Nos últimos cinco anos, o Fundo para o
Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia (FDCT) “tem atribuído grande
importância e impulsionado activamente a cooperação entre Macau e os Países de
Língua Portuguesa (PLP) no domínio da ciência e tecnologia”, tendo financiado
21 projectos de investigação científica, envolvendo um montante total de
financiamento de 37,498 milhões de patacas, segundo revelou ao Jornal Tribuna
de Macau. Nove desses projectos estão relacionados com Portugal e 12 com o
Brasil.
No mesmo intervalo temporal, o FDCT recebeu 69 pedidos
envolvendo países lusófonos. Especificamente, 11 pedidos correspondem ao
co-financiamento do FDCT, em conjunto com a Fundação para a Ciência e a
Tecnologia de Portugal (FCT), no âmbito do “Programa de Apoio Financeiro para
Cooperação em Ciência e Tecnologia com o Exterior”.
Abrangida no mesmo programa, a categoria de
co-financiamento entre o FDCT e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo despertou 24 pedidos. Já na categoria de investigação internacional
em colaboração, foram apresentados 34 pedidos de apoio relacionados com países
lusófonos.
Em relação a Portugal, o FDCT concedeu, juntamente com a
FCT, apoios no total de 2,821 milhões de patacas a três projectos de
investigação no domínio do mar, na última meia década.
Questionado sobre a nova ronda de financiamento conjunto
com a FCT, o Fundo presidido por U U Sang salientou que “presta estreita
atenção ao andamento da reestruturação da FCT e irá continuar a comunicar e
negociar activamente com a parte portuguesa, promovendo a celebração de acordos
de cooperação, no sentido de materializar a nova ronda de plano de
co-financiamento”.
Sobre os principais resultados alcançados, indicou que,
no projecto “Plastish”, virado para a detecção e avaliação de risco de
microplásticos na produção pesqueira, a Universidade de São José (USJ) e a
Universidade do Algarve conseguiram revelar a citotoxicidade dos
microplásticos, através de experiências celulares e em animais, tendo
estabelecido com sucesso um modelo de avaliação de risco “in vitro” para “in
vivo”.
Já no projecto “FISHMUC”, a USJ e Universidade Católica
Portuguesa têm estudado as características de bioactividade do muco externo de
peixes. Conseguiram identificar vários princípios activos e confirmar, através
de experiências, as actividades biológicas como efeitos antimicrobianos e
antitumorais, resultados que fornecem um valor significativo para o
desenvolvimento de medicamentos de origem marinha.
Por seu turno, o “SeaSenseX”, microssensor de nova
geração para a mutagénese marinha e a detecção de substâncias cancerígenas,
sobre o qual têm trabalhado a Universidade de Macau (UM), em cooperação com a
NOVA.id.FCT, de Portugal, combina microelectrónica avançada com tecnologia de
biossensores, visando fornecer uma solução de monitorização da qualidade de
água em tempo real e de alta sensibilidade.
Cooperação científica “irá continuar a crescer”
Numa perspectiva geral, o FDCT realça que muitos
projectos financiados se estenderam para instituições portuguesas, brasileiras,
entre outros países, tendo-se envolvido no estabelecimento de laboratórios
conjuntos, promoção da formação de quadros qualificados e articulação
tecnológica.
Na observação do Fundo, a função da RAEM enquanto
plataforma de intercâmbio científico e tecnológico entre a China e os PLP
“reforçou-se gradualmente” nos últimos anos.
Além disso, o programa de co-financiamento relacionado
com o Brasil recebeu 24 pedidos no primeiro ano, 2025. Neste aspecto, destacou
que, à medida que os mecanismos de co-financiamento com os PLP, “promovidos
activamente” pelo Fundo nos últimos anos, amadurecem gradualmente, “prevê-se
que [estes] impulsionem, no futuro, o lançamento de ainda mais projectos de
investigação científica em cooperação com os PLP”.
Tendo em vista o lançamento do programa de
co-financiamento com o Brasil, a criação sucessiva de laboratórios entre
instituições de ensino superior de Macau e de países lusófonos, assim como a
celebração de documentos de cooperação entre instituições de ensino superior da
RAEM e portuguesas, testemunhada pelo Chefe do Executivo, durante a visita a
Portugal em Abril, o FDCT prevê que “a cooperação entre Macau e os PLP na área
da ciência e tecnologia irá continuar a crescer”.
Sobre os frutos de cooperação já obtidos entre a RAEM e
os PLP, conclui que, nos últimos anos, o apoio do Fundo assenta no financeiro e
na criação de plataformas, para ajudar instituições de ensino superior e
empresas locais a estabelecer parcerias com instituições académicas e
industriais portuguesas e de outros países. Além disso, realiza actividades de
intercâmbio viradas para os PLP e com temas relacionados com os países
lusófonos.
O Fundo mencionou resultados em três aspectos: apoiar o
estabelecimento de plataformas de cooperação científica e tecnológica e
impulsionar a transformação e aplicação dos frutos no estrangeiro; promover o
estabelecimento conjunto de laboratórios, que fazem parte da iniciativa “Uma
Faixa, Uma Rota”, juntamente com os países lusófonos; e apoiar instituições de
ensino superior de Macau na realização de conferências sobre optoelectrónica,
ciências da linguagem, ciências marinhas, entre outras áreas de ponta, em
cooperação com Portugal, por forma a aprofundar o intercâmbio e a cooperação.
Relativamente ao “estabelecimento de plataformas de
cooperação”, o Fundo apontou para o apoio concedido à criação, por parte da
Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM), do Laboratório Conjunto
Sino-Português em Optoelectrónica, em cooperação com a Universidade Nova de
Lisboa. Além disso, destacou o apoio dirigido à UM no estabelecimento do
Laboratório Conjunto de Nanomedicina de Precisão (com a Universidade do Porto),
Laboratório Conjunto sobre Envelhecimento Cognitivo (com a Universidade de Coimbra),
Centro de Investigação Oceânica entre a China e os PLP (com a ULisboa e outras
instituições) e um centro conjunto sobre direito e inteligência artificial (com
a Universidade de Coimbra), inaugurado este ano.
Além disso, destacou o apoio para a introdução de um
“Robô de Medicina Tradicional Chinesa com Inteligência Artificial” em Lisboa,
com capacidade de realizar diagnósticos básicos e preparar fórmulas de
fitoterapia, o que contribui para a divulgação dos conceitos da medicina
chinesa.
Em relação a 2026, o FDCT atribuiu um apoio no valor de
712,8 mil patacas à UCTM para a construção de um modelo de avaliação dinâmica
de risco para a importação transfronteiriça de dengue e chikungunya de países
lusófonos para a Grande Baía, integrando dados de múltiplas fontes e
inteligência artificial, bem como a sua aplicação na previsão e alerta precoce,
de acordo com as informações divulgadas pelo Fundo.
Apoiados dois projectos sobre língua portuguesa
O FDCT revelou ainda a atribuição de apoio financeiro a
dois projectos sobre o tema de língua portuguesa, nos últimos cinco anos,
envolvendo quase 2,696 milhões de patacas. Sublinhando adoptar um mecanismo de
apreciação rigorosa, o Fundo esclareceu que cabe à Comissão de Consultadoria de
Projectos apreciar os pedidos, com base em critérios como o valor científico, a
inovação e o potencial de aplicação, podendo ainda organizar uma sessão de
defesa, caso necessário.
Segundo a colecção dos resultados de investigação
científica de 2024 (a mais recente), o Fundo aprovou em 2018 e financiou uma
“plataforma de turismo inteligente para Macau e países lusófonos com
reconhecimento de voz”, desenvolvida pela Universidade Politécnica. No âmbito
deste projecto, foi desenvolvida uma aplicação móvel de turismo inteligente que
integra um sistema de reconhecimento de voz em português.
Para a UM, aprovou em 2019 e apoiou financeiramente um
projecto de “orientação da tradução automática neutral baseada na autoatenção
com conhecimento linguístico prévio”, que contribuiu para melhorar o sistema de
tradução automática online chinês-português. À mesma instituição, o FDCT
aprovou em 2017 e financiou um projecto de “investigação sobre tradução
automática chinês-português baseada em aprendizagem profunda”, no âmbito do
qual foi estabelecido e aberto ao público um sistema de tradução automática chinês-português
online.
Segundo notou, ao tratar de assuntos envolvendo tradução
profissional, conferências e emparelhamento de projectos, o Fundo costuma
convidar tradutores locais ou pessoal de instituições de ensino superior para
dar apoio. Nessa vertente, vincou que encara tanto os quadros
multidisciplinares locais com formação em ciência e tecnologia e proficiência
em língua portuguesa, como os tradutores e os docentes de ensino superior como
“recursos humanos importantes para o desenvolvimento da indústria de ciência e
tecnologia”. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau