Em seu
mais recente livro, Raquel Naveira faz uma conexão íntima entre o “eu” lírico e
a natureza em poemas e textos poéticos
I
Uma obra que explora a simbologia do ombro
como lugar de refúgio, fardo e segurança é o que espera o leitor no mais
recente livro de Raquel Naveira, poeta, romancista, contista, cronista, crítica
literária, ensaísta e professora universitária sul-mato-grossense. Com um
estilo marcado por grande sensibilidade, a autora apresenta em O ombro
e outros textos poéticos (São Paulo Evoluce
Editora, 2026) crônicas entremeadas por poemas sensíveis, em que transita por
figuras históricas.
Entre essas figuras, a autora cita Dom Pedro II (1825-1891)
, Napoleão Bonaparte (1769-1821), Paul Valéry (1871-1945), Pablo Picasso
(1881-1973), Maria Antonieta (1755-1793), Gertrude Stein (1874-1946) e Carolina
Augusta Xavier de Novais (1835-1904),
mulher de Machado de Assis (1839-1908), além de homenagear suas raízes
pantaneiras junto às águas barrentas do rio Paraguai e uma escritora hoje
praticamente esquecida, mas de grande importância para a literatura brasileira,
Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), autora de A Muralha
(1954), épico romance em que conta a história de uma família bandeirante que
morava nos arredores da vila de São Paulo.
No posfácio, em artigo com o título “O lírio da poesia”, em
que faz análise crítica do poema “Lírio”, de Raquel Naveira, Rosemary Ferreira
de Souza, doutora em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), faz observações tão pertinentes que podem ser extensivas
aos demais textos do livro dessa que aponta como “uma das vozes mais
significativas da poesia brasileira”. E lembra que Raquel Naveira “utiliza o
lirismo para explorar questões essenciais e emocionais, estabelecendo uma
conexão íntima entre o eu lírico e a natureza”.
De fato, como em “O lírio”, os demais poemas que acompanham
os textos poéticos mostram uma estrutura e versos livres, que “proporcionam
fluidez e musicalidade”, o que permite muitas interpretações. São poemas e
textos poéticos introspectivos, que examinam a relação do ser humano com o
mundo natural. E que, como diz a crítica, “são marcados por uma sensibilidade
acentuada, onde cada palavra é escolhida com cuidado para evocar uma resposta
emocional no leitor”.
II
Dividido em três capítulos – “Ombro amigo”, “Ombro a ombro”
e “Ombro rebelde” – , o livro mostra intertextualidade erudita, fazendo alusões
a autores de obras clássicas, como Aristóteles (384a.C.-322a.C.), Goethe
(1749-1832), Herman Hesse (1877-1962), Lev Tolstói (1828-1910), Pablo Neruda
(1904-1973), Garcia Lorca (1898-1936) e Antonin Artaud (1896-1948), além de referências a vários escritores que
são ícones da literatura brasileira, como os poetas Hilda Hilst (1930-2004),
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cassiano Ricardo (1895-1974), Álvares
de Azevedo (1831-1852), Cora Coralina (1889-1985) e Manoel de Barros
(1916-2014), e o romancista Aluízio Azevedo (1857-1913), entre outros.
Uma dessas figuras históricas é Paul Valéry, autor do poema
“La jeune parque” (“A jovem parca”), em que o poeta
francês, a propósito do pesado clima de pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1944),
trata da luta da razão contra o apelo da carne, a sensualidade, e do qual
Raquel Naveira retirou algumas expressões para compor o seu poema “As parcas”.
Em seu texto, a poeta lembra que as parcas, na mitologia romana, são três
deusas irmãs que tecem, medem e cortam a vida dos seres humanos, determinando o
destino de nascimento à morte. Eis o trecho final desse poema:
(...) Somos três as Parcas, / Duras e impiedosas,
/Filhas da Necessidade, / Lei que rege as mudanças, / Que planta e ceifa / As
contínuas esperanças. / Somos três as Parcas, / Fixando símbolos, / Plantando
sementes / Nos campos das mentes / Que lavramos. / Somos três as Parcas, /
Somos três as |Moiras: / Índia, / Negra, / Ibérica, / Marcas deste continente /
Que se fez América.
Como são textos em que a autora transforma história e
memória em exercícios de intimidade, vale ressaltar a crônica na qual parece
confessar um fracasso pessoal, ao reconhecer um último revés na vida, talvez
por não ter tido coragem de partir. É o que se lê na crônica intitulada
“Naufrágios” em que não aparece nenhum poema propriamente dito, mas cuja poesia
escorre nas linhas formais do texto:
“(...) Naufraguei porque aquele a quem amei infinitamente
me tratou com insultos. Porque me desviei e caí nas rochas. Não entendo a razão
desse ataque selvagem do Mal, eu que sempre usei a palavra como bússola. (...)
Fraca e pequena, fui atirada na praia. Estou viva. O corpo iluminado pelo
brilho dos pirilampos. Coberta de sangue e espuma. Em mim, ficou apenas o
essencial”.
III
Outro texto que atrai a atenção por sua sensibilidade em
absorver e perdoar as fragilidades humanas é “Pombinha” em que recorda a
personagem de Aluísio Azevedo que leva esse nome no romance O cortiço
(1890), sua obra-prima. A cronista lembra que, nessa obra, o autor conta a
transformação moral e social pela qual passa a personagem, uma rapariga
ingênua, filha de uma viúva portuguesa, que teria um futuro digno pela frente,
de dona de casa talvez, mas que se deixa levar pela lábia de Léonie, uma
prostituta francesa, culta e sofisticada, que a atrai para uma vida de
degeneração moral e social. Mais
adiante, acrescenta: “Pombinha vira, ao final, uma nova Léonie: elegante,
resoluta, disposta a levar outras pombinhas para as arapucas e gaiolas da
prostituição”. E conclui com este poema:
“Não entregues ao gavião / A tua pombinha, / Tão simples, /
Tão pura, / Defende-a das garras / Dessa agressão. / É outono, / Há sol nas
folhas, / Ele a viu de longe, / Cheia da graça, / E desceu, / Caçador alado /
Que mata aquela / Que deseja / Seu coração. / Não entregues ao gavião / A tua
pombinha, / Alma nascida da fonte da memória. / Do bosque da sagração. / Poupa
a pombinha, / Que ela voe / Em tua direção”.
À falta de espaço para analisar os demais poemas e crônicas,
é de se repetir o que se lê no texto afixado na primeira aba do livro, ou seja,
que “o ombro é lugar de refúgio e existência”. E que Raquel Naveira trata essa
articulação complexa da vida, mesclando a densidade de sua poesia com o fluxo
da crônica. E escolhe o ombro físico que todo o ser humano carrega para fazer
um fecundo simbolismo, utilizando-o como metáfora do peso da vida que todos
carregamos. Ou, como ela mesma diz, na crônica que abre o livro:
“(...) Quanta dimensão espiritual nos ombros. Quantas
jornadas. Sobre os ombros são depositados os desafios, as cargas emocionais, os
fardos, as responsabilidades, as adversidades. Pela posição curvada dos ombros,
percebemos quando uma pessoa está sobrecarregada, escondendo algo, mascarando
situações difíceis. Jesus carregou nos ombros a cruz em direção ao calvário e
ela perfurou sua clavícula até o sangue. Também carregou a ovelha perdida que
era eu”.
IV
Raquel Naveira (1957), nascida em Campo Grande, formada em
Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (1976), em sua cidade natal, é mestre
em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001), de
São Paulo. Graduou-se em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de
Nancy (1981), na França, e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (1994),
onde deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa por 19 anos e
aposentou-se.
Residiu no Rio de Janeiro, onde lecionou na Universidade
Santa Úrsula e, em São Bernardo do Campo-SP, na Faculdade Anchieta. Deu aulas
também na pós-graduação da Universidade Nove de Julho (Uninove), de Comunicação
Aplicada na Faculdade de Tecnologia em Hotelaria, Gastronomia e Turismo (Hotec)
e na pós-graduação da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.
Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias
instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa
Mário de Andrade, em São Paulo. Na Academia Paulista de Letras, participou do
Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas
Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).
É autora de mais de 40 títulos de poesia, crônicas, ensaios
e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa
de Tecla, poemas, obra indicada ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela
Câmara Brasileira do Livro. Escreveu o livro infanto-juvenil Pele de
Jambo (1996) e o de ensaios Fiandeira (1992). Publicou os
romanceiros Guerra entre irmãos (1993), poemas inspirados
na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá (1996), inspirados na
Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa
Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela
posse de um território.
É autora também de: Via Sacra (1989); Fonte
Luminosa (1990); Nunca-Te-Vi (1991); Sob os
Cedros do Senhor (1994); Canção dos Mistérios
(1994); Mulher Samaritana (1996); Maria Madalena (1996);
O Arado e a Estrela (1997); Rute e
a Sogra Noemi (1997); Intimidades Transvistas
(1997); e Senhora (1999), que recebeu o prêmio Jorge de Lima-Brasil 500
anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e pela União Brasileira de
Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro, em 2000.
Publicou ainda: Stella Maia e Outros
Poemas (2001); Xilogravuras (2001); Maria Egipcíaca
(2002); Casa e Castelo (2002); Tecelã de Tramas
– ensaios sobre interdisciplinaridade (2005); Portão
de Ferro (2006); Literatura e Drogas – e outros
ensaios (2007); Guto e os Bichinhos (2012); Sangue
Português (2012); Álbuns de Lusitânia (2012); e Jardim
Fechado – uma antologia poética (2016), livro
comemorativo dos seus 30 anos de carreira literária.
Nos últimos tempos, lançou Leque Aberto (2020),
Romanceiro de Cabeza de Vaca: o andarilho
das Américas (2020) e Manacá (2021), crônicas em que
mescla em prosa poética tradição e modernidade. Em 2022, publicou No Mundo
Encantado de Luciana, infanto-juvenil e, em 2023, Mundo
Guarani – fragmentos de uma alma da fronteira,
obra de memória que está entre a crônica, a novela e o romance e obteve o
Prêmio João do Rio, da UBE-RJ, narrativa que traz à tona o universo da
fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em que recupera suas vivências com a
herança indígena ainda extremante forte na cidade de Bela Vista, na fronteira
com o Paraguai, à beira do rio Apa.
Em 2024, lançou Ponto de Fuga &
Outros Poemas (São Paulo, Inmensa Editorial), coletânea de poemas
originalmente publicados em dez de seus livros, que reúne também peças
inéditas, os chamados poemas “vegetais”, gênero que, aliás, já estava presente
em obras anteriores. Em 2025, publicou Ursa Maior (São Paulo,
Scortecci Editora), que reúne reflexões de uma mulher madura, sensível, amante
das Letras e das Artes, à janela, diante de uma noite salpicada de estrelas, obra
de gênero de difícil classificação, para a qual a autora arrisca como definição
que seria um “romance em desordem, fragmentário, um amontoado de estudos”.
Pertence à Academia Sul-mato-grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF e O Trem-MG, entre outros. Adelto Gonçalves – Brasil
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O ombro e outros textos poéticos, de Raquel Naveira, com posfácio de Rosemary Ferreira de Souza. São Paulo, Evoluce Editora, 112 páginas, R$ 58,35, 2026. E-mail da editora: vendas@editoraevoluce.com E-mail da autora: raquelnaveira@gmail.com
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona Brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São
Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia
Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´el-Rei na São
Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas
da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra
Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na
capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu
prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends
(Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br