Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O fim da privatização como panaceia

Obra do professor e economista Ricardo Paes Mamede contesta a ideia de que o Estado deveria intervir o mínimo possível na economia 

                                                                                                    

                                                                                I

Que a privatização não é uma panaceia para os problemas econômicos ou de infraestrutura é o que se vem constatando nos últimos tempos, especialmente no Brasil, a partir da privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), concluída em julho de 2024 pelo governo estadual, depois de uma série de incidentes graves, que incluíram uma explosão de gás no bairro do Jaguaré, na capital paulista, provocada pela inexperiência de operários de uma empresa terceirizada, que deixou um morto e dezenas de imóveis destruídos. 

No caso da Sabesp, o que se pode lembrar ainda é que, em vez a aumentar a eficiência operacional, a privatização gerou expressivo número de reclamações, cortes de pessoal técnico, aumento de tarifas, reajustes contratuais desfavoráveis aos trabalhadores e debates sobre a perda de controle estratégico em serviços essenciais, como água e esgoto. Mas, se alguém ainda alimenta dúvidas quanto à privatização como solução mágica, é recomendável que leia a obra Política industrial. Como os Estados transformam as economias (Lisboa, Contraponto Editores, 2026), do professor e economista Ricardo Paes Mamede, que contesta veementemente a ideia de que o Estado deveria intervir o mínimo possível na economia, assumindo-se apenas como mero legislador e regulador para garantir o funcionamento eficiente dos mercados.  Para o economista, o século XXI voltou a trazer a política industrial para o centro do debate político e econômico.

Em sua obra, o economista procura mostrar como os Estados podem agir para transformar a estrutura das atividades produtivas, tendo em vista determinados objetivos públicos, esgrimindo os prós e os contras da intervenção estatal enquanto ação modeladora das estruturas produtivas, bem como na promoção de atividades específicas. Para tanto, com base nas experiências ocorridas em séculos anteriores não só na Europa como nos Estrados Unidos e na Ásia, mostra quais deveriam ser as prioridades e os instrumentos da política industrial na governação.

 

                                             II

O professor argumenta que essa mudança de mentalidade foi provocada, em grande parte, pelo sucesso econômico da China nas últimas décadas, considerado um “indício da eficácia de uma estratégia pública que dirigiu os apoios para atividades específicas”. E acrescenta: “Diversos estudos sobre os chamados “tigres asiáticos” (em particular, Coreia do Sul, Taiwan e Singapura) e sobre o papel do Estado na industrialização dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão, por exemplo, demonstraram que o sucesso é indissociável de um conjunto de intervenções seletivas, orientandas para setores sofisticados, geralmente acompanhadas de disciplina concorrencial e de uma forte orientação exportadora”.

Seja como for, o economista adverte que esse regresso à política de intervenção estatal também não está isenta de riscos, lembrando que os recursos a subsídios e taxas aduaneiras para favorecer produtores nacionais podem gerar ineficiências persistentes e intensificar tensões geopolíticas. E observa que a questão é saber como desenhar e implementar políticas que evitem esses riscos, mas que criem o ambiente material e institucional que permite que eles floresçam, intensificando efeitos de encadeamento, diversificação produtiva e ganhos de produtividade.

Um exemplo que se pode acrescentar é o do Estado de Goiás, que passou a apresentar altos níveis de desenvolvimento a partir da adoção de uma política de incentivos fiscais, que atraiu grandes indústrias para o Centro-Oeste, já que antes essas empresas optavam por Estados litorâneos, em razão da proximidade com os portos.

Depois de assinalar que a Inglaterra sempre foi protecionista até se tornar rica e que os Estados Unidos, às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), já eram a economia mais avançada do mundo, apoiada no protecionismo alfandegário, no controle público do crédito, no apoio estatal ao desenvolvimento de uma rede de trens e canais navegáveis, o economista observa que muitos países aprenderam com a experiência de industrialização e de avanço tecnológico dessas nações. E ressalta que a Alemanha foi um dos primeiros países a fazê-lo, inspirada nas ideias do economista alemão Friedrich List (1789-1846), para quem “a prosperidade não derivava apenas da liberdade de comércio, mas sobretudo da construção deliberada das forças produtivas: indústria, ciência, formação técnica, infraestruturas modernas e um sistema financeiro orientado para o investimento produtivo”.

Para List, como observa Mamede, o protecionismo e as políticas públicas não eram um obstáculo, mas sim instrumentos fundamentais para que um país jovem escapasse à condição de fornecedor periférico de matérias-primas e adquirisse a capacidade de competir, em pé de igualdade, com as potências industriais. Foi com esta aprendizagem americana, acrescenta o autor, que List regressou à Europa e elaborou o seu projeto político para a futura Alemanha unificada, já que, até então, a fragmentação aduaneira entre os Estados germânicos bloqueava a emergência de um mercado nacional, condenando a indústria alemã a uma posição secundária.

Em suas conclusões, Mamede diz que a política industrial não é uma mera técnica de governação econômica, mas uma atitude perante os desafios que os países enfrentam. Ou seja, é a decisão coletiva de não deixar a evolução das capacidades produtivas de uma nação ao sabor das interações de mercados, “assumindo que o destino das economias nacionais pode e deve ser orientado com sucesso através de processos de deliberação coletiva”. Isso quer dizer, segundo o economista, que as capacidades produtivas não se transformam por decreto, mas “dependem de infraestruturas, qualificações, sistemas de inovação, relações laborais, financiamento, regulação, expectativas e estratégias coletivas”.  Em suma: dependem de política.


                                                      III

Nascido em Coimbra, em 1974, Ricardo Nuno Ferreira Paes Mamede, economista, é professor de Economia Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Iscte), do Instituto Universitário de Lisboa (IUL), instituição pública. Frequentou a Escola Secundária de Odivelas e licenciou-se em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, em 1996, e, na mesma instituição, fez o mestrado em Economia e Gestão de Ciência e Tecnologia, em 1999. Doutorou-se em Economia pela Universidade Bocconi, na Itália, em 2006. Leciona desde 1999 no Iscte-IUL nas áreas de Política Industrial e de Inovação, de Economia Política Internacional e de Avaliação de Políticas. É vice-reitor do Iscte para a Internacionalização e a Extensão Universitária desde março de 2026.

Foi presidente da Comissão Instaladora do Iscte-Sintra (Escola de Tecnologias Digitais Aplicadas) entre 2022 e 2025 e presidente da direção do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (Ipps-Iscte) entre 2018 e 2023. Entre 2008 e 2014, foi coordenador do Núcleo de Estudos e Avaliação do Observatório do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN). Foi diretor de Serviços de Análise Econômica e Previsão do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e da Inovação em 2007/2008.

É atualmente diretor do Mestrado em Economia e Políticas Públicas do Iscte-IUL e, desde 2017, membro do Conselho Econômico e Social, eleito na qualidade de “personalidade de reconhecido mérito”. É ainda comentarista no programa de televisão Tudo é Economia, da RTP3, tendo participado anteriormente em outro programa da mesma emissora, Números do Dinheiro.

É autor de A crise, a troika e as alternativas urgentes, em co-autoria com Alexandre Abreu, Hugo Mendes, João Rodrigues, José Gusmão, Nuno Serra, Nuno Teles, Pedro D. Alves (Lisboa, Tinta da China, 2013); Structural Change, Competitiveness and Industrial Policy: Painful Lessons from the European Periphery, co-organizador com Aurora Teixeira e Ester Silva (Londres, Routledge, 2014); O que fazer com este país (Lisboa, Marcador, 2015); A economia como desporto de combate (Lisboa. Relógio d´Água, 2016); e Economia com todos, em co-autoria com João Rodrigues, José Caldas, Nuno Teles, João Almeida, Diogo Martins, Nuno Serra, Jorge Bateira, Paulo Coimbra, Eugénia Pires, Alexandre Abreu, Hugo Mendes e José Gusmão (Lisboa, Relógio d'Água, 2017). Adelto Gonçalves - Brasil

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Política industrial. Como os Estados transformam as economias, de Ricardo Paes Mamede. Lisboa, Contraponto Editores, 272 páginas, 16,92 euros, 2026. Site da editora: www.contraponto.pt; E-mail da editora: contraponto@contrapontoeditores.pt; E-mail do autor: ricardo.mamede@iscte-iul.pt 

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.brParte superior do formulário




Argentina - Família de origem algarvia constrói negócio de sucesso

Uma empresa familiar de chocolates e alfajores, fundada por duas irmãs com raízes no Algarve, tornou-se uma referência comercial na província argentina de Chubut


Tudo começou em 1992, quando duas irmãs da família Luz Clara começaram a experimentar receitas de chocolates e alfajores em casa. O pequeno projeto familiar cresceu ao longo dos anos e deu origem a um negócio que mantém a produção artesanal.

Mais de três décadas depois, a Chocolates de la Colonia conta com dois estabelecimentos, localizados em Comodoro Rivadavia e Rada Tilly, e dispõe também de um salão de eventos.

A história da Chocolates de la Colonia foi destacada pela embaixada de Portugal na Argentina, durante uma visita a Comodoro Rivadavia. A visita da embaixada coincidiu com a véspera do Dia da Mãe na Argentina, uma altura em que muitas famílias se deslocavam ao estabelecimento para escolher presentes.

A embaixada de Portugal sublinha que este é mais um exemplo do contributo das famílias lusodescendentes para o desenvolvimento comercial e produtivo da Patagónia argentina. In “Bom dia Europa” - Portugal


Cabo Verde - Escritora cabo-verdiana Zaida Sanches nomeada para prémio internacional de literatura infanto-juvenil

Lisboa – A escritora cabo-verdiana Zaida Sanches foi nomeada para o Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) 2027, um dos mais prestigiados prémios internacionais de literatura infanto-juvenil, que conta nesta edição com 277 candidatos de 80 países e regiões.


Em nota enviada à Inforpress, a autora lembrou que os 277 nomeados, dos quais 85 integram a lista pela primeira vez, foram anunciados pela organização no dia 14 de outubro e o vencedor ou a vencedora da edição 2027 será anunciado a 6 de abril de 2027.

A distinção foi criada em 2002, pelo Governo da Suécia, em homenagem à escritora Astrid Lindgren, oriunda daquele país, para reconhecer as pessoas e organizações cujo trabalho contribui para a literatura infanto-juvenil e para a promoção da leitura.

“Este reconhecimento é gratificante a título pessoal, mas também permite levar a cabo-verdianidade ao distinto palco, que celebra o mérito, a criatividade, a autenticidade e a promoção da leitura”, afirmou a também diplomata, que agradeceu à Arte-Via pela indicação e dedicou a nomeação a Cabo Verde.

Zaida Sanches tem sete obras infanto-juvenis publicadas, sendo quatro da colecção Stera, publicadas há 17 anos, que abordam temáticas tradicionais da cultura cabo-verdiana, resgatam elementos da tradição oral, preservam a cultura e a identidade.

Em 2019 publicou em forma de contos O Planeta Mágico, O Planeta Azul e Sou Diferente que compõem a Coletânea Direitos Humanos, Ambiente e Diversidade.

Os três livros abordam questões como os direitos fundamentais, a protecção ambiental, a inclusão e a convivência num mundo plural, conjugando a valorização da cultura cabo-verdiana com temas de cidadania global.

Duas obras da autora, A Sopa da Beleza e Sou Diferente constam do Manual de Língua portuguesa, do 2.º e do 4.º ano, do ensino primário em Cabo Verde, são estudadas nas rubricas “A minha família” e “Juntos com as nossas diferenças”, respectivamente.

Os seus livros têm sido mencionados em trabalhos académicos realizados por estudantes da Universidade de Cabo Verde, (Uni-CV) e objecto de estudo em artigos científicos em revistas internacionais de analise literária, por docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

O Planeta Azul é uma das obras que os estudantes da Escola Superior de Educação de Portugal narram para Cabo Verde no âmbito do Projecto Internacional Viajar com Livros. A anotar ainda que, foi publicado no Brasil, em 2024, o Manual Antirracista - Para uma Educação Plural - Memórias Negras e Afro-Indígenas, em que a bibliografia da escritora é estudada nesta edição, assim como aspectos culturais do seu país.

Para além da escritora de Cabo Verde, da lista dos candidatos lusófonos para o Prémio ALMA, constam nomeados de Portugal e do Brasil.  Os países com maior número de candidatos nomeados foram a Suécia, o Reino Unido, os Estados Unidos da América, a Finlândia, o México e a Noruega.

Na edição de 2026, o prémio foi atribuído ao escritor e ilustrador canadiano Jon Klassen. In “Inforpress” – Cabo Verde


Angola - É o 17.º país com maior incidência de pobreza multidimensional grave

Ser pobre é muito mais do que apenas não ter dinheiro, é também estar afastado de direitos fundamentais, como a educação, a saúde ou o saneamento básico e electricidade. Em Angola, as privações são tão profundas que um terço da população está privada de uma vida digna. Forte crescimento populacional também não ajuda. Melhorar a educação e a economia é a resposta. Índice Global de Pobreza Multidimensional 2026 avalia 108 países


Quase um terço (29,6%) da população angolana enfrenta pobreza multidimensional grave, com restrições de várias ordens, desde monetárias ao acesso a ensino, saúde e serviços básicos como água potável ou electricidade, de acordo com o Índice Global de Pobreza Multidimensional de 2026 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que avaliou 108 países em regiões em desenvolvimento. Ainda assim, há uma ligeira melhoria face aos 32,5% registados no relatório de 2025, o que fez com que o País saísse do 15.º pior lugar para o 17.º no que diz respeito à pobreza multidimensional grave, de acordo com cálculos do Expansão.

A pobreza multidimensional ocorre quando uma pessoa ou agregado familiar sofre com uma acumulação extrema de privações ao mesmo tempo, ultrapassando significativamente o limite padrão da pobreza. Enquanto uma pessoa é classificada em situação de pobreza multidimensional quando está privada em pelo menos um terço (33,3%) dos indicadores analisados, a pobreza multidimensional grave é efectiva quando a pontuação de privação atinge 50% ou mais desses indicadores.

Contas feitas, tendo em conta que, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a população angolana é actualmente de 38.778.554, então 29,6% em pobreza multidimensional grave equivalem a 11.478.452 de pessoas.

Em relação a "apenas" à pobreza multidimensional (sem ser a grave), 49,3% da população angolana sofre desta condição. E 14,8% da população é vulnerável à pobreza multidimensional, ou seja, não são pessoas consideradas oficialmente pobres no momento, mas enfrentam privações significativas e correm sério risco de cair na pobreza. Joaquim Reis – Angola in “Expansão”


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Reino Unido – Cidade de Londres acolhe 5.ª edição do Kweli dedicado à soberania cultural

A cidade de Londres, na Inglaterra vai acolher, no dia 31 deste mês, a 5.ª edição do Fórum Internacional Kweli, dedicado à soberania cultural, económica e social dos países africanos e da sua diáspora


A iniciativa é promovida por promotores cultural, em parceria com a Pro Solutions Group e a Umoja Generational Wealth, e reúne especialistas de diversas áreas, nomeadamente Direito, Economia, Psicologia, Nutrição e Cultura.

De acordo com uma nota, sob a premissa de valorizar a identidade e o conhecimento histórico africano, o encontro propõe debates sobre perspectivas e dinâmicas sociais que complementam as abordagens do ensino formal, promovendo o intercâmbio de saberes entre gerações.

A edição deste ano dá continuidade ao circuito internacional do projecto, iniciado em Portugal e que já passou por Angola, Brasil e Moçambique. Além do formato presencial na capital britânica, os painéis temáticos contarão com transmissão em sala virtual para participantes inscritos a partir de outros países. In “Jornal de Angola” - Angola


Portugal - Maria Célia Lima-Hernandes, autora de “Macau – Lótus do Oriente”: “Em Macau quase tudo é híbrido”

Docente da Universidade de São Paulo e ex-professora na Universidade de Macau, a linguista Maria Célia Lima-Hernandes queria estudar o português de Macau e acabou por escrever um livro sobre as áreas “híbridas” do território, com foco na língua e na comunidade macaense. “Macau – Lótus do Oriente” é apresentado hoje na Casa de Macau em Lisboa


Como surge Macau no seu trabalho académico?

Fui professora de língua portuguesa na Universidade de São Paulo. Todas as vezes que tinha de falar sobre o português em Macau, não tinha material suficiente. Então esperei que as minhas filhas crescessem para me candidatar a uma bolsa para poder fazer pesquisa em Macau. O único livro que havia na universidade [Universidade de São Paulo] sobre Macau era de Graciete Batalha [Bom Dia, S’tora!] e falava da língua crioula [patuá], e não português. Quando dava aulas dizia que em Macau havia um crioulo, mas não sabia falar nada sobre o português e a sua situação. Só quando fui para Macau é que descobri o que era, de facto. Depois, comecei a frequentar o outro lado, e comecei a interessar-me pela história do entrosamento entre portugueses e chineses. Comecei a dividir o meu trabalho com o Arquivo Histórico de Macau, no Tap Seac, e a analisar certidões, assentos de nascimento, casamento e morte, de óbito, e também testamentos. Comecei a descobrir a história das meninas que foram abandonadas, ou que ficaram órfãs mesmo, na primeira década do século XX.

Porque escolheu esse período para investigar?

Há muitos estudos até ao final do século XIX, há muitos estudos a partir de 1920. E a documentação da primeira década desapareceu, com tufões e incêndios, e o que ficou são registos de nascimento, morte ou casamento. Comecei a investigar a partir daí.

Este livro funciona como uma espécie de radiografia de Macau, da sua geografia humana. Como foi encontrar um fio condutor nesta diversidade que é Macau?

Voltando a esta primeira década do século XX, Macau era um território onde se podia caminhar, e as pessoas comentavam nestes documentos históricos que a China era do outro lado. Perguntei, anos mais tarde, a macaenses o que planeavam para o futuro, agora que [a administração de] Macau tinha passado para a China. Perguntava como tinha sido percebida a entrada da China no território. As respostas deram-me outras questões, e uma delas era que a China estava a aproximar-se pela água, e ninguém percebia. Houve aterros. As pessoas não tinham esta noção. Isto aconteceu em 2015, no segundo momento da minha estadia em Macau. Mesmo na universidade, os meus alunos ajudaram-me a perceber essa percepção do espaço. Eu perguntava: “Quando estão aqui [no campus da UM em Hengqin] estão em Macau ou na China?”. Os professores, e também os portugueses, que viviam no campus; e os alunos de Macau diziam que estávamos em Macau. Mas os alunos da China diziam que ali era a China, porque tinham a mesma rede de telemóvel. Aí comecei a trabalhar na questão das fronteiras, e com os documentos recuei no tempo, descobrindo a Ilha Verde que já não era ilha, mas que as pessoas ainda chamavam assim. Tudo isso foi mudando, mas as percepções das pessoas não. Fiz entrevistas a pessoas que se dizem macaenses 100 por cento, ou seja, 50 por cento chinês, 50 por cento português. Esse é um dos grupos que trabalho neste livro. Há outros grupos de macaenses, mas esse é o mais interessante, porque é a raiz de Macau. São muito chineses e muito portugueses, defendem essas duas nacionalidades como uma só, nessa hibridez. Foi aí que surgiu a ideia da flor de lótus [para o título do livro], porque ela é híbrida. Tanto está no meio do lodo, como sobe à superfície, mostrando toda a beleza que tem. Os macaenses que se dizem 100 por cento são isso.


Deu aulas em Macau em 2015, mas esteve no território antes para fazer pesquisa.

Só cheguei a Macau em 2010. Fiz as entrevistas, não havia smartphones, então foi tudo feito corpo a corpo. Depois voltei ainda para pesquisar documentos no Arquivo Histórico, e regressei então em 2015. Macau já estava totalmente diferente. Fiquei a viver no campus da UM, e tive uma experiência completamente diferente.

Mas voltando à questão do macaense. No livro refere que não é só uma questão de etnia, mas de “construção social”. Em que sentido?

Os macaenses 100 por cento sempre tiveram o chinês dentro da família. Alguns receberam o documento oficial dentro da família, a certidão de baptismo, apenas depois da morte da parte da família portuguesa. Mantém-se ali, como filhos da herança portuguesa, mas não têm o documento, e conseguem-no não porque lutassem por ele, mas porque deveriam ser escondidos, porque ninguém queria ter uma mãe chinesa, compreende?

Falamos aqui da primeira década do século XX?

Sim, mas essa situação repete-se com as pessoas que entrevistei, muitos anos depois. Nessa primeira década era a situação das meninas órfãs, e analisei o caso das meninas que estavam na congregação das Canossianas, italianas. Elas recolhiam essas crianças, dando-lhe instrução e ensinando português.

Eram meninas sem família?

Algumas tinham família e eram entregues porque os pais queriam que fossem inseridas na sociedade. Outras eram entregues por serem bastardas, filhas de soldados portugueses que não as reconheciam. A vida era muito difícil para muitas famílias [da comunidade chinesa], por causa de guerras, tufões, doenças. Elas percebem que, com a presença portuguesa [em Macau] era necessário incluir essas meninas, para que tivessem uma história digna na sociedade. Ia passando de boca em boca, nesta comunidade, o que era ensinado e o que era necessário para se ser uma mulher macaense. Mas elas não tinham nome. Tinham o nome chinês, e depois eram sujeitas a um baptismo colectivo, e aí recebiam nomes portugueses. Inicialmente, são dados os nomes das freiras. Depois, na segunda geração de crianças, já são nomes de macaenses. Falamos então de meninas macaenses oriundas de famílias chinesas pobres e que moravam em zonas periféricas. São crianças inseridas na sociedade e que depois ganham um segundo nome, com o marido macaense ou português metropolitano. Então, logo aí, havia a construção social do macaense. Mas isso vai acontecer depois na sociedade, mesmo com chineses.

Disse que entrevistou apenas um grupo de macaenses. Porquê?

Interessaram-me os que foram para a Escola Comercial. Eram mais de classe média, e existia uma pobreza muito grande. Eles foram para essa escola para aprender um ofício e começar a trabalhar.

O seu livro faz também uma espécie de estudo das línguas existentes em Macau, da relação entre o patuá, o português e o chinês. É uma espécie de levantamento da evolução destes idiomas no território.

Na verdade, quando comecei a pesquisa, percebi que o tema não era aquele por onde tinha começado. O tema ganhou vida e outras proporções. Percebi que o tema que sempre me tinha interessado era a hibridez, e ao longo do livro percebemos que em Macau quase tudo é híbrido, e é muita coisa. Mas, obviamente, não analisei tudo.

Então, o que é homogéneo em Macau?

Acho que a identidade do português da metrópole é homogénea. Mesmo que os portugueses tenham casado depois com chinesas, e que ficaram em Macau até hoje, e que nem querem voltar para Portugal, têm uma identidade portuguesa muito forte. Os chineses, por outro lado, também são muito homogéneos.

De todos esses cenários de hibridez em Macau, qual é, para si, o mais fascinante?

O que mais me fascinou foi a forma como as duas identidades convivem. São duas coisas numa só. Quando estive em Macau agora, fui ao Cemitério [de São Miguel Arcanjo], identifiquei ali algumas meninas [da pesquisa dos primeiros anos do século XX]. Então o que mais me encanta é essa hibridez que não é vista, nem percebida. É a hibridez identitária, da comida misturada, da terra com a água. A língua passou a ser o que menos importava. A língua mostra, vincula, mas esconde muita coisa.

Macau está num rápido processo de integração regional. Em que lugar fica esta hibridez? Que território vamos ter?

É uma boa pergunta. Quando vejo os prédios a serem erguidos na Grande Baía, pergunto: “Quem vai morar ali?”. Espera-se que sejam para os reformados, então vamos tirar um grupo de pessoas de um espaço, levá-lo para outro grupo, e é uma hibridez diferente, porque vai entrando cada vez mais na China. Parece-me que quando voltar lá daqui a cinco anos, talvez a hibridez seja de chineses. Sempre houve, mas é mais escondida do que aquilo que podemos pensar. Nos levantamentos que fiz para o livro, havia uma grande mistura de chineses, mas toda ela coordenada pela China. Quem entrava, quem vinha fazer o quê em Macau. Conheci uma senhora que veio ao colo da mãe para Macau. Hoje está completamente integrada na sociedade. Então ela é chinesa de Macau? Não, macaense. Então no futuro vai ser difícil separar tudo isso, porque os macaenses 100 por cento que conheci estão a morrer e os filhos já usam inglês como língua corrente. Acho que, no futuro, vai ser chinês e inglês.

No livro diz que temos de olhar para Macau “como um caleidoscópio”, porque existirem muitos condicionalismos na definição desses perfis de língua. Em que sentido?

Senti que, cada vez que chegava a Macau, era como se tivesse um caleidoscópio na mão, agitasse e tivesse sempre uma nova imagem a aparecer, com mudanças muito rápidas. O discurso também mudou, e da penúltima vez que voltei, havia um debate imenso na imprensa sobre a questão do chinês e a questão da preservação do cantonês. Para um linguista não há dialectos, porque todas as formas de manifestação linguística são línguas, pela questão de sociolinguística, pelo direito de falar. E o cantonês é uma língua muito forte. Os professores já ensinam mandarim na sala de aula, mas o vigor do cantonês mantém-se, e acho que é uma tradição muito forte, é mesmo cultural. É a língua da família, e isso não se perde.

Foi para Macau estudar o português no território. Encontrou as respostas que queria?

Identifiquei coisas sobre as quais não vou poder avançar mais, porque tudo está a mudar rapidamente.

O que acha que vai mudar mais depressa?

A geografia, a mobilidade do povo. Quando sai um funcionário público macaense ou português, entra um chinês para o lugar. Haverá mais chineses que chegam para estudar e ficam. Mais chineses do exterior que ficam. Esta é uma obra emocional, que fala de pessoas que conheci. Andreia Silva – Portugal in “Hoje Macau”




Portugal - Daniel Pires apresenta livro sobre padre pioneiro da aerostação

Bartolomeu de Gusmão, padre e pioneiro da aerostação perseguido pela Inquisição, é tema de um livro de Daniel Pires, que o autor apresenta a 29 de outubro, às 21h00, na Casa da Cultura

A sessão, de entrada livre, decorre na Sala José Afonso, numa organização do Centro de Estudos Bocageanos e da Câmara Municipal de Setúbal.

Editado pela Imprensa Nacional, Bartolomeu Lourenço de Gusmão – Um padre-cientista voando sobre brasas aborda o percurso do inventor associado ao projeto da “Passarola” e a perseguição que o obrigou a fugir para Espanha.

Segundo Daniel Pires, a Inquisição interpretava a máquina aerostática como sinal de um pacto com o demónio, acusação que acompanhou o padre-cientista ao longo da vida. Para evitar ser queimado, Bartolomeu de Gusmão protagonizou uma fuga durante a qual morreu em Toledo, Espanha, aos 38 anos.

O inventor demonstrou, em 8 de agosto de 1709, a subida de um pequeno balão de ar quente perante D. João V e a corte portuguesa, numa experiência precursora na história do voo.

Além da atividade científica, a biografia explora as facetas de historiador, orador sacro, jurista, poeta e filósofo. Daniel Pires destaca igualmente o trabalho de decifração de documentos diplomáticos codificados, num contexto de guerra entre Portugal e Espanha.

A vontade de dar a conhecer o percurso de uma figura que considera pouco conhecida esteve na origem desta investigação, publicada numa obra que evoca o tricentenário da morte de Bartolomeu de Gusmão.

O livro, já disponível nas principais livrarias, estará também à venda no dia da apresentação. In “Notícias Município de Setúbal” – Portugal com “Hoje Macau”