Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 27 de março de 2026

Macau - Instada a liderar cooperação de Finanças Verdes entre os países lusófonos e a Grande Baía

Macau - Instada a liderar cooperação de Finanças Verdes entre os países lusófonos e a Grande Baía


Macau deve investir na cooperação internacional de finanças verdes através da sua conectividade com o mercado dos países de língua portuguesa e da Grande Baía, defendeu Ip Sio Kai, presidente da Associação de Bancos de Macau, no Fórum Verde desta edição do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF).

“[A RAEM] deve reforçar a cooperação em matéria de finanças verdes entre as instituições financeiras da Grande Baía e dos países de língua portuguesa, bem como estudar, criar um quadro de articulação entre as normas de finanças verdes da Grande Baía e da União Europeia”, observou.

A proposta de Ip Sio Kai foi apresentada na primeira sessão do Fórum Verde, que decorreu ontem e que foi ao mesmo tempo o 2.º Fórum de Desenvolvimento do Mercado Global de Crédito de Carbono, onde foram abordados temas como investimentos ESG (Environmental, Social and Governance), obrigações verdes e finanças de carbono digitais.

Na opinião do também deputado, Macau tem vantagens como a plataforma sino-portuguesa e as “relações de amizade de longa data” com os países de língua portuguesa, pelo que é oportuno desenvolver-se, no aspecto económico, numa ligação com os mercados financeiros entre os países lusófonos e o interior da China.

Para avançar com a cooperação de finanças verdes a nível internacional, Ip Sio Kai salientou que será necessário criar, primeiro, um mecanismo de reconhecimento mútuo de normas ecológicas entre a Grande Baía e a União Europeia, que servirá para clarificar e unificar os limites normativos, métodos de medição e indicadores de divulgação de informação em domínios como obrigações verdes, crédito verde e certificação ESG. A iniciativa pode, assim, aumentar a compatibilidade e a interconectividade das partes em termos de finanças verdes, apontou o responsável.

Ip Sio Kai sugeriu ainda que as instituições financeiras locais lancem produtos financeiros verdes inovadores que se adaptem aos padrões do mercado internacional, o que “ajudará as empresas de qualidade da China continental a aceder aos mercados de língua portuguesa e espanhola através de Macau”.

Com estes produtos financeiros verdes, Ip Sio Kai espera também atrair capital de qualidade dos países de língua portuguesa a participarem na construção de projectos de indústrias verdes na Grande Baía, concretizando, assim, o fluxo bidirecional de capital.

As “Finanças Verdes”, conceito que existe há algum tempo e que tem vindo a ser promovido graças ao Acordo de Paris, são um conjunto de práticas que visam mobilizar e também aumentar o fluxo de recursos financeiros dos sectores público, privado e sem fins lucrativos, para as prioridades de desenvolvimento sustentável. O objectivo da iniciativa é alcançar a melhor gestão dos riscos ambientais e sociais, ao mesmo tempo que encontrar oportunidades tanto para uma taxa de rendibilidade razoável como benefícios ambientais.

Projectos sobre o carbono

A sessão ontem do Fórum Verde contou ainda com a participação de vários especialistas de áreas como neutralidade de carbono, políticas da sustentabilidade, bem como tecnologias verdes e serviços de carbono.

Jiang Kejun, professor da Neutralidade do Carbono e das Alterações Climáticas da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (Cantão), abordou na ocasião a necessidade de acelerar a redução de emissões no contexto do aumento rápido da temperatura global. O académico recorreu como exemplo ao interior da China, onde há uma utilização cada vez maior de energia renovável, bem como a “quase zero-emissão” dos meios de transporte.

Por sua vez, Wu Linqiang, representante do Centro de Estudo do Serviço Geológico da China, dedicou o seu discurso à indústria de captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês), que são tecnologias que separam, recolhem e transportam o dióxido de carbono proveniente de emissões industriais para locais adequados para armazenamento ou reutilização.

O orador sublinhou que os projectos da CCS estão em crescimento a nível mundial e, até Novembro do ano passado, a capacidade de armazenamento cumulativa global atingiu 383 milhões de toneladas. Na China Continental há 120 projectos da CCS em funcionamento, cuja maioria pertence ao sector da electricidade, indústria química do carvão e petroquímica.

“Um sistema tecnológico preliminar da CCS foi estabelecido na China, conferindo-lhe um certo nível de influência no panorama internacional”, afirmou Wu Linqiang, acrescentando que os projectos da CCS na China apresentam vantagens do baixo-custo em comparação com o exterior.

O especialista prevê uma expansão do mercado da CCS devido à “enorme procura” de redução de emissões. Segundo estima Wu Linqiang, até 2050, as reduções globais de emissões provenientes da CCS serão 120 vezes superiores ao nível actual. Citou ainda as previsões da consultora McKinsey a apontar que, até 2050, a indústria global da CCS irá impulsionar um investimento directo anual de 2,78 mil milhões de dólares americanos, o que mostra oportunidades de os projectos da CCS se tornarem em “activos de infraestrutura robustos”.

“Transição verde” das empresas

A Bolsa Internacional de Emissões de Carbono de Macau (MEX), enquanto primeira bolsa de emissões de carbono da cidade, deixou na mesma sessão do Fórum Verde o compromisso de trabalhar para a transição verde das empresas e a modernização da indústria com baixas emissões de carbono no território.

Lu Minfang, sócio do Fundo Yunfeng e administrador da MEX, adiantou o plano de orientar mais capital de qualidade para o sector verde e de baixo carbono, com vista a “apoiar a concretização de projectos que combinem benefícios ambientais e valor social”. O empresário notou que com o aumento contínuo da atenção global em relação ao ESG e às finanças verdes, os créditos de carbono tornaram-se uma “direcção importante” na alocação global de activos. “O objectivo do estabelecimento da MEX é, a partir de Macau, construir uma plataforma de transacção de créditos de carbono aberta, transparente, eficiente e baseada na confiança mútua, promovendo o reconhecimento mútuo de padrões, a interligação de activos e a interconectividade dos mercados entre regiões”, lembrou Lu Minfang.

Neste caso, a MEX aguarda por uma maior cooperação com instituições financeiras, promotores de projectos de carbono e fornecedores de tecnologia, em termos de melhorar as regras de negociação e introduzir normas internacionais e aplicar tecnologias digitais, com ambição de “criar uma janela conveniente e regulamentada para a participação de parceiros globais no mercado de carbono da Ásia-Pacífico”, concluiu. Catarina Chan – Macau in “Ponto Final”


Portugal - Plataforma digital “Camões Lab” disponível a partir de Junho

A Universidade de Coimbra (UC) terá disponível a partir de Junho uma primeira versão da plataforma digital “Camões Lab”, um projecto que pretende democratizar conhecimentos relativos a obra do poeta de forma dinâmica e actualizada


O portal tem como objectivo agregar materiais “validados e escolhidos criteriosamente” e disponibilizá-los, de forma dinâmica, ao público em geral, afirmou o director da Biblioteca Geral da UC, Manuel Portela.

As obras de Camões serão republicadas “com uma extensa anotação e marcação, que permite depois apresentar o texto sob diversas facetas”, podendo ser consultado por especialistas, leitores em geral e estudantes, “respondendo aos interesses de pesquisa e leitura de cada um”. “Há muito boas edições críticas de obras, de autores clássicos, há muitos bons sítios ‘web’ onde nós encontramos ensaios críticos, mas a maior parte só são legíveis por especialistas ou por estudantes de um nível muito avançado. O nosso objetivo com este projeto é ter vários níveis, vários destinatários”, salientou.

O responsável falou na apresentação da plataforma digital, na UC, quando explicou que a base de conhecimento será mantida atualizada, destacando também que o projeto tem em vista a incorporação de abordagens pedagógicas inovadoras e que promovam uma aproximação entre o autor de “Os Lusíadas” e os alunos.

A proposta da ferramenta passa ainda por ser “um portal de referência mundial”, para todos que leem e estudam Camões, em qualquer parte do mundo.

Também presente na sessão, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, defendeu que “ao desenvolver uma plataforma digital e dinâmica da obra de Camões, ao integrar múltiplas camadas de anotação e permitir novas formas de visualização e análise textual, o projecto cria condições únicas para o estudo da obra do poeta”.

Assim, permite que “aquilo que durante muito tempo esteve reservado a círculos restritos de investigação, passe agora a poder ser explorado por um número muito mais alargado” de pessoas.

A iniciativa “integra conteúdos provenientes de diferentes países”, “dá visibilidade às múltiplas leituras e apropriações de Camões no espaço da língua portuguesa” e mostra a presença da obra do poeta “noutras línguas e noutras culturas”, acrescentou.

Já o comissário-geral para as comemorações dos 500 Anos do Nascimento de Camões, José Augusto Bernardes, ressaltou que, além de promover o acesso “a uma biblioteca enorme” a partir do ‘ecrã’, o projeto não termina com o fim das comemorações dos cinco séculos do poeta, em junho, apresentando “sementes de futuro e um potencial de transformação muito grande”.

À margem da cerimónia, o vice-reitor da UC para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, disse que o portal procura “agregar produção anterior e, sobre ela, construir novas camadas de conhecimento e prepará-la para o futuro”.   “A dimensão laboratorial [da plataforma] permite que não fique fechada no tempo”, apontou.

O público poderá utilizar a ferramenta em português, inglês ou mandarim, estando a ser desenvolvido um mecanismo de inteligência artificial para que possam ser feitas perguntas e recebidas as respetivas respostas na língua de preferência do usuário.

Uma primeira versão da Camões Lab deve estar disponível em Junho de 2026, sendo esperado que, a partir do fim de 2027, “a plataforma entre em velocidade de cruzeiro e se transforme num laboratório que continuamente vá aperfeiçoando o que está a ser feito”.

Na sua intervenção, durante a sessão, o reitor da UC, Amílcar Falcão, destacou o objectivo de fazer a investigação mais recente chegar a públicos alargados, ultrapassando as fronteiras da academia.

O projecto “Camões Lab” é uma parceria da UC com a Estrutura de Missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, a Universidade de Macau, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação “la Caixa”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”



Timor-Leste - Economia deverá crescer 5% em 2026

A economia timorense deverá crescer 5% em 2026, contra 4,6% de 2025, e a inflação subir para 1,2%, devido à instabilidade dos preços dos alimentos e energia, segundo previsões divulgadas pelo banco central do país


“Prevê-se que o crescimento real do PIB [Produto Interno Bruto] atinja os 5% até 2026, sustentado por uma política orçamental expansionista, pelo reforço da capacidade de absorção, por efeitos positivos sobre o consumo privado e o investimento, bem como por reformas estruturais em curso destinadas a dinamizar o crescimento liderado pelo setor privado”, pode ler-se no relatório económico anual de 2025 do Banco Central de Timor-Leste (BCTL).

O documento adverte, contudo, que a economia continua “altamente dependente da despesa e do consumo públicos, com uma contribuição limitada do investimento privado e dos setores transacionáveis”.

Em 2025, segundo o BCTL, o crescimento foi impulsionado pelo consumo público, que aumentou 9,5%, e pelo investimento público que cresceu 14,5%, a maioria do qual em infraestruturas.

O consumo das famílias também aumentou para 3,6% e as importações cresceram 5,7%, demonstrando a dependência da economia de bens importados.

As “exportações não petrolíferas permaneceram modestas, sendo o café responsável pela maioria das receitas de exportação”, cerca de 35,8 milhões de dólares.

A actividade económica continua dominada pela administração pública, representando cerca de 34,2% do PIB. O setor da construção expandiu-se, mas devido aos projetos de infraestruturas públicas, e a agricultura representou apenas 19% do PIB. “A indústria transformadora e os serviços financeiros permanecem marginais, evidenciando a estreita base produtiva e a limitada diversificação da economia”, salienta o relatório.

Aquele cenário contribuiu para um défice comercial e uma balança corrente “persistentemente elevado”, refere o BCTL.

O défice da balança corrente de Timor-Leste aumentou para 701,4 milhões de dólares no final de 2025, mais 16% face ao ano anterior.

Em relação à inflação, que em 2025 caiu para 0,5%, deverá ser em 2026 de 1,2%, devido à volatilidade dos preços dos alimentos e energia, nota-se no documento.

A redução em 2025 ficou a dever-se à queda dos preços globais das matérias-primas. “Embora a baixa inflação tenha contribuído para restaurar o poder de compra e a confiança, também reflete respostas limitadas da oferta interna e a contínua dependência de importações numa economia totalmente dependente do dólar”, afirmou o BCTL.

O relatório adverte também que o Orçamento do Estado continua dependente de transferência do Fundo Petrolífero, o que levanta preocupação quanto à sustentabilidade orçamental a longo prazo. “Em termos gerais, embora as perspetivas de crescimento a curto prazo sejam favoráveis, o atual modelo de crescimento apresenta riscos crescentes para a sustentabilidade orçamental, a resiliência externa e a criação de emprego inclusivo, sublinhando a necessidade de um reequilíbrio gradual, mas decisivo, em direcção a um crescimento liderado pelo sector privado e orientado para o investimento”, conclui o BCTL. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 26 de março de 2026

Portugal - Universidade de Coimbra desenvolve tecnologia de Inteligência Artificial para reconhecer emoções na música

Uma equipa de investigadores do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), está a desenvolver novas tecnologias de Inteligência Artificial (IA) capazes de identificar automaticamente as emoções presentes na música, combinando análise do áudio e das letras das canções.


O trabalho é realizado no âmbito do projeto MERGE – Music Emotion Recognition: Next Generation, coordenado por Rui Pedro Paiva, docente da FCTUC, e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia com um orçamento de 196 mil euros. A equipa inclui os investigadores Matthew Davies, Pedro Lima Louro, Renato Panda, Ricardo Malheiro e Ricardo Santos.

O objetivo é melhorar os sistemas que permitem classificar música de acordo com a emoção que transmite, funcionalidade cada vez mais relevante em plataformas de streaming.

Segundo Rui Pedro Paiva “o projeto MERGE pretende dar um salto na investigação nesta área, combinando áudio e letra das músicas para criar sistemas capazes de classificar emoções automaticamente, utilizando inteligência artificial, processamento de sinal áudio e linguagem natural.”

Uma das principais inovações é a abordagem bimodal, que integra dados do áudio e da letra, permitindo extrair descritores musicais relacionados com ritmo, tonalidade, expressividade e percussão. O projeto inclui também novas bases de dados públicas de música anotadas emocionalmente, fundamentais para robustecer a investigação nesta área.

Entre os resultados já obtidos está um protótipo de aplicação que posiciona cada música num “mapa emocional” com dois eixos: valência (emoções positivas ou negativas) e ativação (intensidade emocional). Isto permite criar playlists personalizadas ou explorar música conforme o estado de espírito do utilizador.

Além do avanço científico, o projeto pretende demonstrar estas inovações através de uma aplicação autónoma e uma plataforma web, contribuindo para o desenvolvimento de sistemas mais precisos e úteis em Music Emotion Recognition.

O MERGE representa um avanço significativo num campo multidisciplinar que combina informática, ciência de dados, psicologia musical e inteligência artificial, com potencial impacto em bibliotecas musicais digitais, plataformas de streaming e novas formas de interação com música.

O projeto contou ainda com a contribuição significativa do estudante de doutoramento Tiago Ribeiro e de vários estudantes de mestrado que participaram no desenvolvimento do trabalho científico, entre os quais Alice Mangara, Hugo Redinho, Guilherme Almeida, Guilherme Branco, Luís Seco, Mariana Paulino, Pedro Sá, Samuel Machado, Simone Chieppa, Tiago Ribeiro e Tomás Ferreira. Universidade de Coimbra - Portugal


Internacional - Discurso antissemita viraliza na Internet

Procurando novas informações na Internet, vi o título O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato, cliquei, havia um aviso: "Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas."

O aviso, colocado pelo próprio autor, queria dizer ser alguma coisa por ele bem elaborada, alguém ciente de ter escrito algo capaz de ferir, mas sua paciência esgotada levara a tirar os filtros com que se tratam certos temas.

Esse tipo de aviso preparatório funciona como um chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses dois povos europeus me lembrou textos da extrema-direita, textos racistas.

Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.

Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus?

Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os Estados Unidos, mas antes de se criticar o Império americano, não resiste à tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e holandeses, "gente que pode ser desagradável e detestável", será que isso não se chama preconceito?

E, enfim, o autor se define, depois das piruetas iniciais, Hannah Arendet inclusive, ele vai falar de Israel, "que nunca deveria ter sido criado", do sionismo, "mas não propriamente do povo judeu e dos judeus em geral". E, en passant, vai falar do Irão.

Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa me chamou a atenção - praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda, estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247, Carta Capital, etc.

Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir: esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.

Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de alguns críticos europeus do chamado movimento Sul Global, principalmente a professora socialista Renée Fregosi da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução no Brasil, pode me contatar).

Não é minha intenção responder ao texto tão viralisado ou polemizar com o autor, na base um economista de formação, mas destacar dentro do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente, que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.

Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irão, já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos. Sobre o Irão já deixei muito comentários, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando principalmente nos depoimentos cinematográficos de importantes cineastas iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados ao exílio para não serem presos.

Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da época, Sartre e Foucault.

Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico no Irão, se desfez com a criação de uma república factóide, na verdade uma teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.

No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o autor faz questão de exprimir seu desejo: "Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!"

Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse de apoio ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.

Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas, ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a situação das mulheres no Irão?

Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada por munições, mísseis e drones. Ou em outras palavras, que Israel seja destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irão, o império persa ex-zorotroatista, do livre-arbítrio e da ética, transformado numa ditadura teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irão, como o Hamas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

Moçambique - Governo quer ciência ao serviço do desenvolvimento dos países da CPLP

A primeira-ministra desafia os investigadores a desenvolverem pesquisas científicas viradas ao desenvolvimento económico, social e cultural do país. As declarações foram feitas, em Maputo, por Benvinda Levi, durante a abertura da conferência de Jovens Investigadores da CPLP.


Maputo acolhe, de 25 a 27 de Março, a quarta Conferência de Jovens Investigadores da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, um evento com o objectivo de promover o uso da ciência na governação.

Cristina Molares, presidente da Associação de Jovens Investigadores da CPLP, fala do evento como uma oportunidade para pôr a ciência a serviço do desenvolvimento.

“A ciência e a política muitas vezes encontram-se em tensão e conflito. No entanto, sem ciência não há desenvolvimento sustentável. É essencial compreender que todos partilhamos um objetivo comum. Ultrapassar as dificuldades crónicas e contribuir para uma África muito marcada de desgraças. Até agora usamos as políticas sem a ciência. Não está a dar certo. Devemos passar a pôr a ciência a nosso favor, mas desta vez, não a ciência importada”, defendeu.

A primeira-ministra, que esteve em representação do Presidente da República, desafiou os jovens investigadores a usarem a ciência para o desenvolvimento do país.

“Que as vossas pesquisas e investigações não se limitem apenas a relatórios académicos e teóricos, pois devem propor soluções práticas e concretas que contribuam para a melhoria da vida social e económica das comunidades, concorrendo, desta forma, para o desenvolvimento sustentável e inclusivo dos nossos países”, disse Benvinda Levi.

No domínio da inovação tecnológica, Levi deixou apelos aos pesquisadores.

“Hoje a inteligência artificial aparentemente resolve todos os problemas, mas é preciso também ver os desafios que ela nos coloca, os riscos que ela traz. Facilita-se a vida, mas não resolve tudo.”

O presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, reafirmou, por seu turno, a aposta da edilidade na valorização do conhecimento como motor de desenvolvimento.

Rasaque Manhique falava na abertura da IV Conferência de Jovens Investigadores da CPLP-ÁFRICA, um evento que decorre até sexta-feira, sob o lema “Diversidade cultural, inovação digital e saberes ancestrais: construindo futuros sustentáveis em África”.

Nos três dias da conferência, haverá apresentação de 60 trabalhos de jovens da CPLP, virados para as pesquisas para o desenvolvimento. Inalcídio Uamusse – Moçambique in “O País”


Portugal - Escritor Mena Abrantes vence Prémio Guerra Junqueiro 2025

O escritor, jornalista e dramaturgo angolano José Mena Abrantes sagrou-se o grande vencedor do Prémio Literário Guerra Junqueiro, edição 2025, anunciou a Academia Angolana de Letras, em comunicado


Na nota, citada pela Televisão Pública de Angola, a Academia Angolana de Letras felicitou o escritor e dramaturgo pela conquista, destacando o seu contributo na cultura nacional, especialmente na literatura e no teatro. Instituído em 2017 pela Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (Portugal), o Prémio Literário Guerra Junqueiro homenageia o poeta português e promove a literatura no vasto espaço da lusofonia.

O prémio foca em autores que fortalecem laços culturais nos países de língua portuguesa, com edições dedicadas à Lusofonia e a novos talentos. A distinção de José Mena Abrantes, segundo a nota, reforça o prestígio da literatura angolana no panorama internacional e reitera o papel de Angola como referência literária no espaço lusófono e na literatura mundial.

Trajectória de Mena Abrantes

Nascido em Malanje, a 11 de Janeiro de 1945, José Mena Abrantes é um jornalista, dramaturgo, diretor e escritor de ficção, teatro e poesia angolano. Licenciado em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, exerce a profissão de jornalista desde 1975, com colaboração em vários órgãos de informação angolanos, portugueses, franceses e moçambicanos.

É membro da União dos Escritores Angolanos há mais de 40 anos. Embora seja uma figura ligada à cultura e à comunicação de várias maneiras, José Mena Abrantes é popularmente conhecido por sua inclinação ao teatro. Dramaturgo genuíno, é um dos nomes mais sonantes da criação, difusão e valorização do teatro angolano, sendo inúmeras vezes distinguido e homenageado pelos fazedores desta arte cénica.

Prémios e Distinções

Como poeta e contista, recebeu por três vezes o Prémio Sonangol de Literatura, máximo galardão da literatura angolana da actualidade, com as obras Ana, Zé e os Escravos (1986), Meninos (1990) e Caminhos Des-encantados (1994). Obteve ainda Menção Honrosa no Concurso Sonangol de Literatura com a obra O Gravador de Ilusões (antes “O Pião”), de 1990, e Sequeira, Luís Lopes ou O mulato dos prodígios, de 1991.

Conquistou o 1.º Prémio de Poesia (ex-aequo) dos Jogos Florais de Caxinde por Objectos Musicais, Prémio PALOP do Livro em Língua Portuguesa (2.º lugar) em São Tomé e Príncipe com a obra Na Curva do Cão Morto e tantas outras distinções nacionais.

Ainda em 2025 foi condecorado pelo Presidente da República, no âmbito das celebrações dos 50 anos de Independência Nacional, em reconhecimento do seu contributo em prol da cultura angolana. In “O País” - Angola