Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Cabo Verde - Júlio Correia lança “Cabo Verde: Percursos, Ruturas e Paradoxos” na cidade da Praia

A editora Rosa de Porcelana promove, no próximo dia 27 de fevereiro, sexta-feira, pelas 18 horas, o lançamento do livro “Cabo Verde: Percursos, Ruturas e Paradoxos”, da autoria de Júlio Correia. A apresentação acontece no Auditório do Banco Interatlântico, na cidade da Praia


O livro traz uma análise crítica do percurso político cabo-verdiano, entre 1975 e 2025, abordando acontecimentos marcantes organizados por períodos de cinco anos.

Igualmente, a obra procura construir uma leitura interpretativa sobre a evolução política do país e os desafios ligados à soberania e à consolidação democrática.

Perfil do autor

Júlio Correia é sociólogo e mestre em Administração Pública, com mais de 30 anos de experiência no serviço público, visto que, longo da sua carreira, foi deputado, primeiro presidente da Câmara Municipal dos Mosteiros, ministro em diferentes pastas governamentais e vice-presidente da Assembleia Nacional. Destacou-se ainda, como dirigente partidário, tendo sido Vice-Presidente e Secretário-Geral do PAICV. In “A Nação” – Cabo Verde


Guiné-Bissau - Associação de alunos do Liceu Regional de Bissorã preocupada com falta de aulas de informática, não obstante haver condições materiais para o efeito

Oio – O Presidente da Associação dos Alunos do Liceu Regional de Bissorã, região de Oio, diz estar preocupado com a falta de aulas de informática naquele estabelecimento de ensino, não obstante haver equipamentos para o efeito.


Edilson Sanca disse ser essa a sua inquietação e também dos alunos, aos microfones do Correspondente da ANG na Região de Oio, sustentando que a ONG Ianda Guiné-Djunto disponibilizou materiais informáticos incluindo computadores para que as aulas de informática pudessem decorrer normalmente, o que não se verifica.

Denunciou que os equipamentos doados para a aula de Informática pudesse ter lugar, não estão a ser vistos na escola e que os beneficiários querem uma resposta.

Segundo Sanca quem gere os materiais é o antigo Presidente da Associação dos Pais e Encarregados de Educação dos alunos, cujo mandato já caducou.

Edilson Sanca disse ainda que, tanto o antigo assim como o novo diretor da escola ninguém se disponibiliza a explicar o paradeiro dos materiais informáticos doados pela ONG Ianda Guiné-Djunto, nem porquê que as aulas de informática não se iniciaram até agora.

Segundo o actual Presidente do Conselho da Administração da Associação dos alunos do Liceu Regional de Bissorã, Iaia Djaló, estão em causa 21 computadores, 1 gerador, 2 máquinas impressoras e 1 projetor, que se encontram em lugar desconhecido.

Contactado pelo Correspondente da ANG na Região de Oio, o novo Diretor do Liceu Regional de Bissorã, Braima Malam Cissé disse que tomou conhecimento do assunto através da associação dos alunos, num encontro promovido pelos pais e encarregados de educação, mas que, porque o caso já está nas mãos das autoridades prefere aguardar pelo desfecho final.

Braima Cissé disse ainda que encontrou muitas dificuldades na escola começando pela falta de professores e de subsídios para os professores.

Disse que essa situação levou a escola a voltar para o modelo de autogestão, com a autorização superior, e afirma que atualmente a  falta de professores está quase a ser resolvida.

O Correspondente da ANG de Oio disse que, contactado, a   antiga direção da Associação dos país e encarregados de educação dos alunos limitou-se a declarar que vai recorrer à via judicial para limpar o seu nome. In “Agência de Notícias da Guiné – Guiné-Bissau


São Tomé e Príncipe e Ordem de Malta reforçam cooperação em assistência humanitária e hospitalar

São Tomé – São Tomé e Príncipe e a Ordem de Malta assinaram um acordo de cooperação, visando, o reforço da assistência humanitária e hospitalar ao arquipélago, soube-se de fonte oficial do ministério.


O documento foi assinado pela ministra de Estado dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades, Ilza Amado Vaz, e pelo Embaixador da Ordem de Malta para São Tomé e Príncipe, Manuel de Carvalho e Sousa, avançou a fonte.

O acordo define um quadro de cooperação que permitirá facilitar a realização de missões de assistência humanitária da organização no território nacional, com destaque para ações de apoio hospitalar e prestação de cuidados de saúde.

As relações entre São Tomé e Príncipe e a Ordem de Malta datam de 1997, sendo que a assinatura do documento vem reforçar os laços de amizade e cooperação existentes entre as partes.

A Ordem de Malta é uma organização humanitária de reconhecimento internacional, com redes de hospitais e centros de reabilitação, e experiência no apoio a idosos, pessoas com deficiência, refugiados, crianças e populações vulneráveis em diversas regiões do mundo. In “STP Press” – São Tomé e Príncipe


Cabo Verde - Batucadeiras Flor de Esperança preparam lançamento do álbum de estreia “Mo na Txabeta”

A artista cabo-verdiana Milene Gomes e o seu grupo de batuco, Flor de Esperança, preparam o lançamento do álbum de estreia intitulado “Mo na Txabeta”, composto por 10 faixas musicais, previsto para este ano.


O primeiro single, “Importância de Escola”, estará disponível a partir de 21 de Fevereiro em todas as plataformas digitais, seguindo-se depois os temas “Medo Não”, “Ilusão”, “Perdon”, “Relacionamento”, “Nha Pai Amado”, “Dificuldade ta Doe”, “Álcool cu Droga”, “Nanda” e “Mo na Txabeta”, anunciou o grupo em nota enviada à Inforpress.

Segundo as batucadeiras, este projeto surge como um “tributo sentido à força e à resiliência da mulher cabo-verdiana”, celebrando o batuque como uma das mais profundas expressões da identidade do país.

Acrescentam que o título “Mo na Txabeta”, que remete à mão firme na batida, simboliza liderança, resistência e continuidade.

Conforme explicaram, mais do que um álbum tradicional, o trabalho apresenta-se como “um encontro e um diálogo entre gerações, vivências e estilos musicais”. Por isso, conta com a participação de vários artistas de diferentes géneros, criando pontes entre o batuque e outras sonoridades.

Para o grupo, esta fusão revela a versatilidade do ritmo e reforça uma mensagem clara: “o batuque, como qualquer grande expressão musical, não conhece fronteiras”.

As batucadeiras destacaram que, ao abrir espaço para novas influências sem perder a sua essência, a vocalista do grupo, Milene Gomes, reafirma que tradição e inovação podem caminhar juntas.

“Cada colaboração acrescenta uma nova cor ao projeto, ampliando horizontes e mostrando que a cultura cabo-verdiana continua viva, em movimento e em expansão”, refere a nota.

Com interpretações intensas e arranjos que respeitam a raiz do batuque enquanto exploram novas paisagens sonoras, “Mo na Txabeta” apresenta-se como um manifesto artístico e um trabalho que honra o passado, celebra o presente e projeta o futuro, segundo o grupo formado por imigrantes cabo-verdianos residentes em Portugal.

Fundado em fevereiro de 2006 por 16 mulheres de Entre Picos Reda, no município de Santa Catarina (Santiago), o grupo iniciou a carreira profissional em 2024 com o lançamento do sucesso “Imigração”, considerado o “hino dos imigrantes”.

Além de “Imigração”, as batucadeiras Flor de Esperança contam ainda com outras músicas gravadas, nomeadamente “Mudjer”, “Tradison di Terra”, “Sodade Dam”, “Puder di Dinheiro” e “Batuku é Amizade”. In “Inforpress” – Cabo Verde


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Angola - Falta de apoio financeiro condiciona realização de actividades culturais do “Litteragris”

O Movimento Literário Litteragris, fundado a 17 de Outubro de 2015, no município de Viana, em Luanda, por um grupo de jovens amantes da literatura e da cultura, tem sobrevivido graças ao esforço dos seus próprios membros e ao apoio pontual de algumas organizações privadas. Este facto tem condicionado a realização de actividades literárias de grande dimensão a nível nacional. Por esta razão, a organização solicita apoio institucional para a concretização das suas actividades e para a sua possível legalização


Em declarações prestadas a este jornal, Destino Ventura, um dos coordenadores do movimento para a área de estudos literários e linguísticos, explicou que, ao longo de mais de uma década de existência, a organização tem funcionado sem um apoio institucional consistente. Embora existam ajudas pontuais, estas são quase sempre insuficientes para garantir a continuidade e a expansão das actividades.

Segundo o responsável, a maior parte das iniciativas realizadas pelo “Litteragris” resultam do esforço colectivo dos seus integrantes, que contribuem financeiramente sempre que surge um evento. Em muitos casos, cada membro disponibiliza pequenos valores monetários e, quando surge algum apoio externo, este raramente ultrapassa cem mil kwanzas. Ainda assim, esse dinheiro acaba por ser decisivo para a realização de eventos que, à vista do público, aparentam ter um nível de qualidade que leva muitos a acreditarem que a organização dispõe de grandes recursos financeiros.

“Essa percepção não corresponde à realidade. O dinheiro utilizado para organizar actividades, garantir alimentação dos participantes ou assegurar a logística básica sai, maioritariamente, do bolso dos próprios membros. O problema agrava-se pelo facto de nem todos os integrantes estarem empregados, o que torna o esforço ainda mais pesado e limita a capacidade de crescimento do grupo”, vociferou com a esperança de ver a situação resolvida.

No que diz respeito ao apoio institucional, Destino referiu que, em algumas ocasiões, contam com a colaboração da União dos Escritores Angolanos (UEA), sobretudo na cedência de espaço para a realização de actividades. Em certos eventos de maior duração, o secretário local chega a apoiar com parte da logística, como o espaço e, por vezes, o almoço, enquanto o movimento assume outras despesas básicas. Além disso, houve também o apoio pontual de outras instituições e pessoas singulares, porém sem continuidade, nem estrutura. In “O País” - Angola


Timor-Leste e Guiné-Bissau: Xanana Gusmão pede desculpa, mas não fala de acusações de “demência” e “pedofilia”

Xanana Gusmão pediu desculpa à Guiné-Bissau e cancelou a Missão de Bons Ofícios da CPLP após ter classificado o país como “Estado falhado”. Enquanto Bissau acusou o líder timorense de “demência” e falta de legitimidade, vozes internas questionam a autoridade moral de Timor-Leste


O Primeiro-Ministro de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão, pediu desculpa à Guiné-Bissau, depois de ter classificado o país como um “Estado falhado”. A declaração provocou forte reação das autoridades guineenses, que acusaram o líder timorense de falta de legitimidade moral e recorreram a ataques pessoais. Xanana pediu desculpa, mas não respondeu às acusações de demência, senilidade e pedofilia feitas pelo porta-voz do Conselho Nacional de Transição (CNT).

“Já pedi desculpa ao Governo transitório da Guiné-Bissau. Não estou a defender-me. Estou com a cabeça baixa”, declarou esta segunda-feira, 16 de fevereiro.

Na sequência da polémica, o chefe do Governo anunciou o cancelamento da Missão de Bons Ofícios da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) à Guiné-Bissau, decisão tomada em conjunto com o Presidente José Ramos-Horta. A missão, que integraria representantes de Angola e São Tomé e Príncipe, tinha como objetivo interceder pela libertação dos detidos na crise de 26 de novembro de 2025 e apoiar a restauração da ordem constitucional. Estava prevista para decorrer entre 18 e 21 de fevereiro.

As declarações que desencadearam a crise diplomática foram proferidas na quinta-feira, 12 de fevereiro, após um encontro com o Presidente da República. Xanana Gusmão afirmou que, após o recente golpe militar, a Guiné-Bissau deixou de ser apenas um “Estado frágil” para se tornar um “Estado falhado”, sublinhando que Timor-Leste já havia ajudado a estruturar o sistema eleitoral guineense.

Em resposta, o Governo de transição da Guiné-Bissau emitiu, no mesmo dia, um comunicado oficial considerando que as afirmações revelam “falta de dignidade, postura política e moral”. A nota questiona o percurso político de Xanana Gusmão e refere que José Ramos-Horta “tem sido associado, no debate público, a posicionamentos considerados controversos, que levantam dúvidas sobre a sua estabilidade e coerência política”. O executivo guineense sublinha que “estes fatores tornam difícil compreender como figuras com esse perfil assumem responsabilidades de liderança” na CPLP e garante que “não aceita, nem aceitará qualquer tentativa de humilhação pública”.

No dia seguinte, em conferência de imprensa em Bissau, o porta-voz do CNT, Fernando Vaz, classificou as palavras do Primeiro-Ministro timorense como um “erro diplomático” e “delírio de uma cabeça em decadência”. Questionou ainda a legitimidade de Timor-Leste para assumir um papel de mediação. “Quem diz que a Guiné-Bissau é um Estado falhado é quem nomeia indivíduos para mediar o conflito na Guiné. Se somos um Estado falhado, o que estão a fazer aqui?”

Vaz afirmou também que “a idade não trouxe sabedoria” a Xanana Gusmão e considerou que, antes de qualificar outros Estados, o líder timorense deveria refletir sobre a situação interna do seu país. “Timor-Leste é um Estado fachada, que sobrevive sob tutela de potências externas e não tem legitimidade para exportar diagnósticos de fracasso.”

Segundo o porta-voz, a pretensão de Timor-Leste em assumir a presidência da CPLP “não é uma oportunidade de união, mas sim o anúncio de um funeral moral para a organização. Como pode uma comunidade que se diz de pais e irmãos ser liderada por uma dupla de marginais políticos que alternam entre o cinismo diplomático e a demência senil?”.

Afirmou também que enquanto Xanana Gusmão exibe a sua demência popular em nações soberanas de Estados falidos, “esquecendo-se da sua própria captura vergonhosa num bordel, longe de qualquer ato de bravura, Ramos-Horta atua como relações-públicas do oportunismo. São dois lados da mesma moeda”.

“A Guiné-Bissau é um Estado soberano, forjado na luta pela libertação nacional, e não aceita ser diminuída por quem confunde a sorte política com o mérito pessoal. Esta dupla de saltimbancos só deve ser habilitada para mediar pedofilia e demência, sendo presunção a mais pretender ser mediadora para a Guiné-Bissau”, criticou.

Virgílio Guterres analisa declarações de Xanana Gusmão e cancelamento da missão da CPLP à Guiné-Bissau

O Provedor dos Direitos Humanos e Justiça (PDHJ), Virgílio Guterres, avaliou as declarações do Primeiro-Ministro timorense, Kay Rala Xanana Gusmão, sobre a Guiné-Bissau, considerando que, embora a afirmação tenha sido forte, não deve ser interpretada como um ataque direto ao povo guineense.

“Acredito que o Primeiro-Ministro identificou o problema. Ele colocou o dedo na ferida, mas a linguagem utilizada não soou bem aos ouvidos do Governo de transição na Guiné-Bissau”, afirmou Virgílio Guterres.

O Provedor salientou ainda que, enquanto o regime guineense pode ter-se sentido ofendido, muitos cidadãos e alguns políticos da Guiné-Bissau interpretaram a declaração de Gusmão como um reflexo da realidade e não como uma ofensa. “A verdade não ofende o povo, mas ofendeu o regime”, disse.

Em relação à resposta oficial da Guiné-Bissau, que manifestou “profunda indignação e veemente repúdio” às declarações do chefe do Governo timorense, Virgílio Guterres defendeu que o restabelecimento do diálogo depende da postura dos líderes guineenses. “Qualquer processo relativo à Guiné-Bissau vai depender dos políticos do país, bem como do apoio da população. Uma coisa é certa: golpes de Estado não são solução. Já ocorreram dezenas de golpes e demonstraram que não constituem uma medida correta nem eficaz para o povo guineense”, afirmou.

O Provedor enfatizou ainda que Timor-Leste, na qualidade de presidente da CPLP, tem a obrigação de continuar a promover o diálogo e a restaurar os princípios da organização, que incluem a promoção do Estado Democrático e do Estado de Direito.

Sobre o cancelamento da Missão de Bons Ofícios da CPLP à Guiné-Bissau, Virgílio Guterres expressou preocupação quanto às possíveis consequências políticas. “A democracia está em risco na Guiné-Bissau. A violação dos direitos humanos, a detenção arbitrária de políticos da oposição e de ativistas de direitos humanos são questões que necessitam de supervisão internacional, e a ausência dessa supervisão pode desestabilizar o país”, alertou.

Questionado sobre as acusações de pedofilia e de demência dirigidas ao Primeiro-Ministro timorense, Virgílio afirmou que se tratam de ataques pessoais. “A questão em foco não é sobre abuso sexual ou pedofilia; o ataque pessoal é a clássica arma dos ignorantes quando faltam argumentos”.

Para restaurar a estabilidade e a dignidade da Guiné-Bissau, o Provedor sublinhou que é fundamental que os líderes guineenses cumpram os compromissos históricos de independência e soberania e respeitem os princípios de democracia e Estado de Direito. “O povo guineense deve colocar os interesses da nação à frente dos interesses partidários ou de grupos específicos”, concluiu Virgílio Guterres.

Parlamento reage à crise diplomática com apelos à responsabilidade institucional e defesa da imagem do Estado

No Parlamento Nacional, o deputado da FRETILIN, Antoninho Bianco, comentou a polémica envolvendo a declaração do Primeiro-Ministro sobre a Guiné-Bissau, destacando a necessidade de evitar insultos públicos em organizações, sejam pequenas ou grandes, como a CPLP.

“Acho que dentro do princípio de uma organização, sobretudo da CPLP, não podemos e não devemos perder energia com insultos. Insultar pessoas em público não é bom”, afirmou Bianco.

O deputado sublinhou que a diplomacia deve ser conduzida com respeito e compreensão, evitando ataques verbais que possam prejudicar relações internacionais. “Na regra da diplomacia, não é bem assim. Ajudar uns aos outros é normal. No passado, enfrentámos situações difíceis, e outros países também nos ajudaram sem reservas. É importante usar palavras apropriadas, para que o nome de Timor-Leste não seja prejudicado pelo comportamento de uma ou duas pessoas”, declarou Antoninho Bianco.

Bianco reforçou ainda a importância da solidariedade entre países, especialmente em momentos de crise. “Neste momento, outro país está a enfrentar uma situação difícil, por isso precisamos de ajudar. As relações entre países e povos devem visar o interesse humano e do Estado”, concluiu.

Florentinho Ximenes “Sinarai”, deputado da FRETILIN, questionou a recente deslocação do Presidente da República ao estrangeiro, levantando dúvidas sobre o enquadramento da visita e os custos associados.

“Esta deslocação resultou de um convite formal de alguma entidade estrangeira ou partiu de uma iniciativa nossa? Estamos a enviar cartas para que nos convidem? Porque foi gasto tanto dinheiro público?”, questionou o parlamentar.

O deputado associou ainda a visita presidencial às declarações recentes das autoridades da Guiné-Bissau, que acusaram líderes timorenses de promoverem a prostituição.

“É este o resultado da visita? O Governo de Timor-Leste deve responder de imediato às declarações da Guiné-Bissau. Não podemos permitir que um país fale de nós dessa forma. Foi na sequência dessa deslocação que a situação evoluiu para este ponto”, afirmou Florentinho Ximenes.

A Presidente do Parlamento Nacional, Fernanda Lay, reagiu às declarações do deputado da oposição, afirmando que “a CPLP já sancionou a Guiné-Bissau, que neste momento se encontra fora da Assembleia Parlamentar da CPLP (AP-CPLP)”.

Sobre a possibilidade de uma resposta oficial às acusações, a líder parlamentar questionou a existência de fundamentos concretos. “Devemos perguntar se há verdade ou não nas afirmações. Se não houver factos, estamos apenas a perder tempo”, afirmou.

Fernanda Lay sublinhou que Timor-Leste já prestou apoio à Guiné-Bissau em diversas ocasiões e considerou não haver razão para responder a declarações que classificou como desprovidas de argumentos. “Timor-Leste já ajudou muitas vezes. Não há motivo para responder a quem apenas utiliza insultos. É verdade que estamos a promover prostituição? Todos nos conhecemos, Timor é um país pequeno”, declarou.

A Presidente do Parlamento acrescentou que, apesar da indignação, é necessário evitar uma escalada verbal. “Podemos ficar zangados, mas não devemos gastar energia a responder a quem não apresenta argumentos políticos consistentes”, concluiu.

“Não há legitimidade moral para comentar a situação de outro Estado quando o próprio país pode caminhar para a bancarrota”

O jurista Armindo Moniz afirmou que, relativamente a assuntos externos, é necessário basear posições em dados e factos devidamente apurados. “Quanto às declarações do Primeiro-Ministro, creio que podem ter implicações nas relações bilaterais entre Estados-membros da CPLP”, disse.

Para o jurista, a segunda questão prende-se com a situação interna de Timor-Leste. Segundo o Banco Mundial e outros investigadores, o país poderá enfrentar risco de bancarrota nos próximos anos. “Perante este cenário, não há legitimidade moral para comentar a situação de outro Estado quando o próprio país pode caminhar para a bancarrota”, afirmou, referindo-se a Xanana Gusmão e José Ramos-Horta.

“De acordo com alguns estudos, dentro de três ou quatro anos Timor-Leste poderá enfrentar sérias dificuldades financeiras. Porque é que não traçam políticas para prevenir essa situação, promovendo poupança e evitando o desperdício de recursos públicos?”, questionou.

Armindo Moniz acrescentou que, se o Primeiro-Ministro e o Presidente da República falassem na qualidade de académicos ou observadores internacionais, poderiam emitir opiniões com base em dados e análises. “Mas são titulares de órgãos de soberania. A prioridade deve ser exercer as suas funções para prevenir riscos internos. Nessas circunstâncias, não têm legitimidade moral para comentar outro Estado”, criticou.

O jurista acusou ainda os dois governantes de não enfrentarem os problemas estruturais do país. “Há desperdício de recursos, multiplicação de cargos ministeriais e recrutamento de assessores que pouco contribuem para o desenvolvimento. Isso fragiliza o Estado”, afirmou.

Moniz referiu também o aumento de contratações de funcionários casuais para cumprir promessas políticas, considerando que tais práticas não trazem benefícios ao país. “Isto revela má gestão. Enfraquecer instituições independentes, como a Comissão Anticorrupção, é facilitar um caminho que pode conduzir à bancarrota”, concluiu.

A troca de acusações públicas — que passou do plano político para o ataque pessoal — expôs fragilidades diplomáticas entre dois Estados-membros da CPLP e levantou dúvidas sobre a capacidade da organização para atuar como mediadora em contextos de crise. Entre o pedido de desculpas de Xanana Gusmão, o cancelamento da missão e as críticas internas à gestão do país, a polémica ultrapassa a dimensão bilateral e projeta-se sobre a credibilidade internacional de Timor-Leste e da própria comunidade lusófona. Joana Silva – Timor-Leste in Diligente


Timor-Leste - Bolseiros da Bolsa Sander Thoenes assumem compromisso de honrar legado do jornalista holandês morto no país

Quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia são os primeiros bolseiros da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e independente. Após uma formação intensiva nos Países Baixos e encontros com instituições e redações de referência, os participantes assumem o compromisso de honrar o legado do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999


Nas duas primeiras semanas de fevereiro deste ano, quatro jornalistas de Timor-Leste e da Indonésia, selecionados entre cerca de uma centena de candidatos, integraram a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa apoiada pelo Reino dos Países Baixos que promove o jornalismo ético, investigativo e de interesse público, perpetuando a memória do repórter holandês assassinado em Díli, em 1999.

Uma das selecionadas, Antónia Kastono Martins, jornalista e diretora do Diligente, em Timor-Leste, que destacou a importância da experiência. “É uma experiência muito rica, onde aprendi coisas novas, nomeadamente ferramentas e técnicas para melhorar o trabalho de investigação. Isso é muito importante para mim e para o nosso órgão de comunicação social, que pretende investir mais em reportagens investigativas”, afirmou.

Também Juan Robin, jornalista do Narasi, um conhecido órgão de comunicação social da Indonésia, sublinhou que o programa reforçou o seu sentido de responsabilidade perante o público. “Através da verificação de factos e de uma investigação informativa rigorosa e abrangente, conseguimos evitar a desinformação”, acrescentou.

A bolsa destacou igualmente a importância da ética e da responsabilidade no contexto digital. Retyan Sekar, jornalista do Kumparan, na Indonésia, salientou que ser jornalista na era digital exige uma postura crítica perante as novas ferramentas.

“Ser um jornalista responsável na era digital não significa apenas responsabilizar o poder, mas também utilizar a inovação digital, como a Inteligência Artificial, com pensamento crítico e responsabilidade ética”, partilhou.

“Para mim, esta bolsa de estudo é uma oportunidade para aprimorar as minhas competências de verificação de factos e de pensamento crítico, sempre que decidir produzir conteúdos para a minha plataforma”, afirmou Ricardo Valente Araújo, fundador da Gen Z Talk Timor-Leste, que cria conteúdos exclusivos dirigidos a jovens.

O legado de Sander Thoenes

Sander Thoenes foi um jornalista holandês que trabalhava na Indonésia em 1999 para o Financial Times, jornal britânico de referência.

Após 98,5% dos timorenses terem votado pela independência no referendo de 30 de agosto de 1999, foi destacado para cobrir a situação em Timor-Leste no período pós-consulta popular.

Os dias que se seguiram ao referendo ficaram marcados pelo medo e pela violência — um período conhecido como Setembro Negro. Registaram-se assassinatos, incêndios generalizados e deportações forçadas para a Indonésia. Sander Thoenes, então com apenas 30 anos, tornou-se uma das vítimas dessa tragédia.

Enquanto muitos procuravam fugir do conflito, Sander Thoenes, juntamente com outros jornalistas internacionais, deslocou-se para o território. Estiveram em Díli antes do referendo, mas foram expulsos logo após a votação devido à tensão que se seguiu. No entanto, com a entrada das forças australianas, os jornalistas aproveitaram para regressar ao território.

Thoenes chegou a Díli a 21 de setembro de 1999. No mesmo dia, pediu a um timorense que o conduzisse pela cidade, passando por Becora, considerada uma das zonas mais perigosas por ser um centro de presença militar indonésia. Apesar do alerta do condutor, decidiu avançar e acabou por ser morto em Becora, Díli.

“Percebemos que também podem silenciar-nos”

Para Step Vaessen, jornalista da Al Jazeera e amiga de Sander Thoenes, a sua morte representou um dia negro para o jornalismo.

“Foi um ponto de viragem para mim, porque percebi então que, enquanto jornalistas, não somos intocáveis. Eu achava que estava apenas a fazer o meu trabalho, a escrever uma história, e que não fazia parte da história. Mas, de repente, percebemos que também podem silenciar-nos, até para sempre”, confidenciou, recordando que também era jovem na altura.

Step Vaessen foi a primeira a propor a criação da bolsa, considerando que muitas pessoas ainda desconheciam a história do colega. Para si, a iniciativa pretende manter viva a memória de Sander Thoenes e dar continuidade ao seu legado, formando novos jornalistas comprometidos.

“Temos agora quatro a quem quisemos dar esta responsabilidade de continuar este trabalho. Há muito a discutir entre nós, porque temos de nos esforçar nesta carreira.”

Inspirados pela coragem e pelo impacto

Para Antónia Martins, a bolsa reforçou a necessidade de continuar a escrever com coragem, realizando investigações de forma cautelosa, ética e sustentada nas ferramentas adquiridas durante a formação.

Juan Robin afirmou que o legado de Sander Thoenes é claro: “produzir reportagens ousadas, impactantes e de grande relevância”. O próprio jornalista venceu recentemente um prémio com um vídeo-reportagem que expõe como a mineração de níquel na Indonésia é justificada em nome do bem público e da transição verde, quando, na prática, serve para extrair riqueza para elites, à custa da vida das populações, da saúde pública, do ambiente e da própria democracia.

Também Retyan Sekar afirmou sentir-se inspirada pela coragem de Sander Thoenes e motivada para se adaptar às mudanças no setor, “mantendo-me fiel a um jornalismo baseado em factos, na empatia e no interesse público”.

Ricardo compromete-se também a continuar a procurar a verdade e a produzir conteúdos escritos.

“Queremos mostrar às novas gerações de jornalistas o quão importante é continuar a nossa profissão e manter-nos fiéis aos factos, independentes, corajosos e firmes, tal como Sander Thoenes”, concluiu Step Vaessen.

Formação nos Países Baixos e contacto com instituições

Esta foi a primeira edição da Bolsa Sander Thoenes, uma iniciativa da Foreign Policy Community of Indonesia, em colaboração com a Embaixada do Reino dos Países Baixos na Indonésia e a RNW Media.

Durante cinco dias, os bolseiros participaram num curso sobre jornalismo ético, impactante e corajoso no Centro de Formação em Media da RNTC, nos Países Baixos. Tiveram ainda oportunidade de visitar a Câmara Baixa dos Estados Gerais, órgão legislativo neerlandês, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde aprofundaram o conhecimento sobre o funcionamento do sistema político do país.

Os jovens jornalistas visitaram igualmente a Associação de Jornalistas Holandeses (NVJ) e reuniram-se com repórteres experientes na área da investigação, nomeadamente dos meios independentes Investico e Follow the Money.

O programa incluiu ainda visitas a órgãos de comunicação social de referência nos Países Baixos, como a NOS, serviço público de radiodifusão, e o de Volkskrant, jornal privado de circulação nacional e grande influência.

A experiência foi enriquecida pelo encontro com a família de Sander Thoenes, Peter e Eveline. Para Ricardo Araújo, este foi o momento mais inspirador, ao ouvir a história e os valores do jornalista holandês. As oportunidades de trocar ideias com jornalistas holandeses também lhe pareceram interessantes.

Juan Robin, por sua vez, destacou o momento de apresentação das ideias para futuros projetos com impacto público. “É memorável, porque consegui aplicar diretamente o valor da coragem de Sander Thoenes, algo que não pratico todos os dias”, partilhou. O jornalista espera poder produzir mais conteúdos de impacto, apesar dos desafios que a imprensa indonésia enfrenta atualmente.

O momento que mais inspirou Antónia Martins foi conhecer a história de um média independente e privado, dedicado exclusivamente à investigação. No início, não produzia notícias diárias, mas conseguiu sobreviver e atualmente conta com dezenas de jornalistas, publicando um artigo investigativo por dia. “O desafio deve ser enorme, mas mantiveram-se fiéis ao modelo que escolheram e conquistaram a confiança do público que os apoia, permitindo-lhes continuar a investigar e a escrever”, observou a jornalista.

Retyan Sekar também partilhou o seu momento mais memorável, quando conheceu os jornalistas de Timor-Leste e a família de Sander Thoenes. “Estamos ligados pela história, pela responsabilidade e, felizmente, por valores partilhados. É incrível pensar que este programa consegue reunir-nos, vindos de todos os cantos do mundo e de diferentes gerações, por causa do legado de um jornalista. Aquele momento fez-me perceber o quão poderoso pode ser o jornalismo na construção de ligações humanas.” In Diligente” – Timor-Leste