Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 20 de junho de 2026

Angola - Investigação associa o país a empresa suspeita de interferência em eleições

Companhia israelita Blackcore averiguada em França. A Viginum, agência governamental francesa que monitoriza, detecta e caracteriza eventuais operações de interferência digital estrangeira afirma que a BlackCore coordena dezenas de perfis e grupos falsos no Facebook que defendem o governo e o MPLA

O que começou por ser uma investigação sobre influência estrangeira e manipulação das eleições locais em França, rapidamente se transformou num caso que envolve vários países e actividades suspeitas no Togo, Escócia, EUA e Angola. No centro das investigações está uma obscura empresa de origem israelita, chamada BlackCore, que em Fevereiro de 2026 terá sido contratada pelo Governo angolano, segundo as autoridades francesas.


No passado dia 12 de Junho, a Viginum, agência governamental francesa encarregada de monitorizar, detectar e caracterizar operações de interferência digital estrangeira, que é tutelada pelo Secretariado-Geral de Defesa e Segurança Nacional (SGDSN) de França, divulgou publicamente um relatório com o título "Rokh Solis: Análise de um modus operandi informativo que teve como alvo as eleições autárquicas de Março de 2026", que divulga as informações apuradas sobre as operações da BlackCore naquele país.

No caso de Angola, a agência identificou dezenas de contas, grupos e perfis falsos, que actuam de forma coordenada para expandir, abafar ou interferir directamente em narrativas e informações que circulam nas redes sociais e na internet, sobretudo para veicular mensagens favoráveis ao governo e ao MPLA. "As investigações conduzidas pela Viginum permitiram identificar", para além das contas associadas às eleições autárquicas em França, outro conjunto "com características idênticas, mas que, desta vez, visavam públicos em Angola", segundo consta no relatório oficial consultado pelo Expansão.

"Com efeito, foram identificadas 48 contas ainda activas, que apresentam vários elementos semelhantes ao conjunto descrito anteriormente: fotografias geradas por inteligência artificial, utilização de nomes com conotação lusófona («Maria Sousa», «Paulo Carvalho», «Luísa Pereira», etc.), partilhas em comum entre estas diferentes contas e coordenação das suas interacções nas mesmas publicações através de "gostos" ou comentários", descreve a Viginum. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 9 de abril de 2026

O antissemitismo até no bar

Durante uma grande parte de minha vida, que é longa, sempre foi a extrema-direita a líder do antissemitismo, culminando com a perseguição e massacre de judeus pelos nazistas de Hitler. Uma grande parte da intelligenzia era formada de judeus e os primeiros kibutzes em Israel eram socialistas.

Ora, nestes últimos anos, vem acontecendo o inverso, embora não se trate declaradamente de antissemitismo mas ocorre sob a cobertura de antissionismo. Assim, a pretexto de se criticar a estrutura do Estado de Israel e colocar em questão sua própria existência, negando-se aos judeus o direito a um Estado, vem ressurgindo a tendência de se transferir essas críticas aos judeus, inclusive aos que vivem fora e longe de Israel.

É esse amálgama o detonador do fenômeno social atual do antissemitismo, provocando mesmo o surgimento de dois projetos de lei, de certa forma parecidos, um no Brasil pela deputada federal Tábata Amaral, e outro na França, pela deputada Caroline Yadan, provocando fortes reações nas redes sociais de esquerda.

Uma petição do partido LFI, de extrema-esquerda, França Insubmissa, contra o projeto Yadan, já reuniu mais de 500 mil assinaturas, enquanto no Brasil as redes sociais de esquerda agridem a deputada Tábata Amaral.

Qual a semelhança entre esses dois projetos de lei?  A de enquadrar as novas formas de antissemitismo dissimuladas como antissionismo.

Diante da recrusdescência do antissemitismo, a jornalista Mariliz Pereira Jorge publicou, na Folha de São Paulo, com título sugestivo Antissemitismo gourmet, um texto sobre o aviso colocado à entrada de um bar bastante frequentado no Rio de Janeiro, de que "americanos e israelenses não são bem-vindos", antecipando, talvez de alguns meses, a proibição da entrada de judeus em outros bares, cafés e restaurantes.

Não estamos ainda na obrigatoriedade da Estrela de Davi amarela, símbolo de segregação dos judeus na Alemanha nazista, mas é preciso se tomar cuidado.

Parece também inapropriado se prever o fim do Estado de Israel antes de completar 100 anos, pois os comentários postados, debaixo dessa profecia publicada no canal Opera Mundi, revelam muitos sentimentos antissemitas extremados, lembrando o slogan "Do rio ao mar" pela destruição de Israel. Não há justificativa para esse tipo de publicidade. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Internacional - Discurso antissemita viraliza na Internet

Procurando novas informações na Internet, vi o título O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato, cliquei, havia um aviso: "Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas."

O aviso, colocado pelo próprio autor, queria dizer ser alguma coisa por ele bem elaborada, alguém ciente de ter escrito algo capaz de ferir, mas sua paciência esgotada levara a tirar os filtros com que se tratam certos temas.

Esse tipo de aviso preparatório funciona como um chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses dois povos europeus me lembrou textos da extrema-direita, textos racistas.

Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.

Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus?

Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os Estados Unidos, mas antes de se criticar o Império americano, não resiste à tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e holandeses, "gente que pode ser desagradável e detestável", será que isso não se chama preconceito?

E, enfim, o autor se define, depois das piruetas iniciais, Hannah Arendet inclusive, ele vai falar de Israel, "que nunca deveria ter sido criado", do sionismo, "mas não propriamente do povo judeu e dos judeus em geral". E, en passant, vai falar do Irão.

Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa me chamou a atenção - praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda, estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247, Carta Capital, etc.

Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir: esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.

Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de alguns críticos europeus do chamado movimento Sul Global, principalmente a professora socialista Renée Fregosi da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução no Brasil, pode me contatar).

Não é minha intenção responder ao texto tão viralisado ou polemizar com o autor, na base um economista de formação, mas destacar dentro do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente, que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.

Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irão, já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos. Sobre o Irão já deixei muito comentários, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando principalmente nos depoimentos cinematográficos de importantes cineastas iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados ao exílio para não serem presos.

Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da época, Sartre e Foucault.

Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico no Irão, se desfez com a criação de uma república factóide, na verdade uma teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.

No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o autor faz questão de exprimir seu desejo: "Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!"

Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse de apoio ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.

Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas, ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a situação das mulheres no Irão?

Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada por munições, mísseis e drones. Ou em outras palavras, que Israel seja destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irão, o império persa ex-zorotroatista, do livre-arbítrio e da ética, transformado numa ditadura teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irão, como o Hamas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Do massacre de árvores ao Armagedon

Numa nova visita a São Paulo para matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo, uma área arborizada junto da avenida Paulista, onde se pode imaginar estar numa floresta. Ou que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma elite. Mas é preciso se reconhecer: uma elite ambientalista.

Diante de tanto respeito pela natureza com árvores das diversas regiões brasileiras, é quase impossível não se lembrar e não se fazer um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário, no Alto da Lapa, onde a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos Salesianos com autorização do prefeito Ricardo Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.

De um lado, um empreendimento investe no respeito da natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do Bosque dos Salesianos.

Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta protegida, cheguei logo à avenida Paulista e a tentação de visitar mais uma vez o MASP, com suas exposições atuais e seu acervo. Esse acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao antigo museu ainda na rua 7 de Abril.

Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irão, com um cartaz perguntando "Haverá paz no mundo? Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová. Um ramo original derivado dos evangélicos norte-americanos, criado em 1872, cujos missionários vieram ao Brasil em 1920 e hoje são um milhão e quatrocentos mil.

A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha do Armagedom, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos no mar Egeu. Armagedom seria a última guerra, pois significaria a intervenção de Deus numa guerra mundial. Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem a mesma ênfase do Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser chegada a época do retorno de Cristo.

Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail publicada pelo Brasil 247, estaria ocorrendo junto dos soldados e militares norte-americanos participando da guerra contra o Irão. Sabendo-se da influência dos evangélicos junto aos trumpistas, "comandantes militares associados ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas americanas em meio ao conflito com o Irão, afirmando que a guerra faria parte de um plano divino ligado ao “Armagedom”.

A imprensa francesa também repercute essa utilização das profecias do Apocalipse pelos comandantes trumpistas para que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do Bem contra o Mal. Do lado do Irão, os combatentes iranianos acreditam que se tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Irão - Aiatolá Khamenei, herói ou tirano?

Quem era Ali Khamenei, o chefe da teocracia iraniana, líder e guia supremo do governo do Irão?

Vamos deixar de lado se Israel e os Estados Unidos têm o direito de bombardear o Irão, ou vamos deixar de lado uma pergunta parecida mas relacionada com outros países - a Rússia tinha o direito de invadir e tem o direito de manter uma guerra de quatro anos contra a Ucrânia?

Por uma questão de direito internacional e de respeito à soberania, a resposta seria "não", mas por uma questão política, que alguns poderão qualificar de hipocrisia, quem justifica a invasão da Ucrânia pela Rússia geralmente condena os ataques ao Irão pelos EUA e Israel e vice-versa.

Será que a figura do aiatolá Khamenei consegue uma unanimidade de avaliação? O sucessor do aiatolá Khomeini, líder da revolução iraniana que derrubou o Xá Reza Phalevi, que desde 1989, até ontem, encarnava o Guia Supremo da Revolução Islâmica Iraniana, isso durante 37 anos, pode ser saudado na sua morte, ou assassinato, como um herói?

Ou será, como resume o jornal francês Le Monde, que Khamenei encarnava o governo islâmico, decidindo a linha política interna e externa do país, e no seu reinado optou por um endurecimento do regime e por uma repressão feroz de toda contestação? Ele era a autoridade suprema, guardião do dogma teocrático. Ou, fazendo-se um resumo - era um ditador e um tirano.

E surge, então, uma pergunta - quando os tiranos são aceitáveis e mesmo glorificados? O cinema brasileiro, na época da ditadura militar, denunciava os militares tiranos da época, o cinema iraniano denunciava e continua denunciando os crimes da tirania iraniana.

Foram os Festivais de Cinema de Berlim e de Locarno, nos quais fui um assíduo frequentador como jornalista, os primeiros a me chamarem a atenção para uma gradativa e discreta politização do cinema iraniano, depois do sucesso dos filmes de Abbas Kiarostami. Até ali, a esquerda estava entusiasmada com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão ao poder do imã Ruhollah Musavi Khomeini, o líder xiita iraniano.

Mas uma parte ficou de sobreaviso com a criação da chamada República Islâmica do Irão, quando se fundaram as bases de uma teocracia fundamentalista com perseguição dos próprios comunistas, que haviam apoiado a revolução contra o Xá, dos homossexuais e um rebaixamento do status feminino pondo fim à igualdade entre os sexos.

A República do Irão nada tinha e nada tem a ver com as repúblicas democráticas laicas ocidentais, era um governo repressivo, apoiado pelos Guardiães da Revolução, encarregados de repelir pela força seus opositores. É dessa época a fátua decretada por Khomeini contra o escritor Salman Rushdie por ter escrito o livro Versos Satânicos.

Com a morte do imã promovido a aiatolá, Khomeini, dez anos depois da revolução islâmica e queda do Xá, seu sucessor, com mais poderes que os de um Papa cristão, Ali Khamenei, apertou ainda mais os rigores do governo teocrático, provocando reações duramente reprimidas como aos manifestantes pelo assassinato da jovem curda Amina Mahi pelos guardiães da teocracia, pelo simples delito de não colocar corretamente o véu sobre os cabelos. Em fevereiro novas manifestações contra o regime foram ainda mais duramente reprimidas.

Mas retornando ao papel do cinema como divulgador do regime autoritário iraniano, por cineastas premiados em festivais como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof, cabe registrar uma feliz, embora infeliz coincidência. 

Dois filmes denunciam o tema e atos de tirania e concorrem mesmo ao próximo prêmio Oscar. São o Agente Secreto, de Kleber Mendonça, que trata da ditadura brasileira, na época do coronel Ustra, do Doi Codi; e do filme Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi premiado em Cannes, que trata da repressão, crimes e torturas, durante a teocracia iraniana.

Será que a repressão, a tortura, a tirania têm pesos diferentes segundo o cenário político e econômico internacional? São desculpáveis e elogiáveis ou condenáveis e puníveis? Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Jessé Souza e Epstein

A revelação de três milhões de documentos extraídos dos arquivos de Jeffrey Epstein relança a teoria de complôs e já atingiu duas personalidades importantes. O ex-ministro francês Jack Lang, por uma questão de evasão de divisas e criação de uma empresa off-shore, já se demitiu da presidência do Instituto do Mundo Árabe, enquanto, na Inglaterra, quem pode cair é o primeiro-ministro Keir Starmer, por ter nomeado Peter Mandelson, amigo próximo de Epstein, predador sexual, como embaixador nos Estados Unidos.

Em entrevista para Radio France, a jornalista Perla Msika, do Conspiray Watch, dirigido pelo Observatório do Conspiracionismo, desmente a existência de uma conspiração mundial pedo-satanista, da qual Jeffrey Epstein seria o instigador "porque ele era judeu, rico e culpado de crimes sexuais", como propagam redes sociais alternativas e mídias complotistas. Ao contrário, a divulgação dos arquivos Epstein assinala a entrada "numa época de transparência, que permitirá aos jornalistas fazer seu trabalho e saber exatamente do que se trata, mesmo porque existem diversos casos Epstein".

Entretanto, as teorias antissemitas de complôs já se espalharam e de acordo com The Times of Israel envolvem o mundo judaico, por ter havido associações judaicas interessadas em obter doações de Epstein, ligações financeiras com yeshivas ortodoxas e com o ex-primeiro ministro Ehud Barak. No mais, tem havido um retorno às velhas teorias contra judeus, bem antes mesmo do nazismo.

Foi nesse clima de antissemitismo que o caso Epstein chegou ao Brasil, provocando numerosas reações na mídia convencional e nas redes sociais, depois da publicação de um vídeo na rede Instagram pelo sociólogo, escritor e professor Jessé Souza. Diante das primeiras reações negativas, o vídeo foi modificado, mas ficaram as reações ao vídeo original, segundo a Folha de SP, da qual transcrevemos os textos reproduzidos.

Na Folha de SP, a jornalista Laura Intrieri, definiu o vídeo como "ataque antissemita ao dizer que Epstein "é produto do sionismo judaico". Sem provas e sem se basear no que tenha sido publicado sobre o caso, Jessé ajunta "a rede industrial de pedofilia só existia para servir depois para a chantagem de Israel em relação aos políticos bilionários, especialmente americanos, para ter o apoio às práticas assassinas de Israel no Oriente Médio e na Palestina".

Na sequência, Jessé Souza deixou de ser um cientista social para ser um panfletário complotista: "o holocausto judeu foi cafetinado pelo sionismo, com a ajuda de Hollywood e de toda mídia mundial, dominada pelo lobby judaico para acusar de antissemitismo qualquer crítica a Israel." E afirma seu antissemitismo: "Como Israel, Epstein matava e violava meninas e meninos, americanos e de outros lugares, por uma autorização tácita e às vezes explicita do poder do lobby judaico no mundo". Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Internacional - O boicote às universidades israelenses

Quatro universidades brasileiras, a Unicamp, a Federal do Rio de Janeiro, a Federal do Ceará e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo decidiram romper seus convênios de cooperação com as universidades israelenses de Haifa, de Ben Gurion e com o Instituto Tecnológico Technion, em reação às violências cometidas por Israel na Faixa de Gaza, depois do ataque terrorista do Hamas no 7 de outubro de 2023.

Esses convênios previam intercâmbio de alunos, professores e projetos mútuos de pesquisa. Esse mesmo tipo de boicote tem a participação de universidades da Noruega, Irlanda, Bélgica e Espanha.

Na Suíça, onde as universidades de Lausanne e Genebra também aderiram ao boicote, o jornal Le Temps procurou saber quais consequências negativas podem resultar desse movimento tanto para Israel como para as universidades israelenses e estrangeiras. Para isso, foi entrevistado Shlomi Kofman, responsável pela parceria de Israel com o programa Horizon Europe.

A síntese dessa entrevista é a de que "o boicote a Israel é contraproducente" no domínio da pesquisa científica, havendo riscos tangíveis para a ciência, segundo os cientistas israelenses. desde 1996, Israel e a europa se beneficiam dessa parceria em ciência e tecnologia, envolvendo estudantes, pesquisadores e empresas europeias.

Até hoje, Horizon Europe tem favorecido de maneira apolítica a pesquisa e a política, evitando ser envolvido pela política concentrado no objetivo de inovação e progresso para a humanidade.

A revista K, preocupada com os judeus na Europa e com o ressurgimento do antissemitismo, integrada por universitários e jornalistas, abriu um grande espaço dedicado "aos universitários israelenses face ao apelo pelo boicote de suas universidades.

Três professores contribuíram com suas respostas: Itai Ater e Alon Korngreen, do grupo Universitários pela democracia israelense, e o prof. Eyal Benvenisti, membro do Fórum dos professores de direito israelenses pela democracia.

Sobre os impactos decorrentes dos boicotes às universidades israelenses, acham que são muitos limitados. O governo israelense considerará serem ataques a Israel, hostilidade internacional, e reforçará as posições atuais.

O boicote será proveitoso ao governo atual e prejudicará as universidades, reforçará também a ideia de que "o mundo está contra Israel" levando o governo a um isolacionismo. O boicote prejudicará no que se refere às iniciativas de pesquisa e colaborações internacionais, reduzindo financiamentos e impedindo avanços universitários, limitando as trocas de ideias.

Muitas universidades israelenses - contam eles - participam de pesquisas inovadoras nos campos da medicina, tecnologia e meio ambiente. O boicote causará a perda de parceiros internacionais importantes para o progresso dos projetos e impedirá seus avanços.

Eles enumeram os prejuízos para os universitários israelenses, mas é também importante considerar a perda correspondente para os estudantes das universidades boicotadoras, privados de pesquisas e de experiências internacionais. Resta a dúvida se a aplicação do boicote tem algum resultado positivo. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Europa - Crise na Eurovisão: EBU confirma que emissoras votarão pela exclusão de Israel em novembro

Em meio à crescente pressão das nações europeias que pedem a exclusão de Israel devido à guerra em Gaza, a EBU anunciou que uma reunião extraordinária acontecerá em novembro, durante a qual uma votação online decidirá se Israel irá ao Festival da Eurovisão 2026


A União Europeia de Radiodifusão, que organiza o Festival Eurovisão da Canção, confirmou que realizará uma votação online em novembro que pode levar à expulsão da emissora israelita KAN do Eurovision 2026.

Pela primeira vez, todas as emissoras associadas serão convidadas para uma Assembleia Geral extraordinária online para votar se a KAN poderá participar do concurso. A votação será o único ponto de discussão.

Numa carta enviada às emissoras participantes, a presidente da EBU, Delphine Ernotte Cunci, escreveu que havia uma “diversidade de opiniões sem precedentes” sobre a participação de Israel no Eurovision, e que a questão exigia “uma base democrática mais ampla”.

“Podemos confirmar que uma carta foi enviada pelo conselho executivo da União Europeia de Radiodifusão aos diretores-gerais de todos os nossos membros informando-os de que uma votação sobre a participação no Festival Eurovisão da Canção 2026 ocorrerá numa reunião extraordinária da assembleia geral da EBU, a ser realizada online no início de novembro.”

Isso ocorre depois de várias emissoras europeias ameaçarem boicotar o maior evento de música ao vivo do mundo caso Israel participasse.

Espanha, Holanda, Irlanda, Islândia e Eslovénia declararam que se retirariam do Eurovision caso Israel fosse mantido na programação do próximo ano. A emissora dinamarquesa DR declarou que não se retirará do Festival Eurovisão da Canção caso Israel concorra, mas estabeleceu condições para a sua participação. França e Austrália confirmaram recentemente a sua participação.

Embora o Eurovision seja supostamente apolítico, a EBU excluiu a Rússia da competição logo após a sua invasão da Ucrânia em 2022. No entanto, Israel continuou a competir nos últimos dois anos, apesar das preocupações internacionais  sobre as suas ações em Gaza.

Tanto a competição de 2024 na Suécia quanto o evento deste ano na Suíça viram protestos pró-Palestina.

Mais de 70 ex-participantes do Eurovision assinaram uma carta aberta exigindo que Israel e a sua emissora nacional KAN sejam banidos  do concurso, e o vencedor do Eurovision do ano passado,  o cantor austríaco JJ, disse que também  quer que Israel seja banido do Eurovision 2026 .

A KAN de Israel emitiu uma declaração após o anúncio da votação de novembro, expressando "esperança de que o Festival Eurovisão da Canção continue a manter o seu carácter cultural e apolítico".

Também alertou que excluir Israel da disputa “poderia ser um passo com implicações abrangentes”. Não foram fornecidos mais detalhes.

Desde o ataque do Hamas a cidadãos israelitas em 7 de outubro de 2023, diversos especialistas em direitos humanos da ONU  declararam que as ações militares de Israel em Gaza constituem genocídio, com o Tribunal Internacional de Justiça considerando as alegações de genocídio plausíveis. A Classificação da Fase Integrada de Segurança Alimentar anunciou que a população da Faixa de Gaza enfrenta oficialmente uma fome "provocada pelo homem".  no território – apesar do que o governo israelita afirmou.

A edição de 70º aniversário do Eurovision acontecerá em Viena, Áustria. A final acontecerá em 16 de maio, após as semifinais em 12 e 14 de maio de 2026. Euronews.culture


sábado, 13 de setembro de 2025

Europa – Países Baixos adere ao boicote do Festival Eurovisão da Canção 2026 devido à participação de Israel

A emissora pública holandesa, AVROTROS, confirmou que os Países Baixos juntar-se-á à Eslovénia, Islândia, Espanha e Irlanda no boicote ao Festival Eurovisão da Canção do ano que vem se Israel estiver envolvido


A emissora holandesa AVROTROS anunciou que boicotará o Festival Eurovisão da Canção do ano que vem se Israel for incluído na competição, juntando-se assim à Eslovénia, Islândia, Espanha e Irlanda no boicote do evento caso a União Europeia de Radiodifusão (EBU) mantenha Israel na programação.

Num comunicado, a AVROTROS afirmou: “O Festival Eurovisão da Canção foi fundado em 1956 para unir as pessoas após um período de profunda divisão e guerra. Desde a sua criação, há setenta anos, a música tem sido o cerne do Concurso como uma força unificadora, tendo a paz, a igualdade e o respeito como seus valores fundamentais.” No entanto, a emissora continuou afirmando que “não poderia mais justificar a participação de Israel na situação atual, dado o severo e contínuo sofrimento humano em Gaza”.

Assim como a emissora irlandesa RTÉ, a declaração da AVROTROS também cita preocupações sobre a liberdade de imprensa e alegou que havia “evidências comprovadas de interferência do governo israelita” durante o concurso de 2025 , e afirmou que Israel usou o evento “como um instrumento político”.

E continuou: "O sofrimento humano, a supressão da liberdade de imprensa e a interferência política estão em desacordo com os valores da radiodifusão pública."

O anúncio da RTÉ desta semana também levantou preocupações sobre os ataques a jornalistas e a negação de acesso da mídia a Gaza.

No início desta semana, o Ministro da Cultura espanhol, Ernest Urtasun, pronunciou-se sobre a participação da Espanha no Festival Eurovisão da Canção do próximo ano. A Euronews Culture noticiou que a Espanha também ameaçou retirar-se do festival caso Israel seja mantido no alinhamento.

“Não acho que possamos normalizar a participação de Israel em eventos internacionais como se nada estivesse a acontecer”, disse Urtasun durante uma entrevista no programa La Hora de La 1, da TVE. “Não é um artista individual que participa, mas alguém que participa em nome dos cidadãos daquele país.”

Urtasun disse que se Israel participar em 2026 "e não conseguirmos expulsá-lo, medidas terão que ser tomadas" - conforme citado pelo jornal espanhol La Vanguardia  - e lembrou aos telespectadores que o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pediu anteriormente à EBU que banisse Israel da competição internacional.

Em maio, Sánchez pediu à UER que excluísse Israel, afirmando que "ninguém se mostrou contrariado" quando a Rússia foi banida de competições internacionais e da Eurovisão após a invasão da Ucrânia. Ele pediu que a mesma proibição fosse aplicada a Israel devido à guerra de Gaza.

Urtasun especificou que não é antissemita denunciar o “genocídio” que está ocorrendo em Gaza e descreveu Israel como um “governo genocida”.

A Eurovisão está envolvido em tensões políticas sobre a participação de Israel há dois anos, e os países mencionados juntam-se a mais de 70 ex-participantes da Eurovisão que assinaram uma carta aberta exigindo que Israel e a sua emissora nacional KAN sejam banidos do concurso. 

O vencedor do Eurovisão do ano passado, o cantor austríaco JJ, disse que também quer que Israel seja banido do Festival Eurovisão da Canção 2026.

A EBU estendeu o seu prazo de retirada sem penalidades até dezembro, quando uma decisão final sobre a participação de Israel é esperada na Assembleia Geral.

Desde o ataque do Hamas a cidadãos israelitas em 7 de outubro de 2023, vários especialistas em direitos humanos da ONU  declararam que as ações militares de Israel em Gaza equivalem a genocídio, com o Tribunal Internacional de Justiça considerando as alegações de genocídio plausíveis. 

No mês passado, a Classificação da Fase de Segurança Alimentar Integrada anunciou que a população da Faixa de Gaza está oficialmente enfrentando uma fome "provocada pelo homem" no território — apesar do que o governo israelita disse.

A edição de 70.º aniversário da Eurovisão acontecerá em Viena, Áustria. A final acontecerá em 16 de maio, após as semifinais em 12 e 14 de maio de 2026. Euronews.culture


sábado, 28 de junho de 2025

Irão – Inicia processo de saída da agência da ONU que controla a energia atómica

Enquanto Israel procura voltar a aplicar toda a sua força letal contra a população desprotegida de Gaza, no Irão, o Governo do Presidente Masoud Pezeshkian e o aiatla Ali Khamenei, o Líder Supremo, desenvolvem o processo leal de saída do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o que coloca, em tese, Teerão no caminho da obtenção de armas nucleares.



Depois de o Parlamento iraniano ter aprovado a saída da AIEA, a instância Constitucional do país (Conselho da Guarda Revolucionária, que tem poder de veto sobre o Parlamento), ratificou a decisão parlamentar após os ataques israelitas e dos EUA à infra-estrutura nuclear iraniana nas últimas duas semanas.

A IRNA, agência oficial iraniana, cita o porta-voz do Conselho da Guarda Revolucionária, Hadi Tahan Nazif, para avançar que esta decisão é uma consequência directa dos ataques de Israel e dos EUA às instalações nucleares "pacíficas" do Irão.

Esta era a derradeira fase antes de a decisão ser submetida à aprovação final do Presidente Pezeskhian, sendo o país, a partir desse momento, livre para agir sem as grilhetas do TNP e da AIEA, o que, em tese, significa que pode começar a trabalhar na aplicação militar do seu urânio enriquecido.

\O Irão acusa a AIEA de ser "uma organização ao serviço do regime sionista e dos EUA", tendo mesmo Teerão mostrado alegados documentos que prova que esta agência da ONU estava, antes da guerra com o Irão, a passar informação a Telavive sobre o programa nuclear do Irão.

Este contexto é de grande melindre porque o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avisou com elevada sonoridade que ordenará novos ataques, ainda mais robustos, se o Irão voltar a enriquecer urânio ou sejam percebidas movimentações no sentido da obtenção de uma arma atómica.

O que vários analistas consideram ser uma porta aberta para o regresso da guerra israelo-americana contra o Irão, tendo o cessar-fogo sido uma mera gestão do conflito, porque o objectivo global de Washington é atacar a parte mais frágil do eixo estratégico Pequim-Teerão-Moscovo no âmbito da disputa global pela nova ordem mundial em construção. In “Novo Jornal” - Angola



quinta-feira, 26 de junho de 2025

Guerra Israel, EUA, Irão: Informação e Contra-Informação

Afinal quem ganhou a Guerra dos 12 Dias, desencadeada por Israel contra o Irão? Não são todas as mídias que se arriscam a fazer o balanço e proclamar o vencedor, mesmo porque o suposto perdedor, o Irão, comemorou com manifestação popular o cessar-fogo entre os dois países como uma vitória. Por sua vez, o Líder Supremo iraniano Ali Khamenei, numa declaração televisiva, se vangloriou dessa vitória, negando ter havido destruição no Irão, que deu um tapa na cara dos EUA. O comentarista do Uol Josias de Souza considerou essa declaração uma mostra da senilidade do chefe religioso iraniano.Entretanto, essa versão de um Irão vitorioso é também defendida pelo professor da Fundação Getúlio Vargas, Salem Nasser, no seu canal Youtube, e pelo analista político do Canal Ópera Mundi, Breno Altman, contraditada por comentaristas de jornais e televisões de diversos países ocidentais. 

Onde estão a Informação e a Contra-Informação, sabendo-se que, em tempos de guerra, a verdade é a primeira vítima?

Vamos começar pela Rádio Canadá, órgão estatal de comunicação, vizinha dos Estados Unidos, cuja participação nos bombardeios dos centros nucleares iranianos permitiu a suspensão da guerra.

A Rádio canadense cita o discurso do dirigente israelense, no qual Benjamin Netanyahou proclamou a vitória de Israel contra o Irão por ter "destruído a indústria de fabricação de mísseis", afirmando recomeçar a guerra se ocorrer qualquer "tentativa do Irão retomar suas ambições nucleares", comemorando terem sido liquidadas as capacidades nucleares iranianas.

Disse também "ter dado um golpe decisivo contra o regime iraniano", o mais severo desde sua implantação no Irão. Esse ataque incluiu a eliminação de diversos dirigentes dos Guardiães da Revolução e de uma dezena dos principais cientistas do programa nuclear iraniano, mais a destruição de instalações militares e a danificação de centrais nucleares. Netanyahu também citou os ataques aos radares e à defesa aérea iraniana.

Israel contou também com o apoio de agentes secretos recrutados dentro do Irão, facilitando a eliminação de importantes dirigentes do governo iraniano.

A razão da intervenção israelense no Irão, qualificada de preventiva, seria uma próxima ameaça nuclear iraniana com o objetivo de destruir Israel.

Os objetivos de Israel eram três: derrubar o governo do aiatolá e molás iranianos, destruir o programa nuclear e liquidar o arsenal balístico.

Embora tenha havido uma eliminação de generais dirigentes do regime, ela não foi suficiente para derrubar o regime. Não houve também uma revolta popular derrubando o regime, pois os ataques reavivaram sentimentos nacionalistas na população e os apelos do filho do Xá Reza Pahlevi não tiveram eco. E existem dúvidas quanto ao sucesso dos ataques às centrais nucleares de Natanz, Ispahan, Arak e Fordo.

Embora o presidente Trump tenha assegurado, no encontro da OTAN em Haia, ter liquidado o programa nuclear iraniano, existem as informações de terem sido transferidos 400 quilos de urânio enriquecido e centrífugas para outros subterrâneos mais seguros, antes dos bombardeios israelenses e norte-americanos.

Por sua vez, a CNN informou, com base em informações militares, refutadas por Trump, não terem sido totalmente destruídas as instalações nucleares iranianas mas apenas danificadas, podendo ser reparadas em um máximo de seis meses.

De acordo com o responsável pela Organização da Energia Nuclear Iraniana, existe uma outra central de enriquecimento de urânio num lugar secreto, possibilitando continuar com o programa nuclear.

Restam os mísseis iranianos de diferentes tipos, disparados numa média de 40 por dia contra Israel, num total de 500, durante os 12 dias de guerra, causadores de sérios danos em Haifa e Tel Aviv. Ironia da guerra - o último míssil disparado pelo Irão matou a quase totalidade de uma família palestina vivendo em Haifa.

Patrick Sauce, chefe do Serviço Internacional de BFMTV, em Paris, diz ter sido Netanyahu o vencedor dessa guerra, mesmo se não conseguiu derrubar o regime. Entretanto, o regime saiu enfraquecido e começou uma grande repressão no Irão, onde o enforcamento de três suspeitos de espionagem foi o ponto de partida.

Gaidz Minassian, jornalista do Le Monde, se indaga o que se pode saber de credível numa situação de guerra, mas afirma terem sido afetados o programa nuclear e a situação política no Irão, embora não se possa falar em vitória israelense, mesmo porque um cessar-fogo não significa o fim da guerra que pode recomeçar a qualquer momento.

Prefere falar em resultados positivos e operação bem sucedida. Em síntese, mudou agora a maneira de como se tratará a questão: o Irão não poderá mais fingir obedecer o controle nuclear e continuar a fabricar suas bombas nucleares.

A visão do prof. Salem Nasser é totalmente contrária a essas análises, afirmando mesmo no seu vídeo no Youtube, que o cessar fogo teria sido uma iniciativa de Israel "que não aguentava mais os ataques iranianos por estarem causando muito prejuízo aos israelenses, com muita gente querendo sair e a economia muito afetada... com os riscos de uma guerra prolongada que seria muito mais prejudicial a Israel que ao Irão".

Verdade ou isso é contestável? Nessa mesma linha, o Irão teria mostrado uma força e resistência não esperada pelos EUA e Israel, enquanto as informações da Agência Internacional de Energia Atômica foram colocadas em dúvida com um recuo do seu diretor-geral sobre o programa iraniano. Por isso, afirma o professor, se houver novas tentativas de negociações sobre o programa nuclear, o Irão terá uma posição mais firme com a Agência Internacional e com os EUA.

O que não será fácil, pois segundo a imprensa internacional não simpatizante com o chamado regime teocrático repressivo dos molás e do aiatolá Khamenei, o Irão saiu fragilizado dessa Guerra dos 12 Dias.

Por uma feliz coincidência, durante a guerra contra o Irão, havia em Paris o 12.º Festival do Cinema Iraniano com 18 filmes. O cinema iraniano tem revelado, nos festivais internacionais, a repressão do regime iraniano aos seus cineastas, ganhadores de prêmios em Berlim, Cannes, Veneza e Locarno. Por isso, ao divulgar o festival, a Rádio Franc fala em "grito de resistência" representado pelo cinema iraniano.

De acordo com a iraniana Nahal Khaknegar, programadora do festival, o jovem cinema iraniano confirma seu papel de resistência, depois do movimento Mulheres, Vida e Liberdade. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Palestina - Gaza, os protestos contra o Hamas

E se o Hamas, considerado por uns como um movimento islâmico nacionalista palestino e por outros como um movimento islâmico terrorista, tiver cometido um erro fatal ou um ato suicida ao atacar os kibutz israelenses vizinhos de Gaza, no 7 de outubro de 2023? E se esse erro persiste ao se negar a libertar os reféns ainda vivos?

O que imaginavam Ismail Haniyeh e Yahya Sinwar, dirigentes do Hamas, quando desfecharam o ataque de surpresa, provocando cerca de 1200 mortes, a maioria de jovens civis, e fazendo mais de duas centenas de reféns? Segundo informações, o ataque foi também surpresa para os dirigentes do Irão, o principal apoiador do Hamas, naturalmente por imaginarem a resposta de Israel.

Em todo o caso, não poderiam ter imaginado algo tão catastrófico com mais de 50 mil palestinos mortos, uma grande parte mulheres e crianças, uma grande maioria dos prédios arrasados, a morte de ambos e a quase destruição do próprio Hamas.

Essa indagação foi feita pela imprensa europeia ao divulgar, no fim de março, as primeiras manifestações dos gazaouis, os palestinos habitantes de Gaza, contra o Hamas. O jornal suíço Le temps publicava, no fim de março, a presença dos gazaouis nas ruas de diversas cidades para pedir um fim à guerra e "para manifestar sua cólera contra o grupo islâmico Hamas".

Manifestações ocorridas em diversas cidades da Faixa de Gaza e, imagina-se só agora possíveis com o enfraquecimento do Hamas, pois aplicava um regime de controle severo da população, tipo teocracia islâmica. Os cartazes empunhados por homens de todas idades pediam o fim da guerra, numa mensagem para Israel parar os bombardeios, mas igualmente de reprovação ao Hamas, considerado o responsável por ter provocado a represália de Israel.

O mesmo Le Temps, na sua meia-página sobre a manifestação, publica a foto de uma criança sentada nos ombros do pai segurando um cartaz no qual se lê: "as crianças da Palestina querem viver". O jornal entrevistou Leila, mãe palestina de 27 anos, dizendo "Nossa voz precisa ser ouvida, temos sofrido demais! Não temos medo de represálias", referindo-se ao Hamas.

Outra mãe, Lahia, vivendo com o marido e uma filha de dois anos, descreve o caos de sua vida "que é o mesmo de todos os palestinos de Gaza".  Depois de descrever o bloqueio israelense que lhes priva de água, de alimentos e escolas para as crianças, ela clama "pelo fim da guerra e pela saída de Gaza do Hamas, que não se interessa pelos nossos sofrimentos". 

Ela diferencia os combatentes do Hamas dos seus dirigentes "que vivem tranquilamente no Catar e na Turquia. São eles que devem deixar o poder".

Como Lahia, os manifestantes querem outro governo com dirigentes em Gaza e empenhados na reconstrução das escolas e hospitais. Os manifestantes são considerados pelo Hamas como traidores, mas contam com o apoio discreto do Fathah, movimento palestino expulso de Gaza em 2006, cuja origem vem da OLEP de Yasser Arafat, que não era pela destruição de Israel mas pela existência de dois Estados.

Essas manifestações mostram também uma mudança de opinião dos habitantes de Gaza que, no mês seguinte ao ataque do 7 de outubro, numa sondagem oficial realizada, mostrava o apoio de três quartos da população ao  Hamas. Esse apoio já não existe de acordo com avaliação feita pela rádio Europe 1. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Internacional - Reação mundial à limpeza étnica de Trump

Com sua proposta de transformar a faixa de Gaza numa Riviera do Médio Oriente, depois da retirada de sua população, o presidente Donald Trump conseguiu reunir contra si a quase totalidade dos países do mundo. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, também alertou contra "uma limpeza étnica" no território palestino. Uol afirmou que a reação do mundo é a de ser um plano insano, racista e criminoso.

Entretanto, o absurdo da proposta, uma afronta ao direito internacional, deixou os correspondentes da televisão suíça e francesa com uma dúvida: é realmente uma proposta para ser levada a sério ou um blefe ou uma provocação no estilo de Trump para dar início a negociações?

Caso seja mesmo real a intenção de Trump de entregar aos Estados Unidos o contrôle da região de Gaza, com o objetivo de torná-la uma atração turística, no estilo da Côte d'Azur, isso será um crime inaceitável. Para o Wall Street Journal, que já havia definido como idiota a guerra comercial proposta por Trump, a tomada ou possessão da Faixa de Gaza será catastrófica.

O jornal parisiense Le Monde vai mais longe no seu editorial e define esse projeto como limpeza étnica. "O presidente torna sua a visão da extrema direita racista e supremacista israelense e anuncia um crime de guerra".

E o jornal rememora outros tipos de ações de Trump, no seu primeiro mandato, alinhadas com Israel.

Embora nem sempre a imprensa assinale, o Le Monde faz uma alusão, mencionando que o projeto proposto por Trump, catastrófico para os palestinos, provocará um perigoso messianismo israelense.  

Não só entre os ultra-ortodoxos judeus como entre os evangélicos fundamentalistas norte-americanos, para os quais Trump é o ungido de Deus e a vitória de Israel será o sinal do retorno de Cristo.

Existe mesmo um movimento teológico de dominação política, a Nova Reforma Apostólica, ligado à teologia do domínio, ao qual pertencem alguns congressistas republicanos e um ex-assessor de Donald Trump, Michael Flynn.

O editorial do jornal suíço Le Temps afirma com ironia, mas sem citar Martin Luther King, ser a expulsão dos dois milhões de habitantes de Gaza um sonho de Trump, no qual ele viu a transformação das ruínas de Gaza numa Riviera do Médio Oriente.

Mas o mundo surpreso e abismado vê esse sonho imperialista, podemos dizer, como um pesadelo no qual o emprego da força para um processo de limpeza étnica provocará também a morte de jovens soldados norte americanos. Uma repetição da tragédia da invasão do Iraque, movida por interesses petrolíferos.

De que meios se servirá Trump para forçar o Egipto e a Jordânia para receber a população expulsa de Gaza? Talvez nem a Groenlândia, nem o Panamá e nem Gaza sejam alvos de Trump, mas o simples fato de afirmar diante da imprensa e defender esses crimes absurdos constituem motivos suficientes para se colocar em dúvida a sanidade mental de Trump.

O deputado democrata pelo Texas, advogado Alexander Green, anunciou, em Washington, iniciar um movimento para a proposta de um novo pedido de impeachment contra Donald Trump, já alvo de pedido de impeachment durante seu primeiro mandato.

Desta vez, o pedido de impeachment será motivado principalmente pela proposta de limpeza étnica e controle de Gaza, sem esquecer a série de medidas "desesperadas" assinadas por Trump desde sua posse.

Mas não se pode esquecer: Trump possui maioria na Câmara de Deputados para derrubar qualquer pedido de impeachment.

Imigrantes brasileiros nos Estados Unidos

Começou a caça aos imigrantes irregulares nos Estados Unidos, logo depois de Trump ter assinado os decretos de deportação. Alguns Estados incentivam a deduragem, já existindo um projeto de lei para premiar quem denunciar imigrante ilegal ou criminoso, como são chamados os imigrantes irregulares. Quer coisa pior que isso? Sim, há imigrantes brasileiros já com green card e brasileiros descendentes de imigrantes residentes no Brasil, aprovando essa a deportação de brasileiros nos comentários nas redes sociais.

Como a polícia da imigração, ICE, faz controles nas escolas e igrejas, os filhos de brasileiros sem papéis nos EUA não estão indo nas escolas e seus pais, um grande número de evangélicos, não vão às igrejas, deixando-as vazias. Isso provocou um protesto do pastor Silas Malafaia. Na igreja do pastor André Valadão, um dos líderes evangélicos nos EUA, a cantora de gospel durante os cultos, grávida, ficou sem o marido, preso numa das batidas da polícia de imigração contra imigrantes ilegais. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.