Em
‘Flores artificiais’, romance de Luiz Ruffato, narrador e personagem se
combinam para criar um “eu”
I
Uma obra que leva a ficção até as últimas
consequências, ao parecer que retrata acontecimentos reais – é assim que pode
ser definido Flores artificiais (São Paulo, Companhia das Letras,
2014), do jornalista, romancista, poeta e contista Luiz Ruffato, que reúne
memórias de um certo Dório Finetto, engenheiro que teria sido alto funcionário
do Banco Mundial, atividade profissional que lhe havia dado a oportunidade de
conhecer vários povos do planeta, ao participar de simpósios, reuniões e
congressos.
Nascido em 1951 e criado em Rodeiro, pequena cidade da Zona
da Mata, em Minas Gerais, numa família de modestos agricultores, descendentes
de italianos do Vêneto, Finetto desenvolveu uma personalidade aberta, capaz de
se misturar com naturalidade em grupos de desconhecidos, ainda que de idiomas
diferentes. De Beirute a Havana, passando por Hamburgo, Timor Leste, Buenos
Aires e incontáveis lugares mundo afora, Finetto colecionou grandes histórias e
pequenos acontecimentos. Sem a aspiração de se tornar escritor, teria procurado
o próprio autor do livro, Ruffato, para lhe oferecer aqueles textos
memorialísticos.
Segundo memorial escrito e assumido como de autoria do
próprio autor, publicado no fecho do livro, Finetto teria largado ainda jovem o
trabalho na lavoura para fazer o curso ginasial em Ubá, cidade vizinha a
Rodeiro, às expensas do pai, apesar das dificuldades financeiras da família.
Concluído o ginásio, no começo de 1970, instalou-se na casa de uma irmã, Hilda,
em Juiz de Fora, para cursar o colegial na Academia de Comércio, convivendo com
um cunhado que era terceiro-sargento do Exército e fervoroso defensor do regime
militar (1964-1985), sempre disposto a encontrar comunistas em todos os
lugares.
Mais tarde, incomodado com a convivência, partiu para morar
sozinho em tugúrios próximos à rodoviária de Juiz de Fora, sobrevivendo com
aulas particulares de matemática e ainda com a ajuda do pai. Conseguiu, então,
uma vaga na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF), dando início a uma carreira vitoriosa na profissão escolhida. Estagiou
numa construtora e, mais tarde, fez pós-graduação na Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), quando, então, tornou-se consultor do Banco Mundial, por
indicação de seu professor e orientador de sua tese. A partir daí, começou a
conhecer o vasto mundo e a escrever suas memórias.
II
É este, portanto, um livro dentro de outro livro, mas o que
se detecta aqui é a existência de um fenômeno que, em poesia, o célebre
escritor mexicano Octavio Paz (1914-1998) definiu com o neologismo otridade
que a tradutora Olga Savary (1933-2020) traduziu por outridade, com a
aprovação do filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), ao invés de se limitar a
traduzir por alteridade, que significa “quase” a mesma coisa, como ela
mesma diz em nota à página 110 de O Arco e a Lira
(Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982).
Em outras palavras: também na construção de um romance, constata-se a
existência do fenômeno da outridade, ou seja, uma operação durante a
qual o escritor tira ou extrai de seu íntimo certas sensações e recordações e,
“a cada passo, é outro e ele mesmo”, como observa Paz naquela obra (à página
215).
Trata-se da “outra voz” que o professor Massaud Moisés
(1928-2018) sempre preferiu chamar de “eu”, para definir o ego ou um alter
ego, ou seja, a existência de um protagonista típico do romance lírico, “no
qual o narrador e a personagem se combinam para criar um “eu” no qual a
experiência é moldada como imagens”, como observa em A Criação Literária
– Prosa II (São Paulo, Cultrix), à página 50, reproduzindo
citação do professor e crítico literário alemão Ralph Freedman (1920-2016), em The
Lyrical Novel (Princeton, Princeton University Press, 1966, p.
31).
É o que faz Ruffato em Flores artificiais no
qual o autor também se transforma em personagem, passando para o protagonista
principal as experiências e emoções por ele vividas em vários lugares do mundo,
embaralhando as fronteiras entre a ficção e a realidade, “sem jamais perder de
vista a força literária que é a grande marca de sua obra”, como se lê no texto
de apresentação (sem autoria) publicado nas “orelhas” do livro.
É o que se pode comprovar também neste trecho do capítulo
intitulado “O homem que não tinha onde cair morto” em que é traçado um rápido
perfil do memorialista-protagonista que, embora vivendo há mais de vinte anos
em Washington, sendo proprietário de um apartamento na rua Paissandu, no bairro
do Flamengo, no Rio de Janeiro, dizia que nada teria a quem legar:
“(...) Não pertenço a lugar algum, ou, sempre fui, um
estranho, um estrangeiro... Não me entreguei à vida. – ela me largou num parque
abandonado ... E não tive competência para formar família, filhos, cães, gatos,
passarinhos... Amei algumas mulheres, mas sempre me apavorou a ideia de ser
rejeitado – antes que me repelissem, abdicava delas... Para não sofrer no
futuro, padecia no presente...”
III
Luiz Ruffato (1961), nascido em Cataguases, em Minas
Gerais, é formado em Comunicação Social pela UFJF. Como jornalista formado, trabalhou
em diversos jornais até se mudar para São Paulo em 1990. Em 2003, abandonou a
carreira de jornalista profissional para se tornar escritor em tempo integral. Neto
de um imigrante português, é filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira de
roupas (muitas vezes descrita por ele como analfabeta), originária do Norte da
Itália. Formou-se torneiro-mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai) e trabalhou como operário da indústria têxtil. Foi também
pipoqueiro, além de atendente de armarinho, durante a juventude.
Dono de vastíssima obra, publicou os cinco volumes que
formam a série Inferno Provisório, composto pelos romances Mamma,
son tanto felice (2005), O Mundo Inimigo
(2005), Vista Parcial da Noite (2006), O Livro
das Impossibilidades (2008) e Domingos sem Deus
(2011). Seu livro de estreia foi O Homem que Tece
(1979), poemas sobre o operariado e a classe média baixa. Seu segundo livro foi
Histórias de Remorsos e Rancores (1998),
reunião de sete contos que giram em torno dos mesmos personagens, moradores do
beco do Zé Pinto, em Cataguases.
Em 2000, publicou Os Sobreviventes, que
recebeu menção especial do Prêmio Casa de las Américas, de Havana. O livro é
composto por seis contos, cujos personagens são pessoas das classes baixa e
média. Nos últimos anos, publicou pela Companhia das Letras os romances O
Verão Tardio (2019) e O Antigo Futuro
(2022).
É autor ainda de Eles eram muitos cavalos
(2001), que recebeu o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e
o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e Estive em
Lisboa e lembrei de você (2009), resultado
de sua participação, em 2007, no Projeto “Amores Expressos”, que apoiou viagens
de diversos autores brasileiros a diferentes cidades do mundo, com o objetivo
de que produzissem romances com a temática do “amor”. O romance conta a
história do personagem Sérgio, morador de Cataguases que, devido a uma série de
infortúnios, vê na emigração para Portugal a solução para os seus problemas,
mas que acaba por enfrentar situações difíceis em Lisboa como imigrante.
Publicou ainda cinco livros de poesia, dois de crônicas,
três em ensaios, um de literatura infantil e um de contos, A Cidade
Dorme (São Paulo, Companhia das Letras, 2018), além de ter organizado
coletâneas e participado de antologias. Em 2015, ganhou o Prêmio Jabuti, na
categoria infantil, com o livro A História Verdadeira do Sapo
Luiz.
Teve vários de seus livros traduzidos para
os idiomas alemão, espanhol, italiano e francês. Três de seus livros foram
publicados também em Portugal: Eles eram muitos cavalos (Espinho,
Quadrante Edições, 2006), Estive em Lisboa e lembrei-me
de ti (Lisboa, Quetzal Edições, 2010) e De mim já
nem se lembra. (Lisboa, Tinta da China, 2012). Seus livros
estão publicados também em países da América Latina e da África. Foi escritor
residente na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, em 2012, e recebeu o
Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha, em 2016. Adelto Gonçalves -
Brasil
________________
Flores artificiais,
de Luiz Ruffato. São Paulo, Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 47,08, 2014. Site
da editora: www.companhiadasletras.com.br E-mail: sac@companhiadasletras.com.br
_________________________
Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor
de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo
(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São
Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo,
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015) e Os Vira-latas da Madrugada
(Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP,
LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na
capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu
prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends
(Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados
Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br