Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 15 de agosto de 2026

Brasil - Escritor João Morgado distinguido como Personalidade Lusófona do Ano

O escritor português João Morgado foi distinguido no Estado de Minas Gerais, no Brasil, com o Prémio Personalidade Lusófona do Ano 2026, na categoria de Escritor


O reconhecimento, que o autor considera uma distinção de particular importância, é apresentado como uma celebração do papel da língua portuguesa na criação de pontes entre países, culturas, memórias e pessoas.

Na mensagem publicada nas redes sociais em que assinalou a distinção, João Morgado destacou precisamente a dimensão que a literatura pode assumir na aproximação entre diferentes comunidades lusófonas.

“Mais do que uma distinção pessoal, gosto de olhar para este prémio como uma celebração daquilo que a língua portuguesa continua a tornar possível: pontes entre países, culturas, memórias e pessoas”, afirmou.

O escritor natural da Covilhã sublinhou ainda a relação entre o ato individual de escrever e a dimensão coletiva da literatura. “Escrever é um ato profundamente solitário. Mas a literatura nunca o é”, referiu.

João Morgado recebeu o prémio com “gratidão” e encarou a distinção como um incentivo para continuar a escrever, investigar e contar histórias. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Cabo Verde - Antonino Veiga estreia-se na literatura com “A Jornada do Menino Rumibe” em Santa Catarina

Santa Catarina – O escritor Antonino Veiga apresentou, em Santa Catarina, a sua primeira obra literária, A Jornada do Menino Rumibe, narrativa sobre educação, valores, migração e percurso de vida.


Com cerca de 183 páginas, a obra acompanha Rumibe desde a infância até à idade adulta, num percurso marcado pela escola, migração, formação e sucesso profissional, sem se afastar dos princípios e valores transmitidos pela família e pela comunidade.

Segundo o autor, o livro, dividido em cinco capítulos e três partes interligadas, é uma “memória narrativa” que tem como pano de fundo Cabo Verde no período pós-independência, abordando fenómenos como a migração, o acesso à escola e a importância da entreajuda na educação das crianças.

Antonino Veiga explicou que a narrativa procura igualmente mostrar como os valores aprendidos na infância podem acompanhar uma pessoa ao longo de toda a vida, influenciando as suas escolhas e relações.

A segunda parte da obra centra-se no percurso profissional de Rumibe, enquanto a terceira aborda questões relacionadas com relacionamentos saudáveis, mantendo como fio condutor os princípios e valores adquiridos desde a infância.

Apesar da dimensão narrativa, o autor sublinhou que a obra apresenta também uma componente científica, tendo sido construída com recurso a cerca de duas dezenas de obras de autores e especialistas internacionais, incluindo brasileiros, sobretudo nas áreas da sociologia e da psicologia.

“Rumibe pode representar qualquer um de nós”, explicou Antonino Veiga, esclarecendo que, embora seja uma personagem fictícia, o seu percurso permite ao leitor reconhecer experiências e desafios comuns.

O autor considera ainda que se trata de uma obra de leitura acessível e destinada a todos os públicos, acompanhando a transformação da personagem de menino em jovem e, posteriormente, em adulto, num percurso que o leva de Cabo Verde ao estrangeiro e, mais tarde, de regresso ao país.

Na apresentação da obra, o historiador Henrique Varela destacou a jornada de Rumibe como uma oportunidade para refletir sobre a infância, a adolescência e a idade adulta, considerando que o percurso apresentado pode constituir uma referência para as novas gerações.

Para Henrique Varela, a obra transmite, entre outras, três importantes lições: a pobreza pode impor limites, mas não determina necessariamente o destino; o sucesso exige disciplina, oportunidades e trabalho; e os valores transmitidos pelos pais continuam a desempenhar um papel fundamental na formação dos filhos.

O apresentador recordou, neste sentido, a realidade de gerações anteriores, cujos pais tiveram pouco acesso à escolaridade, mas que, segundo afirmou, possuíam uma “grande sabedoria” e souberam transmitir princípios que contribuíram para a formação de profissionais de diferentes áreas.

Já Francisco Tavares considerou que a obra proporciona ao leitor uma viagem pelo percurso de vida de Rumibe, destacando a simplicidade da linguagem e o carácter cativante da narrativa.

“Para viajar longe, não há melhor navio do que um livro”, afirmou Francisco Tavares, considerando que a obra permite acompanhar as diferentes fases da vida da personagem e retirar ensinamentos aplicáveis às gerações actuais.

A apresentação pública de A Jornada do Menino Rumibe foi promovida pelo autor, em parceria com a Câmara Municipal de Santa Catarina, e marca a estreia de Antonino Veiga no panorama literário nacional. In “Inforpress” – Cabo Verde


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Macau - João Miguel Gonçalves vai assumir direcção da Escola Portuguesa

O novo director da Escola Portuguesa será João Miguel Gonçalves, segundo confirmou ao Jornal Tribuna de Macau o presidente da Fundação EPM. Responsável pela Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares em Portugal até final de Junho, órgão, entretanto, extinto pelo ministro Fernando Alexandre, o sucessor de Acácio de Brito chegará a Macau no início da próxima semana. No entanto, só poderá assumir oficialmente a direcção do estabelecimento de ensino depois de concluir um curso obrigatório promovido pela DSEDJ. Até lá, o actual director, Acácio de Brito, manter-se-á em funções, “o tempo que for necessário, para passar o testemunho”, salienta Jorge Neto Valente


João Miguel Gonçalves vai suceder a Acácio de Brito como director da Escola Portuguesa de Macau (EPM). O nome do ex-responsável da Direcção Geral dos Estabelecimentos Escolares em Portugal foi confirmado ao Jornal Tribuna de Macau pelo presidente da Fundação Escola Portuguesa (FEPM), Jorge Neto Valente, que está a acompanhar todo o processo.

“Já estive com ele em Portugal algumas vezes e parece ser uma boa escolha, mas só o futuro o dirá”, disse, adiantando que o “Conselho de Administração da Fundação entendeu, nas circunstâncias actuais, dar seguimento ao nome indicado pelo Ministro da Educação, Ciência e Inovação”. Fernando Alexandre “não autoriza outro a ir para Macau, até porque precisaria de licença”, adianta o dirigente da FEPM.

Jorge Neto Valente revela que a situação de passagem de testemunho será idêntica à que aconteceu aquando da saída de Manuel Machado, no início de 2024. “Nessa altura, também o director em exercício se manteve no cargo, num processo de passagem de testemunho para Acácio de Brito”. Assim, sustenta, “não haverá hiato na escola” quando começarem as aulas do próximo ano lectivo, em Setembro.

No entanto, para que seja oficialmente nomeado director, João Miguel Gonçalves terá de receber a aprovação do Conselho de Administração da Fundação EPM e cumprir o curso obrigatório promovido pela Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ).

“Embora não assuma para já funções, o futuro director acompanhará Acácio de Brito na transição, o tempo que for necessário para passar o testemunho, porque é mais fácil do que fazê-lo sozinho, esperando-se que, provavelmente antes do final do ano, já João Miguel Gonçalves possa ostentar o título e aí Acácio de Brito seguirá em definitivo para a Escola Portuguesa de Angola, em Luanda”, salientou o presidente da Fundação EPM.

Quanto ao curso exigido pela DSEDJ, sem o qual o novo director não poderá desempenhar oficialmente o cargo, Neto Valente afirma que a escola tentará que o mesmo se desenrole de forma mais rápida do que é habitual. “Vamos ver com a DSEDJ a possibilidade de condensar o curso, tentando que o futuro director cumpra mais aulas por semana do que costuma acontecer, acelerando-se assim o processo para que ele assuma a direcção o mais rápido possível”, sublinha.

Lembra que, na altura da entrada de Acácio de Brito, este frequentou o curso desde Janeiro a Junho, tendo de apresentar alguns trabalhos. “O curso é mais para conhecer a legislação de Macau”, menciona.

Recorde-se que o nome de João Miguel Gonçalves foi aventado e considerado como o mais provável sucessor de Acácio de Brito por alguns órgãos de comunicação social locais no próprio dia em que Fernando Alexandre divulgou a decisão, à margem da romagem à gruta de Camões, no Dia de Portugal na RAEM, a 10 de Junho deste ano.

Ao contrário do que fazia prever, até porque o ainda director havia sido reconduzido dias antes pelo Conselho de Administração da Fundação EPM, para mais três anos, Acácio de Brito iria ser exonerado.

Depois de ter desmentido essa recondução em declarações aos jornalistas no final da cerimónia do içar da bandeira portuguesa nos jardins do Consulado-Geral de Portugal para Macau e Hong Kong, o que provocou estupefacção, o governante da equipa liderada por Luís Montenegro justificou a afirmação de não recondução com o convite endereçado a Acácio de Brito para vir a ser o futuro director da Escola Portuguesa de Angola, na capital Luanda.

Novo director chega dentro de dias

A decisão provocou algum choque entre a comunidade portuguesa, pela forma abrupta como aconteceu, tendo a Associação de Pais da EPM, através do seu presidente, criticado a maneira escolhida para divulgar o convite que tinha sido feito a Acácio de Brito.

“Presumo que o ministro teve conhecimento da decisão da recondução pelo Conselho de Administração da EPM, porque há membros na direcção da Fundação que sabem o que se passa no Conselho, e, portanto, no mínimo, aquilo que o ministro deveria ter feito era falar com o Conselho de Administração da Escola”, afirmou na altura Filipe Figueiredo ao JTM.

Daqui a dias chega então ao território o novo director da EPM. João Miguel Gonçalves, de 47 anos de idade, foi director-geral dos Estabelecimentos Escolares desde Junho de 2020, depois de ter sido delegado regional de educação do norte da Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, entre Outubro de 2018 e Maio de 2020.

Um despacho do gabinete do Ministro da Educação, Ciência e Inovação, publicado no Diário da República declarou, entretanto, a extinção da Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares. Antes disso, João Miguel Gonçalves dirigiu a Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Marco de Canaveses desde Julho de 2013.

Em termos académicos, apresenta um vasto currículo, com destaque para a licenciatura em Filosofia – Ramo Educacional, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tendo frequentado o Curso Avançado em Gestão Pública, pelo ISCTE, e o Programa de Formação em Gestão Pública, pela Universidade do Minho.

Especialista em António Sérgio, detém uma vastíssima colecção da bibliografia do jornalista e sociólogo português, sendo convidado para organizar exposições, ministrar seminários, participar em colóquios e escrever artigos.

É autor de livros como “Cursos Profissionais – Guia prático para o Professor (Estrutura Modular, Formação em Contexto de Trabalho, Prova de Aptidão Profissional)”, e “EPAMAC – Comunidade e Sentido: Em torno da construção de um azimute para a acção directiva – ideário mínimo «pro domo mea»”.

Segundo informação divulgada num portal da Direcção-Geral da Educação, o futuro director da EPM é também licenciado em Canto Teatral pela Conservatório Superior de Música de Gaia, e tem “uma carreira como cantor lírico, com trabalhos realizados em Portugal e no estrangeiro”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”




Mirem-se no exemplo deste escritor de Miradouro

Já havia lido há anos a primeira edição de Fratura exposta, de Jeter Neves, e só me lembrava vagamente de um ou outro conto. Agora, o livro foi publicado pela editora de Belo Horizonte, Escritório de Histórias, e o leio como se fosse pela primeira vez, e, na verdade, é, pois a obra foi revista e com alterações significativas. E firmo na opinião de que é livro para ser lido e divulgado, hastear o nome do Jeter, nascido em Miradouro, MG, como dos melhores autores brasileiros hoje.

O escritor italiano Dino Buzzati (1906-1972), em seu livro Naquele exato momento, tem um texto interessante em que compara o poeta a um violinista, e o prosador ao pianista: naquele, logo nos primeiros acordes, conhece-se o talento; já o prosador-pianista carece “ouvi-los longamente e depois, ainda, pensar no assunto três vezes.” (1986: 209). Ora, Jeter Neves é um prosador que tem o faro da poesia. Hugo Almeida, em seu precioso e erudito prefácio à Fratura exposta afirma que “a boa prosa é ímã da poesia”; eu diria mais: é irmã da poesia.

O aceno da poesia já se insere na epígrafe de Ferreira Gullar, versos do Poema sujo. E esse longo poema de Gullar é aceno para a questão da crítica social, não se eximindo a subjetividade, a memória da infância. Na rede intertextual dos oito contos de Fratura exposta, pode-se colher aqui e ali várias referências ou alusões a poeta, por exemplo: Carlos Drummond de Andrade é entrevisto na p.45, no conto “Arame farpado”: “As casas se espiam de frente umas  para as outras”. Na p.62, no conto “O sangue no olhar do vampiro”, cita-se “o sono rancoroso dos minérios”, que integra o maravilhoso poema “A máquina do mundo”, citado logo em seguida, curiosamente ao lado de... Tarzan. Na p.115, no conto “Bar e restaurante Suez”, encontramos “lição de coisas”; na p.143, no conto “O cachorro e seu menino”, tropeçamos com um pessoal “no meio do caminho”.

Fernando Pessoa é outro poeta que dá as caras (quase todas) ao longo dos contos, como na p.79, de “Pequenos assassinatos”: “Estou farto de gente que nunca levou porrada”; logo a seguir, na p.80, cita Álvaro de Campos, “Vou provar que sou sublime”, de Tabacaria. Esse mesmo poema é aludido em “Bar e restaurante Suez”, na p.117, quando o narrador fala do bar sem metafísica, cujo proprietário se parece com o Esteves da Tabacaria.

Ademais, muitas letras de músicas são citadas. Há um conto cujo título é verso de uma música de Raul Seixas.  Por exemplo, na p.84, de “Pequenos assassinatos”, há trecho de “Folhas secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. O conto “Bar e restaurante Suez” tem como epígrafe o verso de “Nada será como antes”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: “Que notícias me dão dos amigos?” (p.114). Além disso, o Carnaval com suas marchinhas se fazem presente nessa narrativa. Em “O cachorro e seu menino”, narrativa forte de denúncia social e semeada com certo lirismo chapliniano, há citação a Chico Buarque, trecho de “Os saltimbancos”, na p.141. E, na p.144, de “Canção da América”, cita-se que “amigo coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”, de Milton Nascimento e Fernando Brant; mais adiante, na p.149, evoca-se Jorge Benjor e o rei da malandragem. Aliás, esse instigante conto, que a gente acaba acreditando que o protagonista é de fato um cachorro, me ocorreu a figura de João Antônio, com seus meninões pelas quebradas.

Se citamos violino, piano, letras de canções, é preciso assinalar também a contribuição de outros instrumentos e danças que ocorrem na obra, percussões, batidas de folguedos nordestinos com ecos de maracatu, como vemos em “Arame farpado”, onde há as danças de jongo, tambores chamados caxambu, além de Congado.

O halo poético que emana em muitos trechos da prosa de Jeter Neves pode ser exemplificado em várias passagens, como Hugo Almeida anota em seu prefácio. Cito outros trechos, de “Arame farpado”, da p.39, em que Mãe Luandina é descrita em sua pele: “negror da pele porejando ancestralidade”; e, em vez de o narrador afirmar que ela simplesmente tinha um lenço branco na cabeça, ele assim se esmera, com leve toque metalinguístico: “Amoldado à cabeça em elaborado arranjo, trazia um longo lenço branco debruado (deve ser esse o termo) de rendas. O contraste da pele na alvura do algodão me lembrou as retrizes de certa ave, a alma-de-gato, a vadiar entre os galhos de uma jabuticabeira, em distraída beleza.” Nesse mesmo conto, na p.46, há uma admirável imagem colocada na fala de Mãe Luandina a respeito do sabor do saber: “aproveitasse a escola, chupasse cada aula como o mais doce gomo de cana, bebesse o conhecimento como o mais doce suco de laranja-lima”. Tadinho do meu querido Augusto dos Anjos que usou da cana azeda para falar das agruras do amor...

Na p.118, de “Bar e restaurante Suez”, há essa referência com aspas, que não consegui identificar sua autoria: “madrugada barroca e fria”, mas na página seguinte, ao referir-se a Aleijadinho, consta este trecho poético: “Dentro de casa, paciente, o tempo colava suas escamas em paredes e caras. De metáfora em metáfora, que assim recomendavam os tempos, o tempo rolou como só é possível no intervalo entre duas frases – estávamos bem chapados.”

Os oito contos de Jeter, embora mantenham conexões entre si, conferindo unidade ao livro (fratura exposta é expressão que aparece em pelo menos três deles e o conto que dá título ao livro expõe as vísceras de um casamento prestes a findar), oferecem faces distintas, andamentos diversos, alguns grávidos de novela ou mesmo romance, um outro como microcontos espalhados, como ocorre em “A cidade como um verme”.  Há algo de camaleônico em nosso escritor de Miradouro. Nota-se, por exemplo, a maneira como a linguagem é trabalhada em vários registros, do popular coloquial, entremeada de gírias e provérbios, ao texto de sabor clássico, histórico. As paráfrase e paródias, como aquela do Capitão Trash na esteira do Superman, respingos de Euclides, Guimarães Rosa e filmes de Buñuel e Spielberg. Esse aspecto me leva a observar alguns versos do poeta Manoel Carlos (1933-2026), em seu livro Bicho Alado, em que ele se vê como um camaleão, mas buscando ocultar aquilo que Jeter expõe: “E houve um camaleão que revoltou-se / e passou a ocultar sua mágoa exposta” (1987: 43) Quando li “Pequenos assassinatos”, conto que Jeter nomeia como o filme de humor negro dirigido por Alan Arkin, de 1971, lembrei-me desses versos do “Poema de agosto”, de Manoel Carlos: “Só no quintal da infância permanecem segredos. [...] e não podendo interceptar-me / aguardo notícias do desastre.” (1987: 69) E, da p.108, do Bicho Alado, trago versos que, de algum modo, compartilham com o texto de Jeter que cita Pessoa: “Entrou sozinho no quarto / Fernando e Ricardo Reis. / Trinta poemas passados / sai Fernando-Agora-Três: / Fernando / Alberto Caeiro / e sempre Ricardo Reis. / [...] Saio de trás da cortina / volto ao centro do meu quarto. / Fernando, me empresta um poeta, / que estou sozinho e estou farto!”

Entre outros aspectos intertextuais da obra, quero destacar a epígrafe usada por Hugo Almeida em seu prefácio: ele cita Osman Lins, de Guerra sem testemunhas, trecho que justifica as incisivas denúncias sociais presentes nos contos de Jeter: “O escritor que não está ligado, de um modo profundo, aos seus semelhantes, e principalmente aos homens de seu país, é um invasor e não merece o ofício que escolheu”. Ora, se o autor mineiro escolheu a epígrafe de Ricardo Piglia em que se aproxima pôquer e ficção, vê-se que o blefe da mentira pode conter a verdade, assim como autor vale-se da imaginação para desmascarar as fraturas do real.

Daí a relevância de personagens de “alma solta” como Mãe Luandina em sua luta com o “cipoal das leis do branco”; a importância da revisão histórica da escravidão, assinalando que o chão da senzala tem as marcas da dor, enquanto capitalistas fazem do passado um ótimo negócio, transformando objetos de tortura em elementos decorativos de grande impacto  e assim há a desfiguração da memória.

Fratura exposta é um livro que presta grande serviço para a educação brasileiro, mesmo sabendo que as pretensões da Literatura não são nada didáticas. Toma-se, por exemplo, essa fala de um pobre negro, na p.27, do conto “Memória desfigurada”: “E pobre algum vai na escola? Tem de ficar pro adjutório desde miúdo: cortar uma cana, picar um capim, apartar um bezerro e tudo quanto é miudeza que rompe pelo dia afora. Desenhar nome? A mão vira um casco de tatu no batente, sem jogo pra floreio, presta pra escrita não...”

Se História anda de mãos dadas com a Literatura, como nas páginas de “Bar e restaurante Suez” abordando torturas na ditadura brasileira e chilena nas p. 120 e p.121, a Geografia também tem seu lugar, como neste trecho da p. 62, do conto “O sangue do olhar do vampiro”, em que a ficção científica não impede o conhecimento sobre nossa geologia: “Ocultos pelo dossel, e abrigados por samambaias e avencas gigantes, das fissuras das rochas brotam miríades de olhos d’água: os filetes cristalinos se unem em córregos, os córregos fluem em riacho, que suspendido pela falha geológica, despenca em rumorosa queda.” Em “Arame farpado”, na p. 47, um trabalhador rural denuncia a voraz sede dos eucaliptos: “Essa raça de planta deles tem uma sede desgraçada: seca nascente, seca rego, seca brejo, seca córrego, seca até riacho grande... Deixa a terra chupada igual um tijolo seco...”

Por fim,  comparo a força dessa livro ao “esteio de aroeira”, e vejo esse escritor nascido em Miradouro como aquela personagem que vai trançando a dificultosa taquara, só que a palavra não é para Jeter um material rabugento, ainda que difícil de lidar, e a sua denúncia corta feito aço de navalha. Caio Maciel - Brasil

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Caio Junqueira Maciel, mineiro de Cruzília. Mestre em Literatura Brasileira pela UFMG, autor de livros de ensaio como A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota; O sangue de rejuvenesce o Conde Drácula. Romancista de Um estranho no Minho. Autor de livros de poemas como Pele de Jabuticaba e Os sete sábios da Grécia & outros poemas safados.

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Miradouro: s.m. Mirante: Pequeno pavilhão no terraço no alto de um edifício ou em qualquer ponto elevado, donde se abrange largo horizonte.

(Dicionário prático ilustrado. Porto: Lello & Irmão, 1956).

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Referências:

NEVES, Jeter. Fratura externa. Belo Horizonte: Escritório de Histórias, 2026.

CARLOS, Manoel. Bicho Alado. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

BUZZATI, Dino. Naquele exato momento. Tradução de Fulvia M.L. Moretto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

 

Moçambique - Jovens investem nos seus próprios negócios e geram empregos

Nas vésperas do Dia Internacional da Juventude, 12 de agosto, a ONU News saiu às ruas de Maputo, capital de Moçambique, para conhecer como dois jovens estão a transformar a sua experiência laboral na geração de empregos para outros jovens no país.


Irene Filipe Boane, de 28 anos, começou na profissão de sapateira e engraxadora aos 19. Resolveu abraçar uma profissão pouco habitual para uma mulher, como muitos viram a escolha. A decisão veio após a conversa em família quando assumiu a loja do pai para conseguir o sustento e dar continuidade aos seus estudos.

Consertar com perfeição

No início, teve vários desafios de aceitação no mercado. Muitos clientes recusavam os seus trabalhos. Ela mesma lembra que teve de estragar vários sapatos até aprender a consertar com perfeição. E hoje, diz ter um sonho.

“O meu sonho é de expandir mais esta atividade de sapataria, principalmente para as mulheres. As mulheres têm tido muito complexo em relação a esta atividade porque é raro ver mulheres nesta área fazendo esta atividade. Então, o meu maior sonho é criar, pelo menos em cada avenida da cidade de Maputo, ter lá sempre uma mulher a engraxar os sapatos. Até agora, somos três. Uma fica no Palácio dos Casamentos e a outra no Jardim Tunduru comigo. E, futuramente, já passar a fabricar sapatos, sandálias também, com a minha marca ‘Irene Nem’.”

Influenciada pelo pai, Irene Filipe Boane aprendeu que a pontualidade é importante para a confiança com os clientes. Ela, neste momento, aguarda a defesa para o curso de Agropecuária pela Universidade Pedagógica de Maputo, mas diz que mesmo concluindo o curso não irá abandonar a sapataria.


Sonho de um Pai

O seu pai e mentor, Filipe Fenias Boane, diz que no início a sociedade não via com bons olhos a iniciativa de convidar a filha para ser sapateira.

“O que me motivou é porque eu não tinha recurso para lhe dar mais dinheiro para poder entrar noutras escolas. Ela sempre dizia: ‘pai, eu peço que me dê alguns valores para fazer um negócio, arranja-me emprego’. Eu disse: olha, arranjar emprego não é fácil, mas o que eu tenho é emprego de engraxar sapatos. Então, foi muito difícil. Quase quatro meses a pedir, a pensar que, se calhar, eu podia estar a mudar, arranjar um valor para que ele iniciasse um negócio da preferência dela. Mas eu disse: olha, minha filha, vamos engraxar sapatos.”

Diante dos sonhos, Irene tende a inovar para ter mais clientes na sapataria. Ela juntou-se às redes sociais através da referência IRENE concerto IC, e diz ser uma ferramenta indispensável.

“É onde eu faço a publicidade dos meus trabalhos, faço lançamento de fotos. As pessoas vão vendo sempre o que eu faço, o que eu tenho como novidade. Tenho tido muitos clientes que estão lá na Matola, uma vez que eles não conseguem sempre estar aqui na cidade de Maputo, o que eles fazem? Eles trazem um plástico de sapatos de toda semana. Então, eles têm de limpar o sapato segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Também já tive uma cliente que já saiu de Xai-xai porque viu uma reportagem minha. Então veio para aqui para experimentar e gostou, graças a Deus.”

Contextos e aspirações

Este ano, o tema do Dia Internacional da Juventude “Contextos Diferentes, Aspirações Comuns” dedica atenção especial aos jovens que vivem em Países Menos Avançados e reconhece os esforços dos jovens que continuam a demonstrar resiliência, liderança e inovação no avanço do desenvolvimento sustentável nas suas comunidades.

Celso Ferreira formou-se em Contabilidade e Auditoria com experiência em análise financeira, operações contabilísticas e controlo interno. Mas a sua história pessoal com a miopia, que atinge grande parte das pessoas o inspirou a abrir o próprio negócio utilizando os conhecimentos que já tinha de gestão.

Ele conta como nasceu a ideia de criação de armações de óculos integradas no projeto Zambezi Eyewear, uma iniciativa focada no desenvolvimento Eyewear sustentável utilizando matérias-primas locais.


Criar óculos e empregos jovens

“Eu sofro de vista. Sou míope como quase 40% da população tem problemas de visão. Então, tinha três óculos de marcas diferentes. Achava o máximo ter três marcas de óculos diferentes. Então, ao tirar uma foto, veio-me uma ideia na mente, a questionar. Por que não fazes os teus próprios? Então, dali nasceu o bichinho de investigar como é que poderia fazer isso. Como é que poderia criar óculos em Moçambique com matéria-prima local. E foi assim que surgiu a ideia.”

Concretizada a ideia, Ferreira tem sonhos por alcançar. Ver o projeto além da fronteira de Moçambique, gerar emprego para mais jovens no ciclo da cadeia de valores, assim como treiná-los para serem independentes.

“Poder capacitar, formar cada vez mais pessoas e especializar as pessoas nesta área. Ver o nosso produto chegar a todo o mundo, precisamente aqueles países que Moçambique já tem acordos, onde existem já isenções de tarifas alfandegárias, já existem acordos bilaterais. Então, o nosso sonho é ver que o nosso produto consiga “furar” esses mercados. África do Sul, Angola, Portugal, Brasil, França, efetivamente, Moçambique.”

Sob o lema Contextos Diferentes, Aspirações Comuns, a efeméride oferece uma plataforma para que governos, organizações de juventude, entidades das Nações Unidas, sociedade civil, meio acadêmico e outras partes interessadas promovam o diálogo, fortaleçam parcerias e destaquem iniciativas lideradas por jovens que contribuam para sociedades mais inclusivas, pacíficas e sustentáveis. Ouri Pota – Moçambique ONU News


Angola - Canadianos compram mina de ouro e terras raras

Uma empresa mineira de origem canadiana anunciou, no dia 10, um acordo para aquisição de direitos num projecto de exploração de ouro em Benguela, no município da Ganda, que pode estender-se para a pesquisa de elementos de terras raras


A Newfoundland Discovery Corp. (Newd), uma empresa de média dimensão que está cotada na Candadian Stock Exchange (mercado onde estão listadas empresas emergentes ou novos negócios), celebrou um "acordo definitivo de troca de acções para adquirir 100% da Orenoxe Holdings, que detém o direito de adquirir, através de um mecanismo de participação progressiva, uma participação de até 70% na subsidiária Goldango - Mineração, com a opção de aumentar a sua participação para 90%.

A Goldango detém a concessão de ouro e terras raras de Ganda, com 786 quilómetros quadrados, na província de Benguela, em Angola (o "Projecto Ganda")", segundo o comunicado oficial.

Jeremy Prinsen, presidente e director executivo da Newd, acrescentou que o projecto "é o tipo de activo que uma empresa júnior raramente consegue explorar sem obstáculos - são quase oitocentos quilómetros quadrados de área com potencial para ouro, elementos de terras raras e minerais de cobre, já submetida a levantamentos magnéticos aéreos, já validada no terreno, numa jurisdição que acaba de provar que é capaz de licenciar e construir uma mina de terras raras", disse o gestor, numa referência ao projecto da Pensana, em parceria com o Fundo Soberano de Angola, de exploração de terras raras em Longonjo, província do Huambo.

"Os mineiros artesanais encontraram o "fumo" há anos; o nosso programa vai atrás do "fogo"", disse Prinsen. A Goldango é uma entidade angolana, registada em Agosto de 2021, com sede em Luanda, e capital social de 1 milhão Kz. Segundo o registo público da empresa, conta com três sócios: José Manuel de Castro (detém 50% do capital), residente na província e município do Huambo, António Figueiredo Loureiro e Augusto Bicho Loureiro, ambos residentes em Luanda, com quotas de 25%.

A Newd justifica o interesse no projecto por estar localizado num "importante centro regional ligado por via férrea ao porto atlântico do Lobito através da linha ferroviária de Benguela" e diz ter elementos de pesquisa técnica que comprovam a semelhança entre as características geológicas na região da Ganda e as principais zonas de exploração de ouro africanas.

"Imediatamente após a conclusão da transacção, a empresa tenciona dar início ao seu programa inicial de prospecção de dois meses no "Projecto Ganda", como parte da primeira fase de campo da sua participação. A realização de despesas de exploração no valor de 1 milhão USD constitui um requisito do acordo de aquisição e, caso a empresa não realize esse montante dentro do prazo exigido, perderá a sua participação", explicou a empresa no comunicado ao mercado.

A Newd revelou que também já foi apresentado à Agência Nacional de Recursos Minerais (ANRM) um pedido de conversão da licença actual num título de exploração. Este desenvolvimento está alinhado com os movimentos recentes no sector mineiro, sobretudo em projectos localizados na região centro-sul do País. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Macau - Alcateia de emoções em apresentação inédita de “Os Lobos de Pedra” no Centro Cultural

Um clássico infantil torna-se palpável. Pedro desta vez vem acompanhado de vários lobos, feitos de objectos do quotidiano, que sobem ao palco para dar corpo aos medos, raivas e alegrias de quando somos crianças. A Trupe Fandanga, companhia portuguesa de teatro de marionetas, traz a Macau “Os Lobos de Pedra”, uma peça que vai em direcção oposta as convenções do teatro infantil, ao propor menos respostas e mais perguntas. Com direcção artística de Sandra Neves, o espetáculo estreia este fim-de-semana no Centro Cultural, integrado no 3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, com sessões de 14 a 17 de Agosto, em versões em cantonense e português


Há qualquer coisa de profundamente arcaico na relação entre uma criança e um objecto. Um pau pode ser uma espada, uma concha pode ser um tesouro, uma caixa de cartão pode ser uma nave espacial. É essa capacidade “infantil” de ver para além da forma, de transformar o que está à mão em algo que habita o imaginário, que Sandra Neves, criadora de marionetas e directora artística da Trupe Fandanga, explora em Os Lobos de Pedra. A peça, que a companhia portuguesa apresenta em Macau no âmbito do 3.º Festival Internacional de Artes para Crianças, não é um espetáculo que oferece respostas ou lições. Antes, convida o público a um palco onde as certezas se dissolvem e onde cada espectador, criança ou adulto, encontra a sua “moral da história”.

O espetáculo, com aproximadamente 40 minutos de duração, é apresentado no Estúdio I do Centro Cultural de Macau, com sessões em cantonense nos dias 14, 15, 16 e 17 de Agosto e em português nos dias 15 e 16 de Agosto.

A peça acompanha o conhecido Pedro. Não o mentiroso, mas uma criança que mergulha no seu próprio ser, onde encontra lobos que personificam os seus sentimentos mais primordiais. O cenário, uma ilha feita de madeira e metal, que se transforma constantemente, é habitada por objectos encontrados na oficina que vão ganhando vida. Não há, no entanto, uma narrativa linear. O que existe é uma sucessão de metáforas visuais que se desdobram à medida que Pedro se confronta com os seus próprios fantasmas.

Em entrevista, Sandra Neves descreve a sua criação como o resultado de um processo intuitivo, onde cada objecto se transpõe como emoção, e cada emoção pede uma forma. “Normalmente vou para a oficina, rodeada de muitos objectos e vou seguindo a intuição do que é que cada objecto sugere, do que é que cada momento me pede emocionalmente”, explica a criadora.

Os lobos do título, contudo, não são lobos nem literais nem físicos. São escorpiões feitos com utensílios antigos, tartarugas construídas a partir de puxadores de portas e travões de bicicleta, híbridos que, nas mãos da “manipuladora” das marionetas sem fios, se transformam em algo estranhamente familiar. “Nós somos de uma geração que cresceu a ver desenhos animados japoneses, Miyazaki e tantas outras coisas. Então, na nossa cultura ocidental, temos muitas coisas que fomos ver à cultura oriental”, reflecte Sandra.

Para a criadora, a simbologia do lobo é de “uma figura ambígua que normalmente é muito maltratada e na verdade é um animal muito nobre, mas que funciona com instintos básicos muito crus, e eu vejo um paralelo nessa forma de ser com o que é uma criança”, afirma Sandra. O nome Pedro, que em latim significa pedra, reforça a metáfora. “Se os lobos forem de pedra, a pedra é uma coisa também muito curiosa porque é dura, parece que é intransponível, mas nós conseguimos moldar a pedra. A água consegue, que é a coisa mais líquida, moldar a pedra de uma forma incrível”.

Sandra encontra na história de Pedro e o Lobo de Prokofiev uma das suas principais inspirações. Na versão do compositor russo, Pedro captura o lobo que devorou o seu pato de estimação, mas, no momento em que os caçadores adultos se preparam para o matar, Pedro escolhe libertá-lo. “Isso revela uma certa nobreza de carácter”, explica Sandra. Este gesto de libertação, que contrasta com a vontade de vingança dos adultos, é o que a fascina na personagem. O Pedro da sua peça é essa mesma criança rebelde e incompreendida, que se recusa a seguir as regras impostas e que, ao confrontar os seus lobos interiores, aprende a ultrapassar as suas próprias dores de crescimento.

A peça nasceu da observação de uma criança real. Neves conta que “este projecto vem muito do facto de eu ter conhecido uma criança muito complexa, que era o meu filho, muito dada às emoções”. A criadora insiste que a função do teatro infantil não é dar respostas. “Nós, como adultos, educadores ou artistas, tendemos a dar respostas todas às crianças, e na verdade não precisamos. A nossa função é dar-lhes pistas, apoiá-los, dar-lhes ferramentas. Depois, são eles que falam. São suficientemente inteligentes para serem até mais espertos do que nós”.

Sandra Neves concluiu dizendo que não sabe o que esperar do público de Macau, uma vez que “a linguagem das marionetas é quase como a música, é universal”, e por isso, está “muito curiosa” para receber as diferentes reacções. Depois do espetáculo, a conversa com o público será uma forma de feedback e de continuação da própria experiência, deixando que o público manipular as suas criações, numa troca de interpretações sobre o que cada um viu, sentiu e projectou naqueles lobos de pedra que, afinal, são feitos das próprias memórias e emoções.

A criação da Trupe Fandanga leva música original de Carlos Adolfo, texto de Ricardo Alves, cenografia de Sandra Neves e Miguel Cantante, desenho de luz de Mariana Figueroa, vídeo de Patrícia Viana Almeida, e voz off de Rita Cantante (português) e Lai Ho Yi (cantonense). A produção tem direção de Ana Carvalhosa e direção de cena de João Gravato, sendo uma co-produção do Teatro Municipal do Porto e da Circolando – Central Eléctrica. Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”