Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 23 de junho de 2026

Macau – 18.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa

Entre os cerca de 60 artistas e cozinheiros lusófonos da 18.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, Portugal vai estar representado pela voz de Marta Miranda e pelos pratos do chef Luís Américo. Segundo Ji Xianzheng, secretário-geral do Fórum de Macau, serão expostas 158 peças de artesanato lusófono nas três cidades participantes


A música Marta Miranda e o chef Luís Américo vão representar Portugal na 18.ª edição da Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, organizada pelo Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, segundo anunciou Danilo Afonso Henriques, secretário-geral adjunto do Fórum de Macau, em conferência de imprensa. Co-realizado na RAEM, em Pequim e na cidade de Xining da Província de Qinghai, o evento terá cerca de 60 artistas e cozinheiros lusófonos, segundo Ji Xianzheng, secretário-geral do Fórum Macau.

Para além de Marta Miranda, a vocalista portuguesa do conjunto “OqueStrada”, os artistas de música e dança convidados incluem Az Khinera de Moçambique, a banda Vungo Téla, de São Tomé e Príncipe, os “New Arquiris” de Timor-Leste, a cabo-verdiana Elly Paris, “Patche-Di-Rima” e “Anderking Skididi” da Guiné-Bissau e o rapper “Fristong Boy” da Guiné Equatorial. O Brasil será representado pelos músicos José de Holanda, Maurício Tizumba e Sérgio Pererê.

As actuações em Macau terão lugar no Largo do Senado, no dia 30 deste mês e a 1 de Julho. Os espectáculos em Qinghai acontecerão a 4 e 5 de Julho, enquanto Pequim acolherá os concertos nos dias 9 e 10 do próximo mês.

Na gastronomia, as chefs Marina de Senna Fernandes, descendente de uma família macaense, e a timorense Carlota Freitas também participarão nas mostras culinárias, juntamente com o português Luís Américo.

Por outro lado, Angola não terá artistas ou cozinheiros a representar o país africano, lamentou Ji Xianzheng. A “decisão difícil” teve por base as orientações de prevenção sanitária dos Serviços de Saúde, justificou o secretário-geral, devido ao surto de Ébola na República Democrática do Congo, país que faz fronteira com Angola. “Colocámos a segurança, a saúde e a prevenção de riscos em primeiro lugar”, explicou.

Além dos espectáculos e da gastronomia, será inaugurada, no dia 29 deste mês, uma exposição de artesanato com 158 peças, na Galeria do Instituto para os Assuntos Municipais. O público poderá visitar a mostra da curadora Chan Chang entre as 10h00 e as 20h00 do dia 30 de Junho a 5 de Julho.

Os trabalhos artísticos em exposição incluirão diferentes formas de artesanato tradicional dos países lusófonos, como as máscaras “fang” da Guiné Equatorial, as tradicionais peças de madeira de Angola, o instrumento “balafon” da Guiné-Bissau ou as esculturas em pedra vulcânica de Cabo Verde, entre outras.

Face à Semana Cultural de 2025, a principal diferença da edição deste ano prende-se com o facto de se realizar na Província de Qinghai, explicou Ji Xianzheng à margem da conferência de imprensa. “Vamos entrar numa região muito especial da China, situada no oeste”, disse. “É um lugar pouco frequentado por estrangeiros, muito menos pelos de países de língua portuguesa”, continuou. “Será também um dos eventos mais internacionalizados nos últimos anos nesta região”, destacou.

Durante a apresentação, Ji explicou que o tema deste ano “sublinha a importância do intercâmbio e a aprendizagem mútua entre diferentes culturas e civilizações”. “Os preparativos envolvem dez países e onze partes, muitas entidades e instituições, com um longo ciclo de planeamento e uma grande dificuldade de coordenação”, observou.

Ji Xianzheng justificou a escolha de Qinghai pelo facto de, no ano passado, ter sido assinado um acordo de cooperação entre o governo da província chinesa e a RAEM. Além disso, as autoridades de Qinghai manifestaram “muito interesse e apoio” e estabeleceram contacto “mais cedo”. Pedro Milheirão – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Angola - Aguarda entre Novembro e Dezembro reconhecimento mundial do Semba pela UNESCO

A decisão da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) sobre a candidatura do Semba à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade será conhecida entre o final de Novembro e o início de Dezembro, durante a reunião do Comité Intergovernamental da organização, na República Popular da China. Caso seja aprovada, a manifestação cultural juntar-se-á a bens nacionais já reconhecidos pela organização, como a cidade histórica de Mbanza Kongo e o Sona

O anúncio foi feito pelo ministro da Cultura, Filipe Zau, durante a cerimónia de apresentação pública da candidatura do Semba a Património Cultural Imaterial da Humanidade junto da UNESCO, realizada na Sexta-feira, 19, no Complexo Administrativo Clássicos de Talatona, em Luanda.

Durante a sua intervenção, o titular da pasta da Cultura afirmou que a candidatura do Semba resulta de um trabalho conjunto entre o Executivo e a sociedade civil, com o objectivo de alcançar o reconhecimento internacional daquele que considera ser um dos maiores símbolos da identidade cultural angolana. “O Semba é uma manifestação cultural profundamente enraizada na identidade nacional e cada vez mais apreciada dentro e fora do país”, destacou.

Para uma melhor valorização do estilo, o ministro aproveitou a ocasião para apelar à união dos artistas e desencorajar rivalidades que possam comprometer o crescimento colectivo do género musical. Segundo Filipe Zau, a valorização do Semba depende da capacidade dos seus intérpretes e promotores de trabalharem em conjunto para fortalecer a sua presença a nível nacional e internacional. “O céu fica mais bonito quando vemos várias estrelas a brilhar e não apenas uma ou duas isoladamente”, afirmou. Musseque Segunda – Angola in “O País”


Internacional - Universidade de Coimbra coordena projeto europeu para acelerar a eliminação de gases fluorados poluentes

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) lidera um novo projeto europeu que pretende apoiar a eliminação progressiva dos gases fluorados, considerados entre os poluentes mais agressivos para o clima.

Denominado "GWPathFinder", o projeto é coordenado por Luís Pedro Viegas, investigador do Centro de Química de Coimbra do Departamento de Química da FCTUC, e conta com um financiamento de 2,9 milhões de euros do programa europeu Horizon Europe.

Os gases fluorados são amplamente utilizados em sistemas de refrigeração, ar condicionado e bombas de calor. Apesar da sua relevância para estes setores, apresentam um elevado potencial de aquecimento global, tornando-se um dos principais desafios ambientais associados à transição energética e à descarbonização.

Para responder a este desafio, o consórcio internacional liderado pela FCTUC irá desenvolver uma plataforma digital inovadora, interativa e de acesso livre, destinada a apoiar decisores políticos, indústria e comunidade científica na avaliação e seleção de alternativas mais sustentáveis.

A ferramenta funcionará como uma verdadeira “bússola” ecológica global, recorrendo a modelos científicos avançados para prever o impacto ambiental de novos gases fluorados e simular diferentes cenários de descarbonização em tempo real. O objetivo é disponibilizar informação robusta, comparável e baseada em evidência científica, permitindo acelerar a adoção de soluções de menor impacto climático.

“Este projeto pretende fornecer os dados e as metodologias necessárias para apoiar decisões informadas, contribuindo para uma transição sustentável dos setores que dependem de tecnologias de refrigeração e climatização”, refere Luís Pedro Viegas.

O "GWPathFinder" está alinhado com os objetivos da Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, acordo internacional que estabelece a redução gradual da utilização de hidrofluorocarbonetos (HFC), um dos principais grupos de gases fluorados responsáveis pelo aquecimento global.

Mais informações sobre o projeto podem ser consultadas aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde lidera projeto para inovar no tratamento do glioblastoma

Projeto para desenvolver nanomedicinas ativadas por ultrassons recebeu financiamento de 150 mil euros do Programa UT Austin Portugal


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto recebeu financiamento do Programa UT Austin Portugal para desenvolver um projeto orientado para o «Tratamento do glioblastoma através de nanoterapias baseadas em estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio para libertação local de bevacizumab ativada por ultrassons». Este projeto foi um dos selecionados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito de uma iniciativa de colaboração internacional com a University of Texas at Austin (UT Austin).

Com um financiamento total de 150 mil euros, dos quais 50 mil euros são assegurados pela FCT e 100 mil euros pela UT Austin, o projeto resulta de uma colaboração entre o grupo de investigação Nanomedicines & Translational Drug Delivery do i3S e o Department of Biomedical Engineering da universidade norte-americana, sendo coordenado em Portugal por Bruno Sarmento e, nos EUA, pelo investigador e professor Huiliang Wang.

“O projeto pretende desenvolver uma nova geração de nanomedicinas inteligentes para o tratamento do glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais agressivos e difíceis de tratar”, explica Ana Catarina Pacheco, investigadora do i3S.

A estratégia combina nanopartículas inovadoras com ultrassons direcionados para permitir a libertação localizada e controlada de bevacizumab. Este medicamento reduz a formação de vasos sanguíneos que alimentam o tumor e promovem o seu crescimento.

A equipa vai recorrer a estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio (Hydrogen-bonded Organic Frameworks, HOF), materiais supramoleculares altamente biocompatíveis capazes de encapsular proteínas terapêuticas e responder a estímulos externos. Quando expostas a ultrassons direcionados, estas nanopartículas sofrem alterações estruturais que desencadeiam a libertação do fármaco apenas na região do tumor.

“Esta abordagem permite separar a distribuição sistémica do medicamento da sua ativação terapêutica”, acrescenta a investigadora do i3S Cláudia Martins.

“O bevacizumab circula encapsulado e inativo no organismo, sendo libertado apenas no local pretendido através da aplicação de ultrassons. Desta forma, espera-se reduzir significativamente os efeitos adversos associados à terapêutica convencional e aumentar a eficácia do tratamento”, conclui.

Combater o glioblastoma com “maior precisão terapêutica”

O glioblastoma caracteriza-se por uma elevada vascularização e por uma grande resistência aos tratamentos atualmente disponíveis. Embora o bevacizumab seja utilizado na prática clínica para controlar a progressão da doença, a sua administração sistémica pode provocar várias complicações, incluindo hipertensão, formação de coágulos sanguíneos e hemorragias. Além disso, o cérebro possui uma barreira protetora que limita a quantidade de medicamento que chega ao tumor.

Para ultrapassar estes desafios, os investigadores vão desenvolver e otimizar nanopartículas capazes de transportar o fármaco de forma segura até ao cérebro e libertá-lo apenas depois de ativado por ultrassons. O projeto inclui estudos em modelos celulares 3D e em modelos animais de glioblastoma, permitindo avaliar a eficácia terapêutica, a segurança sistémica e o impacto da estratégia na progressão tumoral e na sobrevivência.

Segundo Bruno Sarmento, este financiamento representa também uma oportunidade para consolidar uma linha de investigação que o grupo tem vindo a desenvolver nos últimos anos na área da nanomedicina para o tratamento de tumores cerebrais.

“Este projeto permitirá dar continuidade ao trabalho que temos realizado no desenvolvimento de sistemas avançados de libertação de fármacos para o glioblastoma, explorando agora uma abordagem inovadora que combina nanotecnologia e ultrassons para alcançar uma maior precisão terapêutica”, explica o líder do grupo de investigação.

O Concurso de Projetos Exploratórios 2025 dos programas UT Austin Portugal financiou um total de oito projetos, de 41 candidaturas, correspondendo a um investimento global de quase 400 mil euros, integralmente financiado pela FCT. Universidade do Porto - Portugal


Borges, sob o olhar de Emir Rodríguez Monegal

A ausência de uma tradução em português desta biografia do escritor argentino é uma prova da indigência cultural brasileira                                

                                                                                    

                                                               I

Uma prova da assustadora indigência cultural que assola o País é o fato de a publicação de Borges: una biografía literaria (Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1987), do crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), nunca ter despertado o interesse de uma editora brasileira. Um processo de emburrecimento coletivo que, nos últimos tempos, só se tem acelerado com a invasão dos meios digitais, cujo exemplo dos mais representativos é o fato de a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), que sempre publicou obras importantes, ter sido extinta como editora de livros impressos em 2021.

Trata-se de uma obra que procura contar a história de vida do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), constituindo uma experiência das mais inauditas, pois foge a todos os padrões que se conhece. Foi lançada originalmente em inglês (Jorge Luis Borges: a literary biography), pela editora norte-americana E. P. Dutton, de Boston, em 1978, em tradução do jornalista uruguaio Homero Alsina Thevenet (1922-2005), realizada a pedido do autor, e ganhou em 1983 uma tradução em francês. Depois de lançada pela editora mexicana, a obra ainda recebeu segunda edição em 1990. E, hoje, constitui uma raridade que só se encontra à venda no site da empresa de tecnologia e comércio eletrônico Amazon, a um preço estratosférico.    

De fato, ao contrário das grandes biografias que geralmente abordam a vida e a obra de um escritor já falecido, este livro de Rodríguez Monegal foi escrito ao tempo em que o biografado estava vivo. Curiosamente, o biógrafo, mais jovem 22 anos, faleceu em 14 de novembro de 1985, antes do biografado, que morreu a 14 de junho de 1986. Por isso, em algumas partes do livro, fala-se de Borges como se ele estivesse vivo. Além de recuperar entrevistas que o escritor deu ao longo da vida, inclusive uma que concedeu ao grande jornalista brasileiro Leo Gilson Ribeiro (1920-2007), publicada pela revista Veja, em 26/7/1970, o biógrafo conversou pessoalmente com a mãe de Borges, em 1971. Sem contar que foi amigo pessoal de Borges, que, inclusive, citou-o em seu conto La otra muerte, que faz parte do livro El Aleph (1949).

 

                                                              II

A obra começa por mostrar os primeiros anos de Borges, que em criança era chamado de Georgie pelos familiares e amigos, sem deixar de fazer um retrospecto a respeito de seus antecedentes, entre os quais um bisavô materno, o coronel Manuel Isidoro Suárez (1799-1846), lembrado como “o herói da batalha de Junín” por ter comandado tropas de cavalaria peruanas e colombianas em suas guerras de independência, passando por seus genitores, o advogado e professor Jorge Guillermo Borges (1874-1938) e a tradutora Leonor Rita Acevedo Suárez (1876-1975), que ainda viviam com os pais quando Georgie nasceu. A preocupação dos pais de Georgie teria sido principalmente com os olhos do rebento, já que a cegueira era endêmica na família. De fato, essa debilidade acabaria por perseguir Borges, principalmente a partir dos 40 anos de idade.   

O pai de Borges se aposentara cedo devido a uma cegueira quase total e, em 1914, decide passar uma temporada com a família na Europa, instalando-se em Genebra, depois de fugazes passagens por Londres e Paris. Na Suíça, o futuro escritor descobre a literatura francesa, especialmente Victor Hugo (1802-1885), Émile Zola (1840-1902), Voltaire (1694-1778), Gustave Flaubert (1821-1880), Guy de Maupassant (1850-1893) e Charles Baudelaire (1821-1867), e a inglesa, além de aprender alemão e ler filósofos famosos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por meio de uma tradução em alemão, descobre também o poeta norte-americano Walt Whitman (1809-1892), que o haveria de impressionar sobremaneira, a ponto de passar a imitá-lo, como confessa em sua autobiografia.

Cinco anos depois, a família se radica em Mallorca, na Espanha, transferindo-se depois para Sevilha, onde ele começa sua vida literária, que haveria de se intensificar ao mudar-se para Madrid, onde conheceria muitos poetas, especialmente Rafael Cansinos Asséns (1883-1964), que seria seu mestre, e Guillermo de Torre (1900-1971), que haveria de se casar com sua irmã, a artista plástica e crítica de arte Norah Borges (1901-1998). Em 1921, retorna a Buenos Aires e passa a participar de um grupo de poetas sob a liderança do escritor Macedonio Fernández (1874-1952), companheiro de estudos de seu pai, Jorge Guillermo, que também tivera aspirações literárias.  A essa época, o pai começa a escrever uma novela, que não agradaria muito ao filho, que já passara a ter projetos literários próprios. Viviam numa casa localizada na rua Bulnes, não muito distante do bairro de Palermo, onde o futuro escritor passou a desenvolver o hábito de caminhar pelas ruas de Buenos Aires, só ou na companhia de amigos.

 

                                                        III

Em 1923, publica, em edição de autor, Fervor de Buenos Aires, reunindo poemas que escrevera nos dois anos anteriores, com capa de Norah Borges. A partir daí, sua carreira literária deslancha, com a publicação de outros livros, como Luna de enfrente (1925), poemas, e Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928), três livros de ensaios que excluirá de suas Obras completas (1952). Por essa época, abandona o estilo neobarroco de sua juventude para aproximar-se do classicismo que haverá de marcar a sua obra na maturidade. Mas ainda encontra ânimo para escrever uma biografia de Evaristo Carriego (1883-1912), poeta popular argentino que costumava visitar aos domingos a casa de seus pais quando ele era criança.

Nos anos 30, ainda produz outro livro de ensaios, Discusión (1932), e conhece o escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que seria seu discípulo e amigo fraterno. Já em 1933 a revista Megáfono dedica um número a sua obra, com artigos de escritores latino-americanos e espanhóis. Já consagrado como poeta e ensaísta, publica resenhas de livros, traduções e relatos supostamente autobiográficos. De 1935, é o seu livro Historia universal de la infamia, coletânea de narrativas que já haviam sido publicadas na revista Crítica, de Buenos Aires.

 

                                                     IV

Como observa Rodríguez Monegal, na véspera do Natal de 1938, já morto o pai em consequência de uma hemiplegia em função de um acidente vascular cerebral (AVC), o poeta, prejudicado por sua visão já falha, bate a cabeça numa janela, sofrendo um ferimento que infeccionou e produziu uma septicemia que quase lhe custaria a vida. A partir daí, segundo o biógrafo, começa a escrever narrativas francamente fantásticas. E passa a depender da ajuda de sua mãe, tal como fizera seu pai, já que se vai ficando gradualmente cego.

Em 1941, publica El jardín de los senderos que se bifurcan, narrativas fantásticas, e Antologia poetica argentina, com Bioy Casares e Silvina Ocampo (1903-1993), além de fazer traduções, nos quais se inclui a que fez de Las palmeras salvajes, do norte-americano William Faulkner. Em 1942, publica Seis problemas para don Isidro Parodi, contos policiais, com Bioy Casares, sob o pseudônimo H. Bustos Domecq, No ano seguinte, sai Poemas, que reúne sua obra poética até essa data.

Um episódio curioso da vida de Borges que Rodríguez Monegal recolhe é aquele em que, ao tempo do governo populista e autoritário de Juan Domingo Perón (1895-1974), o poeta é destituído de seu cargo na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, sendo “promovido” a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais, o que o levaria a pedir demissão do emprego público. Para sobreviver, passaria a fazer conferências e ditar cursos, sendo por isso vigiado por agentes da polícia política. Dá à luz outros livros em colaboração com Bioy Casares e, em 1947, publica, por sua própria conta, Nueva refutación del tiempo, ensaio fundamental em que argumenta que o tempo é uma ilusão e que seria recolhido em Otras inquisiciones (1952).

Com a queda de Perón em 1955, o novo governo nomeia Borges diretor da Biblioteca Nacional, atividade que divide com a função de professor de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, a partir de 1956. Escreve outros livros em colaboração com Bioy Casares, mas logo terá de abandonar a escritura, em razão de sua cegueira crescente.

Com isso, lentamente começará a aprender a compor textos de memória e a ditá-los para “familiares, amigos, colaboradores, entrevistadores, críticos e até inimigos”. Mesmo quase cego, começa a ficar conhecido em todo o mundo ocidental e é convidado a dar um curso na Universidade de Texas, em Austin, em 1962. No ano seguinte, aparecem nos Estados Unidos e Inglaterra dois livros seus em tradução: Ficciones e Labyrinths. Ainda em 1962, profere conferências em Inglaterra, Escócia, França, Espanha e Suíça. E continua a publicar livros, alguns em colaboração com Bioy Casares e María Esther Vázquez (1937-2017), que fora sua namorada no início dos anos 60 e que também publicou uma biografia do poeta dez anos depois de sua morte (Borges: esplendor y derrota).

 

                                                     V

A 21 de setembro de 1967, aos 68 anos, casa-se com a escritora Elsa Astete Millán (1910-2001), então viúva, que conhecera em sua juventude, quando ela tinha 17 anos, e que deixara de ver por mais de trinta anos. Aliás, apesar de solteirão, Borges, embora tímido, segundo o biógrafo, teria acumulado várias aventuras amorosas. Rodríguez Monegal ressalta que, na maior parte de sua obra, o sexo não aparece, ou melhor, “assim como o sexo está tecido na textura de seus sonhos, também está na textura das citações com que emascara sua voz privada”.   

Naquele ano viaja com sua mulher para os Estados Unidos, onde dá várias conferências. Em 1968, o casal vai até Israel, onde o poeta dita conferências em Tel Aviv. No retorno, em 1969, é homenageado por escritores argentinos pela passagem de seus 70 anos. Em 1970, publica El informe de Brodie, contos. Naquele ano, em outubro, divorcia-se de Elsa. Visita o Brasil para, em São Paulo, ganhar um prêmio oferecido pelo governo do Estado. Em enquete feita pelo jornal italiano Corriere della Sera obtém mais votos como candidato ao Prêmio Nobel do que o premiado escritor russo Alexander Solzhenitsyn (1928-2008). Aliás, a Academia Sueca nunca lhe distinguiria com o prêmio, o que só haveria de contribuir para o desprestígio da instituição.

Faria novas viagens aos Estados Unidos, Europa e Israel, onde receberia o Prêmio Jerusalém em 1971. Em 1975, publicaria três obras fundamentais: El libro de arena, contos fantásticos; La rosa profunda, poemas; e Prologos, que reúne textos de apresentação que escrevera para livros de outros autores. Nesse ano, morre aos 99 anos sua mãe, depois de uma agonia de dois anos.  Até então, ela “passara a ser os seus olhos”. Por essa época, o poeta teria conhecido a escritora Maria Kodama (1937-2023), que passaria a trabalhar como sua secretária. Com ela, viaja para visitar a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A partir daí, as viagens, as homenagens, os prêmios, os simpósios, os doutorados honoris causa e novos livros haveriam de se multiplicar.

A 27 de março de 1983, o jornal La Nación, de Buenos Aires, publica o relato “Agosto 25, 1983” em que profetiza o seu suicídio nessa data. Mas não cumpre o prometido, tendo respondido mais tarde a um jornalista que não o fizera “por covardia”. Nesse mesmo ano, visita a Espanha em companhia da secretária Maria Kodama e do biógrafo Emir Rodríguez Monegal para dar conferência na Universidad Internacional Menéndez Pelayo e receber a Gran Cruz de Alfonso El Sabio. Por fim, em 26 de abril de 1986, casa-se com Maria Kodama no Paraguai e o casal instala-se em Genebra, mas, pouco depois, em 14 de junho, o escritor morre de câncer hepático.  Maria Kodama seria a única titular de seus bens após a sua morte.

           

                                                              VI


Nascido na cidade de Melo, Emir Rodríguez Monegal, um dos mais influentes críticos literários do século XX, atuou a partir de 1969 como professor de literatura contemporânea latino-americana na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Em Montevidéu, foi professor de literatura no Instituto Artigas e no Instituto Alfredo Vázquez Acevedo. Recebeu bolsa de estudos na Universidade de Cambridge por parte do governo britânico. Além da biografia de Borges, publicou obras sobre figuras literárias fundamentais da literatura hispano-americana como os chilenos Andrés Bello (1781-1865) e Pablo Neruda (1904-1973) e os uruguaios Horacio Quiroga (1878-1937) e José Enrique Rodó (1871-1917).

Foi também jornalista profissional, tendo sido editor da seção literária da revista Marcha, de Montevidéu, de 1944 a 1959. Entre 1966 e 1968, foi fundador e editor de Mundo Nuevo, revista literária em espanhol publicada em Paris, que chamou a atenção internacional para os escritores que compuseram o que ficou conhecido como o "boom do romance latino-americano": Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos Fuentes (1928-2012), Mario Vargas Llosa (1936-2025), José Donoso (1924-1996) e outros. Também ajudou a lançar as carreiras de escritores como Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993) e Manuel Puig (1932-1990), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Borges, una biografía literaria, de Emir Rodríguez Monegal. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 477 páginas, R$ 2.398,00 (Amazon), 1987. 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br






domingo, 21 de junho de 2026

Angola - Projecto cultural transforma Baía de Luanda em “palco terapêutico”

No espaço deslizante da dança, as diferenças de idade e de nacionalidade desaparecem, dando lugar a uma identidade comum baseada na alegria e no estilo partilhado. Entre ritmos e compassos uníssonos, o projecto transforma a Baía de Luanda no epicentro privilegiado de preservação cultural, saúde mental e inclusão social por via da dança, com a Kizomba, o Semba e Afro Tribal a serem os estilos mais praticados

Nas tardes de Domingo, a Baía de Luanda é transformada no verdadeiro palco de encontro e reencontro cultural, de interacção social e de exercícios terapêuticos. Centenas de cidadãos com idades compreendidas entre os 17 e os 60 anos, vindos de diferentes pontos da cidade capital, acorrem ao local todos os fins-de-semana com um único objectivo: descontrair-se, e a dança acaba sendo a melhor ferramenta.

Enquanto uns procuram entreter-se com actividades promovidas ao redor da Baía, outros, atraídos pela música, fazem-se ao espaço para aprender a dançar e livrar-se do estresse acumulado durante a semana.

No espaço da dança, as diferenças de idade e de nacionalidade desaparecem, dando lugar a uma identidade comum baseada na alegria e no estilo partilhado. É o caso da dona Teresa Gonçalves, cidadã de 36 anos, integrante activa do Movimento “Kizomba na Rua” há quase quatro anos. A transformação emocional é o ponto central de seu relato.

Teresa recordou que, antes de optar pela dança, teve um período de profundo isolamento e tristezas que precisava esconder, mas, através da prática constante da dança, conseguiu superar essas barreiras emocionais, sentindo-se hoje uma pessoa plenamente à vontade e renovada. Assim como ela, outras pessoas também encontraram na dança a ‘receita mágica’ para aliviar o estresse do dia-a-dia. É o caso do jovem Ladys, um bailarino dedicado há mais de cinco anos ao Movimento “Kizomba na Rua” em Luanda. In “O País” - Angola


América do Norte – Conselheiros das comunidades portuguesas rejeitam proposta salarial para o Ensino do Português

O Conselho Regional da América do Norte (CRAN) manifestou, esta sexta-feira, “profunda indignação e total repúdio” pelas tabelas salariais propostas pelas tutelas do Governo para os profissionais do Ensino Português no Estrangeiro (EPE), nomeadamente para os Estados Unidos e Canadá

Num comunicado enviado à Lusa, os conselheiros das comunidades portuguesas eleitos na América do Norte frisaram que a proposta apresentada, “longe de corrigir as graves injustiças acumuladas, perpetua a desvalorização profissional”.

“Após 17 longos anos de um congelamento inaceitável — tendo a última atualização salarial ocorrido em 2009 —, a montanha pariu um rato. (…) É com particular consternação que constatamos que os coordenadores de Ensino, adjuntos e leitores que exercem funções nos Estados Unidos da América (EUA) e Canadá foram colocados no fim da lista desta nova proposta salarial, sendo-lhes atribuídas atualizações muito inferiores que em nada resolvem a situação de extrema precariedade em que vivem”, afirmam.

A recente proposta, assinalam, “assenta numa gritante inversão da realidade económica”, beneficiando com aumentos muito superiores países na Europa e noutras regiões do mundo onde o custo de vida é substancialmente inferior ao dos EUA e Canadá.

Factos inquestionáveis demonstram a insustentabilidade desta decisão, reforçaram os conselheiros, recordando que os índices internacionais de referência colocam sistematicamente as principais cidades dos Estados Unidos e Canadá onde o EPE opera (como Nova Iorque, Boston, Newark, Toronto, entre outras) no topo do custo de vida mundial, “superando largamente a maioria das capitais europeias em despesas com habitação, saúde e serviços básicos”.

Destacaram igualmente que o custo do cabaz alimentar em solo norte-americano e canadiano sofreu uma inflação galopante nos últimos anos, sendo hoje significativamente mais dispendioso do que na Europa.

Também a rota transatlântica e as ligações internas de avião nos Estados Unidos e Canadá representam custos de transporte incomportáveis, observam.

“Para estes profissionais, manter o vínculo com a pátria ou deslocar-se em funções oficiais tornou-se um luxo inacessível, com tarifas aéreas substancialmente superiores às praticadas nos voos intraeuropeus”, sublinha o CRAN.

“Esta disparidade nas atualizações salariais não só ignora os dados económicos mais elementares, como não dignifica o trabalho destes servidores do Estado. Estes profissionais são o rosto de Portugal na América do Norte, os pilares da promoção da nossa língua e cultura, e a sua desvalorização é um total desrespeito pelas comunidades portuguesas nos Estados Unidos e, muito em particular, por toda a comunidade educativa (docentes, alunos e famílias) que diariamente investe no Ensino Português”, conclui.

A missiva foi endereçada ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, ao ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) e à comunicação social.

Os sindicatos representativos dos professores e o Governo iniciaram, no passado dia 28 de maio, as reuniões do processo negocial relativas à revisão do regime jurídico do EPE, cuja pasta é tutelada pelo MNE.  Após esse primeiro encontro, as propostas apresentadas pelo Governo têm sido contestadas pelos docentes e respetivos sindicatos.  Estão ainda previstos encontros em 29 de junho e 13 de julho.

No passado dia 10 de junho, por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, os profissionais da rede EPE (coordenadores, adjuntos, docentes e leitores) manifestaram, numa carta aberta, “enorme apreensão” face à “nova proposta de revisão do regime jurídico” do ensino, com um “enquadramento remuneratório” que “aprofunda a precariedade existente”.

Também no passado dia 5 de junho foi criada uma petição pública ‘online’, denominada “Pela estabilidade profissional e pela valorização das condições de trabalho dos Coordenadores, Adjuntos, Docentes e Leitores do Ensino de Português no Estrangeiro (EPE)”.

A petição, que contava, ao final da tarde, com 8355 assinaturas, pede, entre outros aspetos, que “seja mantido o atual modelo de vinculação dos profissionais do EPE, rejeitando soluções que diminuam a estabilidade profissional e institucional da rede”. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”