O presidente da Câmara de Comércio de Moçambique (CCM) defendeu ontem em Macau a transferência de indústrias chinesas para o país africano, considerando que este mercado pode assumir um papel estratégico para a China na região
“Moçambique
poderia ser um país na região importante para a China. Primeiro, porque está
bem localizado, segundo, porque penso que podíamos deslocar algumas indústrias
da China hoje para Moçambique”, afirmou Lucas Chacine em declarações aos
jornalistas à margem da abertura da 31.ª Feira Internacional de Macau (MIF).
Os
sectores do vestuário, a indústria automóvel ou de maquinaria são áreas com
potencial, apontou. Moçambique pode servir “como uma plataforma para produzir,
nem que seja alguns componentes”, disse. “É possível produzir em Moçambique,
para consumir em Moçambique, mas também para exportar para o vasto mercado
regional”, continuou.
Chacine
destacou a disponibilidade de mão de obra no país, onde todos os anos entram
cerca de 500 mil jovens no mercado de trabalho. O dirigente considerou que a
cooperação entre os dois países deve evoluir de uma relação não apenas centrada
no consumo para uma maior aposta na produção em território moçambicano.
Questionado sobre se a instabilidade em Moçambique pode afastar a China ou
outros investidores, o presidente da CCM rejeitou a possibilidade.
O
Banco de Moçambique identificou em junho a tensão pós-eleitoral e a
instabilidade militar em Cabo Delgado como algumas das principais
vulnerabilidades que afetaram a estabilidade financeira do país em 2025.
Os
protestos que se seguiram às eleições gerais de outubro de 2024 durante os
cinco meses seguintes provocaram mais de 400 mortos e a destruição de empresas
e património público, afetando a atividade económica em vários setores.
Sobre
esse contexto político, o Relatório de Estabilidade Financeira de 2025 do banco
central moçambicano refere que “os efeitos da tensão pós-eleitoral sobre a
maioria dos setores de atividade influenciaram o desempenho da economia”,
afetando a circulação de pessoas e bens, reduzindo o volume de negócios e
contribuindo para o aumento do desemprego. “Moçambique é um país estável. Temos
alguns focos [de violência] hoje no norte de Moçambique, bem identificados, mas
temos um país em paz. Houve naturalmente aquela bolha pós-eleitoral, mas está
totalmente controlada”, declarou Lucas Chacine.
Sobre
a cooperação com os restantes países de língua portuguesa, representados na
31.ª MIF, o responsável indicou ontem que a CCM propôs recentemente a criação
de uma plataforma conjunta das câmaras de comércio lusófonas para reforçar o
diálogo empresarial e a abordagem comum a mercados como Macau e a China.
A
plataforma, continuou o líder da CCM, deverá permitir aos países lusófonos
aproveitarem as respetivas experiências de desenvolvimento e discutirem formas
de entrada em novos mercados.
Mais
de duas décadas depois, o desígnio identificado em 2003 está agora a ser
alargado aos países de língua espanhola. Sobre esta nova orientação, Chacine
manifestou-se favorável, defendendo uma maior abertura económica e cultural,
desde que exista reciprocidade no acesso aos mercados. “Desde que não haja
países que só servem para importar e os outros para exportar. Penso que se
houver uma abertura em que os nossos países, as nossas empresas tenham também
acesso a esses mercados, é positivo e é muito bem-vindo. Acho que temos de
mudar esse paradigma”.
O
responsável sublinhou ainda que Moçambique tem vindo a adotar medidas para
promover a transformação de matérias-primas antes da exportação. “Hoje a
palavra de ordem é transformar pelo menos uma parte para podermos ver esses
mercados, não apenas como fornecedores de matéria-prima, mas também de produtos
manufaturados”, afirmou. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”






