A ausência
de uma tradução em português desta biografia do escritor argentino é uma prova
da indigência cultural brasileira
I
Uma prova da assustadora indigência
cultural que assola o País é o fato de a publicação de Borges: una
biografía literaria (Cidade do México, Fondo de Cultura
Económica, 1987), do crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), nunca
ter despertado o interesse de uma editora brasileira. Um processo de emburrecimento
coletivo que, nos últimos tempos, só se tem acelerado com a invasão dos meios
digitais, cujo exemplo dos mais representativos é o fato de a Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo (Imesp), que sempre publicou obras importantes, ter sido
extinta como editora de livros impressos em 2021.
Trata-se de uma obra que procura contar a história de vida
do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), constituindo uma
experiência das mais inauditas, pois foge a todos os padrões que se conhece.
Foi lançada originalmente em inglês (Jorge Luis Borges: a
literary biography), pela editora norte-americana E. P. Dutton, de
Boston, em 1978, em tradução do jornalista uruguaio Homero Alsina Thevenet (1922-2005),
realizada a pedido do autor, e ganhou em 1983 uma tradução em francês. Depois
de lançada pela editora mexicana, a obra ainda recebeu segunda edição em 1990.
E, hoje, constitui uma raridade que só se encontra à venda no site da empresa
de tecnologia e comércio eletrônico Amazon, a um preço estratosférico.
De fato, ao contrário das grandes biografias que geralmente
abordam a vida e a obra de um escritor já falecido, este livro de Rodríguez Monegal
foi escrito ao tempo em que o biografado estava vivo. Curiosamente, o biógrafo,
mais jovem 22 anos, faleceu em 14 de novembro de 1985, antes do biografado, que
morreu a 14 de junho de 1986. Por isso, em algumas partes do livro, fala-se de
Borges como se ele estivesse vivo. Além de recuperar entrevistas que o escritor
deu ao longo da vida, inclusive uma que concedeu ao grande jornalista
brasileiro Leo Gilson Ribeiro (1920-2007), publicada pela revista Veja,
em 26/7/1970, o biógrafo conversou pessoalmente com a mãe de Borges, em 1971.
Sem contar que foi amigo pessoal de Borges, que, inclusive, citou-o em seu
conto La otra muerte, que faz parte do livro El Aleph
(1949).
II
A obra começa por mostrar os primeiros anos de Borges, que
em criança era chamado de Georgie pelos familiares e amigos, sem deixar de
fazer um retrospecto a respeito de seus antecedentes, entre os quais um bisavô
materno, o coronel Manuel Isidoro Suárez (1799-1846), lembrado como “o herói da
batalha de Junín” por ter comandado tropas de cavalaria peruanas e colombianas
em suas guerras de independência, passando por seus genitores, o advogado e
professor Jorge Guillermo Borges (1874-1938) e a tradutora Leonor Rita Acevedo
Suárez (1876-1975), que ainda viviam com os pais quando Georgie nasceu. A
preocupação dos pais de Georgie teria sido principalmente com os olhos do
rebento, já que a cegueira era endêmica na família. De fato, essa debilidade
acabaria por perseguir Borges, principalmente a partir dos 40 anos de
idade.
O pai de Borges se aposentara cedo devido a uma cegueira
quase total e, em 1914, decide passar uma temporada com a família na Europa,
instalando-se em Genebra, depois de fugazes passagens por Londres e Paris. Na
Suíça, o futuro escritor descobre a literatura francesa, especialmente Victor Hugo
(1802-1885), Émile Zola (1840-1902), Voltaire (1694-1778), Gustave Flaubert
(1821-1880), Guy de Maupassant (1850-1893) e Charles Baudelaire (1821-1867), e a
inglesa, além de aprender alemão e ler filósofos famosos como Arthur Schopenhauer
(1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por meio de uma tradução em
alemão, descobre também o poeta norte-americano Walt Whitman (1809-1892), que o
haveria de impressionar sobremaneira, a ponto de passar a imitá-lo, como
confessa em sua autobiografia.
Cinco anos depois, a família se radica em Mallorca, na
Espanha, transferindo-se depois para Sevilha, onde ele começa sua vida
literária, que haveria de se intensificar ao mudar-se para Madrid, onde
conheceria muitos poetas, especialmente Rafael Cansinos Asséns (1883-1964), que
seria seu mestre, e Guillermo de Torre (1900-1971), que haveria de se casar com
sua irmã, a artista plástica e crítica de arte Norah Borges (1901-1998). Em
1921, retorna a Buenos Aires e passa a participar de um grupo de poetas sob a liderança
do escritor Macedonio Fernández (1874-1952), companheiro de estudos de seu pai,
Jorge Guillermo, que também tivera aspirações literárias. A essa época, o pai começa a escrever uma
novela, que não agradaria muito ao filho, que já passara a ter projetos
literários próprios. Viviam numa casa localizada na rua Bulnes, não muito
distante do bairro de Palermo, onde o futuro escritor passou a desenvolver o
hábito de caminhar pelas ruas de Buenos Aires, só ou na companhia de amigos.
III
Em 1923, publica, em edição de autor, Fervor de
Buenos Aires, reunindo poemas que escrevera nos dois anos
anteriores, com capa de Norah Borges. A partir daí, sua carreira literária deslancha,
com a publicação de outros livros, como Luna de enfrente
(1925), poemas, e Inquisiciones (1925), El tamaño de
mi esperanza (1926) e El idioma de los
argentinos (1928), três livros de ensaios que excluirá de suas Obras
completas (1952). Por essa época, abandona o estilo neobarroco de sua
juventude para aproximar-se do classicismo que haverá de marcar a sua obra na maturidade.
Mas ainda encontra ânimo para escrever uma biografia de Evaristo Carriego
(1883-1912), poeta popular argentino que costumava visitar aos domingos a casa
de seus pais quando ele era criança.
Nos anos 30, ainda produz outro livro de ensaios, Discusión
(1932), e conhece o escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que seria seu
discípulo e amigo fraterno. Já em 1933 a revista Megáfono dedica um
número a sua obra, com artigos de escritores latino-americanos e espanhóis. Já
consagrado como poeta e ensaísta, publica resenhas de livros, traduções e
relatos supostamente autobiográficos. De 1935, é o seu livro Historia universal
de la infamia, coletânea de narrativas que já haviam sido
publicadas na revista Crítica, de Buenos Aires.
IV
Como observa Rodríguez Monegal, na véspera do Natal de 1938,
já morto o pai em consequência de uma hemiplegia em função de um acidente
vascular cerebral (AVC), o poeta, prejudicado por sua visão já falha, bate a
cabeça numa janela, sofrendo um ferimento que infeccionou e produziu uma
septicemia que quase lhe custaria a vida. A partir daí, segundo o biógrafo,
começa a escrever narrativas francamente fantásticas. E passa a depender da ajuda
de sua mãe, tal como fizera seu pai, já que se vai ficando gradualmente cego.
Em 1941, publica El jardín de los
senderos que se bifurcan, narrativas fantásticas, e
Antologia poetica argentina, com Bioy Casares e Silvina
Ocampo (1903-1993), além de fazer traduções, nos quais se inclui a que fez de Las
palmeras salvajes, do norte-americano William Faulkner. Em 1942,
publica Seis problemas para don Isidro Parodi,
contos policiais, com Bioy Casares, sob o pseudônimo H. Bustos Domecq, No ano
seguinte, sai Poemas, que reúne sua obra poética até essa data.
Um episódio curioso da vida de Borges que Rodríguez Monegal
recolhe é aquele em que, ao tempo do governo populista e autoritário de Juan
Domingo Perón (1895-1974), o poeta é destituído de seu cargo na Biblioteca
Municipal de Buenos Aires, sendo “promovido” a inspetor de aves e coelhos nos
mercados municipais, o que o levaria a pedir demissão do emprego público. Para
sobreviver, passaria a fazer conferências e ditar cursos, sendo por isso
vigiado por agentes da polícia política. Dá à luz outros livros em colaboração
com Bioy Casares e, em 1947, publica, por sua própria conta, Nueva refutación
del tiempo, ensaio fundamental em que argumenta que o tempo é uma
ilusão e que seria recolhido em Otras inquisiciones (1952).
Com a queda de Perón em 1955, o novo governo nomeia Borges
diretor da Biblioteca Nacional, atividade que divide com a função de professor
de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de
Buenos Aires, a partir de 1956. Escreve outros livros em colaboração com Bioy
Casares, mas logo terá de abandonar a escritura, em razão de sua cegueira
crescente.
Com isso, lentamente começará a aprender a compor textos de
memória e a ditá-los para “familiares, amigos, colaboradores, entrevistadores,
críticos e até inimigos”. Mesmo quase cego, começa a ficar conhecido em todo o
mundo ocidental e é convidado a dar um curso na Universidade de Texas, em
Austin, em 1962. No ano seguinte, aparecem nos Estados Unidos e Inglaterra dois
livros seus em tradução: Ficciones e Labyrinths. Ainda em 1962, profere
conferências em Inglaterra, Escócia, França, Espanha e Suíça. E continua a
publicar livros, alguns em colaboração com Bioy Casares e María Esther Vázquez
(1937-2017), que fora sua namorada no início dos anos 60 e que também publicou
uma biografia do poeta dez anos depois de sua morte (Borges: esplendor
y derrota).
V
A 21 de setembro de 1967, aos 68 anos, casa-se com a
escritora Elsa Astete Millán (1910-2001), então viúva, que conhecera em sua
juventude, quando ela tinha 17 anos, e que deixara de ver por mais de trinta
anos. Aliás, apesar de solteirão, Borges, embora tímido, segundo o biógrafo, teria
acumulado várias aventuras amorosas. Rodríguez Monegal ressalta que, na maior
parte de sua obra, o sexo não aparece, ou melhor, “assim como o sexo está
tecido na textura de seus sonhos, também está na textura das citações com que
emascara sua voz privada”.
Naquele ano viaja com sua mulher para os Estados Unidos,
onde dá várias conferências. Em 1968, o casal vai até Israel, onde o poeta dita
conferências em Tel Aviv. No retorno, em 1969, é homenageado por escritores
argentinos pela passagem de seus 70 anos. Em 1970, publica El informe
de Brodie, contos. Naquele ano, em outubro, divorcia-se de Elsa. Visita
o Brasil para, em São Paulo, ganhar um prêmio oferecido pelo governo do Estado.
Em enquete feita pelo jornal italiano Corriere della Sera obtém
mais votos como candidato ao Prêmio Nobel do que o premiado escritor russo
Alexander Solzhenitsyn (1928-2008). Aliás, a Academia Sueca nunca lhe
distinguiria com o prêmio, o que só haveria de contribuir para o desprestígio
da instituição.
Faria novas viagens aos Estados Unidos, Europa e Israel,
onde receberia o Prêmio Jerusalém em 1971. Em 1975, publicaria três obras
fundamentais: El libro de arena, contos
fantásticos; La rosa profunda, poemas; e Prologos,
que reúne textos de apresentação que escrevera para livros de outros autores.
Nesse ano, morre aos 99 anos sua mãe, depois de uma agonia de dois anos. Até então, ela “passara a ser os seus olhos”.
Por essa época, o poeta teria conhecido a escritora Maria Kodama (1937-2023),
que passaria a trabalhar como sua secretária. Com ela, viaja para visitar a
Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A partir daí, as viagens, as homenagens,
os prêmios, os simpósios, os doutorados honoris causa e novos
livros haveriam de se multiplicar.
A 27 de março de 1983, o jornal La Nación, de
Buenos Aires, publica o relato “Agosto 25, 1983” em que profetiza o seu
suicídio nessa data. Mas não cumpre o prometido, tendo respondido mais tarde a
um jornalista que não o fizera “por covardia”. Nesse mesmo ano, visita a
Espanha em companhia da secretária Maria Kodama e do biógrafo Emir Rodríguez
Monegal para dar conferência na Universidad Internacional Menéndez
Pelayo e receber a Gran Cruz de Alfonso El
Sabio. Por fim, em 26 de abril de 1986, casa-se com Maria Kodama no
Paraguai e o casal instala-se em Genebra, mas, pouco depois, em 14 de junho, o
escritor morre de câncer hepático. Maria
Kodama seria a única titular de seus bens após a sua morte.
VI
Nascido na cidade de Melo, Emir Rodríguez Monegal, um dos
mais influentes críticos literários do século XX, atuou a partir de 1969 como professor
de literatura contemporânea latino-americana na Universidade de Yale, nos
Estados Unidos. Em Montevidéu, foi professor de literatura no Instituto Artigas
e no Instituto Alfredo Vázquez Acevedo. Recebeu bolsa de estudos na
Universidade de Cambridge por parte do governo britânico. Além da biografia de
Borges, publicou obras sobre figuras literárias fundamentais da literatura
hispano-americana como os chilenos Andrés Bello (1781-1865) e Pablo Neruda
(1904-1973) e os uruguaios Horacio Quiroga (1878-1937) e José Enrique Rodó
(1871-1917).
Foi também jornalista profissional, tendo sido editor da
seção literária da revista Marcha, de Montevidéu, de 1944 a 1959. Entre
1966 e 1968, foi fundador e editor de Mundo Nuevo, revista
literária em espanhol publicada em Paris, que chamou a atenção internacional
para os escritores que compuseram o que ficou conhecido como o "boom
do romance latino-americano": Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos
Fuentes (1928-2012), Mario Vargas Llosa (1936-2025), José Donoso (1924-1996) e
outros. Também ajudou a lançar as carreiras de escritores como Guillermo
Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993) e Manuel Puig
(1932-1990), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil
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Borges,
una biografía literaria, de Emir Rodríguez Monegal. Cidade
do México, Fondo de Cultura Económica, 477 páginas, R$ 2.398,00 (Amazon),
1987.
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua
Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na
área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga,
um poeta do Iluminismo (Rio
de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São
Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos,
Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo,
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os vira-latas da madrugada
(Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra
Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na
capitania São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu
prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends
(Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br