Três dezenas de artistas dão corpo à exposição “Present” que hoje será inaugurada na Galeria da Creative. A mostra colectiva assinala o aniversário do centro para actividades criativas. Lúcia Lemos, antiga directora e também artista, disse ao Jornal Tribuna de Macau que “o espírito do projecto inicial” se tem mantido, atraindo os criadores locais
A
Creative está a celebrar 23 anos desde que foi fundada, em 2003, e para
assinalar a data inaugura hoje, pelas 18h30, a exposição colectiva dos seus
membros, denominada “Present” (“Presente”, na tradução para português), que
integra obras diversificadas de 30 artistas residentes de Macau.
A
mostra, que estará patente até 25 de Setembro, “acende a paixão artística do
centro para as actividades criativas por ocasião do aniversário, celebrando a
liberdade criativa sem limites”, diz o manifesto divulgado pela Creative. A
exposição “defende cada voz única e convida os membros da Creative a darem asas
às suas visões interiores através da arte visual surrealista”.
Explorando
o duplo significado de “Present” – “como um presente artístico que transporta
as emoções mais profundas do criador e como o momento fugaz congelado na arte
eterna”, sublinha a introdução da mostra, na qual os “talentos” da Creative são
encorajados a aproveitar a linguagem vanguardista do surrealismo – “utilizando
metáforas simbólicas, perspectivas distorcidas e colagens irracionais em vários
meios de comunicação – para transcender a realidade”, expressa o curador.
Em
última análise, reforça, “estes trabalhos estabelecem uma ponte entre o
criador, a obra de arte e o público, oferecendo reflexões profundas sobre o
momento presente como um presente para o mundo”.
Os
artistas participantes são: Alex Chao Io Chong, Alice Costa (Lili), Angel Chan,
Angela Hoi Ka Ian, Christopher Lei, Coco Ut Man, David K.K. Chio, Denis
Murrell, Fernando Simões, Ho Kuan Mui, Ho Si Man, Huang Min Yi, Irene Chio,
Jenny Chio, José Sales Marques, Julia Lam, Justin Chiang, Justin Ung, Ken C.I.
Chau, Liesl Lee, LiLi, Lúcia Lemos, Lynette Clennell, m.chow, Maria João Das,
mavin zin, Papa Osmubal, Sofia Ung, Tchusca Songo e Yaya Vai.
Ao
longo dos 23 anos, a Creative já organizou cerca de 230 exposições, a nível
individual e colectivo, num percurso que contou com a divulgação de mais de
seis mil obras. Actualmente, a organização cultural possui mais de 500 membros.
Men
Chow, coordenador da Creative e curador da mostra. disse ao Jornal Tribuna de Macau
que a galeria “funciona como uma plataforma dinâmica para que os criativos
locais possam CRIAR, capacitando-os a transformar pensamentos intangíveis,
ideias e observações pessoais em obras tangíveis e visualmente cativantes,
através de abordagens criativas distintas e orientadas para o indivíduo”. Nesse
sentido, “os profissionais são convidados a experimentar, para além dos limites
convencionais, e a darem forma física a conceitos que, de outra forma, poderiam
permanecer por expressar”, salienta.
Para
esta exposição, a Creative lançou um desafio temático deliberado aos seus
membros participantes. Na sua maioria, as peças são totalmente novas, moldadas
através de uma perspectiva surrealista.
“Estas
obras de arte imaginativas e impregnadas de sonhos assinalam um marco
significativo, constituindo um presente comemorativo sincero para o nosso
aniversário”, enfatiza Men Chow. Mais importante ainda, diz, “cada peça
representa um ponto de viragem criativo para cada artista envolvido: estabelece
as bases para o seu conjunto de obras pessoais em desenvolvimento e para
futuras colecções”.
Consequentemente,
o que o público encontra nesta exposição é uma forma “Presente”, “um
instantâneo vivo – o momento presente e vívido da colecção artística em
evolução de cada criador, captando o ponto em que a sua prática se encontra
neste momento, ao mesmo tempo que sugere as direcções que a sua arte poderá
tomar nos anos que se seguem”, conclui.
Lúcia
Lemos, antiga directora da instituição, que exerceu o cargo durante duas
décadas, disse ao Jornal Tribuna de Macau que a Creative tem mantido o
objectivo para o qual foi criada.
“O
projecto em que me envolvi, com o apoio do Instituto de Estudos Europeus, era
uma ideia antiga que eu ajudei a concretizar”, salienta, mostrando-se
satisfeita por ver que “actualmente o espírito do projecto inicial, que era de
convidar e atrair pessoas com ligação a Macau para que pudessem expor as suas
ideias, continua de pé e a apoiar os artistas locais, a quem sempre se exigiu o
mínimo de qualidade”.
A
criadora, que considera ser uma “sensação boa” ela própria continuar a expor
numa casa onde trabalhou durante vários anos, vai apresentar dois trabalhos
nesta exposição “Present”. Um deles, “Geração das Mulheres Silenciosas”,
utiliza técnicas mistas e expressão plástica, incluindo pintura e colagem.
“É uma
espécie de memória, que pretende partilhar e lembrar às pessoas aquela história
das mulheres de família, donas de casa, jovens que não tinham possibilidade de
ser independentes economicamente, numa história trágica da geração feminina da
minha mãe”, salienta.
A
outra obra, uma instalação intitulada “Ninho de Pássaro”, utiliza mais de 200
metros de recibos enrolados que Lúcia Lemos guardou, de despesas pagas em
hospitais e clínicas, das muitas sessões de fisioterapia a que teve de se
sujeitar durante cerca de dois anos, na sequência de uma queda que lhe provocou
uma lesão na mão e no braço. “Esses muitos metros de recibos deram voz à minha
angústia desse período e, por isso, criei de forma simbólica um ninho como
abrigo”, disse a artista. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal
Tribuna de Macau”






