Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 21 de março de 2026

Cabo Verde - Irmã Hélida Correia lança “ReiKina”, primeira obra a solo que apela ao civismo ambiental infantil

Cidade da Praia - A educadora e escritora Irmã Hélida Correia lança a 25 deste mês, na cidade da Praia, o livro infantojuvenil ReiKina, obra que sensibiliza crianças e famílias para responsabilidade ambiental e correcta gestão do lixo.


Em entrevista à Inforpress, a educadora e escritora Irmã Hélida Correia, mestre em Educação Pré-Escolar e Primeiro Ciclo do Ensino Básico, elucidou que o livro infantojuvenil ReiKina nasceu de uma experiência vivida com alunos, transformada depois numa história de sensibilização ambiental.

A ideia surgiu quando, durante uma actividade com crianças nas imediações da escola, se deparou com lixo espalhado junto aos contentores, situação que motivou um trabalho de consciencialização entre os alunos.

Segundo relatou, a iniciativa começou com uma música criada pelas próprias crianças para incentivar a colocação correcta do lixo, experiência que mais tarde inspirou a construção da narrativa.

“O contentor está aí, mas nós próprios deitamos o lixo no chão. Então decidi pôr o contentor a falar”, afirmou.

Na história, o contentor transforma-se na personagem ReiKina, uma figura simbólica que representa um apelo silencioso à responsabilidade colectiva e ao cuidado com os espaços públicos.

O nome escolhido resulta da expressão “rei da esquina”, numa referência aos contentores presentes nas ruas e bairros, muitas vezes ignorados no quotidiano, apesar do papel essencial que desempenham na organização urbana.

A obra de 36 páginas apresenta uma linguagem simples e pedagógica, dirigida sobretudo às crianças, embora também procure envolver pais, professores e toda a comunidade numa reflexão conjunta sobre os hábitos relacionados com o lixo.

Ao longo da narrativa, a autora introduz conceitos como reciclagem, reutilização e compostagem, incentivando pequenas atitudes diárias capazes de contribuir para mudanças mais amplas na sociedade.

Para Hélida Correia, iniciar essa sensibilização desde cedo constitui um passo decisivo na formação de cidadãos conscientes, sublinhando que a educação infantil representa o primeiro alicerce da construção de valores sociais e ambientais.

A escritora considera que a leitura possui um “papel determinante” nesse processo de formação pessoal e intelectual.

“Desde muito cedo percebi que o livro, na minha mão, faz-me viajar sem sair do lugar. Abre a minha mente e posso viver em qualquer sítio do mundo”, afiançou.

Com formato quadrado de grande dimensão, ReiKina apresenta uma narrativa acompanhada de elementos pedagógicos, incluindo uma música que pode ser utilizada por professores e famílias como ferramenta de sensibilização.

A publicação teve produção assegurada pela Gráfica Santos, enquanto o prefácio conta com a assinatura de Elídio Jesus, director do Centro Educativo de Miraflores.

Apesar de representar a primeira obra publicada individualmente, a autora já possui cerca de 20 histórias infantis escritas, além de poemas, romances e reflexões literárias, considerando esta publicação como a “mãe de todas as outras”.

A edição inicial prevê mil exemplares, com o objectivo de alcançar escolas, famílias e leitores interessados na temática ambiental.

A apresentação pública da obra está marcada para o dia 25 de Março, na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, com intervenções da escritora e docente Augusta Évora, do escritor Paulo Veríssimo e de Elídio Jesus, autor do prefácio. In “Inforpress” – Cabo Verde


sexta-feira, 20 de março de 2026

Angola - Novo livro de José Luís Mendonça lançado na União dos Escritores Angolanos

A obra com o sugestivo título, “30 Odes [Pouco ou Nada Ortodoxas]’’ é um conjunto de poemas que tem em comum o espírito exaltante da Ode, numa formatação contemporânea, incluindo trabalhos com mais de três décadas e outros mais recentes

O escritor, docente universitário e jornalista José Luís Mendonça lançou nesta sexta-feira, 20, na União dos Escritores Angolanos, a sua mais recente obra literária, intitulada 30 Odes [Pouco ou Nada Ortodoxas]. O volume é um conjunto de poemas que tem em comum o espírito exaltante da Ode, numa formatação contemporânea.

Inclui trabalhos com mais de três décadas e outros mais recentes. O título é um desígnio antigo que só recentemente o autor conseguiu fechar. São poemas aparentemente desapegados uns dos outros, mas têm em comum a glorificação de um objecto, um ser, um sentido ou ainda de um estado de alma.

O autor da obra, José Luís Mendonça, revelou à nossa reportagem que, na preparação da obra, teve como fontes de inspiração as coisas todas da vida, e abre a página deste prestigiado volume com um poema dedicado ao tempo [Cronos]. Questionado quanto à escolha de temas pouco ou nada ortodoxos, Luís Mendonça realçou que tem alguma particularidade com as mãos da sua mulher ou o sapo. Trata-se de poesia elevada ao grau do objecto raro. Muito trabalho oficinal até à cristalização do verso. In “O País” - Angola

 

Macau - Lançada 3.ª edição de projecto de incentivo à leitura em português

A 3.ª edição da “Dinis Caixapiz” será apresentada amanhã, às 10h00, na sede da Sílaba – Associação Educativa e Literária. Para além da apresentação da caixa, destinada a incentivar as crianças à leitura em língua portuguesa, as actividades complementares incluem um workshop de jardinagem gratuito com Sérgio Feiteira, ceramista local, e uma sessão de fotografias


A Sílaba – Associação Educativa e Literária apresenta amanhã, pelas 10h00 na sua sede, a 3.ª edição da “Dinis Caixapiz”, no âmbito do tema “Viagens”. As actividades programadas incluem um workshop de jardinagem gratuito, uma sessão de fotografias e a apresentação da nova Dinis Caixapiz.

No workshop de jardinagem, os participantes terão a oportunidade de decorar um vaso exclusivo, produzido por Sérgio Feiteira, ceramista local, e plantar sementes. Um fotógrafo profissional acompanhará a sessão, sendo que algumas das imagens serão oferecidas como lembranças aos participantes.

Destinada a crianças entre os oito e os 13 anos de idade, a edição deste ano apresentará “uma abordagem prática à leitura, combinando livros, conteúdos áudio e actividades interactivas”, segundo a associação. Desde 2024 que o projecto se tem afirmado como ferramenta complementar ao incentivo à leitura em português. A iniciativa chegou inclusive a ser apresentada na Feira do Livro de Lisboa e na Escola Portuguesa de Marrickville Petersham de Sidney.

A “Dinis Caixapiz” inclui um livro infantil seleccionado, o acesso a uma versão áudio da história através de um código QR, para além de uma revista juvenil destinada a jovens, a “Dinis Magazine”, cujo embaixador é a mascote que dá nome à publicação. Esta edição introduz novas rubricas, como os “Reis de Portugal”, refere a nota.

O livro infantil incluído em cada caixa relata histórias ao abrigo de vários temas, tais como “aventura, amizade, fantasia e descoberta”, adequado à faixa etária do público. A versão áudio da história do livro, gravada por actores, editores, escritores e outras figuras do mundo literário, poderá ser acedida através de um código QR e permitirá aos mais novos vivenciar a narrativa “de uma forma diferente”.

A caixa foi concebida para ser reutilizada, com o objectivo de promover práticas sustentáveis, chamando a atenção “para o excesso de lixo produzido nos dias de hoje”, ao mesmo tempo que estimula a imaginação das crianças.

A iniciativa oferece às crianças “uma janela para o mundo da literatura em língua portuguesa”, com uma caixa de assinatura trimestral que visa ir mais além “da experiência tradicional de leitura”. A edição deste ano convida os participantes “a explorar diferentes culturas e destinos através da leitura e de actividades criativas”. Pedro Milheirão – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

 


Macau - Luís Gonzaga Gomes, uma “figura incontornável” do diálogo cultural luso-chinês

Faz precisamente hoje 50 anos que faleceu Luís Gonzaga Gomes, figura multifacetada da sociedade e cultura de Macau no século XX. Ao longo da sua vida, o reputado sinólogo em língua portuguesa, também professor, escritor, jornalista e poliglota, contribuiu para o enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês


Assinalando a efeméride, o Jornal Tribuna de Macau registou alguns testemunhos sobre o ilustre macaense. “Foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau”, realça João Guedes, jornalista e investigador. “Admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, confessa Jorge Rangel, aluno. “Difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, frisa Beatriz Basto da Silva, historiadora. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, destaca José Carlos Canoa, professor.

Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907 e faleceu a 20 de Março de 1976, portanto há exactamente meio século. Figura multifacetada da sociedade e cultura local no século XX, foi professor, tradutor, filólogo, escritor, investigador, historiador, etnógrafo, sinólogo, jornalista, bibliotecário e arquivista, museólogo e coleccionador de arte. Ocupou vários cargos, entre os quais o de conservador do Museu Luís de Camões, director da publicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado.

Para além disso, desempenhou funções em organismos da sociedade civil, nomeadamente presidente do Rotary Clube, secretário do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural e também director da Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, e chefe de redacção e administrador da revista Renascimento.

Luís Gonzaga Gomes começou a escrever aos 14 anos, quando frequentava o Liceu de Macau, onde foi aluno de Camilo Pessanha e colaborou no jornal A Academia. Deu aulas no ensino primário durante 24 anos, ao mesmo tempo que aprofundou os seus conhecimentos da língua chinesa.

Ao longo da vida, trabalhou muito no sentido do enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e compilações, com destaque para uma tradução de “Os Lusíadas” contados às crianças.

Um conjunto de artigos com mais de 30 volumes publicados e cerca de duas dezenas de jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, “atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês”, como mencionou a antiga professora macaense Graciete Batalha no prefácio do livro Macau Factos e Lendas.

Segundo testemunhos da época, um dos quais relatado pelo Padre Manuel Teixeira, que com ele privou, “além da sua actividade profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomes representou Macau em jogos de ténis diante de Hong Kong, tocou violino, participou como cantor em concertos e programas de rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas”.

No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária, dedicada aos seus trabalhos de investigação. “Ele foi o melhor e o mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento”. “Era um verdadeiro anacoreta”, escreveu Manuel Teixeira.

Reconhecimento menor do que merecia

O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua de Macau situada na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, conhecida pela sua localização central perto do Jardim das Artes e da Universidade Politécnica. O ilustre macaense viu também o seu nome atribuído à Escola Secundária Luso-Chinesa, a qual ostenta a imagem do escritor à entrada do edifício localizado na Avenida Sidónio Pais, perto da Praça do Tap Seac.

Em 1977, terá sido colocado o seu busto numa sala do extinto Museu Luís de Camões e, em 1984, outro seria erguido no Jardim de S. Francisco de onde seria por sua vez retirado.

“Ambas as obras tinham sido esculpidas por Oseo Acconci, artista italiano que emparceirava então com Luís Gonzaga Gomes no restrito universo da cultura local do pós-guerra”, diz o jornalista e investigador João Guedes.

Em jeito de introdução, faz referência aos cinco anos da “Guerra do Pacífico”, durante os quais Macau se viu envolvido “numa vertigem festiva e exuberante tão extemporânea quanto contrastava com o drama bélico em que se submergia a província de Guangdong”. Porém, essa vertigem, assinala, “não era o culminar de um século de desenvolvimento por vezes frenético, mas sempre febril, mas antes o limiar de um inexorável percurso descendente que perdurou por décadas exaurindo-se lentamente na crise”.

De um “brilhante” entreposto entre a China e o Ocidente que tinha sido, Macau “deixava-se agora afogar no marasmo e no cansaço em que o filósofo francês Bernard Henry Levy o iria encontrar quando visitou a cidade e as ilhas vinte anos mais tarde, em finais dos anos setenta do século, mergulhado na lassidão”, descreve.

A cultura, “uma das áreas universalmente sempre mais afectadas pelas crises, não ficou de fora e também embarcou na procura de outros mundos”. Os que ficaram, sublinha João Guedes, “não foram muitos”. Entre eles contava-se Luís Gonzaga Gomes, que, embora “capaz de muito nas áreas das letras e da cultura em geral, era-lhe, porém, impossível carregar sozinho sobre os ombros tão despovoado universo”.

Por isso “o que viria a fazer, e foi muito, dispersou-o talvez demais, o que contribuiu, sem dúvida, para que o reconhecimento da posteridade fosse menor do que deveria ter sido e não maior do que merecia”, admite.

Defensor do ensino da língua chinesa

Citando alguns excertos de um artigo publicado pelo professor Fernando Ulisses Mendonça Serafim, o produtor de programas sobre História de Macau, emitidos na televisão local, refere que a posição de director do Arquivo Histórico que Luís Gonzaga Gomes assumiu, terá contribuído para a unanimidade dos estudiosos da historiografia do território o considerarem figura incontornável “para quem pretendia criar alguma reconstituição da aventura portuguesa em Macau, sem avaliar o quanto foi importante para a visualização das mazelas da Macau do seu tempo, bem como para a leitura desse riquíssimo espaço de interacção entre as culturas chinesa e portuguesa”.

O mesmo académico brasileiro afirmou também que Luís Gonzaga Gomes foi um intelectual cujo rigor ajudou a estabelecer uma identidade macaense em termos documentais e científicos. Coligiu algumas “lendas e narrativas” correntes na Macau do seu tempo, “trabalho que terá evidenciado o quanto o mito, representado por tais narrativas, pode ter auxiliado na fixação identitária”.

João Guedes destaca a toponímia de Macau, “que dedicou nome a Luís Gonzaga Gomes numa via pública da cidade”, e também a criação de um prémio escolar, para além da escola com o seu nome.

Depois de tudo isto, expressa, “resta ainda assinalar que, ao longo da sua vida, foi um defensor do ensino da língua chinesa nas escolas de Macau, conceito pioneiro que desencadeava então notórios preconceitos e acesos debates”.

Concluindo, interroga-se: “Depois de tudo, qual a razão da pequenina constelação do universo da cultura de Macau ter relegado Luís Gonzaga Gomes para as luzes de menor grandeza de imerecida segunda fila?”.

Reservado, mas com diálogo “enriquecedor”

O Jornal Tribuna de Macau ouviu outras histórias, acontecimentos e testemunhos pessoais contados por investigadores e também por um aluno de Luís Gonzaga Gomes.

“Conheci-o pessoalmente quando, ainda aluno da Escola Primária Oficial, ia duas ou três vezes por semana à sua residência, para as lições de violino que recebia da sua irmã, professora Margarida Gomes”, começou por dizer Jorge Rangel. “Antes e depois das lições, procurava, sempre que possível, falar com ele e admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte chinesa e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica”, contou.

O actual presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), em cuja sede se pode encontrar a sala Luís Gonzaga Gomes, lembra os tempos em que era aluno do sinólogo no liceu. “Embora reservado, pude manter com ele um diálogo sempre interessante e enriquecedor, sobre Macau, a arte e a cultura chinesa, a música e, sentindo nele momentos raros de visível entusiasmo, sobre o movimento rotário internacional e sobre os projectos que desenvolveu abnegadamente em variados organismos locais”.

Já na universidade, em Portugal e no estrangeiro, Jorge Rangel continuou a contactá-lo, “trocando alguma correspondência e publicações e visitando-o durante as férias”.

O antigo membro do Governo local salienta que, depois de cumprido o seu serviço militar nos Açores e na então Guiné Portuguesa, regressou a Macau em 1975, meses antes do falecimento de Luís Gonzaga Gomes. “Pude participar nas homenagens que lhe foram prestadas, pelo Governo, pelo Leal Senado e pelo Rotary Clube, de que fomos ambos presidentes”, frisou.

Oito anos depois, a 20 de Março de 1984, o antigo deputado da Assembleia Legislativa (AL) teve “o privilégio de presidir à instalação do busto de Luís Gonzaga Gomes no Jardim de S. Francisco e fazer o elogio, juntamente com a professora Graciete Batalha, daquele que foi um dos mais insignes filhos desta terra”.

Também como responsável pela Educação e Cultura no mandato do Governador Almeida e Costa, Jorge Rangel recorda que Luís Gonzaga Gomes interveio “decisivamente” no lançamento do ensino secundário luso-chinês e na criação da Escola Luso-Chinesa que ostenta o seu nome. Mais tarde, já no âmbito do IIM, coordenou sessões de apresentação de obras republicadas de Luís Gonzaga Gomes ou de trabalhos sobre a sua vida e obra.

Para além disso, “envolvi-me, muito empenhadamente, em 2007, nos actos comemorativos do centenário do seu nascimento, quando foram realizadas várias sessões evocativas, reactivado o cenáculo que ostenta o seu nome e inaugurado um salão com o seu nome na sede do IIM, onde funciona presentemente o Centro de Estudos da Diáspora e da Identidade Macaense”, menciona.

Jorge Rangel considera importante que Macau, os organismos culturais e as associações macaenses continuem a promover uma ampla divulgação da sua obra junto das novas gerações. “Recordá-lo-ei sempre, com saudade e admiração”, vinca.

Anonimato como “zona de conforto”

Beatriz Basto da Silva fala também do contacto pessoal e profissional que manteve com a figura que agora é lembrada por altura do meio século desde o seu falecimento. “A figura de Luís Gonzaga Gomes ficou-me gravada nos poucos anos que tive ocasião de com ele privar em Macau (1970-1976)”, confessa.

A historiadora nota que o ilustre macaense ficou conhecido entre os seus amigos e conterrâneos por ser poliglota, investigador, escritor, melómano, professor. “Mas talvez esses amigos não possuam um cartão de visita seu, recebido em troca do meu quando nos conhecemos”. “Guardo-o com estima”, enfatiza.

A antiga deputada na AL considera que Luís Gonzaga Gomes “era uma pessoa discreta no trato, como se o anonimato fosse para ele uma zona de conforto”, adiantando que “difícil era adivinhar a sabedoria gigante que estava par detrás daqueles olhos que, às vezes com ironia subtil, falavam mais do que as palavras”, sendo na solidão que “rompia fronteiras e viajava pelo mundo”.

A música era, apenas e só, admitida como sua companhia. “Estudava, escrevia o fruto das suas investigações, correspondia-se em várias línguas com especialistas das mais variadas áreas, consultava catálogos para encomendar aquilo que, na sua modéstia, lhe falecia”, apontou.

Quando Beatriz Basto da Silva aceitou, “por motivos vários”, assumir a missão de dirigir o Arquivo Histórico, criado em 1979, contou com a “presença tutelar” do professor António da Silva Rego, “sem o qual me sentiria, como diz Virgílio na ‘E-neida’, a nadar sozinha no imenso abismo”. Mas, o “erudito professor achara tudo simples, tudo se foi fazendo e a obra cresceu”, revela.

Não contando com instalações apropriadas, foi cedido o salão enorme da Mansão de Sir Robert Ho Tung onde outrora Luís Gonzaga Gomes, como presidente do Círculo de Cultura Musical, organizava concertos.

Como eco desses “gloriosos tempos” restava o piano, solitário, num canto do estrado/palco e o vazio que foi sendo preenchido com estantes metálicas que foram acomodando as caixas com documentos e os fundos arquivísticos solicitados aos diversos serviços. “Alguns vinham cobertos de poeira sedimentada pela humidade onde tinham estado esquecidos, ou meio-desfeitos pela formiga branca, pedindo urgente desinfestação”, recorda.

Àquelas acomodações provisórias, acrescenta, sucedeu um novo edifício, entretanto recuperado no Tap Seac, e só nessa altura foi entregue ao espólio e à guarda do Arquivo a rica biblioteca pessoal de Luís Gonzaga Gomes. “As peças eram tão numerosas que numa primeira impressão, necessariamente sincrónica, só percebemos que se abria uma luz intensa para o estudo da História de Macau”, sustenta a investigadora.

Sob o título de “Bibliografia Macaense”, o escritor publicara em 1973, na Imprensa Nacional de Macau, a obra que serviria de “Bíblia” para identificar o acervo recém-chegado. “Um verdadeiro tratado indispensável para acompanhar a documentação arquivística: fundos, tratados nacionais e internacionais, documentos avulsos, enfim, ficou claro que o Arquivo só existia com aquela Biblioteca e que esta era um verdadeiro ‘farol’ para o Arquivo”, afirma Beatriz Basto da Silva.

Assinala também que foram atribuídas cotas, verificadas que a maioria das entradas na “Biblioteca Macaense” correspondia fisicamente aos livros da colecção particular que “tínhamos em nossas mãos” e que o “insigne macaense tratou com mestria de documentar este legado”.

Esta experiência pessoal, observa, “só é partilhada porque a vivenciei”, sendo “um profundo preito de homenagem a Luís Gonzaga Gomes, um macaense ímpar que ocupou a tão breve (68 anos) vida fazendo render com generosidade os seus eclécticos talentos”.

Obra lega uma visão de Macau e suas gentes

Antes de falar de Luís Gonzaga Gomes, José Carlos Canoa, docente de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, revelou ao JTM que uma das razões que o trouxe para o território, “foi vir no encalço do rasto de Luís de Camões”, adiantando que tinha iniciado em 2017 um projecto de investigação sobre um comentador da obra do Poeta.

Entretanto, como editor do “Luís de Camões – Directório de Camonística” “conheci em Lisboa Eduardo Ribeiro, estimado nesta região e principal investigador da ‘verdade historiográfica’ de ‘Camões em Macau’ (2012, 2.ª ed. 2020), mais do que provada nos seus estudos”, salientou.

“Como também estava em contacto com um familiar aqui a leccionar na academia e com quem diariamente conversava sobre a recepção da obra camoniana, foi sem hesitações que fiz as malas e apanhei o avião”, relata.

Nos primeiros dias, “com reiteradas romagens ao jardim da Gruta de Camões, de dia e à noite, ao percorrer os ‘diversos mirantinhos que estão ligados entre si por um complexo labirinto de apertados arruamentos cobertos de limugem que sobem, descem e se encurvam em espreguiçadas rampas, ou se entretêm no jogo de xadrez ou se deixam inebriar pela capitosa fragrância que dimana de mil e uma variedades de flores e de plantas que ali proliferam com exultadora exuberância’ (descrição de Luís Gonzaga Gomes na lenda de ‘A rocha dos cinco metais’), não me surpreenderia nada, então, se me cruzasse com o próprio santo do lugar, o compositor de Os Lusíadas”.

José Carlos Canoa esperava “reconhecê-lo a cada esquina dos arruamentos mais antigos”. Daí em diante, prossegue, todas as ‘curiosidades de Macau antiga’ e as ‘efemérides da história de Macau’ como o 10 de Junho, me iriam remeter para ou materializar a presença de Camões”. “É aí que surge o sortilégio da obra escrita, posteriormente também da vida, de Luís Gonzaga Gomes”, conta.

Este outro Luís, “cujo nome e também o do seu pai (Francisco Xavier) está representado numa das estátuas de bronze de santos jesuítas na fachada das Ruínas de São Paulo, viria a ser o meu cicerone ideal”. “Para descobrir mais acerca de Camões e para ir conhecendo aos poucos Macau”, reflecte.

“Além de ter redigido o ‘Vocabulário cantonense-português, português-cantonense’, de ter consagrado muito do seu precioso tempo ao ‘Catálogo dos manuscritos de Macau’ e à ‘Bibliografia macaense’”, o incansável cronista das “páginas da história de Macau é ainda uma figura charneira para portugueses arribados à região” como o próprio José Carlos Canoa. “Através de Luís Gonzaga Gomes somos introduzidos no universo de ‘Contos chineses’, Lendas chinesas de Macau, Festividades chinesas, Arte chinesa, enfim, nos relatos breves das chinesices de uma civilização antiquíssima”.

Mormente, prossegue, “a obra de Luís Gonzaga Gomes lega-nos uma visão de Macau e das suas gentes em prosa breve, de espantoso fulgor colorido e visual, em muito semelhante ao universo reconfigurado nos romances de Henrique de Senna Fernandes e à rimada e informada poesia de J. J. Monteiro”. “Três distintos escritores, um mesmo amor: Macau”.

Na sua perspectiva, Luís Gonzaga Gomes é, pois, “um excelente anfitrião de Macau, recebendo-nos como outrora Lourenço Pereira Marques acolhera os seus visitantes e amigos na propriedade onde está a Gruta de Camões, na colina do Patane”.

Do mesmo modo, esta “extraordinária figura da vida cultural macaense”, que nas décadas de 60 e 70 foi conservador do Museu Luís de Camões (aberto ao público em 1960), sócio fundador do Instituto Luís de Camões e principal director do meio de comunicação desse Instituto, o “Boletim do Instituto Luís de Camões”, irá ser o meu objecto de interesse e entusiamo nos estudos camonianos em Macau”, referiu ainda o docente.

Aproximação ao poeta Luís Vaz de Camões

José Carlos Canoa recorda a tradução para o cantonês de “Os Lusíadas, contados às crianças e lembrados ao povo”, considerando-a “uma referência pioneira na aproximação à obra do poeta português pela cultura chinesa”.

O membro da Rede Camões na Ásia & África lembra também que, em 1972, Luís Gonzaga Gomes publicou no número especial da revista Garcia de Orta um número comemorativo do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, “o seu mais interessante texto camoniano: “Representação iconográfica da gruta de Camões de Macau”, estudo que continua e amplia um seu anterior publicado na revista Mosaico (“Camões em Macau”).

A abordagem de Luís Gonzaga Gomes “acontece no domínio da história da arte”, assinala, destacando que, no artigo da revista, “inventaria e descreve a iconografia camoniana em Macau, pois desde o séc. XVIII que ‘a fama e a beleza do sítio onde está situada a Gruta de Camões inspiraram vários artistas’”. “E eu que viera para Macau à procura de Luís de Camões, encontro também o extraordinário Luís Gonzaga”, expressa.

Em Junho deste ano, o professor do IPOR estará presente em Lisboa na “IX Reunião Internacional de Camonistas: O tempo de Camões, Camões no nosso tempo” promovida pela Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos do Nascimento de Camões. “Levarei comigo Luís Gonzaga Gomes, o seu estudo iconográfico sobre a Gruta de Camões – e com ele, Macau”, garante.

A terminar, revela que o professor Vítor Serrão divulgou recentemente nas redes sociais uma nova gravura da Gruta de Camões. Nela está representada uma cena em que uma figura humana está sentada no habitual banco de pedra junto à gruta. Frequentemente são figuras chinesas que lá se encontram sentadas em repouso. Agora, acentua, “o imprevisto é ser o próprio Camões sentado a ler junto aos penedos que o seu talento de poeta afamou”.

Para os mais românticos, ele está “com saudades da pátria, medita na gruta, interrompendo a escrita.” Esta “efabulação é mais uma representação iconográfica do lugar, criada nos finais do século XIX, que oferecemos agora à memória de Luís Gonzaga Gomes, o camonista que mais escreveu sobre este tema”, conclui.

Aluno de Pessanha e Silva Mendes

Tendo crescido no seio de uma família muito ligada à cultura, Luís Gonzaga Gomes (conhecido por Inho Gomes ou, simplesmente, Inho, entre parentes e amigos) foi, desde muito cedo, “influenciado por todo aquele ambiente familiar que o rodeava”, pode ler-se no livro Baixa do Monte, publicado por Manuel Basílio.

O investigador macaense escreve que, terminado o ensino primário, Gonzaga Gomes prosseguiu os seus estudos no Liceu, onde teve, como professores, Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes, José da Costa Nunes, Mateus António de Lima e outros distintos docentes e, por isso, recebeu sólida formação académica.

“Apesar de ter concluído o 7º ano do Liceu com boas notas, não seguiu para o ensino superior, tendo passado o resto da vida como um verdadeiro autodidacta em várias matérias e línguas, designadamente a língua chinesa”, salienta Manuel Basílio.

Segundo a sua investigação, “não restam dúvidas de que Luís Gonzaga Gomes foi um homem erudito”. No entanto, “sempre foi um indivíduo muito reservado, de poucas palavras, por isso, convivia com poucas pessoas e deve ter passado dias difíceis ou amargurados, nos últimos anos da sua vida, vivendo com muita angústia, à medida que os dias iam passando, pois, a ideia da morte perseguia-o”, constata.

Também António Aresta, professor e investigador, destaca no seu livro Figuras de Jade a obra de Luís Gonzaga Gomes. “Pela vastidão e amplitude dos seus interesses intelectuais, artísticos, musicais, linguísticos ou historiográficos, ele pode ser considerado como um homem do renascimento, não obstante a sua personalidade demandar recato, simplicidade e algum gosto ascético”. Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Notícias de Macau”




Fundação Calouste Gulbenkian - Bolsas Formação em Artes no Estrangeiro

Estas bolsas destinam-se a apoiar a formação académica e técnica em artes no estrangeiro, na vertente de artes visuais, dança, teatro, cinema e música


Condições de Elegibilidade

Podem candidatar-se cidadãos portugueses ou estrangeiros, residentes em Portugal.

No âmbito da formação académica, são concedidas bolsas para a frequência de pós-graduações e mestrados. Podem candidatar-se pessoas com idade igual ou inferior a 35 anos à data de 31 de dezembro de 2026, sendo considerados prioritários os candidatos em início de carreira que iniciem o ciclo de estudos a partir de 1 de setembro de 2026.

No âmbito da formação técnica e do aperfeiçoamento artístico, são concedidas bolsas para projetos formativos que promovam a especialização, a formação contínua e a valorização das carreiras profissionais. Nesta vertente, não existe limite de idade, sendo dada prioridade aos candidatos que iniciem a formação a partir de 1 de setembro de 2026.

No caso da música, são aceites apenas candidaturas nas especialidades correspondentes a instrumentos de orquestra, canto e direção de orquestra.

Excluem-se candidaturas destinadas à obtenção dos graus de licenciatura e de doutoramento.

Não são aceites candidaturas nas áreas de Arquitetura e Urbanismo, Design, História da Arte, Património e Arqueologia.

Condições da Bolsa

A bolsa inclui:

  • Uma mensalidade no valor de 1500 € ou 50 €/dia;
  • Um valor único de 1000 € para despesas de instalação, aplicável a formações com duração superior a três meses;
  • Um apoio até 500 € para despesas de viagem diretamente relacionadas com a formação;
  • Um apoio até 5000 € para pagamento de propinas, mediante apresentação dos respetivos comprovativos de pagamento;
  • Um seguro de acidentes pessoais em viagem.

No caso da formação académica, as bolsas são concedidas por um período mínimo de três meses e até um máximo de 12 meses. Mediante decisão discricionária da Fundação Calouste Gulbenkian, a bolsa poderá ser renovada para formações cujo plano de estudos tenha duração superior a 12 meses, não podendo a duração total da bolsa, incluindo renovações, exceder 24 meses.

No caso da formação técnica e do aperfeiçoamento artístico, as bolsas são concedidas por um período mínimo de uma semana e até um máximo de 12 meses. Também neste caso, poderá haver lugar a renovação, mediante decisão discricionária da Fundação Calouste Gulbenkian, para formações com duração superior a 12 meses, não podendo a duração total da bolsa exceder 24 meses.

Como concorrer

A candidatura é feita através da submissão de um formulário online, em português.

Consulte o Regulamento e verifique todos os critérios de elegibilidade, antes de submeter o formulário de candidatura.

Para aceder ao formulário de candidatura é necessário primeiro registar-se no website.

Preencha todos os campos obrigatórios para submeter a candidatura, incluindo o carregamento da documentação exigida no Regulamento.

Evite submeter a sua candidatura nos últimos dias do prazo para prevenir possíveis dificuldades.

Contactos

E-mail: bolsasgulbenkian@gulbenkian.pt. Fundação Calouste Gulbenkian – Portugal


quinta-feira, 19 de março de 2026

Cabo Verde - Abertas candidaturas ao Prémio de Literatura Mário Fonseca

As candidaturas ao Prémio de Literatura Mário Fonseca já estão abertas e decorrem até 16 de Maio


Instituído pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, através da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, em parceria com a Associação Cabo-verdiana de Letras, o prémio tem como objectivo galardoar uma obra literária inédita, em qualquer dos géneros, apresentada por uma editora nacional.

Segundo o regulamento, o Prémio Literário Mário Fonseca tem como propósito homenagear o escritor Mário Fonseca pelo seu contributo para a promoção da literatura cabo-verdiana e estimular a produção de obras literárias originais de editoras nacionais que editem em língua portuguesa ou cabo-verdiana.

A mesma fonte refere que são admitidas a concurso todas as obras entregues por editoras nacionais, sediadas em Cabo Verde, com actividade reconhecida no sector livreiro.

As obras não podem ser constituídas por trabalhos já seleccionados, sendo aceites apenas originais. São admitidas antologias ou colectâneas inéditas, mas não serão aceites colectâneas de crónicas previamente publicadas em jornais, nem inscrições de publicações póstumas ou a atribuição de prémios “in memoriam”.

O júri, designado pela BNCV e ACL, será composto por três intelectuais de reconhecida idoneidade, a quem estará interdita a participação no concurso.

O prémio traduz-se na garantia de publicação da obra vencedora até o montante de 400 mil escudos.

A apresentação das candidaturas ao prémio deverá ser efectuada, através do endereço do e-mail: apoio@bncv.gov.cv, indicando no assunto: Prémio de Literatura Mário Fonseca.

Os concorrentes deverão anexar, no mesmo e-mail, a declaração de cedência de direitos autorais e autorização de publicação, bem como o comprovativo de actividade da editora em Cabo Verde.

As obras a concurso devem ser inéditas e assinadas com pseudónimo, não devendo conter qualquer elemento de identificação da editora candidata. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


Timor-Leste - Investimentos aproximam o país da China, diz estudo

Um estudo recente destaca como Timor-Leste tem procurado mais investimentos da China como estratégia de desenvolvimento económico e de superação de isolamento geopolítico

O trabalho realizado por William Vogt, membro executivo sénior de política no think-tank The Digital Economist, e por Guilan Massoud-Moghaddam e Robert Miles Chong da Universidade de Georgetown, explora a crescente presença da China em Timor-Leste e o impacto dessa relação no desenvolvimento tecnológico do país.

“A presença chinesa em Timor-Leste ocorre num momento em que três outras nações — Índia, Austrália e Portugal — fornecem ajuda em tecnologias de informação e comunicação, sendo a Austrália o contribuinte mais ativo”, destacou o estudo.

Segundo os autores, a abordagem da política externa tecnológica da China é concebida para desafiar os interesses geopolíticos australianos no Sudeste Asiático, investindo fortemente em áreas essenciais para o desenvolvimento digital timorense, incluindo eletrificação e conectividade.

Timor-Leste tem procurado integrar-se plenamente na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), embora enfrente escrutínio devido a fragilidades económicas, com “cerca de 42% dos timorenses a viver abaixo do limiar da pobreza e o fundo soberano do país em declínio”.

A adesão, apoiada diplomaticamente por Pequim, abriria acesso ao fundo de cooperação ASEAN–China e a “benefícios económicos tangíveis”, com os investigadores a descrever que Timor-Leste pode estar a recalibrar a sua política externa, privilegiando novas parcerias.

Para os autores, a presença crescente da China em sectores-chave — telecomunicações, energia, agricultura e defesa — sugere que Díli procura superar o isolamento geopolítico e construir uma economia digital funcional. “A China encontra-se bem posicionada para competir oferecendo o trabalho de campeões nacionais como a Huawei, em conjunto com outros fornecedores de energia e tecnologia”, assinalaram.

A companhia China Nuclear Industry 22nd Construction Company, por exemplo adjudicou um contrato de 360 milhões de dólares para melhorar a rede elétrica nacional timorense, enquanto a gigante tecnológica Huawei se afirma como fornecedora central de infraestrutura de Internet.

A Austrália continua a ser um parceiro relevante, financiando cabos de fibra ótica que substituem a dependência timorense de conexões via satélite, contudo Pequim tem avançado em áreas sensíveis, apoiando a Rádio e Televisão de Timor-Leste na digitalização de conteúdos e promovendo um sistema de transmissão televisiva digital terrestre. “A China aumenta o acesso dos timorenses a essas transmissões, criando um destino potencial para propaganda chinesa”, alertam Vogt, Massoud-Moghaddam e Chong.

O estudo descreve também que a cooperação sino-timorense não se limita ao setor civil, pois em julho de 2024 os dois países acordaram reforçar intercâmbios militares e investir em áreas como formação de pessoal, tecnologia de equipamentos e exercícios conjuntos.

Para os autores, esta aproximação reflete uma mudança significativa na política externa timorense, com o presidente José Ramos-Horta a alinhar-se cada vez mais com os interesses chineses. “Díli pode ser persuadida a continuar a aprofundar suas relações com Pequim como estratégia para o desenvolvimento económico contínuo e para a superação do isolamento geopolítico”, acrescentou o estudo.

Além de apoiar a Marinha timorense e integrar Timor-Leste na sua Rota Marítima da Seda, Pequim tem investido em tecnologia agrícola, introduzindo arroz híbrido e métodos como a tecnologia Juncao, aplicados em zonas agrícolas com suporte digital.

Segundo o estudo, os financiamentos são frequentemente canalizados através do China Exim Bank, permitindo a Díli aceder a crédito para obras públicas e projetos digitais, uma parceria é vista como alternativa às limitações de capital interno, dependente das receitas de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, o comércio eletrónico é visto como caminho para o desenvolvimento económico moderno e Díli poderá colher frutos ao integrar-se no mercado digital regional, recorrendo às plataformas e produtos chineses. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”