Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Angola - Colectânea “Portas Entre´Abertas” junta treze autoras numa obra literária inédita

A sede da União dos Escritores Angola nos (UEA), em Luanda, acolheu o lançamento da colectânea literária intitulada “Portas Entre’ Abertas”, uma obra que junta treze autoras de diferentes pontos do país para reflectir sobre o papel fundamental das jovens mulheres na construção da sociedade

Com 153 páginas, a obra, escrita por 13 mulheres angolanas, nasce de experiências pessoais, observações do quotidiano e da necessidade de dar voz a histórias muitas vezes silenciadas.

Por intermédio deste trabalho, cada uma das participantes decidiu expressar os seus sentimentos através da literatura e partilhar com o público as suas realidades e experiência de vida.

Numa iniciativa da AMMA-Editora, o livro junta ideias e contributos de Serena Dandara, Luan da Denda, Tchissola Sucuacue tche, Eloá Kalopsita, Angelina de Carvalho, Isabela Lourenço, Júlia Cândida, Aurista D´Litlera, Ma ria Flora, Mónica Lote, Unkulu D´Papel, Violeta Azul e Margarida Jone.

A publicação da obra resulta de um processo que teve duração de três meses, produzido e supervisionado pela própria editora. Para a publicação, estarão disponíveis 1000 exemplares, como fez saber Daniel Sakayoya, director-geral da AMMA-Editora. Maria Custódia – Angola in “O País”


China - ‘Um País, Dois Sistemas’ com “mérito reconhecido”

As boas relações entre Portugal e a China, com Macau a servir de plataforma, foram vincadas pelo Presidente da Assembleia da República Portuguesa na visita ao território. Aguiar-Branco realçou também a importância dada ao “conhecimento directo” dos interesses e preocupações da comunidade lusa. Num encontro com advogados e juristas, ouviu preocupações e sugestões sobre temas como a segurança nacional, remetendo a discussão dessas e outras questões para a Comissão Mista Portugal-Macau


“Temos vontade que Macau possa continuar a ser um farol, um brilho, que guia a relação entre Portugal e a República Popular da China”. Foi com estas palavras que o Presidente da Assembleia da República (AR) se despediu no sábado da comunidade portuguesa, num almoço que encerrou o programa de pouco mais de um dia da sua visita ao território.

No breve discurso no Clube Militar, onde marcaram presença mais de uma centena de personalidades de vários sectores, José Pedro Aguiar-Branco focou a importância que tem para a AR “o conhecimento directo” dos interesses e preocupações da comunidade. “É importante que também a nível da AR, que tem a responsabilidade de acompanhar, fiscalizar e contribuir para a diplomacia parlamentar, se possa fazer o melhor na relação de Portugal com todos os países com quem temos relações [diplomáticas] e em particular com a China”, disse a segunda figura do Estado português.

Sublinhou ser “com sentimento genuíno, para mais associado ao facto de saber que é a primeira vez que aqui está presente um presidente da AR, que sentimos, de uma forma directa e próxima, um órgão máximo de soberania da nossa democracia, porque a Assembleia pertence a todos e todos nós temos essa grande responsabilidade, por via do prestígio da AR, contribuir para a afirmação de Portugal no plano internacional”.

O almoço decorreu pouco depois de um encontro, no auditório do Consulado de Portugal, que reuniu algumas dezenas de elementos da comunidade jurídica. No final da sessão à porta fechada, o presidente da AR frisou que sai de Macau “com um reforço da importância que o território tem nas relações entre Portugal e a República Popular da China”.

Sobre os temas debatidos no encontro com advogados e juristas, o antigo ministro da Justiça, entre 2004 e 2005, frisou que o objectivo “foi precisamente ouvir” as principais preocupações.

Realçando o facto de estar acompanhado pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-China, referiu que estes deputados estão “particularmente focados em tudo o que importa para melhorar a qualidade da relação entre Portugal e a China”. O Grupo regressa a Lisboa “com informação importante, também para colocar à Comissão Mista, que tem como função ir aprofundando os temas que sejam necessários resolver para que essa relação seja melhor, cada vez melhor, e de uma forma construtiva”, sublinhou.

“É essa riqueza de informação que levamos e podemos também, enquanto AR, fazer o nosso papel de acompanhamento e fiscalização da actividade do governo nesta matéria, na acção externa”, realçou.

Relativamente ao papel de Macau na ligação sino-lusófona, Aguiar-Branco sustentou que são diversas as áreas onde essa plataforma se pode reflectir, nomeadamente nas dimensões comercial, cultural, desportiva e do direito.

“Temos uma visão de balanço em relação aos 27 anos da Declaração Conjunta, no que se refere àquilo que foi feito, e no que será para o futuro, no âmbito de ‘Um País, Dois Sistemas’, que tem mérito reconhecido politicamente”, frisou. Assim, prosseguiu, “queremos continuar, com pensamento construtivo e positivo, a olhar para Macau como um ponto, a linha, o brilho que ilumina essa capacidade também para futuro, desenvolvendo diversas áreas onde é importante projectar essa relação”.

As questões jurídicas

Após o encontro com a comunidade jurídica, o Jornal Tribuna de Macau ouviu dois advogados com larga experiência no território.

Jorge Neto Valente ressalvou que “não é numa reunião de uma hora que se consegue transmitir todos os sentimentos da comunidade jurídica”. Ainda assim, disse que foram abordadas algumas questões com potencial interesse, para as quais o Presidente da AR e os deputados podem ajudar e contribuir para transmitir a sensibilidade que levam de Macau. “Não é interferir, mas ajudar a resolver problemas que podem ser solucionados e sensibilizar as autoridades competentes para tornar harmoniosa a ligação ao direito, porque estamos a falar de juristas, mas também à comunidade”, defendeu.

O causídico considera ser fundamental que, em Portugal, percebam o papel da comunidade lusa residente em Macau. “Que percebam que a história evolui, o mundo e a sociedade também, e naturalmente o território igualmente tem evoluído. Portanto, não é uma questão de saudosismo, de nacionalismos, mas a comunidade aqui residente tem uma protecção especial na letra da Lei Básica e nós temos de tirar partido disso, porque isto é parte da história que ajudou a fazer Macau como ele é hoje”, apontou.

Já para Frederico Rato, a visita e a reunião foram importantes para a comunidade portuguesa e nomeadamente para o sector jurídico de língua portuguesa, porque, vem reforçar a ligação entre os dois sistemas, “e tudo o que se fizer para realçar de algum modo a coexistência harmónica entre eles é de aplaudir”.

O advogado mencionou que as questões abordadas foram “mais gerais”, não deixando, no entanto, de falar na segurança nacional, “que parece estar na primeira linha das preocupações dos governantes”, e dos efeitos que essa “exacerbação do conceito possa ter no dia-a-dia, na vida das pessoas e no exercício dos seus direitos, liberdades e garantias”. “Foi uma aproximação importante”, disse Frederico Rato, considerando ser positivo auscultar opiniões e ouvir as diferentes perspectivas de como a questão da segurança interna e externa deve ser encarada.

Na manhã de sábado, o Presidente da AR assistiu à inauguração da exposição “As Artes Estão na rua”, alusiva aos 50 anos do 25 de Abril, com curadoria de Margarida Brito Alves e Cristina Pratas Cruzeiro, que estará patente nos jardins do Consulado até 30 de Junho. Deslocou-se também à Livraria Portuguesa e deu um passeio a pé desde o Largo do Senado até às Ruínas de São Paulo, acenando várias vezes a comerciantes e transeuntes, para além de ter provado o tradicional pastel de nata.

Destacada a actividade altruísta da Santa Casa da Misericórdia

Um dos pontos de paragem de Aguiar-Branco na manhã de sábado foi a Santa Casa da Misericórdia, onde assinou o livro de honra da instituição, depois do discurso do provedor. “Esta presença entre nós não é apenas um gesto de cortesia institucional, mas um elo vivo que nos une à história, à língua e aos valores que partilhamos”, salientou António José de Freitas, acentuando que a história de mais de quatro séculos e meio da Santa Casa “está indelevelmente ligada à presença da comunidade portuguesa”. O presidente da Assembleia da República enalteceu a actividade de carácter social e altruísta da Irmandade, não deixando de agradecer o apoio financeiro da Santa Casa às vítimas das fortes tempestades ocorridas em Portugal em Janeiro. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


Macau - Líder da UCCLA admite que cidades lusófonas têm “muito a aprender com a China”

O secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), Luís Campos Ferreira, indicou que as cidades lusófonas têm “muito a aprender com a China”


A organização realizou uma assembleia-geral em Macau, região fundadora da UCCLA. “A República Popular da China deposita em Macau a sua plataforma para os países de língua portuguesa e, neste caso concreto, para as cidades de língua portuguesa. A China é muito útil e tem muito conhecimento a transmitir. Todos nós temos muito a aprender com a China também”, afirmou.

O antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, entre 2013 e 2015, destacou também ser preciso melhorar a cooperação entre cidades lusófonas para além dos campos económicos e culturais. “O que sentimos é que há uma vontade de colaborar ainda mais, de as cidades partilharem conhecimento umas com as outras, para responder melhor às necessidades dos cidadãos”, afirmou Luís Campos Ferreira.

O responsável destacou que a comunicação já existe em várias dimensões, “nomeadamente na cultural e na económica”, mas que precisa de ser reforçada.

A reunião aprovou diversas moções de condolências pelas tragédias recentes que afectaram cidades em Portugal, Angola, Cabo Verde e Moçambique, e decidiu que a próxima reunião magna da UCCLA será realizada em Guimarães.

À margem da reunião, realiza-se esta terça-feira um fórum empresarial subordinado ao tema “Infra-estruturas e Cidades Inteligentes”, destinado a reforçar a dinâmica económica e comercial da instituição. Após o encontro, o Governo de Macau organiza uma visita a Hengqin, para explorar oportunidades com empresas do interior da China.

O presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, que participou pela primeira vez numa assembleia da UCCLA, sublinhou à Lusa a importância de projectos comuns e da partilha de experiências entre municípios. “É fundamental que os municípios tenham consciência do papel e do potencial que têm. Oeiras tem uma experiência muito positiva em matéria de cooperação descentralizada, com vários milhões de euros já aplicados em projectos, e estamos disponíveis para cooperar”, afirmou.

Isaltino Morais acrescentou que “enquanto alguns municípios têm experiência mais avançada em determinadas áreas”, outros ainda estão a “lutar por infra-estruturas básicas”, mas que “potenciar estas sinergias pode ser muito positivo para a qualidade de vida das populações”.

“Oeiras representa cerca de 10% do PIB [Produto Interno Bruto] português o que nos interessa é tudo o que tenha a ver com desenvolvimento tecnológico, biomedicina, biotecnologias e tecnologias de informação, áreas em que a China tem experiência e capacidade de investimento”, destacou.

A UCCLA é uma organização intermunicipal, sem fins lucrativos, que se dedica ao fomento do intercâmbio e da cooperação entre os seus membros em vários domínios. Constituída em 1985, tem entre as cidades fundadoras Bissau, Lisboa, Luanda, Macau, Maputo, Praia, Rio de Janeiro e São Tomé/Água Grande.

Actualmente, congrega 106 membros, entre os quais 24 efectivos, 44 associados, 28 apoiantes e 10 observadores.

Oferecido busto de Camões


No âmbito das actividades paralelas à Assembleia Geral da UCCLA, foi ontem oferecido às autoridades municipais de Macau um busto de Luís de Camões, “símbolo do elo comum e duradouro entre as cidades e instituições membros da UCCLA de língua portuguesa”. Segundo a UCCLA, a obra, da autoria de Diogo Munõz, é patrocinada pela Comissão para as Comemorações do V Centenário de Luís de Camões, e o pedestal do busto é uma oferta da “China Construction Engineering (Macau)”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”




“A bala dos desarmados”, histórias dentro da História

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra permeia os 14 contos do quinto livro do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes

 

I

Ao contrário do que pensava Guimarães Rosa, como expressa no título Primeiras estórias, há um bom tempo os estudos literários não distinguem estória de história; a primeira seria ficção e a segunda, fato. Ficção ou realidade, será sempre história. A lembrança vem a propósito do quinto livro de Francisco de Morais Mendes (Belo Horizonte, 1956), A bala dos desarmados (Sinete, 2025), em que a criação ficcional está embebida da História, como ocorre em grandes obras, seja romance, conto ou poema.

Com enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor. Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.

Conto não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores, imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos: “O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar [...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo”.

Autor multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B (antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado por bons leitores.

 

II

Acompanho a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida (1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada: “As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra em si”.

Vou tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados, eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante que o Brasil viveu há alguns anos.

A instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado, “Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet. Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso. Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A História acolhe a história.

Da questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz, na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara, de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.

A arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história, embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e, sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.

 

III

Em várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos, como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador, que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para reencontrar a família.

Com o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua, avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil tentar prever o fim da história.

Depois de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida. Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.

Logo o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos, “simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça. “[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é real.

No sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria, uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos, lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias. Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa a lutar contra “as garras do desespero”.

A exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a “O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias (2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não ter  ficado em casa lendo-o. Na história, uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.

 

IV

O oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.

Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro, Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher soube. Não, não se trata de adultério.

“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do leitor.  Trata-se “uma história de amor e de amizade”.

O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre, os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia, com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”. Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.

O conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.

 

V

Em “Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”. História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira, ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).

Também a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua, Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte (“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto: “Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor, assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!

Numa noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa, talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro (“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair Rodrigues.

No último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador. Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses, possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.

Como vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios, entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?

O autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos, todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa, sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida - Brasil

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A bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon. Site: editorasinete.com.br

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Hugo Almeida, doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br



segunda-feira, 13 de abril de 2026

Internacional - Fungos únicos no planeta estão a desaparecer. Estudo liderado pela Universidade de Coimbra alerta para perdas irreversíveis

Apesar de serem vitais para os ecossistemas, os fungos continuam largamente esquecidos na conservação global


Um estudo internacional liderado pelo Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) alerta que há espécies de fungos únicas no planeta, sem parentes próximos na árvore da vida, que podem desaparecer para sempre.

A investigação, desenvolvida em colaboração com o Comité para a Conservação dos Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), identificou espécies evolutivamente distintas e globalmente ameaçadas. Estas espécies representam linhagens isoladas, com histórias evolutivas únicas acumuladas ao longo de milhões de anos, o que significa que a sua extinção não seria apenas mais uma perda de biodiversidade, mas sim o desaparecimento de ramos inteiros da história da vida na Terra.

Publicado na revista científica Conservation Letters, o estudo analisou 94 espécies de fungos pertencentes a géneros monotípicos, grupos que incluem apenas uma única espécie conhecida. Os resultados revelam um cenário preocupante: nove espécies já se encontram ameaçadas ou próximas disso, enquanto a maioria, 56, não dispõe de informação suficiente para avaliar o seu estado de conservação. Apenas 28 foram classificadas como de baixo risco. Para os investigadores, este desconhecimento é, por si só, um dos maiores sinais de alerta.

“A deficiência de dados reflete graves lacunas no conhecimento sobre estes organismos. Em muitos casos, as espécies são conhecidas apenas pela sua descrição original, feita há mais de uma década, sem qualquer registo desde então”, explica Susana Cunha, líder do estudo e aluna do Doutoramento em Biociências da FCTUC e do Jardim Botânico Real de Kew no Reino Unido.

“Isto significa que podemos estar a perder espécies únicas sem sequer termos consciência disso.”

Apesar do seu papel fundamental para a vida na Terra, nomeadamente na decomposição de matéria orgânica e na regulação dos ciclos de nutrientes, os fungos continuam largamente ausentes das prioridades globais de conservação. Ao contrário do que acontece com animais e plantas, ainda não existe uma lista que identifique as espécies de fungos mais distintas evolutivamente e ameaçadas, uma lacuna que os investigadores consideram urgente colmatar.

O estudo sublinha que a falta de dados resulta de anos de subinvestimento na investigação micológica. Sem informação básica sobre distribuição, ecologia e diversidade, torna-se difícil integrar os fungos nas políticas de conservação e garantir a sua proteção efetiva.

Para inverter esta tendência, os autores defendem um reforço do investimento em investigação de base, incluindo inventariações de campo e o uso de ferramentas inovadoras como o DNA ambiental, que pode ajudar a revelar a presença de espécies difíceis de detetar. Ao mesmo tempo, destacam o potencial da ciência cidadã como forma de acelerar o conhecimento, envolvendo comunidades locais na recolha de dados sobre a diversidade fúngica.

“Espécies com poucos registos ou registos antigos são candidatas ideais para projetos participativos”, sublinha Susana Gonçalves, coautora do estudo. “O envolvimento dos cidadãos pode ser decisivo para colmatar lacunas de informação e apoiar a conservação.”

Os investigadores recomendam, ainda, que estas espécies únicas sejam alvo de análises moleculares para confirmar a sua posição isolada na árvore da vida e, sempre que se confirme o seu carácter singular, que passem a ser prioridade na conservação. Sem uma ação concertada, alertam, o mundo arrisca-se a perder uma parte insubstituível do seu património natural, muitas vezes antes mesmo de a conhecer. Universidade de Coimbra - Portugal


Península Ibérica - Menina, de MAR, eleita Melhor Música de 2025 pelo público de Portugal e Será por flores, de Uxía, foi eleita pela Galiza

Depois de um mês de votações e mais de 5000 participações do público em geral, a gala aRi[t]mar da música e da poesia galego-portuguesas já tem as suas canções escolhidas como Melhor Música de 2025 na Galiza e Melhor Música de 2025 em Portugal. Neste caso, os utilizadores decidiram que Menina, de MAR em colaboração com Carolina Deslandes foi a Melhor Música de 2025 em Portugal. Do lado galego, Será por flores, de Uxía, foi eleita Melhor Música de 2025 na Galiza.


Menina é o single mais bem-sucedido e destacado do primeiro álbum de longa duração da algarvia MAR, que editou a canção em colaboração com Carolina Deslandes. Trata-se de uma música que combina uma base eletrónica com ares de R&B contemporâneo, com as vozes de MAR e Carolina Deslandes, num tom mais próximo do hip-hop. A canção fala, através de uma história na primeira pessoa atravessada pela violência machista e vicária, da necessidade de amar, ensinar a amar-se e a defender-se.

Do lado da música galega, Será por flores é prova da sensibilidade de uma Uxía que tem nas costas uma extensíssima carreira, sem que isso a impeça de se mostrar incansável. O público do aRi[t]mar escolheu como melhor música do ano na Galiza um tema no qual a artista natural de Mos exibe a sua faceta mais próxima da canção de autor e da poesia, desenvolvendo a maior parte do single com guitarras e uma voz limpa. O timbre de Uxía, tão característico e cheio de matizes, preenche uma canção que tem mesmo um certo ar crepuscular. Já é uma das grandes canções de uma das grandes vozes da música galega contemporânea.


As canções que alcançaram o pódio na Galiza, em segundo e terceiro lugar, foram Todos contra min, dos Ulex, e Perdín a memoria, de MJ Pérez. No âmbito do território português, a segunda e terceira classificadas foram Brinde (16h00), de Carolina Deslandes, e Respirar, de Calema em colaboração com Sara Correia.

Ambas as vencedoras, MAR e Uxía, serão convidadas para recolher o seu prémio na Gala aRi[t]mar Galiza e Portugal 2026, que será celebrada neste outono em Santiago de Compostela.

MAR é uma das vozes emergentes mais singulares da nova música portuguesa. Nascida em Monte Gordo, no Algarve, a sua proposta move-se entre o pop, o hip-hop e a música eletrónica, sempre envoltos numa certa tendência para a experimentação e a exploração sonora. Cantora, compositora e produtora, MAR desenvolve um projeto em que a música convive com uma forte dimensão estética e visual. Menina, editada em colaboração com a estrela portuguesa Carolina Deslandes, é um dos singles do seu primeiro álbum de longa duração.


Uxía é uma das vozes mais reconhecíveis e marcantes da música galega contemporânea. Natural de Santa María de Sanguiñeda, no município pontevedrês de Mos, a sua carreira abrange já quatro décadas como intérprete e compositora. Em Uxía conviveram, convivem e continuarão a conviver a música galega de raiz, a canção de autor e, sobretudo, uma sensibilidade aberta às músicas do mundo e, em particular, às manifestações culturais e artísticas da lusofonia. Em virtude desse carácter aberto e integrador, destaca-se também no âmbito da colaboração e do impulso de iniciativas culturais de diversa índole. In “Portal Galego da Língua” - Galiza

Moçambique – Presidência garante que nenhuma vila de Cabo Delgado está ocupada por terroristas

O Presidente da Frelimo, Daniel Chapo, garantiu que actualmente não existe nenhuma vila conquistada por grupos terroristas na província de Cabo Delgado, destacando avanços significativos no combate à insurgência. A declaração foi feita durante a abertura da 2.ª Sessão Ordinária do Conselho Nacional da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), onde o dirigente sublinhou o papel das Forças de Defesa e Segurança, com o apoio de parceiros regionais e internacionais, na recuperação de áreas anteriormente afectadas.

“Hoje, nenhuma vila de Cabo Delgado está ocupada por estes inimigos do povo moçambicano”, afirmou.

Segundo Chapo, os grupos terroristas encontram-se em constante fuga devido à pressão militar, embora ainda realizem ataques esporádicos que continuam a gerar insegurança nas comunidades.

Chapo acrescentou que, apesar do terrorismo ainda não ter sido totalmente eliminado, os progressos registados já permitem o regresso gradual dos deslocados às suas zonas de origem.

As melhorias no cenário de segurança também estão a contribuir para a retoma das actividades económicas na região, incluindo grandes projectos, contribuindo para a criação de empregos e dinamização da economia local. In “O País” - Moçambique