“A
escola está na sua capacidade máxima. Eu diria que, quer obras de
requalificação, quer alguma expansão – que tem sempre de ser muito bem pensada
– naturalmente que teriam todo o sentido, porque viriam melhorar as condições
globais, eventualmente criar um pouco mais de capacidade para acolhermos mais
alunos”, disse, em entrevista à Lusa, João Miguel Gonçalves, recém-chegado ao
cargo.
Questionado
sobre se há novidades neste sentido, o director respondeu negativamente. Quer a
expansão quer a requalificação estão em “cima da mesa já há muitos anos”,
lembra, notando ainda “ser prematuro” falar sobre o tema, já que “são decisões
que passarão necessariamente, quer pela Fundação Escola Portuguesa de Macau,
quer pelos órgãos de governo” de Portugal e Macau.
Há
vários anos que se fala numa possível expansão da EPM, com falta de espaço
crónica, tendo-se inclusivamente aventado a hipótese de deixar o edifício
actual e criar de raiz uma nova estrutura na ilha da Taipa.
No
presente ano lectivo, estão inscritos 828 alunos – mais 18 do que no ano
anterior – de cerca de dezena e meia de nacionalidades, sendo a maioria
portugueses e chineses. Apesar do aumento de inscritos não representar uma
variação significativa, “é um sinal positivo”, destaca João Miguel Gonçalves,
lembrando a “forte redução de alunos” no território.
“A EPM
está numa situação ímpar desse ponto de vista, porque tem especificidades que
fazem com que a procura não seja a procura normal do mercado na área da
educação. E aqui, pelo menos, nota-se que se mantém uma dinâmica de procura
importante”, reforça.
No que
diz respeito aos professores – 83 a cargo de 38 turmas -, este ano o
estabelecimento conta com novos cinco profissionais contratados em Portugal, de
acordo com o director, que recusa a falta de educadores, contrariando, desta
forma, a existência de instabilidade no corpo docente de anos passados.
Em
Junho, o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre,
reconheceu dificuldades na contratação de docentes para instituições de ensino
portuguesas em Macau devido a alterações nas autorizações de residência e,
segundo disse, a melhores condições em Portugal.
Macau
não aceita desde Agosto de 2023 novos pedidos de residência de portugueses para
o “exercício de funções técnicas especializadas”, permitindo apenas
justificações de reunião familiar ou anterior ligação ao território.
João
Miguel Gonçalves olha com naturalidade para as circunstâncias actuais: “Isso
talvez seja uma questão para quem já cá vivia. Para quem chega hoje, chega com
as condições que existem hoje”.
Sobre
o arranque do novo ano lectivo, o director garante que decorreu “com toda a
tranquilidade” e após obras de melhorias do espaço. A escola, defende, deverá
continuar a afirmar-se como “uma plataforma de encontro entre as culturas
portuguesa e chinesa”, focada na promoção da multiculturalidade.
A
língua e a cultura portuguesas continuam a ser a marca identitária e o núcleo
do projecto educativo da EPM, embora João Miguel Gonçalves defenda,
simultaneamente, continuar a investir no mandarim.
Sobre
o que se segue, diz que “o primeiro grande desafio é que esta é uma escola
única”, que cumpre finalidades “que estão muito além” das escolas em Portugal
ou de outras escolas portuguesas no estrangeiro: “ser um baluarte da língua e
cultura portuguesas na Ásia, na RAEM, República Popular da China, com uma
configuração no seu modelo gestionário, que é também única”.
A EPM
leva a cabo a realização de uma cerimónia semanal do hastear da bandeira da
China. A EPM “vem desenvolvendo há pelo menos dois anos”, às segundas-feiras,
esta cerimónia, diz o director, notando, porém, ser uma actividade de carácter
voluntário.
“Tudo
o que seja regulamentos e leis são para cumprir (…), tudo o que tenha a ver com
a cerimónia está de tal forma balizado que penso que não nos cabe entrar nesse
debate”, acrescenta, quando questionado sobre o tema.
Ensino além da sala de aula
com apoio da IA
João
Miguel Gonçalves defende o reforço da utilização da Inteligência Artificial
(IA) na educação, inspirando-se em modelos observados em escolas chinesas e
admitindo uma possível colaboração com uma instituição de Hangzhou. À frente da
EPM desde Setembro, integrou recentemente uma delegação do sector educativo
numa visita ao Interior da China. Uma das paragens foi a escola pública Qian
Xuesen, em Hangzhou.
“A
abordagem que estão a fazer vem ao encontro de algumas ideias que eu já
preconizava em Portugal, que é um pouco a utilização da IA, das novas
tecnologias, não só dentro do próprio espaço da sala de aula, mas que toda a
escola, que é isso que acontece um pouco lá, se possa transformar em local de
aprendizagem”, disse.
“Ou
seja, as crianças, os jovens, quando saem para os corredores – nos corredores
também há permanentemente nas paredes coisas a acontecer com que eles podem
interagir e em que há aprendizagem”, especifica.
João
Miguel Gonçalves diz que falou com a DSEDJ para criar uma “relação
especial-protocolar” com a escola em Hangzhou.
A
ideia, diz, passa por “desboroar um bocado o conceito” de que apenas na sala de
aula se concretiza a aprendizagem e transformar “todos os espaços e todos os
momentos em momentos de aprendizagem”.
O
director da EPM sublinha que “é inevitável” o caminho em direcção à IA, o que
“não quer dizer ecrâs e salas cheias de computadores”.
“Hoje
não é isso, é uma espécie de uma domótica global que recolhe dados das mais
diversas áreas e que, ao monitorizar a própria gestão e administração, o
funcionamento pedagógico, as instalações, começa a gerar informação que, para
os educadores, é altamente valiosa para tomar decisões”, explica.
O
responsável nota que a utilização de IA e da gamificação – uso de elementos,
mecânicas e dinâmicas de jogos em contextos que não são jogos – pode aumentar o
tempo efectivo de aprendizagem, gerar mais informação sobre o desempenho dos
alunos e facilitar um acompanhamento mais individualizado.
Num
modelo clássico, exemplifica, a aprendizagem numa aula de português depende do
número de minutos que se passa a exercitar. Em cada aula de 45 minutos, cada
aluno, efectivamente lerá ou terá escrito 20 ou 25 minutos, sugere o director.
Mas,
se for utilizada tecnologia – não necessariamente um computador, “pode ser um
tipo de aprendizagem com outro tipo de experiência” -, aumentar-se-á o número
de minutos efectivos em que o aluno está a aprender.
“Enquanto
numa aula – a não ser que estejamos lá com o cronómetro – nós nunca conseguimos
ter certeza absoluta de qual foi o tempo aproveitado, se tivermos instrumentos
em que o aluno esteja a trabalhar, vamos ter mais dados sobre essa
aprendizagem, que tempo é que é efectivamente aproveitado, em que conhecimento
ou proficiência leitora se transformou”, diz.
Se um
professor estiver sozinho numa sala a ensinar português, também não terá
capacidade de “criar individualização”, ao contrário destes novos “processos de
apoio ao professor”: “vai ser um pouco como se tivéssemos 21 professores a
trabalhar individualizadamente, personalizadamente, com cada aluno”.
Formação de lideranças “é
importante”
O
director da EPM defendeu uma “componente forte” na formação de lideranças desde
os primeiros graus de ensino, notando que esta é uma área que interessa à
instituição desenvolver.
“Pensamos
na formação de lideranças já quando as pessoas são profissionais. Não, a
formação de lideranças está hoje em diversos programas que já se implementam
desde o primeiro, segundo, terceiro ciclos, o ensino secundário, em conjunto
com universidades, escolas de negócios, de economia, e isso é importante”, diz
João Miguel Gonçalves.
O
director nota que já existem projectos na EPM que se vão “fazendo de forma mais
informal”, mas é necessário apresentá-los agora com uma estrutura e uma
identidade “mais clara”. “Temos de ambicionar também criar novas dinâmicas”,
explica. Para já, refere, existem apenas ideias.
“No
âmbito destas áreas de melhoria [da escola], da visão que vou construindo
cooperativamente (…), temos que ter uma componente forte de formação de
lideranças”, considera. Pode vislumbrar-se parcerias com instituições de Macau,
Portugal ou do interior da China.
No
âmbito das comemorações dos 30 anos da EPM, que se celebram em 2028, o
responsável indica que a direcção da EPM quer perceber onde andam os antigos
alunos, o que fazem hoje e que impacto teve a EPM. O levantamento sobre o
percurso dos alunos poderá ser apresentado em forma de um livro com
entrevistas, antecipa, notando, porém, que o programa das comemorações ainda
está a ser delineado. In “Jornal Tribuna de Macau” –
Macau com “Lusa”