Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 13 de maio de 2025

Portugal - Defesa ou desenvolvimento?

Os 2% do PIB em Defesa correspondem a cerca de um quarto da totalidade das verbas do PRR. O PRR, sim, é um instrumento de desenvolvimento

Num país como Portugal, onde as dificuldades estruturais são profundas e persistentes, o investimento de 2% do PIB em Defesa levanta dúvidas morais e económicas incontornáveis. É muito difícil conceber que este seja o melhor uso dos nossos limitados recursos.

A aposta no armamento, por mais necessário ou até inevitável que possa parecer no plano geoestratégico, hipoteca o verdadeiro desenvolvimento do país. É ilusório pensar que este tipo de investimento trará um retorno multiplicador sustentável. A indústria militar, assente numa lógica de destruição, não gera inovação com impacto duradouro na produtividade, na coesão social ou na competitividade do país. O seu efeito resume-se, no curto prazo, à criação de emprego e a um aquecimento relativo da economia. Nada mais. Grande parte dos recursos aplicados na Defesa não geram utilidade prática na vida das pessoas. Ampliar a dimensão industrial do país e as oportunidades de negócio a partir de produção que ocorre para explodir ou destruir não gera, decerto, efeito multiplicador sustentável.

Para termos uma noção do desvio, basta perceber que os 2% do PIB em Defesa correspondem a cerca de um quarto da totalidade das verbas do PRR. O PRR, sim, é um instrumento de desenvolvimento.

Em junho, haverá uma nova cimeira da NATO. Se subirmos os números para 3,5% ou 5%, então estarmos a falar de metade ou dois terços das verbas do PRR alocadas a Portugal. E, no entanto, com referência a 2023, Portugal ocupa o último lugar da Europa no ranking do investimento público em 10 anos. É um quadro que nos devia embaraçar.

Durante anos, sacrificámos o investimento público em nome da consolidação orçamental. Agora, estranhamente, as novas metas militares poderão vir a abrir exceções a essa contenção. Segundo o Conselho de Finanças Públicas, o esforço acrescido com a Defesa agravará o rácio da dívida pública entre 2026 e 2029, ano após ano. É o oposto do que recomendava a Comissão Europeia, que previa para Portugal uma das maiores reduções da dívida da Zona Euro, precisamente à custa do desinvestimento.

Este nível de esforço não era sequer estritamente obrigatório. Mesmo assim, preferimos as contas certas à reconstrução do país. Agora, optamos pela Defesa como exceção à regra, mas sem cuidar das infraestruturas de que a economia precisa para crescer.

O que vemos, na prática, é o país a falhar consecutivamente em matérias centrais para o seu desenvolvimento. O investimento líquido das administrações públicas tem sido negativo ano após ano. O stock de capital continua a deteriorar-se. Em 2023, o investimento público ficou 26% abaixo do previsto no OE2023. Em 2024, o desvio foi de 17,5%. Tudo isto compromete a função produtiva da economia. Estamos muito aquém do nível necessário de manutenção ou ampliação de ferrovias, hospitais, escolas, aeroportos, entre outros. Vai ficando tudo fica para depois.

Mais grave ainda, hipotecámos a aplicação correta do PRR, por falta de trabalhadores na construção civil. Agora, com o desvio de recursos para a Defesa, acentuaremos esse défice. A escassez de mão de obra e de capital público aponta para um resultado em que o país se torna cada vez menos competitivo e atrativo para o investimento estrangeiro. E o investimento direto estrangeiro é absolutamente indispensável para Portugal.

A escolha é moral. Os portugueses vivem com dificuldades e num país economicamente débil. Neste momento da sua História, Portugal parece ser obrigado a escolher canhões em vez de pontes. João Santos – Portugal in “Sapo”

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João Rodrigues dos Santos - Professor Associado e Coordenador da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia


terça-feira, 1 de abril de 2025

A China é uma oportunidade irrecusável para as empresas portuguesas

Há um mercado vasto e com grande poder de compra à espera de produtos diferenciados e com selo de qualidade europeu

A China tem vindo a consolidar-se como um dos mais importantes parceiros económicos da Europa. Portugal e Espanha encontram-se em posições privilegiadas para beneficiar desta tendência. Para Portugal, a aposta chinesa na Península Ibérica não é só mais um reflexo de uma estratégia global. É, sobretudo, uma oportunidade única para as empresas portuguesas reforçarem a sua competitividade e presença nos mercados internacionais.

A recente decisão da China Aviation Lithium Battery (CALB) de investir cerca de dois mil milhões de euros numa fábrica de baterias em Sines é um momento histórico para a economia portuguesa. Este projeto, que poderá representar mais de 4% do PIB nacional, não só impulsionará o setor industrial como criará 1800 postos de trabalho diretos. Este empreendimento demonstra a confiança dos investidores chineses no potencial do país, ao mesmo tempo que fortalece a posição de Portugal na cadeia de valor das energias renováveis e da mobilidade sustentável.

Mas o interesse chinês em Portugal não se limita ao setor das baterias. O embaixador da China em Portugal reforçou, numa recente visita aos Açores, a vontade de estabelecer parcerias para a importação de produtos de alta qualidade como leite, carne, queijo e peixe. Para as empresas portuguesas, este é um sinal claro de que há um mercado vasto e com grande poder de compra à espera de produtos diferenciados e com selo de qualidade europeu.

O crescimento do investimento chinês na Península Ibérica não acontece por acaso. Com os Estados Unidos a adotar uma política comercial cada vez mais protecionista sob a liderança de Donald Trump, a China tem reforçado a sua presença na Europa. Em Espanha, 2024 foi um ano recorde para o investimento direto chinês, com 33 novos projetos em setores estratégicos como energia limpa e produção de baterias. Esta tendência deverá continuar, consolidando a Península como um polo fundamental para a expansão chinesa na Europa.

Para Portugal, esta aproximação à China pode representar uma alavanca económica fundamental. O setor automóvel europeu, por exemplo, enfrenta desafios significativos, e a China pode desempenhar um papel-chave na sua reestruturação. A Volkswagen já admitiu conversações com investidores chineses para a venda de fábricas na Alemanha, numa altura em que os fabricantes chineses procuram formas de evitar tarifas da UE sobre veículos elétricos importados da China. Considerando que a indústria automóvel representa cerca de 7% do PIB da União Europeia e emprega 13 milhões de pessoas, uma maior presença chinesa pode ser crucial para garantir a sua sustentabilidade.

Outro fator determinante é o lítio. A Europa precisa urgentemente deste recurso para impulsionar a transição energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Atualmente, a UE importa 97% do lítio necessário à sua economia da China. O investimento chinês em Sines reforça esta dependência, mas também cria oportunidades para o desenvolvimento da indústria nacional e para a captação de novos projetos de inovação e tecnologia.

No contexto da nova ordem económica mundial, Portugal tem tudo a ganhar com uma estratégia de cooperação ativa com a China. Seja no setor energético, no agroalimentar ou na indústria automóvel, a entrada de capital chinês pode significar crescimento, inovação e emprego para o país. Em tempos de incerteza geopolítica e económica, Portugal e as empresas portuguesas não podem ignorar esta oportunidade. João Santos – Portugal in “Sapo”

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João Rodrigues dos Santos - Professor Associado e Coordenador da área de Economia e Gestão da Universidade Europeia