Empresários e associações que integram
a delegação do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM)
tencionam agarrar novas oportunidades de negócio e de cooperação com Portugal e
com Espanha, no âmbito da visita à Península Ibérica. A comitiva integra mais
de 120 empresários e mais de 20 empresas da Grande Baía e de outros locais da
China Continental.
Numa nota ontem divulgada pelo Gabinete de Comunicação
Social, o Governo da RAEM sublinha que a delegação empresarial integra
representantes de “várias empresas-chave do Interior da China”, para além de
empresários de Macau e Hengqin, numa missão conjunta para expandir os mercados
internacionais, aproveitando melhor o papel de Macau enquanto “interlocutor com
precisão” entre a China e os países de línguas portuguesa e espanhola.
Humberto Carlos Rodrigues, gerente da F. Rodrigues, que
conta com mais de 100 anos de existência, é um dos empresários macaenses que
integram a delegação. “É uma visita especial, no âmbito da ida do Chefe do
Executivo a Portugal, com uma delegação numerosa. Portanto, do meu ponto de
vista é uma visita bastante importante, porque há possibilidade de fazer novos
contactos com outras empresas e assegurar o papel de Macau como plataforma”,
afirmou, em declarações ao Jornal Tribuna de Macau.
“Vamos tentar, com esta ida a Portugal, ver se
conseguimos mais oportunidades de negócio, não só a minha empresa, como as
restantes”, acrescentou, dizendo que “qualquer oportunidade de negócio é
importante para ambos os lados, quer para os empresários de Macau, como para os
empresários portugueses”. Nesse sentido, frisou, “temos de aproveitar o máximo
possível”.
O empresário, que trabalha sobretudo no ramo da
importação de produtos alimentares e vinho de alta qualidade vindos de
Portugal, explicou que o negócio tem vindo a decorrer de boa forma, apontando,
contudo, que se tem verificado uma quebra na procura de vinhos. Em
contrapartida, nos produtos alimentares observa-se até um crescimento.
Questionado sobre o modo como olha para o papel de Macau
como plataforma, Humberto Carlos Rodrigues foi peremptório: “O Fórum de Macau,
desde a sua existência, tem feito muito pouco pelos empresários em Macau”.
“Quando precisamos de colocar determinados produtos na
China, como é o caso das nossas conservas, há entraves. Há mais de 10 anos que
não conseguimos exportar sardinhas de Macau para a China, já ando nesta luta há
mais de uma década”, vincou. A este jornal, lembrou que já falou com Chefes do
Executivo, com Secretários, com o secretário-geral do Fórum de Macau: “Até
agora nada feito, ainda não conseguimos resolver essa situação”.
Segundo clarificou, importar os produtos directamente de
Portugal para a China é um processo que decorre sem obstáculos, contudo,
“passando por Macau há esse problema”, reiterou, acrescentando que se prende
com o certificado de salubridade. Problema esse que, na sua opinião, “podia ser
resolvido facilmente”. Segundo disse, esta é uma questão que tem afectado a
sua, mas também outras empresas locais.
“Acho que o Fórum de Macau podia ajudar, se não para que
serve? No que respeita aos empresários, não vejo nada, não tem ajudado nada”,
lamentou Humberto Carlos Rodrigues. “Para ser sincero, acho que o Fórum está
mais preocupado com os números. E, tudo bem, é natural, mas acho que também se
podia preocupar um bocadinho mais com os empresários locais e com as
dificuldades que têm, porque há muitos entraves que não se justificam”,
defendeu.
Jorge Valente, presidente da Associação Sino-Lusófona da
Indústria e Promoção de Intercâmbio Cultural (Macau), começou por dizer
igualmente que “esta é uma viagem muito importante, porque é a primeira viagem
do Chefe do Executivo ao exterior e, indo a Portugal, vemos que quer manter o
laço e a ligação com Portugal”. E “são várias as expectativas” que tem, desde
logo no que respeita a acordos de cooperação.
Sobre o papel de Macau como plataforma, Jorge Valente
observou que conta já com mais de duas décadas, “mas parece que ainda temos
muito a fazer”. Apesar disso, observou que “desde a covid-19, a plataforma
começou a ter mais movimento, mais pessoas a investirem nela, mais pessoas a
trabalharem nela”. “Na China Continental, embora soubessem da plataforma com os
países de língua portuguesa, a verdade é que não se interessavam muito e a
pandemia fez com que os compatriotas chineses tivessem mesmo de vir a Macau e
procurar como sair e ir para os países lusófonos”, explicou, vincando que foi
essa a experiência que teve no âmbito da associação que dirige.
Jorge Valente descreveu que “empresas chinesas que vieram
a Macau e procuraram parcerias, foram levadas depois ao Brasil ou Angola,
chegaram lá e conseguiram começar a trabalhar em projectos com equipas de Macau
ou ter locais de Macau como consultores ou que trabalhem nessas empresas”.
Já no que respeita a dificuldades encontradas na
cooperação com Portugal e outros países lusófonos, o empresário afirmou que,
com Portugal, não tem sentido quaisquer entraves. “A relação entre Macau e
Portugal tem sido sempre bastante boa, claro que podemos dizer que Portugal
podia fazer mais ou nós podíamos fazer mais… há sempre melhorias a fazer, mas a
ligação Macau-Portugal sempre foi boa e fácil”, prosseguiu.
O mesmo não acontece com outros pontos do mundo lusófono.
“Em relação a outros países de língua portuguesa, ainda há muito por explorar.
Há certos países que não estão tão preparados para ter Macau como porta ou
janela de saída dos chineses, nem os chineses se lembram de passar por Macau
para chegar até eles”, afirmou. Jorge Valente notou que são nove países,
espalhados por três continentes: “Não podemos dizer que todos os países
lusófonos têm a mesma relação que Portugal tem com Macau e realmente seria muito
bom se a tivessem”.
Apontando ser útil que a delegação integre empresários da
Grande Baía, incluindo de Hengqin, e de outras partes do Interior da China,
Jorge Valente defendeu que “o mais fácil é os países usarem Macau para entrarem
em Hengqin”. Na sua visão, a Ilha da Montanha é ainda uma questão complicada
para as pessoas em Portugal e Espanha: “É diferente, é uma zona económica tão
especial que não vão entender muito bem, nem saber como melhor tirar proveito
dela. É nestas situações que as equipas locais têm a sua mais-valia”.
Convidar grandes marcas para visita a Macau e Hengqin
Também Eduardo Ambrósio, presidente da Associação
Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos, segue para a Península
Ibérica com a delegação do IPIM. Ao JTM, defendeu que “Macau, limitado pela sua
área e população, podia antes concentrar os esforços e recursos somente nas
relações económicas e comerciais com os Países de Língua Portuguesa”.
Na sua perspectiva, com a administração de Hengqin
juntamente com o Governo da Província de Guangdong e a construção do complexo
do Centro de Negócios Económicos e Comerciais entre a China e os Países da
Língua Portuguesa/Espanhola, “já há espaços e recursos humanos para se expandir
as relações comerciais tanto com a Espanha, mas também com os países da América
Latina”.
De qualquer forma, Eduardo Ambrósio mostrou-se confiante
com o papel que os empresários que integram a delegação irão desempenhar no que
respeita à promoção de informação sobre Hengqin. “Estou confiante de que os
empresários de Macau, de Hengqin e da Província de Guangdong vão divulgar as
favoráveis políticas de Hengqin na promoção de parcerias, comércios bilaterais
e investimos para os empresários de Portugal e Espanha”, afirmou.
“O Governo da RAEM deve, nesta visita, organizar sessões
sobre o recente desenvolvimento de Hengqin e convidar as grandes marcas de
Portugal e Espanha a fazer uma viagem a Macau e a Hengqin para, em conjunto,
explorar indústrias e projectos viáveis que resultem em parcerias de mútuos
benefícios”, acrescentou Eduardo Ambrósio.
Por sua vez, o director-geral da Associação de
Transmissão ao Vivo de Macau, José Chan Rodrigues, disse acreditar que “Macau é
uma plataforma muito importante entre os países de língua portuguesa e a
comunidade chinesa no seu todo”. “Temos uma história e uma ligação muito ricas
com Portugal há 500 anos, e a razão pela qual Macau é importante é também de
natureza política, pois esta é uma das principais missões que nos foi confiada
pelo Governo Central da China, é realmente algo que temos de fazer bem”.
Lembrou depois as palavras do Presidente Xi Jinping,
afirmando que “não devemos limitar-nos a estabelecer ligações com os países
lusófonos, mas devemos também estabelecer ligações com os países de língua
espanhola e, no fundo, com todos os países que não falam inglês”. Para Chan
Rodrigues, “Macau tem muito a fazer no futuro”, afirmou, vincando que irá
aproveitar para agarrar oportunidades em Espanha.
“Esperamos sinceramente poder avançar a um ritmo mais
acelerado e que, muito em breve, possamos ter algo a apresentar ao público em
termos dos resultados concretos dos trabalhos realizados”, acrescentou.
Acordo com a FUNIBER e exposição no CCCM
Por outro lado, Jorge Valente revelou a este jornal que a
Associação Sino-Lusófona da Indústria e Promoção de Intercâmbio Cultural
(Macau) vai assinar um acordo de cooperação com Fundação Universitária
Ibero-Americana (FUNIBER) relacionada com educação e com o emprego dos
estudantes. “É um bom primeiro passo. A Fundação está baseada em Espanha, mas
está representada em vários países, nomeadamente têm universidades em Angola e
na América Latina”, explicou.
A FUNIBER é uma instituição internacional, criada em 1997
na Espanha, que actua como intermediária entre alunos e universidades
estrangeiras. O protocolo a assinar, que incluirá todo grupo, vai permitir que
a associação comece “a contratar os recém-licenciados dos cursos que têm da
Universidade de Angola”, acrescentou, indicando que um membro da associação
está a lançar projectos em Angola e precisa de trabalhadores locais.
Jorge Valente apontou que a “a associação trabalha na
plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, portanto, tudo o que
é nesta área é do nosso interesse, e tudo o que fortalece essa plataforma é do
nosso interesse”. “Os países de língua espanhola são agora uma extensão desta
plataforma, nós queremos também expandir os nossos horizontes para os países de
língua latina”, vincou.
Em Portugal, está pelo menos prevista a assinatura de um
acordo na área do sector alimentar entre uma empresa portuguesa e outra de
Macau.
Além disso, o também presidente da direcção da Associação
de Amizade Cultural Sino Luso Macau indicou que a associação irá inaugurar uma
exposição intitulada “Um Vislumbre da Cultura Chinesa”, no Centro Cultural e
Científico de Macau, em Lisboa. A mostra ficará patente de 19 de Abril a 1 de
Maio.
Com organização do Instituto Cultural, a exposição
“assinala dois anos da iniciativa conjunta entre o Diário de Notícias e o Macao
Daily News, dedicada ao fortalecimento dos intercâmbios culturais entre
Portugal e a China”.
Super Bock entra na China através do Douyin
José Chan Rodrigues, por seu turno, disse estar “muito
entusiasmado” com a visita a Portugal e Espanha. “No ano passado, fomos a
Portugal com o apoio do IPIM e da Direcção dos Serviços de Economia e de
Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) e contactámos com o primeiro evento de
vendas por transmissão em directo realizado em Portugal, que na verdade, foi
bastante bem-sucedido”, afirmou. Segundo indicou, a associação fê-lo em
parceria com a Quinta do Gradil, tendo conseguido cerca de seis mil
transacções, com valor de vendas de cerca de 1,1 milhões de renminbis.
“Desta vez, uma vez que se trata da primeira visita do
Chefe do Executivo a Portugal e da primeira vez que a RAEM realiza uma visita
oficial a Espanha, estamos a abrir novos mercados e, na verdade, esperamos
aproveitar muito mais oportunidades desta forma”, continuou José Chan
Rodrigues.
A associação que dirige foi fundada em 2020, sendo que,
dois anos depois criou o Centro de Serviços de Transmissão ao Vivo de Macau,
com o apoio da DSEDT. Esse espaço “presta uma variedade de serviços ao público
e a quem tem um interesse genuíno no sector do comércio electrónico e da
transmissão ao vivo”. Os serviços incluem vendas por transmissão ao vivo,
logística transfronteiriça, promoção e exposições online, formação de talentos,
expansão global da marca e utilização de agentes de IA, entre outros.
Chan Rodrigues explicou que a sua associação tem duas
equipas, uma das quais viajou há já alguns dias para Portugal e outra que vai
estar em Portugal e Espanha. A primeira realizou uma transmissão ao vivo de
vendas, no Porto. “A ideia é destacar a cerveja Super Bock, colaborando com a
Douyin”, adiantou ao Jornal Tribuna de Macau.
“Esperamos apresentar muitos mais produtos e marcas
portuguesas ao mercado chinês. Além da cultura e da gastronomia, penso que
apresentar diferentes tipos de marcas é também uma forma muito boa de dar a
conhecer Portugal e de criar um laço mais forte entre a China Continental e
Portugal”, sublinhou.
José Chan Rodrigues vai, por sua vez, dedicar-se a
“conhecer mais marcas e empresas novas em Portugal, bem como explorar o mercado
espanhol”. Tem também agendada uma apresentação sobre transmissões ao vivo,
comércio electrónico e aplicações de Inteligência Artificial, tanto em Portugal
como em Espanha. “A nossa associação gostaria muito de criar mais cooperação
com Portugal e com os países lusófonos, através de meios digitais, como novos
media e transmissões ao vivo”, concluiu. Catarina Pereira – Macau in “Jornal
Tribuna de Macau”