Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Uma obra que mostra o verdadeiro Bocage

O historiador Daniel Pires consegue reunir numa pequena biografia os acontecimentos mais importantes da vida do poeta                                                                  

 

                                                             I

Uma biografia sucinta, que abriga os principais aspectos de uma vida breve, porém repleta de acontecimentos inauditos que não impediram o poeta de construir uma obra marcante na história da literatura de língua portuguesa, é o que o leitor vai encontrar em O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda – IN-CM, 2025), do historiador, pesquisador e professor Daniel Pires, autor de outros livros sobre o biografado e coordenador e editor de vários trabalhos de divulgação da produção bocageana.

Escrito em linguagem fluente que não exige maiores atenções do leitor com numerosas notas de rodapé, esta obra destinada a um grande público é mais um esforço para reverter a desgastada imagem de Bocage (1765-1805) como poeta chocarreiro, visto apenas como autor de sonetos eróticos e piadas maliciosas. Esta é uma imagem que se foi construindo através de tempos imemoriais e que permaneceu inalterada até há alguns anos, mas que, agora, enfim, é revertida e cumpre a aspiração de alguns dos contemporâneos do poeta que seria a de elevá-lo à condição de um novo Luís de Camões (1524-1580).

Afinal, como diz Daniel Pires, trata-se de um autor de obra vastíssima, apesar de ter falecido aos 40 anos, que nos legou “composições que, pela sua universalidade, depuração formal e autenticidade são intemporais”. E que, como acrescentou, “cultivou, de forma inovadora e autêntica, a poesia, o drama e a tradução, pondo em causa cânones, aparentemente inamovíveis, contribuindo para a construção de outros mais consentâneos com o dinamismo que caracterizou a sociedade do século XVIII”.

Para o pesquisador, esse Bocage, “livre-pensador insubmisso, heterodoxo”, foi “um arauto do porvir”, ao anunciar algumas das medidas que, mais tarde, a Revolução Liberal de 1820 e o regime republicano implementaram. E que, “aliando o gênio poético à sede de pugnar por direitos humanos inalienáveis, ponderou questões fraturantes que continuam pertinentes na atualidade”.

 

                                                    II

A obra começa mostrando como eram a época e a terra natal do poeta, a cidade de Setúbal, além de fazer um retrospecto da família Barbosa du Bocage, da qual ele descendia, que incluía ascendentes franceses, como o capitão de mar e guerra Gilles Hedois du Bocage (1658-1727), que, em 1711, já integrado às forças armadas lusas, ajudou a defender o Rio de Janeiro de um ataque empreendido pelo comandante francês René Duguay-Trouin (1673-1736). Sua mãe, Mariana Joaquina Xavier Lustoff du Bocage (1725-1775), descendia desse cidadão. Já o seu pai, José Luís Soares de Barbosa (1728-1802), formado em Cânones, em 1749, pela Universidade de Coimbra, ouvidor em Beja, seria acusado (sem provas) de desviar a arrecadação da décima e teve de cumprir pena na cadeia do Limoeiro, entre 1771 e 1777.

A breve biografia avança a partir dos anos escolares de Bocage e a influência da família sobre sua formação, inclusive sobre a sua opção pela poesia desde cedo, já que o pai também compunha poesias. E uma tia-avó, madame Anne-Marie du Bocage (1710-1802), interlocutora de Voltaire (1694-1778) e poetisa de vulto, seria uma figura tutelar sempre lembrada em conversas familiares.

Em seguida, há um retrospecto da carreira de armas de Bocage a partir dos 16 anos de idade, como soldado do Regimento de Infantaria de Setúbal, de 1781 a 1783, bem como sua viagem para o Oriente, a partir de 1786, a bordo da nau Nossa Senhora da Vida, Santo Antônio e Madalena, mais conhecida apenas como Vida, que passou pelo Rio de Janeiro e seguiu para a Ilha de Moçambique, ancorando depois em Goa. Por lá, em 1789, seria promovido a primeiro-tenente do Exército, e mobilizado para Damão, onde desertou sem causa conhecida. Depois, passou por Cantão e chegou a Macau, antiga colônia portuguesa, região administrativa especial da China desde 1999, de onde regressou ao reino.

Em Lisboa, passou a frequentar cafés, botequins, casas de pasto, tabernas e o Passeio Público, mantendo contatos com pessoas que eram mal vistas pelo intendente-geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805), que espalhava seus agentes, os chamados moscas, por todos os lados a pretexto de combater a subversão, especialmente aqueles que se mostravam adeptos das ideias propaladas pela Revolução Francesa de 1789. Seus versos passaram a correr de mão em mão e o levaram a aderir à Academia de Belas Letras com o nome arcádico de Elmano Sadino.

Logo, porém, acusado de aderir à maçonaria e de dispor de papeis “ímpios”, conheceria as agruras do cárcere em 1797 e, depois, em 1802. Antes, em 1799, a convite de dom Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), então ministro do Negócios da Marinha e Ultramar, passou a trabalhar como tradutor na Oficina do Arco do Cego, tendo perdido o único emprego regular que teve na vida, em 1801, quando a editora passou para a jurisdição da Impressão Régia.

 

                                                   III

O estado de saúde de Bocage agravou-se no início de 1805, talvez em razão de sua vida desregrada, que incluiria alimentação irregular, uso imoderado de álcool e de tabaco e até “relações sexuais de risco”, como diz o biógrafo. Até então, já havia publicado o terceiro tomo de suas Rimas. Em seus dias de desespero diante da morte iminente, por iniciativa de um amigo, publicou Improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade, cuja venda de seus exemplares o teria ajudado a enfrentar aqueles dias difíceis. Por essa época, ainda publicou Colecção dos novos improvisos de Bocage, mas o aneurisma nas carótidas, enfermidade letal na época, de que sofria aumentou sua pressão e o levou à morte em 21 de agosto de 1805, pelas 22 horas e quinze minutos, um sábado de muitas chuvas.

Além da biografia, Daniel Pires faz ainda uma análise depurada da extensa e multímoda obra do poeta, que incluía praticamente todos os gêneros poéticos da época, como soneto, ode, glosa, epicédio, canto, cantata, décima, oitava, ditirambo, elogio, elegia, epigrama e outros. Só sonetos seriam cerca de 400, “os quais obreiam, bastas vezes, com os de Camões”. Mas “cerca de um quinto de seus poemas só viu os prelos postumamente”, observa o biógrafo, advertindo, porém, que muitas das composições que lhe teriam sido atribuídas não seriam de sua lavra, ou seja, muitas seriam da autoria de elmanistas, “que imitavam o seu mestre com destreza”, inclusive composições de caráter erótico e até pornográfico, que a tradição erroneamente atribuiu a Bocage.

O biógrafo mostra ainda Bocage como crítico do catolicismo. E lembra que no poema “Pavorosa ilusão da eternidade”, que circulou clandestinamente, ele acusa “o catolicismo de constituir uma caricatura do cristianismo porquanto se transformara numa doutrina punitiva”. E lembra que nesse poema a concepção teológica do poeta é radicalmente diferente, como se constata nestes versos:

 

           Oh Deus, não opressor, não vingativo,

            Não vibrando com a dextra o raio ardente

           Contra o suave instinto que nos deste;

            Não carrancudo, ríspido arrojando

            Sobre os mortais a rígida sentença.

            A punição cruel, que excede o crime. (...)

            Há Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade”.

 

Por fim, o biógrafo faz uma resenha das múltiplas homenagens que até hoje são prestadas ao poeta, como a inauguração de uma estátua em sua homenagem em Setúbal, em 1871, as comemorações em 1905 a propósito do centenário de sua morte e outras como a de 1965, aquando do bicentenário do seu nascimento, bem como a influência do poeta nas artes plásticas, no teatro, no cinema e na música. Em outras palavras: por estes ligeiros apontamentos se vê que o leitor irá encontrar nesta obra, de poucas páginas, um perfil muito bem acabado dessa “personalidade indelével da cultura portuguesa”.

 

                                                            IV

Doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, Daniel Pires (1951) é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar em 1999 o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, além de defender tese de doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra completa de Bocage, publicada pela editora Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007. 

Nascido em Lisboa, é licenciado em Filologia Germânica e já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau, viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

Tem realizado numerosas atividades, como colóquios, conferências, visitas guiadas e exposições, e desenvolvido intensa atividade editorial, tendo editado já dezenas de livros. É editor de Obras completas de Bocage (Lisboa, IN-CM, 2016-2018, 3 volumes, 4 tomos) e autor de Bocage ou o elogio da inquietude (Lisboa, IN-CM, 2019) e Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000).

Organizou e publicou a brochura da Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos cartões postais (sépia) sobre Bocage na prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999), além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015. 

Acaba de publicar Obra de Bartolomeu de Gusmão (Lisboa, IN-CM, 2026), com quinze inéditos desse sacerdote secular nascido em 1685, em Santos, no Brasil, que ficou conhecido como padre voador, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional (balão de ar quente), a “Passarola”, com o qual subiu aos céus em 1709, em Lisboa. Diplomata, poliglota e erudito, é considerado o primeiro cientista do continente americano. Morreu em 1724, em Toledo, na Espanha.

Daniel Pires publicou ainda o Dicionário da imprensa periódica literária portuguesa no século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes.  Colaborou no Dicionário de História de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa e é autor do Dicionário da imprensa de Macau do século XIX, trabalho iniciado em 1990 em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), saíram simultaneamente em Macau e em Cantão, e do Dicionário de imprensa periódica do Antigo Regime em Portugal (Lisboa, Theya Editores, 2024).

É autor de A imagem e o verboFotobiografia de Camilo Pessanha (Instituto Cultural do governo da Região Administrativa Especial de Macau/Instituto Português do Oriente, 2005), além de artigos sobre esse poeta nascido em Coimbra em 1867 e que, a partir de 1894, viveu em Macau, onde morreu em 1926. Escreveu também trabalhos sobre o poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929).  E organizou Camões pequenoObra completa de Francisco Álvares da Nóbrega (2024), que reúne produções desse poeta madeirense nascido em 1773, em Machico, e falecido em 1806, em Lisboa. Adelto Gonçalves - Brasil

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O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de Daniel Pires. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 5,40 euros, 86 páginas, 2023. Site da editora: www.imprensanacional.pt E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt E-mail do autor: danielbrspires@outlook.pt 

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



Portugal - Nasce o De Norte a Sul um novo meio de comunicação luso-galaico

A iniciativa procura oferecer um novo ponto de encontro noticiando assuntos de toda a faixa atlântica peninsular


Ourense, Lisboa, Laracha, Guimarães, Ferrol, Compostela ou Porto, eis alguns dos lugares de residência dos promotores que lançaram esta aventura editorial. Com domicílio fiscal em Portugal e sob a Direção do portuense Luís Loureiro (jornalista com carreira na RTP e professor de jornalismo na Universidade do Minho), o novo projeto promete contar o que acontece na Galiza e Portugal através de notícias gerais, locais, notícias de desportos, ciência e cultura assim como um elenco de opinião que já inclui jornalistas, músicos, escritoras, informáticos, cientistas e artistas galegas, portuguesas e africanas.

O jornal, em língua portuguesa, conta ainda com uma equipa de voluntários entusiasta, um trabalhador e o apoio duma comunidade alargada de pessoas, da Corunha a Lisboa, que já decidiram contribuir economicamente para a iniciativa.

Com vocação de servir à comunidade segundo afirmam no seu sítio web, procura ainda ser parte dum espaço atlântico comum para um maior entendimento dos intercâmbios sociais, culturais e económicos que impactam positivamente a Galiza e Portugal. O novo meio, a nascer (e não por acaso) em 25 de abril, incluirá ainda uma visão mais alargada com o olhar posto nos países de língua portuguesa e o Sul Global.

Mais do que um simples jornal os promotores afirmam que será também um ponto de encontro, um espaço pensado para as pessoas se reverem e provocar novas sinergias. Como exemplo a secção de espaços afins, onde promoverão projetos de interesse social ou a sua loja online, onde além de produtos de produção própria se encontram já outros projetos editoriais, principalmente pequenas editoras selecionadas pela sua qualidade e compromisso com a cultura.

Secções de jogos, resenhas e uma completa agenda cultural e social, assim como a promessa de videocasts de análise das dinâmicas globais e podcasts para breve, completam a oferta deste novo meio que visa ultrapassar fronteiras.

De Norte a Sul, de livre acesso e sob licença Creative Commons, depende essencialmente dos seus assinantes. Pode ser visitado em denorteasul.eu. In “Portal Galego da Língua” - Galiza


Angola - Escritor Ondjaki vence Prémio Ibérico de Literatura Infanto-Juvenil

O escritor angolano Ondjaki cimentou a sua presença no panorama literário internacional ao conquistar a 4.ª edição do Prémio Ibérico de Literatura Infanto-Juvenil Álvaro Magalhães, em Portugal.

A distinção resulta da qualidade e riqueza literária observada pelo corpo do júri na obra “Ondjaki Porque é que os Olhos Não Vêem para Dentro?”, um livro no qual Ondjaki faz um exercício raro de introspecção na literatura infanto-juvenil contemporânea.

O prémio, partilhado com o também escritor angolano Sandro William Junqueira, reforça a relevância da literatura angolana, num concurso que reuniu mais de uma centena de obras provenientes de países como Portugal, Brasil, Moçambique, Zimbabwe e Angola.

Com ilustrações de Constança Duarte, o livro, segundo o júri, traduz com subtileza a marca autoral do escritor, explorando-a, mas como identidade, memória e o invisível. In “O País” - Angola


Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde vai ter primeiro Centro de Excelência em Medicina Genómica do país

O i3S-Health é o único projeto da região Norte - e o único na área da Saúde - distinguido com financiamento do programa europeu Teaming, no valor de 36 milhões de euros


O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) vai criar o primeiro Centro de Excelência em Medicina Genómica de Portugal, na sequência do financiamento atribuído ao projeto i3S-Health pelo programa Horizon Europe Teaming for Excellence, uma das iniciativas mais competitivas da Comissão Europeia. Este é um dos seis projetos portugueses distinguidos neste concurso, sendo o único na Região Norte e o único na área da Saúde.

O financiamento total ascende a 36 milhões de euros – 15 milhões da Comissão Europeia, 15 milhões do Governo português e 6 milhões de investimento privado — e permitirá estabelecer uma infraestrutura europeia de referência em inovação e excelência na investigação em saúde genómica, com impacto duradouro na ciência e na área da saúde sustentável.

O i3S-Health dará origem a um Centro de Medicina Genómica de última geração, integrando sequenciação de DNA de nova geração, biologia computacional, bioinformática orientada por inteligência artificial e genómica funcional de alto débito. O objetivo, explica Claudio Sunkel, diretor do i3S, “é acelerar a descoberta de novas variantes genéticas patogénicas, com impacto nos cuidados de saúde, por meio de diagnósticos mais precisos e personalizados”.

“Esta será a primeira plataforma multidisciplinar em Portugal a ligar investigação genómica avançada à prática clínica, aproximando investigação e diagnóstico de forma estruturada”, acrescenta.

Na vanguarda da medicina genómica

A medicina genómica está a transformar os sistemas de saúde ao permitir abordagens mais precisas e personalizadas. No entanto, Portugal enfrenta ainda desafios relevantes, como capacidade limitada de sequenciação, aplicações clínicas fragmentadas e escassez de recursos humanos altamente especializados.

O i3S-Health pretende responder a estes desafios, modernizando o i3S e posicionando-o como um Centro de Excelência em Medicina Genómica à escala europeia.

O projeto será desenvolvido sob a orientação do European Molecular Biology Laboratory (EMBL), com colaboração estreita com o seu Instituto Europeu de Bioinformática (EMBL-EBI), uma infraestrutura central no ecossistema de dados da Genomics England, no Reino Unido.

Integram também este consórcio parceiros nacionais, como o Ipatimup Diagnósticos e o CGPP-IBMC, reforçando a ligação entre a investigação e o diagnóstico clínico. O projeto prevê ainda uma forte articulação com o sistema de saúde, contando com o apoio de várias Unidades Locais de Saúde (ULS) de referência da região Norte.

Esta colaboração com as ULS integra a estratégia que o i3S tem vindo a desenvolver para tornar a medicina genómica uma realidade em Portugal e “esteve, aliás, na base de um financiamento recente atribuído pela CCDR-N para implementar um Centro de Medicina de Precisão do Norte no i3S que, é, no fundo, o embrião deste novo Centro de Excelência de Genómica”, explica Claudio Sunkel.

“Trata-se de uma abordagem que assenta num princípio fundamental: garantir que as tecnologias de genómica médica sejam utilizadas de forma ampla e que o acesso seja equitativo, independentemente do local onde o doente é acompanhado”, sublinha o diretor do i3S.

Entre os principais resultados esperados do projeto i3S-HEALTH estão o aumento da capacidade e da precisão do diagnóstico, a formação de novos especialistas, o desenvolvimento de algoritmos preditivos para doenças genéticas complexas e a identificação de biomarcadores multi-ómicos com aplicação clínica.

O projeto prevê ainda uma forte articulação com a indústria, através de parcerias público-privadas para o codesenvolvimento de novos diagnósticos e terapêuticas. A sustentabilidade da iniciativa será assegurada pelo crescimento dos serviços de diagnóstico avançado, parcerias estratégicas, novos projetos, desenvolvimento de propriedade intelectual e criação de spin-offs na área da genómica.

Seis projetos portugueses financiados

Nesta edição do concurso Teaming for Excellence, para além do projeto do i3S, foram aprovadas para financiamento mais cinco candidaturas portuguesas, o que corresponde a um financiamento total de 81 milhões de euros para criar ou modernizar centros de investigação de excelência.

Dos seis projetos selecionados, dois estão integrados na região de Lisboa e Vale do Tejo, um no Norte, um no Centro, um no Alentejo e um no Algarve. Os seis novos centros de excelência irão atuar em áreas estratégicas: “Teaming to Drive the Future of Genomic Medicine” (i3S, da U. Porto), na área da medicina genómica; “Institute for Integrated Social and Biological Assessment” (U. Coimbra), combinando ciências sociais e biomédicas; “NOVA Institute for a Sustainable Future” (U. NOVA Lisboa), nas áreas de saúde humana e ambiental; “Excellence in Mediterranean Soil Regeneration” (U. Évora), em regeneração e monitorização de solos mediterrânicos; “Sustainable Artificial Intelligence Laboratory” (INESC-ID), em sistemas de inteligência artificial sustentável; e “UAlgTec Heritage Center of Excellence” (U. Algarve), nas áreas de arqueologia e património cultural.

As instituições irão agora iniciar a preparação do acordo de subvenção com a Comissão Europeia e os projetos deverão decorrer entre 2027 e 2032.

Os vários Estados-Membros e países associados submeteram um total de 64 propostas para um envelope financeiro indicativo disponível de 270 milhões de euros. As seis candidaturas nacionais representam 30% do financiamento total, um resultado de grande impacto para o Sistema Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação.

O Teaming for Excellence é um concurso de referência do Horizonte Europa, que visa a criação ou a modernização de centros de excelência. Para maximizar o impacto destes projetos, estes concursos exigem que o financiamento por via do Horizonte Europa seja complementado por financiamento nacional (através da FCT e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional – CCDR), de montante equivalente ao financiamento europeu, promovendo sinergias de fontes de financiamento e conjugando investimento estratégico nacional e europeu. Universidade do Porto - Portugal


domingo, 26 de abril de 2026

Portugal - Documentário “Mulheres de Abril” recupera histórias de resistência feminina

O documentário “Mulheres de Abril“, de Raquel Freire, cruza as vidas e as histórias de resistência de 10 mulheres portuguesas e africanas que lutaram contra o fascismo e o colonialismo e tem ante-estreia marcada para sexta-feira no IndieLisboa


Mulheres de Abril propõe uma viagem pela memória e pela história recente do país, através das vozes de Margarida Tengarrinha, Julieta Rocha, Ana Maria Cabral, Isabel do Carmo, Maria Emília Brederode Santos, Luísa Sarsfield Cabral, Teresa Loff Fernandes, Zezinha Chantre, Helena Neves e Ruth Rodrigues, cujas vidas foram marcadas pela perseguição, prisão, tortura, censura, exílio, clandestinidade, luta e resistência.

“A história até agora foi contada por homens e sobre homens. É o momento de serem as mulheres a contar a história da luta e da resistência antifascista e anticolonialista. E eu sei isso por experiência pessoal da minha família, das minhas ancestrais”, explicou a realizadora à Lusa.

Desde logo a sua mãe, Ruth Rodrigues, uma das 10 “capitãs de abril”, como gosta de dizer e que participa no filme.

“Eu sou uma filha da Revolução. Cresci a ouvir as histórias desta resistência das mulheres da minha família que lutaram pela liberdade. Começou logo na minha bisavó, depois a minha avó, a minha mãe. De um lado da família e do outro lado”, disse.

“E eu cresci a ouvir estas histórias de como os meus pais, por exemplo, me usaram como disfarce para esconderem propaganda para uma greve dentro das minhas fraldas, quando eu tinha uns meses, numa sessão de distribuição clandestina durante a madrugada”, contou a autora.

Perante o legado familiar, Raquel Freire, que já tinha feito o filme Histórias das Mulheres do meu País (2020), sabia que haveria de contar também as histórias das mulheres de Abril: “Uma das mulheres do filme é a minha mãe, que foi uma grande resistente antifascista e é ainda”.

A vontade de escutar as vozes africanas, através dos testemunhos de Teresa Loff Fernandes, Zezinha Chantre e Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar Cabral) – todas integraram as fileiras do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC) – pareceu-lhe justa e natural.

“A luta anticolonialista foi o berço de muita desta revolta que envolve o 25 de Abril. E, portanto, este filme tem estas duas perspetivas, de ser a história contada pelas mulheres e, ao mesmo tempo, ser a história contada pelas mulheres portuguesas e pelas mulheres que, em África, lutavam pela independência dos seus países. E era uma luta comum”, afirmou.

“Várias mulheres africanas lutaram ativamente contra a guerra e pela independência e autodeterminação dos seus países, que estavam ocupados (…) não só na luta armada, mas lutaram a criar redes, a criar escolas, a criar hospitais. A alfabetizar também”, disse.

A guerra colonial é, para Raquel Freire, determinante, no envolvimento e no papel que as mulheres assumem a partir de então.

“O testemunho da Margarida Tengarrinha fala disso. Estamos a falar claramente das mulheres que vão ao mercado, que falam com as outras e que começam a dizer não à guerra. São os preços que sobem, são os filhos e os maridos que desaparecem. E, portanto, as mulheres tomam aqui a dianteira nesta luta contra a guerra colonial. E a paz torna-se uma palavra política, que é também uma coisa a que nós assistimos hoje em dia”, referiu.

Também por isto a realizadora considera que o filme “tem um lado atual” perante as guerras atuais.

“Eu penso que este filme tem este lado tão atual, porque nós hoje em dia enfrentamos guerras. Enfrentamos injustiças tremendas. Enfrentamos novas formas de fascismo. E a sabedoria que estas mulheres acumularam, que estas mulheres tiveram para lutar contra um sistema tão opressor, que tinha uma polícia política que matava, perseguia, é-nos fundamental hoje em dia para nós também termos as nossas ferramentas para lidarmos com a violência quotidiana que temos neste momento em 2026”, disse.

Cinquenta e dois anos após a Revolução de Abril e 51 das independências africanas, o filme é um posto de escuta e reconhecimento, que celebra uma participação silenciada durante décadas, e que a autora entrega agora às novas gerações.

“Estas mulheres são museus vivos de sabedoria democrática com várias ferramentas e, sobretudo, com um amor pelos outros e pela liberdade que são profundamente inspiradores. Portanto, sim, este é um filme para as novas gerações, porque é um filme com o pé no presente e no futuro. E o final do filme é mesmo dirigido aos mais jovens e às mais jovens”, conclui a realizadora.

Com um tema original de A garota não, “Fazia tudo de novo (uma revolução nunca acaba)”, Mulheres de Abril terá a sua antestreia no dia 01 de maio, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa, e estreará nas salas de cinema no final do ano.

Filmado entre 2023 e 2025 por uma equipa inteiramente feminina, com produção da MadameFilmes, é dedicado a três das 10 mulheres de abril que já faleceram: Margarida Tengarrinha, Teresa Loff Fernandes e Maria Emília Brederode Santos.

“Essa é a parte que me custa, mesmo sabendo que elas vão continuar vivas connosco, através da sua presença no cinema”, confessou Raquel Freire. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


Cabo Verde - Redução do financiamento internacional pode comprometer combate à malária

Cidade da Praia — A investigadora e docente Lara Goméz alertou que a redução do financiamento internacional poderá comprometer o combate à malária, sobretudo em países africanos com menor capacidade financeira.


O alerta foi feito na sessão de abertura da quarta conferência internacional “Malária nos PALOP”, promovida pela Universidade Jean Piaget de Cabo Verde.

Segundo a investigadora, a diminuição dos apoios à saúde em África, incluindo através do Fundo Global, estará associada a mudanças políticas nos Estados Unidos, embora tenha ressalvado não dispor de dados totalmente confirmados.

Lara Goméz defendeu uma abordagem integrada no combate à doença, sublinhando a necessidade de articulação entre saúde humana, sanidade animal e ambiente, bem como o reforço da vigilância e da consciencialização das populações.

A docente considerou ainda que uma eventual redução da ajuda internacional poderá afectar países com fraca capacidade económica, ao limitar os recursos disponíveis para programas de combate à malária, incluindo em Cabo Verde.

Recordou que, após a pandemia da COVID-19, se registou um retrocesso nos indicadores da doença, com aumento da mortalidade, que ultrapassou as 600 mil mortes de crianças, maioritariamente em África, devido ao redireccionamento de recursos para o combate à pandemia.

Relativamente a Cabo Verde, indicou que o país já eliminou a malária por três vezes, mas enfrentou reintroduções associadas a casos importados.

Alertou que a presença de mosquitos e o aumento da sua densidade podem favorecer novos surtos, acrescentando que, entre o final de 2024 e 2025, foram registados casos de transmissão autóctone na zona de Fonton, entretanto controlados pelas autoridades sanitárias.

A conferência realiza-se pelo quarto ano consecutivo, no âmbito do Dia Mundial da Malária, com o objectivo de divulgar conhecimento científico e reforçar competências técnicas. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”


Regresso à Infância


 









Vamos aprender português, cantando

 

Regresso à Infância

 

Sete espadachins e um pirata,

dúzias de soldados pelo chão;

bolas e berlindes numa lata,

lápis numa caixa de cartão.

 

Quem sabe brincar nunca se cansa,

dor ou amargura é ilusão;

hoje eu voltaria a ser criança

só pra não te ouvir dizer que não.

 

Quem me mandou ser maior

no desejo vão de te ter,

se o castigo foi sentir amor

por alguém que nunca me vai querer?

 

Jogos de aprender numa gaveta,

gomas e bolachas sempre à mão;

flautas e tambores e uma corneta,

carros de bombeiros e um balão.

 

Tão feliz que eu era, ai que saudade

desse quarto antigo onde era Deus.

Queria ter de novo essa outra idade

só pra não te ouvir dizer-me adeus.

 

Quem me mandou ser maior

no desejo vão de te ter,

se o castigo foi sentir amor

por alguém que nunca me vai querer?

 

Quem me mandou ser maior

no desejo vão de te ter,

se o castigo foi sentir amor

por alguém que nunca me vai querer?

 

Quem me mandou ser maior

no desejo vão de te ter,

se o castigo foi sentir amor

por alguém que nunca me vai querer?

 

Se o castigo foi esta dor,

antes ser pequeno e não saber.

 

António Zambujo – Portugal

Composição:

(Letra) Maria do Rosário Pedreira – Portugal

(Música) João Gil - Portugal