIO DE JANEIRO - “O Brasil não é para principiantes”, dizia António Carlos Jobim. Jobim, que escreveu “A Garota de Ipanema”, foi um dos músicos mais importantes do Brasil, a quem podemos agradecer pelo facto de que os amantes da música em todos os lugares precisam de pensar duas vezes antes de classificar o pop brasileiro como “world music”.

Quando contei a um amigo americano sobre a linha do maestro, ele retorquiu: "Nenhum país é". O meu amigo americano tinha razão. De certa forma, talvez o Brasil não seja tão especial.

Neste momento, o meu país está a demonstrar que é uma nação entre outras. Como outros países do mundo, o Brasil está a enfrentar uma ameaça da extrema-direita, uma tempestade de conservadorismo populista. O nosso novo fenómeno político, Jair Bolsonaro, que deve vencer a eleição presidencial no domingo, é um ex-capitão do Exército que admira Donald Trump, mas parece mais com Rodrigo Duterte, o homem forte das Filipinas. Bolsonaro defende a venda sem restrições de armas de fogo, propõe uma presunção de autodefesa se um agente de autoridade matar um "suspeito" e declarar que um filho morto é preferível a um homossexual.

Se Bolsonaro vencer a eleição, os brasileiros podem esperar uma onda de medo e ódio. Na verdade, nós já vimos sangue. No dia 7 de outubro, um partidário de Bolsonaro esfaqueou o meu amigo Moa do Katendê, um músico e mestre de capoeira, devido a um desentendimento político no estado da Bahia. A sua morte deixou a cidade de Salvador de luto e indignação.

Recentemente, deparei-me a pensar nos anos 80. Estava a produzir discos e a tocar para multidões esgotadas, mas sabia o que precisava mudar no meu país. Naquela época, nós brasileiros estávamos a lutar por eleições livres depois de 20 anos de ditadura militar. Se alguém tivesse-me dito então que algum dia elegeríamos para a presidência pessoas como Fernando Henrique Cardoso e depois Luiz Inácio Lula da Silva, teria soado como uma ilusão. Então aconteceu. A eleição de Cardoso em 1994 e, de seguida, a de Lula em 2002 teve um enorme peso simbólico. Eles mostraram que éramos uma democracia e mudaram a forma da nossa sociedade ajudando milhões a sair da pobreza. A sociedade brasileira ganhou mais auto respeito.

Mas, apesar de todo o progresso e da aparente maturidade do país, o Brasil, a quarta maior democracia do mundo, está longe de ser sólida. Forças obscuras, de dentro e do exterior, agora parecem estar a impelir-nos para trás e para baixo.

A vida política aqui está em declínio há algum tempo - começando com uma recessão económica, depois uma série de protestos em 2013, o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e um enorme escândalo de corrupção que colocou muitos políticos, incluindo Lula, na prisão. As facções de Cardoso e da Silva ficaram gravemente feridas e a extrema-direita encontrou uma oportunidade.

Muitos artistas, músicos, cineastas e pensadores viram-se num ambiente onde ideólogos reacionários, que - através de livros, sítios e artigos noticiosos - têm denegrido qualquer tentativa de superar a desigualdade ligando políticas socialmente progressistas a um tipo de pesadelo venezuelano, gerando medo que os direitos das minorias irão corroer os princípios religiosos e morais, ou simplesmente instruindo as pessoas na brutalidade através do uso sistemático de linguagem depreciativa. A ascensão de Bolsonaro como uma figura mítica cumpre as expectativas criadas por esse tipo de ataque intelectual. Não é uma troca de argumentos: aqueles que não acreditam na democracia trabalham de formas insidiosas.

As principais agências noticiosas tenderam a minimizar os perigos, trabalhando de facto para Bolsonaro descrevendo a situação como um confronto entre dois extremos: o Partido dos Trabalhadores potencialmente a levar-nos para um regime autoritário comunista, enquanto Bolsonaro lutaria contra a corrupção tornando a economia do mercado amigável. Muitos na imprensa de grande circulação ignoram intencionalmente o facto de que Lula respeitou as regras democráticas e que Bolsonaro defendeu repetidas vezes a ditadura militar dos anos 60 e 70. Na realidade, em Agosto de 2016, enquanto votava contra Dilma, Bolsonaro fez uma demonstração pública de dedicar a sua acção a Carlos Alberto Brilhante Ustra, que administrou um centro de tortura nos anos 70.

Como figura pública no Brasil, tenho o dever de tentar esclarecer estes factos. Eu sou agora um homem velho, mas era jovem nos anos 60 e 70, e tenho memória. Então eu tenho que falar.

No final dos anos 60, a junta militar deteve e prendeu muitos artistas e intelectuais pelos seus ideais políticos. Eu era um deles, junto com meu amigo e colega Gilberto Gil.

Gilberto e eu passámos uma semana numa cela conspurcada. Então, sem nenhuma explicação, fomos transferidos para outra prisão militar por dois meses. Depois disso, quatro meses de prisão domiciliária até, finalmente, o exílio, onde ficámos por dois anos e meio. Outros estudantes, escritores e jornalistas foram presos nas celas onde estávamos, mas nenhum foi torturado. Durante a noite, porém, podíamos ouvir os gritos das pessoas. Eles eram presos políticos que os militares pensavam estar ligados a grupos de resistência armada ou a jovens pobres que foram apanhados em roubos ou na venda de drogas. Esses sons nunca saíram da minha mente.

Alguns afirmam que as declarações mais atrozes de Bolsonaro são apenas posturas. De facto, ele parece muito com muitos brasileiros comuns; está a demonstrar abertamente a brutalidade superficial que muitos homens consideram que precisam de esconder. O número de mulheres que votam nele é, em cada sondagem, muito menor do que o número de homens. Para governar o Brasil, ele terá que enfrentar o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o facto de que as pesquisas mostram que uma grande maioria dos brasileiros dizem que a democracia é o melhor sistema político de todos.

Eu citei a frase de Jobim - “O Brasil não é para principiantes” - para trazer um toque de cor divertido ao meu ponto de vista dos tempos difíceis. O grande compositor estava sendo irónico, mas ele falou a verdade e sublinhou as particularidades do nosso país, um país gigantesco no Hemisfério Sul, racialmente miscigenado, o único país com o português como língua oficial nas Américas. Eu amo o Brasil e acredito que pode trazer novas cores para a civilização; Eu acredito que a maioria dos brasileiros também a ama.

Muitas pessoas aqui dizem que estão planeando viver no estrangeiro se o capitão vencer. Eu nunca quis morar noutro país além do Brasil. E não quero agora. Fui forçado ao exílio uma vez. Isso não vai acontecer novamente. Eu quero que minha música, a minha presença, seja uma resistência permanente a qualquer característica antidemocrática que venha de um provável governo Bolsonaro. Caetano Veloso – Brasil in “The New York Times”