Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 17 de outubro de 2026

Moçambique - Kelvin Silva apresenta na cidade de Maputo livro sobre o medo de mudar e tomar decisões

O autor angolano Kelvin Silva apresentou este sábado, 17 de Outubro, no Hotel Southern Sun, na Avenida Marginal, na cidade de Maputo, o livro O Medo que Te Escraviza. A obra, que conta com prefácio do autor e orador brasileiro Américo Pinto, PhD, propõe uma reflexão sobre o medo de tomar decisões e o seu impacto na vida pessoal, académica e profissional.

Ao longo de 145 páginas, o autor explora os chamados “medos silenciosos”, receios que muitas vezes se confundem com prudência, responsabilidade ou espera pelo momento certo, mas que podem impedir mudanças e limitar oportunidades. A obra convida os leitores a questionarem até que ponto a permanência na zona de conforto pode comprometer a concretização dos seus objectivos.

As reflexões apresentadas têm como ponto de partida a experiência do próprio Kelvin Silva, que, após construir uma carreira na área da gestão de projectos e dos Escritórios de Gestão de Projectos (PMO), decidiu abandonar a segurança profissional para seguir novos caminhos. Com uma linguagem directa, o livro aborda os desafios de enfrentar a incerteza, lidar com o risco e tomar decisões com maior clareza.

Kelvin Silva é empreendedor e consultor, fundador da ASSERTIVA, organização angolana dedicada à formação em Gestão de Projectos e Gestão Estratégica através de PMO. Ao longo da sua carreira, liderou projectos de transformação organizacional e iniciativas de desenvolvimento profissional em Angola e noutros países.

Com O Medo que Te Escraviza, o autor pretende incentivar os leitores a reconhecerem os receios que condicionam as suas escolhas e a reflectirem sobre as possibilidades que podem surgir quando decidem sair da zona de conforto. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Portugal e China preparam plano de cooperação científica até 2030

Portugal e China vão reativar na segunda-feira a Comissão Mista de Ciência e Tecnologia, suspensa desde 2019, e esperam alcançar um entendimento sobre as prioridades de cooperação bilateral, revelou o ministro da Educação


“Penso que teremos na segunda-feira um resultado muito positivo para podermos desenhar a nova forma de colaboração entre Portugal e a China, em domínios estratégicos para os dois países”, afirmou Fernando Alexandre.

Em declarações à Lusa, à margem da Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento do Ensino Profissional e Técnico, na cidade chinesa de Tianjin, o ministro da Educação, Ciência e Inovação explicou que as equipas técnicas dos dois países têm trabalhado desde a visita que realizou à China, em junho.

Nessa ocasião, Fernando Alexandre acordou com o ministro chinês da Ciência e Tecnologia, Yin Hejun, a retoma dos trabalhos da comissão bilateral, que não se reúne desde 2019.

A X Comissão Mista de Ciência e Tecnologia terá lugar na segunda-feira, em Pequim, estando prevista a assinatura de uma declaração conjunta que deve definir as áreas prioritárias de cooperação até ao final da década.

O objetivo é negociar um Plano de Ação Conjunto Portugal — China para a Ciência e a Inovação, relativo ao período de 2027 a 2030, e estabelecer instrumentos que permitam concretizar projetos conjuntos.

O ministro destacou a resposta das universidades e instituições de investigação portuguesas ao relançamento da cooperação, incluindo entidades que identificaram novas instituições chinesas com as quais pretendem desenvolver parcerias.

“Nos próximos anos podemos ter uma colaboração ainda mais profunda e mais direcionada para aqueles que são os interesses dos dois países”, afirmou.

Fernando Alexandre adiantou que Portugal está a concluir a avaliação estratégica das prioridades nacionais de investigação e inovação para os próximos cinco anos, algumas das quais deverão coincidir com as áreas identificadas para a cooperação com a China.

“Teremos certamente instrumentos nos próximos cinco anos que usarão a colaboração entre Portugal e a China para concretizar esses objetivos que temos”, acrescentou.

Outro dos temas da visita é o reconhecimento mútuo de graus académicos, considerado fundamental para facilitar a mobilidade de estudantes, docentes e investigadores entre os dois países.

O Governo português pretende retomar as negociações de um acordo bilateral que estabeleça a equivalência entre os graus portugueses de licenciatura, mestrado e doutoramento e os graus chineses correspondentes.

Fernando Alexandre explicou que a questão foi abordada durante a visita de junho, quando manteve encontros com os ministros chineses da Educação e da Ciência e Tecnologia, tendo as equipas técnicas trabalhado em paralelo nas duas áreas.

“A colaboração nos graus pós-graduados de mestrado e doutoramento tem sido muito enfatizada pela China e também pelas instituições portuguesas, mas sem termos o reconhecimento dos graus, essa colaboração nunca alcançará todo o seu potencial”, afirmou.

Questionado sobre os resultados das negociações, o ministro reconheceu que ainda não existe um acordo, mas destacou os progressos alcançados.

“Não está ainda fechado, mas houve uma grande aproximação”, afirmou, acrescentando que persistem obstáculos que estão a ser ultrapassados.

A deslocação oficial de Fernando Alexandre à China, acompanhado pela secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão, decorre entre Tianjin, Pequim e Xangai e inclui visitas a universidades e centros de investigação chineses.

A comitiva integra representantes de universidades, institutos politécnicos e centros de investigação portugueses, incluindo o Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular, o INESC TEC e o INESC-ID. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


Tailândia - Bairro de Banguecoque preserva séculos de herança portuguesa

Localizado na margem ocidental do rio Chao Phraya, na área de Thonburi, subsiste o pequeno bairro de Kudi Chin, uma antiga comunidade luso-tailandesa fundada há mais de 250 anos que vai resistindo ao tempo e às inundações


Navinee Christina Pongthai Dandhra Nanda, de 75 anos, Pong para os amigos, viveu a vida toda neste bairro. Tem olhos muito claros e traços que apontam para outros lugares.

“Sou a quinta geração de uma família descendente de soldados portugueses”, diz à Lusa no Museu Baan Kudichin, dedicado à história e cultura portuguesas do bairro e instalado numa antiga casa da sua família.

Com o tempo, o nome da família alterou-se de Da Cruz para Dandhra Nanda. Pong conta que nunca se falou português em casa, conhecendo apenas algumas palavras como “avô” ou “Natal”. Hoje tenta aprender através da aplicação Duolingo. “Mas só tem português do Brasil, não é a mesma coisa”, afirma.

A septuagenária esteve “em Portugal apenas uma vez”, numa viagem para visitar Fátima, mas quer regressar no próximo ano “antes que fique demasiado velha”.

No ano passado, recebeu a Ordem do Infante D. Henrique pelas mãos do embaixador de Portugal em Banguecoque, pelo “notável contributo para o reforço das relações entre Portugal e a Tailândia”.

“Infelizmente não temos uma escola de língua portuguesa, só um curso de português na cidade”, na Faculdade de Artes da Universidade Chulalongkorn, explica. Existem também aulas de português no Instituto Camões do Centro Cultural Português em Banguecoque.

Sarayut Supsook, professor universitário, cofundador do Museu Baan Kudichin e cunhado de Pong, contribui regularmente para a preservação e promoção da cultura portuguesa da comunidade.

Fundado em 2015 na casa de uma tia de Pong, o museu tornou-se um espaço dedicado à divulgação da história do bairro e da comunidade lusodescendente daquela área.

“A Embaixada de Portugal em Banguecoque reconheceu-nos como centro cultural oficial português. Somos o único na cidade”, destaca Supsook, também membro fundador da Associação das Comunidades Luso-Asiáticas, criada em Díli, Timor-Leste, no ano passado.

O primeiro português conhecido a chegar ao atual território da Tailândia foi Duarte Fernandes, enviado em missão diplomática ao Reino de Ayutthaya (Sião) em 1511 por Afonso de Albuquerque, após a conquista portuguesa de Malaca.

Em 1538, tropas mercenárias portuguesas lideradas por Domingos de Seixas auxiliaram o monarca Chairajathiraj, do então Reino de Sião, durante uma guerra contra a Birmânia (hoje Myanmar).

Hábeis no uso de armas de fogo, canhões e táticas militares europeias, os portugueses serviram nas forças armadas siamesas como guardas reais, atiradores de elite e capitães de navios. Ainda de acordo com documentos do museu, médicos portugueses introduziram técnicas ocidentais no Sião e, em 1546, um médico de Portugal realizou com sucesso uma cirurgia para remover uma bala do corpo do rei Chairajathiraj.

Engenheiros portugueses ajudaram igualmente a construir algumas das primeiras infraestruturas do reino, incluindo estradas e canais. Como recompensa, o monarca concedeu aos soldados portugueses privilégios comerciais e residenciais fora das muralhas da capital do reino, Ayutthaya, dando origem à primeira comunidade portuguesa da região.

Após a queda de Ayutthaya, numa guerra com Myanmar em 1767, o rei Taksin criou uma nova capital mais a sul em Thonburi, na margem ocidental do rio Chao Phraya, concedendo terrenos a 79 portugueses que participaram nos esforços de guerra e na construção do Palácio Real.

O bairro passou a ser conhecido como `Farang Kudichin` – Comunidade Estrangeira de Kudichin – ou Aldeia de Nossa Senhora do Rosário, tendo do outro lado do rio o famoso Bairro Chinês da cidade.

“Os terrenos onde se situa o bairro pertenciam inicialmente à comunidade luso-tailandesa, mas foram oferecidos aos missionários há cerca de 150 anos e pertencem atualmente à Igreja”, explica Supsook.

“Só famílias católicas podem viver na área. Atualmente residem aqui cerca de 180 famílias, o que corresponde a aproximadamente mil pessoas. A renda é paga à Igreja e os terrenos vão sendo transmitidos de geração em geração.”

Ao longo dos séculos, portugueses casaram com mulheres locais e as tradições fundiram-se. Apesar de muitos residentes não terem ascendência portuguesa, a religião católica permaneceu como elemento de união da comunidade.

“As mulheres católicas adaptaram os véus usados nas missas no Ocidente, decorando-os com rendas e folhos de inspiração tailandesa e perfumando-os com especiarias”, diz Supsook.

O legado português manteve-se sobretudo na cultura e religião, com a maioria das casas na área – que rodeiam a Igreja de Santa Cruz – a apresentar traça tailandesa. Quanto à igreja, erguida por volta de 1770 como principal santuário católico de Banguecoque, foi depois reconstruída duas vezes.

“Foi construída entre 1913 e 1916 em estilo Rococó, inspirado na arquitetura italiana, cor de rosa com uma cúpula e vitrais coloridos”, explica.

Sarayut vive perto do museu. “Os tailandeses costumam viver perto do rio e vão de barco ao templo budista às vezes para rezar. Os católicos têm que ir à igreja todas as semanas, por isso Kudi Chin desenvolveu-se através de uma rede de becos interligados, com a igreja no centro, formando uma espécie de teia de aranha” conta.

Chuvas fortes e inundações atingiram Banguecoque e várias províncias tailandesas em setembro e outubro de 2026, provocando mais de 30 mortos e levando as autoridades a declarar situação de calamidade. Mas os residentes indicam não terem registado danos significativos em Kudi Chin.

“Há inundações nesta zona perto do rio há séculos e os moradores já estão habituados. Antigamente as casas eram construídas sobre estruturas de madeira, elevadas vários metros acima do solo para as proteger das inundações. As habitações modernas estão ao nível do chão e são mais vulneráveis”, diz Sarayut.

Outro legado duradouro da presença portuguesa na Tailândia encontra-se na gastronomia, particularmente na doçaria tradicional. Diversas lojas do bairro vendem doces à base de amêndoa e ovo, e alguns deles acabaram por dar origem a sobremesas icónicas da Tailândia moderna, como o Foi Thong, equivalente aos fios de ovos, e o Thong Yod, semelhante aos ovos moles.

Entre os produtos mais populares encontra-se o `Khanom Farang` (Bolo Estrangeiro), preparado com ovos de pato, farinha de trigo e açúcar, decorado com passas e pedaços de melão de inverno cristalizado. A receita surgiu das tentativas dos portugueses de reproduzir os bolos tradicionais sem alguns ingredientes europeus, como leite, manteiga ou fermento.

“Ovos, manteiga e leite não eram ingredientes utilizados pelos tailandeses. Só começaram a ser usados com a chegada dos portugueses”, conta à Lusa Petch, uma residente local que vende bolos `farang`, palavra tailandesa para estrangeiro.

Não tem ascendência portuguesa, mas ainda assim Petch aprendeu a fazer estes bolos com a avó. “Todas as famílias do bairro sabiam como fazer”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”


Cabo Verde - Adi D Son lança álbum “É Mi ke Djon” marcado pela fusão de ritmos e retrato dos jovens nas periferias

Cidade da Praia – O músico cabo-verdiano Adi D Son anunciou o lançamento do seu primeiro álbum, “É Mi ke Djon”, obra marcada pela fusão de ritmos tradicionais cabo-verdianos e que chama atenção para a realidade dos jovens das periferias.


Em entrevista exclusiva à Inforpress, o artista, cujo nome é Admilton António Garcia Oliveira, explicou que o álbum, composto por oito faixas, nasceu da realidade que observou em Cabo Verde e representa milhares de jovens que cresceram sem oportunidades, recursos financeiros ou apoio, mas que mantêm o talento e a vontade de vencer.

“É um nome fictício, que fiz há muito tempo, e representa milhares de jovens que estão invisíveis nas periferias. Jovens que foram esquecidos pela sociedade, com sonhos adiados”, explicou, acrescentando que é “um grito e uma chamada de atenção” para a vivência de muitos jovens.

Segundo Adi D Son, o projecto procurou transmitir mensagens através de diferentes estilos musicais, com destaque para o batuco, acompanhado de rimas e versos.

O músico explicou que apostou na fusão de ritmos por considerar que, apesar de a música cabo-verdiana possuir uma identidade própria, existe espaço para experimentar novas sonoridades e apresentar propostas diferentes.

“Os ritmos de Cabo Verde já têm a sua identidade. Já tive muito tempo na estrada a fazer música e vejo a oportunidade de fazer algo inédito, que não vi em ninguém”, sublinhou, acrescentando que as composições resultam também de experiências, estudos e pesquisas que realizou para desenvolver uma linguagem musical própria.

O álbum integra diferentes abordagens ao batuco, incluindo o batuco lento e experiências com outros instrumentos, além de elementos de morna, samba e coladeira.

Na faixa “Txabada Da-Afro”, o artista transforma a coladeira através de uma abordagem inspirada no amapiano.

Com oito temas inéditos, o trabalho foi lançado nas plataformas digitais no dia 30 de Setembro, com as faixas  “É Mi ke Djon”, “Abo é kenha”, “Oi, Tabanka”, “Xintidu dentu bo”, “Ka dam ku stangu”, “Txabada Da-Afro”, “Corri Bu traz” e “Undi Amor”.

Natural da cidade da Praia, mas residente nos Estados Unidos da América, Adi D Son é músico, compositor, cantor e violonista.

Conforme contou, o seu percurso musical começou na igreja, onde tocava e cantava, antes de passar a acompanhar outros artistas e a actuar em diferentes espaços.

Depois de um amigo ter deixado um violão para guardar, disse que decidiu aprender a tocar sozinho e a procurar livros de acordes para aprender a fazer as primeiras notas musicais do violão.

“Por aí adiante conheci outros amigos que tocavam e comecei a aprender com eles também músicas, ganhei gosto musical e comecei a fazer as minhas primeiras composições”, completou, realçando que depois de algum tempo sentiu a necessidade de levar a carreira como artista mais a sério.

Ao longo do seu percurso, criou também um espaço de música ao vivo no Paiol, na Cidade da Praia, onde convidava outros artistas e actuava como músico.

Embora o projecto tenha ganho dimensão, disse que acabou por encerrar durante a pandemia da covid-19. In “Inforpress” – Cabo Verde


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

França - Petição lançada para repor aulas de português nas escolas primárias da cidade de Marselha

A associação Passerelles Lusophones lançou uma petição para pedir o regresso das aulas de português às escolas primárias de Marselha e das localidades vizinhas. A iniciativa já ultrapassou as 80 assinaturas e tem como primeiro objetivo chegar às 300


“No ano letivo 2026/2027, as escolas primárias de Marselha e das localidades vizinhas deixaram de contar com esta oferta de ensino de português. Perante esta situação, a Passerelles Lusophones decidiu mobilizar-se para defender o regresso destas aulas a partir do próximo ano letivo. A associação considera essencial que as crianças portuguesas e lusodescendentes da região possam continuar a aprender português desde o ensino primário e manter uma ligação à língua e à cultura portuguesas”, explica a associação em nota enviada ao Bom Dia.

“É importante que as crianças portuguesas e lusodescendentes da região possam continuar a aprender português. Estamos a falar de Marselha, a segunda maior cidade de França, e de uma região onde vivem muitas famílias ligadas a Portugal”, lê-se ainda. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Hong Kong - Desmitificação da presença de uma civilização europeia superior na Região Administrativa Especial: a violência da colonização e a segregação social imposta pelos britânicos

Hong Kong e Macau são, respetivamente, desde 1997 e 1999, duas Regiões Administrativas Especiais (RAE) da República Popular da China (RPC).


Em 1997, Hong Kong tornou-se na Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK), deixando de estar sob a alçada britânica e passando para a jurisdição chinesa, no seguimento de um acordo estabelecido com os britânicos que estabelece as regulamentações do novo território, assim como os direitos e deveres dos seus residentes, numa Lei Básica. Seria, igualmente, este processo que serviria de exemplo para o acordo que a República Popular da China e Portugal estabeleceriam, o qual permitiria a criação, em 1999, da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).

Compreender as razões que subjazem à atual existência da RAEHK implica, contudo, compreender o porquê da presença britânica em território chinês.

Hong Kong fica a leste do estuário do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, no Sul da China. O território é um dos mais densamente povoados do mundo, com uma população de quase 7,5 milhões de habitantes vivendo numa área de 1104 km2: possui, deste modo, uma densidade de 6300 pessoas por Km2 (World Population Review, 2019).

A 1 de julho de 1997, Hong Kong deixou de estar sob a jurisdição britânica e passou para a jurisdição chinesa, tornando-se numa Região Administrativa Especial (RAEHK) da República Popular da China (RPC). No ato oficial de transferência de soberania, o Chefe do Executivo do novo Governo de Hong Kong, Tung Chee Hwa, formulou publicamente a política de Um País, Dois Sistemas, defendida em 1978, por Deng Xiaoping, na 13.ª sessão do 11° Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC). Em 1999, esta formulação seria estendida à então nascente RAEM: garantia-se, deste modo, a convivência, no território chinês, de dois modos de produção distintos.

Expansão do comércio do ópio: uma necessidade do modo de produção capitalista do Império britânico

Recua ao século XIX a presença colonial britânica neste território, quando, na sequência das duas guerras do ópio em que saiu vencedor, o Império britânico procurou enfraquecer militar e economicamente a China, forçando-a a abrir-se às potências estrangeiras e a tornar-se dependente do comércio do ópio.

Ora, ainda que a história do comércio e do consumo do ópio, na China, remonte à Dinastia Tang (618-907) – quando mercadores árabes o introduzem no território -, será na dinastia Qing (1644-1911) que os habitantes das zonas costeiras (nomeadamente de Fujian e de Guangdong) vão aperfeiçoando a forma de o consumir, fazendo com que, gradualmente, o seu consumo se estenda a todo o território chinês e se venha a tornar, a partir de 1813, numa fonte de receitas fundamental para a Coroa britânica.

O desenvolvimento dos Country Trade – empresários privados anglo-saxões estabelecidos na Índia -, no início do século XIX, permitiria o alargamento da comunicação da rede comercial da Companhia das Índias quer com os canais de comércio, na Índia, quer com os traficantes britânicos de ópio, estabelecidos em Cantão, os quais viriam a inundar de ópio o território chinês.

Contudo, perante os graves problemas de saúde pública e o profundo desgaste sofrido pela economia do país, a Corte Imperial Qing decide banir o ópio da China: é assim que, em 1839, a China confisca mais de 20.000 caixas de ópio a traficantes, sediados em Cantão, e exige aos mercadores estrangeiros a assinatura de um documento no qual se comprometem a renunciar ao tráfico do ópio.

Na sua maioria britânicos, os traficantes ripostaram e exigiram à China o pagamento do valor total das suas mercadorias, o que o Império asiático recusou fazer. Perante a previsão de perdas de importantes fontes de receita cuja arrecadação o ópio permitia (as quais eram incomparavelmente superiores àquelas que as autoridades portuguesas, instaladas em Macau, alcançavam), a Grã-Bretanha desencadearia uma resposta militar à proibição lançada pela Corte Imperial e despoletaria a primeira Guerra do Ópio: o Império britânico exigia, então, obter um pedido de desculpas da China, uma compensação pelo ópio confiscado e garantias para a segurança dos comerciantes britânicos, cuja materialização deveria passar pela posse de uma ilha. Não é, desta forma, um acaso, o facto de um dos primeiros atos de guerra dos britânicos ser, precisamente, a ocupação de Hong Kong, uma ilha então pouco habitada do sudeste chinês.

As Guerras do Ópio: a consolidação do poder colonial

Depois de três anos de uma guerra em que sai perdedora, a China depara-se com uma situação económica bastante frágil, vendo-se obrigada a assinar, em 1842, o Tratado de Nanking. Este tratado desigual obriga a China i) a entregar a ilha de Hong Kong aos britânicos, ii) ao pagamento de uma compensação de guerra de US$ 21 milhões, iii) à abertura de cinco portos ao comércio exterior (Guangzhou, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Shanghai) e iv) à limitação das tarifas alfandegárias. Convém referir que, não obstante o tratado nada referir em relação ao ópio, o seu comércio era, de fait, autorizado.

A ilha de Hong Kong foi, desde logo, declarada como um porto livre, um estatuto que daria início ao crescimento económico posterior. No topo da administração do novo território colonial encontrava-se o Governador, autoridade máxima escolhida por Londres.

Depois do Tratado de Nanking, os britânicos continuaram a pressionar a China no sentido de esta legalizar o ópio e recusavam cessar a sua importação. É, assim, lançada uma segunda guerra, desta vez conjuntamente pelo Reino Unido e pela França, em 1856, finda a qual, em 1860, a China, perdedora, assina o Tratado de Pequim, imposto pelas duas nações europeias vencedoras. Legaliza-se, a partir de então, o comércio do ópio e os chineses veem-se obrigados a abrir novos portos ao comércio com o estrangeiro e a entregar um novo território aos britânicos: a ilha de Kowloon.

Em 1880, o tráfico do ópio representava 39% das importações chinesas, estimando-se, em 1905, que 10% dos homens adultos chineses fossem opiómanos. Em Hong Kong, em 1918, 46,5% das receitas governamentais advinham do comércio de ópio, num momento em que uma crescente população chinesa, no território, se tornava, também ela, dependente daquele narcótico. Vale a pena lembrar que seria, apenas, depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que o Império britânico tornaria ilegal a venda e o consumo do ópio, em Hong Kong.

Em 1898, os Novos Territórios seriam cedidos, por aluguer, à Grã-Bretanha, por um período de 99 anos, juntando-se aos territórios coloniais de Hong Kong e de Kowloon.

Leis de cidadania segregacionistas e uma cidade insalubre

Logo no início da colonização de Hong Kong, os britânicos promulgaram uma legislação que, na prática, criava uma lei para europeus e outra para chineses. Foram, assim, aprovadas leis para garantir que nenhum chinês morasse nas áreas mais desejáveis ​​de Hong Kong, as quais os britânicos pretendiam preservar como exclusivas. Num território onde a grande maioria da população falava, sobretudo, cantonês, o inglês constituía, no entanto, a língua oficial, ainda que incompreendida pela grande maioria da população. O chinês, aliás, só se tornaria língua oficial, conjuntamente com o inglês, num estádio avançado do colonialismo, em 1974.

Relatórios oficiais do final do século XIX apresentam-nos uma cidade sem condições sanitárias, sem saneamento básico, com infraestruturas precárias e onde as famílias se concentravam em espaços diminutos.

Em 1860 e 1861, um cirurgião colonial descreveria o horror das condições sanitárias em que viviam os chineses, em Hong Kong, assim como as prisões sobrelotadas da colónia: Hong Kong tornara-se num território de consumo e de comércio de ópio, de salas de jogo (o jogo seria legalizado em 1867) e de traficantes.

Cidade insalubre (o que daria, aliás, origem a uma epidemia de peste bubónica, em 1894, originando um contexto em que os excrementos humanos se tornariam fonte de comércio), Hong Kong era, de facto, dominada por um apartheid que permitia a separação dos bairros dos brancos europeus dos bairros da restante população asiática (em 1904, um ato legislativo proibia os chineses de possuir terra ou de residir no Peak) e onde chineses sofriam castigos físicos (como o açoitamento) – permitidos pela lei. Paralelamente, assistimos à conformação de instituições que permitem a consolidação do capital financeiro e que tornariam Hong Kong, no início do século XX, num dos centros financeiros mundiais.

Em 1964, em plena Guerra do Vietname, a China protesta contra a presença de navios de guerra estadunidenses, no porto de Hong Kong. Numa nota de 15 de maio de 1967, a China denuncia “o complot do governo britânico que colabora com o imperialismo americano contra a China” e que “continua a oferecer Hong Kong aos EUA como uma base para a sua agressão contra o Vietname” (apud Fischer, 1968, p. 317).

Três anos depois, em maio de 1967, sucedem-se várias lutas operárias, enquadradas pelo Hong Kong Federation of Trade Unions (união de sindicatos próxima do Partido Comunista Chinês (PCCh), que se posicionava contra o domínio colonial), fortemente reprimidas pelo governo colonial e que deixou um legado de 51 mortos. Sucedem-se, neste contexto, incidentes na fronteira, protestos e um ultimato de Beijing. Um relatório do PCCh, desse ano, afirmava o seguinte: “O imperialismo britânico chegou à China através de navios piratas, provocou a criminosa guerra do ópio, massacrou numerosos chineses e ocupou o território chinês de Hong Kong. Mais tarde, apropriou-se do território chinês de Kowloon e dos Novos Territórios. Esta é uma enorme dívida de sangue que os britânicos têm para com os chineses” (apud Klein, 1995, p. 241).

Segunda metade do século XX: exploração e recusa de direitos plenos de cidadania à população chinesa local

O desenvolvimento industrial que se verificou em Hong Kong, na segunda metade do século XX, baseou-se numa política de baixos salários e de extensas jornadas de trabalho. Neste contexto, sucedem-se reivindicações laborais assim como uma reivindicação da população asiática de Hong Kong – que nunca seria acolhida pelo poder colonial: a plena cidadania britânica. Com efeito, os habitantes de Hong Kong eram considerados sujeitos da Coroa britânica, contudo não gozavam de todos os direitos, nem da completa cidadania de que gozavam os britânicos metropolitanos.

Em 1948, num momento em que as colónias, no plano mundial, progressivamente, adquiriam a sua autonomia, o governo britânico decide que os membros da Commonwealth, ainda que pudessem permitir uma cidadania própria a cada domínio, guardariam o estatuto comum imperial de sujeitos britânicos.

O colonialismo escondia-se, deste modo, por detrás de um neocolonialismo difuso, mascarado sob o desígnio de cidadão da Commonwealth (CUKC – Citizen of the United Kingdom and Colonies). Esta passa, então, a ser a designação para os habitantes asiáticos, nascidos em Hong Kong.

Não obstante os CUKC gozarem de direitos distintos dos cidadãos de pleno direito britânico, até 1962 ainda podiam entrar e sair do Reino Unido, sem restrição. Esta situação vai, contudo, alterar-se a partir daquela data, quando os CUKC (incluindo os CUKC de Hong Hong) passam a estar sujeitos a restrições de movimento e de estadia.

Em 1981, o Reino Unido vai, de novo, criar novas categorias de cidadania, quando, num revés linguístico que pretendia escamotear, na realidade, a perduração de uma situação colonial, substitui a denominação de territórios coloniais britânicos por territórios dependentes britânicos.

O estatuto de cidadania CUKC desaparece e é substituído por novas categorias: para além da categoria de cidadão britânico (apenas para residentes do Reino Unido e de dependências da Coroa britânica), estabelecia-se o estatuto BDTC (Cidadão Britânico dos Territórios Dependentes) e o estatuto BOC (Cidadão Britânico Ultramarino).

Esta última categoria constituía uma classe de nacionalidade não hereditária para todos aqueles que não poderiam aceder nem ao estatuto de cidadão britânico, nem ao estatuto de BDTC. A lei estabelecia, ainda, que todos os CUKC de Hong Kong e todos aqueles que nascessem no território, depois de 1983, tornar-se-iam BDTC.

Em 1985, o Reino Unido vai criar, uma vez mais, outra categoria de cidadania adicional – BN(O) (Nacional Britânico Ultramarino) – que se aplicava, apenas, a Hong Kong, e à qual poderiam aceder os BDTC. Esta categoria estender-se-ia para além de 1997, contudo, continuava a não permitir aos seus detentores os direitos plenos de cidadania de que gozavam os cidadãos britânicos (não sendo, tampouco, hereditária).

Os BN(O) não possuíam/possuem o direito de viver ou de trabalhar no Reino Unido e não são considerados cidadãos britânicos pela União Europeia. Atualmente, estima-se que 170.000 hongkonguenses possuam BN(O) válidos.

No contexto atual de tentativas de desinformação permanentes eurocentradas e visões distorcidas da realidade chinesa, impulsionadas quer por meios de comunicação do auto-intitulado mundo ocidental quer por uma cosmovisão saudosista (neo)colonial, é fundamental não esquecer a divisão societal impulsionada e amparada legislativamente pelos britânicos, desde o início da ocupação da ilha de Hong Kong até ao retorno desta à República Popular da China.

Escamotear a segregação racial que foi imposta no território constitui um exercício de memória histórica com vista a relembrar que nenhuma forma de colonização europeia, no mundo, foi levada a cabo respeitando as populações locais ou isenta de violência e opressão.

Em suma, colónia britânica de 1842 até 1 de julho de 1997, Hong Kong é, hoje, uma RAE ao abrigo do princípio Um País, Dois Sistemas, mantendo o seu próprio sistema judicial, o seu quadro económico, legislativo e institucional. Ana Saldanha – China in “Hoje Macau”

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Ana Saldanha – Foi Professora Adjunta Convidada na Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Instrutora Sénior na Universidade de Macau (UM). Actualmente é docente na Universidade Normal de Hunan

Este artigo é uma adaptação de dois trabalhos publicados precedentemente:

Regiões Administrativas Especiais da República Popular da China. In Dicionário do Socialismo com Características Chinesas. São Paulo: Expressão Popular/Tricontinental, 2026, pp. 230-235;

Macau e Hong Kong: de colônias europeias a regiões capitalistas dentro da China. Brasil de Fato (Brasil), 6 de junho de 2020.

Referências citadas:

FISCHER, Georges (1968). “Hong Kong”. Revue française de science politique, n. 2, pp. 315-332.

KLEIN, Richard Daniel (1995). “Law and Racism in an Asian Setting: an Analysis of the British Rule of Hong Kong”. Hastings Int’l & Comp. L. Rev, v. 18, pp 223-276.

YIN, Zhongqing (2010). China’s Political System. Beijing: China Intercontinental Press.

 


Macau - Casa de Portugal leva teatro e arqueologia às escolas

A Casa de Portugal em Macau está a organizar o festival “Conta-me histórias”, que leva arqueólogos e uma companhia teatral de Tondela a escolas locais, para despertar o interesse pelo património e pela memória.


Na sexta-feira, a Trigo Limpo Teatro Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) leva ao auditório da Escola Portuguesa de Macau (EPM) a peça “Queres que te conte?”. Ilda Teixeira, que concebeu e interpreta a peça, disse à Lusa que “o espectáculo, basicamente, é um tear, o cenário e uma dobadoira, com lã, e é tudo contado com recurso a novelos de lã”.

Para preparar “Queres que te conte?”, Teixeira foi falar com uma associação que trabalha com linho e com a Universidade Sénior para “ouvir contar histórias, as músicas antigas que os avós lhe cantavam”. A peça, explicou a actriz, “tem tudo a ver com as histórias que se transmitiam dos avós para netos e que iam passando de boca em boca. E todo o espectáculo foi construído com base nessa tradição oral”.

Outras histórias

“Queres que te conte?” é um dos dois espectáculos do festival abertos ao público em geral. O outro é “O Bosque”, que a Trigo Limpo irá apresentar na Universidade de Macau, no domingo.

“Além de serem os nossos espectáculos mais portáteis, trabalham ambos sobre o que é a memória e a passagem da memória”, disse Ilda Teixeira, encenadora de “O Bosque”, interpretada por Pedro Sousa, Ricardo Augusto e Sandra Santos. A peça é “sobre as memórias antigas de uma cidade, fala sobre as árvores que vão ficando, os edifícios, as moedas que se vão encontrando”, explicou Pedro Sousa à Lusa.

O objectivo, disse o actor, é “deixar sementes para os mais novos e os mais velhos conversarem entre eles”. “Nós damos a matéria-prima, mas também há trabalho que tem de ser feito pelos pais e pelos professores”, acrescentou.

O festival arrancou na segunda-feira e decorre até 23 Outubro, com o Trigo Limpo a levar os dois espectáculos e momentos de formação em representação e música à EPM e à Escola Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.

O Trigo Limpo ACERT, que está a comemorar 50 anos de vida, já apresentou espectáculos em países como Angola, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Luxemburgo, Bélgica, Grécia e Alemanha, e irá também à Guiné-Bissau, de 24 de Novembro a 01 de Dezembro.

Ontem, hoje e amanhã

Além do teatro, o festival inclui sessões de promoção de arqueologia para crianças, contadas em escolas por Natalina Guerreiro e José Luís Monteiro, ambos funcionários do Património Cultural de Portugal.

Natalina Guerreiro, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, vai contar histórias de tesouros perdidos no mar devido a dois naufrágios que aconteceram em Portugal. “Tentamos mostrar que, para arqueologia, o tesouro não é só ouro, porque às vezes, um fragmento de cerâmica pode nos dar muito mais informação sobre de onde ela veio”, explicou Guerreiro.

Já José Luís Monteiro quer apresentar “uma perspectiva da arqueologia não tradicional”, graças às “tecnologias que revolucionaram completamente” este campo de conhecimento. Há situações “em que já nem é necessário escavar, porque temos tecnologia que nos consegue identificar o que está no solo”, incluindo drones, fotografia área e modelos a três dimensões a partir de fotografia de objectos, disse.

Mas mais do que encorajar futuros arqueólogos, o objectivo é “tentar motivar e incentivar os miúdos para as questões do património, seja ele arqueológico ou qualquer património cultural”, sublinhou Monteiro. In “Hoje Macau” – Macau com “Lusa”