Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Brasil - Márcia Mikai ajuda a reinventar crescimento urbano com “agrihoods”, o bairro do futuro

Iniciativa pioneira impulsiona restauração de ecossistemas, fortalece resiliência climática e desenvolve comunidades saudáveis. Com o apoio do PNUMA, novas áreas são projetadas para funcionar em harmonia com a natureza, beneficiando produção de alimentos e abastecimento de água


Cidades e centros urbanos abrigam mais da metade da população mundial e são responsáveis por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa que impulsionam a crise climática.

Urbanistas no Brasil estão a liderar uma revolução no design das cidades para criar áreas com uma pegada de carbono significativamente menor.

Resiliência climática e comunidades saudáveis

Não é exagero dizer que a forma como as cidades cresceram não tem sido positiva para o planeta. A falta ou inadequação de planeamento levou a uma série de problemas, como inundações, ilhas de calor e escassez de água.

Ao mesmo tempo, as cidades distanciaram-se da produção de alimentos e da natureza. O aumento da distância entre a vida urbana e as áreas agrícolas alimenta o desmatamento, as emissões e a perda da consciência ecológica.

Mas Márcia Mikai e os seus colegas acreditam ter uma resposta para a expansão urbana insustentável. Eles chamam essa solução de agrihood.

A sua empresa, Pentagrama Projetos em Sustentabilidade e Regeneração, está reinventando a forma como as cidades crescem, para que elas passem a impulsionar a restauração de ecossistemas, fortalecer a resiliência climática e desenvolver comunidades saudáveis.

Os urbanistas, designers e arquitetos da Pentagrama colocam as suas ideias em prática em várias cidades brasileiras, especialmente em São Paulo, cuja região metropolitana, com 22 milhões de habitantes, continua a expandir-se sobre áreas agrícolas e florestais, apagando as fronteiras entre zonas urbanas e rurais.

Verde e lucrativo

Em entrevista para a ONU News, Márcia afirmou que estuda os modelos financeiros de sistemas agroflorestais há décadas. Uma das conclusões da pesquisa é que “o agrihood pode ser muito lucrativo”.

Márcia afirma que “muitas pessoas estão extremamente preocupadas com a segurança alimentar; elas querem um lugar para viver que tenha áreas comuns de qualidade e um senso de comunidade”. A especialista relata que quando mostra imagens de como esses bairros podem ser, a pessoas ficam encantadas.

O modelo desenvolvido por Márcia Mikai foi projetado para interromper a expansão urbana desordenada ao recuperar áreas degradadas, muitas vezes abandonadas após terem sido utilizadas em práticas insustentáveis, como a pecuária intensiva.

Nesta versão do agrihood, termo originalmente utilizado para promover empreendimentos residenciais nos Estados Unidos, o terreno é regenerado para combinar práticas sustentáveis de manejo florestal com edificações de uso misto e espaços dedicados à educação ambiental.

Trabalhando com a natureza

Essas novas áreas são projetadas para funcionar em harmonia com a natureza, tornando-se quase uma extensão do ambiente natural. Plantas e árvores nativas e comestíveis são reintroduzidas, ajudando a resfriar as cidades e reduzir o risco de inundações, desacelerando o escoamento superficial da água, além de contribuir para o reabastecimento de aquíferos.

Espécies ameaçadas, expulsas das cidades, encontram refúgio, enquanto espaços verdes compartilhados reconectam os moradores com a produção de alimentos e com a comunidade. Além disso, o ambiente biodiverso absorve ativamente carbono da atmosfera, transformando o crescimento urbano em ação climática.

“Os agrihoods têm inúmeras vantagens”, afirma Mikai. “Eles economizam água, protegem a biodiversidade e permitem que as pessoas consumam alimentos produzidos localmente”. Ela disse que esses podem ser lugares onde “jovens, idosos, pessoas ricas e de baixo rendimento vivem juntas e se integram”.

A brasileira acredita que isso pode tornar-se uma nova realidade.

Os agrihoods brasileiros, que também estão a ser testados em Brasília e Curitiba, reforçam o argumento defendido pela ONU de que investir em soluções positivas para a natureza gera retornos ambientais e económicos saudáveis.

Risco de colapso

No início deste mês, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA, divulgou o seu mais recente relatório do Estado do Financiamento para a Natureza.

O documento revela que o volume de recursos destinado a investimentos que prejudicam o planeta, como energia baseada em combustíveis fósseis e construção civil, é 30 vezes maior do que o direcionado a soluções positivas para a natureza, como os agrihoods.

O chefe da unidade de financiamento climático do PNUMA, Ivo Mulder, afirma que a exploração dos recursos naturais precisa ser contida porque “embora esse financiamento negativo para a natureza esteja impulsionando nossas economias, ele acabará levando essas mesmas economias ao colapso”.

“Não coloque cercas”

Além de defender reformas de políticas públicas no relatório, Mulder acredita que a forma como pensamos sobre a natureza também precisa mudar.

Para ele, “as pessoas frequentemente falam sobre a natureza como ambientes intocados, como parques nacionais cercados”. O especialista defende que é preciso integrar a natureza ao nosso cotidiano, adaptando as nossas cidades para enfrentar eventos climáticos extremos, para que, quando houver chuvas intensas, as nossas ruas e casas não sejam inundadas.

Segundo Mulder, essa mudança de mentalidade não deve limitar-se apenas aos líderes dos setores imobiliário, turístico e industrial, mas também alcançar a população em geral.

Ele ressaltou que neste momento de incerteza geopolítica, as pessoas têm uma visão relativamente pessimista do mundo, mas elas precisam imaginar uma alternativa positiva. Por exemplo, como seria Nova Iorque se incorporasse mais soluções baseadas na natureza?

Para Mulder, a cidade poderia ter mais áreas verdes, o que tornaria menos necessário usar menos ar-condicionado durante o verão, e isso poderia resultar em maior produtividade e uma economia mais dinâmica.

Restauração de Ecossistemas

Os projetos de agrihood da Pentagrama Projetos em Sustentabilidade e Regeneração contam com o apoio do BioCidades Empreendedoras, do PNUMA, um programa de incubação criado para apoiar 50 empreendedores em estágio inicial que desenvolvem soluções para a resiliência climática urbana em São Paulo e Curitiba.

O BioCidades Empreendedoras recebe apoio do PNUMA, da Bridge for Billions e do Instituto Legado, organizações que promovem o empreendedorismo social.

O projeto é inspirado pela Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas, uma oportunidade para abandonar políticas que degradam o planeta e revitalizar o mundo natural. ONU News – Nações Unidas

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Marcia Mikai Junqueira de Oliveira - Arquiteta e urbanista pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, MBA em Gestão e Tecnologias Ambientais pela POLI-USP, mestrado pelo IAU-USP, certificada pelo National Charrette Institute (NCI) em gerenciamento e planejamento de Charrettes. Empresária desde 1987, participante de projetos selecionados em Bienais de Arquitetura. Foi membro curador do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), Vice-presidente do Instituto Smart City Business America (atual Conselheira Técnica), docente em cursos de pós-graduação e extensão universitária. Atua com ênfase em projetos colaborativos, cocriação, desenvolvimento de “agrihoods” e sistemas agroflorestais de larga escala.


Moçambique - Véronique Nhampossa lança a obra “A Fonte que me Inspira”

Movida pela poesia cristocêntrica, a jovem e estreante escritora, Véronique Nhampossa, residente em Inhambane, diz que A Fonte que Me Inspira é uma obra que vem despertar almas e revelar a verdade às pessoas.


Falando à Moz Entretenimento, a autora revelou que pretende, com esta obra, contribuir para a mitigação de diversos males que apoquentam o nosso país, em particular.

Neste contexto, Véronique Nhampossa convida todo o leitor a mergulhar numa nascente de fé, sensibilidade e profunda inspiração, visto que a obra revela uma escrita delicada, onde as palavras fluem como água viva, tocando a alma e despertando sentimentos de esperança, amor e renovação espiritual, concluiu a escritora.

Por outro lado, Véronique partilhou o seu sonho de colocar no mundo literário uma obra em Braille, de modo a torná-la mais abrangente, uma vez que a própria padece de problemas de visão.

“Pelas dificuldades que passei, acabei tendo uma lição bem dada. Sinto que as obras devem ser abrangentes, no sentido de chegar a todos. Com um pouco de apoio, sonho em lançar uma obra em Braille para que todos tenham acesso”, afirmou.

Ainda na mesma ocasião, Véronique apelou a outros jovens para procurarem algo para fazer e deixarem de reclamar. Sustentou que ser dependente é um grande desafio, razão pela qual apela à acção.

Importa referir que a obra A Fonte que Me Inspira é composta por cerca de 15 poesias, que na sua maioria retratam histórias de Deus, passagens bíblicas, arrependimento, perdão, entre outros temas de carácter espiritual. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Angola - Estão abertas as inscrições para o Prémio de Escrita para Teatro José Mena Abrantes

O Prémio de Escrita para Teatro José Mena Abrantes (PETJMA) está de volta para a sua quarta edição, em que o vencedor vai ser distinguido com um prémio monetário no valor de três milhões de kwanzas


O processo de inscrição teve início no mês passado e decorre até 11 de Maio do corrente ano, exclusivamente para dramaturgos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de Timor-Leste. De acordo com o regulamento a que este jornal teve acesso, as candidaturas devem ser efectuadas exclusivamente por via online, através do endereço electrónico: premioescritateatro2026@gmail.com, e devem cumprir alguns requisitos essenciais.

Os mesmos estão relacionados com as idades, igual ou superior a 18 anos; não integrar nenhuma companhia ou grupo teatral ligado a qualquer membro do júri; submeter um texto totalmente inédito e original, redigido em língua portuguesa, que não tenha sido publicado ou editado por quaisquer meios, sejam electrónicos ou físicos.

O documento estabelece ainda que a obra concorrente deve conter, no máximo, 50 páginas, ou seja, deve estar devidamente estruturada e obedecer às normas formais de elaboração textual. Quanto à paginação, deve ser correcta, com o texto redigido em tamanho de letra 12, preferencialmente nas fontes “Times New Roman”, “Calibri” ou “Arial”, com espaçamento e margens ajustados. In “O País” – Angola 

Ficha de inscrição

Regulamento do concurso


Portugal – Lançamento do livro infantojuvenil de Luísa Fresta no Centro Cultural de Cabo Verde na cidade de Lisboa

O Centro Cultural de Cabo Verde acolhe, no dia 28 de fevereiro, pelas 16 horas, o lançamento do livro infantojuvenil “Bichos de Má Catadura” da escritora portuguesa e angolana Luísa Fresta, segundo livro da coleção Capitão, após o livro “No Reino das Tropelias e Desventuras”, publicado em setembro de 2024


Com a chancela da Editorial Novembro e com ilustrações de Mara Silva, o livro será apresentado pela escritora Regina Correia e a leitura de textos a cargo do escritor angolano João Fernando André.

Bichos de Má Catadura é o quarto livro infantojuvenil da escritora Luísa Fresta e almeja unir a família ao redor das cinco histórias que o livro apresenta. Baía da Lusofonia

Sinopse

“(…) BICHOS DE MÁ CATADURA reúne cinco novas histórias e pretende, a partir de agora, ser teu companheiro e amigo, oferecendo-te momentos de distração e de aprendizagem. Não te esqueças nunca que os adultos que escrevem e fazem ilustrações também já foram crianças e lembram-se bem do que sentiam, do que gostavam e sonhavam. Pode ser que tenham sido crianças parecidas contigo, ou não, porque, no mundo em que vivemos, há espaço para pessoas diferentes, que querem comunicar umas com as outras e construir relações harmoniosas, que é como quem diz, modos de conviver que sejam agradáveis e pautados pelo respeito e pela tolerância (…)”. 

Biografia da autora: 

Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal, desde 1993.

Publicou em 2012/13 uma série de crónicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras, com o qual colaborou regularmente até 2015, e publicou também, pontualmente, em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).

Escreve regularmente desde 2013 no portal O Gazeta, coordenado por Germano Xavier e desde 2014 publica prosa e poesia no portal Entrementes - Revista Digital de Cultura. Desde 2016 escreve também no jornal digital Artes&Contextos.

Sobre cinema, essencialmente lusófono e africano francófono, mantém participações episódicas através de artigos de opinião no site de crítica de cinema Africiné, portal BUALA, revista Awotele, e manteve, até 2015, duas colunas na revista METROPOLIS, intituladas: “A 7ª arte em África” e “Filmes da Lusofonia”. Em 2016 integrou o júri do comité de pré-seleção da representação pan-africana do Festival L’Arbre d’Or (filmes documentários - Gorée/Senegal).

Prémios e principais Antologias: 1998 - Portugal: concurso de contos curtos “Expo 98 palavras” (texto Crime, publicado juntamente com cerca de outros 100); 2013 - Brasil: 2.º lugar no 9.º concurso online - II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (poema Soneto do Amor no Feminino); 2.º prémio no 1.º Concurso Internacional de Literatura de Alacib (na categoria crónica, com Outros Campeonatos); 2014 - Brasil: o poema Talvez foi considerado um dos melhores 50 apresentados a concurso e incluído numa coletânea publicada pela Academia Jacarehyense de Letras, promotora do 8.º Festival Internacional de Sonetos; 2015 - Brasil: crónica Luanda, aliás «São Paulo da Assunção de Loanda» incluída numa coletânea editada pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP; 2016 - Portugal: integrou, juntamente com sete outros autores, uma antologia solidária dedicada ao tema da saúde mental, intitulada “Mens Sana” (com o conto O papel de Aurélie), editada pela Livros de Ontem; 2018 - Brasil: 1.º prémio de crónica internacional no 2.º Varal Literário da Câmara Municipal de Divinópolis com o texto Eu quero a panela grande; 2019 - Angola: participou numa antologia em homenagem ao poeta João Tala intitulada “Nós e a Poesia” editada pelas Edições Handyman; Portugal: integrou uma antologia poética intitulada “Templo de Palavras”, com o selo da Editorial Minerva e coordenação literária a cargo do poeta e escritor Delmar Maia Gonçalves; Brasil: 1.º prémio de crónica internacional no 3.º Varal Literário da Câmara Municipal de Divinópolis com o texto Os caminhos ínvios da escrita; Cabo Verde: participou na antologia solidária “Mulheres e Seus Destinos”, organizada por Yara dos Santos e Lena Marçal; 2020 - Portugal: colaborou no projeto LER&CONTAR (contos infantis/infantojuvenis para colecionar), criado por Glória de Sousa, Tomás Gavino Coelho e Samuel Rego, com o conto “O organizador de bichas, uma história de guerra”. Trata-se de uma iniciativa probono, com textos de doze autores angolanos. 

Obras da autora: 49 Passos/ Entre os Limites e o Infinito (poesia), Chiado Editora, 2014; Contexturas (contos, baseados em quadros de Armanda Alves, coautora), Livros de Ontem, 2017; Março entre meridianos (poesia, 1.º prémio “Um Bouquet de Rosas para Ti”), MAAN, 2018; Março entre meridianos (reedição), Livros de Ontem, 2019; A Fabulosa Galinha de Angola (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2020; Sapataria e outros caminhos de pé posto (contos), Editorial Novembro, 2021; Burro, sim senhor! (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2021, Casa Materna (poesia), Editorial Novembro, 2023 e No país das tropelias e desventuras, (infantojuvenil), Editorial Novembro, 2024.

Morada:

Centro Cultural de Cabo Verde

Rua de São Bento, 640

1250-222 Lisboa

(Metro: Rato/ Autocarros: 727, 388)

38° 43' 6.29'' N | 9° 9' 27.57'' W


Sri Lanka - Filme revela resistência da Suíça em devolver artefactos coloniais

O documentário “Elefantes e Esquilos” acompanha a artista cingalesa Deneth Veda Arachchige na sua procura por artefactos saqueados por suíços e hoje guardados num museu de Basileia, expondo o delicado debate sobre a Suíça e o seu passado colonial


Deneth Piumakshi Veda Arachchige, artista nascida no Sri Lanka e radicada na França, tem uma missão: ela pretende devolver à sua terra natal os valiosos artefactos culturais pertencentes aos indígenas Wanniyala-Aetto. Os objetos saqueados encontram-se nos acervos do Museu das Culturas e do Museu de História Natural, ambos na cidade de Basileia, na Suíça.

Em “Elefantes e Esquilos“, o seu documentário de estreia, o cineasta suíço Gregor Brändli captura as meticulosas tentativas de Piumakshi Veda Arachchige de iniciar um processo de restituição cultural envolvendo obras de arte roubadas, máscaras cerimoniais, restos mortais humanos e até mesmo de animais, de onde vem o inusitado título do filme.

A sua procura acaba revelando-se um imenso desafio, recebido com desconfiança e ceticismo pelo circuito de arte na Suíça, onde curadores e diretores de museus ainda não se posicionam de facto frente ao secreto passado colonial do país.

Depois da premiação de “Elefantes e Esquilos” com a “Pomba de Prata” de melhor documentário no recente Festival Internacional de Documentários e Filmes de Animação de Leipzig (DOK Leipzig), Gregor Brändli e Deneth Piumakshi Veda Arachchige conversaram com a Swissinfo sobre a sua colaboração de longa data e a missão que compartilham.

Força espiritual

“Não são meros objetos”, diz a artista, referindo-se ao inestimável património do Sri Lanka levado pelos primos suíços Paul e Fritz Sarasin no final do século 19 e início do século 20 do que era então conhecido como Ceilão.

“Esses objetos foram criados por mãos humanas, nascidos do amor e da energia”, completa Piumakshi Veda Arachchige. “Por exemplo: nos tempos antigos, as máscaras feitas à mão não serviam apenas para o uso, mas tinham propósitos importantes para a cura, rituais e promoção da identidade cultural. Era preciso ser primeiramente reconhecido pela tradição, para então obter o direito de usar determinada máscara e de se apresentar. De forma que esses artefactos são corpos energéticos em si mesmos”, explica a artista.

Numa das cenas mais impressionantes de “Elefantes e Esquilos”, ela coloca uma das máscaras cerimoniais escondidas nos arquivos da Basileia. É um momento forte: pela primeira vez em séculos, esse ato permite que as dimensões espirituais da obra de arte sagrada fluam novamente através de alguém cujas raízes estão no Sri Lanka.

Piumakshi Veda Arachchige argumenta que, mesmo quando uma máscara como essa é cuidadosamente preservada num arquivo europeu, as suas energias sagradas foram roubadas. “Essas qualidades são ignoradas quando um cientista manuseia um artefacto”, diz a artista. “Eles simplesmente a veem como uma peça decorativa e a colocam em um contexto completamente diferente. É como remover o coração de uma pessoa e guardá-lo longe. Quando eu estava a usar aquela máscara, senti as suas vibrações, porque ela finalmente havia cumprido o seu propósito novamente”, relata.

A artista descreve a semelhança entre esse momento e a sensação de segurar pela primeira vez um crânio ancestral nas mãos: “Era como se uma pessoa estivesse a falar comigo noutra dimensão, em outra língua”, conta.

Esses gestos simbólicos resumem perfeitamente o conflito central da sua obra: como a reivindicação emocional por parte de uma artista, em prol da restituição, choca com a postura marcadamente racional das instituições, que querem continuar mantendo esses artefactos nos seus arquivos em nome da ciência e da preservação.

Batendo contra a parede

Embora o mundo da arte esteja lentamente acompanhando os debates pós-coloniais que enfatizam a necessidade de restituição cultural – um assunto que Mati Diop explorou com veemência no seu documentário poético “Dahomey” (2024) –, “Elefantes e Esquilos” mostra que o trabalho de verdade só começa depois que essas primeiras conversas acontecerem. Já na década de 1970, o Sri Lanka havia exigido a devolução de alguns desses objetos, mas a Suíça nunca atendeu a esses pedidos.

No filme, Piumakshi Veda Arachchige participa de painéis de discussão e debates para reiterar mais uma vez o mesmo ponto: conversar não basta. “Na minha opinião, o debate em torno da descolonização e do pós-colonialismo é marcado por muita conversa diplomática e académica”, diz ela, lembrando que o aspeto emocional, que desempenha um papel fundamental no seu trabalho como artista visual, é deixado com frequência de lado.

Esse conflito foi o que inspirou Brändli a realizar o documentário, o seu primeiro em longa-metragem. Curioso para saber como e por que todos esses artefactos se encontravam nos arquivos suíços, ele procurou Bernhard C. Schär, historiador suíço e autor de um livro sobre os primos Sarasin, que por sua vez incentivou o cineasta a entrar em contato com Piumakshi Veda Arachchige.

Os esforços frustrados da artista na Suíça acabaram tornando-se um material excepcional para um documentário. “Embora Deneth tenha sido inicialmente bem recebida em Basileia, essa recepção calorosa diminuiu quando ela começou a fazer perguntas mais críticas”, conta o diretor. “Em determinado momento, tive até que conduzir sozinho as entrevistas na Suíça, pois esbarramos numa parede e Deneth não tinha permissão para atravessá-la”, revela.

De volta às origens

Gregor Brändli, por sua vez, viu-se perdido quando a dupla se aventurou pelo Sri Lanka, onde Piumakshi Veda Arachchige foi quem conseguiu abrir portas. Ele recorda: “Vimal, indígena e jornalista, nos convidou para ir à aldeia de Dambana. E disse: ‘Não falem apenas sobre o passado, mas também sobre as lutas que enfrentamos hoje’. Esse foi um momento decisivo para mim, em que senti um forte desejo por parte dos outros de também trabalhar nessa história”, relata o cineasta.

A mudança de locação amplia a perspectiva do filme, que, de acordo com Piumakshi Veda Arachchige, “vai muito além da restituição”.

“A filosofia que nos guiou era: contexto e consenso”, diz Brändli. Uruwarige Wannila Aththo, líder da comunidade indígena Vedda, em Dambana, desempenhou um papel central neste sentido. Ele recebeu a equipa e descreveu o valor pessoal desses artefactos que foram roubados dos seus ancestrais.

Durante as filmagens no Sri Lanka, Piumakshi Veda Arachchige mal podia acreditar que a aventura na qual estava envolvida com Brändli resultaria realmente num filme. “Estávamos apenas documentando o que acontecia”, reflete a artista. “E capturando a maneira como fazíamos a nossa pesquisa, não apenas em arquivos, mas também na vida real. Pegámos comboios, voos, tuk-tuks e autocarros, documentando constantemente o que estava a acontecer ao nosso redor em tempo real. Quando vi o filme finalizado pela primeira vez, enxerguei todas essas camadas, como nossas realidades no Ocidente contrastavam com o que vivemos no Sri Lanka”, conta a artista.

Nesse sentido, “Elefantes e Esquilos” nasceu de uma colaboração que, segundo Brändli, “surgiu organicamente e foi necessária ao longo de toda a história. Como se as nossas capacidades juntas de fazer a ponte entre o Sri Lanka e Basileia tivessem permitido que todas essas portas diferentes se abrissem. Isso foi crucial, visto que a questão da restituição está profundamente enredada em padrões culturais específicos”.

Gregor Brändli e Deneth Piumakshi Veda Arachchige sentiram-se encorajados pela recepção calorosa no DOK Leipzig. “Vi como a história ressoou no público”, diz a artista. “Após a exibição, um artista queniano na plateia chegou a dizer que se sentiu inspirado pelo longa-metragem e que está também no processo de produção de um filme sobre restituição. Se o nosso documentário conversa com todas essas situações semelhantes no mundo, acho que fizemos um bom trabalho”, conclui. Hugo Emmerzael – Países Baixos in “Swissinfo”



Irão, os cineastas resistem

Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do cenário do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão, e indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irão, o realizador desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irão, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e morreram de 20 a 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução Iraniana, como eles chamam a polícia da ditadura islâmica, criada em 1979 pelo aiatolá Khomeini, transformada numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.

Mas qual a oportunidade deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história ou deformações sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana, afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, "mártires" vítimas dos agitadores, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, nem o líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, qualificando o de ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irão. Mesmo porque, embora muitos tenham esquecido ou fossem jovens para saberem, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeini, tão logo se implantou a ditadura teocrática islâmica no Irão.

Outro absurdo muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citada mesmo como avanço na frente dos ocidentais, é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos. Essa assimilação de homossexuais, trans e bissexuais submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou morte é pouco divulgada. E minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

É difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciavam a ditadura militar.

É estranho, mas pode ser falta de informação ou falsa informação, uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não são farinha do mesmo saco?

Trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país”. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Internacional - Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra distinguido com prémio de carreira pela Associação Ibérica de Limnologia

Manuel Graça, Professor Catedrático aposentado do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), foi distinguido com o “Premio a la Trayectoria en Limnología 2025”, pela Associação Ibérica de Limnologia (AIL).


A AIL, que estuda os sistemas de água doce, reúne limnólogos de Portugal, Espanha e Ibero-América para promover o estudo, gestão e conservação de ecossistemas aquáticos continentais. Esta é a 4.ª edição deste prémio, atribuído de dois em dois anos, e a primeira vez que é ganho por um português.

Manuel Augusto Simões Graça é uma figura de referência internacional na ecologia fluvial, com especial destaque para o estudo da decomposição de detritos vegetais em ribeiros, área em que foi pioneiro em Portugal e na Península Ibérica. Ao longo da sua carreira, promoveu intensas colaborações científicas no espaço Ibérico e Ibero-americano, com forte impacto sobretudo na América do Sul, onde influenciou a criação de múltiplas equipas de investigação, em especial no Brasil.

Destacou-se igualmente como formador de investigadores, orientando numerosos mestres e doutores hoje reconhecidos internacionalmente. Teve um papel central na Associação Ibérica de Limnologia, enquanto vice-presidente e organizador de congressos, e liderou o grupo de Ecologia de Águas Doces da FCTUC, que se tornou uma referência internacional.

Com uma produção científica muito expressiva (mais de 140 publicações e elevado impacto), coordenou projetos nacionais e internacionais e programas pioneiros de biomonitorização de rios em Portugal, cujos resultados influenciaram políticas ambientais e medidas de mitigação. Editor de obras de referência e organizador de cursos avançados, reformou-se em 2023, mantendo-se cientificamente ativo. É amplamente reconhecido pelo seu rigor científico, ética profissional e pela criação de ambientes académicos inclusivos e colaborativos. Universidade de Coimbra - Portugal