Livros
de Lourenço Cazarré já podem ser considerados clássicos da literatura juvenil
I
O livro mais vendido do premiado escritor
Lourenço Cazarré, A fabulosa morte do professor
de Português (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2026), chega
agora a sua terceira edição, com ilustrações do artista gráfico Negreiros.
Trata-se de um admirável exemplo de como se pode fazer literatura juvenil, sem
deixar de agradar ao leitor experiente e exigente. Escrito inicialmente como
conto policial para uma coletânea destinada a adultos que não saiu à luz, a
novela foi remodelada com o olhar voltado especialmente para a garotada, como
explicou o próprio autor
Em linhas gerais, lê-se a movimentação de dois
pré-adolescentes que receberam da professora a incumbência de escrever uma
reportagem para o jornal do colégio e foram destacados para cobrir a
inauguração de uma livraria, onde estariam presentes vários intelectuais e
artistas da cidade. E, como já anuncia o título, durante o acontecimento,
ocorrem vários fatos que culminam com a morte de um professor de Português e
também crítico literário, que não seria bem visto pelos intelectuais da cidade.
Dono de um estilo fluido, ágil e envolvente, de que Contos
pelotenses (Florianópolis, Editora Insular, 2025) e Breve memória
de Simeão Boa Morte e outros contos
poéticos (Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora, 2025), obra publicada
em Portugal em 2024 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dentro da Coleção
Comunidades Portuguesas, são os mais destacados e recentes exemplos, Cazarré, a
cada dia, assume-se como o principal escritor brasileiro voltado para a
literatura juvenil, atividade em que está empenhado desde 1985.
Afinal, o seu Clube dos leitores de
histórias tristes, lançado em 2005, foi considerado pela revista Veja
como o melhor livro para leitores de dez a doze anos. E tanto Nadando contra
a morte (1998) quanto A cidade dos ratos
– uma ópera-roque (1993), ambos publicados pela Editora
Formato, foram considerados altamente recomendados para jovens pela Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Sem contar que a novela Isso não
é um filme americano (Editora Ática, 2002) recebeu
menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura João-de-Barro da Biblioteca
Municipal de Belo Horizonte.
Um exemplo desse estilo direto que, ao mesmo tempo, passa
lições de sabedoria aos jovens leitores e especialmente para aqueles que ainda
sonham com a profissão de jornalista, extremamente vilipendiada nestes tempos
de inteligência artificial e quejandos, é este diálogo entre pai e filha que se
lê logo às primeiras páginas deste A fabulosa morte do
professor de Português:
“(...) – Seja discreta – continuou o pai. – Tente ser
invisível pra poder anotar tudo sem que as pessoas percebam que você é
repórter. Não faça como a maioria dos jornalistas, que se acham mais
importantes do que os entrevistados...
– Pai, eu também estou preocupada com o depois... Será que
vou saber escrever a reportagem?
– Saberá... Escreva só frases diretas: sujeito, verbo e
predicado. Não use mais de duas vírgulas por frase. E não faça cambalhotas
estilísticas... O bom jornalista aprende a escrever lendo os bons autores...
– Mas eu não penso em ser jornalista, pai!
– Então leia pra aprender a pensar melhor... E, agora,
vamos ao feijão com arroz.(...)”.
II
Outra obra dirigida ao público juvenil é Um velho
velhaco e seu neto bundão (Belo Horizonte, Editora
Yellowfante, 2024), também já em terceira edição, que, como confessa o autor,
foi escrita com a imaginação voltada para os anos em que teve de viver com o
seu avô paterno, enquanto estudava numa escola técnica em Pelotas, entre 1965 e
1968. “Meu avô, claro, não era cretino como o personagem do livro. Mas eu era
bundinha como o menino Candinho”, diz.
Ou seja, aqui se conta o relacionamento entre um menino
ingênuo, mas esperto, e um velhote brincalhão, porém, ao mesmo tempo rigoroso e
exigente, que procura ensinar o neto a amar os esportes e a leitura e a estudar
com método. Ou, nas palavras do autor: “Ensina também que nunca estamos
suficientemente preparados para enfrentar as muitas surpresas da vida e que,
pensando bem, é melhor não viver chorando porque chorar demais só faz ranho”.
Como o enredo é povoado por personagens dotados de língua
bem afiada, o livro está repleto de diálogos hilariantes, que, afinal, tratam
de atrair o jovem leitor iniciante, entretê-lo e deixá-lo alegre por alguns
momentos. Mas que, de certo modo, procura resgatar e recriar a picaresca
clássica, aquela de Lazarillo de Tormes (1554), de autoria
desconhecida, e El Buscón (1626), de Francisco de Quevedo
(1580-1645), ao mostrar o cotidiano de pobretões que têm sonhos e querem
satisfazê-los, mas que, para tanto, precisam contornar as regras do jogo
oficial da vida, tornando-se assim pessoas astutas, ardilosas, espertas,
burlescas e trapaceiras.
Trata-se de um livro divertido, de humor, tal como aquelas
obras da picaresca clássica. Ou melhor: estamos diante de um exemplo bem
acabado de neopicaresca. Até porque a picaresca clássica espanhola é
irrepetível e só tem sentido se associada aos séculos XVI e XVII.
III
Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lourenço Cazarré
(1954) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao
final do século XIX. Fez o curso ginasial em Pelotas e formou-se radiotécnico
“com a nota mínima”, ao mesmo tempo em que devorava impiedosamente todos os
livros da seção infantil da Biblioteca Pública da cidade. Em 1975, graduou-se
em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas.
Depois de um breve período como operador de telex,
trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio
do Povo, Folha da Manhã e Folha da
Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho
de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como
repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para
a redação do jornal O Estado.
Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª
Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a
ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente
inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito
Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.
Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais
e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira,
Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao
Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa Oeste da
Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os
prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos
da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo,
Melhoramentos, 1984).
Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria
de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em
concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre
o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira
e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns
meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília
(UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de
redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é
colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em
Brasília.
Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde
romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam também
o romance A longa migração do temível tubarão
(2008), as novelas Estava nascendo o dia em que
conheceriam o mar (2011) e Os filhos do
deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas
de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004)
e Exercícios espirituais para insônia e incerteza
(2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019) e Amor e guerra
em Canudos (2021).
Em 2018, com Kzar, Alexander,
o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná,
2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido
pela Biblioteca Pública daquele Estado. O romance premiado trata da paixão
alucinada de um homem pela literatura. Em parceria com Pedro Almeida Vieira,
publicou em fascículos, no site Página Um, a novela
policial de humor A misteriosa morte de Miguela
de Alcazar. Adelto Gonçalves - Brasil
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A fabulosa
morte do professor de Português, de Lourenço
Cazarré, com ilustrações de Negreiros. Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 112
páginas, R$ 43,49, 2026. Um velho
velhaco e seu neto bundão, de Lourenço
Cazarré, com ilustrações de Vito Quintans. Belo Horizonte, Editora Yellowfante,
126 páginas, R$ 45,00, 2024. E-mail: atendimento@grupoautentica.com.br
Site: www.editorayellowfante.com.br
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona
Brasileira (Lisboa, Nova
Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os Vira-Latas da Madrugada
(José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o
Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados
Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br