Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 7 de junho de 2026

Cabo Verde - Armindo Ferreira desafia narrativas sobre a independência, o PAIGC e Amilcar Cabral em “Diálogos Inquietantes”

Em Diálogos Inquietantes, Armindo Ferreira revisita alguns dos episódios mais sensíveis da história contemporânea de Cabo Verde, questionando narrativas consolidadas sobre a independência, o PAIGC, Amílcar Cabral e os debates identitários no arquipélago. Publicado em edição de autor, o livro reflecte a recusa do autor em submeter a escrita a critérios editoriais e comerciais, assumindo a publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão e prazer intelectual. Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica, ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento. Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que, entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo António, e Pedro Cardoso, na Fazenda

O livro está dividido em duas partes. Por que Diálogos Inquietantes dá título à obra?

Na verdade, o livro não está dividido em duas partes. Só o está aparentemente. São na realidade dois livros numa única brochura. O que chama segunda parte, é um livrinho que publiquei no ano passado “domesticamente” – uma distribuição extremamente reduzida e quase familiar ou muito pouco mais do que isso e que achei por bem agora incluir nesta brochura cujo título é Diálogos Inquietantes. São temáticas absolutamente autónomas, ambos diálogos inquietantes de natureza díspar, que reflectem, de certa forma, um antes e um depois do mesmo período histórico, abordados e expostos de forma bem diferentes.

Em que sentido estes 14 diálogos são inquietantes? Pelos temas controversos que aborda?

Não, não são 14 diálogos, mas sim, 14 capítulos. Aceito a sua conclusão com uma ligeira alteração: a controvérsia não é propriamente dos temas, pois estes são velhos e batidos, mas sobretudo pela temeridade da abordagem que deles faço: a dessacralização de determinados mitos e o ajustamento, com uma visão bem diferente e devidamente fundamentada e justificada, – obviamente do meu ponto de vista – de determinadas fantasiosas narrativas históricas.

Por exemplo, pela voz de uma das personagens, afirma que a independência de Cabo Verde resultou de uma cumplicidade entre o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PAIGC. Em que fundamenta essa afirmação?”

Eu provo lá que é uma cumplicidade. Bom, não vou explicar porque não vou falar do livro. O livro, o leitor chega lá mais tarde. Mas está lá explicado porque é que é uma cumplicidade. Tenho os dados que levam qualquer pessoa a chegar a esta conclusão, porque até há livros e ensaios publicados nesse sentido, de autores portugueses, que mostram que houve uma enorme cumplicidade entre o MFA e o PAIGC. E entregaram de bandeja a independência, não ao povo cabo-verdiano que devia ser, mas ao PAIGC, porque a independência foi entregue. Resultado: passamos 15 anos na continuação de um regime ditatorial e totalitarista. Portanto, nós saímos do Estado Novo e entramos numa ditadura que nada ficou a dever à outra: a censura, as torturas, as prisões arbitrárias, tudo o que a outra senhora tinha, nós continuamos a ter. Portanto, foi o MFA que entregou de bandeja... mas eu explico isso no livro de maneira mais acabada, não como estou a falar aqui de forma atabalhoada, porque infelizmente o MFA não escondeu isso. Pelo contrário, fez gala disso, no género de afirmações: já deixei o PAIGC pronto para poder fazer isto e aquilo e não sei quantos. Mas está tudo fundamentado no livro.

O livro refere também que o assassinato de Amílcar Cabral era, desde o Congresso de Cassacá, uma “morte anunciada”. Em que assenta a sua interpretação histórica?

Sim, as coisas do Congresso de Cassacá foram violentíssimas. Ele cavou um fosso e criou inimigos para todo o percurso que fez. E Amílcar Cabral, ao dogmatizar a unidade Guiné-Cabe Verde, ele estava a defender Cabo Verde e não a Guiné. Eu tenho isto mais ou menos exposto no livro. Note que Cabral dogmatizou a questão da unidade Guiné-Cabo Verde, não foi uma aliança. Cabral impôs uma questão como prioritária. Quer dizer que ele estava à frente da própria independência: é mais importante manter a unidade Guiné-Cabo Verde do que criar situações para que essa unidade viesse a ser aceite pelos povos dos dois países. Mas, como eu disse, eu tenho tudo isso escrito, não quero entrar nos pormenores do livro.

Através da personagem Dr. Leonardo Gonçalo, aborda criticamente certas manifestações contemporâneas do africanismo e questiona possíveis tendências de negação da mestiçagem que marcou historicamente Cabo Verde. Que reflexão pretende suscitar sobre os debates identitários contemporâneos no país?

Compreendo a sua pergunta, mas a minha posição sobre o assunto é, ou seria neste caso, irrelevante. Mas mesmo assim, posso-lhe dizer, que, para mim é um não-assunto. Mas não o é, de todo, para o Dr. Leonardo Gonçalo, personagem do meu livro, que o aborda en passant, posta de uma forma muito breve, nas seguintes posições: os primeiros homens que chegaram a este território eram caucasianos europeus. Logo Cabo Verde deve ser a única colónia portuguesa cuja história começa com a chegada dos portugueses. Estes trouxeram – não vieram!... – do continente africano pessoas escravizadas de várias e diferentes etnias – mais de três dezenas! – cada uma com a sua língua, com os seus costumes, com as suas tradições, com a sua cultura, com a sua História. Isto é, as pessoas escravizadas, para além da sua situação ou circunstância, estavam “apenas” unidas entre si pela cor da pele. A homogeneização de tudo isto, incluindo os caucasianos, deu o cabo-verdiano. Um produto acabado e definido há já alguns séculos! Usando, grosseiramente, uma linguagem e configuração química: formou-se um composto e deixou de ser uma mistura. Isto é, as especificidades de cada elemento “desaparecem” no produto final, no todo. Como bem disse Gabriel Mariano: “Nós somos as nossas raízes!”


O livro abre com uma citação de Bertrand Russell: “Dos infinitos desejos do homem, os principais são os desejos de poder e de glória.” Que significado pretendeu atribuir a esta citação no contexto da obra?

Eu penso que ao longo do livro o leitor não terá qualquer dúvida quanto ao alcance que dei a essa conclusão de Bertrand Russel. Deixo ao leitor esta incumbência.

Há uma passagem no livro em que o doutor Leonardo entra em cena no momento em que alguém afirma: “Temos de fazer como aquele camarada que incentivava outros camaradas a suicidarem-se como classe social, a fim de serem recebidos como ‘os melhores filhos’.” Como refere no livro, a expressão “suicídio de classe” não é originalmente de Amílcar Cabral, mas sim é atribuída a um médico maliano. Que reflexão pretende suscitar com esta referência?

Não, não pretendo suscitar qualquer reflexão. Apenas alertar para o facto de muitas das expressões ou frases atribuídas de forma grandiloquente a Amílcar Cabral não passam de lugares-comuns ou de adaptações de expressões já utilizadas por outras personalidades. O problema não é Cabral usá-las, mas os seus seguidores, por pura ignorância ou ostentação bacoca do culto de personalidade, na ânsia de o exaltar, citarem-no como autor, o que, no meu ponto de vista, até o menoriza.

Que enquadramento atribui ao conto O Divórcio dentro da estrutura e do universo temático do livro?

Penso que já expliquei atrás o aparecimento de O Divórcio bem como o seu enquadramento na estrutura da brochura.

À primeira vista, O Divórcio parece destoar um pouco do ambiente político e social vivido em Cabo Verde no período pós-25 de Abril. Considera que há um contraste deliberado ou entende que ambos os planos acabam por se complementar?

O conto O Divórcio situa-se precisamente no momento logo a seguir à Independência e passa-se no ambiente vivido pelos protagonistas na sua abrangente intimidade… Não parece existir qualquer contraste interno. Estarei de acordo consigo sim, que, de certa forma, poderá existir uma complementaridade.

A temática do divórcio é pouco abordada na literatura cabo-verdiana. O voo foi feito sobre as nuvens?

Talvez não. Note que o período logo a seguir à independência, nós tínhamos um regime católico em que o divórcio era uma espécie de um anatoma. As pessoas separavam às vezes e fingiam e continuavam a viver juntas. E quando se deu a independência, não é o seu tempo, não é o meu, foi uma explosão de divórcio por todo o lado, porque liberalizou-se. A concordata que existia com a igreja depois caiu. E os tempos foram outros, foram tempos de divórcio. Este é um elemento e por acaso até se justifica, porque a minha ideia é que o casamento, quer dizer, o indivíduo que é transportado para uma outra região, a senhora [personagem do conto O Divórcio], não obstante ser uma mestiça, tinha outra cultura e não aceitou a invasão familiar, que é normal em Cabo Verde, mas para ela não é normal, é uma intromissão na sua vida. Por outro lado, ela não se sentia integrada. E à essa falta de integração, de certa forma, culpou o marido. Mas deu uma chance ao marido: ou vens comigo ou divorciamos. Mas não vou contar toda a história, porque está no livro.

Considera adequado o timing escolhido para a venda do livro?

Esta seria uma preocupação de uma edição comercial. A edição do autor, normalmente, de reduzida tiragem, não deve ter essa preocupação, a de exponenciar essa vertente, mas sim, a de priorizar a divulgação. Neste caso específico, Diálogos Inquietantes, penso que a sua leitura seria, sem qualquer presunção, uma possível oportunidade para questionar, mesmo que apenas interiormente, certos posicionamentos!

Por que optou pela publicação do livro em edição do autor?

Eu poderia muito simplesmente responder-lhe: E porque não, edição do autor? Mas presumo que possa ter algum, não direi preconceito, mas alguma reserva, sobre a edição do autor, porque senão não a questionava. No meu caso específico, dir-lhe-ei que escrevo por prazer, para me divertir, não sou escritor. É uma maneira como outra qualquer de ocupar, de passar o tempo: registar as minhas reflexões, as minhas cogitações, os meus devaneios. E também sou eu que me divirto a fazer a composição e a paginação dos meus livros. Só a impressão não faço quando são muitas páginas. Indo directamente à sua questão: não tenho paciência para me submeter às prioridades do editor nem aos seus critérios, designadamente, comerciais. Bem me basta a “comissão de leitura” doméstica que, para além da apertada avaliação técnica, tem em conta, – porque também interessada, – a eventualidade de um fútil despesismo e que, normalmente não se fica pelo simples “no objection” indo, bastas vezes, à recomendação expressa e explícita de publicação ou não. António Monteiro – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


Luxemburgo – António José Seguro pede mais português no currículo escolar

O Presidente da República afirmou, este domingo, que apelou aos responsáveis do Luxemburgo para que alarguem a disponibilização do português como língua de opção no programa curricular, lembrando que um terço dos residentes no país é lusófono


António José Seguro falava numa sessão com alunos que aprendem português no Luxemburgo, país que visita desde sexta-feira e que marca o arranque das comemorações oficiais do Dia de Portugal, a que se juntou, este domingo, o primeiro-ministro, Luís Montenegro.

O chefe de Estado salientou que o português “é uma chave que abre portas no mundo inteiro”, falado por 260 milhões de pessoas em quatro continentes.

“Quando estiverem cansados nas aulas, lembrem-se disso. Não estão apenas a aprender uma língua, estão a ligar-se ao mundo”, afirmou.

Aos pais e professores, assegurou que o seu papel “é reconhecido e valorizado pelo Presidente da República de Portugal e também pelo primeiro-ministro”, que tinha discursado minutos antes.

“Deixei aos responsáveis luxemburgueses um apelo claro: que alarguem a disponibilização do português como língua de opção no programa curricular do nosso ensino, aqui, num país onde cerca de um terço de residentes é lusófono, onde o português é a segunda língua principal falada em casa pelos alunos do ensino público e isso é relevante para o nosso país”, disse.

Para Seguro, esta é “uma opção decisiva para o fortalecimento de uma comunidade dinâmica e coesa”.

O Presidente da República e o primeiro-ministro encontraram-se, este domingo, com alunos portugueses no Centro Cultural Artikuss de Sanem.

“Olhar para esta sala e ver estes rostos cheio de energia, cheios de futuro, é ver Portugal vivo no centro da Europa e perceber melhor do que qualquer discurso poderia explicar, porque é que escolhi o Luxemburgo para celebrar o primeiro dia de Portugal no meu mandato”, afirmou Seguro.

O chefe de Estado voltou a agradecer às autoridades luxemburguesas a forma como tem tratado a comunidade portuguesa, que classificou como “uma força do Luxemburgo”.

Para Seguro, ter dois países “não significa ter um coração dividido, significa ter um coração maior, onde cabem dois países e dois povos extraordinários”.

“Portugal está nos vossos avós que ligam pelo telefone. Está na comida que a vossa mãe faz ao fim de semana, ou o vosso pai. Está nas histórias que ouviram contar. Está nas músicas que conhecem sem saber bem quando as aprenderam. E acima de tudo, está na língua que estão a aprender aqui nesta sala”, disse.

O Presidente da República assegurou que “Portugal está sempre de braços abertos” para receber estes emigrantes, quer seja de férias, quer seja para construírem uma vida num país “que precisa de todos”.

“Continuem a falar português em casa. E quando alguém vos perguntar de onde são, digam com a cabeça erguida e um sorriso, sou português, do Luxemburgo e de Portugal”, pediu. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Associação Internacional dos Lusodescendentes - Avança com proposta de Dia do Lusodescendente

A Associação Internacional dos Lusodescendentes (AILD) anunciou esta sexta-feira, 5 de junho de 2026, o lançamento de uma iniciativa para instituir oficialmente o Dia do Lusodescendente. O objetivo é reconhecer a identidade própria das gerações nascidas da diáspora portuguesa em todo o mundo


Gilda Pereira, presidente da Direção da AILD, destacou a importância da iniciativa, afirmando que “os lusodescendentes são a projeção global e o futuro de Portugal no mundo”. A responsável esclareceu ainda que a designação não deve ser “dia nacional”, uma vez que seria uma contradição para uma comunidade cuja vivência é, por definição, global. “Vamos pedir estas audiências parlamentares convictos de que os deputados, em especial os eleitos pela Emigração, reconhecerão a urgência de valorizar esta imensa rede que une Portugal ao mundo”, concluiu.

A AILD declarou que vai formalizar pedidos de audiência junto da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e dos diversos Grupos Parlamentares da Assembleia da República.

A associação sublinha que, embora o dia 10 de Junho seja já assinalado como o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, os lusodescendentes constituem uma realidade identitária distinta. “Os lusodescendentes representam uma realidade identitária distinta, marcada por vivências transnacionais, multiculturalidade e uma relação com Portugal que se renova geração após geração”, lê-se na publicação.

Segundo a AILD, a instituição deste dia assenta em três eixos fundamentais: a afirmação global da identidade transnacional de milhões de cidadãos; a continuidade da herança, através do incentivo ao ensino do português como língua de herança; e o reconhecimento dos lusodescendentes como um ativo estratégico em posições de liderança internacional nas áreas económicas, científicas e culturais.

A AILD lançou ainda um apelo à sociedade civil e ao movimento associativo, convidando todas as organizações da diáspora, instituições culturais e cidadãos interessados a juntarem-se à causa. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Felicidade












Vamos aprender português, cantando

 

Felicidade

 

Eu estava longe lá tão longe

tão nesse lugar

onde a beleza já não chega

onde falta o ar e eu

não tinha vontade de voltar

 

E quando olhava à volta

à minha volta era só eu

só quando a volta deu a volta

e se fez luz no breu, eu

soube que era tempo de voltar

 

E fiz de mim canção pra dançar

 

Olha a felicidade

bateu à porta

deixa-a entrar senão

ela não volta, não

ela não volta a bater

 

Olha a felicidade

fora da hora

deixa-a entrar senão

vai logo embora, não

 

Não foi feita para se prender

 

Eu estava longe lá tão longe

a viver os dias

e nas tristezas na incerteza

via alegrias

sem saber se devia voltar

 

E quanto me dei tempo

e o tempo trouxe a solução

de olhar para dentro

e pôr pra fora o meu coração

eu soube que era tempo de voltar

 

E fiz de mim canção pra dançar

 

Sei cantar, sei dançar

sei tocar a pandeireta

quem quiser dançar

comigo, traga a música completa

 

E fiz de mim canção pra dançar

 

Olha a felicidade

bateu à porta

deixa-a entrar senão

ela não volta, não

ela não volta a bater

 

Olha a felicidade

fora da hora

deixa-a entrar senão

vai logo embora, não

 

Não foi feita para se prender

 

Olha a felicidade

bateu à porta

deixa-a entrar senão

ela não volta, não

ela não volta a bater

 

Olha a felicidade

fora da hora

deixa-a entrar senão

vai logo embora, não

 

Não foi feita para se prender

 

E fiz de mim canção pra dançar

 

Luísa Sobral - Portugal 

sábado, 6 de junho de 2026

Lusofonia - A arte e a tecnologia em nove culturas unidas pela língua portuguesa

A língua portuguesa é o elemento de união entre comunidades e culturas espalhadas por quatro continentes – e também o fio conector de “Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas da Língua Portuguesa”, um livro que reúne investigações sobre arte, tecnologia e evoluções culturais em nove territórios lusófonos. O editor José Manuel Simões apresentou alguns dos destaques da obra ao Parágrafo e desvendou ainda dois projectos futuros, também centrados na lusofonia


Há uma ilha em Timor-Leste onde cada aldeia fala um crioulo próprio. Ataúro, conhecida pela paisagem idílica de recifes de coral, águas límpidas e a maior biodiversidade marinha do mundo, é também lar de uma pluralidade linguística muito própria. Mais do que língua oficial, a língua portuguesa é, sobretudo, o elemento que unifica e aproxima as diferentes comunidades que habitam o território.

A ideia de explorar o papel do português enquanto instrumento conector surgiu precisamente numa viagem a Ataúro, conta José Manuel Simões, coordenador do Departamento de Media, Arte e Tecnologia da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de São José (USJ), em entrevista ao Parágrafo. Da pequena ilha paradisíaca, nasceu uma ideia que ganhou raízes em muitos outros pontos do mundo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

O resultado é o livro Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa, uma colectânea de trabalhos de investigação sobre as práticas artísticas, as tecnologias digitais e as evoluções culturais que se manifestam nas múltiplas sociedades lusófonas. A obra, organizada e editada por José Manuel Simões e publicada pela USJ em Setembro do ano passado, conta com a colaboração de mais de uma dezena de académicos rigorosamente seleccionados pelo editor.

«São pessoas que tinham já trabalhos relevantes nestes países, ou nestas áreas de interesse, e pedi-lhes em concreto para criarem um trabalho original», explica o docente. Neste contexto, «original» não se refere apenas a «novo» – houve também a intenção de criar um livro «inovador», tanto nos temas retratados como na tecnologia incorporada nas páginas. Cada um dos capítulos vem acompanhado de um código QR, através do qual o respectivo autor faz um resumo em vídeo, «em quatro ou cinco minutos», do tema que explora no texto: da criptoarte no Brasil à crescente automatização dos textos jornalísticos em Cabo Verde.

Quanto ao capítulo de Macau, a temática explorada relaciona-se com uma prática comum mas pouco analisada no território – a filantropia – e a sua relação com os valores confucionistas que ainda moldam a sociedade contemporânea da região. A autora, Carmen Zita Monereo, apesar de residir em Portugal, foi convidada a integrar o projecto após concluir o pós-doutoramento em Comunicação e Media na USJ, sob a orientação de José Manuel Simões.

«Lancei-lhe o desafio de escrever sobre o impacto da filantropia corporativa em Macau porque vem na sequência de algo que ela já tinha feito ao nível do doutoramento, sobre o papel de alguns filantropos em Portugal», explica o editor. «Chega-se a conclusões bastante interessantes neste estudo: nomeadamente, que os filantropos de Macau têm uma postura muito mais “low profile”, mais discreta; não gostam de exibir os seus feitos, a sua solidariedade, os seus contributos para o desenvolvimento da cultura local».

Carmen Zita Monereo usa a Fundação Rui Cunha, a Fundação Macau e a Fundação Oriente como principais objectos de estudo, identificando os valores que sustentam estas organizações, os fluxos de comunicação que propiciam a actividade filantrópica e a forma como os três se relacionam entre si. «Acaba-se por concluir que são as características pessoais de cada filantropo – por exemplo, o doutor Rui Cunha, com uma forte ligação à arte e à inovação – que diferenciam as decisões estratégicas sobre o que fazer, o que apoiar, ou que áreas apoiar», adianta o académico.

Embora reconheça que esta é uma área «relativamente pouco estudada» e com poucos dados e fontes disponibilizados ao público, Monereo afirma, na conclusão do seu texto, que a cultura filantrópica está em ascensão em Macau, particularmente desde a Covid-19. «Considerando as questões da pesquisa, e com base nos resultados, a filantropia está a crescer e pode servir para ajudar artistas, novos media e projectos baseados em tecnologia», escreve, identificando a educação, a saúde e o meio ambiente como as principais áreas de interesse dos doadores.

As máquinas ao serviço dos humanos (e não o contrário)

O capítulo sobre Portugal aborda a literatura electrónica, uma arte experimental nascida por volta dos anos 50 e que continua a desdobrar-se em novas potencialidades à medida que as ferramentas tecnológicas evoluem. A partir do convite inicial a Rui Torres – professor catedrático na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e um dos grandes nomes de referência no estudo e na produção de literatura electrónica e poesia digital em Portugal – juntou-se ao projecto a co-autora Fernanda Bonacho, também estudiosa da relação entre a produção literária e a cultura digital.

A partir desta forma híbrida de expressão artística, conhecida também como “e-literature”, introduzem-se no texto temas igualmente oportunos como a literacia digital – «uma ferramenta decisiva na era pós-digital», sublinha José Manuel Simões. O trabalho de investigação faz-se por três prismas: o cronológico, que divide a “e-literatura” em três gerações e contextos históricos; o arqueológico, que levanta discussões sobre as estratégias de preservação e recontextualização das obras; e o simbólico, que traça um paralelismo entre a água nos seus diferentes estados e a preservação do ‘hardware’ e ‘software’ das obras (forma sólida), o seu dinamismo e a adaptabilidade (forma líquida) e a natureza efémera das obras criadas em redes sociais (forma gasosa).

A base teórica formada por estas três perspectivas «contribui não só para a preservação e compreensão da e-leitura, mas também assegura que essas obras permaneçam acessíveis e relevantes para futuras gerações», de acordo com os autores. «Assim, a e-literatura destaca-se como um campo dinâmico e essencial para a literacia digital, desempenhando um papel crucial na promoção de uma comunicação inclusiva e crítica na era digital», lê-se na conclusão do capítulo.

IA e livros futuros

O tema da inteligência artificial (IA) é contemplado nos capítulos de Angola e Cabo Verde – e é, de resto, um tema incontornável no actual panorama tecnológico (e até criativo) a nível global. Em Macau, território em que a língua portuguesa é minoritária, vários organismos e serviços já fazem uso de ferramentas de tradução automática do chinês para o português, o que resulta frequentemente em produções linguísticas incorrectas ou até mesmo incompreensíveis.

José Manuel Simões defende que a IA, como todas as tecnologias, tem as suas potencialidades e pontos fracos – cabe ao utilizador saber usá-la, pensando sempre nas implicações éticas e mantendo um diálogo crítico e intelectualmente dinâmico com a máquina. «Um aluno meu, finalista na cadeira de Ética que ensino, fez um trabalho onde concluiu que 90% dos estudantes em Macau usam inteligência artificial nos seus ensaios», conta ao Parágrafo. «Se os alunos se limitarem a fazer perguntas básicas e a copiarem as respostas, claro que isso é uma espécie de plágio».

Por outro lado, se o mesmo aluno «questionar com pertinência e inteligência, analisando e questionando as respostas», os resultados serão diferentes. «Aí, cria-se uma ligação que me parece interessante para o desenvolvimento da nossa capacidade de conhecimento, ao criar quase que um diálogo com a ferramenta de IA para chegar a conclusões mais abrangentes e mais capazes». O importante, frisa, é que «haja vigilância e controlo: temos de ser nós a controlar a IA, não o contrário».

Media, Arte e Tecnologia nas Nove Culturas de Língua Portuguesa foi apresentado na Fundação Rui Cunha no dia 12 de Maio, com a presença do orientador e de alguns dos doze colaboradores que participaram na publicação: Wilson Caldeira (no capítulo de Angola), Daniel Farinha (Brasil), Silvino Évora (Cabo Verde), Camará Morto (Guiné-Bissau), Carmen Monereo (Macau), Vanessa Rodrigues (Moçambique), Rui Torres e Fernanda Bonacho (Portugal), José Manuel Simões (São Tomé e Príncipe) e Paulo Faustino e Rui Novais (Timor-Leste).

Ao Parágrafo, o investigador revela que está actualmente a preparar duas obras sucessoras a este trabalho: O Português nas Nove Culturas da Língua Portuguesa e As Indústrias Criativas nas Nove Culturas de Língua Portuguesa. Debruçando-se sobre o primeiro, com data de publicação prevista para 2027, José Manuel Simões revela que este será composto por uma selecção de textos assinados por especialistas provenientes de cada região, que se dedicarão a analisar o estado da língua portuguesa nos vários espaços culturais do mundo lusófono. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


Macau – Chef Lídia Brás, do norte de Portugal, traz tradições gastronómicas ao Clube Militar

A chef Lídia Brás vai confeccionar, juntamente com o assistente Fernando Araújo, pratos típicos portugueses na cozinha do Clube Militar, em mais uma edição do Festival de Gastronomia e Vinhos. Irão apresentar receitas diversificadas, algumas das quais de Trás-os-Montes, numa iniciativa que decorrerá entre os dias 8 e 15 de Junho, integrada na programação “Junho, Mês de Portugal”


O restaurante do Clube Militar volta a oferecer aos clientes um menu especial, confeccionado por chefs vindos expressamente de Portugal para dar corpo a mais um Festival de Gastronomia e Vinhos, que decorrerá entre 8 e 15 de Junho. Lídia Brás estará na cozinha, acompanhada pelo assistente Fernando Araújo, para produzir pratos variados, mas com um toque transmontano, já que a chef é natural de Miranda do Douro, no nordeste de Portugal.

O festival proporcionará também a degustação de alguns vinhos portugueses, para acompanhar receitas, tanto de carne como de peixe, numa “ligação a tradições de festas populares, comidas de campo e rituais específicos”, como refere um comunicado da organização.

Aquela que liderará a cozinha do Clube Militar durante 13 dias, chefia o projecto Stramuntana (Transmontana na língua Mirandesa). Com uma formação inicial em Artes, foi na cozinha que encontrou o seu lugar e paixão. “O seu trabalho preserva a autenticidade, sazonalidade e características da comida portuguesa, por vezes com um toque pessoal de inovação”, sublinha a nota introdutória do evento gastronómico.

Cozinheira por vocação, Lídia Brás mantém a intrínseca relação com Trás-os-Montes e com os modos e costumes das suas raízes, e é onde investiga o receituário Transmontano ancestral. Além da participação em programas televisivos, feiras gastronómicas, eventos privados e “showcookings”, é maioritariamente no seu restaurante, o Stramuntana, que divulga produtos, receitas e também os produtores do nordeste de Portugal.

Fernando Araújo nasceu em Vila Nova de Gaia, arredores do Porto, mas foi nas raízes minhotas – em Adaúfe – que passou grande parte da infância. Herdou desde cedo o palato apurado e o gosto pelo saber-fazer da gastronomia nortenha: os peixes e mariscos do litoral, os enchidos tradicionais e os pratos ricos de carne da terra.

Mais tarde, no Alentejo, aprofundou o conhecimento sobre a riqueza da gastronomia nacional, absorvendo tradições, sabores e técnicas que marcariam o seu percurso profissional. Em 2006, abriu o primeiro negócio gastronómico, dando início a um percurso de crescimento na restauração e no universo vínico. Desde então, tem consolidado experiência através de formações especializadas em vinhos e gastronomia.

O evento, integrado na programação do “Junho, Mês de Portugal”, serve igualmente para assinalar o 156.º aniversário do Clube Militar, instituição que há mais de duas décadas promove este tipo de iniciativas, trazendo ao território conceituados chefs lusos para criar menus especiais. Em anos recentes, o festival tem-se focado na autêntica cozinha regional portuguesa e na harmonização com vinhos nacionais.

Há um ano, também durante o mês de Junho, o Clube Militar trouxe à RAEM três cozinheiros, liderados por Justa Nobre, que contou com a colaboração das assistentes Ana Graça e Teresa Seixas.

Além deste festival no Clube Militar, o “Junho, Mês de Portugal” inclui outras iniciativas de restauração, como a “Festa Gastronómica Portuguesa”, que decorrerá no dia 8, no restaurante Baccara do Hotel Sofitel. Trata-se de um “buffet gourmet” com vinhos seleccionados de nove regiões, numa noite dedicada aos “sabores autênticos portugueses”.

Enquanto isto, a série de eventos lançados para assinalar o “Mês de Portugal” engloba o roteiro gastronómico “Comer e Beber à Portuguesa”, em terceira edição, apresentando este ano um recorde de 35 restaurantes, bares ou cafés aderentes, que apresentarão menus temáticos com descontos de 10,06%, em alusão à data da celebração.

No final, através de um sorteio, os consumidores nesses espaços têm oportunidade de ganhar uma refeição para duas pessoas. Além disso, os clientes que pagarem os almoços ou jantares com o cartão BNU durante o período da promoção habilitar-se-ão ao sorteio de uma viagem a Portugal. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


Moçambique - Casa de Ferro da cidade de Maputo procura nova vida a chegar aos 135 anos

A icónica Casa de Ferro, instalada em 1892 na transição da primeira capital moçambicana, no período colonial, procura reinventar-se com nova vida, prevendo a função museológica para retratar a história e memória de Maputo.


Na Avenida Samora Machel, onde o pulsar da cidade cruza passado e presente entre edifícios que guardam memórias, a casa, em ferro como o nome, ergue-se como marco incontornável, entre as estátuas de Samora Machel – primeiro Presidente de Moçambique – e o fluxo constante da vida urbana, afirmando-se como memória viva da história da cidade de Maputo.

“A Casa de Ferro foi fabricada na Bélgica e, sendo uma casa pré-fabricada, foi trazida para esta cidade, chamada Lourenço Marques, em 1892”, começa por explicar à Lusa António Macandza, gestor da infra-estrutura, diante do imponente edifício, hoje referência incontornável do património arquitectónico da capital e que ao longo de quase 135 anos já conheceu diferentes localizações e funções.

Organizada em vários compartimentos distribuídos por três pisos, ligados por escadas e corredores estreitos, numa lógica funcional típica das residências coloniais da época, foi idealizada para albergar o então governador-geral de Moçambique, Rafael de Andrade, no contexto da transferência da capital da Ilha de Moçambique, na actual província de Nampula, para a então Lourenço Marques, hoje Maputo.

“No momento em que esta cidade era construída, toda ela era de madeira e zinco, tinha que se trazer um palácio para albergar o governador-geral de Moçambique e o governador não podia habitar numa casa semelhante a um cidadão pacato. Daí que foi importada esta casa, para dizer que a casa tem uma grande representação, um grande significado, porque não é uma casa qualquer, é, acima de tudo, uma relíquia”, afirma Macandza.

Apesar da imponência do edifício, com divisões que, embora simples, revelam uma adaptação engenhosa do ferro como elemento estrutural e decorativo, o gestor sublinha que Rafael de Andrade nunca chegou a habitá-lo, devido às condições climáticas de Lourenço Marques: “No Verão esta casa é extremamente quente, no Inverno a casa é extremamente fria, razão pela qual Rafael de Andrade, governador-geral de Moçambique, que estava a ser transferido da Ilha de Moçambique para Lourenço Marques, quando visitou a casa, viu que esta representava um atentado à sua saúde”.

Décadas depois da sua chegada a Maputo e de usos diversos ao longo do tempo, a Casa de Ferro seria reconhecida pelo seu valor simbólico e histórico, classificada desde 1972. Consolidou-se a partir daí como um dos principais marcos da memória urbana da capital, atravessando gerações como testemunho vivo de uma época e das transformações da cidade.

Hoje ponto turístico, a Casa de Ferro, associado às oficinas do francês Gustave Eiffel, atrai sobretudo visitantes estrangeiros que, intrigados pela estrutura metálica no coração de Maputo, aproximam-se para conhecer a história, num interesse partilhado por escolas, que recorrem ao edifício para transmitir às novas gerações o passado da capital.

“É internacionalmente conhecida, mais conhecida fora na Europa do que localmente. Então, o maior visitante turista tem sido o turista estrangeiro – europeu, americano -. [entre] os nacionais, temos recebido muitas escolas a visitar”, conta, lamentando, entretanto, que poucos “cidadãos adultos” visitam o edifício, por não conhecer o seu significado.

“Mas não é só a Casa de Ferro, são os monumentos de museus em Moçambique. Os nossos cidadãos não vão para esses sítios, apenas os alunos é que vão, porque os professores lá nas suas disciplinas de história percebem o impacto desses monumentos”, explica.

Após a última requalificação realizada em 2013, a Casa de Ferro necessita agora de uma “manutenção profunda”, uma vez que alguns compartimentos carecem de pintura para prevenir a ferrugem, enquanto o soalho de madeira exige intervenções de restauro. Para o gestor, esta reabilitação insere-se também no esforço de conferir uma nova vida e dinâmica ao edifício.

“De facto, a nossa maior luta neste momento é a atribuição de uma nova funcionalidade à Casa de Ferro, em que deixará de ser apenas um monumento protegido pela lei 10/88, passará também a albergar uma exposição museológica que deve retratar a história da transferência da capital da ilha de Moçambique para Lourenço Marques”, explica.

Além das exposições artísticas que a infra-estrutura acolhe pontualmente, prevê-se, segundo Macandza, a criação de bancas para venda de arte, “onde artesãos poderão expor e comercializar as suas obras”, bem como a instalação de espaços de convívio, como um café, “para que os visitantes da Casa de Ferro tenham um sítio de lazer”. Lina Cebola – Agência Lusa in “Jornal Tribuna de Macau”