Marli Gonçalves, a editora do site “Chumbo Gordo”, criado em 2015 por Carlos Brickmann, já falecido, talvez tenha sido quem deu o berro mais alto ao chamar Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, "de um imbecil, geneticamente transtornado".
Porquê? Por ter defendido num áudio, nos EUA onde está
foragido, e distribuído pelas redes sociais a ideia de que as mulheres não
sabem votar -"Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente
mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do
marido".
Não é essa a primeira imbecilidade postada nas redes sociais, existem milhares invadindo seu celular ou computador. Mas essa declaração, logo depois curtida por milhares de outros transtornados, se tornou importante por ter sido dita e defendida pelo amigo próximo de dois filhos do ex-presidente, um deles, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência nas próximas eleições de outubro. E isso se agrava, quando lembramos ser o próprio ex-presidente Bolsonaro um convicto misógino.
Origem: Chumbo Gordo
A ideia básica é a de que as mulheres são emotivas na
escolha de seus candidatos. Por isso, a solução seria a de se acabar com o voto
individual feminino em favor do voto familiar, que poderia ser debatido dentro
de casa, mas caberia ao marido, chefe do lar, exercer o ato de votar, havendo
só seu nome na lista de votantes.
Uma reportagem no The New York Times mostra haver
mesmo mulheres conservadoras favoráveis ao fim do voto feminino.
O direito ao voto feminino foi uma longa luta das
chamadas sufragistas e entrou na Constituição em 1920. Para muitos
conservadores, entre eles líderes evangélicos, o voto das mulheres é, na
maioria, pelo partido democrata, progressista, em favor do aborto e pela
política de gênero.
Entre os líderes contra o voto feminino, como Paulo
Figueiredo, amigo de Flávio Bolsonaro, estão os pastores Douglas James Wilson,
Dale Partridge e o influenciador
Jack Neel Nick Fuentes.
O escritor norte americano Douglas Kennedy escreveu um livro
tratando de uma secessão provocada pelo crescimento dos evangélicos
conservadores (cujos missionários vieram ao Brasil) e pelo desenvolvimento do
chamado nacionalismo cristão, seguidores da teologia do domínio, pela qual as
regras bíblicas devem ser aplicadas na sociedade dirigida por líderes
evangélicos pentecostais.
Um sinal estranho ocorreu no dia 9 de março, quando o
governo dos Estados Unidos se negou a assinar, na ONU, as conclusões da Comissão da Condição
Feminina.
O mais estranho é constatar que essa ameaça de regressão
dos direitos das mulheres nos EUA por pressão religiosa, combatida pela
esquerda, progressistas e feministas em geral, já é realidade nos países
islâmicos, inclusive na teocracia
iraniana, sem haver o mesmo protesto e a mesma
mobilização da esquerda, dos progressistas e feministas.
Talvez com uma ligeira diferença, as mulheres podem votar no Irão mas não são consideradas iguais aos homens e não podem se candidatar aos postos de comando. Rui Martins – Suíça
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Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da
Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça,
correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.