Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

França - Petição lançada para repor aulas de português nas escolas primárias da cidade de Marselha

A associação Passerelles Lusophones lançou uma petição para pedir o regresso das aulas de português às escolas primárias de Marselha e das localidades vizinhas. A iniciativa já ultrapassou as 80 assinaturas e tem como primeiro objetivo chegar às 300


“No ano letivo 2026/2027, as escolas primárias de Marselha e das localidades vizinhas deixaram de contar com esta oferta de ensino de português. Perante esta situação, a Passerelles Lusophones decidiu mobilizar-se para defender o regresso destas aulas a partir do próximo ano letivo. A associação considera essencial que as crianças portuguesas e lusodescendentes da região possam continuar a aprender português desde o ensino primário e manter uma ligação à língua e à cultura portuguesas”, explica a associação em nota enviada ao Bom Dia.

“É importante que as crianças portuguesas e lusodescendentes da região possam continuar a aprender português. Estamos a falar de Marselha, a segunda maior cidade de França, e de uma região onde vivem muitas famílias ligadas a Portugal”, lê-se ainda. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


Hong Kong - Desmitificação da presença de uma civilização europeia superior na Região Administrativa Especial: a violência da colonização e a segregação social imposta pelos britânicos

Hong Kong e Macau são, respetivamente, desde 1997 e 1999, duas Regiões Administrativas Especiais (RAE) da República Popular da China (RPC).


Em 1997, Hong Kong tornou-se na Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK), deixando de estar sob a alçada britânica e passando para a jurisdição chinesa, no seguimento de um acordo estabelecido com os britânicos que estabelece as regulamentações do novo território, assim como os direitos e deveres dos seus residentes, numa Lei Básica. Seria, igualmente, este processo que serviria de exemplo para o acordo que a República Popular da China e Portugal estabeleceriam, o qual permitiria a criação, em 1999, da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).

Compreender as razões que subjazem à atual existência da RAEHK implica, contudo, compreender o porquê da presença britânica em território chinês.

Hong Kong fica a leste do estuário do Rio das Pérolas, na província de Guangdong, no Sul da China. O território é um dos mais densamente povoados do mundo, com uma população de quase 7,5 milhões de habitantes vivendo numa área de 1104 km2: possui, deste modo, uma densidade de 6300 pessoas por Km2 (World Population Review, 2019).

A 1 de julho de 1997, Hong Kong deixou de estar sob a jurisdição britânica e passou para a jurisdição chinesa, tornando-se numa Região Administrativa Especial (RAEHK) da República Popular da China (RPC). No ato oficial de transferência de soberania, o Chefe do Executivo do novo Governo de Hong Kong, Tung Chee Hwa, formulou publicamente a política de Um País, Dois Sistemas, defendida em 1978, por Deng Xiaoping, na 13.ª sessão do 11° Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC). Em 1999, esta formulação seria estendida à então nascente RAEM: garantia-se, deste modo, a convivência, no território chinês, de dois modos de produção distintos.

Expansão do comércio do ópio: uma necessidade do modo de produção capitalista do Império britânico

Recua ao século XIX a presença colonial britânica neste território, quando, na sequência das duas guerras do ópio em que saiu vencedor, o Império britânico procurou enfraquecer militar e economicamente a China, forçando-a a abrir-se às potências estrangeiras e a tornar-se dependente do comércio do ópio.

Ora, ainda que a história do comércio e do consumo do ópio, na China, remonte à Dinastia Tang (618-907) – quando mercadores árabes o introduzem no território -, será na dinastia Qing (1644-1911) que os habitantes das zonas costeiras (nomeadamente de Fujian e de Guangdong) vão aperfeiçoando a forma de o consumir, fazendo com que, gradualmente, o seu consumo se estenda a todo o território chinês e se venha a tornar, a partir de 1813, numa fonte de receitas fundamental para a Coroa britânica.

O desenvolvimento dos Country Trade – empresários privados anglo-saxões estabelecidos na Índia -, no início do século XIX, permitiria o alargamento da comunicação da rede comercial da Companhia das Índias quer com os canais de comércio, na Índia, quer com os traficantes britânicos de ópio, estabelecidos em Cantão, os quais viriam a inundar de ópio o território chinês.

Contudo, perante os graves problemas de saúde pública e o profundo desgaste sofrido pela economia do país, a Corte Imperial Qing decide banir o ópio da China: é assim que, em 1839, a China confisca mais de 20.000 caixas de ópio a traficantes, sediados em Cantão, e exige aos mercadores estrangeiros a assinatura de um documento no qual se comprometem a renunciar ao tráfico do ópio.

Na sua maioria britânicos, os traficantes ripostaram e exigiram à China o pagamento do valor total das suas mercadorias, o que o Império asiático recusou fazer. Perante a previsão de perdas de importantes fontes de receita cuja arrecadação o ópio permitia (as quais eram incomparavelmente superiores àquelas que as autoridades portuguesas, instaladas em Macau, alcançavam), a Grã-Bretanha desencadearia uma resposta militar à proibição lançada pela Corte Imperial e despoletaria a primeira Guerra do Ópio: o Império britânico exigia, então, obter um pedido de desculpas da China, uma compensação pelo ópio confiscado e garantias para a segurança dos comerciantes britânicos, cuja materialização deveria passar pela posse de uma ilha. Não é, desta forma, um acaso, o facto de um dos primeiros atos de guerra dos britânicos ser, precisamente, a ocupação de Hong Kong, uma ilha então pouco habitada do sudeste chinês.

As Guerras do Ópio: a consolidação do poder colonial

Depois de três anos de uma guerra em que sai perdedora, a China depara-se com uma situação económica bastante frágil, vendo-se obrigada a assinar, em 1842, o Tratado de Nanking. Este tratado desigual obriga a China i) a entregar a ilha de Hong Kong aos britânicos, ii) ao pagamento de uma compensação de guerra de US$ 21 milhões, iii) à abertura de cinco portos ao comércio exterior (Guangzhou, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Shanghai) e iv) à limitação das tarifas alfandegárias. Convém referir que, não obstante o tratado nada referir em relação ao ópio, o seu comércio era, de fait, autorizado.

A ilha de Hong Kong foi, desde logo, declarada como um porto livre, um estatuto que daria início ao crescimento económico posterior. No topo da administração do novo território colonial encontrava-se o Governador, autoridade máxima escolhida por Londres.

Depois do Tratado de Nanking, os britânicos continuaram a pressionar a China no sentido de esta legalizar o ópio e recusavam cessar a sua importação. É, assim, lançada uma segunda guerra, desta vez conjuntamente pelo Reino Unido e pela França, em 1856, finda a qual, em 1860, a China, perdedora, assina o Tratado de Pequim, imposto pelas duas nações europeias vencedoras. Legaliza-se, a partir de então, o comércio do ópio e os chineses veem-se obrigados a abrir novos portos ao comércio com o estrangeiro e a entregar um novo território aos britânicos: a ilha de Kowloon.

Em 1880, o tráfico do ópio representava 39% das importações chinesas, estimando-se, em 1905, que 10% dos homens adultos chineses fossem opiómanos. Em Hong Kong, em 1918, 46,5% das receitas governamentais advinham do comércio de ópio, num momento em que uma crescente população chinesa, no território, se tornava, também ela, dependente daquele narcótico. Vale a pena lembrar que seria, apenas, depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que o Império britânico tornaria ilegal a venda e o consumo do ópio, em Hong Kong.

Em 1898, os Novos Territórios seriam cedidos, por aluguer, à Grã-Bretanha, por um período de 99 anos, juntando-se aos territórios coloniais de Hong Kong e de Kowloon.

Leis de cidadania segregacionistas e uma cidade insalubre

Logo no início da colonização de Hong Kong, os britânicos promulgaram uma legislação que, na prática, criava uma lei para europeus e outra para chineses. Foram, assim, aprovadas leis para garantir que nenhum chinês morasse nas áreas mais desejáveis ​​de Hong Kong, as quais os britânicos pretendiam preservar como exclusivas. Num território onde a grande maioria da população falava, sobretudo, cantonês, o inglês constituía, no entanto, a língua oficial, ainda que incompreendida pela grande maioria da população. O chinês, aliás, só se tornaria língua oficial, conjuntamente com o inglês, num estádio avançado do colonialismo, em 1974.

Relatórios oficiais do final do século XIX apresentam-nos uma cidade sem condições sanitárias, sem saneamento básico, com infraestruturas precárias e onde as famílias se concentravam em espaços diminutos.

Em 1860 e 1861, um cirurgião colonial descreveria o horror das condições sanitárias em que viviam os chineses, em Hong Kong, assim como as prisões sobrelotadas da colónia: Hong Kong tornara-se num território de consumo e de comércio de ópio, de salas de jogo (o jogo seria legalizado em 1867) e de traficantes.

Cidade insalubre (o que daria, aliás, origem a uma epidemia de peste bubónica, em 1894, originando um contexto em que os excrementos humanos se tornariam fonte de comércio), Hong Kong era, de facto, dominada por um apartheid que permitia a separação dos bairros dos brancos europeus dos bairros da restante população asiática (em 1904, um ato legislativo proibia os chineses de possuir terra ou de residir no Peak) e onde chineses sofriam castigos físicos (como o açoitamento) – permitidos pela lei. Paralelamente, assistimos à conformação de instituições que permitem a consolidação do capital financeiro e que tornariam Hong Kong, no início do século XX, num dos centros financeiros mundiais.

Em 1964, em plena Guerra do Vietname, a China protesta contra a presença de navios de guerra estadunidenses, no porto de Hong Kong. Numa nota de 15 de maio de 1967, a China denuncia “o complot do governo britânico que colabora com o imperialismo americano contra a China” e que “continua a oferecer Hong Kong aos EUA como uma base para a sua agressão contra o Vietname” (apud Fischer, 1968, p. 317).

Três anos depois, em maio de 1967, sucedem-se várias lutas operárias, enquadradas pelo Hong Kong Federation of Trade Unions (união de sindicatos próxima do Partido Comunista Chinês (PCCh), que se posicionava contra o domínio colonial), fortemente reprimidas pelo governo colonial e que deixou um legado de 51 mortos. Sucedem-se, neste contexto, incidentes na fronteira, protestos e um ultimato de Beijing. Um relatório do PCCh, desse ano, afirmava o seguinte: “O imperialismo britânico chegou à China através de navios piratas, provocou a criminosa guerra do ópio, massacrou numerosos chineses e ocupou o território chinês de Hong Kong. Mais tarde, apropriou-se do território chinês de Kowloon e dos Novos Territórios. Esta é uma enorme dívida de sangue que os britânicos têm para com os chineses” (apud Klein, 1995, p. 241).

Segunda metade do século XX: exploração e recusa de direitos plenos de cidadania à população chinesa local

O desenvolvimento industrial que se verificou em Hong Kong, na segunda metade do século XX, baseou-se numa política de baixos salários e de extensas jornadas de trabalho. Neste contexto, sucedem-se reivindicações laborais assim como uma reivindicação da população asiática de Hong Kong – que nunca seria acolhida pelo poder colonial: a plena cidadania britânica. Com efeito, os habitantes de Hong Kong eram considerados sujeitos da Coroa britânica, contudo não gozavam de todos os direitos, nem da completa cidadania de que gozavam os britânicos metropolitanos.

Em 1948, num momento em que as colónias, no plano mundial, progressivamente, adquiriam a sua autonomia, o governo britânico decide que os membros da Commonwealth, ainda que pudessem permitir uma cidadania própria a cada domínio, guardariam o estatuto comum imperial de sujeitos britânicos.

O colonialismo escondia-se, deste modo, por detrás de um neocolonialismo difuso, mascarado sob o desígnio de cidadão da Commonwealth (CUKC – Citizen of the United Kingdom and Colonies). Esta passa, então, a ser a designação para os habitantes asiáticos, nascidos em Hong Kong.

Não obstante os CUKC gozarem de direitos distintos dos cidadãos de pleno direito britânico, até 1962 ainda podiam entrar e sair do Reino Unido, sem restrição. Esta situação vai, contudo, alterar-se a partir daquela data, quando os CUKC (incluindo os CUKC de Hong Hong) passam a estar sujeitos a restrições de movimento e de estadia.

Em 1981, o Reino Unido vai, de novo, criar novas categorias de cidadania, quando, num revés linguístico que pretendia escamotear, na realidade, a perduração de uma situação colonial, substitui a denominação de territórios coloniais britânicos por territórios dependentes britânicos.

O estatuto de cidadania CUKC desaparece e é substituído por novas categorias: para além da categoria de cidadão britânico (apenas para residentes do Reino Unido e de dependências da Coroa britânica), estabelecia-se o estatuto BDTC (Cidadão Britânico dos Territórios Dependentes) e o estatuto BOC (Cidadão Britânico Ultramarino).

Esta última categoria constituía uma classe de nacionalidade não hereditária para todos aqueles que não poderiam aceder nem ao estatuto de cidadão britânico, nem ao estatuto de BDTC. A lei estabelecia, ainda, que todos os CUKC de Hong Kong e todos aqueles que nascessem no território, depois de 1983, tornar-se-iam BDTC.

Em 1985, o Reino Unido vai criar, uma vez mais, outra categoria de cidadania adicional – BN(O) (Nacional Britânico Ultramarino) – que se aplicava, apenas, a Hong Kong, e à qual poderiam aceder os BDTC. Esta categoria estender-se-ia para além de 1997, contudo, continuava a não permitir aos seus detentores os direitos plenos de cidadania de que gozavam os cidadãos britânicos (não sendo, tampouco, hereditária).

Os BN(O) não possuíam/possuem o direito de viver ou de trabalhar no Reino Unido e não são considerados cidadãos britânicos pela União Europeia. Atualmente, estima-se que 170.000 hongkonguenses possuam BN(O) válidos.

No contexto atual de tentativas de desinformação permanentes eurocentradas e visões distorcidas da realidade chinesa, impulsionadas quer por meios de comunicação do auto-intitulado mundo ocidental quer por uma cosmovisão saudosista (neo)colonial, é fundamental não esquecer a divisão societal impulsionada e amparada legislativamente pelos britânicos, desde o início da ocupação da ilha de Hong Kong até ao retorno desta à República Popular da China.

Escamotear a segregação racial que foi imposta no território constitui um exercício de memória histórica com vista a relembrar que nenhuma forma de colonização europeia, no mundo, foi levada a cabo respeitando as populações locais ou isenta de violência e opressão.

Em suma, colónia britânica de 1842 até 1 de julho de 1997, Hong Kong é, hoje, uma RAE ao abrigo do princípio Um País, Dois Sistemas, mantendo o seu próprio sistema judicial, o seu quadro económico, legislativo e institucional. Ana Saldanha – China in “Hoje Macau”

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Ana Saldanha – Foi Professora Adjunta Convidada na Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Instrutora Sénior na Universidade de Macau (UM). Actualmente é docente na Universidade Normal de Hunan

Este artigo é uma adaptação de dois trabalhos publicados precedentemente:

Regiões Administrativas Especiais da República Popular da China. In Dicionário do Socialismo com Características Chinesas. São Paulo: Expressão Popular/Tricontinental, 2026, pp. 230-235;

Macau e Hong Kong: de colônias europeias a regiões capitalistas dentro da China. Brasil de Fato (Brasil), 6 de junho de 2020.

Referências citadas:

FISCHER, Georges (1968). “Hong Kong”. Revue française de science politique, n. 2, pp. 315-332.

KLEIN, Richard Daniel (1995). “Law and Racism in an Asian Setting: an Analysis of the British Rule of Hong Kong”. Hastings Int’l & Comp. L. Rev, v. 18, pp 223-276.

YIN, Zhongqing (2010). China’s Political System. Beijing: China Intercontinental Press.

 


Macau - Casa de Portugal leva teatro e arqueologia às escolas

A Casa de Portugal em Macau está a organizar o festival “Conta-me histórias”, que leva arqueólogos e uma companhia teatral de Tondela a escolas locais, para despertar o interesse pelo património e pela memória.


Na sexta-feira, a Trigo Limpo Teatro Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) leva ao auditório da Escola Portuguesa de Macau (EPM) a peça “Queres que te conte?”. Ilda Teixeira, que concebeu e interpreta a peça, disse à Lusa que “o espectáculo, basicamente, é um tear, o cenário e uma dobadoira, com lã, e é tudo contado com recurso a novelos de lã”.

Para preparar “Queres que te conte?”, Teixeira foi falar com uma associação que trabalha com linho e com a Universidade Sénior para “ouvir contar histórias, as músicas antigas que os avós lhe cantavam”. A peça, explicou a actriz, “tem tudo a ver com as histórias que se transmitiam dos avós para netos e que iam passando de boca em boca. E todo o espectáculo foi construído com base nessa tradição oral”.

Outras histórias

“Queres que te conte?” é um dos dois espectáculos do festival abertos ao público em geral. O outro é “O Bosque”, que a Trigo Limpo irá apresentar na Universidade de Macau, no domingo.

“Além de serem os nossos espectáculos mais portáteis, trabalham ambos sobre o que é a memória e a passagem da memória”, disse Ilda Teixeira, encenadora de “O Bosque”, interpretada por Pedro Sousa, Ricardo Augusto e Sandra Santos. A peça é “sobre as memórias antigas de uma cidade, fala sobre as árvores que vão ficando, os edifícios, as moedas que se vão encontrando”, explicou Pedro Sousa à Lusa.

O objectivo, disse o actor, é “deixar sementes para os mais novos e os mais velhos conversarem entre eles”. “Nós damos a matéria-prima, mas também há trabalho que tem de ser feito pelos pais e pelos professores”, acrescentou.

O festival arrancou na segunda-feira e decorre até 23 Outubro, com o Trigo Limpo a levar os dois espectáculos e momentos de formação em representação e música à EPM e à Escola Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.

O Trigo Limpo ACERT, que está a comemorar 50 anos de vida, já apresentou espectáculos em países como Angola, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Luxemburgo, Bélgica, Grécia e Alemanha, e irá também à Guiné-Bissau, de 24 de Novembro a 01 de Dezembro.

Ontem, hoje e amanhã

Além do teatro, o festival inclui sessões de promoção de arqueologia para crianças, contadas em escolas por Natalina Guerreiro e José Luís Monteiro, ambos funcionários do Património Cultural de Portugal.

Natalina Guerreiro, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, vai contar histórias de tesouros perdidos no mar devido a dois naufrágios que aconteceram em Portugal. “Tentamos mostrar que, para arqueologia, o tesouro não é só ouro, porque às vezes, um fragmento de cerâmica pode nos dar muito mais informação sobre de onde ela veio”, explicou Guerreiro.

Já José Luís Monteiro quer apresentar “uma perspectiva da arqueologia não tradicional”, graças às “tecnologias que revolucionaram completamente” este campo de conhecimento. Há situações “em que já nem é necessário escavar, porque temos tecnologia que nos consegue identificar o que está no solo”, incluindo drones, fotografia área e modelos a três dimensões a partir de fotografia de objectos, disse.

Mas mais do que encorajar futuros arqueólogos, o objectivo é “tentar motivar e incentivar os miúdos para as questões do património, seja ele arqueológico ou qualquer património cultural”, sublinhou Monteiro. In “Hoje Macau” – Macau com “Lusa”


Macau - Jornalista Nelson Moura lança livro sobre a Covid-19 e outras “excentricidades”

A Fundação Rui Cunha recebe no dia 21 de Outubro o lançamento de “Let’s All Persevere – Covid, Gaming and Other Macau Oddities”, uma compilação de crónicas de Nelson Moura publicadas na Macau Business. Em conversa com o Ponto Final, o jornalista português explica que o livro pretende fazer uma reflexão sobre o período crítico entre 2020 e 2023 e o muito que ficou por dizer, depois de levantadas as últimas medidas contra a Covid-19


A Fundação Rui Cunha vai acolher a apresentação do livro Let’s All Persevere – Covid, Gaming and Other Macau Oddities (traduzível como “Vamos Todos Perseverar – Covid, Jogo e Outras Excentricidades de Macau) no dia 21 de Outubro, pelas 18h30, com entrada livre. A obra reúne um conjunto de crónicas publicadas pelo jornalista Nelson Moura na revista Macau Business entre Fevereiro de 2020 e Julho de 2023, período profundamente marcado pelo impacto da Covid-19 no panorama socioeconómico da região.

Mais de três anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado o fim da pandemia enquanto emergência sanitária global, Nelson Moura recupera algumas das crónicas publicadas entre o registo dos primeiros casos de Covid-19 em Macau e a fase de normalização já após a abertura das fronteiras, quando a cidade passou a assumir como prioridade a recuperação económica e turística. A perspectiva do autor é “profundamente humana”, como se lê na descrição do livro, oscilando entre a análise jornalística, a sátira e o humor e desabafos pessoais.

Ao Ponto Final, o jornalista português recorda que os seus primeiros textos de opinião surgiram no início de 2020, quando desempenhava funções de editor na Macau News Agency (a plataforma digital da Macau Business). A ideia foi lançada pelo fundador e então director da revista, Paulo Azevedo, sob o argumento de que um editor deveria ter uma voz crítica e activa no seio da comunidade. “Foram tempos muito caóticos, no início da pandemia. Estava muita coisa a acontecer e todas as semanas eram anunciadas novas restrições e novas políticas de controlo da pandemia”, lembra Nelson Moura. “Achei que talvez fosse uma boa forma de deixar um registo do que se estava a passar, de uma coisa que parecia ser única, e também como uma espécie de reflexão pessoal”.

Foram, de facto, tempos sem precedentes em Macau: os casinos, o motor económico da cidade, operaram durante meses com salas praticamente vazias, enquanto o fecho das fronteiras e as restrições de viagens provocaram uma queda drástica no número de visitantes. A política “zero covid” e os confinamentos prolongados tiveram também consequências sérias na saúde mental da população, como nota o jornalista. “Ficámos quase dois anos barricados em Macau – todas as pessoas que estavam habituadas a sair da cidade regularmente viram-se de repente presas nesta ilha de 36 quilómetros quadrados, a tentar arranjar maneiras de dar alguma felicidade e algum sentido à nossa existência”.

No entanto, tal como o nome faz adivinhar, as crónicas não se centram apenas na questão da pandemia, mas nas demais “excentricidades” que marcaram esse período. “Obviamente, durante esses anos, foram acontecendo outras coisas em Macau, algumas delas muito relevantes”. É o caso da detenção do antigo director-executivo do grupo Suncity, Alvin Chau, condenado a 18 anos de prisão por exploração ilícita de jogo e sociedade secreta. Em paralelo às reflexões sobre Macau, há também notas pessoais sobre o quotidiano do autor num mundo que se tornava cada vez mais irreconhecível. “Tenho uma crónica que é sobre como passear a minha cadela me ajudava mentalmente”, exemplifica.

A ideia de seleccionar as crónicas mais relevantes e compilá-las num livro (deixando de fora aquelas que poderiam ser mais “desgastantes” para o leitor, como as que falavam sobre as novas restrições à medida que eram anunciadas) foi depois apresentada a António Monteiro, secretário-geral do Instituto Internacional de Macau (IIM), e a José Carlos Matias, o actual director da Macau Business, que concordaram participar no projecto. “Achámos engraçado ter um livro que falasse sobre o que aconteceu na pandemia. Depois de as medidas terem sido levantadas, a impressão que dá é que não se pode falar do que aconteceu. Pandemia? De que pandemia estamos a falar?”, ironiza.

O projecto abre um novo espaço de debate sobre um assunto que, afinal, nunca foi totalmente encerrado: “sempre achei que as pessoas tinham ainda muito para dizer e para reflectir sobre o que aconteceu durante aquele período”. A retrospectiva sobre a Covid-19 e os rigorosos controlos sanitários pode por vezes parecer “pesada”, como admite o autor, sendo por isso atenuada por laivos de humor. A própria capa, da autoria do ilustrador Afonso Castro, reflecte esta pluralidade de interpretações, apresentando um desenho rico em detalhes que põe, em grande plano, um grupo de jogadores num casino vestidos com fatos de protecção biológica e máscaras.

O evento na Fundação Rui Cunha será conduzido em língua inglesa pelo próprio autor, acompanhado por José Carlos Matias. A sessão vai consistir numa apresentação do livro e das experiências nele relatadas, convidando o público a reflectir sobre estes anos de enorme transformação em Macau e no mundo. “Também podemos pensar nisto como uma espécie de grupo de ajuda”, sorri Nelson Moura. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Zimbabwe - Governo paga a agricultores brancos por terras expropriadas

O Zimbabwe pagou cerca de 732 milhões de euros em indemnizações a agricultores brancos pelos terrenos expropriados em 2000, durante o programa de reforma agrária do então Presidente Robert Mugabe, anunciou o ministro das Finanças zimbabweano.

“Salientei os progressos na compensação pelas terras, com 820 milhões de dólares pagos aos antigos proprietários de quintas, a par das reformas em curso no domínio da propriedade fundiária e da governação”, declarou Mthuli Ncube, na rede social X (antigo Twitter).

O ministro pronunciou-se após ter participado, na terça-feira, na reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizada em Banguecoque, capital da Tailândia, na qual também partilhou os avanços do Zimbabwe em matéria de estabilização macroeconómica.

Esta nova actualização dos números surge após o Governo zimbabweano ter anunciado, em 29 de Setembro, que tinha desembolsado cerca de 521 milhões de dólares em indemnizações e que um total de 623 agricultores tinham beneficiado dessas compensações em três fases.

O governante não forneceu novos dados sobre os números de agricultores beneficiados por esta medida.

O pagamento de compensações aos proprietários das explorações agrícolas constitui um passo importante no processo de liquidação dos pagamentos em atraso e na resolução da avultada dívida contraída por este país da África Austral, em incumprimento desde 1999, a fim de recuperar a confiança dos credores internacionais.

O Governo do já falecido Robert Mugabe, que dirigiu o país com mão de ferro entre 1980 e 2017, quando foi afastado do poder pelos militares, expropriou em 2000 cerca de 4000 agricultores brancos das terras a que tinham acedido na época colonial, num momento em que o país vivia uma recessão económica.

Os agricultores brancos desempenharam um papel fundamental na economia agrícola até 2000, produzindo tabaco e produtos hortícolas, como flores, para exportação. A população negra começou então a ocupar de maneira informal os campos que ficaram vazios. In “O País” - Moçambique


Cabo Verde - Obra sobre feitiçaria e mobilidade na África Ocidental

Cidade da Praia – O livro Feitiçaria e Mobilidade na África Ocidental: uma etnografia da circulação de kórda, méstris e korderus, de Eufémia Rocha, pretende contribuir para o conhecimento da matriz cultural cabo-verdiana, disse hoje o apresentador do livro Arlindo Mendes.

Em declarações à Inforpress, Arlindo Mendes considerou que o trabalho se reveste de “uma grande importância para se conhecer melhor aquilo que faz parte da matriz cultural cabo-verdiana”, através do estudo de práticas tradicionais e das suas redes de circulação.

“Ou seja, é um trabalho que mostra que, para além da parte visível da nossa matriz cultural, há muitos outros aspectos subjacentes que não aparecem publicamente, mas que acabam por influenciar a quotidianidade das pessoas”, afirmou.

Arlindo Mendes considerou que o estudo aborda práticas que, embora nem sempre sejam discutidas abertamente, continuam a influenciar o quotidiano das pessoas e mantêm redes de circulação dentro e fora do país.

Conforme afirmou, esta prática tem uma rede extensa em Cabo Verde e uma rede que até extravasa as fronteiras nacionais, indicando que os contactos entre praticantes se estendem à Guiné-Bissau, ao Senegal, à Europa e à América.

“E há uma forte tendência para se pensar que esta prática está mais ligada às pessoas ignorantes, às pessoas menos escolarizadas, mas a experiência mostra o contrário. É que há muito boa gente saída das melhores universidades europeias que ainda continua a consultar os mestres e a seguir os conselhos e as orientações”, concretizou.

Para o apresentador, a publicação poderá também estimular o debate sobre tradições culturais frequentemente consideradas marginais e contribuir para colmatar a escassez de literatura sobre a matéria.

“Há muito pouca literatura neste domínio e, por conseguinte, as pessoas têm um défice de conhecimento a seu respeito”, sublinhou.

Arlindo Mendes apelou à leitura da obra já que ela permite aprofundar o conhecimento da identidade cabo-verdiana e compreender melhor as particularidades da sociedade.

“Comprem este livro, leiam e releiam, porque seguramente vão descobrir muitas coisas importantes que nos ajudam a compreender a nossa identidade e, por consequência, a nossa idiossincrasia”, apelou.

Segundo o académico, a obra resulta de uma tese de doutoramento defendida pela autora na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), cujo júri presidiu, tendo sido posteriormente convidado para escrever o prefácio e agora a sua apresentação.

O livro Feitiçaria e Mobilidade na África Ocidental: uma etnografia da circulação de kórda, méstris e korderus, de Eufémia Rocha, será apresentado na sexta-feira, 16, às 18:00, na cidade da Praia. In “Inforpress” – Cabo Verde


Galiza - Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

A obra, distinguida com o I Prémio a Trabalhos de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da Universidade de Santiago de Compostela, situa a sua narrativa no antigo Egito e combina poder, responsabilidade e reflexão sobre a condição humana

A Através Editora acaba de publicar Ensinamentos de Rahotep, romance de Ângelo Brea que venceu, em 2025, o I Prémio a Trabalhos de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da Universidade de Santiago de Compostela. O livro integra a coleção Através das Letras e conta com 472 páginas.

A narrativa acompanha o príncipe Rahotep, segundo na linha de sucessão do trono egípcio. Sábio, justo e generoso, o protagonista acumula responsabilidades militares, políticas e religiosas. Em tempo de paz, recebe do seu pai, Sneferu, o senhor das Duas Terras, a missão de gerir e supervisionar grandes obras arquitetónicas, procurando extrair da dureza da pedra significados sublimes e transcendentes.

A tarefa, porém, não está isenta de dificuldades. Nem mesmo a morte de uma pessoa próxima o afasta das suas obrigações, antes amplia o peso das responsabilidades que recaem sobre si.

O romance foi distinguido por unanimidade pelo júri do prémio. Sobre a obra, o escritor Carlos Quiroga salienta as suas qualidades literárias e considera que o livro ultrapassou as expectativas do júri que lhe atribuiu a distinção.

Sobre o autor:

Ângelo Brea (Santiago de Compostela, 1968) é licenciado em Filologia Hispânica pela Universidade de Santiago e em Filologia Galego-Portuguesa pela Universidade da Corunha. Foi bolseiro do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, onde realizou, em Lisboa, o Curso Superior de Estudos Portugueses. Realizou estudos de doutoramento sobre «Teoria da Literatura e Literatura Comparada» e apresentou a sua memória de licenciatura sobre «Os descordos galego-portugueses. Análise comparativa com os seus homólogos provençais e franceses».

Trabalha como professor titular de Língua e Literatura Galega e de Língua Portuguesa no Liceu de Bertamirães (Ames). Foi secretário das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal e coordenador de vários congressos internacionais sobre literaturas lusófonas e sobre a língua portuguesa no mundo. É membro da Academia Galega da Língua Portuguesa. A sua obra literária começou com o breve poemário Livro do caminho (1989). Além disso, está presente nas antologias Mátria da Palavra e Antologia da Poesia Lusófona. Foi coautor da obra teatral Eva Perón, vencedora do Prémio Compostela de Teatro em 1995. O seu seguinte poemário, intitulado O país dos nevoeiros (Espiral Maior, 2005), reúne 91 poemas, sendo esse número uma homenagem ao também escritor galego Eduardo Pondal. A sua obra em prosa começou com a publicação dos contos Eu levei a cruz da Santa Companha (revista Nós, n.os 41–50) e Uma história de bruxas (revista Nós, n.os 51–58). Em dezembro de 2014, publicou Lembranças da Terra & outras histórias de um futuro possível. Trata-se de um livro de 16 relatos de ficção científica. Um desses contos, «As grandes vantagens da neolíngua», inspirou a antologia A voz dos mundos. Contos de Ficção Científica (Editorial Mondrongo, Ilhéus, Baía, Brasil, e Através Editora, Santiago de Compostela, Galiza), com autores galegos, portugueses e brasileiros. Em 2019, publicou o livro Tempo de Eclipses, que é uma compilação de toda a sua obra poética. Acompanha a edição um amplo glossário e dois artigos sobre métrica. O primeiro (pp. 271–283) estuda o verso clássico por excelência, o hexâmetro, e explica o processo de adaptação deste verso à língua portuguesa, seguindo os modelos de outras línguas de cultura. Um segundo artigo, intitulado «Da sextina aos quadrados mágicos: esquemas métricos com base matemática», mostra a grande novidade de criar esquemas métricos regularizados baseados nos quadrados mágicos. O autor colabora habitualmente com a página https://contosdeterror.site, onde foram publicados alguns dos seus relatos de mistério e de terror. Em 2022, foi publicado o livro Nos vales do Máriner e outros relatos, no qual foram publicados 17 relatos de ficção científica. Em 2025, ganhou o Prémio da Cátedra Carvalho da Universidade de Santiago com a obra Ensinamentos. In “Portal Galego da Língua” - Galiza