Convenhamos: vinda de uma jornalista, afastada embora da
cobertura noticiosa política, será uma atitude censurável. Admito e faço o mea
culpa. Contudo, não logrando ver em tudo isso mais do que encenações, (para não
dizer ficções) e não conseguindo vislumbrar um grãozinho de motivo que possa
ter levado a classe política são-tomense a embarcar numa monumental farsa a
conta-gotas, vi-me obrigada a recorrer à prudente e auto – defensiva
recomendação da minha prima. Aqueles que tiverem paciência suficiente para ler
estas linhas, perguntarão: ‘’E por que razão decidiu voltar a ligar agora a
ficha?’’
Respondo já, já e sem hesitações: a Conferência
Internacional sobre os 150 anos da Abolição da Escravatura em São Tomé e
Príncipe, a decorrer entre hoje e amanhã, aqui, em São Tomé. De mérito
indiscutível, pensada com antecedência pela Direcção-Geral da Cultura na pessoa
do seu chefe, Emir Boa Morte, esta iniciativa coloca os decisores culturais do
país, ao mais alto nível, no tabuleiro do bizarro e do insólito.
A abolição, em São Tomé e Príncipe, de uma das mais
abomináveis invenções da mente humana e da história da Humanidade, vai culminar
num diálogo académico entre dois historiadores são-tomenses (Emir Boa Morte e
Natália Umbelina) e vários estrangeiros. Ninguém consegue explicar (e julgo que
tal explicação deveria ser extensiva a toda a nação), por que razão,
historiadores são-tomenses reputados e competentes como Carlos Agostinho das
Neves, Maria Nazaré Ceita ou Lúcio Pinto, estão ausentes do painel de conferencistas.
É estarrecedor que a Direção-Geral da Cultura, sabendo
que qualquer narrativa histórica é uma interpretação, tenha, com valentia e
destemor, optado, não por maximizar o leque de interpretações nacionais, mas
por as diminuir ao mínimo. Não são segredo para ninguém as discórdias,
desavenças, ressentimentos, “clubites” e uma espécie de rancor de estimação que
grassa no seio da comunidade de historiadores residentes, com queixas mútuas de
exclusão esvoaçando de tempos a tempos quando acontece acontecer algum evento.
E, dada a envergadura deste evento em particular, o seu profundo significado e
o destino das conclusões que daí poderão, eventualmente, emergir, torna-se
difícil compreender que a máxima decisora cultural do país, a intrépida
ministra Isabel Viegas de Abreu, não se tenha apercebido, ao longo de todo o
processo preparatório, da afronta aos são-tomenses que esta conferência acaba
por ser, salvaguardado o máximo respeito pela competência e pelas qualificações
dos conferencistas estrangeiros, cujos olhares e contributos são e serão sempre
necessários e benvindos. (Atrevi-me, sem que tal me tivesse sido solicitado, a
propor convites a historiadores angolanos e nigerianos, países africanos na
génese da nossa construção societária. Suspeito que a proposta terá sido
tratada como irrelevante bizantinice.)
O pluridisciplinar investigador angolano, Mário Pinto de
Andrade, defendeu tenazmente, ao longo do seu incansável percurso, a
imprescindibilidade de uma História africana contada por africanos. Na mesma
linha, o icónico historiador burkinabé, Joseph Ki Zerbo, cujo contributo foi
decisivo para a coleção da UNESCO sobre a história de África, dedica a sua obra
‘’Histoire de l’Afrique noire, d’hier à demain/ História da África
negra, de hoje a amanhã’’, a ‘’Todos aqueles que acreditam que os africanos são
os que estão melhor posicionados para contar a sua própria história.’’
A comissão organizadora da Conferência Internacional
sobre os 150 anos de Abolição da Escravatura pecou deliberadamente,
acintosamente, quando decidiu não congregar todas as valências nacionais. Não
pensou (não quis pensar) que uma seleção nacional deve incluir os melhores.
Todos.
A lógica de exclusão que emana da
representação nacional nesta conferência constitui um exemplo a não ser seguido
jamais, um muito nefasto serviço prestado à nação são-tomense. E dito isto,
espero que o evento venha a ser um êxito, dentro dos limites que comissão
organizadora entendeu impor. Conceição Lima – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”
______________
Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima), de São Tomé e
Príncipe, nasceu em 8 de dezembro de 1961. Jornalista, poeta e cronista, é
membro-fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses,
UNEAS. Fez os estudos primários e secundários em São Tomé, onde reside e
trabalha como jornalista da TVS, Televisão São-tomense. Foi durante longos anos
jornalista e produtora dos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres. É
licenciada (com distinção) em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros
pelo King's College of London e possui o grau de Mestre em Estudos Africanos,
com especialização em Governos e Políticas na África sub-saariana, pela School
of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres.
Pela Editorial Caminho, de Lisboa (Portugal), publicou os
livros: "O útero da casa" (2004), "A
dolorosa raiz do Micondó" (1ª ed., 2006; 2ª ed., 2008) e "O
país de Akendenguê" (2011).
Em São Tomé e Príncipe, sua terra, publicou pela
editora Lexonics (com patrocínio do Banco Equador), em 2012, os
livros: "O útero da casa"; "A dolorosa raiz
do Micondó" e "O país de Akendenguê". O seu
último livro "Quando florirem salambás no tecto do Pico",
foi publicado em 2015, numa edição da Autora.
No Brasil tem publicado o livro "A dolorosa
raiz do Micondó", pela Geração Editorial (São Paulo, 2012). Em
2015, venceu o PNBE, Programa Nacional de Bibliotecas Escolares do
Brasil, selecionada em primeiro lugar entre mais de 400 títulos
concorrentes. O livro "A dolorosa raiz do Micondó" teve uma
tiragem de 35.500 exemplares pelo Ministério da Educação (Brasil).
Tem livros traduzidos para o alemão, espanhol e italiano:
os seus 4 livros foram traduzidos para o alemão, em edição bilíngue "Útero
da casa" e "A dolorosa raiz do Micondó" (Delta,
2010); "O país de Akendenguê" e "Quando
florirem salambás no Tecto do pico" (Delta, 2021); para o
espanhol, o livro "A dolorosa raiz do Micondó", publicado na
Espanha (Baile del Sol, 2011) e na Venezuela (El Perro y la Rana, 2013); e
para o italiano "A dolorosa raiz do Micondó" (Kolibris
edizioni, 2014). ** Ver detalhes abaixo em: Obra (livros)
traduzida em outras línguas.
É o nome mais traduzido da literatura são-tomense de
todos os tempos, foi traduzido para o alemão, árabe, espanhol, inglês,
francês, italiano, checo, servo-croata, turco e galego. Tem seus
poemas publicados em jornais, revistas e antologias em diversos países.
Em 2021, o "World Poetry Movement - WPM" designou 58 coordenadores nacionais, com
representados de diversas regiões: América (13), África (17), Europa (18) e
Ásia (9). A poeta Conceição Lima foi designada
Coordenadora do Movimento Poético Mundial para São Tomé e Príncipe. Os
trabalhos do WPM podem ser acompanhados na página e grupo do facebook.
Em setembro de 2021, Conceição Lima vence o importante
prêmio ex-aequo, com poema "Afroinsularidade",
do primeiro livro da poeta. O prêmio foi concedido dentro do Concurso
de Tradução de Poemas 2021, organizado pela prestigiada revista
literária Word Without Borders, em parceria com a Academia
Americana de Poetas, nos EUA. In “Templo Cultural Delfos”