Macau
tem condições para se posicionar como um centro cultural para as comunidades
com heranças ultramarinas, em particular aquelas com história ligada a
Portugal, de acordo com a presidente do Comité Científico Internacional para o
Património Construído Partilhado (ISC-SBH) do Conselho Internacional dos
Monumentos e Sítios (ICOMOS). Maria José de Freitas esteve na 22.ª
Assembleia-Geral do ICOMOS, onde foi discutido o tema do próximo trienal da
organização, “património em movimento”, que vigorará já a partir de 2027 e no
âmbito do qual a investigadora acredita que “Macau está especialmente bem
colocado”.
O
encontro dos membros do ICOMOS teve lugar em Kuching, na Malásia, “uma cidade
portuária tal como Macau” e que “foi formada na altura dos grandes impérios do
século XIX”, começou por realçar Maria José de Freitas ao Jornal Tribuna de Macau.
Durante o périplo, os membros também visitaram Malaca, partilhou a arquitecta,
um assentamento com “uma herança muito rica de influência portuguesa, onde
diversos residentes ainda falam o ‘papiá kristáng’”, dialecto baseado na língua
de Camões.
Contudo,
segundo a presidente do ISC-SBH, e apesar de as ruas “ainda terem nomes
portugueses”, a comunidade sente-se algo abandonada pelas autoridades de
Portugal, em virtude da distância. “Eles também cultivam a religiosidade, a
procissão por altura da Páscoa”, detalha. “As gerações mais velhas ainda falam
o ‘papiá kristáng’, mas os mais novos já não estão muito interessados nisso”,
lamentou.
“Aquilo
que vemos em Macau e que acontece, por exemplo, com o patuá é um excelente
exemplo”, elogiou Maria José de Freitas. “Lembro-me sempre dos ‘[Dóci]
Papiaçám’ de Macau, que, através do teatro, conseguem transmitir uma coesão,
uma ideia de conjunto, e que às camadas mais novas também vai interessando”,
descreve.
“Creio
que em Malaca isso não acontece, pelo menos foi o que nos foi transmitido, e
julgo que poderia haver uma colaboração mais evidente nesse aspecto, dada a
proximidade. Estamos relativamente perto de Malaca, e poderia haver uma
colaboração mais intensa nesse sentido”, reiterou, acrescentando o exemplo da
já existente colaboração com Goa.
Porém,
assegurou que “em Malaca, esse sentido de pertença [à cultura portuguesa] ainda
é visível, porque estas gerações antigas mantêm e conversam entre eles em
‘papiá kristáng’, que é muito parecido com o patuá”. “Estive lá há 10 anos. E
notei que, hoje em dia, o património de influência portuguesa, a célebre Porta
[de Santiago] está mais arranjada. A própria Igreja de São Paulo está mais
arranjada. À volta, a configuração está mais organizada. E há maior orgulho
patenteado nesses monumentos, porque não estão abandonados”, enaltece.
“Os
monumentos portugueses são monumentos com uma antiguidade evidente, estão mais
contextualizados, mais tratados”, reconheceu Maria José de Freitas. Por outro
lado, acautelou que “não há placas, nem há documentação que seja
disponibilizada a quem visita, que retrate essa história que foi tão importante
naquela altura”.
Na sua
perspectiva, “é necessário um maior diálogo”. “Através de produções conjuntas
no campo do teatro”, propôs. “Porque não os próprios ‘Papiaçám’ de Macau
integrarem alguns elementos de Malaca? E também de Goa. Julgo que esta fusão
cultural pode interessar a Macau, no sentido de veicular ou divulgar Macau como
uma plataforma para o mundo, que penso ser também interesse do próprio
Governo”.
“Penso
que seria interessante, como há estas raízes comuns. Perceber quanto é que
conseguem contribuir para mostrar esta fusão cultural que houve noutros
tempos”. “Macau poderia, se calhar até deveria dinamizar estas situações ou ter
um papel mais activo”, asseverou.
“E
diria que não é só com os países de língua portuguesa. Seria também com os
países da América Latina. Tive a oportunidade de falar com vários
representantes do ICOMOS, ligados à América Latina, e encontrámos muitos pontos
comuns, que vamos também aprofundar neste contexto do novo triénio”, antecipou.
“As
rotas marítimas ibéricas tiveram muitos pontos comuns”, continuou. “E porque há
património de origem chinesa, nesses locais da América Latina, também ligado ao
património ibérico”. “Trata-se de ter umas perspectivas e uma abordagem
conjunta, para melhor perspectivar esta harmonia que se pretende para o
futuro”, justificou a líder do ISC-SBH. “No passado houve encontro. No futuro,
esse encontro deve ser também perpetuado. A ideia é essa”, rematou. Pedro Milheirão
– Macau in “Jornal Tribuna de Macau”