Com
enorme habilidade e consciência dialética, o autor insere cada um dos quatorze
contos do volume no mundo real, com desdobramentos ao longo das narrativas – a
história e a História em sintonia, bem como a ficção imersa na ficção – e
sobretudo no desfecho, quase sempre aberto, livre à participação do leitor.
Este seguirá pensando no que acabou de ler ou poderá imaginar um final diferente
e até prosseguir criando a continuação do conto. São raros os escritores que
conseguem essa proeza, a de estimular a imaginação do leitor.
Conto
não é um gênero fácil, ao contrário do que pensam muitos autores e leitores,
imaginando que se trata somente da quantidade de páginas. São esclarecedoras as
palavras de Gabriel García Márquez no Prólogo de Doce cuentos peregrinos:
“O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um
romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo:
estrutura, tom, estilo, extensão, e às vezes até o caráter de algum personagem.
O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar
[...] O conto, por sua vez, não tem começo nem fim: ou toma forma ou não. E se
desanda [...], é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo
no lixo”.

Autor
multipremiado de novelas e contos fortes, densos e originais, Francisco de
Morais Mendes sabe muito bem disso – e seus contos nunca desandam, desde o
início tudo está bem encaminhado. O escritor mineiro encara a literatura com
seriedade e paixão. Não tem pressa. Com a obra anterior, o brilhante Sacrifício
e outros contos, conquistou o Prêmio Autor 2018, em Lisboa, onde foi
publicado pela Gato Bravo em 2019 e no Brasil pela Jaguatirica em 2021. Há
escritores que estreiam com ótimo livro e aos poucos vão se diluindo, em
evidente declínio do vigor narrativo, do apuro estético e da escolha e condução
dos temas. Alguns, se fossem times de futebol, já teriam caído para a Série B
(antiga Segunda Divisão) ou C, sem chances de retorno, mas seguem na mídia e no
gosto de leitores pouco exigentes. A inércia da fama. Não é o caso do autor de A
bala dos desarmados. Ao contrário, ele se aprimora livro a livro – e é admirado
por bons leitores.
II
Acompanho
a ascensão literária de Morais Mendes desde a estreia, com Escreva, querida
(1996), e tive a honra e o privilégio de escrever a orelha de A bala dos
desarmados, a sua melhor coletânea de contos ou novelas. Apresentar com
seriedade um excelente livro exige mais de uma leitura, mas numa orelha, espaço
reduzido, pode-se apenas apontar alguns de seus incontáveis méritos; muitos
deles não são abordados devido à limitação das estreitas abas e do prazo, em
geral curto, de entrega do texto à editora. Além disso, a releitura de uma obra
de real valor literário torna-se mais prazerosa, pois revela aspectos não
percebidos antes. É o que dizia Osman Lins de outra maneira, mais elaborada:
“As qualidades mais valiosas de um livro são como que secretas e se revelam aos
poucos, sempre com parcimônia”. E, como detalhou a escritora e tradutora
paulista Maria de Lourdes Teixeira em Esfinges de papel, a releitura é
mais prazerosa do que a leitura “porque nos proporciona maior aprofundamento do
tema e do pensamento do autor, maior captação dos processos utilizados, bem
como satisfação artística mais lenta e mais saboreada, já que não nos aguça a
curiosidade a visão global do assunto e sim os meandros e interstícios da obra
em si”.
Vou
tentar apresentar a seguir algumas das preciosidades dos contos de A bala
dos desarmados; todos primorosos, obras-primas, já adianto. Interligados,
eles se desdobam no tempo e espaço e se comunicam, como fazem pelas raízes as
árvores numa floresta, fato comprovado pela ciência, e como ocorre nas
histórias de autores engenhosos. Desejo trazer pontos além dos que apontei na
orelha, mas não posso deixar de ressaltar o que ali destaquei: a recorrente
falta de ar (às vezes metafórica) em vários contos, reflexo do clima sufocante
que o Brasil viveu há alguns anos.
A
instável, perigosa e surpreendente trajetória do ser humano na Terra, mote natural
dos grandes escritores, já se evidencia no primeiro conto, de título bem apropriado,
“Incerta viagem”. Como no poema de Baudelaire, “O convite à viagem”, a leitura
de um livro é sempre um novo convite. No entanto, em A bala dos desarmados
trata-se de uma viagem distante daqueles versos idílicos do autor de As
flores do mal (“Lá, tudo é paz e rigor, / Luxo, beleza e langor”). No
início o narrador aventa a possibilidade (e suas terríveis, trágicas
consequências) de uma duradoura pane mundial em computadores, celulares e na internet.
Mas a história deriva para uma questão pessoal do narrador, um escritor, em
diálogo tenso com uma leitora que dizia ter conhecido uma personagem dele. Ele
refuta, a mulher seria inventada. No fim, leva um susto de efeito reverso.
Surpresa também para o leitor. Instigante e deliciosa ficção dentro da ficção. A
História acolhe a história.
Da
questão pessoal do personagem-narrador do primeiro conto, o escritor nos traz,
na segunda história, “Ar”, os anos angustiantes do pós-eleições de 2018, quando
as famílias se esfacelavam e o Brasil apodrecia “como um animal morto largado
numa poça de água suja”. Enquanto caminha ao encontro de uma amiga, a
personagem Malu pensa na carta que escreveria à família ou ao tio e lembra-se
da frase que ouviu do pai ao telefone, “justo ele, sempre tão comedido, tão
calmo, perdendo as estribeiras com o tio: você votou na minha morte”. É nesse
conto, vigorosa história dentro da História, que o autor cita um trecho de Avalovara,
de Osman Lins, epígrafe-bússola do livro: “A palavra sagra os reis, exorciza os
possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, também é a bala dos
desarmados e o bicho que descobre as carcaças podres”.
A
arma física aparece no conto seguinte, “Hóspedes”, também angustiante história,
embora de outra natureza. Um casal em Varsóvia prepara-se para embarcar de
volta ao Brasil quando um trágico imprevisto acontece. A mulher se desespera e,
sem entender o polonês nem falar outro idioma, sai atrás do marido que não
voltara da descida rápida ao térreo do prédio em que estavam. Solidário com a
mulher angustiada, na cidade vazia, de madrugada, o leitor ganha de brinde do
autor frases singelas, cenas poéticas, como esta: “a luminosidade da rua
aumentou com as nuvens descobrindo a lua”. Desde o primeiro parágrafo, o lírico
e o fatídico estão lado a lado, como em outras narrativas.
III
Em
várias histórias de A bala dos desarmados, Francisco de Morais Mendes evoca
com propriedade, além de Osman Lins, diversos escritores, poetas e filósofos,
como Drummond, Georges Perec, Philip Roth, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Tales
de Mileto e Walter Benjamin. O diálogo mais explícito dos narradores ocorre com
Julio Cortázar, no conto “Jardim das plantas”, o quarto do volume. Um árabe
queria conhecer de perto um axolote, que antes acreditava ser invenção do
escritor argentino, e embarca para Paris com a mulher e filhos, cada um com um
objetivo. Na volta, recomeça a guerra civil no país deles, não nomeado. Com
ajuda de amigos e visto diplomático, o homem refugia-se em Paris na esperança
de conseguir emprego e depois levar a mulher e os filhos, mas começa na França “uma
perseguição violenta” contra refugiados; ele perde o contato com a família. A
história de Antígona, de Sófocles, reverbera no conto. “Às vezes penso que a
Europa é isto: alguém tentando enterrar um corpo”, diz o personagem-narrador,
que, numa grande sacada metalinguística do escritor, pede ajuda ao leitor para
reencontrar a família.
Com
o despistante título de “Corredores” e a menção genérica de topônimos – rua,
avenida, parque, rio –, esse conto de forte tensão, desgeograficado que é, pode
ter como cenário qualquer grande cidade do Brasil ou exterior. Em todo o
labiríntico percurso de dois homens, um fugindo do outro, o leitor se pergunta
que perseguição é aquela. Também o perseguidor tenta descobrir o que o
perseguido pensa. Ofegantes, ambos procuram ar, a exemplo de pessoas
hospitalizadas, sem oxigênio, em Manaus nos irrespiráveis meses de 2020. Inútil
tentar prever o fim da história.
Depois
de um passeio no Jardim Botânico de Londres, em 2018, Ivan e Elisa resolvem
visitar o Museu Imperial da Guerra, guarnecido por dois canhões e um bonito
jardim, no meio do caminho do ônibus deles. Por sugestão de uma amiga, o casal
se interessa pela trincheira ali montada, mesmo sem gosto por instrumentos
bélicos e mais para evitar a chuva que começava. Imaginava uma passagem rápida.
Esse é o resumo do início do impressionante “Um olhar, uma foto”.
Logo
o casal começa a sentir a “atmosfera de um tempo sombrio, opressivo”, o
ambiente “sufocante” (a falta de ar que paira no livro) e “o cheiro do medo”. As
imagens dos horrores da guerra mergulham os visitantes no silêncio. “Me faz
lembrar um texto de Walter Benjamin”, diz Ivan à mulher. “Os soldados voltavam
mudos da guerra de trincheiras. Incapazes de falar daquela experiência.” O que
mais impressiona os visitantes, porém, é a foto de 1941 de uma adolescente
judia “sentada no calçamento” no centro da barbárie, vítima de conterrâneos,
“simpatizantes do nazismo”. Tinha acabado de ser violentada. É vívida e
dolorosa a descrição que Francisco de Morais Mendes faz da imagem da moça.
“[...] a mão gesticula. O gesto e o olhar dirigem-se a alguém com um grito.” Mais
tarde, o casal procura na internet – onde “nenhuma certeza fica de pé por mais
de quinze minutos” – informações sobre a foto e encontra contradições. Fica no
ar a dúvida quanto à autenticidade da imagem, de filme ou da vida? Mas a dor é
real.
No
sétimo conto, “A visita”, de percurso bem diferente do do casal em Londres, Valéria,
uma professora de Ciências prestes a completar 60 anos, inspeciona sozinha, num
feriado, as obras do apartamento da família onde espera comemorar o aniversário
dentro de três semanas. Seu nome significa forte, valente, cheia de saúde; e o
sete é o número da criação, signo da mudança. Enquanto percorre os cômodos,
lembra-se da evolução das descobertas, ideias e máquinas e de instrumentos que
proporcionam comodidade e conforto à raça humana, especialmente nas moradias.
Mais uma vez, Morais Mendes insere a História na história ou vice-versa. Como
toda pessoa que resolve reformar a casa ou o apartamento, Valéria encontra
problemas no ritmo das obras e no descuido de alguns trabalhadores, mas ela
também comete deslizes e, sem a quem recorrer, no meio daquele pesadelo, passa
a lutar contra “as garras do desespero”.
A
exemplo dos personagens de “Corredores”, mesmo em pânico, a professora “tenta
se acalmar, dominar a respiração [a recorrente falta de ar], para retomar o
controle”. Nessa narrativa, Morais Mendes remete o leitor, de maneira sutil, a
“O tempo dos sinais” –, sem citar esse conto do seu Onde terminam os dias
(2011), de “histórias absurdas”, segundo Valéria, que se arrepende de não
ter ficado em casa lendo-o. Na história,
uma moça, com “o carro parado num sinal de trânsito, prendeu os dedos cheios de
anéis nos cabelos e não conseguiu se soltar”; ficou ali, “como se imobilizada
num quadro de Edward Hopper”. O leitor atento capta o recado: é o retrato da
solidão, diferente, mas faz lembrar a garota de “Um olhar, uma foto”. Raízes.
IV
O
oitavo conto, “A caminho do grande espetáculo”, é simbólico desde o título e a
ordem dele no volume. Oito, o número do equilíbrio cósmico. O símbolo
matemático do infinito é o oito deitado, a lemniscata, a eternidade. Pai e
filho caminham, no meio de uma aflita multidão mas sem alvoroço, rumo a um
enorme estádio para assistir ao “grande espetáculo”. Os caminhantes, imersos nessa
aura metafísica, mas também na realidade concreta e na solidão coletiva, enfrentam
a pressão do tempo e do espaço. A arte e sua mágica, a energia aglutinada das
pessoas. O som ao redor é o rumor da multidão semovente, os passos e a
respiração coletivos “enchem o mundo”, como num verso de Jorge de Lima. A
caminhada, espécie do rio de Heráclito, pode ser a trajetória humana, com seus
percalços e mistérios; ou o nascimento e a busca do desconhecido, a volúpia por
algo grandioso etc. etc. As interpretações são múltiplas. Tem-se a impressão de
que o conto foi escrito de um jorro só. Considero “A caminho do grande
espetáculo” a maior obra-prima do livro. Antecipo em 75 anos o meu voto para um
futuro Ítalo Moriconi, que terá outras treze opções em A bala dos desarmados
na organização da antologia de contos brasileiros do século XXI.
Em “Feliz aniversário, Wainer”, nona história do livro,
Pedro Rocha, viúvo hospitalizado com Covid, recebe a visita de um casal de
filhos no dia em que completa 85 anos. Humberto testa a memória do pai que logo
terá alta. Ele prova se lembrar de tudo ao contar um segredo que nem sua mulher
soube. Não, não se trata de adultério.
“Vocês são filhos leais, que eu amo, e é de lealdade e de
amor que eu vou falar”, diz o homem, segurando a atenção dos filhos e do
leitor. Trata-se “uma história de amor e
de amizade”.
O amigo é o Wainer do título do conto. Era um rapaz alegre,
os dois amigos inseparáveis, ambos de 14 anos, faziam aniversário no mesmo dia,
com diferença de três meses. Ao lado de Pedro, Wainer foi vítima da covardia do
chefe de um grupo de uns dez garotos. Depois disso, isolou-se “numa cápsula de
tristeza e silêncio”. Pedro Rocha continua: “Eu comecei a afundar junto com
Wainer, mas tínhamos uma natureza diferente: eu não conseguia ficar muito tempo
no fundo, precisava subir para respirar. Quanto a ele, metia-se cada vez mais
no atoleiro”. Como em outros contos, no meio da tensão da história, surgem
frases assim: “Uma revoada de pássaros em algazarra atraiu seu olhar [de Pedro
Rocha] para a janela”. Pouco depois, diz: “Olha como o azul é bonito antes do anoitecer”.
Mais adiante: “Tardia, despontava a lua cheia e imensa”. O que aconteceu com
Wainer? Já adulto, Pedro Rocha reconhece quem humilhou o amigo. E o que ele
fez? Isso o leitor vai saber ao ler esse conto de veio policial.
O
conto seguinte, “Fora de época”, esmerada recriação de “Mistério em São
Cristóvão”, saiu antes na coletânea Feliz aniversário, Clarice
(Autêntica, 2020, organizada por mim e selecionada pelo PNLD/MEC-2021), em
comemoração dos 60 anos de Laços de família e do centenário da autora. Francisco
de Morais Mendes situa sua versão no “Rio de 2018, sob intervenção militar”. O
narrador não imagina que naquele ano, ao contrário do que acontece com os
garotos do conto clariciano, “alguém consiga atravessar alguns quarteirões com
uma máscara sem aparecer na internet com o corpo cheio de balas”. Na
republicação, o autor cortou penduricalhos dispensáveis, como travessões e verbos
dicendi nos diálogos. Poliu uma joia lapidada.
V
Em
“Névoa”, décimo primeiro conto do volume, fica ainda mais claro que A bala
dos desarmados, livro circular, articula-se no conjunto, textos
interligados pelas raízes, “um sonho embrulhado dentro de outro, como se
viessem de um novelo de fio duplo, embora avancem em direções distintas”.
História kafkiana, policial, o personagem duplicado Aristides Bastos Caldeira,
ABC ou Bastos, “tropeça nas dobras do sono”. Também nessa narrativa o autor
homenageia Clarice Lispector numa paráfrase do título de um livro dela: “Uma
nuvem pesada impede a consciência de compreender onde estivera de noite”. A
exemplo de outras histórias da coletânea, a comunicação entre as pessoas
revela-se precária. Sonho e realidade juntos, história e História. Que cada
leitor decifre o enigma do conto, o mistério de ABC (“acham que matei alguém”).
Também
a história seguinte, “Rastros”, é marcada pela violência e pelo medo. Ao tentar
socorrer uma mulher desconhecida que está sendo agredida por um homem na rua,
Glauco bate a cabeça numa árvore, é socorrido pela mulher e mete-se numa grande
encrenca. Acaba no pronto-socorro (“o médico disse que foram sete pontos, isso
lhe traria sorte”), tenta voltar para casa, mas encontra-se com o agressor, que
o aguardava. O que acontece em seguida deixa-o apavorado, leva o homem no
porta-malas, em longas voltas por ruas, avenidas e vielas de Belo Horizonte
(“que não davam trégua”), sem saber o que fazer com “o cadáver”. O sujeito estaria
mesmo morto? “Quando é que se deixa de ser assassino?”, Glauco pergunta-se. Roda sem rumo até
perceber que “o carro ia deixando um rastro na noite”. Em meio àquela angústia
do personagem, na direção do residencial Estrela Dalva, o narrador nos traz isto:
“Havia uma lua no céu e uma canção de carnaval que falava na estrela Dalva, a
lua tonta de tanto esplendor”. Num ritmo narrativo veloz, personagem e leitor,
assustados, têm o batimento cardíaco acelerado. Que conto!
Numa
noite chuvosa, sem pleno controle de atos e palavras, Soraia visita de surpresa,
talvez por efeito colateral da solidão, um ex-caso ou ex-namorado, Jamil. Noite
de azar para ele. Conto de número 13, em certos trechos “Chuva” pode ser lido
como uma referência à fotografia de Itabira que dói na parede do poeta mineiro
(“Confidência do itabirano”, Sentimento do mundo) ou à narrativa “Um
ponto no círculo”, de Nove, novena, de Osman Lins. A mulher
impressiona-se com um quadro na parede do apartamento de Jamil e num momento
tem “vontade de entrar nele e ficar lá dentro. Quietinha”, noutro, na
instabilidade psíquica, diz ter estado dentro do quadro e o considera “uma bela
duma bosta”. Além de humor e inquietação, parece atravessar o conto a marcha de
carnaval “Bloco da solidão”, de Evaldo Gouveia, notabilizada pela voz de Jair
Rodrigues.
No
último texto da coletânea, “Estado bruto”, título de duplo sentido, ecoa o
monólogo do personagem de O inominável, de Samuel Beckett. Mesmo sendo
uma história policial – a revelação de segredos de um crime –, o conto não
deixa de ser também um balanço da vida do narrador-personagem, “agora uma
espécie de ninguém, de um nada, embora vivo”, “um corpo sem voz”, cujo rosto “é
uma máscara de indiferença”, segundo o médico que o assiste. Em alguns
momentos, o texto tem algo da verve de Machado de Assis, como aqui: “A oposição
atiçava a fogueira com o combustível da intriga”. O homem confessa: “Tínhamos
de proteger o governador dos ataques e nos proteger da ida do governador.
Alimentávamos a imprensa com migalhas, para demonstrar a boa vontade do governo
em elucidar o caso”. Mais tarde, o personagem se distanciou “um pouco da
máquina corrosiva do poder”. Uma instigante novela e, tal como o
personagem-narrador, nas variadas versões, o leitor imagina “hipóteses,
possibilidades”. Fecha-se o círculo com o conto inicial, “Incerta viagem”.
Como
vimos, as narrativas de A bala dos desarmados evidenciam a circularidade
do livro. O leitor encontra, em cada uma delas, duas ou mais histórias, desvio
ou ampliação da primeira, personagens aflitos à beira do abismo existencial, em
diversas camadas de perplexidade, trafegando entre os aflitivos episódios,
entre as histórias e a História. Não é essa a fonte da boa ficção?
O
autor como que convida o leitor a decifrar o enigma ou os enigmas dos contos,
todos escritos com serenidade, sem nenhuma loquacidade, sempre em linguagem precisa,
sóbria, com trechos poéticos, mas sem pirotecnia estilística. Histórias sem
lances rocambolescos. E com humor. Em síntese: no coração do livro pulsam, com
a riqueza da boa ficção, a vida e suas mistérios, a política e a questão
social. É preciso destacar ainda a caprichada edição gráfica e a impecável
revisão. Há razões de sobra para Francisco de Morais Mendes e A bala dos
desarmados serem mais lidos, conhecidos e reconhecidos. Hugo Almeida -
Brasil
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A
bala dos desarmados, contos, de Francisco de Morais Mendes, São
Paulo: Sinete, 2025, 192 páginas, R$ 60,00. Disponível na editora e na Amazon.
Site: editorasinete.com.br
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Hugo
Almeida,
doutor em Literatura Brasileira pela USP, jornalista e escritor, é autor de
vários livros, dentre eles os romances Vale das ameixas e Mil
corações solitários. Site do autor: hugoalmeidaescritor.com.br