Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cabo Verde – Recensão crítica de Adriano Miranda Lima sobre o livro Diálogos Inquietantes de Armindo Ferreira

Acabei de ler Diálogos Inquietantes e, antes de mais, para além do assinalável mérito literário, felicito-te pela coragem cívica em exprimir publicamente, e com todas as letras, o que muita gente pensa, mas evita dizer. Faz lembrar a expressão "o rei vai nu", naquela situação em que a inocência infantil desmascara alto e bom som uma realidade que só não é por todos denunciada por cobardia, medo ou conveniência.


Não é a primeira vez que o fazes. Em obras anteriormente publicadas – por exemplo, Mulheres de pano preto − e em diversos artigos de opinião, o público leitor ficou a saber que não silencias uma opinião esclarecida e fundamentada sobre os acontecimentos ocorridos na Guiné e em Cabo Verde a seguir ao golpe militar de 25 de Abril. No fundo, está em causa a entrega de bandeja do poder ao PAIGC por um MFA que rotulas, e muito acertadamente, de cobarde e impreparado para as lides políticas e diplomáticas em que se viu envolvido. Igualmente impreparados eram os quadros do PAIGC para as responsabilidades que assumiram nos dois territórios, convencidos de que a crença na ideologia marxista seria por si só geradora de uma poção mágica para a resolução de todos os problemas, desde logo a virtude de criar “um homem novo” mediante o “suicídio de classe” dos mais favorecidos e a súbita transformação das populações em obreiras colectivas de uma nova sociedade. Tudo isto sob a égide de um dogmatismo marxista-leninista que, como já era sabido, foi fautor de falência económica e regressão social em todo o lado onde foi experienciado. A alternativa – a liberdade e a democracia – estava fora de questão porque era luxo burguês na opinião dos paigcistas e dos esquerdistas do MFA que, de mãos dadas, selaram naquela conjuntura o destino imediato do povo das ilhas.

Tudo isto explicas muito bem no livro e só fica com dúvida quem obstinadamente recusa aceitar a verdade.

Entre os pontos fortes do livro destaca-se a dessacralização da figura de Amílcar Cabral. Não o fazes de ânimo leve, levianamente, ou por motivação ideológica, mas com uma argumentação profusa e apoiada em factologia conhecida e documentada. Nisto, enfileiras com outros autores e ensaístas que questionam a imagem imaculada de Cabral como figura política, retirando-o do pedestal mitológico em que os seus indefectíveis seguidores o colocaram. Com o teu livro, fiquei a conhecer factos que eu ignorava, pelo que ele é desde já um valioso documento que guardarei e recomendarei. Mas eu próprio já tive ocasião de, em diálogos ou comentários em círculos restritos e espaços públicos, questionar a dimensão do estratego que alguns atribuem a Cabral, argumentando que, se o fosse, jamais poderia conceber a viabilidade de um projecto político de união entre os dois territórios. Este é um aspecto que aprofundas muito bem recorrendo à história e à comparação dos perfis culturais e psicológicos dos dois povos em causa. Sim, aprendi muito com o teu livro, seja o que de mais relevante norteou a conduta política do líder ou até algumas particularidades da sua vida pessoal. Por exemplo, o facto de o seu pai, Juvenal Cabral, ter sido responsável pela paternidade de cerca de 23 filhos de mães diferentes.

Estranho é que haja cabo-verdianos que o enaltecem como homem e figura cívica, talvez só por ter gerado o alegado “pai da nação cabo-verdiana”, sem sequer o ter sustentado, tanto quanto parece ter acontecido, responsabilidade que recaiu exclusivamente sobre os ombros da sua mãe. Mas esses presunçosos panegiristas serão os últimos abencerragens do antigo PAIGC ou estiveram na luta pela independência em território guineense, embora a maior parte em funções mais burocráticas que guerreiras, pois a condição de carne para canhão parece ter sido reservada aos guineenses. De facto, a mitologia à volta de Amílcar Cabral, elevado por algumas mentes crédulas à sacrossanta condição de “pai da nação cabo-verdiana”, começou aos poucos a ser questionada e apontada como produto de fantasiosa criação respaldada pela ideologia política, sem qualquer fundamentação na história, na cultura e na ciência. Alguns autores ou analistas políticos como Maika Lobo, Daniel dos Santos, José Leitão da Graça e José Luís Hopffer Almada contestam essa paternidade atribuída a Amílcar Cabral. De um modo geral, convergem contigo na argumentação de que a nacionalidade cabo-verdiana só pode ser concebida numa perspectiva histórica e existencial de uma amplitude que jamais pode circunscrever-se à acção de uma personagem ocorrida num tempo limitado no século XX e menos ainda quando avaliada segundo um critério puramente dogmático. Não creio que seja pertinente ou faça qualquer sentido atribuir um pai à nação cabo-verdiana. Creio que quando muito se pode é identificar individualidades que ao longo da história do território interpretaram o sentimento colectivo do povo das ilhas, indo ao fundo da sua alma, e o manifestaram em obras de arte. Por outro lado, vem também à tona a responsabilidade moral de Cabral pelas mortes por fuzilamento ocorridas, creio que várias vezes, nas suas hostes. A tendência é ilibá-lo para manter à sua volta uma aura de virtude, moderação e tolerância compagináveis com o perfil de alguém que procurou passar nos areópagos internacionais a imagem de um democrata. Analisas bem essa circunstância, podendo deduzir-se que o antigo burocrata terá aprendido aos poucos a moldar a sua estrutura mental e moral à lógica do ambiente de violência que era indissociável da missão que se impôs. Ele teria certamente a mesma alma pacífica da maior parte dos seus conterrâneos, mas, como diz Ortega e Gasset, o homem é a sua circunstância. E Fernando Pessoa, aludindo à publicidade da coca-cola, também disse: primeiro estranha, depois entranha-se.

Quanto ao resto, bastaria analisar as fragilidades e o estrondoso falhanço do projecto político de Amílcar Cabral para se reconhecer que nada, mas rigorosamente nada, justifica as narrativas excessivamente polarizadas construídas à volta da personagem. Pode-se, sem dúvida, enaltecer a sua inteligência, a sua capacidade de organização e liderança, bem como a sua determinação em pugnar por um ideal humano, mas a grandeza dos seus feitos tem de ser avaliada em função dos resultados concretos que ficaram para a posteridade. E estes, longe de serem favoráveis, podem indiciar, pelo contrário, inversão de padrões civilizacionais na Guiné-Bissau, cuja instabilidade política e social a coloca na condição de um estado falhado e de futuro nebuloso. Ali não nasceu um “homem novo”, pelo contrário, a avaliar pelas ridículas figurinhas fardadas, com o peito estrelado de medalhas, que constantemente desestabilizam o país, conclui-se que nada de positivo se pode esperar de mentes rasas de valores cívicos e de seres envaidecidos com a ilusão do poder dado pelas armas que detêm.

Até mesmo em Cabo Verde, cuja sustentabilidade só tem sido viabilizada graças às ajudas externas e à sua criteriosa reciclagem, não se pode considerar auspicioso o curso da independência política que foi reconhecido ao país. Ironicamente, pode dizer-se que a boa vontade da comunidade internacional teve um contraponto negativo: ao contemporizar-se com a solução política imposta de supetão ao território, terá impedido que ao povo fosse facultada a possibilidade de escolher livremente o seu destino. Foi assim que os tais “melhores filhos da nação”, os da paternidade política do PAIGC, tiveram a via aberta e segura para, com o apoio do MFA, inviabilizar a solução democrática que certamente seria a aspiração da maioria do povo quando foi derrubado o regime anterior

Só por crassa ignorância ou irresolvido complexo de colonizado é que não se reconhece que caberia a Portugal, como aliás sempre entenderam líderes como Costa Gomes, Spínola, Mário Soares e Almeida Santos, integrar Cabo Verde como região autónoma em moldes semelhantes aos Açores e Madeira. Assim, em vez de receber dádivas da comunidade internacional para poder sobreviver, Cabo Verde poderia passar a ser contemplado, não com esmolas, mas com o que seria de direito próprio. Cheguei a invocar a rábula “comeram-me a carne, agora roam-me os ossos” para ilustrar que quem descobriu e povoou as ilhas jamais poderia livrar-se assim tão facilmente das suas responsabilidades históricas. Há quem não veja o problema nessa perspectiva, mas há dias agradou-me ler num espaço público o comentário de um cabo-verdiano que terminava assim: “afinal, os primeiros cabo-verdianos foram os portugueses”. Isto vinha a propósito da simpatia que os portugueses manifestaram em espaços públicos para com o desempenho da selecção de futebol da nossa terra no Mundial. Não foi por acaso que, há alguns anos, quando eu o José Fortes Lopes e o Arsénio de Pina fomos à Associação de Antigos Alunos de Cabo Verde falar sobre Regionalização, estando presente o Onésimo Silveira, este afirmou ao usar da palavra: “foi um erro histórico não ter sido possibilitado a Cabo Verde a auto-determinação em vez da independência política nas circunstâncias em que ocorreu.”

Resta-me uma palavra sobre o MFA, uma vez que ele tem graves responsabilidades no que aconteceu em Cabo Verde. Fui um adepto consciente do 25 de Abril, mas nunca teria imaginado que alguns oficiais do quadro permanente tão depressa se metamorfoseassem em marxistas-leninistas. O protagonismo da ala esquerdista do Movimento contribuiu para que a indisciplina nos quartéis, sobretudo em alguns, chegasse ao extremo e transformasse a imagem da instituição castrense em autêntica caricatura. Alguns militares, mesmo uns poucos profissionais, deixaram crescer cabelos, barbas e patilhas de uma forma ridícula, como querendo imitar um qualquer Che Guevara ou revolucionário sul-americano de pacotilha, na aparência, mas também na adopção de condutas e procedimentos em tudo contrários aos regulamentos militares. Não se deram conta do anacronismo das suas figuras e da inadequação da tal “sociedade socialista” que, por influência partidária, apregoavam sem saberem o que isso significaria como modelo a encaixar de supetão no país e a impor-se contra a vontade nacional. Até porque a condição revolucionária surgiu, na maioria dos seus protagonistas, de geração espontânea, sem nada que a atestasse, por conhecimento teórico ou experiência política anteriormente adquiridos. Só a ignorância explica uma surpreendente e momentânea sedução por modelos sociais do Leste Europeu que não levariam muitos anos a claudicar. É como se alguns militares profissionais tivessem perdido a noção do posicionamento do seu país no quadro geopolítico europeu e abdicado da formação ética e disciplinar que a vida toda os norteou.

Ora, é nesse contexto que se movimentaram as representações do MFA localizadas nas antigas colónias e diligenciaram para que o poder fosse entregue praticamente de mão beijada aos movimentos de libertação. Como tu bem os classificas, agiram mais por cobardia do que com a consciência do dever que se lhes impunha. Costa Gomes foi bem claro quando exprimiu a sua opinião sobre o que se passava em Cabo Verde, conforme citas.

No entanto, os militares em Cabo Verde não pertenciam todos a essa célula local do MFA, do mesmo modo que os oficiais designados por “gonçalvistas” eram uma minoria. Foi enviado para S. Vicente o capitão de Infantaria Macedo Marques, do quadro permanente, a comandar uma companhia de caçadores. Ele é do meu tempo e há mais de 40 anos, durante a frequência de um curso de estado-maior em que ambos participámos, contou-me as atribulações por que passou, principalmente no episódio da intitulada “libertação da Ribeira Bote”. Regressou com má impressão dos cabo-verdianos, devido aos excessos que lá presenciou e a que foi chamado a conter com os seus soldados. Também privei com o então capitão de Cavalaria Velasco Martins, que foi enviado para S. Vicente a comandar uma companhia de Polícia Militar na altura de maior instabilidade cívica. Confessou-me que não esperava certos comportamentos porque levava a impressão de que os cabo-verdianos eram um povo pacífico e cordato.

Também sou amigo e correspondente de um oficial da Marinha que ao tempo era 1º tenente (corresponde a capitão no exército) e estava colocado no Comando Naval, em S. Vicente. Ao contrário dos dois oficiais referidos, este, sim, era dos mais activos elementos da célula local do MFA, um esquerdista convicto. Tanto terá pisado o risco que o Comando Naval o transferiu em Setembro (1974) para Angola. Não se arrepende do que fez, antes orgulha-se, imagina, de ter contribuído para o povo de Cabo Verde “escolher o seu melhor destino”. Hoje capitão de mar-e-guerra reformado, não muda de opinião e por isso não percebe ou finge não perceber que o povo de Cabo Verde não escolheu o seu destino, mas que este lhe foi imposto em grande parte por acção da célula local do MFA. Tendo sido adepto convicto do “gonçalvismo”, alinhando com os que defendiam que o MFA devia ser o instrumento para a criação de uma “sociedade socialista”, foi um dos vencidos em 25 de Novembro.

Para terminar, penso que foi um recurso literário interessante o uso do alter ego Leónidas, que considero um reflexo do inconsciente da personagem e narrador Leonardo. Imbuído de convicções, ainda assim ele admite que exista uma ou outra ligeira réstia de dúvida no edifício das suas certezas, porque no fundo sabe que o contrário fá-lo-ia incorrer em dogmatismo, tal como os seus adversários ideológicos, e que é mais seguro questionar-se ele próprio para uma maior clarificação do seu pensamento.

Reitero o meu agradecimento pelo livro e deixo aqui um abraço amigo. Adriano Lima – Cabo Verde / Portugal in “coral-vermelho.blogspot“

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Adriano Miranda Lima - Coronel reformado do Exército português, natural da cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, a viver na cidade de Tomar, Portugal. Publicou Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial e Dr. José Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar

Cabo Verde - Armindo Ferreira desafia narrativas sobre a independência, o PAIGC e Amilcar Cabral em “Diálogos Inquietantes”

Moçambique - Miguel Luís lança romance sobre o drama da mineração em Manica

O escritor moçambicano Miguel Luís lançou na cidade da Beira, o seu primeiro romance, intitulado A terra ainda está zangada, na Livraria Fundza, numa sessão que marcou o início de um roteiro literário que leva o autor às províncias de Manica e Maputo.

Ambientado no universo da mineração, particularmente na província de Manica, o romance acompanha Francisco, um adolescente que vê o seu sonho de continuar os estudos ameaçado depois de o pai desaparecer num desabamento ocorrido num campo de mineração. Ao lado do amigo Eurico, o jovem acaba por descobrir que uma empresa mineira, alegadamente protegida por autoridades e homens armados, pretende apoderar-se das terras, do ouro e das águas do rio Púnguè.

A narrativa aborda temas como a perda, os conflitos familiares, a ganância, a injustiça e a resistência de comunidades confrontadas com a exploração dos seus recursos naturais. Para Miguel Luís, o interesse pela mineração não está apenas no fenómeno económico ou técnico, mas sobretudo nas consequências que esta actividade produz sobre as pessoas, as famílias, os afectos e o território.

O escritor, que actualmente vive em Portugal, explica que a obra resulta também de uma ligação permanente a Moçambique e da necessidade de reflectir sobre as dores e transformações do país. O processo de escrita começou entre 2018 e 2019, quando a exploração de rubis despertou a sua atenção. No entanto, o projecto ganhou novo impulso depois de uma passagem por Maputo, em Dezembro de 2024, experiência que, segundo o autor, o levou a confrontar-se com um país marcado pela dor.

Mais do que um simples romance, Miguel Luís considera A terra ainda está zangada uma espécie de oração à sua terra natal. O título, explica, reflecte as feridas que permanecem na sociedade moçambicana depois de diferentes períodos de conflito e instabilidade, incluindo a luta de libertação, a guerra civil, os conflitos militares e a violência registada em 2024.

A ensaísta Fátima Mendonça considera a obra um romance de formação, destacando a capacidade narrativa do autor e uma escrita ancorada na realidade social moçambicana.

Depois da apresentação na Beira, Miguel Luís seguiu para Manica. Na cidade de Chimoio, o escritor esteve na Escola Mwana Unerufaro, no dia 14, para uma conversa com alunos do ensino secundário. No mesmo dia a obra foi apresentada aos leitores na UniPúnguè pelo escritor e editor Dany Wambire.

O programa incluiu ainda um encontro com o Clube do Livro da Beira, no dia 15 e uma apresentação em Maputo, no dia 20, pelo músico Stewart Sukuma, além de uma conversa com estudantes de Ensino de Português da Universidade Eduardo Mondlane, marcada para o dia 25.

Nascido em Maputo, Miguel Luís é escritor e advogado. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mestre em Estratégia de Investimento e Internacionalização pelo Instituto Superior de Gestão. Tem textos publicados em antologias e na imprensa moçambicana e portuguesa e foi distinguido em diferentes prémios literários. Em 2023, publicou O Desamparo das Flores, obra que foi finalista do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil de Moçambique em 2024. In “O País” - Moçambique


Macau - Instituto Cultural vai lançar directrizes para o restauro de edifícios do Centro Histórico

O Instituto Cultural (IC) vai lançar directrizes para o restauro dos edifícios do Centro Histórico de Macau ainda este ano, avançou Leong Wai Man, em resposta a uma interpelação escrita em que o deputado Chan Hao Weng criticava a falta de critérios uniformizados. A presidente do IC revelou também que o organismo vai reforçar a sensibilização da população com cursos de formação profissional sobre a salvaguarda do património cultural, estando o próximo agendado já para o mês de Setembro


O Instituto Cultural (IC) vai lançar directrizes para o restauro dos edifícios do Centro Histórico de Macau ainda este ano. O objectivo é o de orientar a reabilitação de imóveis patrimoniais e incentivar a sua recuperação e salvaguarda pela sociedade, de acordo com informações avançadas por Leong Wai Man.

Em resposta a uma interpelação escrita, a presidente do IC notou ainda que a página electrónica dedicada ao Património Cultural de Macau dispõe, actualmente, de um sistema de consulta que permite aos requerentes acompanhar o processo de apreciação e aprovação por parte do organismo, de forma a garantir a sua total transparência.

A informação surge como resposta às preocupações levantadas pelo deputado Chan Hao Weng relativamente à conservação e fiscalização das obras de restauro do património arquitectónico protegido em Macau. Em concreto, o deputado lamentou a inexistência de “normas técnicas uniformizadas para o restauro” dos edifícios protegidos, assim como a falta de “regulamentação expressa para a recuperação das fachadas”. O resultado é uma “grande aleatoriedade nos critérios adoptados”, uma vez que nem os proprietários nem as entidades responsáveis pelo restauro possuem normas concretas para a execução das obras.

Chan Hao Weng denunciou também a “falta de uniformidade nos critérios relativos à identificação dos materiais, à tonalidade das fachadas exteriores, às técnicas de execução das obras e à fiscalização in loco”. Para além da “falta de coerência estética” e da “descaracterização da fisionomia original”, alterada por estas intervenções, verifica-se também um aumento significativo dos custos económicos e do tempo de expedição dos pedidos, segundo acusa o deputado. Após o restauro, diz, é também frequente o surgimento de problemas como o envelhecimento das paredes ou o reaparecimento de anomalias estruturais, dificultando uma “conservação eficaz a longo prazo”.

Na sua resposta, Leong Wai Man começa por assinalar que as obras de restauro em edifícios históricos “devem ser precedidas da elaboração de projectos de construção através de consultores com qualificações profissionais adequadas, tendo como referência os sistemas e princípios internacionalmente reconhecidos no âmbito da salvaguarda do património cultural” e baseando-se em princípios de “autenticidade”, “intervenção mínima” e respeito pelas características originais. As únicas alterações feitas devem limitar-se às partes danificadas, “a fim de evitar substituição ou renovação excessiva e assegurar a protecção eficaz do seu valor cultural”.

Além disso, como os edifícios de Macau reflectem o “carácter único” do território, conjugando elementos chineses e ocidentais provenientes de diferentes períodos históricos, o IC procede a uma “análise rigorosa” de cada caso, avaliando os diferentes materiais, técnicas e tonalidades de cores a usar em cada edifício.

“Durante as diversas fases de elaboração de projectos de obras nos edifícios patrimoniais, o IC mantém uma estreita comunicação e colaboração com os proprietários ou administradores dos edifícios, assim como discute soluções e emite pareceres técnicos direccionados para os projectos de restauro, de modo a permitir que as obras decorram sem imprevistos”, reforça Leong Wai Man.

No documento de resposta, nota-se ainda que o IC tem procurado sensibilizar a população geral através da organização de workshops, cursos certificados e formações profissionais na área do restauro, em colaboração com instituições de ensino superior, com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) e com a Associação dos Engenheiros de Macau (AEM).

Entre as múltiplas iniciativas promovidas, o destaque vai para a 5.ª edição da “Formação Profissional em Restauro dos Edifícios Patrimoniais”, que será realizada no próximo mês de Setembro. Embora não divulgue a data concreta, o IC aponta também para o final deste ano a realização de um “curso de formação internacional sobre a salvaguarda do património cultural em conjunto com um organismo especializado ligado à UNESCO, com o propósito de reforçar de forma contínua a formação de quadros qualificados na área do restauro e de salvaguarda dos recursos do património cultural preciosos do território em articulação com a sociedade”. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


Quénia - Mal misterioso mata elefantes no Quénia e intriga especialistas

Deitado no chão, o elefante Gengis Khan luta em vão para se levantar, mas só consegue girar repetidamente sobre si mesmo. A cena desperta o temor de que ele se torne o 20.º paquiderme da região queniana de Amboseli a sucumbir a um mal misterioso.


Ao seu redor, veterinários injectam glicose, um paliativo diante da falta de respostas sobre o que está a matar este jovem macho de 11 anos, com os olhos avermelhados e dificuldade para respirar.

As manadas de elefantes tornaram famosa esta região de savana no sul do Quénia, dominada pelo majestoso Kilimanjaro, a maior montanha da África, do outro lado da fronteira com a Tanzânia.

Desde o fim de Junho, pelo menos 19 elefantes, sobretudo fêmeas ou jovens, morreram após apresentar os mesmos sintomas, em particular uma paralisia parcial que os impedia de ficar em pé.

“Eles caminham, respiram com dificuldade e ficam agitados”, descreve Patrick Papatiti, chefe de operações das terras comunitárias de Olgulului, onde fica a reserva de Kitenden B. Quando “já não conseguem caminhar” ou ficar em pé, “eles deitam-se”, e alguns “lutam por um, dois ou três dias, até morrer”, acrescenta.

No fim de Julho, o Serviço de Vida Selvagem do Quénia (KWS) informou ter detectado altas concentrações de cianeto nos cadáveres, o que aponta para um possível envenenamento por pesticidas após o consumo de frutas de propriedades agrícolas próximas.

No entanto, vários especialistas consultados pela AFP descartam a hipótese dos pesticidas.

“É uma doença”, afirmou Papatiti, embora admita ainda não saber qual. “Por que razão, aqueles que deveriam estar a esforçar-se para resolver o problema ignoram essa pista?”, questionou.

“Aqui não se usa cianeto em nenhum lugar”, afirmou. Papatiti, uma das poucas vozes locais que rejeitam publicamente as conclusões preliminares do KWS, realça que não foi encontrado nenhum outro animal morto.

Ele destaca, em particular, a ausência de animais necrófagos mortos, que geralmente também sucumbem quando consomem carcaças de animais abatidos com flechas envenenadas por caçadores ilegais.

“Se nenhum outro animal que se alimenta de carniça morreu, então não é um produto químico”, afirmou à AFP Joel Nyika, responsável pelo ecossistema de Amboseli no condado de Kajiado.

Nyika também rejeita a hipótese, igualmente levantada pelo KWS, de que o cianeto possa ter vindo de uma planta forrageira, já que o gado das comunidades locais também teria morrido. Ele acredita “numa doença que afecta apenas os elefantes”.

Até agora, o KWS descartou que se trate de uma doença contagiosa e recomendou que os turistas continuem a visitar normalmente a região.

Na reserva de Kimana, nas proximidades, jornalistas da AFP observaram na passada quarta-feira seis carcaças de elefantes, algumas mais recentes do que outras. Os guardas disseram que os animais apresentaram os mesmos sintomas, incluindo uma paralisia parcial que os impedia de permanecer em pé.

Algumas mortes haviam ocorrido poucos dias antes. A carcaça de um filhote de elefante de dois meses, cercada por moscas, estava parcialmente devorada por hienas. Sobre a carcaça de uma elefanta que morreu pouco antes do fim da gestação, alimentavam-se quase 10 abutres.

Procurada pela AFP, a presidente da fundação Wildlife Direct, Paula Kahumbu, destacou a “falta de provas” que sustentem a hipótese dos pesticidas e ressaltou que poucos elefantes machos adultos morreram, embora sejam eles os que mais invadem plantações.

Papatiti também rejeita a hipótese de envenenamento deliberado e considera que a prioridade é “saber o que está a matar os nossos elefantes”, em vez de “perder tempo a procurar culpados”.

O assunto é particularmente delicado num país que transformou a sua fauna selvagem numa marca internacional e numa importante fonte de receitas turísticas.

Procuradas pela AFP, várias organizações de protecção ambiental recusaram-se a comentar o assunto, limitando-se a pedir uma investigação, e os guardas da reserva de Kimana afirmaram não ter autorização para se pronunciar.

Papatiti teme que o número de elefantes mortos esteja subestimado e que o mal também afecte animais na vizinha Tanzânia.

“Quantos elefantes vão morrer antes que possamos deter isso?”, questionou, perguntando se uma possível doença poderia ser transmitida ao gado e até mesmo aos seres humanos das comunidades locais. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”


domingo, 16 de agosto de 2026

Cabo Verde - “Contos das Ilhas” resgata memórias, tradições e imaginário cabo-verdiano em nova obra de Armando Ferreira

Cidade da Praia – O escritor cabo-verdiano Armando Ferreira apresenta a obra Contos das Ilhas, uma colectânea de histórias inspiradas na memória, nas tradições e no imaginário do arquipélago, que propõe ao leitor uma viagem por diferentes dimensões da identidade cabo-verdiana.


Segundo um comunicado enviado à Inforpress, o livro já se encontra disponível nas livrarias Nhô Eugénio e Pedro Cardoso, estando prevista para Outubro a sua apresentação pública na Cidade da Praia, num momento que contará com a presença do próprio autor.

Com recurso à ficção e à narrativa de inspiração popular, Armando Ferreira reúne contos marcados por personagens, acontecimentos e ambientes que remetem para experiências e vivências das ilhas, explorando temas como os afectos, os mistérios, as tradições e a relação entre memória e identidade.

Mais do que uma reunião de histórias, de acordo com a mesma fonte, o livro procura recuperar e valorizar elementos do imaginário colectivo cabo-verdiano.

Assim, a obra reúne uma escrita marcada pela sensibilidade, pelo humor e por uma apurada dimensão reflexiva, através da qual o autor revisita a sociedade, a cultura e o imaginário do arquipélago cabo-verdiano.

A obra propõe, deste modo, uma incursão pelo património de memórias, vivências e referências que moldam o imaginário cabo-verdiano, recuperando personagens e universos que permanecem inscritos na experiência colectiva de várias gerações.

Contos das Ilhas – Cabo Verde, um Híbrido de Sucesso foi publicado em 2026 pela editora Caleidoscópio e apresenta-se como uma compilação de textos produzidos entre 2023 e 2026. In “Inforpress” – Cabo Verde


Angola - Osvaldo Sahopa apresenta “O Florescer de um Amor Infinito Sol de Lua”

O escritor da Academia de Autores da Huíla (ASA-Huíla), Osvaldo Sahopa, apresentou no Lubango, a sua mais recente obra literária, intitulada “O Florescer de um Amor Infinito Sol de Lua”, um romance que retrata a realidade da juventude huilana, com particular enfoque para o município da Humpata


Com 243 páginas, a obra aborda igualmente temas motivacionais dirigidos à juventude, numa linguagem acessível, destacando os desafios emocionais enfrentados pelos jovens.

Segundo o autor, o romance é inspirado em factos reais e acompanha a trajectória de uma jovem que inicia a sua história no município da Humpata, passando pela província do Huambo até chegar a Portugal.

“É um livro que conta factos reais que, muitas vezes, as pessoas não gostam de contar. Faço essa revelação através da história de uma jovem que acaba por ser vítima de violência sexual e, posteriormente, conhece o amor da sua vida”, explicou Osvaldo Sahopa.

A obra encontra-se disponível em regime de pré-venda, ao preço de nove mil kwanzas. A publicação resultou de uma produção independente do autor e foi impressa numa gráfica da cidade do Lubango, capital da província da Huíla. João Katombela – Angola in “O País”


112









Vamos aprender português, cantando

 

112

 

Hoje eu até liguei para o 112

para saber se alguém tinha visto por aí

quem me prometeu um para sempre e não trouxe, quero um reembolso já que nunca o recebi

fico a pensar se alguém roubou o nosso amor mas quem é que desvia uma encomenda assim? agora até o cupido é criminoso

liguei, mas o 112 nada fez por mim

diz-me onde está, a que horas chega

esse amor que nos vicia, que nos prende, que nos aconchega diz-me de onde vem essa encomenda

este amor que nos vicia, que nos prende, que nos aconchega

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás sou trovoada, tempestade, chove o ano todo

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás a manhã não traz o sol, é noite o dia todo

Só de boca a boca é que eu me reanimo

E quando está de chuva o 112 demora

Se calhar até merecia levar com esta molha

Se calhar tu também querias saber quem eras sem mim E era mais fácil te esquecer

Se tu tivesses mudado

Afinal, estás igualizinha, és o amor da minha vida, mas tens outro namorado

Onde está, a que horas chega?

esse amor que nos vicia, que nos prende, que nos aconchega diz-me de onde vem essa encomenda

esse amor que nos vicia, que nos prende, que nos aconchega

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás sou trovoada, tempestade, chove o ano todo

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás a manhã não traz o sol, é noite o dia todo quando tu não estás...

hoje até me atenderam do 112

disseram que o meu problema não era grave ou me atendeu um louco ou não entendeu bem que o meu pobre coração foi assaltado

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás sou trovoada, tempestade, chove o ano todo

vai chover hoje

em pleno agosto

quando não estás a manhã não traz o sol, é noite o dia todo quando tu não estás

 

ÁTOA – Portugal

D.A.M.A - Portugal