Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hungria - Mia Couto distinguido com o título de Doutor Honoris Causa

O escritor moçambicano Mia Couto foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Eötvös Loránd (ELTE), uma das mais prestigiadas instituições académicas da Hungria, sediada em Budapeste.


A homenagem foi atribuída durante uma cerimónia realizada na passada sexta-feira, 08 de Maio, onde a universidade destacou o escritor moçambicano como uma “voz incontornável dos povos do chamado Sul Global”, sublinhando ainda a relevância internacional da sua obra, traduzida e premiada em dezenas de países.

Além de Mia Couto, a universidade distinguiu também quatro cientistas internacionais pelos seus contributos de relevância global nas respectivas áreas.

Na sua mensagem durante a cerimónia de gala Mia Couto partilhou aquele galardão de mérito com todos os escritores moçambicanos e com todos os professores que “se empenham em trazer luz e esperança para as novas gerações de Moçambique”

Mia Couto é um dos mais importantes escritores africanos contemporâneos. Autor de mais de 30 livros entre romances, contos, poesia e crónicas, tem a sua obra traduzida para mais de 30 línguas e publicada em diversos países. Vencedor do Prémio Camões, Mia Couto destaca-se pela recriação poética da língua portuguesa e pela forma como aborda a memória, a identidade, a tradição e os desafios sociais de Moçambique. A sua obra é referência incontornável da literatura africana e lusófona, contribuindo para a projecção internacional da cultura moçambicana. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Botswana – Discute-se futuro do desporto na África Austral

O futuro do desporto na África Austral está a ser discutido por líderes, representantes governamentais e parceiros estratégicos na Reunião do Conselho Consultivo 2026, em Gaborone, no Botswana


Segundo o Conselho Superior do Desporto da União Africana – Região 5 (AUSC Region 5), que avança a informação, numa nota enviada ao JA Online, a reunião serve para avaliar o progresso da região, reforçar a governação e acelerar o futuro do desporto na África Austral.

Simultaneamente, o encontro decorre num momento decisivo para a região numa altura em que as instituições africanas enfrentam desafios crescentes ligados ao desenvolvimento da juventude, inclusão económica, credibilidade institucional e integração regional.

Durante dois dias, os delegados da Região 5 vão analisar prioridades estratégicas, sustentabilidade financeira, governação institucional, programas de desenvolvimento juvenil e o futuro do desporto regional.

Os debates incluem a avaliação das actividades regionais e implementação estratégica, apresentação do Plano Estratégico revisto, questões financeiras e de governação, bem como relatórios sobre os Jogos da Juventude da Região 5, relatórios de implementação dos Estados-Membros e questões institucionais e constitucionais

A liderança da AUSC Região 5 reitera com esta iniciativa que o desporto já não pode ser visto apenas como competição ou entretenimento, mas como um instrumento estratégico de desenvolvimento, oportunidade, unidade e transformação social.

“As regiões que investem seriamente no desporto investem na juventude, na estabilidade, no crescimento económico e no futuro”, acrescenta o documento.

Por outro lado, a Região 5 assume o compromisso em construir instituições mais fortes, capazes de gerar oportunidades para atletas, jovens e comunidades em toda a África Austral, num período em que a região se prepara para grandes marcos, incluindo o RASA 2026 e os Jogos da Juventude da Região 5 Maputo 2026.

"O futuro do desporto africano não será construído apenas com discursos. Será construído por instituições capazes de liderar, reformar, inovar e entregar resultados", pode ler-se. In “Jornal de Angola” - Angola


Estados Unidos da América - Luso-americanos unem gastronomia e diáspora em simpósio internacional na cidade de Newark

Dois empresários luso-americanos promovem sábado, em Newark, um simpósio gastronómico inspirado nas comunidades emigrantes que moldam o cenário culinário e cultural diversificado naquela cidade norte-americana


Denominado “Saboreie Newark”, o evento tem curadoria da Plusable, uma companhia de relações públicas fundada nos Estados Unidos pelos luso-americanos Isabelle Coelho-Marques e Carlos Ferreira, e reunirá ‘chefs’ locais e internacionais, assim como decisores políticos, para apresentar a diversidade gastronómica de Newark e o seu papel cultural na região.

“Com convidados internacionais de Portugal, Brasil, Itália, entre outros países, o evento destaca a forma como as comunidades emigrantes estão a moldar a identidade de Newark e como a gastronomia serve como um poderoso motor de crescimento económico e de narrativa global”, indicou a Plusable num comunicado enviado à agência Lusa.

Será um dia de demonstrações gastronómicas e diálogo global subordinado ao tema “A Taça Culinária: Unidos à Mesa”, a poucas semanas de Newark e outras cidades dos Estados Unidos receberem uma audiência global para o Campeonato do Mundo de Futebol.


“Desde as influências portuguesas, brasileiras e espanholas do Ironbound District até às ricas cozinhas africana, caribenha e sul-americana que se encontram em Newark, a cultura gastronómica da cidade reflete gerações de herança, resiliência e inovação”, sublinha.

O programa deste ano inclui painéis de discussão dinâmicos, como “Unir Cidades Através do Sabor” e “Receber o Mundo: Comida, Cultura e o Palco Global de Newark”.

No ano passado, o ‘chef’ português Gil Fernandes foi o convidado especial do evento. Já na edição deste ano, o destaque vai para o ‘chef’ brasileiro Nelson Soares, que fará uma demonstração culinária ao vivo.

De acordo com a organização, outro dos principais destaques da edição deste ano é um acordo formal de intercâmbio de estudantes entre Newark e Cascais, permitindo a dois estudantes da cidade norte-americana treinar durante seis semanas com o ‘chef’ Gil Fernandes no restaurante Fortaleza do Guincho, em Cascais.

“O ‘Saboreie Newark’ é um poderoso reflexo de quem somos como cidade — ousados, diversos e profundamente ligados a uma família global mais ampla”, disse o presidente da Câmara de Newark, Ras J. Baraka, citado no comunicado.

“Enquanto nos preparamos para receber o mundo para os jogos do Mundial de Futebol, este evento mostra não só os nossos sabores, mas também os nossos valores — união, oportunidade e orgulho. Reunir talentos locais e parceiros internacionais para o ‘Saboreie Newark’ fortalece a nossa economia, eleva as nossas comunidades e constrói pontes culturais duradouras que se estendem muito para além das nossas fronteiras”, acrescentou.

O programa, que é gratuito e aberto ao público, inclui ainda degustações de restaurantes locais, oferecendo aos participantes a oportunidade de experienciar em primeira mão a diversificada identidade culinária de Newark, cidade que acolhe uma das mais significativas comunidades portuguesas nos Estados Unidos.

“Acreditamos firmemente que Newark é a autêntica capital gastronómica da América e que a sua cena culinária tem o poder de impulsionar o orgulho cultural e o crescimento económico”, afirmou Isabelle Coelho-Marques, CEO da Plusable.

Em entrevista ao Bom Dia, por ocasião do evento de 2025, Isabelle Coelho-Marques e Carlos Ferreira explicaram que acreditam “que a construção de laços estratégicos entre a diáspora portuguesa e Portugal tem um potencial imenso, que ainda não está a ser explorado ao nível que poderia e deveria ser”. Os luso-americanos sentem que, em muitos casos, a diáspora portuguesa ainda é vista “como uma comunidade presa ao saudosismo de um Portugal que já não está em sintonia com o país da atualidade”.

A dupla sugere que se passe a valorizar os talentos que se destacam na diáspora e se desenvolvam estratégias sustentáveis para elevar a marca de Portugal ao nível que merece, alcançando ainda mais destaque global. “Nas nossas comunidades que residem no estrangeiro, cada vez mais emigrantes e luso-descendentes ocupam cargos de destaque nos países de acolhimento, mas, ainda assim, o coração continua em Portugal”, concluem. Leia a entrevista completa aqui. In “Bom dia Europa” Luxemburgo com “Lusa”




Canadá - Ensino do português preocupa comunidade luso-canadiana na Província do Ontário

O novo embaixador de Portugal no Canadá, Bernardo Lucena, considerou na quinta-feira, que o ensino da língua portuguesa é uma das principais preocupações da comunidade luso-canadiana no Ontário, durante a sua primeira visita oficial a Toronto


“Um dos problemas, como sabem, que temos aqui em Toronto, e que me foi já várias vezes referido nestes primeiros contactos com a comunidade, é o ensino da língua portuguesa”, afirmou o diplomata aos jornalistas no consulado de Portugal em Toronto, num encontro aberto à comunidade portuguesa, clubes, associações e órgãos de comunicação social da diáspora.

Bernardo Lucena, que apresentou credenciais à Governadora-geral do Canadá há cerca de um mês, descreveu esta deslocação como a sua “primeira visita à Comunidade Portuguesa de Toronto”, sublinhando que a principal razão da deslocação é precisamente o contacto direto com os portugueses residentes no Ontário e o conhecimento mais aprofundado das suas preocupações.

“A mensagem é muito simples: quer o consulado-geral, quer a embaixada, tenham as portas abertas para a comunidade portuguesa, como sempre tiveram e continuarão a ter, e tentarei fazer o meu melhor para servir a comunidade portuguesa no Canadá”, declarou.

Segundo Bernardo Lucena, a questão do ensino do português foi abordada em reuniões mantidas esta quinta-feira com responsáveis do governo da província do Ontário, incluindo encontros com membros do executivo provincial ligados às áreas da economia e do ensino superior.

“As relações entre Portugal e o Canadá atravessam neste momento uma fase muito positiva, quer no plano económico, quer no plano político, e isso cria oportunidades importantes para Portugal e também para as comunidades portuguesas aqui estabelecidas”, afirmou o diplomata, acrescentando que Portugal poderá beneficiar do atual contexto de aproximação entre o Canadá e a União Europeia, incluindo nas áreas comercial e da defesa.

Nascido em Lisboa em 1960, Bernardo Lucena ingressou na carreira diplomática em 1987 e exerceu anteriormente funções como embaixador de Portugal em Cabo Verde e na Irlanda, representante permanente junto da OCDE e conselheiro diplomático do primeiro-ministro português.

A cônsul-geral de Portugal em Toronto, Ana Luísa Riquito, afirmou que o ensino da língua portuguesa continua a ser uma das principais preocupações da rede consular e associativa no Ontário, sobretudo devido às dificuldades enfrentadas pelo Programa de Línguas Internacionais do Distrito Escolar Católico de Toronto (TCDSB, sigla em inglês).

“Essa é uma mensagem que nós temos vindo a passar, o desvalor e a desvantagem que é eliminar um Programa de Línguas Internacionais num mundo onde a mobilidade é um valor nuclear, tanto para o percurso académico como para as oportunidades profissionais dos jovens”, afirmou a diplomata.

Ana Luísa Riquito recordou que o ensino do português no Ontário abrange escolas comunitárias, ensino básico e secundário e ainda o ensino universitário, nomeadamente através de programas existentes nas universidades de York e de Toronto.

A responsável explicou que a cooperação entre Portugal e as instituições de ensino canadianas é desenvolvida através do instituto Camões, com apoio financeiro, formação e treino de professores e iniciativas de promoção da língua e cultura portuguesas.

“O português não é apenas uma língua de identidade e de herança, é uma língua de oportunidade, uma língua internacional falada em vários continentes e cada vez mais valorizada no contexto global”, afirmou a cônsul-geral, referindo que essa posição foi transmitida pelo embaixador aos representantes do governo do Ontário.

Também o presidente do Conselho Regional da América do Norte do Conselho das Comunidades Portuguesas, Paulo Pereira, classificou como “gravíssimo” o risco de redução do ensino integrado de português nas escolas católicas de Toronto.

“O corte iminente do ensino integrado nas escolas católicas significa a perda do ensino português para cerca de 2200 alunos, o que seria um golpe muito duro para a nossa comunidade e para o futuro da língua portuguesa no Canadá”, alertou.

Segundo Paulo Pereira, a eventual eliminação das aulas integradas durante a semana poderá provocar uma quebra significativa no número de estudantes, uma vez que muitos alunos não terão disponibilidade para frequentar aulas apenas ao fim de semana.

“Vamos perder muitos alunos com isso, e o ensino integrado ajudava que os alunos matriculados na escola fizessem parte automaticamente do programa, sem terem de abdicar do tempo familiar ou das atividades de fim de semana”, explicou.

O conselheiro das comunidades portuguesas acrescentou ainda que o envelhecimento da população luso-canadiana está igualmente a afetar as associações comunitárias, tradicionalmente responsáveis pela promoção do ensino e da cultura portuguesas no Canadá.

Bernardo Lucena descreveu a comunidade portuguesa no Canadá como “dinâmica”, “bem integrada” e reveladora de “um portuguesismo assinalável”, considerando tratar-se de “uma comunidade de sucesso que continua muito ligada às suas raízes e à cultura portuguesa”.

O diplomata reconheceu, contudo, que muitos dos problemas apresentados pelos representantes comunitários são semelhantes aos encontrados noutras geografias da diáspora portuguesa, incluindo questões ligadas à participação eleitoral, serviços consulares e renovação geracional das organizações comunitárias.

A visita oficial do embaixador português a Toronto decorre entre 14 e 17 de maio e inclui encontros com autoridades provinciais, instituições sociais e associações portuguesas.

O programa prevê visitas à Luso Canadian Charitable Society, ao sindicato da construção LIUNA Local 183, à Casa dos Açores do Ontário, à Casa do Alentejo, ao Magellan Community Foundation e a Little Portugal, além da participação num encontro de professores de português no estrangeiro e na gala da Federação dos Empresários e Profissionais Luso-Canadianos. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Moçambique - Dalton Alfândega lança a sua primeira obra literária inspirada nos desafios de África

O jovem escritor moçambicano Dalton Alfândega prepara-se para lançar a sua primeira obra literária intitulada África, te nascem e te matam, no próximo dia 29 de Maio, numa iniciativa alusiva ao Dia de África, celebrado a 25 de Maio. O local do lançamento deverá ser anunciado nos próximos dias.


A escolha da data reforça o carácter simbólico e reflexivo da obra, que propõe uma leitura crítica sobre o continente africano, explorando as suas contradições históricas, sociais e humanas. No livro, África é apresentada como um espaço marcado por dualidades, onde coexistem esperança e sofrimento, resistência e abandono, crescimento e exclusão.

Com uma escrita de forte intensidade poética e tom interventivo, Dalton Alfândega aborda temas como pobreza, desigualdade social, corrupção, exploração e conflitos, sem deixar de destacar a capacidade de resiliência dos povos africanos perante os desafios do quotidiano.

Natural de Moatize e nascido a 17 de Maio, o autor é professor e licenciado em Ensino de Geografia. Apesar de estrear-se agora em livro, já participou em várias antologias nacionais e internacionais, afirmando-se gradualmente como uma das vozes emergentes da literatura moçambicana contemporânea.

Com este lançamento, Dalton Alfândega reforça o seu compromisso com uma literatura de intervenção social e cultural, contribuindo para o debate sobre a identidade africana, os desafios do continente e as possibilidades de transformação social através da escrita. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Brasil - Foi Deus quem criou a escala 6x1

O pastor Silas Malafaia é pela manutenção da escala de trabalho 6x1 e diante de seus fiéis, numa pregação na sua igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, aproveitou para criticar o Bolsa Família e ironizar "do jeito que estão indo as coisas, logo haverá gente querendo um dia de trabalho e seis de folga".

Evidentemente existe muito cinismo quando um milionário rejeita a escala 5x2, um dia de folga para os trabalhadores de menores salários, porém o pastor Malafaia tem a seu favor a Bíblia. Segundo ela, foi o próprio Deus quem criou a escala 6x1, pois teria trabalhado seis dias para criar a Terra, o homem e a mulher, mas no sétimo dia, escreve o primeiro livro bíblico, o de Gênesis, Deus descansou.

E, mais tarde, ao entregar os dez mandamentos para Moisés, Deus colocou a obrigação do descanso no sétimo dia, como terceiro mandamento, depois dos seis dias de trabalho, para a família humana. E isso incluía mesmo seus visitantes, seus animais e seus servidores, em outras palavras, seus escravos.

A ideia de um Deus cansado e ao mesmo tempo generoso era simplesmente simbólica, mesmo porque os sete dias de trabalho e descanso divinos não se repetiam. Mas essa primeira lei trabalhista, atribuída ao sobrenatural e inscrita nos livros religiosos desde os primeiros agrupamentos humanos, foi oportuna pois impedia a exaustão das pessoas numa época em que nenhum trabalho era mecânico.

Entretanto, a crença de uma origem divina da primeira lei limitando o tempo semanal de trabalho não significa que não possa ser melhorada. Aqui o erro dos fundamentalistas bíblicos, no caso Silas Malafaia e dos pastores evangélicos que lhe seguem nessa linha.

A escala bíblica do 6x1 tinha uma falha básica: não estabelecia quantas horas diárias se deveria trabalhar nos dias favoráveis. Assim, de uma maneira geral, mas vamos citar a França, só em 1848, os trabalhadores conseguiram limitar para 12 horas a duração do trabalho diário. Na maioria dos países ocidentais, trabalhava-se de 14 a 16 horas por dia. Marx defendia a jornada de 10 horas, mas a Revolução Russa de 1917 foi além, criou a jornada de 8 horas, imitada por outros países, como a França, em 1919.

Apesar de resistências de certos políticos e empregadores, existem setores no Brasil que já adotaram, faz tempo, escalas semanais de horas de trabalho favoráveis aos empregados. É o caso dos empregos com a chamada semana inglesa e o dos bancários com cinco dias de seis horas diárias num total de trinta horas semanais.

Entretanto, existem certas atividades de trabalhadores avulsos, como as empregadas domésticas, que dificilmente se adaptarão à escala 5x2 por pressão de seus patrões. Esse setor bem se enquadra na crítica do Canal Metrópoles sobre a mentalidade histórica de raízes coloniais de certos patrões, herdada do período da escravidão. Em compensação, o Valor Econômico já publicou reportagem mostrando a adesão de algumas empresas varejistas à escala 5x2 para seus empregados.

Em contrapartida, os trabalhadores de plataformas digitais conhecidos como uberizados ou empreendedores autônomos com flexibilidade horária, escapam à escala 5x2 e das proteções trabalhistas, embora esteja sendo discutida a regulamentação de seus trabalhos. Fora da proteção da CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, estão sem férias remuneradas e sem 13.º salário, trabalhando jornadas que ultrapassam as 8 horas normais e sem descanso semanal. Rui Martins – Suíça

__________

Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

Bartolomeu de Gusmão: a obra de um visionário

Historiador Daniel Pires reúne textos (quinze inéditos) do “padre voador” que estavam esquecidos nos arquivos

                                                          

                                                            I

Uma vida breve, mas assinalada por fatos que marcaram uma personalidade muito à frente de seu tempo, capaz de produzir textos extremamente importantes – essa descrição do que representou o sacerdote secular Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) pode ser comprovada com a leitura dos textos (quinze deles inéditos), além de traduções, petições e peças científicas em latim, que foram reunidos em Obra de Bartolomeu de Gusmão (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda – IN-CM, 2025), pelo historiador, pesquisador e professor Daniel Pires. Nascido na então vila de Santos, no Brasil, o religioso ficou conhecido como padre voador, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional (balão de ar quente), a “Passarola”, que subiu (sem tripulante) aos céus em 1709, em Lisboa, fato que acabou por circunscrever o seu nome a essa experiência pioneira, relegando praticamente ao esquecimento uma obra marcada por sua erudição e criatividade e por seu visionarismo e espírito científico.

Diplomata, poliglota, filósofo, polígrafo, poeta, ensaísta e orador sacro, Bartolomeu de Gusmão é considerado o primeiro cientista do continente americano. Morreu em Toledo, na Espanha, provavelmente por febre tifoide, em meio a uma vida tumultuada e atribulada por perseguições movidas pelo preconceito, pela inveja e pela ignorância, à frente das quais estava o Tribunal do Santo Ofício. Ainda em 2026 será possível conhecer circunstâncias mais detalhadas e fundamentadas dessa vida com a publicação pela IN-CM de uma biografia também preparada por Daniel Pires, que fez intensas pesquisas em arquivos de Portugal, Espanha e Brasil, tendo coligido novas informações sobre essa figura genial.

Para confirmar esse juízo, basta lembrar que Bartolomeu de Gusmão criou um aparelho aerostático 74 anos antes dos irmãos franceses Montgolfier – Joseph-Michel (1740-1810) e Jacques-Étienne (1745-1799) –, que construíram o Étienne, balão que subiu aos céus em 9 de setembro de 1783, levando uma ovelha, um pato e uma galo para testar os efeitos da altitude. O primeiro voo tripulado por humanos e idealizado pelos irmãos Montgolfier foi realizado a 21 de novembro de 1783, com Jean-François Pilâtre de Rozier (1754-1785) e o marquês François d´Arlandes (1742-1809), aventureiros que voaram sobre Paris por cerca de 25 minutos.

Apesar do pioneirismo de Bartolomeu de Gusmão, o seu espólio foi queimado pela Inquisição, que impôs igualmente a proibição, durante um século, de que seu nome fosse citado em documentos, orações sacras e apresentações públicas. O que se espera é que essa biografia bem como este livro que reúne textos de sua lavra sejam em breve publicados também por editora brasileira, já que se trata de um santista ilustre, cuja memória é reverenciada em monumento inaugurado em 1923 e localizado à Praça Rui Barbosa, antigo Largo do Rosário, no tradicional centro de Santos. O monumento, de estilo clássico, inclui um obelisco de granito, bustos do rei D. João V (1689-1750) e do aeronauta e inventor Alberto Santos Dumont (1873-1932), além de figuras em bronze.


                                                            II       

O que se pode adiantar ao futuro leitor é que Bartolomeu de Gusmão, ainda bem jovem, oriundo de uma família próspera e numerosa (12 filhos), deixou a vila de Santos para estudar no Seminário Jesuíta de Belém da Cachoeira e no Colégio de Jesus, na Bahia, onde iniciou sua formação religiosa e demonstrou talento para ciências e mecânica. No local, ele também teria desenvolvido um sistema para transportar água de um brejo para o seminário. Como seu conhecimento e habilidade não podiam ficar limitados ao Brasil profundo de então, por empenho de seus professores, pôde rumar em 1708 para Lisboa, onde logo atraiu a atenção do D. João V, que por ele passou a nutrir particular admiração, como observa Daniel Pires.

Matriculou-se então na Universidade de Coimbra e não demorou muito a apresentar ao monarca um projeto de um invento aerostático. Com a aprovação do rei, passou a trabalhar numa propriedade régia, em Alcântara. Despertou a admiração de alguns nobres, mas também atraiu a inveja de muitos despeitados que passaram a se referir ao seu invento com uma mescla de ironia e sarcasmo. Sem contar que imediatamente a alta hierarquia da Igreja Católica passou a considerar a sua máquina aerostática um “corolário de feitiçaria”, algo ligado ao demônio e ao judaísmo.

Também a juventude do inventor contribuiu para que germinasse essa má vontade com o seu invento que, no dia 5 (ou 8) de agosto de 1709, na Casa das Índias, subiu cerca de quatro metros, antes de se despenhar. Como diz Daniel Pires, o aparente insucesso da “Passarola” despertou o sarcasmo e a injúria de uma sociedade atrasada, provinciana, na maior parte analfabeta, que cultivava a intolerância, sem levar em conta que aquela havia sido a primeira vez que um objeto mais leve que o ar havia empreendido uma ascensão ao espaço. 

Em razão disso, aquele jovem de 23 anos teve de abandonar o seu projeto, mas não desistiu de buscar respostas científicas e, em 1710, publicou uma obra relevante para a navegação. Depois, para fugir à opressão em Lisboa, viveu três anos entre Londres, Haia e Paris, onde teve o apoio de seu irmão e discípulo Alexandre de Gusmão (1695-1753), que depois tornar-se-ia diplomata e teria papel crucial nas negociações, pelo Império português, do Tratado de Madrid, assinado com a Espanha em 1750, que definiu os limites entre os domínios de ambas as potências coloniais na América do Sul e na Ásia.

Em 1717, o inventor regressaria a Portugal e teria a oportunidade de concluir um doutoramento em Cânones, em 1719, quando então seria convidado a atuar como assessor do rei D. João V, especialmente sobre assuntos científicos. Teve a oportunidade de ajudar na criação da Academia dos Anônimos, da Academia Portuguesa e da Academia Real da História Portuguesa. E desenvolveu experiências para aumentar a produção de moinhos hidráulicos e a fabricação de carvão com terra artificial, além de atuar como conselheiro régio, decodificando documentos de nações inimigas. Apesar disso, em 1724, voltaria a ser vítima de perseguições encetadas pela Inquisição, o que o obrigou a fugir para o exterior, morrendo em situação de miséria, sozinho, doente, em Toledo, na Espanha, em 1724.

 

                                                            III

Entre os papeis inéditos de Bartolomeu de Gusmão, está um documento de 1723, originalmente redigido em latim, que estabelece as características de um sextante sofisticado que o sacerdote havia solicitado a D. Luís da Cunha (1662-1749), embaixador em Paris, que comprasse naquela cidade, para atender à pretensão do rei D. João V de desenvolver a arte de navegação. Esse documento consta do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, mas, até agora, havia passado despercebido pelos biógrafos.

Há outra uma carta de Bartolomeu de Gusmão a D. Luís da Cunha esclarecendo, com exatidão, o que pretendia, além de mais uma em que o sacerdote pedia àquele nobre que obtivesse uma planta do Observatório Astronômico de Paris, pois pretendia construir em Portugal uma instituição semelhante. Esse projeto, porém, seria adiado em razão da trágica morte de Bartolomeu de Gusmão e só em 1799 seria fundado o Observatório Astronômico da Universidade de Coimbra.

Além dessa extensa documentação oficial, a obra traz correspondência privada do religioso, como uma carta de fevereiro de 1720 em que ele pede ao rei autorização para se matricular no curso de Cânones fora do prazo estipulado, “por ter estado ocupado na redação de alegações, em defesa dos interesses régios”. É possível ainda ler o extenso sermão “Ecce Filius Tuus” em que o religioso faz uma descrição do nascimento do reino de Portugal, bem como o “Sermão da Paixão”, a ele atribuído, que consta do arquivo da Biblioteca da Ajuda, além de um terceiro texto sacro. Em todos, constata-se o profundo conhecimento que o orador tinha do conteúdo dos Santos Evangelhos. Para Daniel Pires, os três sermões “refletem capacidade argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”, cuja metodologia “é igualmente digna de registro”, com destaque para o “Sermão da Paixão”, “um texto literário de fino quilate”. 

É de se destacar ainda a atuação de Bartolomeu de Gusmão como filósofo, especialmente a partir da leitura de dois textos dessa natureza. Num deles, de caráter biográfico, como diz Daniel Pires, o filósofo “insurge-se contra a arrogância daqueles que, movidos pela inveja e para esconder a sua ignorância, menorizam ou desprezam as pessoas que se distinguem pela inovação intelectual, pelos princípios éticos e pelo seu idealismo”.

Como observa o historiador, esse texto teria sido redigido na sequência da ascensão da “Passarola”, que, na verdade, só na aparência teria sido um insucesso. E acrescenta: “Recorde-se que surgiram então comentários mordazes, prosas e poemas satíricos, quase sempre anônimos, como é próprio da falta de deontologia. Na verdade, este ensaio é o corolário da observação do meio intelectual português de então, estreito e anêmico”.

 

                                                  IV


Doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, Daniel Pires (1951) é mais conhecido por suas pesquisas sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), sua paixão literária, o que o levou a ser cofundador, em 1999, em Setúbal, do Centro de Estudos Bocageanos, instituição que dirige desde então, além de defender tese de doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra completa de Bocage, publicada pela editora Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.

É autor de outros livros sobre o poeta e coordenador e editor de vários trabalhos de divulgação da produção bocageana. Recentemente, publicou O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, IN-CM, 2023), biografia sucinta, que abriga os principais aspectos de uma existência marcada por acontecimentos inauditos que não impediram o poeta de construir uma obra marcante na história da literatura de língua portuguesa.

Nascido em Lisboa, Daniel Pires é licenciado em Filologia Germânica e já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Foi leitor de Português nas universidades de Glasgow, Macau e Goa e professor cooperante em São Tomé e Príncipe e Moçambique.   Em Macau, viveu entre 1987 e 1990 e lá atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

Tem realizado numerosas atividades, como colóquios, conferências, visitas guiadas e exposições, e desenvolvido intensa atividade editorial, tendo editado já dezenas de livros. É editor de Obras completas de Bocage (Lisboa, IN-CM, 2016-2018, 3 volumes, 4 tomos) e autor de Bocage ou o elogio da inquietude (Lisboa, IN-CM, 2019) e Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000).

Organizou e publicou a brochura da Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos cartões postais (sépia) sobre Bocage na prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999), além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015. 

Publicou ainda o Dicionário da imprensa periódica literária portuguesa no século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes.  Colaborou no Dicionário de História de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa e é autor do Dicionário da imprensa de Macau do século XIX, trabalho iniciado em 1990 em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), saíram simultaneamente em Macau e em Cantão, e do Dicionário de imprensa periódica do Antigo Regime em Portugal (Lisboa, Theya Editores, 2024).

É autor de A imagem e o verboFotobiografia de Camilo Pessanha (Instituto Cultural do governo da Região Administrativa Especial de Macau/Instituto Português do Oriente, 2005), além de artigos sobre esse poeta nascido em Coimbra em 1867 e que, a partir de 1894, viveu em Macau, onde morreu em 1926. Escreveu também trabalhos sobre o poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929).  E organizou Camões pequenoObra completa de Francisco Álvares da Nóbrega (2024), que reúne produções desse poeta madeirense nascido em 1773, em Machico, e falecido em 1806, em Lisboa.

É autor também de Padre Gabriel Malagridao último condenado ao fogo da Inquisição (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2012), Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 e o Padre Malagrida (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2013) e Raul Proença: o caso da biblioteca (Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988), que contou com organização, estudos e notas de Daniel Pires e José Carlos González. Adelto Gonçalves - Brasil

____________________________                                                        

Obra de Bartolomeu de Gusmão, de Daniel Pires. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 22,50 euros, 271 páginas, 2025. Site da editora: www.imprensanacional.pt E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt E-mail do autor: danielbrspires@outlook.pt

__________________________________

Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br