Macau - Instada a liderar cooperação de Finanças Verdes entre os países lusófonos e a Grande Baía
Macau deve investir na cooperação
internacional de finanças verdes através da sua conectividade com o mercado dos
países de língua portuguesa e da Grande Baía, defendeu Ip Sio Kai, presidente
da Associação de Bancos de Macau, no Fórum Verde desta edição do Fórum e
Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF).
“[A RAEM] deve reforçar a cooperação em matéria de
finanças verdes entre as instituições financeiras da Grande Baía e dos países
de língua portuguesa, bem como estudar, criar um quadro de articulação entre as
normas de finanças verdes da Grande Baía e da União Europeia”, observou.
A proposta de Ip Sio Kai foi apresentada na primeira
sessão do Fórum Verde, que decorreu ontem e que foi ao mesmo tempo o 2.º Fórum
de Desenvolvimento do Mercado Global de Crédito de Carbono, onde foram
abordados temas como investimentos ESG (Environmental, Social and Governance),
obrigações verdes e finanças de carbono digitais.
Na opinião do também deputado, Macau tem vantagens como a
plataforma sino-portuguesa e as “relações de amizade de longa data” com os
países de língua portuguesa, pelo que é oportuno desenvolver-se, no aspecto
económico, numa ligação com os mercados financeiros entre os países lusófonos e
o interior da China.
Para avançar com a cooperação de finanças verdes a nível
internacional, Ip Sio Kai salientou que será necessário criar, primeiro, um
mecanismo de reconhecimento mútuo de normas ecológicas entre a Grande Baía e a
União Europeia, que servirá para clarificar e unificar os limites normativos,
métodos de medição e indicadores de divulgação de informação em domínios como
obrigações verdes, crédito verde e certificação ESG. A iniciativa pode, assim,
aumentar a compatibilidade e a interconectividade das partes em termos de
finanças verdes, apontou o responsável.
Ip Sio Kai sugeriu ainda que as instituições financeiras
locais lancem produtos financeiros verdes inovadores que se adaptem aos padrões
do mercado internacional, o que “ajudará as empresas de qualidade da China
continental a aceder aos mercados de língua portuguesa e espanhola através de
Macau”.
Com estes produtos financeiros verdes, Ip Sio Kai espera
também atrair capital de qualidade dos países de língua portuguesa a
participarem na construção de projectos de indústrias verdes na Grande Baía,
concretizando, assim, o fluxo bidirecional de capital.
As “Finanças Verdes”, conceito que existe há algum tempo
e que tem vindo a ser promovido graças ao Acordo de Paris, são um conjunto de
práticas que visam mobilizar e também aumentar o fluxo de recursos financeiros
dos sectores público, privado e sem fins lucrativos, para as prioridades de
desenvolvimento sustentável. O objectivo da iniciativa é alcançar a melhor
gestão dos riscos ambientais e sociais, ao mesmo tempo que encontrar
oportunidades tanto para uma taxa de rendibilidade razoável como benefícios ambientais.
Projectos sobre o carbono
A sessão ontem do Fórum Verde contou ainda com a
participação de vários especialistas de áreas como neutralidade de carbono,
políticas da sustentabilidade, bem como tecnologias verdes e serviços de
carbono.
Jiang Kejun, professor da Neutralidade do Carbono e das
Alterações Climáticas da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong
(Cantão), abordou na ocasião a necessidade de acelerar a redução de emissões no
contexto do aumento rápido da temperatura global. O académico recorreu como
exemplo ao interior da China, onde há uma utilização cada vez maior de energia
renovável, bem como a “quase zero-emissão” dos meios de transporte.
Por sua vez, Wu Linqiang, representante do Centro de
Estudo do Serviço Geológico da China, dedicou o seu discurso à indústria de
captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês), que são
tecnologias que separam, recolhem e transportam o dióxido de carbono
proveniente de emissões industriais para locais adequados para armazenamento ou
reutilização.
O orador sublinhou que os projectos da CCS estão em
crescimento a nível mundial e, até Novembro do ano passado, a capacidade de
armazenamento cumulativa global atingiu 383 milhões de toneladas. Na China
Continental há 120 projectos da CCS em funcionamento, cuja maioria pertence ao
sector da electricidade, indústria química do carvão e petroquímica.
“Um sistema tecnológico preliminar da CCS foi
estabelecido na China, conferindo-lhe um certo nível de influência no panorama
internacional”, afirmou Wu Linqiang, acrescentando que os projectos da CCS na
China apresentam vantagens do baixo-custo em comparação com o exterior.
O especialista prevê uma expansão do mercado da CCS
devido à “enorme procura” de redução de emissões. Segundo estima Wu Linqiang,
até 2050, as reduções globais de emissões provenientes da CCS serão 120 vezes
superiores ao nível actual. Citou ainda as previsões da consultora McKinsey a
apontar que, até 2050, a indústria global da CCS irá impulsionar um
investimento directo anual de 2,78 mil milhões de dólares americanos, o que
mostra oportunidades de os projectos da CCS se tornarem em “activos de infraestrutura
robustos”.
“Transição verde” das empresas
A Bolsa Internacional de Emissões de Carbono de Macau
(MEX), enquanto primeira bolsa de emissões de carbono da cidade, deixou na
mesma sessão do Fórum Verde o compromisso de trabalhar para a transição verde
das empresas e a modernização da indústria com baixas emissões de carbono no
território.
Lu Minfang, sócio do Fundo Yunfeng e administrador da
MEX, adiantou o plano de orientar mais capital de qualidade para o sector verde
e de baixo carbono, com vista a “apoiar a concretização de projectos que
combinem benefícios ambientais e valor social”. O empresário notou que com o
aumento contínuo da atenção global em relação ao ESG e às finanças verdes, os
créditos de carbono tornaram-se uma “direcção importante” na alocação global de
activos. “O objectivo do estabelecimento da MEX é, a partir de Macau, construir
uma plataforma de transacção de créditos de carbono aberta, transparente,
eficiente e baseada na confiança mútua, promovendo o reconhecimento mútuo de
padrões, a interligação de activos e a interconectividade dos mercados entre
regiões”, lembrou Lu Minfang.
Neste caso, a MEX aguarda por uma maior cooperação com
instituições financeiras, promotores de projectos de carbono e fornecedores de
tecnologia, em termos de melhorar as regras de negociação e introduzir normas
internacionais e aplicar tecnologias digitais, com ambição de “criar uma janela
conveniente e regulamentada para a participação de parceiros globais no mercado
de carbono da Ásia-Pacífico”, concluiu. Catarina Chan – Macau in “Ponto
Final”