Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CPLP - “Com honra e responsabilidade”: Portugal assume presidência rotativa da Assembleia Parlamentar da Organização

O presidente da Assembleia da República portuguesa disse esta sexta-feira, em Luanda, que Portugal abraçou com grande honra e sentido de responsabilidade a presidência da Assembleia Parlamentar da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)


Portugal vai assumir, em 2027, a presidência rotativa da Assembleia Parlamentar da CPLP (APCPLP), atualmente presidida pelo parlamento de Moçambique.

Aguiar Branco, em declarações à imprensa no final da XV Sessão Intercalar da Assembleia Parlamentar da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), destacou que Portugal vai assumir, pela primeira vez, a presidência para o biénio 2027/2029.

O presidente do parlamento português desejou ainda que a presidência de Portugal «possa fortalecer a CPLP», no espírito de que estão imbuídos todos os Estados-membros.

Sobre o encontro que terminou esta sexta-feira, Aguiar Branco fez um balanço positivo, que serviu para tratar muitos temas da atualidade, como a digitalização, a resiliência das instituições democráticas, o prestígio dos parlamentos, o estimular da participação das mulheres na atividade política.

«Foi muito rica e muito variada as matérias que tratámos», considerou Aguiar Branco. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


A globalização no Brasil do século XVIII

Obra reúne textos do historiador inglês Kenneth Maxwell que mostram a influência da independência dos EUA na Conspiração de Minas em 1789

                                                                       

                                                             I

Exatamente no ano que marca o 250º aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, a 4 de julho de 1776, o professor e historiador britânico Kenneth Maxwell acaba de lançar Globalização do Século XVIIIa Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, 2026), obra que  mostra como aquele acontecimento desencadeou uma série de movimentações políticas no mundo, em especial no Império português que se abalou com a aspiração de súditos que, em 1788 e 1789, sonharam com a separação de Minas Gerais e outras capitanias da América Portuguesa. Como se sabe, a chamada revolução americana começou em 1765 e durou até 1783, mas o marco principal foi a Declaração de Independência que selou a separação das treze colônias do domínio britânico.

Em sua mais recente obra, que sai por uma editora inglesa com edições impressas em Português, Inglês e Francês,  Maxwell demonstra que a fundação dos Estados Unidos não se limitou à Filadélfia, mas que a experiência republicana acabou por influenciar no mundo  espíritos que já não se conformavam com o predomínio dos ideais monárquicos. E isso se deu inspirado numa coletânea de documentos constitucionais norte-americanos no idioma francês, que à época predominava como língua universal, originalmente reunidos pelo diplomata, escritor, jornalista, cientista e empresário Benjamin Franklin (1706-1790) como ferramenta de propaganda.

Trata-se do livro Recueil des Loix Constitutives des Etats-Unis, volume de 1778 organizado por Franklin com traduções das constituições americanas —, elaborado em Paris para convencer os ministros do rei francês Luís XVI (1754-1793), deposto em 1792, de que os Estados Unidos dispunham de uma ordem constitucional coerente e exportável. Foi essa coletânea que acabou trazida para o Brasil por dois ex-estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra, uma por José Álvares Maciel (1760-1804) e outra por José Pereira Ribeiro (1765-1798), que, ao que se supõe, teria sido levada para fora de Minas Gerais à época das prisões dos conspiradores, em junho de 1789, para Pernambuco, onde pode ter influenciado a revolta federalista de 1817.

Seriam edições piratas com as indicações de “Filadélfia” e “Suíça”, que correram entre as mãos de estudantes brasileiros formados em Coimbra, Montpellier, Bordeaux e Birmingham. Dessa coleção, que trazia a Declaração de Independência, constava também a Constituição da Pensilvânia, de 1776, que surgia como modelo para a república que os conspiradores mineiros planejavam instituir. Dessa coleção, resta hoje um exemplar preservado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, aquele que foi comprado por Álvares Maciel em Birmingham por dois xelins.

É de se ressaltar que, para a época, aquela seria uma constituição de inspiração muito radical, pois previa até a liberdade para os escravos, o que logo haveria de suscitar entre os escravocratas a ideia segundo a qual essa medida iria causar muitos prejuízos, já que eles haviam construído suas fortunas às custas dos escravizados. É de se notar que se trata de argumento que, hoje em dia, ainda é exercitado pelas classes dominantes diante da possibilidade de o Congresso Nacional aprovar a escala 5x2, que prevê cinco dias de trabalho e dois de folga (geralmente nos fins de semana) para os trabalhadores.

Seja como for, como diz Maxwell, os conspiradores viam na Declaração de Independência e nos demais documentos recolhidos na Recueil um modelo de revolta colonial bem sucedida, bem como uma estrutura moderna para a formação das instituições que um governo republicano poderia criar depois do êxito da rebelião.

 

                                                   II

Com base em décadas de pesquisas em arquivos no Brasil, em Portugal, na França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Maxwell reconstrói uma densa rede atlântica de mediadores — incluindo Franklin e Thomas Jefferson (1743-1826) em Paris, estudantes brasileiros como José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788) e José Álvares Maciel e conspiradores como os poetas Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), que teriam interpretado a coletânea de maneira um tanto equivocada, adaptando-a à situação local de endividamento, escravidão e crise imperial.

Na verdade, segundo o brazilianist, os insurgentes haviam avaliado muito mal as prioridades dos Estados Unidos, ao esperar que houvesse um apoio prático da nova nação norte-americana às suas aspirações. Afinal, Jefferson havia concluído que os interesses dos Estados Unidos eram mais bem servidos por um acordo com Portugal do que pelo incentivo a uma aventura arriscada na América do Sul. “A demanda de Portugal por arroz e cereais era um mercado para a produção norte-americana, especialmente para as exportações da Virgínia”, observa o historiador.

Num dos textos reunidos em sua obra, “As propostas constitucionais”, o historiador explica que a conspiração havia sido desmantelada antes mesmo da denúncia do arrematante de contratos Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819). E lembra que, para aproveitar a explosão da insatisfação dos colonos, a revolta estava marcada para o dia da imposição da “derrama”, uma operação fiscal que previa a cobrança forçada de impostos atrasados imposta pela Coroa, na tentativa de garantir que 20% do ouro extraído, o chamado quinto, atingissem uma cota mínima anual de 100 arrobas, o que deixava a elite local à beira do pânico.

Como ressalta Maxwell, o governador Luís Antônio Furtado de Castro (1754-1830), visconde de Barbacena, porém, temeroso diante das possíveis consequências da medida, não seguiu as instruções de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), ministro da Marinha e Ultramar de Portugal, desistindo de impor a “derrama”. Isso levou Silvério, um dia depois do adiamento da “derrama”, a procurar Barbacena para denunciar a conspiração. Em troca, queria aquilo que o levara a apoiar inicialmente os conspiradores: receber em troca o perdão de suas dívidas com o Erário.

Obviamente, por trás dos conspiradores, estavam mesmo os interesses pecuniários de Silvério e de João Rodrigues de Macedo (1739-1807), outro grande arrematante de contratos, em se livrar das dívidas com a Coroa. Explica-se: numa espécie de privatização, os dois arrematantes faziam o trabalho de recolher os tributos, mas sempre se “esqueciam” de repassar o dinheiro para a Coroa, tornando-se grossos devedores (termo da época). Aliás, para o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-1809), Silvério teria sido o “motor” da conspiração, aquele que imaginara a separação da capitania de Minas Gerais porque queria se livrar de suas grandes dívidas.

 

                                                           III

Maxwell destaca ainda uma profunda contradição que havia entre os conspiradores, que, em suas conversações e nas primeiras anotações sobre como funcionaria a futura república, invocavam os direitos humanos universais, embora fossem frequentemente os beneficiários da escravidão. E lembra: “Alguns argumentavam que os escravos deveriam ser libertados para se tornarem defensores da Nova República. Outros apontavam o problema econômico: se os escravos fossem libertados, os proprietários ficariam sem ninguém para trabalhar nas minas”, observa, lembrando que a solução imaginada seria a de libertar apenas “negros e mulatos nascidos no país”. Obviamente, “uma medida incompleta que revelou o profundo abismo entre seus ideais e seus interesses”, acrescenta o historiador.

Enfim, a nova obra de Maxwell merece uma leitura essencial e especial de quem se interessa em conhecer a verdadeira história do Brasil, que, adaptada aos dias de hoje, pode mostrar também que os brasileiros não devem mesmo esperar dos atuais governantes dos Estados Unidos nenhuma ação de boa vontade, mas apenas medidas que visam a explorar a matéria-prima e as riquezas da terra sul-americana, para cujo objetivo não prescindem nem mesmo de medidas arbitrárias como invadir os demais países e até aprisionar os seus principais dirigentes.

   

                                                           IV

Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Columbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa em Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S. Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch Americas. Fez  bacharelado e mestrado no St. John's College, na Universidade de Cambridge, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador regular do site Second Line of Defense (www.SLDinfo.com).

Publicou também A Devassa da Devassaa Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808 (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1978), Marquês de Pombal – Paradoxo do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1996), A Construção da Democracia em Portugal (Oeiras, Portugal, Editorial Presença, 1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (Hove, Eats Sussex, Inglaterra, Psychology Press, 2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1999),  Mais malandros – ensaios tropicais e outros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 2005); Kenneth Maxwell on Global Trendsan historian of the 18th century looks at the contemporary world (Londres, Robbin Laird, editor, 2023), Brazil in a Changing World Order (Londres, Robbin Laird, editor, 2024); Perspectives on Portuguese History (Londres, Robbin Laird, editor, 2025); e The Tale of Three Cities (Londres, Robbin Laird, editor, 2025),  entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Globalização do Século XVIII – A Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (18th Century Globalization – The American Revolutionary Ideal Comes to Brazil  / 18e siècle Mondialisation – Le Point de transit intellectuel français), de Kenneth Maxwell. Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, edições impressas em Português, Inglês e Francês, 201, 199 e 176 páginas, R$ 113,38 (Amazon), 2026.

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Adelto Gonçalves  (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002); Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2023), publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


Burkina Faso - A startup NeereLab Technology lança "Djembé", um novo aplicativo para revolucionar as transferências de dinheiro

No sábado, 25 de julho de 2026, em Ouagadougou, a startup burquinense NeereLab Technology lançou oficialmente o Djembé, um novo aplicativo de transferência de dinheiro. Apresentada sob o tema "Na encruzilhada da inovação e da tecnologia", esta plataforma visa transformar o setor de dinheiro móvel, oferecendo uma solução de pagamento mais acessível e rápida, adaptada às realidades locais

Concebida como uma plataforma digital de serviços financeiros, a Djembé permite enviar e receber dinheiro instantaneamente em todo o mundo.

O aplicativo também integra funcionalidades de poupança, conversão de moeda e pagamentos digitais, com o objetivo de promover maior inclusão financeira.

Segundo Moumouni Ismaël Sinaré, cofundador da plataforma, a Djembé destaca-se pela sua independência das operadoras de telefonia móvel. "A Djembé também oferece soluções para pessoas sem smartphones, graças a um código curto que permite realizar pagamentos e saques em estabelecimentos autorizados."

"O objetivo é facilitar as transações financeiras, incluindo o pagamento instantâneo de salários e depósitos de seguros em caso de sinistro", explicou ele.

Com esta inovação, os autores pretendem democratizar o acesso a serviços financeiros, tanto para populações distantes do sistema bancário tradicional quanto para empresas que necessitam de soluções de pagamento rápidas e seguras.

Para Abdoul Latif Adama, também cofundador da Djembé, o aplicativo já conta com uma sólida rede de parceiros. "O aplicativo já colabora com diversas operadoras de dinheiro móvel no Burkina Faso, bem como com uma instituição financeira sediada no Canadá", indicou, destacando a ambição internacional da plataforma.

Presente na cerimónia de lançamento, o Dr. Boubacar Thiambiano, Diretor de Operações de Portfólio e Promoção da Educação Financeira, elogiou a iniciativa que, segundo ele, faz parte de uma dinâmica de transformação sustentável.

Ele destacou três dimensões principais do projeto: coesão social, inovação por meio da ação e desenvolvimento sustentável.

"Esta ferramenta tradicional promove a reunião, revoluciona as práticas diárias e permite a economia de recursos, contribuindo assim para o desenvolvimento sustentável", disse ele, traçando um paralelo entre o djembé, um instrumento de reunião nas culturas africanas, e essa nova solução tecnológica projetada para aproximar as pessoas por meio de serviços financeiros.

Já disponível na Play Store, o aplicativo Djembé visa facilitar transações financeiras nacionais e internacionais, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, contribuindo também para a modernização do ecossistema de pagamentos digitais no Burkina Faso. Frédéric Kambou – Burkina Faso in “Burkina24”


São Tomé e Príncipe - 6 roças classificadas como património mundial pela UNESCO

São Tomé e Príncipe, que é o primeiro país do mundo, em que todo o território foi classificado pela UNESCO como património mundial da biosfera, recebeu neste fim de semana, mais uma distinção internacional pelas roças, um dos mais valiosos patrimónios do país.


As roças preenchem quase 100% do território do arquipélago africano. São cerca de duas centenas, mas para já apenas 6 candidataram-se a património mundial.

A roça Água Izé que ostenta o nome do Barão português que introduziu a cultura do cacau na ilha de São Tomé no século XIX, a roça Diogo Vaz actualmente produtora de chocolate biológico, Monte Café cujas terras se estendem do centro ao norte da ilha de São Tomé, e a roça São João localizada nas portas da cidade de Angolares no sul da Ilha de São Tomé.

Sundy na ilha do Príncipe, a roça onde experimentos liderados por Albert Einstein comprovaram a teoria da relatividade é património mundial pela UNESCO, assim como a roça Belo Monte. Nas duas roças da ilha do Príncipe o património histórico, cultural e arquitectónico alimenta o turismo ecológico.

Num país de roças, outras centenas poderiam ser classificadas como património do mundo, não fosse a acelerada degradação das infra-estruturas, e em muitos casos pelo simples abandono.

O singular valor histórico, cultural e arquitectónico das roças expressa-se na confluência de gentes de várias origens que a habitaram. Principalmente os escravos depois chamados de contratados de Angola, Moçambique e Cabo Verde nas senzalas e os patrões portugueses nas casas grandes.

No terreiro das Roças a convergência de povos forjou manifestações culturais, que passaram a ser são-tomenses, nomeadamente a Puíta e a Tafua vindos de Angola.

A arquitectura das roças moldou o património são-tomense, à semelhança dos antigos feudos medievais na Europa. As roças funcionavam como um Estado dentro do outro Estado, tinham a sua própria igreja, o hospital, a morgue, a padaria, as oficinas mecânicas, de serralharia, de carpintaria, sem esquecer do sino que anunciava para os serviçais a hora do recolher obrigatório, e também a hora para a formatura no terreiro antes de começar o trabalho.

O quintal era vedado por grandes portões que impediam o acesso de pessoas estranhas à roça. Os serviçais de uma roça não poderiam ausentar-se, para visitar alguém numa outra roça, sem o aval por escrito do seu patrão. Para entrar numa outra roça tinha de apresentar a guia de marcha emitida pelo seu patrão.

«A nossa gratidão pela inscrição das roças de São Tomé e Príncipe, do sistema colonial e de migração forçada na lista de património mundial», afirmou a Ministra da Educação e Cultura Isabel de Abreu na Assembleia anual da UNESCO que decorreu na cidade de Busan, na Coreia do Sul.

Principal polo da economia do país durante vários séculos, as roças alimentaram a economia colonial através do cultivo da cana e os engenhos de açúcar, depois a cultura do café, e no início do século XIX com a cultura do cacau.

«Quando falamos agora da candidatura de 6 roças do país para património da UNESCO, e deveremos ter boas notícias sobre isso em 2026, temos que ter visão para proteger o património, mas também sabermos tirar rendimento deste mesmo património que nós protegemos», alertou João Carlos Silva em dezembro de 2025, numa entrevista concedida ao Téla Nón no terreiro da Roça São João.

Para a UNESCO as roças de São Tomé e Príncipe «ilustram o funcionamento de um sistema agroindustrial colonial em grande escala, baseado na migração e nos trabalhos forçados, desde o final do século XIX até meados do século XX, concebido para sustentar a produção de matérias-primas após a abolição da escravatura».

A protecção do património das roças representa um dos caminhos para a transformação económica do país, através do turismo. O antigo trabalho e vivência escravocrata nas roças garante hoje o desenvolvimento sustentado do turismo.

«Os próprios turistas fazem -se de trabalhadores, porque eles querem viver experiências únicas. São eles que colhem o cacau, que tratam da matabala, da mandioca, porque querem levar depois imagens e experiências. São os nossos contratados hoje. Nós revertemos as coisas, até brincamos com eles, e eles acham piada. Eles pagam para ser nossos trabalhadores», pontuou João Carlos Silva na Roça São João.

As Roças representam o passado, o presente e o futuro de São Tomé e Príncipe. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in Téla Nón


domingo, 26 de julho de 2026

Portugal – Adultos têm nível baixo de vitamina D

Médico de família alerta que viver num dos países mais soalheiros da Europa não garante níveis adequados de vitamina D. Estilo de vida, envelhecimento e fatores de risco ajudam a explicar o fenómeno


Portugal é um dos países mais ensolarados da Europa, mas essa realidade não se traduz, necessariamente, em níveis adequados de vitamina D. Apesar das muitas horas de sol ao longo do ano, cerca de dois em cada três adultos portugueses apresentam níveis insuficientes desta vitamina, segundo um estudo representativo da população nacional.

À primeira vista, trata-se de um aparente contrassenso. Afinal, a vitamina D é produzida sobretudo através da exposição da pele à radiação ultravioleta B (UVB). Então, porque continua a deficiência a ser tão frequente?

Para Bruno Moreno, médico de família da Unidade de Saúde Familiar Coimbra Sul, a resposta está muito para além das condições climatéricas. “O verdadeiro paradoxo português não é a falta de sol. É continuarmos a encontrar níveis insuficientes de vitamina D num dos países mais soalheiros da Europa”, afirma.

O problema não acontece apenas no inverno

A ideia de que a deficiência de vitamina D é uma preocupação exclusiva dos meses mais frios continua enraizada, mas o médico explica que essa perceção está longe da realidade.

Embora o inverno reduza naturalmente a exposição solar, a insuficiência pode manter-se durante todo o ano. A produção de vitamina D depende de vários fatores, como a idade, a pigmentação da pele, a área corporal exposta, a intensidade da radiação solar e o tempo de exposição. A alimentação e, quando indicada clinicamente, a suplementação também desempenha um papel importante.

Passamos cada vez menos tempo ao sol

Uma das principais razões para este fenómeno é a mudança dos estilos de vida. Hoje, a maioria das pessoas passa grande parte do dia em ambientes fechados, seja no trabalho, na escola ou durante as deslocações. Mesmo no verão, a exposição solar efetiva acaba por ser muito inferior à percecionada.

“O número de horas de sol disponível não corresponde, necessariamente, ao tempo em que a nossa pele está efetivamente exposta à radiação que permite produzir vitamina D”, explica Bruno Moreno.

Ao mesmo tempo, a crescente consciencialização para os riscos da exposição solar levou a uma maior utilização de protetor solar e de outras medidas de fotoproteção.

Segundo o médico, esta evolução é positiva e não deve ser posta em causa. “A mensagem não é expormo-nos mais ao sol sem proteção, mas compreender que a simples existência de muitas horas de sol não garante, por si só, níveis adequados de vitamina D.”

Um problema silencioso

Na maioria dos casos, a insuficiência de vitamina D não provoca sintomas evidentes, o que faz com que muitas pessoas desconheçam que apresentam níveis baixos.

Quando a deficiência é mais acentuada e prolongada, pode surgir fraqueza muscular, dores ósseas e um aumento do risco de quedas e fraturas, sobretudo entre a população idosa.

A importância da vitamina D na saúde óssea está bem estabelecida, uma vez que é essencial para a absorção do cálcio e para a manutenção da resistência do esqueleto.

Quem está mais vulnerável?

Embora qualquer pessoa possa apresentar níveis insuficientes, existem grupos que requerem maior vigilância clínica.

Entre eles encontram-se os idosos, pessoas institucionalizadas ou com mobilidade reduzida, pessoas com obesidade, doentes com patologias que dificultam a absorção intestinal e quem toma medicamentos que interferem com o metabolismo da vitamina D.

Nestes casos, a avaliação médica individualizada assume particular relevância.

Nem toda a gente precisa de fazer análises

Perante a elevada prevalência de insuficiência, pode parecer lógico defender o rastreio universal da vitamina D. No entanto, essa não é a recomendação da evidência científica atual.

Bruno Moreno sublinha que os adultos saudáveis não devem realizar análises por rotina apenas para avaliar os níveis desta vitamina.

“A decisão de dosear a vitamina D deve resultar da avaliação clínica e da existência de fatores de risco”, afirma, defendendo uma abordagem personalizada que evite exames e tratamentos desnecessários.

Mais literacia, menos mitos

Para o médico de família, o principal desafio passa por aumentar a literacia em saúde sobre este tema, combatendo a ideia de que viver num país com muito sol é suficiente para garantir bons níveis de vitamina D.

A mensagem, conclui, é simples: mais do que contar as horas de sol, importa compreender os fatores de risco, adotar estilos de vida saudáveis e recorrer à avaliação médica sempre que exista indicação clínica. Num país onde o sol nunca falta, o verdadeiro desafio pode estar, afinal, na forma como vivemos e não na quantidade de luz que recebemos. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Açores - Legado do pintor luso-canadiano Miguel Rebelo em exposição em Angra do Heroísmo

O Museu de Angra do Heroísmo, nos Açores, inaugurou no sábado uma exposição do artista luso-canadiano Miguel Rebelo, com peças doadas pelos herdeiros após a sua morte, algumas exibidas pela primeira vez em Portugal


“A sua obra é uma obra dura, martirizada, é uma obra que expressa um sentimento de vivência difícil que ele teve durante o seu período de vida, mas é uma obra que tem uma atualidade muito grande e de excecional qualidade”, afirmou, em declarações à Lusa, o diretor do Museu de Angra do Heroísmo, Jorge Paulus Bruno.

Neto do pintor Domingos Rebelo, natural da ilha de São Miguel, e filho do arquiteto João Correia Rebelo, Miguel Rebelo, que morreu em 2016, com 58 anos, foi um dos artistas açorianos da diáspora com maior reconhecimento.

Com uma obra “marcadamente modernista”, o arquiteto João Correia Rebelo “não foi compreendido no seu tempo” e acabou por emigrar para Montreal, no Canadá, quando Miguel Rebelo tinha apenas 12 anos.

Foi entre Portugal e o Canadá que o pintor desenvolveu “uma linguagem plástica de carácter muito pessoal, marcada pela experimentação, pela intensidade ‘matérica’ e por uma pintura gestual onde a cor, a textura e a memória ocupam um lugar central”, refere uma nota da Direção Regional da Cultura dos Açores sobre a exposição no Museu de Angra do Heroísmo.

“A sua obra afasta-se de fórmulas convencionais e explora uma expressão livre, frequentemente associada ao abstracionismo lírico e ao expressionismo contemporâneo. Críticos e curadores destacam na sua produção a permanente tensão entre a tradição familiar e a procura de uma linguagem autónoma e inovadora”, acrescenta.

Referenciado nos arquivos da National Gallery of Canada, Miguel Rebelo era representado em Portugal pela Galeria 111, uma das mais importantes de arte contemporânea do país (com artistas como Paula Rego e Lourdes Castro, entre muitos outros), e a sua pintura está integrada em coleções públicas e privadas.

Na exposição “Belo Insubmisso”, o Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, expõe cerca de 40 obras de Miguel Rebelo, de um total de 60 doadas pelos herdeiros, após a morte do pintor.

“Foi uma doação muitíssimo importante, que o Museu de Angra, com muito orgulho, acolheu”, porque, sendo um museu açoriano, “o conjunto desta obra vem enriquecer todo o património da arte contemporânea” dos Açores, salientou Jorge Paulus Bruno.

A ligação de Miguel Rebelo à ilha Terceira decorre de duas exposições, em 2005 e 2007, na Carmina Galeria, do artista plástico terceirense Dimas Simas Lopes.

Quando a galeria de arte contemporânea foi doada ao Museu de Angra do Heroísmo, a instituição tentou adquirir cerca de uma dezena de obras de Miguel Rebelo que lá se encontravam e o filho Rapahël doou-as.

“Há dois anos, veio aqui, conheceu o museu, conheceu a Carmina Galaria e ficou convencido de que o destino das obras que estavam em Lisboa deveria ser o Museu de Angra”, revelou Jorge Paulus Bruno.

“É um conjunto de 60 obras notáveis. Deixou algumas à Fundação Calouste Gulbenkian, também, o que engrandece esta doação”, acrescentou.

O diretor do Museu de Angra do Heroísmo frisou que Miguel Rebelo é “um nome grande da arte contemporânea, não só portuguesa, mas acima de tudo internacional”.

O pintor luso-canadiano utilizava uma “linguagem única” para refletir os seus sentimentos nas suas obras. Chegava mesmo a utilizar uma lixadora e a rasgar as suas telas.

“É uma obra que expressa uma angústia do criador. Nem todas as obras de arte expressam sentimentos confortáveis”, ressalvou Jorge Paulus Bruno.

A ideia é corroborada pelo filho do pintor, Rapahël Rebelo, num texto emotivo que escreveu para a inauguração da exposição.

“Embora o seu trabalho seja fruto de uma exigente pesquisa intelectual, as suas emoções transpiram através da pele das suas telas. As cores correspondem à sua alegria de viver e aos períodos felizes da sua existência, o que, para o meu pai, significava quase sempre períodos de amor. Já os cinzentos, os negros e os brancos são o reflexo de um homem que foi entrando progressivamente em depressão e que lutou, durante os últimos dez anos da sua vida — demasiado breve, apenas 58 anos — contra episódios psicóticos e contra as consequências devastadoras de vinte anos de terapêutica antirretroviral para combater o VIH”, adiantou.

Rapahël Rebelo destacou a “enorme coragem” do pai para “viver à margem”, na escola, na carreira e na vida política e amorosa.

“É difícil existir numa sociedade que parece não ter previsto um lugar para nós. É, por isso, a coragem que, antes de mais, retenho da vida do meu pai. Manteve-se de pé contra ventos e marés e entregou-se inteiramente à pintura, apesar dos juízos e das incompreensões que o seu modo de vida inevitavelmente suscitava”, sublinhou. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”


Como se eu fosse tua











Vamos aprender português, cantando

 

Como se eu fosse tua

 

Encontrei-te e fiquei perdida

vivi demais a tua vida

quis te acompanhar e fiquei só

 

Cheguei a não saber quem era

nessa história de estar à espera

tudo só por ti

 

Cheguei mesmo a deixar de falar

com todos os meus amigos

deixei de fazer o que gostava

só para poder ficar contigo

 

Vou lançar no espaço

todo o amor que resta no meu regaço

deixa de pensar em mim

como se eu fosse tua

 

Vou lançar no espaço

todo o amor que resta no meu regaço

deixa de pensar em mim

como se eu fosse tua

 

Já é tempo de me ir embora

e arejar daqui p'ra fora

sem o teu olhar a censurar-me

 

Vou despir-me dos teus abraços

caminhar longe dos teus passos

aprender por mim

 

Chega de promessas!

Basta de conversas horas a fio!

Vou içar as velas

soltar as amarras do meu navio

 

Vou lançar no espaço

todo o amor que resta no meu regaço

deixa de pensar em mim

como se eu fosse tua

 

Vou lançar no espaço

todo o amor que resta no meu regaço

deixa de pensar em mim

como se eu fosse tua


Viviane – Portugal

Composição:

Luís Pedro – Portugal

Zé da Ponte - Portugal