O especialista em relações internacionais Luís Bernardino considera que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) chega ao 30.º aniversário sem ter conseguido afirmar-se junto da China, onde continua pouco conhecida
“A China não conhece a CPLP”, resumiu
Luís Bernardino, professor da Universidade Autónoma de Lisboa e coronel de
infantaria na reserva do Exército Português, que recentemente participou em
duas conferências em Pequim, na Universidade de Estudos Internacionais de
Pequim e na Embaixada de Portugal, sobre os 30 anos da organização, que se
assinalam em 17 de julho. “Uma coisa que não se conhece também não se sabe como
pode tirar vantagem dessa relação”, acrescentou.
Para Luís Bernardino, a organização “nunca se soube
posicionar em relação ao Oriente” e continua afastada dos principais mecanismos
criados por Pequim para aprofundar a cooperação com os países de língua
portuguesa. “O Fórum de Macau não é a CPLP. É um instrumento da China para
facilitar a cooperação com os países lusófonos e vai continuar a crescer. A
CPLP está fora desta jogada, por enquanto”, considerou.
Criado em 2003, o Fórum para a Cooperação Económica e
Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa reúne a China e os
países lusófonos, mas funciona à margem da estrutura institucional da CPLP,
embora utilize Macau como plataforma de ligação.
Para Bernardino, essa realidade traduz a forma como
Pequim privilegia uma abordagem simultaneamente bilateral e multilateral,
estratégia que descreve como “cooperação ‘bimultilateral’”. “A China
relaciona-se bilateralmente com cada país, mas cria também fóruns multilaterais
que reforçam essa cooperação. É uma abordagem pragmática que mais nenhuma
grande potência desenvolveu em África”, defendeu.
O especialista em Segurança e Defesa em África sublinhou
que a relação da China com os países lusófonos está longe de ser uniforme.
Enquanto com os Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa (PALOP) Pequim privilegia o financiamento de infraestruturas, o
comércio, o desenvolvimento e, cada vez mais, a cooperação na área da defesa,
com o Brasil a relação assume uma dimensão geopolítica distinta, impulsionada
pelo bloco de economias emergentes BRICS e pela cooperação entre países do
chamado Sul Global. “A China adapta a sua estratégia aos interesses que tem em
cada região. Não existe uma abordagem única para todos os países da CPLP”, explicou.
No caso de Timor-Leste, Luís Bernardino considerou que a
crescente importância estratégica do país no Indo-Pacífico deverá reforçar o
interesse chinês, tanto pela posição geográfica como pela futura integração
plena na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). “A China olha para
Timor-Leste como um parceiro estratégico no Indo-Pacífico, pela sua posição nas
rotas marítimas e pela crescente relevância regional”, afirmou.
O investigador considerou ainda que a rivalidade
estratégica entre a China e o Ocidente levou Pequim a reforçar a presença junto
dos países lusófonos, sobretudo em África, onde a cooperação se expandiu para
áreas como a segurança, a tecnologia e a defesa. “A cooperação deixou de ser
apenas económica. A defesa tornou-se um dos pilares centrais da relação da
China com praticamente todos os PALOP”, sustentou.
Essa evolução acompanha a transformação da presença
chinesa em África, inicialmente centrada no apoio político aos movimentos de
independência e, mais tarde, no financiamento de infraestruturas e acesso a
matérias-primas.
Hoje, segundo Luís Bernardino, a estratégia inclui também
formação militar, venda de equipamento, construção e modernização de portos e
uma presença naval cada vez mais frequente no continente africano. “A China faz
aquilo que uma potência global tem de fazer. É uma potência económica, mas sabe
que também precisa de afirmar uma dimensão militar”, afirmou.
Apesar da crescente influência chinesa, Bernardino
considerou que os países lusófonos, em particular os africanos, ainda não
conseguiram retirar todo o partido dessa relação. “Há uma dependência
crescente, sobretudo financeira. Os países têm de aprender a negociar melhor
com a China e transformar esta cooperação numa verdadeira parceria estratégica,
sem criar dependências excessivas”, defendeu.
O especialista considerou, por isso, que o maior desafio
da CPLP, três décadas após a sua criação, passa por aumentar a sua visibilidade
internacional e afirmar-se como interlocutor relevante junto de parceiros
estratégicos como a China. “A CPLP é aquilo que os Estados-membros querem que
ela seja. Se os próprios países não a valorizarem nos fóruns internacionais em
que participam, dificilmente outros atores globais o farão”, disse.
Integram a CPLP Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau
(actualmente suspensa devido ao golpe de Estado), Guiné Equatorial, Moçambique,
Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. In “Ponto
Final” – Macau com “Lusa”
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