Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Brasil - Fim do voto feminino?

Marli Gonçalves, a editora do site “Chumbo Gordo”, criado em 2015 por Carlos Brickmann, já falecido, talvez tenha sido quem deu o berro mais alto ao chamar Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, "de um imbecil, geneticamente transtornado".

Porquê? Por ter defendido num áudio, nos EUA onde está foragido, e distribuído pelas redes sociais a ideia de que as mulheres não sabem votar -"Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido".

Não é essa a primeira imbecilidade postada nas redes sociais, existem milhares invadindo seu celular ou computador. Mas essa declaração, logo depois curtida por milhares de outros transtornados, se tornou importante por ter sido dita e defendida pelo amigo próximo de dois filhos do ex-presidente, um deles, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência nas próximas eleições de outubro. E isso se agrava, quando lembramos ser o próprio ex-presidente Bolsonaro um convicto misógino.

Origem: Chumbo Gordo

 Mas para quem acha ser uma brincadeira de mau gosto essa história de acabar com o voto feminino, a realidade norte-americana mostra ser um projeto em andamento, defendido pela extrema-direita e por grupos evangélicos.

A ideia básica é a de que as mulheres são emotivas na escolha de seus candidatos. Por isso, a solução seria a de se acabar com o voto individual feminino em favor do voto familiar, que poderia ser debatido dentro de casa, mas caberia ao marido, chefe do lar, exercer o ato de votar, havendo só seu nome na lista de votantes.

Uma reportagem no The New York Times mostra haver mesmo mulheres conservadoras favoráveis ao fim do voto feminino.

O direito ao voto feminino foi uma longa luta das chamadas sufragistas e entrou na Constituição em 1920. Para muitos conservadores, entre eles líderes evangélicos, o voto das mulheres é, na maioria, pelo partido democrata, progressista, em favor do aborto e pela política de gênero.

Entre os líderes contra o voto feminino, como Paulo Figueiredo, amigo de Flávio Bolsonaro, estão os pastores Douglas James Wilson, Dale Partridge e o influenciador Jack Neel Nick Fuentes.

O escritor norte americano Douglas Kennedy escreveu um livro tratando de uma secessão provocada pelo crescimento dos evangélicos conservadores (cujos missionários vieram ao Brasil) e pelo desenvolvimento do chamado nacionalismo cristão, seguidores da teologia do domínio, pela qual as regras bíblicas devem ser aplicadas na sociedade dirigida por líderes evangélicos pentecostais.

Um sinal estranho ocorreu no dia 9 de março, quando o governo dos Estados Unidos se negou a assinar, na ONU, as conclusões da Comissão da Condição Feminina. 

O mais estranho é constatar que essa ameaça de regressão dos direitos das mulheres nos EUA por pressão religiosa, combatida pela esquerda, progressistas e feministas em geral, já é realidade nos países islâmicos, inclusive na teocracia iraniana, sem haver o mesmo protesto e a mesma mobilização da esquerda, dos progressistas e feministas.

Talvez com uma ligeira diferença, as mulheres podem votar no Irão mas não são consideradas iguais aos homens e não podem se candidatar aos postos de comando. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Alemanha - Euclides Teixeira representa o cinema angolano no Festival Internacional de Cinema de Munique com “Meu Semba”

O actor angolano Euclides Teixeira, protagonista do filme Meu Semba, marcou presença no Filmfest München (Festival Internacional de Cinema de Munique), na Alemanha, onde a longa-metragem integra a prestigiada CineVision Competition, uma das principais secções competitivas do evento.


A presença de Euclides Teixeira no festival reforça a crescente projeção internacional de Meu Semba, que continua o seu percurso em importantes festivais de cinema, contribuindo para a afirmação do cinema angolano no circuito internacional.

Durante o evento, o actor participou em apresentações do filme, sessões de perguntas e respostas com o público e encontros com profissionais da indústria cinematográfica. A delegação angolana contou ainda com a presença do realizador Hugo Salvaterra e do produtor Jorge Cohen, que representaram a equipa do filme num dos mais relevantes festivais de cinema da Europa. A deslocação de Euclides Teixeira foi viabilizada pelo Goethe-Institut, reforçando a importância da cooperação cultural internacional na promoção da circulação de artistas e obras cinematográficas.

Reconhecido como um dos principais festivais de cinema da Alemanha, o Filmfest München reúne anualmente cineastas, produtores, distribuidores e novos talentos de diferentes países, destacando-se pela diversidade da sua programação e pela promoção do cinema contemporâneo.

A seleção de Meu Semba para a CineVision Competition coloca o filme entre as produções internacionais em competição numa secção dedicada à descoberta de novos realizadores. A categoria distingue primeiras e segundas longas-metragens que se destacam pela qualidade artística, inovação narrativa e linguagem cinematográfica.

Sobre “Meu Semba”

Produzido pela Geração 80 e realizado por Hugo Salvaterra, Meu Semba é uma longa-metragem integralmente angolana que acompanha a vida de três irmãos em Luanda. Com uma abordagem intimista, o filme cruza memória, identidade e cultura local numa narrativa contemporânea que retrata os desafios e as relações familiares na capital angolana. In “O País” - Angola


Bélgica - Tem o pior histórico em relação a produtos químicos permanentes na Europa

A ONG ambiental ClientEarth argumenta que as autoridades belgas não tomaram nenhuma providência, apesar de terem conhecimento dos altos níveis de poluentes há anos


Advogados apresentaram uma queixa contra a Bélgica pela sua falha em proteger os seus cidadãos dos significativos riscos à saúde causados ​​por substâncias químicas persistentes.

A ClientEarth apresentou uma queixa de violação dos direitos humanos ao Comité Europeu dos Direitos Sociais (CEDS). A Bélgica tem os níveis mais elevados de substâncias químicas PFAS persistentes (PFAS) de qualquer país europeu.

“Não só a contaminação existe há muito tempo, como também notamos que as autoridades têm informações sobre esta contaminação há anos, senão décadas, e que muito pouco foi feito”, afirma Hélène Duguy, advogada ambiental da ClientEarth.

A ONG ClientEarth tem um histórico sólido de ações judiciais contra governos e empresas em questões ambientais. Esta é a primeira vez que a organização se dirige ao ECSR, órgão de monitorização do Conselho da Europa que avalia se os Estados-membros estão respeitando a Carta Social Europeia. "Escolhemos este comité porque sabemos que ele tem um grande poder de fiscalização", disse Duguy à Euronews Earth.

Bélgica: o principal foco europeu de PFAS

PFAS, também conhecidos como "químicos eternos", são um grupo de mais de 10.000 substâncias químicas sintéticas amplamente utilizadas pela indústria pelas suas propriedades de resistência à água, manchas e gordura. Elas também são encontradas em caixas de pizza, panelas antiaderentes, absorventes higiénicos e roupas para atividades ao ar livre.

Eles têm sido associados a múltiplos riscos à saúde, como certos tipos de cancros, doenças metabólicas e problemas de fertilidade.

De acordo com o projeto The Forever Pollution Project , que coletou dados e mapeou a poluição por PFAS em todo o continente, a Bélgica apresenta os níveis mais elevados de poluição por PFAS na Europa.

Entre os principais locais belgas afetados pela poluição por PFAS, destacam-se Zwijndrecht, uma cidade próxima a Antuérpia fortemente impactada devido à sua proximidade com a fábrica da multinacional 3M, e Chièvres, perto da fronteira francesa, onde a contaminação foi associada a uma base aérea próxima. O mapa também mostra que Bruxelas é significativamente afetada pela poluição por PFAS, particularmente nas áreas ao redor de Anderlecht e Uccle.

A reclamação da ClientEarth baseia-se em exemplos como o de Zwijndrecht, onde as agências públicas tinham conhecimento do problema das PFAS anos antes do escândalo vir à tona em 2021.

Membros do governo flamengo, incluindo Bart De Wever, então prefeito de Antuérpia e atual primeiro-ministro da Bélgica, foram informados da contaminação já em 2017, mas não tomaram nenhuma providência.

Já no início dos anos 2000, a 3M e as agências flamengas discutiam a poluição por PFAS na área próxima à fábrica, mas subestimaram a dimensão do problema.

Quais são os riscos para a saúde associados aos produtos químicos eternos?

Os PFAS estão associados a diversas condições de saúde. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde classificou o ácido perfluorooctanoico (PFOA) como carcinogénico para humanos e o ácido perfluorooctanossulfônico (PFOS) como possivelmente carcinogénico para humanos.

Estas duas substâncias PFAS são proibidas na UE, mas, como podem levar centenas de anos para se decompor, ainda estão presentes no solo, na água e no sangue de pessoas em muitas áreas contaminadas da Europa.

O cancro não é o único risco à saúde associado aos PFAS. "Estes compostos estão associados a várias doenças metabólicas, como diabetes, diminuição da fertilidade e obesidade", disse Philippe Grandjean, professor de medicina ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública de Copenhague, à Euronews Earth.

Grandjean destacou que os PFAS representam um risco não apenas para os adultos atualmente expostos a eles, mas também para as gerações futuras.

“Os PFAS afetam a saúde do sêmen do pai, ou seja, a qualidade do sêmen, e aumentam o risco de infertilidade ou aborto espontâneo”, explicou. “Os PFAS atravessam a placenta e, portanto, a mãe transmite essa carga de PFAS para o feto. Além disso, os PFAS são excretados no leite materno”, acrescentou.

De acordo com Grandjean, todos esses riscos à saúde devem, portanto, servir como importantes incentivos para que os governos invistam em prevenção.

Como os produtos químicos eternos se tornaram uma questão de direitos humanos

Não é a primeira vez que a poluição por PFAS é associada a violações de direitos humanos. Em 2024, especialistas das Nações Unidas classificaram a poluição por PFAS gerada pela DuPont e pela Chemours na Carolina do Norte como uma questão de direitos humanos.

Ações judiciais sobre a poluição por PFAS estão em andamento em toda a Europa, com ONG ambientais e moradores a processar a França pela sua falha em lidar com a poluição por PFAS em maio de 2026. Uma decisão é esperada em 2027.

“Queremos mesmo apresentar uma queixa que apoie e seja complementar a essas ações [europeias]”, explica Duguy.

“PFAS não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão humana, e os governos e as autoridades públicas têm o dever de proteger esses direitos”, continuou ela.

Num comunicado à imprensa, a ClientEarth observou que a ECSR deverá decidir sobre a admissibilidade da reclamação em 2027 e que uma decisão final é estimada em dois a três anos.

Com esta denúncia, a ClientEarth espera provocar mudanças concretas na regulamentação de PFAS na Bélgica.

Especificamente, eles querem que a Bélgica proíba todos os produtos químicos persistentes e forneça soluções para as comunidades afetadas. “Essas medidas incluem, por exemplo, garantir o monitoramento biológico sistêmico das pessoas, especialmente das populações vulneráveis, como crianças e gestantes. Mas também começar a remediar e descontaminar, algo que ainda é muito lento na Bélgica”, disse Duguy à Euronews Earth.

No entanto, a limpeza da poluição por PFAS é incrivelmente complexa. De acordo com um estudo publicado na segunda-feira (6 de julho) no periódico Environmental Science: Processes and Impacts, mesmo que a Europa investisse 100 mil milhões de euros por ano em remediação, isso removeria uma fração ínfima desses produtos químicos persistentes do meio ambiente. Euronews



Macau - Curso de Verão em Português alimenta desejos profissionais e culturais

Guiados por motivações profissionais ou culturais, quatro centenas de alunos estão a participar na 40.ª edição do Curso de Verão de Língua Portuguesa na Universidade de Macau


Docentes da Universidade de Macau (UM) consideraram que o interesse dos estudantes chineses pela língua portuguesa passa principalmente por procurar melhores oportunidades de emprego, mas é também motivado pela curiosidade em relação à cultura lusófona.

A universidade iniciou oficialmente na segunda-feira a 40.ª edição do Curso de Verão de Língua Portuguesa, iniciativa reúne cerca de 400 participantes provenientes de Macau, Hong Kong, China Continental, Malásia e Canadá, mantendo um dos números de inscritos mais elevados dos últimos anos.

Embora a maioria dos participantes seja constituída por estudantes universitários da China Continental interessados em melhorar as perspectivas de carreira, os coordenadores do curso sublinham que uma parte significativa procura o português por razões pessoais e culturais.

“Os estudantes universitários querem aproveitar o português para terem um trabalho melhor no futuro, mas também temos estudantes que já estão no mercado de trabalho e que provavelmente não precisam de saber português pelo trabalho ou para ganhar mais, mas porque gostam. Querem sentir a língua e a cultura por detrás da língua”, disse à Lusa Lu Chunhui, professor e investigador do Departamento de Português da UM e coordenador do Curso de Verão.

“Ainda me lembro de um estudante de cerca de 70 anos de Hong Kong, o mais velho que tive nas minhas turmas. Muitas pessoas como ele quiseram esta aprendizagem sem um objectivo prático, mas mostrando um empenho extraordinário, o que achei muito comovente”, afirmou.

A também coordenadora do curso, Tânia Ferreira, considera que a procura demonstra o interesse sustentado pela língua portuguesa na região. “Este ano foram registadas 407 inscrições, com todas as vagas preenchidas nas primeiras horas, um registo recorde. Para um curso intensivo, é de louvar”, afirmou a professora auxiliar da Faculdade de Letras da UM.

A docente reconheceu que, para muitos participantes, o domínio do português continua associado às oportunidades profissionais nos países lusófonos. “Tendo em conta o perfil dos inscritos nesta edição, que são maioritariamente universitários do interior da China, o interesse é melhorar as suas competências na língua para de facto trabalharem com a língua portuguesa em países como o Brasil, os PALOP e, claro, Portugal”, explicou.

Mas, acrescentou que o programa pretende igualmente aprofundar o contacto com a cultura dos países de língua portuguesa e com a identidade de Macau. “O curso também é uma oportunidade para aprofundarem o seu conhecimento da cultura portuguesa ou brasileira. Este ano incluímos também elementos sobre Macau, como o patuá, sendo importante mostrar um exemplo vivo da herança portuguesa em Macau”, disse.

Para o vice-reitor para os Assuntos Globais da UM, Rui Martins, a longevidade do curso demonstra o interesse contínuo pelo português na Ásia sendo o “curso mais antigo oferecido na Universidade de Macau”, instituição que faz também este ano 45 anos. “Foi considerado a certa altura pelas autoridades da universidade terminar o curso por não dar lucro e custar muito dinheiro. Mas, sempre com o apoio dos colegas do Departamento de Português, foi possível mantê-lo em funcionamento e deixou de ser deficitário há já algumas décadas”, disse.

“Isso demonstra o interesse que há pelo curso, vendo a quantidade de alunos, não só da China, mas também de países e regiões circundantes, o que nos deixa olhar para o futuro com esperança”, acrescentou.

O Departamento de Português da UM conta actualmente com mais de 30 docentes, incluindo aqueles que trabalham a tempo parcial, e cerca de 400 alunos. Os cursos deste departamento chegam, no entanto, a mais de mil alunos em toda a UM, incluindo alunos da faculdade de Direito e outros que frequentam as disciplinas de língua oferecidas transversalmente em todos os cursos da instituição de ensino superior.

Segundo a UM, durante as três semanas de curso, os participantes serão acompanhados e orientados pelos professores do Curso de Verão. “Aliando a teoria à prática, serão dinamizadas actividades e vários workshops diversificados que englobam a aprendizagem em domínios tão variados como as Danças Folclóricas, a Literatura, a Linguística, a História, a Tradução e a Cultura dos Países Lusófonos”, salientou a instituição de ensino superior.

Com o apoio da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude, o curso inclui uma turma destinada a estudantes do ensino secundário de Macau. Esta edição do curso conta ainda com o apoio da Fundação Macau. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


Lusofonia - Falhas no acompanhamento da crise política na Guiné-Bissau e com Domingos Simões Pereira

Analistas declararam à Lusa, no âmbito dos 30 anos da CPLP, que a organização falhou no acompanhamento da crise na Guiné-Bissau, especialmente com o seu ex-secretário-executivo, e consideraram a suspensão do país um acto simbólico.

O analista político guineense Rui Landim criticou a actuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que, a seu ver, desde os primórdios, nunca teve uma actuação eficaz no seu país.

“A CPLP foi criada em 1996, em 1998 a Guiné-Bissau mergulhou numa guerra civil e logo aí não houve intervenção”, reflectiu.

Agora, o país encontra-se, pela primeira vez na sua História, suspenso da CPLP, assim como de outras organizações, devido ao golpe de Estado militar de 26 de Novembro de 2025, na véspera da divulgação dos resultados eleitorais de 23 de Novembro.

Nesse seguimento, o activista guineense questionou: “Qual é a consequência dessa suspensão? A Guiné-Bissau vive há cerca de 12 anos uma crise [política] e nada de CPLP”.

Além disso, prosseguiu, Domingos Simões Pereira, líder do histórico PAIGC, que foi secretário-executivo da CPLP entre 2008 e 2012, está detido e a organização lusófona, aparentemente, nada fez sobre isso.

O professor moçambicano Elísio Macamo corrobora essa opinião. Domingos Simões Pereira, líder da oposição guineense e ex-secretário-executivo da CPLP, está detido há meses “sem nenhuma acusação” e “não se vê nada da parte da CPLP em relação a isso”, criticou. “É nesses momentos que se pode perguntar, com certa legitimidade, para que é que uma organização dessas existe”, frisou o docente.

O especialista brasileiro em História das Relações Internacionais Adriano de Freixo questionou o efeito prático do envio de uma missão de ofício ao país. “Mandar uma missão de ofício seria muito mais para chegar lá e verificar que, de facto, a situação se deteriorou desde o golpe de Estado, que a oposição está calada, que há violações de direitos humanos, que há repressão a manifestações contrárias ao Governo militar. [Essa missão] iria lá, confirmaria isso, a Guiné-Bissau continuaria suspensa, e aí, qual a consequência prática disso?”, reflectiu.

“O que significou para a Guiné-Bissau a suspensão da CPLP? Nada. É uma coisa mais simbólica do que outra coisa. Não tem efeito prático, da mesma maneira que uma missão no país não teria nenhum efeito prático porque não há mecanismos dentro da CPLP que permitam exercer controlo sobre os Estados-membros para que cumpram os princípios fundadores”, acrescentou.

Para o presidente da Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe, Liberato Moniz, tem havido uma indiferença internacional enorme perante o que se passa na Guiné-Bissau. “Nós vemos, na televisão portuguesa e brasileira, guerras que estão a milhares de quilómetros, mas o que está mesmo aqui ao lado ninguém fala”, lamentou o ex-pré-candidato presidencial, que considerou que a missão de ofício à Guiné-Bissau “faz todo o sentido”, mas exige “objectivos concretos” para ajudar a mudar a situação do país.

Divergindo sobre o estatuto do país na comunidade, o politólogo angolano Almeida Henriques defendeu que a Guiné-Bissau “não reúne condições para pertencer à organização”. O analista argumentou que a falta de verticalidade institucional, a profunda instabilidade política interna e a necessidade de respeitarem os valores democráticos impedem o país de responder aos anseios mínimos exigidos pela CPLP.

Por outro prisma, o analista português Fernando Jorge Cardoso explicou que “o que se passa na Guiné-Bissau tem raízes regionais que ultrapassam a CPLP”. “O que aconteceu, como sabemos, foi uma encenação de golpe. Ele [Sissoco Embaló] ia perder as eleições e, portanto, fez-se de conta que houve um golpe de Estado. Mas sabe-se que ele tem apoio da Nigéria e nenhum país da CPLP vai confrontar Lagos”, explicou.

“Qual é o país da CPLP que se vai meter com a Nigéria? Portugal? Nem pensar. O Brasil? Nem pense”, acrescentou o especialista em estudos africanos.

O professor na Universidade Autónoma de Lisboa sustentou que a não interferência da CPLP na Guiné-Bissau se explica porque “aqueles que mandam na CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, sediada em Abuja, na Nigéria] não deixam”. “As organizações regionais africanas têm primazia territorial e a CPLP não tem capacidade política nem militar para agir de forma independente neste contexto”, contextualizou.

Para o sociólogo cabo-verdiano Redy Lima, comparar a CPLP à CEDEAO é injusto, pois “a CEDEAO tem muito mais peso, tem muito mais presença”. De acordo com o analista, a “Guiné-Bissau é um grande exemplo do peso político inexistente da CPLP”.

Por outro lado, e referindo-se directamente a Portugal, “o passado colonial acaba sempre por envergonhar um pouco a acção da CPLP”, pois facilmente é usado esse argumento contra a ex-metrópole, como o próprio Sissoco Embaló chegou a fazer, recordou.

Sobre o anúncio de 23 de Junho relativo à possibilidade da saída da Guiné-Bissau da CPLP, após as eleições previstas para Dezembro, Fernando Jorge Cardoso declarou que uma ruptura ou saída formal do país é improvável, uma vez que o actual regime depende do financiamento de Portugal e da União Europeia, assim como de doadores internacionais, defendido pela diplomacia portuguesa.

A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de Julho, é composta por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que detém a presidência rotativa temporária da organização desde a suspensão de Bissau. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Japão - Crianças descobrem histórias portuguesas em Tóquio

O Centro Cultural Português de Tóquio vai promover, no próximo 25 de julho, a atividade “Viagens na Minha Terra – Histórias e Jogos em Português para Crianças”, uma iniciativa dirigida aos mais novos que terá lugar na embaixada de Portugal no Japão


A decorrer entre as 10h30 e as 12h30 (hora local), a sessão será realizada em português e convida as crianças a descobrir a língua e a cultura portuguesas através da leitura, de jogos e de atividades criativas.

O programa inclui a leitura do livro Cem Sementes que Voaram, da autoria de Isabel Minhós Martins, com ilustrações de Yara Kono. A partir da história, os participantes serão convidados a brincar, criar e desenvolver atividades inspiradas na obra, levando ainda para casa a sua própria semente.

As inscrições decorrem até 20 de julho, através de um formulário online. A atividade realiza-se mediante um número mínimo de 10 crianças e todos os participantes deverão estar acompanhados por um adulto. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo



Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde valida estratégia para vacinas contra cancro colorretal

Estudo identificou vulnerabilidades persistentes em tumores colorretais e fornece bases para o desenvolvimento de imunoterapias personalizadas


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou vulnerabilidades imunológicas persistentes em tumores colorretais que poderão ser exploradas no desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas contra o cancro.

O estudo, agora publicado na prestigiada revista científica Gut, centrou-se em tumores colorretais conhecidos por produzirem muitos neoantigénios, isto é, moléculas alteradas que podem ser reconhecidas pelo sistema imunitário como sinais de perigo. Na maioria das situações, o sistema imunitário consegue interpretar esses sinais e eliminar completamente as células tumorais.

O problema surge quando este mecanismo falha. “Nesses casos, o tumor promove um ambiente imunossupressor que impede o sistema imunitário de completar a tarefa e, por isso, o tumor desenvolve-se”, explica Helena Xavier Ferreira, primeira autora do artigo.

Apesar de o tumor crescer, ele não deixa de ser reconhecido pelo sistema imunitário. Na verdade, muitas das suas células sofrem mutações que resultam na produção de mais neoantigénios. “O desafio passa a ser ajudar o sistema imune adormecido pelo ambiente imunossupressor a fazer aquilo que já sabe fazer: atacar estas células com neoantigénios”, acrescenta Carlos Resende, um dos autores seniores do artigo.

Esta descoberta tem importantes implicações clínicas. Ao identificar os neoantigénios que provocam uma verdadeira resposta imunológica, este trabalho fornece conhecimento fundamental para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o cancro. Estas vacinas são concebidas a partir das características genéticas específicas de cada tumor.

“Estamos perante uma das expressões mais avançadas da medicina personalizada. Cada vacina tem de ser desenhada para um doente específico, tendo em conta as mutações e os neoantigénios presentes no seu tumor. Uma mesma vacina não será eficaz em doentes diferentes”, sublinha José Carlos Machado, coordenador do grupo de investigação.

Além de contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, este trabalho ajuda a compreender melhor a forma como os tumores evoluem sob a pressão exercida pelo sistema imunitário. Os resultados reforçam a perspetiva de uma nova geração de imunoterapias personalizadas, capazes de explorar as vulnerabilidades únicas de cada tumor e de potenciar a capacidade natural do organismo para combater o cancro. Universidade do Porto - Portugal