Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 4 de julho de 2026

Cabo Verde - Novo romance de Mário Lúcio Sousa expõe “desmandos” dos ditadores africanos

Para a editora Maria do Rosário Pedreira, este é o “mais político” e mais “corajoso” romance do autor, ousando revelar que afinal os ex-colonizados podem fazer pior do que o colonizador


Afrocalipse, novo romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, é uma viagem aos “desmandos” e aos “absurdos” do poder em África, num país nunca nomeado, onde um ditador permanece por mais de 40 anos.

“A minha intenção era mostrar o apocalíptico que nós vivemos, mostrar as desgraças, os desmandos, os absurdos que estão a acontecer. Infelizmente, que a palavra África nos permitiu encontrar uma palavra nova, fácil de leitura e de várias leituras. Mas a ideia fundamental é mostrar o apocalipse que nós vivemos em África e esse apocalipse tem a ver com os ditadores”, explica, em entrevista à Lusa.

Para a editora Maria do Rosário Pedreira, este é o “mais político” e mais “corajoso” romance do autor, ousando revelar que afinal os ex-colonizados podem fazer pior do que o colonizador.

“Os personagens estão lá, existem, eu não nomeei nenhum personagem e não me inspirei em nenhum personagem. Eu vi os factos históricos, vivi os factos históricos, li os factos históricos e achei que, independentemente do nome A ou B, aquela figura chamada presidente da república e outro que se chamou imperador em vários lugares da África e do mundo também, são a mesma figura”, sublinha o escritor.

Uma espécie de retrato-robô do ditador africano, que o autor ficciona depois de guiar o leitor por uma “bússola de eventos”, onde fixa nomes, lugares e a história, e que vão de Angola ao Zaire, do Ruanda à Libéria, da Guiné-Bissau à República Centro Africana.

“Os indivíduos têm a mesma conduta, a mesma paranoia, a mesma obsessão pelo poder, a mesma insanidade e desrespeito pelos seus semelhantes. É isso que o livro trata”, esclarece.

O escritor, que sempre disse que nunca sairia uma vírgula das suas mãos sobre os ditadores, explica a fórmula encontrada para a reflexão que propõe aos leitores com a nova ficção editada este mês em Portugal pela Leya.

“Eu disse que não escreveria a biografia ou uma história sobre nenhum desses ditadores em particular, mas coloquei-os todos no mesmo saco, utilizando intencionalmente essa palavra sobre a figura de um magistrado e escrevi sobre ele, porque realmente não merecem que seja eu o romancista a tratar disso”, esclarece.

Convencido que a verdade obedece à pesquisa dos historiadores, e que estes “farão melhor” do que o escritor, Mário Lúcio Sousa confessa o gosto por explorar os vários lados das personagens, inspiradas, neste caso, pelos factos, que expõe com a ironia que lhe é reconhecida.

Do Supremo que “vai fazer cocó ao mato”, ao chefe que forra a piscina a diamantes, outro que manda aviões a Paris todas as manhãs para trazer os croissants do pequeno-almoço, aos golpes de Estado e ao genocídio no Ruanda, ou ao assessor que é branco e que se chama Preto, Afrocalipse retrata a natureza humana com um desconcerto capaz de nos fazer sorrir.

“Deixando esse trabalho de pesquisa sobre a verdade histórica – os historiadores o farão melhor que eu -, gosto, nos meus romances, de ver vários lados dos personagens e que nem sempre é muito agradável falar deles com nomes e apelidos. Eu não os vou fixar na história, por isso, achei que a única vez que podia utilizar o nome verdadeiro de uma pessoa, é quando a senhora Ellen Sirleaf é eleita a primeira mulher presidente da África”, conta.

A mulher que governou a Libéria (2006/2018) representa a mudança em que o escritor acredita. Mulheres cansadas de décadas de medo, abuso e resignação, que lideram a transformação de um país marcado pelo delírio do poder.

“Isto no romance deu-me muito prazer, o facto de que não é fácil poupar, da primeira à quase última página, sem citar o nome de ninguém, para que, quando se citasse o nome, o livro praticamente fosse dedicado a ela. Ela dita amor, era mesmo uma dama africana, cheia de maternalismo, cheia de compreensão, de compaixão e de coragem”, conclui.

Com ironia, poesia e uma linguagem profundamente inventiva, Afrocalipse fala de feridas políticas e humanas, mas também da possibilidade de romper o ciclo.

O escritor e também músico cabo-verdiano, antigo ministro da cultura, é também autor de O Novíssimo Testamento (Prémio Carlos de Oliveira 2010), Biografia do Língua (Prémio Miguel Torga 2015 e Prémio PEN Clube de Narrativa 2016), O Diabo Foi Meu Padeiro (2019), A Última Lua de Homem Grande (finalista do Prémio LeYa 2022 e do Prémio Oceanos 2023) e O Livro Que Me Escreveu (2024).

30 anos de CPLP: “Continuamos a procurar os caminhos”

“Não esqueçamos que a Guiné Equatorial é um dos países que falam crioulo, em Ano-Bom. E o crioulo é um crioulo de base lexical português. Então, essas razões ampliam também o universo (…), é muito importante que essas regiões estejam na comunidade, que têm a língua como unidade”, reforça. “São todos bem-vindos, desde que não tragam os seus regimes para dentro da instituição”

O ex-ministro da cultura de Cabo Verde Mário Lúcio Sousa saúda os 30 anos da CPLP “num mundo em desintegração”, e sugere que se olhe “o processo e a intenção”, para lá dos “resultados”. “São 30 anos. 30 anos não significam nenhuma vírgula no cosmos da história, muito menos na história do cosmos. É um tempo para ainda se preparar, de nos conhecermos também, um tempo para nos conhecermos, nos projectarmos. O importante é que a instituição está ali a encontrar os seus caminhos, isso é importante”, afirma, em entrevista à Lusa. “Neste mundo em desintegração, ter uma comunidade dos países de língua portuguesa é bonito, porque é uma comunidade que ainda tem uma relação, que tem traços muito recentes do colonizador e colonizado, tem traços recentes do escravizador e escravo, tem traços recentes de dominador e dominado, e dentro disso conseguir ter uma instituição de diálogo e de preservação do património comum é muito louvável”, considera. Vê, por isso, “motivos de celebrações”, menos “pelos resultados, mas pelo processo e pela intenção”, concluindo que “vale a pena essa CPLP”. Considera ainda que a presença da Guiné Equatorial não representa qualquer ameaça, antes a oportunidade de mudança. “Não foi o regime que entrou, foi o país. E muita gente desse país não quer esse regime, e muitas vezes não distinguimos isso”, observa, apontando a instituição até como “um lugar de pressão para que se respeite os direitos humanos, para que se respeite a democracia, etc.”. “Amílcar Cabral foi muito claro quando chegou à Guiné-Conacri, em 1961, com a sua mulher, Maria Helena, portuguesa. Um dos críticos era o presidente Sékou Touré, que dizia ‘como é que vem lutar contra os portugueses e traz uma mulher portuguesa?’. E ele dizia que não vinha lutar contra os portugueses, foi lutar contra o regime fascista e colonialista português”, lembra. “Não esqueçamos que a Guiné Equatorial é um dos países que falam crioulo, em Ano-Bom. E o crioulo é um crioulo de base lexical português. Então, essas razões ampliam também o universo (…), é muito importante que essas regiões estejam na comunidade, que têm a língua como unidade”, reforça. “São todos bem-vindos, desde que não tragam os seus regimes para dentro da instituição”, conclui. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


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