Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 5 de março de 2026

Irão - Aiatolá Khamenei, herói ou tirano?

Quem era Ali Khamenei, o chefe da teocracia iraniana, líder e guia supremo do governo do Irão?

Vamos deixar de lado se Israel e os Estados Unidos têm o direito de bombardear o Irão, ou vamos deixar de lado uma pergunta parecida mas relacionada com outros países - a Rússia tinha o direito de invadir e tem o direito de manter uma guerra de quatro anos contra a Ucrânia?

Por uma questão de direito internacional e de respeito à soberania, a resposta seria "não", mas por uma questão política, que alguns poderão qualificar de hipocrisia, quem justifica a invasão da Ucrânia pela Rússia geralmente condena os ataques ao Irão pelos EUA e Israel e vice-versa.

Será que a figura do aiatolá Khamenei consegue uma unanimidade de avaliação? O sucessor do aiatolá Khomeini, líder da revolução iraniana que derrubou o Xá Reza Phalevi, que desde 1989, até ontem, encarnava o Guia Supremo da Revolução Islâmica Iraniana, isso durante 37 anos, pode ser saudado na sua morte, ou assassinato, como um herói?

Ou será, como resume o jornal francês Le Monde, que Khamenei encarnava o governo islâmico, decidindo a linha política interna e externa do país, e no seu reinado optou por um endurecimento do regime e por uma repressão feroz de toda contestação? Ele era a autoridade suprema, guardião do dogma teocrático. Ou, fazendo-se um resumo - era um ditador e um tirano.

E surge, então, uma pergunta - quando os tiranos são aceitáveis e mesmo glorificados? O cinema brasileiro, na época da ditadura militar, denunciava os militares tiranos da época, o cinema iraniano denunciava e continua denunciando os crimes da tirania iraniana.

Foram os Festivais de Cinema de Berlim e de Locarno, nos quais fui um assíduo frequentador como jornalista, os primeiros a me chamarem a atenção para uma gradativa e discreta politização do cinema iraniano, depois do sucesso dos filmes de Abbas Kiarostami. Até ali, a esquerda estava entusiasmada com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão ao poder do imã Ruhollah Musavi Khomeini, o líder xiita iraniano.

Mas uma parte ficou de sobreaviso com a criação da chamada República Islâmica do Irão, quando se fundaram as bases de uma teocracia fundamentalista com perseguição dos próprios comunistas, que haviam apoiado a revolução contra o Xá, dos homossexuais e um rebaixamento do status feminino pondo fim à igualdade entre os sexos.

A República do Irão nada tinha e nada tem a ver com as repúblicas democráticas laicas ocidentais, era um governo repressivo, apoiado pelos Guardiães da Revolução, encarregados de repelir pela força seus opositores. É dessa época a fátua decretada por Khomeini contra o escritor Salman Rushdie por ter escrito o livro Versos Satânicos.

Com a morte do imã promovido a aiatolá, Khomeini, dez anos depois da revolução islâmica e queda do Xá, seu sucessor, com mais poderes que os de um Papa cristão, Ali Khamenei, apertou ainda mais os rigores do governo teocrático, provocando reações duramente reprimidas como aos manifestantes pelo assassinato da jovem curda Amina Mahi pelos guardiães da teocracia, pelo simples delito de não colocar corretamente o véu sobre os cabelos. Em fevereiro novas manifestações contra o regime foram ainda mais duramente reprimidas.

Mas retornando ao papel do cinema como divulgador do regime autoritário iraniano, por cineastas premiados em festivais como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof, cabe registrar uma feliz, embora infeliz coincidência. 

Dois filmes denunciam o tema e atos de tirania e concorrem mesmo ao próximo prêmio Oscar. São o Agente Secreto, de Kleber Mendonça, que trata da ditadura brasileira, na época do coronel Ustra, do Doi Codi; e do filme Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi premiado em Cannes, que trata da repressão, crimes e torturas, durante a teocracia iraniana.

Será que a repressão, a tortura, a tirania têm pesos diferentes segundo o cenário político e econômico internacional? São desculpáveis e elogiáveis ou condenáveis e puníveis? Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

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