Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Cabo Verde - Número de eleitores cresce 5,95% com maior expressividade na diáspora

Os dados provisórios da Direcção-Geral de Apoio ao Processo Eleitoral (DGAPE) indicam que, em comparação com as últimas eleições, o número de eleitores registados aumentou em 23.384, o que representa uma variação de 5,95%. O crescimento é mais expressivo na diáspora, onde se registou uma subida de 36,5%, passando de 52.752 eleitores em 2021 para os actuais 72.051, distribuídos por 22 países


Conforme explicou a presidente da CNE, Maria do Rosário Pereira Gonçalves, o aumento do número de eleitores na diáspora deve-se, sobretudo, à implementação de um novo sistema de recenseamento, que permite aos cidadãos cabo-verdianos residentes no exterior inscreverem-se no recenseamento eleitoral quando recorrem aos serviços consulares para emissão ou renovação do passaporte.

No total, encontram-se inscritos para estas eleições 416.335 eleitores, dos quais 344.284 no território nacional e 72.051 na diáspora.

Ainda no que se refere à diáspora, verificou-se um crescimento significativo no número de mesas de voto, que passaram de 236, em 2021, para 284 nas presentes eleições. A nível do território nacional, foram constituídas 1058 mesas de votação.

No que se refere às candidaturas, a CNE recebeu dos tribunais um total de 48 listas apresentadas por cinco partidos políticos. O Movimento para a Democracia (MpD) e o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) lideram, com 13 candidaturas cada, sendo os únicos a concorrer em todos os círculos eleitorais.

O Partido Popular (PP) e o Pessoas, Trabalho e Solidariedade (PTS) apresentaram seis candidaturas cada. O PP concorre nos círculos de Santiago Sul, Santiago Norte, Boa Vista e na diáspora (África, América e Resto do Mundo), enquanto o PTS apresenta listas em Santiago Sul, Santiago Norte, São Vicente e também nos círculos da diáspora.

Já a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) submeteu 10 candidaturas, ficando de fora dos círculos da Brava, Maio e Boa Vista.

Das 48 listas admitidas, que representam um total de 556 candidatos, 300 são efectivos e 256 suplentes.

Em termos de distribuição por sexo, 294 candidatos (52,88%) são do sexo masculino e 262 (47,12%) do sexo feminino. A CNE destacou que todas as listas cumprem a Lei da Paridade, não se registando qualquer candidatura com representação inferior a 40% de um dos sexos.

Questionada sobre a avaliação do período pré-eleitoral, a presidente da CNE considerou que se tratou de uma fase “bastante competitiva”, marcada por elevada atenção por parte das candidaturas e dos partidos proponentes às eleições legislativas.

A presidente da CNE revelou ainda que foram registadas várias queixas durante a pré-campanha, sobretudo relacionadas com alegadas violações do dever de neutralidade e imparcialidade da administração pública.

“O que nós podemos dizer é que, sim, houve bastante discussão em torno desta questão, que já é recorrente. O respeito pelo princípio da neutralidade e da imparcialidade continua a merecer centralidade na fase da pré-campanha eleitoral em Cabo Verde”, concluiu a presidente da CNE.

A conferência de imprensa culminou com a entrega dos fac-símiles às candidaturas às eleições, na presença dos membros da CNE. Anilza Rocha – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


Macau - Aeroporto planeia rota Macau - Lisboa com escala em Hangzhou

Uma rota Macau-Lisboa, via Hangzhou e com serviço de bagagem despachada até ao destino final, está em planeamento da Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau, que está a estudar com a Beijing Capital Airlines para a operação desta ligação. A empresa revelou também que o transporte de mercadorias de Macau para a Europa representou um terço do volume total de carga do aeroporto local no ano passado


A CAM – Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau (CAM) adiantou estar em negociações com a Beijing Capital Airlines para lançar voos entre Macau e Lisboa, com escala em Hangzhou, no interior da China, com registo das malas directo até ao destino final.

A negociação tem como objectivo “promover voos da Beijing Capital Airlines entre Hangzhou e Macau, utilizando Hangzhou como ponto de escala para voos directos para Lisboa”, explicou Edman Lee, director adjunto do Departamento de Marketing da CAM ao Canal Macau em língua chinesa.

Recorde-se que a Beijing Capital Airlines opera já uma ligação directa entre Lisboa e a cidade chinesa de Hangzhou, sendo actualmente a única rota aérea directa entre Portugal e a China. Essa ligação tem agora uma frequência de dois voos semanais e a rota tem uma duração aproximada de 13 horas.

O plano actual entre a CAM e a Beijing Capital Airlines é permitir que os passageiros do território possam apanhar voos Macau-Hangzhou com a mesma companhia aérea chinesa e fazer a viagem directa de Hangzhou para Lisboa, sem passar o controlo de migração em Hangzhou e recolher a bagagem só na capital portuguesa.

A CAM indicou que será também possível fazer escala em Pequim para chegar a Lisboa, com a ligação entre as duas cidades a ser lançada em breve.

Recorde-se que a Beijing Capital Airlines já anunciou que vai lançar, durante o Verão, uma ligação aérea directa entre Pequim e Lisboa, numa operação sazonal com início no final de Junho e duração de cerca de três meses. O voo terá uma frequência semanal que parte de Lisboa à segunda-feira.

Além disso, a CAM pretende ainda utilizar cidades da China continental, como Pequim, Chengdu e Chongqing, como pontos de escala com tempo de espera em menos de três horas, para lançar voos com transferência de bagagem directa para destinos europeus, como a Espanha.

A empresa gestora do Aeroporto de Macau assegurou que está a “promover activamente” a expansão do mercado do Sudeste Asiático e do Nordeste Asiático, com plano de aumentar a frequência dos voos e o número de destinos nestas áreas, como a ligação a Fukuoka, no Japão.

No que diz respeito às rotas de médio e longo curso, a CAM está a analisar o desenvolvimento de rotas para a Índia e outras opções de voos com escalas.

As informações da empresa indicam que o Aeroporto Internacional de Macau conta actualmente com 29 companhias aéreas que operam 44 rotas.

Carga de Macau para a Europa

A CAM, por outro lado, abordou também o transporte de mercadorias, sublinhando os resultados das rotas exclusivamente de carga entre Macau e a Europa.

No ano passado, o volume de mercadorias transportadas de Macau para a Europa foi de cerca de 31.700 toneladas, representando cerca de 29,2% do volume total de carga do aeroporto. Entre elas, 8700 toneladas corresponderam à rota de Madrid, representando 8% do total.

Os dados fornecidos por Frank Wu, director do Departamento de Logística e Desenvolvimento da Aviação Geral da CAM, mostram ainda que o comércio electrónico transfronteiriço é o principal contribuinte para a carga do aeroporto, representando 90% do volume total.

A CAM afirmou que os voos directos de carga da Ethiopian Airlines entre Macau e Espanha já entraram em operação regular. Para as rotas de longo curso no futuro, a CAM irá lançar voos “que se relacionam com a plataforma sino-lusófona”, com vista a uma expansão do mercado para a América do Sul, por exemplo, para países como o Brasil, “que tem uma população numerosa e uma elevada frequência de utilização de serviços de comércio electrónico”, frisou.

O porta-voz da CAM referiu ainda que a situação no Médio Oriente está a afectar os preços dos combustíveis, estando o aumento dos custos a levar a uma redução dos voos de carga. Mas, “por enquanto, o impacto não é significativo”, assegurou.

Quanto à previsão da União Europeia de, no segundo semestre deste ano, cobrar uma taxa fixa de 3 euros e uma taxa de processamento de 2 euros sobre pequenas encomendas com valor inferior a 150 euros, a CAM acredita que tal medida irá a afectar, a curto prazo, as exportações de mercadorias de Macau para a Europa. Catarina Chan – Macau in “Ponto Final”


Macau - Posição oficial contrasta com “erosão silenciosa” da língua portuguesa na Região, dizem advogados

Vários advogados defenderam à Lusa que a posição oficial do Governo de Macau sobre a língua portuguesa contrasta com a “erosão silenciosa” desta enquanto idioma oficial na região


O Chefe do Executivo de Macau, Sam Hou Fai, realizou uma visita oficial a Portugal de 18 a 21 de Abril, marcada por encontros institucionais e declarações diplomáticas de reforço da cooperação entre Portugal e a China, e em que destacou que “a língua [portuguesa] não é questão que mereça preocupação”, quer ao nível do ensino, quer no uso pelos tribunais.

No entanto, de acordo com a advogada Sofia Linhares, a trabalhar no território, “o sorriso diplomático contrasta com a realidade administrativa”, marcada pela “erosão silenciosa do português” como língua oficial na região. Linhares recorda que a Lei Básica de Macau estabelece que “o português é igualmente uma língua oficial”, e que decretos-lei consagram que “o chinês e o português têm igual dignidade”.

No entanto, a advogada alertou existir “resistência de funcionários e magistrados ao uso do português em funções oficiais” e uma diminuição da proficiência entre os quadros da administração pública.

Uma delegação parlamentar portuguesa, que visitou Macau em Dezembro de 2025, identificou num relatório resistência de funcionários públicos e de alguns magistrados locais à utilização da língua portuguesa no exercício das suas funções, bem como a necessidade de responder ao aumento da procura por cursos de português, num contexto em que existe o risco de contratação directa de docentes por parte da China.

Para a advogada, a contradição é evidente: de um lado, Portugal e China celebram a “dinâmica cooperação” e do outro, “muitos cidadãos – e até funcionários públicos – não conseguem recorrer ao português em procedimentos administrativos rotineiros”. “Documentos são predominantemente em chinês, tribunais enfrentam atrasos por falta de quadros bilingues e serviços públicos redirecionam falantes de português para cantonês ou inglês”, alertou.

Apesar disso, Linhares reconheceu existir uma “resistência tenaz em Macau” por parte de “uma pequena comunidade de juristas, tradutores e funcionários públicos” que continua a usar o português diariamente nos órgãos administrativos, funcionando como “guardiões da linha temporal até 2049”.

De acordo com a Declaração Conjunta, assinada por Pequim e Lisboa e que levou à transição de administração de Macau em 1999, a cidade deveria manter os direitos, liberdades e garantias durante um período de 50 anos. Mas, sem reforço sistémico de Lisboa e Pequim, “a extinção prática do português administrativo ocorrerá muito antes” dessa meta temporal.

O advogado Sérgio Almeida Correia partilha a mesma preocupação, considerando que “a situação da língua portuguesa nos tribunais e na administração pública tem sofrido uma involução nos últimos anos”. “Estamos pior do que há cinco ou dez anos,” alertou à Lusa. De acordo com Correia, embora haja mais pessoas a aprender o idioma, “são cada vez menos os que falam português nos tribunais”. O jurista disse que “mais grave são os despachos, promoções, sentenças e acórdãos em chinês na primeira instância, embora haja alguns juízes sensíveis ao problema”.

A situação nos serviços do Ministério Público “é dramática”, diz Correia, descrevendo que “ultimamente, não há um despacho, uma notificação que seja, que chegue em língua portuguesa”. “Ao menos podiam recorrer às ferramentas de tradução que usam a inteligência artificial, que atualmente estão cada vez mais perfeitas, dizendo-o no despacho ou notificação. Já seria uma ajuda”, notou.

O advogado critica a falta de tradutores qualificados e considera incompreensível que “uma região com orçamentos superavitários, que factura só no jogo mais de 20 mil milhões de patacas todos os meses”, não consiga contratar “gente qualificada e bem paga” para fazer traduções nos tribunais ou na Polícia Judiciária.

Nos tribunais, acrescenta, “os tradutores estão sobrecarregados e a tradução durante diligências é muitas vezes incompleta, deixando advogados e arguidos em desvantagem”. “O Código de Procedimento Administrativo e a Lei Básica garantem que os residentes podem apresentar requerimentos e receber resposta numa das línguas oficiais. Nos tribunais isto é muitas vezes ignorado” descreveu.

Para o profissional de advocacia, isto contraria a Declaração Conjunta e a Lei Básica, e é “mau para Macau e é mau para a China”. “Dá uma péssima imagem da justiça que aqui se faz”, concluiu. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


Macau - Festival de Artes traz “Novas Correntes de Inspiração” em Maio

O 36.º Festival de Artes de Macau, um dos grandes eventos artísticos da cidade, está prestes a tornar-se ainda maior. Este ano, o festival vai decorrer durante quase dois meses, de 8 de Maio a 27 de Julho, sob o tema “Novas Correntes de Inspiração”. A iniciativa arranca na segunda sexta-feira de Maio com um espectáculo gratuito de um grupo de dança do Cazaquistão, ecoando os valores de interculturalidade e descoberta de novos mundos que caracterizam esta edição


O programa da 36.º edição do Festival de Artes de Macau (FAM) foi divulgado na sala de conferências do Centro Cultural de Macau, a poucas semanas do seu início oficial no dia 8 de Maio. A partir do tema “Novas Correntes de Inspiração”, a iniciativa deste ano convida residentes e visitantes a embarcar numa viagem multidisciplinar pelas culturas, artes e relações de amizade que se desenvolveram (e desenvolvem) ao longo da Rota Marítima da Seda.

O festival desde ano arranca a 8 de Maio e culmina no dia 27 de Junho, englobando uma série de experiências, actividades, workshops e espectáculos interpretados numa multiplicidade de línguas e expressões artísticas. Reflectindo o tema central de expansão geográfica e intercâmbio cultural, o espectáculo de abertura consiste numa apresentação do conjunto de dança folclórica BIRLIK, do Cazaquistão, que se vai unir a grupos de dança locais para a performance “O Lótus na Rota da Seda – Tradições em Movimento”. A entrada para esta sessão de arranque é gratuita, mediante aquisição prévia de bilhete.

A música continua a dominar a fase inicial do FAM, com a passagem do musical “A Noite Estrelada” pelo palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau nos dias 15 e 16 de Maio. A peça é produzida pela Actors’ Family, uma das principais companhias de teatro musical em Hong Kong. Nos dias 16 e 17 de Maio, está agendada outra apresentação que funde as artes do teatro e da música com “1014 – Nanyin x Jazz”, uma história sobre memória, tecnologia e a importância da música na sensibilidade humana.

Ainda no domínio do teatro, a peça “Entrelinhas”, do encenador Tiago Rodrigues, assinala a única presença portuguesa no programa deste ano. O monólogo terá lugar no Teatro Dom Pedro V, nos dias 19 e 20 de Maio, e esbaterá as linhas entre ficção e realidade ao relacionar o mito de Édipo com cartas escritas por um prisioneiro à mãe.

Nos dias 22 e 23, a cultura cazaque volta a sobressair com um espectáculo duplo da companhia de dança Jolde. A primeira parte, “Tamyr”, une a elegância da dança contemporânea às vozes de um coro para falar sobre rituais, humanidade e identidade, enquanto a segunda parte, “Intemporal”, explora a memória colectiva e a fluidez do tempo.

Outro dos grandes destaques do programa passa por um palco ainda maior: o Jardim do Mercado do Iao Hon, aberto a toda a comunidade. Neste local, entre os dias 22 e 24, vai decorrer uma mostra de espectáculos ao ar livre intitulada “Onde a Cultura Floresce, a Felicidade Acontece”. De acordo com as informações divulgadas na conferência de imprensa, as actividades vão desde actuações musicais e ‘flashmobs’ à troca de livros e à promoção da leitura. Haverá ainda actividades destinadas a toda a família, como oficinas temáticas, pinturas faciais e visitas guiadas.

Voltando ao Centro Cultural de Macau, é tempo também de recuar até 2006, quando estreou a peça “Eterna Juventude”. Vinte anos depois, a versão revista “2.0” chega ao Centro Cultural de Macau para uma história sobre a passagem do tempo, proporcionando uma reunião entre conhecidos actores de Macau e o dramaturgo local Lawrence Lei.

Outro dos eventos mais aguardados deste ano é o regresso dos Dóci Papiaçám, que voltam aos palcos com mais uma sátira mordaz em patuá. Desta vez, a peça intitula-se “Agora Como?” e tem como pano de fundo o fecho dos casinos-satélite e as suas consequências para a economia no território. As actuações estão marcadas para 23 e 24 de Maio.

Depois de Portugal, as artes europeias voltam a ter lugar no festival com “A Divina Comédia”, assinada pela companhia italiana NoGravity Theatre. Nos dias 29 e 30, os artistas cénicos vão interpretar o poema épico de Dante através de uma coreografia meticulosa e profundamente artística, com recurso a espelhos para criar uma dupla dimensão visual.

Junho traz ópera, ballet e homenagens à Macau antiga

O mês de Junho começa com uma homenagem à mitologia chinesa. No dia 6, o Sands Theatre recebe uma visita da Associação de Ópera Cantonense Zhen Hua Sing, que sobe ao palco com intérpretes locais. Trata-se de uma peça teatral de ópera inspirada na lenda de He Xiangu, a única mulher entre os Oito Imortais.

Nos dias 19 e 20 de Junho, Macau recebe uma interpretação de uma das mais importantes obras do ballet clássico: “Lago dos Cisnes”, do compositor russo Tchaikovski. O Ballet de Xangai traz uma versão criada pelo coreógrafo britânico Derek Deane, que combina a técnica clássica com técnicas contemporâneas como a inclusão de um conjunto de cisnes cintilantes em palco.

A peça “A Velha Casa das Orquídeas”, já estreada em 2025 no Festival Fringe, volta nos dias 20 e 21 com uma encenação repensada para o Centro Cultural. Mais uma vez, o público pode esperar uma narrativa sobre os bairros antigos de Macau, reimaginados ao som de música ao vivo.

Também nos dias 20 e 21, a Associação de Dança Hou Kong, sediada em Macau, apresenta “A Noite de Zheng Guanying”. A Casa do Mandarim vai então transformar-se num palco dinâmico, permitindo que os artistas percorram e dancem por pátios e corredores, como se recuando aos tempos do seu antigo proprietário.

A peça “A Dinastia Dela”, cuja estreia aconteceu no Festival de Teatro de Wuzhen em 2025, segue para Macau nos dias 25 e 27 de Junho. A narrativa centra-se em quatro noites na vida de Wu Zetian, a única imperatriz da China, e partilha com o público a sua ascensão ao poder e o seu espírito resiliente, que ousou desafiar o sistema patriarcal chinês.

Outro dos acontecimentos artísticos sobressaídos no programa é a exposição “Duetos da Natureza: Pinturas de Paisagem das Dinastias Ming e Qing do Museu Nacional da China”, já em exposição no Museu de Arte de Macau desde 24 de Abril. O projecto permanece patente até dia 26 de Junho, a véspera do encerramento do festival, possibilitando a apreciação de 65 obras-primas da pintura de paisagem das dinastias Ming e Qing.

Para além do extenso programa de espectáculos e apresentações artísticas, o FAM vai também realizar nove actividades relativas ao Festival Extra, que incluem workshops, conversas pós-espectáculo e palestras. Os bilhetes para o espectáculo de abertura, a título gratuito, podem ser adquiridos já a partir das 10h do dia 2 de Maio. Os restantes bilhetes vão ser vendidos entre 2 e 9 de Maio, na Bilheteira Enjoy Macau. O público pode consultar a programação completa, assim como os descontos disponíveis na compra de bilhetes, na página oficial do Instituto Cultural (IC).

De acordo com a presidente do organismo, Leong Wai Man, a iniciativa terá um custo de 22 milhões de patacas para o Governo. Este é um valor ligeiramente inferior ao do ano passado, quando o orçamento foi de 23,4 milhões de patacas, embora esta edição se prolongue por mais um mês do que a anterior. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Uma obra que mostra o verdadeiro Bocage

O historiador Daniel Pires consegue reunir numa pequena biografia os acontecimentos mais importantes da vida do poeta                                                                  

 

                                                             I

Uma biografia sucinta, que abriga os principais aspectos de uma vida breve, porém repleta de acontecimentos inauditos que não impediram o poeta de construir uma obra marcante na história da literatura de língua portuguesa, é o que o leitor vai encontrar em O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda – IN-CM, 2025), do historiador, pesquisador e professor Daniel Pires, autor de outros livros sobre o biografado e coordenador e editor de vários trabalhos de divulgação da produção bocageana.

Escrito em linguagem fluente que não exige maiores atenções do leitor com numerosas notas de rodapé, esta obra destinada a um grande público é mais um esforço para reverter a desgastada imagem de Bocage (1765-1805) como poeta chocarreiro, visto apenas como autor de sonetos eróticos e piadas maliciosas. Esta é uma imagem que se foi construindo através de tempos imemoriais e que permaneceu inalterada até há alguns anos, mas que, agora, enfim, é revertida e cumpre a aspiração de alguns dos contemporâneos do poeta que seria a de elevá-lo à condição de um novo Luís de Camões (1524-1580).

Afinal, como diz Daniel Pires, trata-se de um autor de obra vastíssima, apesar de ter falecido aos 40 anos, que nos legou “composições que, pela sua universalidade, depuração formal e autenticidade são intemporais”. E que, como acrescentou, “cultivou, de forma inovadora e autêntica, a poesia, o drama e a tradução, pondo em causa cânones, aparentemente inamovíveis, contribuindo para a construção de outros mais consentâneos com o dinamismo que caracterizou a sociedade do século XVIII”.

Para o pesquisador, esse Bocage, “livre-pensador insubmisso, heterodoxo”, foi “um arauto do porvir”, ao anunciar algumas das medidas que, mais tarde, a Revolução Liberal de 1820 e o regime republicano implementaram. E que, “aliando o gênio poético à sede de pugnar por direitos humanos inalienáveis, ponderou questões fraturantes que continuam pertinentes na atualidade”.

 

                                                    II

A obra começa mostrando como eram a época e a terra natal do poeta, a cidade de Setúbal, além de fazer um retrospecto da família Barbosa du Bocage, da qual ele descendia, que incluía ascendentes franceses, como o capitão de mar e guerra Gilles Hedois du Bocage (1658-1727), que, em 1711, já integrado às forças armadas lusas, ajudou a defender o Rio de Janeiro de um ataque empreendido pelo comandante francês René Duguay-Trouin (1673-1736). Sua mãe, Mariana Joaquina Xavier Lustoff du Bocage (1725-1775), descendia desse cidadão. Já o seu pai, José Luís Soares de Barbosa (1728-1802), formado em Cânones, em 1749, pela Universidade de Coimbra, ouvidor em Beja, seria acusado (sem provas) de desviar a arrecadação da décima e teve de cumprir pena na cadeia do Limoeiro, entre 1771 e 1777.

A breve biografia avança a partir dos anos escolares de Bocage e a influência da família sobre sua formação, inclusive sobre a sua opção pela poesia desde cedo, já que o pai também compunha poesias. E uma tia-avó, madame Anne-Marie du Bocage (1710-1802), interlocutora de Voltaire (1694-1778) e poetisa de vulto, seria uma figura tutelar sempre lembrada em conversas familiares.

Em seguida, há um retrospecto da carreira de armas de Bocage a partir dos 16 anos de idade, como soldado do Regimento de Infantaria de Setúbal, de 1781 a 1783, bem como sua viagem para o Oriente, a partir de 1786, a bordo da nau Nossa Senhora da Vida, Santo Antônio e Madalena, mais conhecida apenas como Vida, que passou pelo Rio de Janeiro e seguiu para a Ilha de Moçambique, ancorando depois em Goa. Por lá, em 1789, seria promovido a primeiro-tenente do Exército, e mobilizado para Damão, onde desertou sem causa conhecida. Depois, passou por Cantão e chegou a Macau, antiga colônia portuguesa, região administrativa especial da China desde 1999, de onde regressou ao reino.

Em Lisboa, passou a frequentar cafés, botequins, casas de pasto, tabernas e o Passeio Público, mantendo contatos com pessoas que eram mal vistas pelo intendente-geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805), que espalhava seus agentes, os chamados moscas, por todos os lados a pretexto de combater a subversão, especialmente aqueles que se mostravam adeptos das ideias propaladas pela Revolução Francesa de 1789. Seus versos passaram a correr de mão em mão e o levaram a aderir à Academia de Belas Letras com o nome arcádico de Elmano Sadino.

Logo, porém, acusado de aderir à maçonaria e de dispor de papeis “ímpios”, conheceria as agruras do cárcere em 1797 e, depois, em 1802. Antes, em 1799, a convite de dom Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), então ministro do Negócios da Marinha e Ultramar, passou a trabalhar como tradutor na Oficina do Arco do Cego, tendo perdido o único emprego regular que teve na vida, em 1801, quando a editora passou para a jurisdição da Impressão Régia.

 

                                                   III

O estado de saúde de Bocage agravou-se no início de 1805, talvez em razão de sua vida desregrada, que incluiria alimentação irregular, uso imoderado de álcool e de tabaco e até “relações sexuais de risco”, como diz o biógrafo. Até então, já havia publicado o terceiro tomo de suas Rimas. Em seus dias de desespero diante da morte iminente, por iniciativa de um amigo, publicou Improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade, cuja venda de seus exemplares o teria ajudado a enfrentar aqueles dias difíceis. Por essa época, ainda publicou Colecção dos novos improvisos de Bocage, mas o aneurisma nas carótidas, enfermidade letal na época, de que sofria aumentou sua pressão e o levou à morte em 21 de agosto de 1805, pelas 22 horas e quinze minutos, um sábado de muitas chuvas.

Além da biografia, Daniel Pires faz ainda uma análise depurada da extensa e multímoda obra do poeta, que incluía praticamente todos os gêneros poéticos da época, como soneto, ode, glosa, epicédio, canto, cantata, décima, oitava, ditirambo, elogio, elegia, epigrama e outros. Só sonetos seriam cerca de 400, “os quais obreiam, bastas vezes, com os de Camões”. Mas “cerca de um quinto de seus poemas só viu os prelos postumamente”, observa o biógrafo, advertindo, porém, que muitas das composições que lhe teriam sido atribuídas não seriam de sua lavra, ou seja, muitas seriam da autoria de elmanistas, “que imitavam o seu mestre com destreza”, inclusive composições de caráter erótico e até pornográfico, que a tradição erroneamente atribuiu a Bocage.

O biógrafo mostra ainda Bocage como crítico do catolicismo. E lembra que no poema “Pavorosa ilusão da eternidade”, que circulou clandestinamente, ele acusa “o catolicismo de constituir uma caricatura do cristianismo porquanto se transformara numa doutrina punitiva”. E lembra que nesse poema a concepção teológica do poeta é radicalmente diferente, como se constata nestes versos:

 

           Oh Deus, não opressor, não vingativo,

            Não vibrando com a dextra o raio ardente

           Contra o suave instinto que nos deste;

            Não carrancudo, ríspido arrojando

            Sobre os mortais a rígida sentença.

            A punição cruel, que excede o crime. (...)

            Há Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade”.

 

Por fim, o biógrafo faz uma resenha das múltiplas homenagens que até hoje são prestadas ao poeta, como a inauguração de uma estátua em sua homenagem em Setúbal, em 1871, as comemorações em 1905 a propósito do centenário de sua morte e outras como a de 1965, aquando do bicentenário do seu nascimento, bem como a influência do poeta nas artes plásticas, no teatro, no cinema e na música. Em outras palavras: por estes ligeiros apontamentos se vê que o leitor irá encontrar nesta obra, de poucas páginas, um perfil muito bem acabado dessa “personalidade indelével da cultura portuguesa”.

 

                                                            IV

Doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, Daniel Pires (1951) é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar em 1999 o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, além de defender tese de doutoramento a respeito da obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra completa de Bocage, publicada pela editora Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007. 

Nascido em Lisboa, é licenciado em Filologia Germânica e já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau, viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

Tem realizado numerosas atividades, como colóquios, conferências, visitas guiadas e exposições, e desenvolvido intensa atividade editorial, tendo editado já dezenas de livros. É editor de Obras completas de Bocage (Lisboa, IN-CM, 2016-2018, 3 volumes, 4 tomos) e autor de Bocage ou o elogio da inquietude (Lisboa, IN-CM, 2019) e Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000).

Organizou e publicou a brochura da Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos cartões postais (sépia) sobre Bocage na prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999), além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015. 

Acaba de publicar Obra de Bartolomeu de Gusmão (Lisboa, IN-CM, 2026), com quinze inéditos desse sacerdote secular nascido em 1685, em Santos, no Brasil, que ficou conhecido como padre voador, por ter inventado o primeiro aeróstato operacional (balão de ar quente), a “Passarola”, com o qual subiu aos céus em 1709, em Lisboa. Diplomata, poliglota e erudito, é considerado o primeiro cientista do continente americano. Morreu em 1724, em Toledo, na Espanha.

Daniel Pires publicou ainda o Dicionário da imprensa periódica literária portuguesa no século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes.  Colaborou no Dicionário de História de Portugal e no Dicionário de Fernando Pessoa e é autor do Dicionário da imprensa de Macau do século XIX, trabalho iniciado em 1990 em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio (1839-1842 e 1856-1860), saíram simultaneamente em Macau e em Cantão, e do Dicionário de imprensa periódica do Antigo Regime em Portugal (Lisboa, Theya Editores, 2024).

É autor de A imagem e o verboFotobiografia de Camilo Pessanha (Instituto Cultural do governo da Região Administrativa Especial de Macau/Instituto Português do Oriente, 2005), além de artigos sobre esse poeta nascido em Coimbra em 1867 e que, a partir de 1894, viveu em Macau, onde morreu em 1926. Escreveu também trabalhos sobre o poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929).  E organizou Camões pequenoObra completa de Francisco Álvares da Nóbrega (2024), que reúne produções desse poeta madeirense nascido em 1773, em Machico, e falecido em 1806, em Lisboa. Adelto Gonçalves - Brasil

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O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de Daniel Pires. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 5,40 euros, 86 páginas, 2023. Site da editora: www.imprensanacional.pt E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt E-mail do autor: danielbrspires@outlook.pt 

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br



Portugal - Nasce o De Norte a Sul um novo meio de comunicação luso-galaico

A iniciativa procura oferecer um novo ponto de encontro noticiando assuntos de toda a faixa atlântica peninsular


Ourense, Lisboa, Laracha, Guimarães, Ferrol, Compostela ou Porto, eis alguns dos lugares de residência dos promotores que lançaram esta aventura editorial. Com domicílio fiscal em Portugal e sob a Direção do portuense Luís Loureiro (jornalista com carreira na RTP e professor de jornalismo na Universidade do Minho), o novo projeto promete contar o que acontece na Galiza e Portugal através de notícias gerais, locais, notícias de desportos, ciência e cultura assim como um elenco de opinião que já inclui jornalistas, músicos, escritoras, informáticos, cientistas e artistas galegas, portuguesas e africanas.

O jornal, em língua portuguesa, conta ainda com uma equipa de voluntários entusiasta, um trabalhador e o apoio duma comunidade alargada de pessoas, da Corunha a Lisboa, que já decidiram contribuir economicamente para a iniciativa.

Com vocação de servir à comunidade segundo afirmam no seu sítio web, procura ainda ser parte dum espaço atlântico comum para um maior entendimento dos intercâmbios sociais, culturais e económicos que impactam positivamente a Galiza e Portugal. O novo meio, a nascer (e não por acaso) em 25 de abril, incluirá ainda uma visão mais alargada com o olhar posto nos países de língua portuguesa e o Sul Global.

Mais do que um simples jornal os promotores afirmam que será também um ponto de encontro, um espaço pensado para as pessoas se reverem e provocar novas sinergias. Como exemplo a secção de espaços afins, onde promoverão projetos de interesse social ou a sua loja online, onde além de produtos de produção própria se encontram já outros projetos editoriais, principalmente pequenas editoras selecionadas pela sua qualidade e compromisso com a cultura.

Secções de jogos, resenhas e uma completa agenda cultural e social, assim como a promessa de videocasts de análise das dinâmicas globais e podcasts para breve, completam a oferta deste novo meio que visa ultrapassar fronteiras.

De Norte a Sul, de livre acesso e sob licença Creative Commons, depende essencialmente dos seus assinantes. Pode ser visitado em denorteasul.eu. In “Portal Galego da Língua” - Galiza


Angola - Escritor Ondjaki vence Prémio Ibérico de Literatura Infanto-Juvenil

O escritor angolano Ondjaki cimentou a sua presença no panorama literário internacional ao conquistar a 4.ª edição do Prémio Ibérico de Literatura Infanto-Juvenil Álvaro Magalhães, em Portugal.

A distinção resulta da qualidade e riqueza literária observada pelo corpo do júri na obra “Ondjaki Porque é que os Olhos Não Vêem para Dentro?”, um livro no qual Ondjaki faz um exercício raro de introspecção na literatura infanto-juvenil contemporânea.

O prémio, partilhado com o também escritor angolano Sandro William Junqueira, reforça a relevância da literatura angolana, num concurso que reuniu mais de uma centena de obras provenientes de países como Portugal, Brasil, Moçambique, Zimbabwe e Angola.

Com ilustrações de Constança Duarte, o livro, segundo o júri, traduz com subtileza a marca autoral do escritor, explorando-a, mas como identidade, memória e o invisível. In “O País” - Angola