Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Portugal - Novo cone de conífera com cerca de 133 milhões de anos descoberto no Cretácico Inferior

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou uma nova espécie de conífera, com cerca de 133 milhões de anos, na flora de Vale Cortiço, na região de Torres Vedras. 


Trata-se de um cone masculino muito bem preservado, composto por microsporófilos imbricados e dispostos helicoidalmente, no qual se observam grãos de pólen do género Classopollis. O achado enquadra-se no género Classostrobus (porque produzia pólenes do género Classopollis) e foi descrito como Classostrobus amealensis, derivando o restritivo específico do nome da pequena localidade de Ameal, onde foi encontrado.

«As floras do Cretácico português são ricas em coníferas da família Cheirolepidiaceae (atualmente extintas) de grande importância para a compreensão das condições paleoclimáticas e dos ecossistemas em que viveram», explica Mário Miguel Mendes, investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC) e professor da Universidade Fernando Pessoa (Porto).

Nesta família enquadram-se os frenelopsídeos pertencentes aos géneros Frenelopsis e Pseudofrenelopsis. Atendendo ao que tem sido observado no registo fóssil, estas plantas tinham uma notável capacidade de adaptação, habitando uma ampla gama de habitats, desde ambientes semiáridos a áridos e, em certos casos, regiões interiores com condições mais amenas.

«A presença destes frenelopsídeos, mas, sobretudo, dos seus pólenes característicos atribuíveis ao género Classopollis, é um indicador chave de climas quentes, semiáridos ou áridos. A flora de Vale Cortiço é rica em restos de frenelopsídeos pertencentes às espécies Frenelopsis teixeirae e Pseudofrenelopsis dinisii, sendo a primeira, particularmente, abundante nos níveis fossilíferos de onde provém o novo cone masculino agora descrito. Portanto, além dos restos vegetativos, foi encontrada, agora, uma estrutura reprodutiva masculina», revela o especialista.

Mário Miguel Mendes já tinha estudado, com detalhe, a associação esporo-polínica desta jazida fossilífera e identificou pólenes que suspeitava pertencerem à espécie Classopollis martinottii. No entanto, e porque apenas os observou em microscopia ótica, optou por classificá-los dentro do género Classopollis e como espécie indeterminada.

«Os pólenes observados in situ foram estudados minuciosamente, através da técnica de microscopia eletrónica de transmissão. Os resultados obtidos permitiram concluir tratar-se da espécie Classopollis martinotii, o que significa que o novo cone, Classotrobus amealensis, produzia pólenes da espécie Classopollis martinottii. Todavia, o novo cone não se encontrava anexado a nenhum ramo vegetativo – Frenelopsis teixeirae ou Pseudofrenelopsis dinisii», esclarece o paleobotânico.

No entanto, conclui, «a predominância de fragmentos de Frenelopsis teixeirae, no mesmo nível fossilífero, e a organização dos estomas observada nas cutículas de Classostrobus amealensis, sugere que a espécie Frenelopsis teixeirae dava origem a cones da espécie Classotrobus amealensis que, por sua vez, produziam pólenes atribuíveis a Classopollis martinottii».

Este trabalho foi realizado em parceria com investigadores do Paleontological Institute of the Russian Academy of Sciences (Rússia), do National Museum Prague (República Checa) e do Naturalis Biodiversity Center (Leiden, Países Baixos), tendo recebido financiamento do CITEUC e da Czech Grant Agency.

O estudo será publicado no volume de maio da revista internacional Cretaceous Research e pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


Portugal – Universidade do Porto leva saúde e bem-estar a alumni com mais de 60 anos

Novo programa exclusivo tem como objetivo promover o envelhecimento ativo através do exercício físico, acompanhamento nutricional e convívio


A Universidade do Porto acaba de lançar o programa “Saúde e Bem-Estar 60+ – Corpo e Mente Ativos”. A iniciativa dirige-se toda a comunidade alumni com 60 ou mais anos e pretende promover a saúde física e mental num ambiente seguro e tecnicamente orientado.

Resultado de uma parceria entre o Centro de Desporto da U.Porto (CDUP-UP), o Núcleo Alumni da U.Porto (NAUP) e a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação  (FCNAUP) , este projeto traduz “a responsabilidade da Universidade em promover o envelhecimento ativo e saudável, valorizando o papel dos nossos antigos estudantes na comunidade”.

Além disso, “cuidar da saúde e do bem-estar dos alumni é também uma forma de manter viva a ligação à Universidade e de reconhecer o seu percurso e contributo”, aponta Joana Carvalho, Vice-Reitora para as Relações Internacionais, Responsabilidade Social e Desporto da U.Porto.

A decorrer entre 18 de fevereiro e 17 de julho, o “Saúde e Bem-Estar 60+” combina atividade física regular, acompanhamento nutricional especializado e momentos de formação e convívio.

A componente prática inclui duas sessões semanais de UPFit 60+, às quartas e sextas-feiras, das 15h30 às 16h30, no CDUP-ICBAS/FFUP.

Os participantes terão ainda acesso a duas consultas de nutrição na FCNAUP, uma no início e outra no final do programa. Adicionalmente, terão acesso a um workshop sobre alimentação saudável, com refeição incluída, e uma palestra temática de encerramento.

No que toca às mais valias do programa, estas incluem a manutenção da força muscular, fundamental na prevenção da sarcopenia. Ao mesmo tempo, pretende-se melhorar o equilíbrio, reduzir o risco de quedas, promover rotinas alimentares saudáveis e ajudar a controlar os indicadores metabólicos.

Inscrições abertas

Com vagas limitadas a 20 participantes, o programa tem um custo de 110 euros, valor que inclui o acesso a todas as atividades previstas e o seguro desportivo. O pagamento pode ser feito em duas tranches de 55 euros.

As inscrições decorrem online no portal do CDUP-UP, através do preenchimento do respetivo formulário. Universidade do Porto - Portugal


Duas obras imperdíveis para leitores iniciantes

Livros de Lourenço Cazarré já podem ser considerados clássicos da literatura juvenil  

                                                                                                     

                                                           I

O livro mais vendido do premiado escritor Lourenço Cazarré, A fabulosa morte do professor de Português (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2026), chega agora a sua terceira edição, com ilustrações do artista gráfico Negreiros. Trata-se de um admirável exemplo de como se pode fazer literatura juvenil, sem deixar de agradar ao leitor experiente e exigente. Escrito inicialmente como conto policial para uma coletânea destinada a adultos que não saiu à luz, a novela foi remodelada com o olhar voltado especialmente para a garotada, como explicou o próprio autor

Em linhas gerais, lê-se a movimentação de dois pré-adolescentes que receberam da professora a incumbência de escrever uma reportagem para o jornal do colégio e foram destacados para cobrir a inauguração de uma livraria, onde estariam presentes vários intelectuais e artistas da cidade. E, como já anuncia o título, durante o acontecimento, ocorrem vários fatos que culminam com a morte de um professor de Português e também crítico literário, que não seria bem visto pelos intelectuais da cidade.

Dono de um estilo fluido, ágil e envolvente, de que Contos pelotenses (Florianópolis, Editora Insular, 2025) e Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos (Rio de Janeiro, Faria e Silva Editora, 2025), obra publicada em Portugal em 2024 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, dentro da Coleção Comunidades Portuguesas, são os mais destacados e recentes exemplos, Cazarré, a cada dia, assume-se como o principal escritor brasileiro voltado para a literatura juvenil, atividade em que está empenhado desde 1985.  

Afinal, o seu Clube dos leitores de histórias tristes, lançado em 2005, foi considerado pela revista Veja como o melhor livro para leitores de dez a doze anos. E tanto Nadando contra a morte (1998) quanto A cidade dos ratosuma ópera-roque (1993), ambos publicados pela Editora Formato, foram considerados altamente recomendados para jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Sem contar que a novela Isso não é um filme americano (Editora Ática, 2002) recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura João-de-Barro da Biblioteca Municipal de Belo Horizonte.

Um exemplo desse estilo direto que, ao mesmo tempo, passa lições de sabedoria aos jovens leitores e especialmente para aqueles que ainda sonham com a profissão de jornalista, extremamente vilipendiada nestes tempos de inteligência artificial e quejandos, é este diálogo entre pai e filha que se lê logo às primeiras páginas deste A fabulosa morte do professor de Português:

“(...) – Seja discreta – continuou o pai. – Tente ser invisível pra poder anotar tudo sem que as pessoas percebam que você é repórter. Não faça como a maioria dos jornalistas, que se acham mais importantes do que os entrevistados...

– Pai, eu também estou preocupada com o depois... Será que vou saber escrever a reportagem?

– Saberá... Escreva só frases diretas: sujeito, verbo e predicado. Não use mais de duas vírgulas por frase. E não faça cambalhotas estilísticas... O bom jornalista aprende a escrever lendo os bons autores...

– Mas eu não penso em ser jornalista, pai!

– Então leia pra aprender a pensar melhor... E, agora, vamos ao feijão com arroz.(...)”.

 

                                                 II

Outra obra dirigida ao público juvenil é Um velho velhaco e seu neto bundão (Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2024), também já em terceira edição, que, como confessa o autor, foi escrita com a imaginação voltada para os anos em que teve de viver com o seu avô paterno, enquanto estudava numa escola técnica em Pelotas, entre 1965 e 1968. “Meu avô, claro, não era cretino como o personagem do livro. Mas eu era bundinha como o menino Candinho”, diz.

Ou seja, aqui se conta o relacionamento entre um menino ingênuo, mas esperto, e um velhote brincalhão, porém, ao mesmo tempo rigoroso e exigente, que procura ensinar o neto a amar os esportes e a leitura e a estudar com método. Ou, nas palavras do autor: “Ensina também que nunca estamos suficientemente preparados para enfrentar as muitas surpresas da vida e que, pensando bem, é melhor não viver chorando porque chorar demais só faz ranho”.

Como o enredo é povoado por personagens dotados de língua bem afiada, o livro está repleto de diálogos hilariantes, que, afinal, tratam de atrair o jovem leitor iniciante, entretê-lo e deixá-lo alegre por alguns momentos. Mas que, de certo modo, procura resgatar e recriar a picaresca clássica, aquela de Lazarillo de Tormes (1554), de autoria desconhecida, e El Buscón (1626), de Francisco de Quevedo (1580-1645), ao mostrar o cotidiano de pobretões que têm sonhos e querem satisfazê-los, mas que, para tanto, precisam contornar as regras do jogo oficial da vida, tornando-se assim pessoas astutas, ardilosas, espertas, burlescas e trapaceiras.

Trata-se de um livro divertido, de humor, tal como aquelas obras da picaresca clássica. Ou melhor: estamos diante de um exemplo bem acabado de neopicaresca. Até porque a picaresca clássica espanhola é irrepetível e só tem sentido se associada aos séculos XVI e XVII.

 

                                                 III  


Nascido em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lourenço Cazarré (1954) é descendente de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao final do século XIX. Fez o curso ginasial em Pelotas e formou-se radiotécnico “com a nota mínima”, ao mesmo tempo em que devorava impiedosamente todos os livros da seção infantil da Biblioteca Pública da cidade. Em 1975, graduou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas.

Depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação do jornal O Estado.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.

Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira, Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa Oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo, Melhoramentos, 1984).

Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília (UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em Brasília.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam também o romance A longa migração do temível tubarão (2008), as novelas Estava nascendo o dia em que conheceriam o mar (2011) e Os filhos do deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004) e Exercícios espirituais para insônia e incerteza (2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019) e Amor e guerra em Canudos (2021).

Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública daquele Estado. O romance premiado trata da paixão alucinada de um homem pela literatura. Em parceria com Pedro Almeida Vieira, publicou em fascículos, no site Página Um, a novela policial de humor A misteriosa morte de Miguela de Alcazar. Adelto Gonçalves - Brasil

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A fabulosa morte do professor de Português, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Negreiros. Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 112 páginas, R$ 43,49, 2026.  Um velho velhaco e seu neto bundão, de Lourenço Cazarré, com ilustrações de Vito Quintans. Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 126 páginas, R$ 45,00, 2024. E-mail: atendimento@grupoautentica.com.br Site: www.editorayellowfante.com.br

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-Latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


 


Portugal – Apresentação do livro de Ana M. C. Serra “Entre a Luz e a Sombra” no Centro Cultural Palácio do Egito em Oeiras

O Centro Cultural Palácio do Egito acolhe, no dia 07 de março, sábado, pelas 15H 30M, a apresentação do livro de Ana M. C. Serra “Entre a Luz e a Sombra” na vila de Oeiras


Com a chancela da Âncora Editora e com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras, o livro será apresentado pela historiadora Irene Flunser Pimentel.

Entre a Luz e a Sombra leva-nos para um Portugal dos anos quarenta e cinquenta do século passado, conta-nos uma história verdadeira de tempos que não pretendemos que voltem. Baía da Lusofonia

Sinopse

Durante a ditadura portuguesa, José Rocha e Laurinda viveram entre a luz e a sombra. Ele foi preso e torturado pela PIDE, evadiu-se uma vez da prisão de Caxias e duas do Forte de Peniche. Tiveram quatro filhos, mas foram obrigados a separarem-se de cada um deles, antes de atingirem a idade escolar. Entre a Luz e a Sombra retrata a vida clandestina nas décadas de quarenta e cinquenta do século XX, através da história de dois protagonistas, dos seus companheiros e da sua família. Os nomes são fictícios, mas não o que se conta nesta história.

“A narrativa é aliciante e com recurso a uma linguagem forte em imagens – o livro daria um excelente filme – com recurso a flashbacks, e à descrição das ações das diferentes personagens num mesmo período histórico (…).

Irene Flunser Pimentel - Enquanto historiadora, expresso a minha admiração pela excelente escrita da autora, tanto na sua forma como conteúdo. Se o livro se baseia nas memórias familiares de Ana Serra, em que silêncios, sentimentos e o desconhecido são ficcionados, estes ficam sempre o mais próximo possível da realidade e da verosimilhança.   


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Japão - Resenha de Nobuchi Izumi sobre o livro "Estudos sobre Camélias" em Cerimónia do Chá, Fé e Jardinagem: "Camélias e a Cultura Japonesa" de Yoko Sawada

As camélias, árvores perenes de folhas largas nativas do Japão, são conhecidas como a "flor que anuncia a primavera". Consideradas plantas sagradas, cujas belas flores desabrocham no inverno, estão intimamente ligadas aos santuários. São também um exemplo típico de flores de chá exibidas em casas de chá. Este livro pode ser considerado o início dos "estudos sobre camélias", examinando a relação entre o povo japonês e as camélias

O auge da cultura das camélias durante o período Edo espalhou-se pela Europa e pelos Estados Unidos.

As camélias são mencionadas no Kojiki, o livro histórico mais antigo do Japão que sobreviveu até aos dias de hoje, e no Manyoshu, uma coleção de poesia waka compilada desde o final do século VII. Os tsubaimochi (bolinhos de arroz com camélia) são mencionados no Conto de Genji, uma obra do período Heian. Considerados os doces japoneses mais antigos, feitos com folhas de camélia entre duas folhas, ainda são oferecidos por confeitarias tradicionais em março, o primeiro dia da primavera.

As camélias são amplamente distribuídas na Ásia, incluindo Japão, China e Vietname. Existem quatro espécies nativas conhecidas do género Camellia, da família Theaceae, no Japão: Camellia japonica, Camellia yukiensis, Camellia sasanqua e Camellia damascena. Camellia é chamada de Camellia em inglês, que também é o nome científico do género Camellia.

A camélia vermelha, de pétala única, cresce selvagem por todo o Japão. As camélias são árvores tradicionais plantadas em templos e santuários. Através da hibridização, mutação e melhoramento genético, elas tornaram-se a principal planta ornamental do Japão. As flores apresentam uma variedade de formatos, desde pétalas dobradas até flores com mil pétalas semelhantes a rosas. Elas também vêm numa ampla gama de cores, incluindo carmesim, branco, rosa, amarelo e mesclado.

O período Edo começou no século XVII. Os três xoguns Tokugawa, do primeiro Tokugawa Ieyasu a Hidetada e Iemitsu, eram todos amantes de flores. Em Edo, uma época de paz, um boom de jardinagem varreu a cidade, independentemente da posição social. A pioneira desse boom foi a camélia. Livros de jardinagem como "Hyakutsubakishu" (Coleção de Cem Camélias) e "Tsubakikazukazufu" (Guia Ilustrado de Camélias) surgiram, e uma sucessão de variedades hortícolas magníficas e espécies raras nasceu.

Quando as variedades de camélia foram introduzidas na Europa durante o período Edo, tornaram-se populares e foram descritas como "rosas de inverno" e "rosas orientais". A partir do período Meiji, o entusiasmo pelo cultivo de camélias também cresceu nos Estados Unidos. Diz-se que atualmente existem mais de 2000 variedades nativas do Japão.

Doutora em Literatura com especialização em cerimónia do chá e arranjos florais explora...

A autora Yoko Sawada tem uma trajetória singular. Nascida na província de Aichi em 1949, ela dirigiu uma escola de cerimónia do chá, arranjos florais e caligrafia por muitos anos, mas desejava estudar camélias em detalhes, uma planta que amava desde a infância. Por isso, encerrou as suas aulas e ingressou no programa de pós-graduação da Universidade Aichi Gakuin. Ela escreveu a sua tese de doutoramento, intitulada "Um Estudo Histórico-Cultural da Representação e Crença sobre a Camélia", e recebeu o seu título de doutora em Literatura em 2023.

Este livro é baseado na tese de doutoramento da autora e concentra-se na cultura e nas crenças japonesas em torno das camélias. O autor interessou-se pela investigação sobre camélias porque perguntava-se por que, embora a flor seja amada como um sinal da chegada da primavera, ela também possui uma "natureza dual" que a faz parecer sinistra.

Quando as camélias terminam de desabrochar, em vez de apenas as pétalas se espalharem, a flor inteira cai. Essa cena lembra a de uma "cabeça caindo" e é considerada um mau presságio. O autor reflete sobre a sua própria experiência da seguinte forma:

Quando comecei a estudar a cerimónia do chá e arranjos florais, senti uma beleza indescritível nas camélias da sala de chá e nas grandes camélias dispostas à beira da água em arranjos de flores de pé. Na época, porém, me ensinaram que flores totalmente abertas não deveriam ser usadas em arranjos para a cerimónia do chá nem oferecidas como presentes de condolências. Depois disso, sempre que eu arranjava camélias na sala de chá ou as usava em arranjos florais, me perguntava por que elas eram consideradas flores tabu.

Após o período Meiji, as flores de chá passaram a ser chamadas de "botões"

A sala de chá foi projetada por Sen no Rikyu (1522-91), o mestre do chá que aperfeiçoou a cerimónia do chá japonesa (cha no yu). Camélias são as principais flores exibidas ali do inverno à primavera.

Durante o período Muromachi, quando a cerimónia do chá teve início, a camélia estava em plena floração. Contudo, nos tempos modernos, utiliza-se sempre a camélia em botão. O autor, mantendo-se cético, pesquisou cronologicamente dados iconográficos, como "desenhos de flores de chá". Como resultado, determinou empiricamente que as camélias em plena floração eram a norma até o período Edo, mas que, após a Restauração Meiji, a camélia passou a ser utilizada em "botões".

A cerimónia do chá era uma prática refinada e cultural na sociedade samurai. No entanto, após a Restauração Meiji, sofreu uma grande transformação, tornando-se uma forma de etiqueta centrada no feminino. A autora analisa isso da seguinte maneira:

Após o período Meiji, as camélias nas casas de chá só tinham botões. Isso devia-se ao facto de o espírito confucionista ter sido incorporado à educação feminina após a Restauração Meiji, o que exigia modéstia na cerimónia do chá.

Visitar todos os 43 santuários Tsubaki em todo o país

Outra característica distintiva deste livro é que ele foi resultado de um trabalho de campo minucioso e da coleta e análise cuidadosa de uma vasta quantidade de material sobre o tema "camélias e fé".

Segundo o autor, existem 43 santuários em todo o Japão, de Tohoku a Kyushu, cujos nomes incluem o som "Tsubaki", como o kanji "Tsubaki" ou o caractere japonês "Tsubaki". Entre 2000 e 2024, ela visitou todos esses "Santuários Tsubaki" e investigou sua história e localização.

O livro oferece explicações detalhadas para cada santuário, incluindo fotografias. Por exemplo, descreve o Santuário Tsubaki Ookamiyashiro, na cidade de Suzuka, província de Mie, como "atualmente o segundo santuário mais popular depois do Grande Santuário de Ise" e afirma que "há uma camélia sagrada em frente ao salão principal e 5000 camélias na montanha atrás dele". Inclui também uma "lista" com os nomes, localizações, anos de fundação, principais divindades, origens dos nomes e datas de levantamento topográfico de todos os 43 santuários. Pode-se dizer que é um trabalho meticuloso com o objetivo de construir um campo de "ciência das camélias".

A natureza dual das camélias, comum à "Rainha das Flores"

Okakura Tenshin, um homem de grandes realizações no desenvolvimento da arte japonesa moderna, citou a camélia em botão como uma flor representativa do chá para o inverno e um lírio solitário para o verão no seu livro em inglês, O Livro do Chá (publicado em Nova York em 1906). Ele também escreveu: "As flores são nossas companheiras constantes em momentos de alegria e tristeza" e "Casamos e somos batizados com flores, e nem mesmo podemos morrer sem flores" (tradução de Torao Miyagawa).

O autor destaca que as camélias têm uma natureza dual: são um pouco assustadoras, mas de alguma forma misteriosas e atraentes. Embora sejam conhecidas como a "rainha das flores da cerimónia do chá", os japoneses também as consideram sinistras.

O lírio, que aparece na mitologia e na Bíblia, é venerado no Ocidente como a "Rainha das Flores". Na verdade, essa flor também possui uma natureza dual oculta, como detalhado no livro de Marcia Rice, A História Cultural do Lírio.

Rosas belíssimas têm espinhos... Ao longo da história, flores famosas de todo o mundo podem ter sido associadas a imagens contraditórias, como "luz e sombra". Nobuchi Izumi – Japão in “Nippon.com”



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Nobuchi Izumi - Nascido em Tóquio em 1952. Após se formar na Faculdade de Ciências Políticas e Económicas da Universidade de Waseda, ingressou no Nikkei Shimbun. Passou um total de 13 anos e meio no departamento político, sendo mais de oito anos em Manila e Pequim. Cobriu a Ásia por muitos anos. Anteriormente, atuou como chefe do departamento da Ásia, diretor editorial adjunto, editor-chefe da sede em Osaka e diretor executivo e representante da filial de Nagoya. É membro honorário do Centro Japonês de Pesquisa Económica. Foi presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros das Filipinas (FOCAP) de 1991 a 1992. Seu apelido era Nonoy (dado a ele pelo ex-presidente filipino Ramos). Entre as suas obras em coautoria estão "China: De 'A Fábrica do Mundo' a 'O Mercado Mundial'" (Nikkei) e "China Enfrenta os Desafios de 2020: O Futuro de uma Superpotência" (Bunshindo).



Vagabunda alma lisboeta


 









Vagabunda alma lisboeta

 

Em cada enigmático e vil poeta

Nascem os ecos d’alma profeta

Também a desconhecida faceta

Daqueles que viveram na sarjeta

 

Entre tanta enrugada cara preta

E na penumbra da fala indiscreta

Cai na noite e amanhece lisboeta

A vagabunda alma bateu caçoleta

 

Exorcizamos o fado desse planeta

No fim do dia vivido como estafeta

A vida é corrida para cortar a meta

 

Cantamos e sorrimos dessa vida de treta

Dançamos e enlaçamos como alfa e beta

Vivemos par’ amar, cantar e beijar a teta.

 

Emílio Lima – Guiné-Bissau

In Pedaço Teu – Musa e Pátria Minha, (2022, Vila Nova de Famalicão, Editorial Novembro)

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Emílio Tavares Lima - Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia 2024 atribuído no âmbito do Freixo Festival Internacional de Literatura (FFIL), realizado em Freixo de Espada à Cinta, terra natal de Guerra Junqueiro. Em 2018, foi reconhecido com o prémio “Melhores da Guiné-Bissau” na categoria Literatura. É um fundador da AEGUI - Associação de Escritores da Guiné-Bissau, da GBACS-UK - Sociedade Académica e Cultural da Guiné-Bissau.

Publicações: Poesia - A Esperança é Última a Morrer, 2002; Notas Tortas nas Folhas Soltas, 2010; Polon Malgos, 2013; Pedaço Teu – Musa e Pátria Minha, 2022. Prosa - Finhani – O Vagabundo Apaixonado; Pérola do Estuário. Coletâneas e antologias (coordenação / participação) - Poiesis — várias edições (vols. XVIII, XIX, XX); Do Infinito (poesia), 2010; II Antologia Temas Originais, 2010; Traços no Tempo — antologia poética juvenil da Guiné-Bissau (coord. do projeto); Na Flor do Ser, 2011; Na Magia da Noite, 2012; Recados de Paz, 2013; Poèmes Avec Frontières, 2014, (coletânea bilingue); Sebastiânica; Femmes d’ici, Femmes d’ailleurs, 2015.     


O céu dentro de um quarto


 









Vamos aprender português, cantando

 

O céu dentro de um quarto

 

Quando estás aqui

este quarto já não tem paredes

só árvores, árvores sem fim

 

Quando estás tão perto de mim

este teto já não existe não

não existe mais

eu vejo o céu sobre nós

que ficamos sós

abandonados como se

não houvesse mais

nada, nada mais no mundo

 

Toca uma harmónica

parece um órgão

que vibra por ti e por mim

lá, na imensidão do céu

 

Por ti e por mim

no céu

 

Laura Pausini – França / Itália