O golpe do Banco Master terminará em
pizza e Daniel Bueno Vorcaro vai rir da nossa cara, enquanto estiver tomando
seu uísque à beira-mar de um resort de renome, curtido só por milionários?
Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso
Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso
por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos mas
em 34 mil pequenos investidores da classe média.
O professor Marcos Assi, no seu site e também na revista Exame, foi mais longe, e
publicou os 6 golpes financeiros que enganaram milhares de investidores em todo
mundo. Ficou faltando, por ser mais recente, o sétimo golpe, o do Banco Master,
no qual existe uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas
pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, até Estados e
empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e
até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de
dólares.
E, nessa coletânea de golpes, há uma exceção saltando aos
olhos - o trambiqueiro Paulo Roberto de Andrade, criador e gestor da pirâmide
ou safadeza das Fazendas Reunidas Boi Gordo, nunca foi preso, depois de um
habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Depois da programada
delação, Daniel Vorcaro também sairá livre e poderá comemorar com seus amigos
que viajavam no seu avião?
Mais de vinte anos depois da falência do Boi Gordo, a
Justiça se arrasta na venda das fazendas tomadas de Andrade, cujo total
serviria para indenizar parcialmente os investidores lesados. Quem conta com
pessimismo é o advogado de muitos dos lesados, Aurélio de Almeida Paiva.
E, embora grande parte dos investidores tenham enviado
seus investimentos em dólares para Miami, até hoje a Justiça brasileira,
encarregada da falência, não pediu aos Estados Unidos o retorno total desses
investimentos ao Brasil.
Diante do escândalo do Banco Master, me lembrei da
falência das Fazendas Reunidas Boi Gordo e quis fazer um paralelo. Achei um
resumo no site do agronegócio, o Notícias Agrícolas, e só no
momento de copiar o link percebi ser texto meu publicado em 2009, no Correio
do Brasil! Um texto de descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem
evidente já no título: "Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre".
O "empresário" Paulo Roberto de Andrade tinha
sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13.
Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para
Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da Sexta Turma do
Superior Tribunal de Justiça, concedeu a liminar alegando que o "TJ
paulista não podia determinar a prisão, antes do trânsito em julgado da
sentença".
Enfim, o Superior Tribunal de Justiça anulou a ação penal
contra Paulo de Andrade e reconheceu a prescrição do processo, resumiu o jornal
gaúcho Gazeta do Povo, na edição de 13
de agosto de 2009.
Mas acrescentou um parágrafo bem elucidativo: "É a
pizza. Fazer o quê?, afirma o promotor de Justiça Eronides Aparecido Rodrigues
dos Santos, da Vara de Falências de São Paulo. Lamento a anulação de um caso
emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não
haverá responsabilização penal". Procurado por meio da assessoria de
imprensa, o ministro Nilson Naves, responsável pela decisão do STJ, está
ocupado e não tinha tempo para a atender".
Vai ser assim com Daniel Vorcaro? Quem viver verá!
"A lei, ora a lei", dizia Getúlio Vargas. Rui
Martins – Suíça
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Rui Martins é
Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.