Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Poesia de exaltação à vida cotidiana

Em nova obra, Salomão Sousa reúne poemas líricos que evocam o seu passado rural      

                                                                         

                                                                                           I

Depois de publicar Certezas para as madressilvas (Brasília, edição do autor, 2024), que reúne poemas escritos à época do isolamento forçado pela epidemia de covid-19 (2020-2022), e Poesia e alteridade (Brasília, edição do autor, 2024), que abriga artigos sobre Literatura e Psicologia Social, o poeta Salomão Sousa chega ao seu 19º livro, A selva escura dos cristais perdidos (Brasília, edição do autor, 2026), em que retoma o ofício de poeta com peças em que procura estar próximo à vida cotidiana, livre das amarras daquele tempo sombrio, solto para se manter fiel à sua memória, à família e aos amigos, certo de que “a poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos”, como diz em texto que encaminhou a este articulista.

De fato, nesta obra, como diz o seu autor, as metáforas acabam assumindo um fluir, um caminho, um ato de navegar e dar continuidade, mas resistindo, precisando de portas e fronteiras livres. “O cotidiano está por debaixo das palavras, sem grande angústia, mas é um convite para sermos participativos, sem omissão. O mundo se move conforme as nossas ações”, diz. E acrescenta: “Não podemos destruir o nosso ambiente nem nossas relações. Não podemos subir no telhado para gritar impropérios contra os vizinhos, os familiares e os animais. Não podemos subir ao púlpito para a defesa de ideias envelhecidas e germinadoras de opressão e repressão. Temos de nos libertar do pragmatismo escravizante”.

Por aqui, pelas próprias palavras definidoras de seu trabalho poético, o poeta adianta ao leitor o que irá encontrar ao longo de seus poemas reunidos. Ou seja, um alerta para o mal que, volta e meia, tenta arrebentar as portas da frágil democracia que o País tenta reconstruir a muito custo. “O nefasto, que deseja nos dominar, faz de tudo para nos isolar. O isolamento nos enfraquece. A informação e a arte promovem o nosso encontro”, adverte.

 

                                                          II    

Oriundo de terras até hoje ainda pouco desbravadas no interior do Brasil, Salomão Sousa é um poeta lírico e, como tal, preocupado com a expressão da subjetividade, da alma e dos sentimentos. Por isso, em quase todos os seus versos, há sempre a evocação do seu passado rural, sem que saia do círculo estreito de seu “eu” poético, projetando-se nos amigos e familiares que ficaram para só ver a si próprio. Como se constata no poema “Ao meu irmão Miguel”:

          Sentávamos na cerca do curral / com algum graveto ou chicote, / lascávamos tapiocangas ao longe / e entre os voos dos morcegos / chacoalhávamos as varas. / Na porta surgia a nossa mãe: / Saiam já do sereno! / César Vallejo, exilado em Paris, / distante do Peru, amada Pátria, / não tinha um naco de queijo / nem palhas para dormir. / Ou mãe que lhe pedisse para colher / com Miguel folhas de chapéu-de-couro. / E fomos colhê-las a cavalo em pelo. / A lua não desiste de quarar a  noite. / Dou-te, irmão, as rimas mais improváveis. / O perfume, perfume talvez de limas. / Para estendermos as tranças de uma mãe /arrastamos ramas de fava. / E para as glórias de teu nome, irmão, / sempre estarão estirados os varais do céu.

 

                                                            III

Além de homenagear o poeta peruano César Vallejo (1892-1932), de  se notar é que em outro poema reverencia não só a atriz e modelo norte-americana Marilyn Monroe (1926-1962), um dos símbolos sexuais do século XX, como o poeta e ensaísta também  norte-americano Walt Whitman (1819-1892), a quem o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998) definiu, em ensaio que consta de O Arco e a Lira (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982), tradução de Olga Savary (1933-2020), como um versejador que se dizia realista, mas que, na verdade, seria um sonhador, que buscava a criação pura, para “escapar do pesadelo americano”.

Pois essa mesma definição pode ser transferida a Salomão Sousa, cuja poesia é igualmente um sonho profético, um sonho dentro de outro sonho, que procura entender o Brasil e escapar do “pesadelo brasileiro”, assim como Whitman tentou entender a América saxônica, “com seus homens, seus rios, suas cidades e suas montanhas”. Eis o poema “Marilyn lê Whitman”:

          Ninguém vira o rosto para saudar / ou traz o mapa com as especificações / em qual encosta as casas / e é tão rápido desmoronar / Onde vamos incendiar hoje? / Uma pessoa morta não ama / Ficaremos nus e nem existia a cama / No certame não iremos nos beijar / Quem aproveita as cortesias do dia? / Marilyn Monroe como uma libélula / pousada sobre as páginas da relva / Whitman tira do fosso os nossos ossos

Por aqui se desvenda também as influências de outros poetas consagrados no fazer poético de Salomão Sousa, que incluem, sem dúvida, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que, em 1979, chegou a lhe encaminhar uma carta, a propósito da publicação de seu livro de estreia, A moenda dos dias, dizendo que a obra lhe dava uma impressionante visão de Ceilândia, cidade satélite de Brasília, e lhe “devolvia às raízes rurais”, mineiro que era.

 

                                                            IV


Nascido em Silvânia, no interior de Goiás, Salomão Sousa (1952) é formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (Ceub), mas foi alfabetizado tardiamente na zona rural, onde convivia com pessoas iletradas. Quando tinha 12 anos, a família deixou a casa em que vivia na zona rural que ficava a quinze quilômetros de Silvânia e transferiu-se para esta cidade, onde ele teve acesso à biblioteca pública e à leitura de jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1971, transferiu-se para Brasília, onde ingressou no serviço público em 1973, passando a trabalhar na esfera do poder executivo, na área de relações políticas, até que se aposentou pelo Ministério da Economia em 2021.

É membro da Academia de Letras do Brasil (ALB), da Associação Nacional de Escritores (ANE), ambas de Brasília, da Academia de Letras, Artes e História de Silvânia-GO e da Academia Mundial de Letras da Humanidade (AMLH), de Santo André-SP.

Com Francisca Andrade, constituiu família de três filhos (Vítor, Saulo e Carlos Alberto), seis netos e duas bisnetas. Recentemente, teve a infelicidade de perder o filho Vítor, a quem dedica (em memória) seu mais recente livro. Em quase meio século de trabalho literário, tem conquistado leitores tanto no Brasil como no exterior, a exemplo de suas idas ao Peru, Chile e Equador, com participação em uma antologia na Argentina e outra na Espanha. Também tem admiradores na Cidade do México, onde participou de encontros com escritores locais e estrangeiros e leu seus poemas.

Em 2022, publicou Bifurcaçõesmemória, resistência e leitura (Cidade Ocidental-GO, edição do autor), instigante texto em que procura mostrar que a obra da poeta Cecília Meireles (1901-1964) ultrapassa os padrões originais do Modernismo,  corrigindo várias informações a respeito de sua vida, além de outros ensaios e artigos sobre outros temas igualmente atraentes.

Está também na Antologia da nova poesia brasileira (1992), organizada pela poeta Olga Savary, e em A poesia goiana do século XX (1998), organizada por Assis Brasil (1929-2021). Foi um dos 47 poetas incluídos no número que a revista Anto, de Portugal, dedicou, em 1998, à literatura brasileira, em comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil.

Organizou antologias, entre as quais Deste Planalto Central – poetas de Brasília, publicação da 1ª Bienal Internacional de Poesia da Biblioteca Nacional de Brasília (2008), Em canto cerrado e conto candango, com escritores de Brasília. Obteve o Prêmio Capital Nacional do Ano de 1998 de Crítica Literária. A União Brasileira dos Escritores (UBE), seção de Goiás, concedeu-lhe o Troféu Tiokô como personalidade goiana que mais se destacou fora do Estado no biênio 2010-2011.

É autor ainda de Falo (Brasília, Thesaurus Editora, 1986); Criação de lodo (Brasília, edição do autor, 1993); Caderno de desapontamentos (Brasília, edição do autor, 1994); Estoque de relâmpagos, Prêmio Brasília de Produção Literária (Secretaria de Cultura do Distrito Federal, 2002); Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia (São Paulo, 7Letras, 2006); Safra quebrada (reunião de livros anteriores e de dois  inéditos: Marimbondo (feliz) e Gleba dos excluídos (Brasília, Fundo de Apoio à Cultura, 2007); Momento crítico: textos críticos, crônicas e aforismos (Brasília, Thesaurus Editora, 2008); Vagem de vidro  (Brasília, Thesaurus Editora, 2013); Desmanche I (Brasília, Baú do Autor, 2018); Poética e  andorinhas (Brasília, Baú do Autor, 2018) e Descolagem (Goiânia, Editora Kelps, 2017), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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A selva escura dos cristais perdidos, de Salomão Sousa. Brasília, edição do autor, 134 páginas, R$ 50,00, 2026. E-mail: salomaosousa@yahoo.com.br                                                                       

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra. E-mail:marilizadelto@uol.com.br




quarta-feira, 20 de maio de 2026

Portugal - Investigadores da Universidade de Coimbra desenvolvem tecnologia para criar ecrãs flexíveis que dobram e esticam sem se partir

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveu um novo condutor transparente e ultra-resiliente que promete transformar o futuro dos dispositivos wearables, dos ecrãs táteis e de tecnologias de recolha de energia.


Esta investigação propõe uma solução inovadora para um dos principais desafios da eletrónica moderna: desenvolver filmes condutores que são simultaneamente transparentes e elásticos, capazes de se esticar, dobrar e acompanhar o movimento humano sem comprometer o seu desempenho elétrico.

No centro desta descoberta está uma arquitetura nanométrica tridimensional em forma de giroide, preenchida com metal líquido. Esta estrutura geométrica avançada permite que o material suporte deformações extremas, incluindo alongamentos, torções e compressões, mantendo uma condutividade elétrica estável e eficiente.

O estudo, publicado na revista npj Flexible Electronics, do grupo Nature, resulta de uma colaboração entre o Instituto de Sistemas e Robótica (ISR), o Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores e o Departamento de Física da FCTUC.

Segundo os investigadores, a nova abordagem ultrapassa as limitações dos condutores tradicionais, que tendem a partir ou degradar-se quando sujeitos a esforços mecânicos repetidos. Para além da elevada elasticidade, o novo composto combina duas características raramente conciliáveis: elevada condutividade elétrica e transparência ótica, essenciais para aplicações em tecnologias de visualização e interfaces inteligentes.

“Os ecrãs, touchscreens e células solares atuais continuam a ser fundamentalmente frágeis. O nosso objetivo é criar eletrónica macia, resiliente e sustentável, capaz de resistir a dobragens, alongamentos, impactos e até perfurações sem perder funcionalidade”, explica Mahmoud Tavak, líder do estudo e investigador do ISR.

“Os resultados incluem dispositivos eletroluminescentes capazes de esticar até 600%, enquanto o próprio condutor transparente suporta deformações até 1400%, o que significa que pode esticar até 14 vezes o seu comprimento original”, acrescenta.

Para validar o potencial da inovação, a equipa integrou o novo condutor em dispositivos optoeletrónicos e sistemas de eletroluminescência, demonstrando a sua aplicabilidade em contextos reais.

De acordo com Mahmoud Tavak, este avanço representa “um passo decisivo rumo a uma eletrónica verdadeiramente integrada no quotidiano”, aproximando a tecnologia da flexibilidade e adaptabilidade dos sistemas biológicos.

Este trabalho de investigação é financiado pelo projeto Liquid 3D do Conselho Europeu de Investigação (ERC) (Grant Agreement n.º 101045072). Universidade de Coimbra - Portugal


Macau - Vagas para Curso de Português da Universidade de Macau esgotaram “nos primeiros minutos”

As 400 vagas abertas para o 40.º Curso de Português da UM, a realizar-se entre 6 e 24 de Julho, esgotaram nos primeiros minutos, adiantou uma das coordenadoras, Tânia Santos Ferreira, ao Jornal Tribuna de Macau. O processo passa agora por validar as candidaturas. A docente apontou que “o curso oferece uma verdadeira experiência imersiva na língua portuguesa”, vincando que o seu “sucesso” se deve ao papel do Departamento de Português da UM na promoção da língua de Camões, bem como ao “trabalho incansável do corpo docente e administrativo”


A Universidade de Macau (UM) anunciou na segunda-feira a abertura das inscrições para o 40.º Curso de Verão de Português, o qual conta com 400 vagas – “a adesão foi imensa” logo nos primeiros instantes, segundo adiantou uma das coordenadoras do curso, Tânia Santos Ferreira, ao Jornal Tribuna de Macau. “Talvez por serem os 40 anos do curso, nos primeiros minutos a adesão foi imensa e esgotámos as vagas”, disse a docente da UM, adiantando que agora a equipa está no processo de validação de candidaturas.

Tânia Santos Ferreira considera que o “sucesso” do curso se deve ao papel do Departamento de Português da UM na promoção da língua de Camões.

“Este curso tem, de facto, atraído muitos estudantes ao longo das suas edições e o seu sucesso advém do trabalho incansável do corpo docente e administrativo. O curso oferece uma verdadeira experiência imersiva na língua portuguesa, promovendo não só o desenvolvimento das competências linguísticas dos aprendentes, mas também oferecendo um conjunto vasto de actividades relacionadas com a cultura dos países de língua portuguesa”, vincou a docente.

Organizado pelo Departamento de Português da Faculdade de Letras da UM, o curso tem inscrições abertas até 5 de Junho. “O curso destina-se a pessoas de todo o mundo, sem conhecimentos prévios de português ou com diferentes níveis de proficiência linguística”, segundo uma nota da UM.

Lançado em 1986, o Curso de Verão “tem sido, desde sempre, um projecto importante no plano de formação de quadros bilíngues da Universidade”, refere a instituição de ensino superior.

Esta edição vai decorrer entre 6 e 24 de Julho, abrangendo aulas de língua, aulas temáticas e diversos workshops culturais e artísticos. “O curso não só ajudará a melhorar globalmente as competências linguísticas e o conhecimento sociocultural dos participantes, como também reforçará a sua consciência intercultural”, pode ler-se.

Tendo por base o Quadro Comum Europeu de Referência para as Línguas, o curso de língua disponibiliza quatro níveis: inicial (A1), elementar (A2), intermédio (B1 e B2) e avançado (C1). Os participantes podem escolher o nível adequado de acordo com a sua experiência de aprendizagem e nível de proficiência linguística, de forma a obter o melhor aproveitamento.

Segundo Tânia Santos Ferreira, prevê-se a canalização de 17 docentes para leccionarem o curso, com um total de 16 turmas dos diferentes níveis. As aulas de língua decorrem das 9h00 às 13h00, perfazendo um total de 60 horas lectivas.

Além das aulas de língua, os participantes podem participar numa oferta diversificada de workshops à tarde e à noite, com temas que abrangem literatura, história, cultura, dança e cinema, “permitindo-lhes vivenciar plenamente o encanto da cultura de língua portuguesa num ambiente imersivo”.

Tânia Santos Ferreira disse ao JTM que, em relação à edição anterior, estão a ser preparadas “algumas mudanças”, mas nos mesmos moldes. “Prevê-se um conjunto de acções que irão promover o contacto dos alunos com múltiplos aspectos da língua e da cultura portuguesas e dos países de língua portuguesa”, afirmou, acrescentando que os pormenores estão a ser finalizados.

“Estamos a envidar todos os esforços para oferecer acções de formação promovidas por especialistas de diferentes áreas, da literatura, da cultura dos países de língua portuguesa e também de Macau”, adiantou, frisando que a coordenação acredita que “será bastante proveitoso”.

Segundo o comunicado da UM, os materiais didácticos das actividades culturais são totalmente gratuitos. Após a conclusão do curso, os participantes com uma assiduidade igual ou superior a 80% receberão um certificado de conclusão, que incluirá a classificação final obtida. Os candidatos não locais e os que solicitam alojamento no campus devem ter pelo menos 18 anos, enquanto os residentes de Macau devem ter, no mínimo, 15 anos. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


Angola - Academia de Letras e Universidade Roma Tre assinam protocolo de cooperação cultural

A Academia Angolana de Letras (AAL) e a Cátedra Agostinho Neto da Universidade Roma Tre formalizam em Itália, um protocolo de cooperação estratégica para consolidar os laços culturais e académicos entre as duas instituições


O documento vai ser rubricado em Roma, capital daquele país europeu, pelo presidente da AAL, Paulo de Carvalho, e pelo director da cátedra, o professor italiano Giorgio de Marchis, tendo como objectivo central a promoção do estudo da língua, literatura e cultura angolana, bem como a valorização da vida e obra de António Agostinho Neto.

Segundo a nota enviada à imprensa, a parceria estabelece uma base para o intercâmbio de conhecimentos, a realização de conferências internacionais, publicações conjuntas e programas de mobilidade para investigadores e escritores.

Como primeira materialização deste protocolo, está agendado, no mesmo dia, a realização de um Colóquio Internacional, intitulado “Angola Perante a África e o Mundo”, um evento de elevada relevância diplomática e académica que assinala a celebração dos 50 anos da proclamação da Independência de Angola e o 50.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre Angola e a Itália.

O colóquio, que vai decorrer na Sala Ignazio Ambrogio, em Roma, vai contar com comunicações de destacados especialistas e académicos angolanos e italianos, abordando temas como a diversidade cultural angolana, o poder simbólico da língua e a análise de obras literárias contemporâneas.

O programa inclui ainda uma romagem ao busto de Agostinho Neto, no Largo Beato Placido Riccardi, simbolizando o compromisso contínuo com a preservação da memória histórica e o fortalecimento da cooperação angolana-italiana no domínio das Letras e das Ciências Sociais.

Com uma validade inicial de três anos, renovável por acordo entre as partes, este compromisso visa não apenas a valorização da História e do património angolano, mas também o incentivo à inovação nos domínios da Educação, Ciência e Cultura. Por meio de acções coordenadas, as instituições pretendem elevar o estudo da cultura angolana num contexto global, honrando o legado de Agostinho Neto e criando oportunidades de investigação que consolidem, de forma duradoura, a cooperação científica entre Luanda e Roma. In “Jornal de Angola” - Angola


Na terra de Lebab

Construída no século XIX, a Casa do Mandarim tornou-se o maior complexo residencial de Macau e, nas décadas de 1920 e 1930, instalaram-se ali dezenas de famílias de vários estratos sociais, transformando aqueles quatro mil metros quadrados num microcosmo da sociedade local. Um microcosmo de tal forma complexo que ali coexistiam artistas e operários, mas também uma dezena de cabras e colmeias para extrair mel, ou ainda uma fábrica de pimenta. Antes dessa transformação e arrendamento em diferentes compartimentos, na Casa do Mandarim viveu Zheng Guanying, defensor da democracia representativa e dos direitos das mulheres, que desde 2011 dá o nome a uma escola pública macaense, pioneira num sistema de ensino bilingue que coloca o português lado a lado com o mandarim.

Entra-se nesta escola com um espanto ainda maior do que na Escola Portuguesa de Macau. A maioria das crianças que escolhe aprender português não tem qualquer ligação a Portugal. A diversidade e a multiplicação de sentidos são para elas naturais, porque desde cedo falam quatro línguas - o cantonês, o mandarim, o inglês e o português. Algumas cruzam todos os dias a fronteira das Portas do Cerco, da China para esse pedaço de outra coisa chamado Macau, porque os pais os querem em contacto com várias línguas que, somadas, são porta para a maior parte do mundo.

É fácil, em Macau, ficarmos embevecidos com a herança portuguesa, com a arquitetura que identificamos, a calçada imensamente regular e cuidada, os nomes das ruas tão nossos. É fácil, em Macau, irmos atrás do que nos soa familiar, até porque - como canta Caetano - Narciso acha feio o que não é espelho. Mas Macau ganha tamanho quando deixamos essa lente e olhamos o território na sua fusão de culturas e na profusão de cores. A terra escolhida e protegida por A-Má, pisada por Camões como por tantos outros poetas chineses, ingleses e franceses, habitada por tantas tradições e ainda assim não uma Babel, mas a Terra de Lebab que Fernando Sales Lopes descreve num livro editado pelo Instituto Português do Oriente em 2008. A diversidade que nos acrescenta e nos torna verdadeiramente do mundo, não no sentido nostálgico do que fomos, mas do tanto que podemos ser - e que outros veem em nós e na nossa língua. Inês Cardoso – Portugal in TSF

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Suíça - Quer fechar as portas

Dia 14 de junho, o povo decidirá por voto secreto se a Suíça deverá limitar sua população em 10 milhões de habitantes. Essa votação foi provocada pelo partido da extrema-direita, UDC, com o objetivo de impedir a entrada de novos imigrantes na Suíça. A sondagem mais recente mostra uma pequena vantagem dos conservadores favoráveis a um limite da população.

A Suíça é um raro país governado pela democracia direta. Isso significa a possibilidade dos suíços proporem modificações nas leis do país nas esferas municipais, cantonais ou estaduais e federais. Não é fácil, mas diversas leis vigentes tiveram sua origem por iniciativa popular, aprovada pela maioria dos votantes em todos os cantões.

Desde sua criação em 1891, já houve mais de 200 iniciativas federais propondo modificações na Constituição suíça, das quais 26 foram aprovadas e entraram em vigor. A mais recente foi a criação e aprovação pelo povo, em 2024, de um décimo terceiro pagamento anual para os aposentados. (Nisso, o Brasil antecipou a Suíça de 61 anos, o décimo-terceiro salário brasileiro criado em 1962, incluiu também a aposentadoria em 1963, no governo João Goulart, deposto no ano seguinte com o Golpe militar de 1964-85).

Existe hoje, na Suíça, uma preocupação pelas consequências negativas, caso a iniciativa popular "Não a uma Suíça de 10 milhões" seja aprovada pelo povo. Experiências parecidas vividas por outros países reforçam as más previsões econômicas para uma Suíça de fronteiras fechadas. Mesmo porque a Suíça seria obrigada a romper compromissos e tratados com a União Europeia tratando da livre circulação de pessoas.

Ainda na semana passada o primeiro-ministro inglês Keir Starmer, logo depois de sua derrota eleitoral, reconhecia os prejuízos da política isolacionista do Brexit e falava numa reaproximação com a União Europeia, embora evitasse tocar num retorno com anulação do Brexit pelas complicações políticas e econômicas decorrentes.

Na verdade, o Brexit foi um tiro no pé, mas a União Europeia não acredita num "Breturn", depois da vitória, nas eleições municipais do partido Reform UK, de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit, junto com Boris Johnson e David Cameron. Um "Swissexit", provocado por um voto popular suíço isolacionista, não teria o mesmo efeito negativo do referendo Brexit?

Outro exemplo de contenção do aumento da população foi o da política do filho único na China, de 1979 a 2015, com o objetivo de garantir o desenvolvimento chinês. Isso acabou criando um desequilíbrio de gênero na China, pois a maioria dos casais, obrigados a ter um só filho, preferia ter menino. A população foi se tornando idosa sem ser gradativamente substituída por jovens, isso gerando uma diminuição da força de trabalho. Desde 2021, os casais podem ter três filhos, mas agora são os casais que decidem ter um ou dois filhos provocando baixa taxa de natalidade e um desequilíbrio demográfico.

Para complicar ainda mais a situação, a China enfrenta uma explosão de casos de demência (síndrome designativa de funções cognitivas que incluem o Alzheimer) na sua enorme população de idosos. Sem esquecer da falta de "cuidadores" dentro da família chinesa para cuidar dos avós e pais envelhecidos. A política do filho único criou para os jovens a responsabilidade de assumir, durante a vida, os cuidados dos 4 avós e dos 2 pais.

O cronista Yves Petignat, do jornal suíço Le Temps, comenta como reagirá a Suíça, se o povo votar, no 14 de junho, pela limitação da população suíça. E destaca o paradoxo de que o partido UDC, autor da iniciativa popular, tem sua força justamente na Suíça rural, longe dos centros urbanos, onde a população está envelhecendo, existe desequilíbrio demográfico e a maioria dos jovens prefere ir viver nos centros urbanos.

Sem os imigrantes, a população suíça já estaria em declínio, principalmente nas zonas rurais. E isso implicaria na falta de mão de obra na lavoura e no tratamento do gado leiteiro. O exílio dos jovens em busca de melhores empregos nas cidades implicaria no fechamento de escolas, enquanto os idosos ficariam sem seus médicos, atraídos por melhores condições e ganhos nos centros urbanos.

Em síntese, uma Suíça egoísta, isolada e fechada, será também um tiro no pé como foi o Brexit para os ingleses. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

Moçambique - Jacinto Gibante lança livro de estreia sobre relações modernas em Quelimane

O escritor moçambicano Jacinto Alfredo Gibante prepara-se para apresentar aos leitores da cidade de Quelimane o seu livro de estreia intitulado As raízes da traição feminina, uma obra chancelada pela Mapeta Editora.


O lançamento decorrerá nos dias 22 e 29 de Maio, pelas 15 horas, na Casa Provincial da Cultura e no Auditório da Universidade Licungo, respectivamente. A apresentação da obra estará a cargo do académico Benone Mateus.

Na obra, Jacinto Alfredo Gibante propõe uma reflexão crítica sobre as motivações psicológicas, emocionais e sociais ligadas à infidelidade feminina. O autor apresenta a traição não como um simples acto de vilania, mas como consequência de um complexo ciclo emocional marcado por carências, expectativas e desejos.

A narrativa desenvolve-se em torno de três arquétipos masculinos — Homem Shick, Homem Sheck e Homem Shock — figuras que, segundo o autor, influenciam de forma consciente ou inconsciente as escolhas afectivas femininas.

Descrita como uma obra voltada para a compreensão das fragilidades das relações modernas, As raízes da traição feminina procura igualmente explorar os dilemas emocionais que marcam a experiência da mulher contemporânea.

Jacinto Alfredo Gibante é formado em Engenharia Ambiental pela Universidade Eduardo Mondlane e actualmente frequenta o curso de Medicina Geral na Universidade Licungo. Entre 2015 e 2023, exerceu funções como docente na Escola Comunitária 4 de Outubro, em Maputo.

Já Benone Mateus, natural de Mocuba, na província da Zambézia, destaca-se como jornalista, historiador e professor de Geografia, estando ligado a iniciativas de investigação, comunicação e promoção cultural em Moçambique. In “Moz Entretenimento” - Moçambique