Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Moçambique - “Caminho de Vento”: Colectânea reúne 17 jovens escritores em torno dos ciclones

A cidade da Beira acolhe, no dia 5 de Novembro, o lançamento de Caminho de Vento, uma colectânea literária que reúne 17 jovens escritores moçambicanos em torno das experiências humanas provocadas pelos ciclones que assolam o país. A obra, organizada por Manuel Gimo, com chancela da Mapeta Editora, será apresentada no Camões – Centro Cultural Português na Beira, a partir das 18h00, pelo gestor cultural Pedro Fote.


A colectânea procura aproximar os leitores da dimensão humana das catástrofes naturais, dando voz à dor, ao medo e à resistência das comunidades afectadas. Através da literatura, Caminho de Vento transforma experiências de sofrimento e superação em expressão artística, destacando os impactos dos ciclones no quotidiano das populações moçambicanas.

A obra conta com textos de Adelino Albano Luís, Arnaldo Tembe, Asvato Maruha, Cândida Muvale, Edgar Magalhães, Edson Martinho, Eduardo Kamphiripiri, Fernando Parruque, Lív Mara, Manuel Mabasso, Marco Lole de Andrade, Michael Nivorocha, Mupheti Mabasso, Nélio da Costa José, Paulino Tholle, Telles Jemuce e Victoredy.

O organizador, Manuel Gimo José, nasceu em 1997, na Munhava, cidade da Beira. É professor de língua inglesa, tradutor, editor literário e activista do livro. Licenciado em Ensino de Inglês, com habilitação em Tradução Inglês-Português pela Universidade Licungo, é membro fundador do Clube do Livro da Beira, organização que coordenou entre 2019 e 2025. Entre as colectâneas que organizou destacam-se Construtores de Palavras, Mwathu Muno: Beira, nossa terra, Gritamos por Cabo Delgado e Querida Mamã.

Entre os participantes naturais ou ligados à cidade da Beira destacam-se Edson Celestino Gemusse Martinho, autor do livro de poesia Apanhados da vida (2025), e Lív Mara, pseudónimo de Lívia Maundera, activista social e ambiental e estudante de Enfermagem na Universidade Católica de Moçambique. Integra igualmente a colectânea Marco João Lole de Andrade, escritor, declamador e actor de teatro, autor de Te amo mecanicamente e O mosquito que engoliu um elefante.

A apresentação estará a cargo de Pedro Fote, natural de Mutarara, província de Tete, funcionário público desde 2003 e actual delegado regional Centro do Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC, IP). É licenciado em Planificação, Administração e Gestão da Educação pela extinta Universidade Pedagógica, Delegação da Beira.

Com esta publicação, os jovens autores propõem uma reflexão literária sobre os efeitos dos ciclones em Moçambique, valorizando a escrita como forma de preservar memórias, dar visibilidade às experiências das comunidades e transformar a adversidade em criação artística. Daniel Matlombe – Moçambique in “Moz Entretenimento”


Portugal - Novas descobertas arqueológicas podem mudar narrativa da Arte do Côa

Novas descobertas arqueológicas, no Vale do Côa, revelaram provas que podem mudar a narrativa sobre o relacionamento das populações do Paleolítico Superior com a arte rupestre e confirmam a presença humana na região além dos 27 mil anos, segundo o coordenador científico.


As novas descobertas de materiais de pigmentação, em centenas de fragmentos, foram efectuadas por arqueólogos da Fundação Côa Parque (FC-P), no decurso da sondagem na Rocha 3 do sítio da Penascosa, que apontam para uma datação mais antiga do que a conhecida até agora no Parque Arqueológico do Vale do Côa, o maior santuário mundial da arte do Paleolítico, classificado como património mundial da humanidade.

Em declarações à agência Lusa, o coordenador científico da FC-P, Thierry Aubry, disse que as escavações mais recentes no sítio da Penascosa demonstram que os vestígios de presença humana no local podem ir além dos 27 mil anos, ultrapassando a datação admitida até agora de 26 mil, e comprovam o uso de pigmentos em actividades diárias.

“Pensamos que estas descobertas são do fim do ‘gravetense’ [Paleolítico Superior] com aparecimento da pedra lascada. Há indícios de que estes ocupantes curtiram peles, fizeram armas para caça e fogueiras. Há elementos que encontramos na camada mais antiga com mais de 27 mil anos. Temos pigmentos minerais como o óxido de ferro [ocre], e cores naturais, como amarelo, vermelho, preto e castanho, o que quer dizer que estes materiais podem ter sido utilizados” para diversos fins, inclusive “para pintar as rochas”, explicou o também arqueólogo.

A investigação exigiu vários meses de escavações, numa área de oito metros quadrados, na Penascosa, um trabalho agora terminado, que contou com a participação de alunos de Arqueologia da Universidade de Lisboa.

Segundo Thierry Aubry, “estes pigmentos de cor poderiam ter sido utilizados para fazer colas, curtir peles… Mas o mais surpreendente, é que poderiam ter uma utilização mais artística, como a pintura de rochas, quando no Parque Arqueológico do Côa, o visível é a técnica da picotagem”.

“Isto quer dizer que as gravuras se conservaram melhor, mas que possivelmente estes materiais estavam disponíveis para pintar e desenhar. Estas descobertas podem mudar a nossa narrativa sobre a arte paleolítica no Vale do Côa. Já sabemos que houve uma presença humana contínua no Côa, que tinha várias actividades”, observou Thierry Aubry.

Para o especialista, “este tipo de pinturas poderia estar nas rochas ou nas peles que serviam de agasalhos e coberturas, mas que não se conservaram”, ao contrário do que acontece em “sítios mais abrigados como as grutas”.

“As duas técnicas, pintura e gravura estão muitas vezes associadas, e talvez no Vale do Côa os homens do Paleolítico Superior utilizassem a pintura há 27 mil anos. Neste caso concreto, temos material que poderia permitir a pintura, e agora não é só imaginação. Isto muda toda a narrativa”, disse.

Segundo a investigação, como as pinturas rupestres não se conservavam devido ao clima, podem ter sido substituídas ou reforçadas pela técnica da picotagem para mostrar o dia-a-dia das comunidades paleolíticas. “Podemos supor que a técnica da pintura foi utilizada antes da gravura e assim [com a picotagem], conservada mais tempo esta arte. Sabemos que tinham materiais para pintar. Ainda há, nesta matéria, muitas respostas por obter e [muito para] estudar. Estes pigmentos são comuns numa área de um raio de 60 quilómetros entre os dois extremos do parque”, vincou.

O investigador sublinha o “dado concreto” obtido com a investigação: “Eles tinham o material que permitia pintar”, tinham cores, “tinham ocre, amarelo”. “Agora, ainda não sabemos qual foi o suporte” em que foram usados. Mas a partir dos próprios pigmentos, através da sua análise, poderá ser possível saber de onde provêm, se de uma rocha, se de uma pele, porque diferentes suportes vão deixar diferentes vestígios.

As escavações vão continuar na Primavera, no sítio da Penascosa, dado os materiais encontrados.

As descobertas foram apresentadas recentemente num seminário na Argélia e, de acordo com o investigador, surpreenderam a comunidade científica.

O presidente do conselho directivo da FC-P, João Paulo Sousa, por seu lado, defende que tem de se olhar com rigor para o Vale do Côa e apostar na investigação científica, declarando que tem de haver reforço de meios humanos especializados.

“O mapa de pessoal da Fundação tem apenas três pessoas ligadas à investigação e é preciso um reforço urgente de investigadores”, declarou à agência Lusa.

Segundo João Paulo Sousa, até aqui tem havido a colaboração de várias Universidades como as de Coimbra, Lisboa e do Minho, o que permite construir equipas, porque “os arqueólogos e outros investigadores são verdadeiros apaixonados pela Arte do Côa”. “O nosso corpo de arqueólogos começa a entrar numa determinada idade, sendo necessário o seu reforço”, vincou.

Quando da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa, em Agosto de 1996, foram identificadas 190 rochas com arte rupestre com gravuras em picotado, agora a evidência da presença de cor poderá dar um novo o rumo ao conhecimento da Arte do Côa.

Actualmente há 1600 rochas identificadas, repartidas por 104 sítios arqueológicos, num total de mais de 15.650 motivos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, num ciclo artístico de arte rupestre que nunca foi interrompido.

A Arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como Património Mundial pela UNESCO. Francisco Pinto – “Agência Lusa” in “Jornal Tribuna de Macau”


Angola - Empresária Aulinda Furtado lança livro sobre posicionamento estratégico nos negócios no Dubai

A empresária Aulinda Furtado apresentou, neste sábado, 31, no Consulado Geral de Angola no Dubai, Emirados Árabes Unidos, a obra literária SPM – Código Secreto do Posicionamento no Mercado de Negócios, obra que aborda a importância do posicionamento consciente, da diferenciação e da construção de uma identidade sólida e sustentável no mercado empresarial.


A obra literária, composta por 179 páginas, reúne conhecimentos científicos, experiências profissionais e aprendizagens da autora, apresentando perspectivas estratégicas para empresários, líderes e profissionais que procuram fortalecer a sua presença e competitividade no mundo dos negócios.

Várias personalidades e convidados, com destaque para a cônsul-Geral de Angola no Dubai e Emirados do Norte, Isabel Paula de Castro, fizeram-se presentes no acto de lançamento realizado pelo Clube das Mulheres da Associação de Angolanos e Amigos nos Emirados Árabes Unidos.

Com o lançamento desta publicação, a autora reforça o seu contributo para a produção de conhecimento, a promoção do empreendedorismo feminino e a valorização da liderança empresarial no panorama internacional. In “O País” - Angola


Portugal - Biblioteca da Figueira da Foz mostra vida e obra de Camilo Pessanha

Uma mostra documental sobre a vida e obra de Camilo Pessanha está patente na Biblioteca Pedro Fernandes Tomás, na Figueira da Foz. O público pode visitar a exposição sobre o poeta que viveu em Macau até 4 de Dezembro


A Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás, na Figueira da Foz, inaugurou uma exposição documental dedicada a Camilo Pessanha, assinalando “o centenário da morte de um dos maiores nomes do simbolismo português (1926–2026)”, refere o Município da Figueira da Foz numa publicação.

Composta por 16 painéis, a exposição percorre o trajecto pessoal e literário do poeta, “convidando à descoberta da sua vida, da sua obra e do legado que marcou a literatura portuguesa”, acrescenta.

Produzida pelo GAAC – Grupo de Arqueologia e Arte do Centro e pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, em associação com o Alma Shopping, a mostra chega agora à Biblioteca Municipal, depois de ter estado patente naquele centro comercial durante o mês de Setembro.

A sessão inaugural contou com a presença dos curadores António Apolinário Lourenço e Manuel Seixas, que apresentaram a exposição e deram a conhecer as perspectivas que orientaram a sua concepção. A mostra fica patente ao público até ao dia 4 de Dezembro, podendo ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30, e aos sábados, das 14h00 às 19h00.

O Município da Figueira sublinha que esta é “uma oportunidade para conhecer melhor Camilo Pessanha, descobrir o seu percurso literário e reencontrar a poesia de uma figura incontornável da literatura portuguesa”.

Camilo Pessanha é considerado a principal figura do Simbolismo em Portugal e um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Nascido em Coimbra, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, cidade onde iniciou a sua actividade literária.

Em 1894, partiu para Macau, onde exerceu funções como professor de Filosofia e desempenhou diversos cargos na administração pública. Acabou por morrer no território, sendo que a sua campa se localiza no Cemitério de São Miguel Arcanjo.

Recorde-se que, em Julho deste ano, a Câmara Municipal de Coimbra e os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra decidiram dar espaço a Pessanha no autocarro 501, numa iniciativa que visava valorizar “figuras maiores da cultura portuguesa com ligação a Coimbra”.

O autocarro exibia um retrato de Camilo Pessanha, uma reprodução da sua assinatura e o verso que abre Clepsidra: “Eu vi a luz em um país perdido”. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


terça-feira, 3 de novembro de 2026

Sahara Ocidental - Terminou a Minurso, mantém-se o direito inalienável do povo saharaui à autodeterminação

Anteontem, dia 1 de Novembro de 2026, cessaram as operações da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), criada em 1991 por decisão de ambas as partes, a Frente Polisário e o Reino de Marrocos, sob mediação da ONU e da União Africana, com o apoio unânime do Conselho de Segurança.


Tendo visto sucessivamente renovado o seu mandato ao longo dos últimos 35 anos, que atravessou diferentes fases do processo de ocupação militar marroquino, foi a falta de luz verde para a sua continuação, por parte do mesmo Conselho de Segurança, que determinou o seu fim abrupto.

O que se passou? No dia 30 de Outubro, os Estados Unidos apresentaram a votação uma proposta de resolução que preconizava, entre outras, as seguintes medidas: alterar a denominação da MINURSO para MINUSO, ou seja, abolir a palavra “referendo” e, em conformidade, redefinir os objectivos e estrutura da Missão; aceitar a proposta marroquina de autonomia para o território (cujo texto nunca foi tornado público até agora) como a única base de referência para as negociações, excluindo assim qualquer outra possibilidade de solução e impondo, na prática, ao povo saharaui, um futuro sob a soberania marroquina.

Registaram-se 11 votos a favor (Bahrein, Colômbia, Dinamarca, EUA, França, Grécia, Letónia, Libéria, Panamá, Reino Unido, República Democrática do Congo), 3 abstenções (China, Paquistão e Somália) e a Federação Russa utilizou o seu direito de veto, salientando «o facto de que o Conselho de Segurança não pode predeterminar automaticamente questões relacionadas com a soberania. Não temos o direito de retirar a questão do Sahara Ocidental da agenda da descolonização apenas com base em conclusões teóricas sobre a existência de um plano alegadamente realista para a resolução [do conflito]. (…) O Conselho de Segurança não deve dar o seu aval a uma abordagem tão unilateral.»

Seguiu-se a votação de «um projecto de resolução conciso para a prorrogação técnica do mandato» [da MINURSO], «para que possa continuar a operar», apresentado pela Rússia. Obteve 3 votos a favor (Rússia, China e Somália), 11 abstenções e o veto dos EUA. De qualquer modo, sendo necessários sempre nove votos favoráveis para que uma resolução seja aprovada, esta contra-proposta não atingiria esse objectivo, mesmo que não houvesse nenhum voto contra.

Não tendo havido nenhuma movimentação diplomática que levasse à convocação de uma reunião de última hora do Conselho de Segurança, o mandato da MINURSO terminou às 24 horas do dia 31 de Outubro de 2026, como estipulado desde o voto de 2025.

No dia 1 de Novembro, o Secretário-geral da ONU, António Guterres, através do seu porta-voz, Stéphane Dujarric, afirmou: «A MINURSO foi criada para proteger e servir o povo do Sahara Ocidental, em particular para lhe permitir exercer o seu direito inalienável à autodeterminação. O Secretário-geral sublinha que a saída da MINURSO não revoga esses direitos inalienáveis e apela a todas as partes para que respeitem e promovam os direitos do povo do Sahara Ocidental. (…). O Secretário-geral reafirma o compromisso das Nações Unidas em apoiar as partes para que cheguem a uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável, que garanta a autodeterminação do povo do Sahara Ocidental.»

Algumas horas depois, o Representante da Frente Polisário junto das Nações Unidas em Nova Iorque, Sidi Omar, reagiu num comunicado, dizendo: «A Frente Polisário salienta que o povo saharaui continua firmemente empenhado no seu direito inalienável, não negociável e imprescritível à autodeterminação e à independência, bem como na defesa dos seus direitos por todos os meios legítimos, tal como consagrado nas resoluções pertinentes da ONU. (…) a Frente Polisário reafirma o seu firme empenho em cooperar com os esforços do Secretário-geral da ONU e do Conselho de Segurança da ONU na procura de uma solução justa, duradoura e definitiva para a descolonização do Sahara Ocidental, a última colónia em África.»

Neste contexto, mantém-se o quadro legal de referência existente desde 1963: o Sahara Ocidental é um território não-autónomo, pendente de descolonização, com direito à autodeterminação, como explicitamente afirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça em 1975. O que acabou de ser reconhecido pela Assembleia Geral da ONU, no dia 15 de Outubro, por votação a favor de 152 Estados, com sete abstenções e dois votos contra (Estados Unidos e Israel). Será neste âmbito que poderão ser retomadas as negociações políticas.

Quase em simultâneo com estes acontecimentos, o regime marroquino deportou de El Aiún, capital do Sahara Ocidental ocupado, dois jovens estudantes de 22 anos, que tinham viajado da Noruega para conhecerem as e os defensores de direitos humanos saharauis. Pouco depois de uma visita a casa de um reconhecido ex-preso político, onde estavam familiares de actuais presos políticos, forças de segurança à paisana apresentaram-se no hotel e obrigaram-nos a seguir até Agadir e a abandonar Marrocos. Esta é uma política sistemática: desde 2014 foram expulsas do Sahara Ocidental ocupado, pelo menos, 330 pessoas.

Também na sede da ONU, onde foi instalada no dia 27 de Outubro a exposição «50 Anos, 50 Rostos: o Exílio Saharaui - Uma Vida de Resistência», do fotógrafo saharaui Adad Ammi, organizada pela Oxfam, em colaboração com as Missões permanentes da Argélia, Belize, Namíbia, África do Sul, Timor-Leste e Uganda, a diplomacia marroquina exerceu o seu poder e a mostra foi desmontada dois dias depois. No entanto, no dia 30, foi reposta e prolongada até 4 de Novembro, dando origem a uma segunda cerimónia inaugural.

Independentemente de uma análise política mais detalhada deste momento que abre uma nova fase de luta para o povo saharaui, que a AAPSO pretende fazer e divulgar, deixamos duas ideias fundamentais:

  • a MINURSO vai fazer falta, mas a aprovação da resolução apresentada pelos EUA consagraria a decisão do Conselho de Segurança de reconhecer a soberania marroquina sobre o Sahara Ocidental, esvaziando o conteúdo do direito à autodeterminação do povo saharaui, garantido pela Carta das Nações Unidas, por inúmeras resoluções de vários órgãos judiciais internacionais e nunca abertamente contestada;
  • nesta manobra concertada entre os EUA e Marrocos, tiveram responsabilidades 11 membros do Conselho de Segurança, com destaque para os governos europeus, que levaram até ao fim a sua capacidade de defender valores e praticar exactamente o seu contrário, colaborando activamente no aprofundamento do desprestígio das instituições e na criação do caos internacional.

Lembramos que Portugal tomará o seu lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança em Janeiro de 2027.

A luta do povo saharaui é também a nossa luta, a de todos os povos, que querem que a justiça e a paz prevaleçam sobre os negócios, a ganância, a hipocrisia e o poder sem controlo. O processo de descolonização não está completo, continua a haver uma colónia em África. A solidariedade é o nosso compromisso com a liberdade. Associação de Amizade Portugal – Sahara Ocidental


Nações Unidas - ONU reforça apoio a processo de paz após encerrar missão no Sahara Ocidental

Operação terminou após impasse no Conselho de Segurança sobre renovação do mandato. O secretário-geral António Guterres garante que a organização segue intermediando o diálogo diplomático, a nota reforça que fim da missão não anula o direito à autodeterminação


Neste domingo, teve início o processo que levará ao encerramento do mandato da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental, Minurso.

Em Nova Iorque, o secretário-geral, António Guterres, reiterou o compromisso da organização com a procura por uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceitável que garanta o direito inalienável à autodeterminação do povo saharaui.

Direito fundamental

Em nota emitida pelo seu porta-voz, Guterres enfatizou que o fim das operações de manutenção da paz não anula esse direito fundamental e pediu a todas as partes envolvidas que respeitem e promovam os direitos da população local.

O encerramento da missão ocorreu à meia-noite de sábado, após o Conselho de Segurança da ONU não chegar a um consenso sobre o tema na sexta-feira.

Na mesa estava uma proposta apresentada pelos Estados Unidos, que procurava destravar o conflito de 50 anos apoiando o princípio da autodeterminação, mas que acabou vetada pela Rússia.

O representante russo disse que a decisão foi um “veto salvador”, declarando que o texto norte-americano imporia soluções unilaterais. Por sua vez, a contraproposta russa de prorrogar o mandato por mais um ano não obteve os nove votos necessários para aprovação.

Independência ou integração

A Minurso foi criada em 1991 pela Resolução 690, prevendo a realização de um referendo para que a população escolhesse entre a independência ou a integração a Marrocos.

Embora a votação nunca tenha ocorrido e Marrocos tenha apresentado, em 2007, uma proposta de autonomia sob a sua soberania, a operação de paz vinha monitorizando o cessar-fogo por mais de três décadas.

Mesmo com o encerramento da Minurso, com mais de 200 forças civis e militares de 35 países na sua fase final, a ONU realça que continuará intermediando o diálogo por meio do enviado pessoal do secretário-geral, Staffan de Mistura.

Retirada ordenada e transição

Guterres prestou tributo aos 20 integrantes da missão que morreram ao longo dos seus 35 anos de atuação e agradeceu ao representante especial, Alexander Ivanko, pela liderança durante o período crítico de retomada dos confrontos em 2020.

O domingo foi marcado pelo começo do período de liquidação e desmobilização dos equipamentos sob a gestão do Departamento de Apoio Operacional da ONU.

O secretário-geral expressou preocupação com a segurança do pessoal envolvido e apelou pela cooperação de todos os atores e pelo máximo de contenção para abafar as tensões e preservar a estabilidade regional. ONU News – Nações Unidas




Obra vem para resgatar a história de Setúbal

Segundo volume do projeto é, desde já, excepcional ferramenta de estudo para investigadores, professores, estudantes e público-leitor



                                                               I

O projeto editorial Dicionário de História de Setúbal, considerado a maior obra de investigação sobre a história da terra natal do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), ganhou, em 2026, o seu segundo volume, com verbetes de F a O, trazendo à luz informações sobre a vida social, cultural, esportiva, política, econômica e religiosa, bem como sínteses biográficas de setubalenses que se destacaram em diversas áreas de intervenção, além de temas pouco estudados até agora, especialmente sobre as movimentações e perseguições sofridas pelos opositores ao regime salazarista (1933-1974). A apresentação do segundo volume deu-se no dia 29 de julho no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

Tendo sido lançado em julho de 2025 o seu primeiro volume (com verbetes de A a E), o Dicionário de História de Setúbal é um extenso trabalho coordenado pelo historiador Albérico Afonso Costa, publicado pelo jornal O Setubalense no âmbito das comemorações de seu 171º aniversário, com o apoio da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, da Câmara Municipal de Setúbal e da empresa The Navigator Company. O terceiro volume, com verbetes de P a Z, está previsto para julho de 2027. No total, os três volumes contam com a colaboração de quase uma centena de profissionais de áreas como arqueologia, sociologia, antropologia, economia, arquitetura e jornalismo.

Com a participação de 60 historiadores, o segundo volume traz mais de mil entradas e, como o anterior, abrange um período de cerca de dois mil anos, desde a presença romana, quando o vilarejo era conhecido como Cetóbriga, até a época contemporânea, sendo os temas dos séculos XIX e XX de maior presença. Em resumo: o leitor vai encontrar neste e nos demais volumes histórias desde a época em que o burgo não passava de uma medieval vila amuralhada contra piratas e invasões até a sua transformação em cidade industrial e moderna.

Por isso, desde já, torna-se uma excepcional ferramenta de estudo para investigadores, professores, estudantes e para todos os cidadãos interessados em conhecer melhor a história da sua terra e, por extensão, de Portugal. Distribuído pelo município para escolas e bibliotecas do Concelho, os dois primeiros volumes já começaram a ser utilizados por professores e alunos.

 

                                                                                                                                                            II

Autor de destacados trabalhos de investigação sobre a história de movimentos de esquerda e, especialmente, de resistência ao fascismo salazarista em Setúbal e região, Albérico Afonso Costa, além de coordenador, é responsável pela maior parte das entradas. Uma dessas entradas conta sobre a influência da guerra civil na Espanha (1936-1939), que seria intensamente acompanhada pelos setores oposicionistas portugueses, em especial em Setúbal. A princípio, como diz o historiador, a atuação da Frente Popular espanhola foi vista como uma vitória das esquerdas em Portugal. Comunistas e anarquistas comemoraram o que imaginaram que seria a derrota do fascismo.

Com base num relatório do Ministério do Interior, que consta do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), o historiador reproduz texto em que o ministro é informado sobre a existência de tabernas onde populares ouvem uma estação de rádio de Sevilha que retransmite “propaganda bolchevista em espanhol”. No mesmo documento, os informantes indicam ao ministro que os adversários do regime salazarista “conspiram com arrogância indicativa de contarem com a vitória certa”. Ainda na entrada, o historiador acrescenta que, em 1938, quando ocorreram prisões de grupos anarquistas e comunistas em Espanha, muitos militantes espanhóis contaram com o apoio do Partido Comunista Português (PCP), encontrando refúgio em Portugal.

Outra referência análoga ao tema é a que se refere à greve geral da indústria conserveira em 1922, que durou quase três meses, mas terminou com a vitória dos patrões. Depois de muita luta, os grevistas acabaram por aceitar um aumento de 25% para os soldadores e de 20% para os demais trabalhadores, ficando outras reivindicações não satisfeitas. Enfim, como diz a nota em seu parágrafo final: “(...) estamos perante uma cidade operária que lutou até cair de exaustão, numa luta em que apostou tudo quanto tinha e perdeu parte substancial da sua força anímica”.

Essa derrota dos operários levaria a uma apatia na cidade que, por isso, não registraria grande impacto com a notícia do golpe militar de 1926, resultado de protagonismo crescente de setores monárquicos e nacionalistas que simpatizavam com as soluções autoritárias inspirados na Itália de Benito Mussolini (1883-1945) ou na Espanha de Primo de Rivera (1870-1930). Como se lê na entrada referente ao golpe militar de 28 de maio de 1926, o movimento encontraria “Setúbal mergulhada numa profunda crise econômica, social e política”.

Ao lado de muitas publicações que vicejaram em Setúbal, destaque-se a extensa nota dedicada pelo coordenador ao Germinal, jornal que nasceu ligado aos setores mais radicalizados do operariado de Setúbal e ideologicamente inspirado nas concepções libertárias, especialmente de Errico  Malatesta (1853-1932), Piotr Kropotkin (1842-1921) e Mikhail Bakunin (1814-1872). De assinalar é que, à época, já se tratava de uma publicação que não se limitava à esfera laboral, reivindicando também direitos iguais para homens e mulheres. Em artigo publicado na edição de 15/4/1907, uma articulista de nome Maria Munhós, que nada ficaria a dever às feministas de hoje, não perdoava nem mesmo os operários, acusando-os de, com as classes dominantes, procurar “conservar a mulher na maior ignorância para mais facilmente a poderem dominar”. Para ela, havia uma “dupla exploração da mulher”, tanto pelo capitalismo como pelo homem.

  

                                             III

Entre os muitos estudiosos notáveis ligados à cidade, o segundo volume traz um verbete sobre o arqueólogo Fernando Bandeira Ferreira (1921-2002), lisboeta de nascimento, mas residente em Setúbal a partir de 1991, em cujo currículo constam prospecções em vários locais de Lisboa e sua área metropolitana, que inclui Palmela e Setúbal. É autor de numerosos trabalhos que saíram em publicações de divulgação literária e científica, como Mundo Literário, Seara Nova, O Arqueólogo Português, Brotéria, Revista de Guimarães, Conimbriga e Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, entre outras, bem como de um dicionário especializado que contém milhares de entradas em que recorre à toponímia de vários locais e, a partir de sua etimologia, procura aferir seu interesse para a arqueologia, mas que, infelizmente, embora concluído, está pendente de edição desde 2005, como assinala a jornalista e historiadora Helena de Sousa Freitas.

De especial atenção é também o verbete “Negros do Sado”, que trata dos escravos africanos que foram levados para Alcácer do Sal, à época de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), marquês de Pombal e conde de Oeiras, secretário de Estado do Reino à época de D. José (1714-1777), cujo reinado durou de 1750 a 1777. Os descendentes desses escravos tornaram-se pardos e pretos livres, que se integraram à população local.

Como se lê no verbete, “Setúbal foi o povoado que maior número de negros teve na península com o seu nome, atendendo a que tinha duas confrarias de negros: a de S. Benedito, no convento de S. Francisco, e a de Nossa Senhora do Rosário, no convento de S. João”. Aliás, Setúbal era a terceira povoação que maior população negra apresentava, atrás do Porto (com três confrarias) e de Lisboa, de acordo com o verbete assinado pela professora Maria Cristina Neto (1944-2024), notável historiadora e autora de várias obras sobre o tema, e José Luís Neto, doutor em arqueologia pós-medieval pela Universidade de Salamanca.

De se destacar é também o verbete que trata da habitação popular urbana em que se lê sobre o crescimento urbano verificado em Setúbal a partir da década de 1860 e o impulso proporcionado nos finais de Oitocentos com a indústria de conserva de peixe que foram coincidentes “com o agravamento das condições de salubridade e com a consciência recente da ameaça bacteriológica sobre as populações humanas”, como observa o historiador e professor Paulo Eduardo Guimarães, ao fazer um levantamento histórico da expansão da cidade, com a criação de bairros marcados pela presença de barracos de madeira ou em alvenaria, alugados “a trabalhadores em arruamentos precários”.

Na área esportiva, destaque-se, entre outras referências, a entrada dedicada a Jaime da Silva Graça (1942-2012), o mais destacado setubalense no mundo do futebol, que fez parte da seleção portuguesa que se classificou em terceiro lugar na Copa do Mundo disputada na Inglaterra, em 1966. Como observa o historiador Manuel Henrique Figueira, o jogador, de origem humilde, teve sempre inspiração na carreira do seu irmão, Emídio Graça (1931-1992), que, tendo se destacado no Vitória Futebol Clube, de Setúbal, chegou a internacional, atuando pelo Sevilha, a partir de 1958. Jaime começou no Palmelense, tendo se transferido para o Vitória, na época de 1959/60, chegando à seleção nacional em 1965. Encerrado o Mundial de 1966, transferiu-se para o Benfica, onde ficou até 1975. Sua passagem pelo clube da Luz foi um sucesso, pois juntou-se a um quinteto que ficaria famoso: Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. E continuou ligado ao futebol como treinador.


                                                             IV

Albérico Afonso Costa (1951) é historiador e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Professor coordenador na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) e doutor em História Contemporânea, na especialidade de História Cultural e das Mentalidades, pela FCSH da UNL, tem colaborado e coordenado projetos na área da História, com a formação de professores.

Tem vários trabalhos publicados nestas áreas de investigação, com destaque para: FPA, a Fábrica Leccionada — Aventuras dos Tecnocatólicos no Ministério das Corporações (2008); Roteiro Republicano de Setúbal, coord. (2010); História e Cronologia de Setúbal - 1248-1926 (2011);   Salazar e a Escola Técnica — Uma reforma tolerada num regime intolerante (2011); Setúbal sob a Ditadura Militar – 1926-1933 (2014); Setúbal Cidade Vermelha — Sem perguntar ao Estado qual o caminho a tomar —1974/1975 (2017); Lugares de José Afonso na Geografia de Setúbal (2019); Setúbal no Centro do Mundo, 165 anos do jornal O Setubalense, coord. (2020); Setúbal sob o Estado Novo – A Resistência  a Salazar, vol. 1, 1933-1949, 2021, e Setúbal sob o Estado Novo – A Resistência a Salazar e a Caetano, vol. 2, 1950-1974 (2023); e O Círculo Cultural de Setúbal – De Ninho Oposicionista a Quartel-General da Revolução, um redondo vocábulo, pela mão de José Afonso (2024).

Tem proferido dezenas de comunicações e conferências sobre os temas de História Contemporânea e formação de professores. Tem ainda publicações em livros coletivos, revistas e atas de eventos científicos. Diretor da revista Medi@ções, da Escola Superior de Educação de Setúbal, é também coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia e membro do Conselho Técnico Científico da Escola Superior de Educação do IPS.

Em 2019, recebeu da Câmara Municipal de Setúbal a medalha de honra da cidade na classe de atividades culturais. Em 2020, foi homenageado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (Lasa) pelo “valioso contributo que tem dado à comunidade setubalense”. Adelto Gonçalves - Brasil

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Dicionário de História de Setúbal, vol. II:F-O, de Albérico Afonso Costa (coordenação). Setúbal, Jornal O Setubalense, 20 euros, 504 páginas, 2026. E-mail: geral@osetubalense.com

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo - 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Uma obra para recuperar a história de Setúbal