Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Irão - A ingenuidade de Tom Altman no Opera Mundi

 

Um dos traços principais do jornalista é a curiosidade. ele sempre quer saber o que há por detrás da porta. Felizmente, porque assim são expostas situações nem sempre muito claras, facilitando ao público a formação de sua opinião. O curioso remexe nas estantes de livros, levanta panos, abre gavetas, desce até o porão ou sobe ao sótão ou, mais moderno, vai ao Google, aciona IA, até encontrar a ponta de alguma coisa que lhe intriga, por mera curiosidade...

Vez ou outra, nós jornalistas somos convidados a uma inauguração, ao lançamento de uma peça teatral, a um festival de cinema, a uma exposição de pinturas, sem custos de nossa parte, com a única obrigação de escrevermos ou falarmos a respeito na nossa mídia. A favor ou contra? tanto faz, o objetivo é falar a respeito, elogios ou críticas são bem-vindos.

Mas nem sempre é assim. Quando envolve um investimento, uma atração ou o lançamento de um investimento turístico, espera-se do jornalista convidado um certo envolvimento. Aceita o convite quem quiser. Porém, o convite pode estar inserido numa campanha publicitária a ser lançada pelo jornal, tevê ou canal. Neste caso, o jornalista obedece ao editor.

Entretanto, quando o convite envolve um país com interesse político na formação de sua imagem internacional, esperam-se reportagens favoráveis. Mesmo porque o convidado partilha das mesmas ideias.

Por que toda essa introdução?

Porque fiquei muito curioso com a viagem de alguns jornalistas brasileiros ao Irão para cobrir o funeral do aiatolá Ali Khamenei, num momento em que tais viagens são praticamente impossíveis, fora o risco do jornalista viajante ser preso como espião.

Exceto se tais viagens fossem organizadas pelo próprio Irão. E foi assim que ocorreu: um pequeno grupo de jornalistas brasileiros - três pelo menos, Tom Altman, Stefani Costa e Leila Salim - foi levado ao Irão e ali permaneceu por uma semana.

Tomei conhecimento pelo anúncio do canal

Opera Mundi - O funeral do aiatolá Ali Khamenei, com Breno Altman entrevistando Tom Altman. Como o jovem Tom não contou quem organizou a viagem e nem Breno perguntou, dei uma procurada e fiquei sabendo ter sido o Canal Notícias Arresala, Vozes do Sul Global, ativo no Instagram, dedicado a cobrir temas de política, economia, sociedade e cultura para as comunidades islâmicas, com foco no Líbano e geopolítica do Oriente Médio. Faz parte do Centro Islâmico no Brasil com sede em São Paulo.

Curioso, ouvi o longo relato de viagem do jovem Tom Altman sobre o Irão, me chamando a atenção seu entusiasmo pelos iranianos, todos nacionalistas unidos contra o agressor norte-americano, e afirmando haver mesmo iranianos da diáspora retornando ao país para participar de uma resistência. Tom desmente ter havido qualquer tipo de pressão sobre a população iraniana para ir ao enterro e acompanhar seu trajeto.

Para ele 90% da população iraniana é devota, estava no enterro por religiosidade sem serem obrigados a isso. Havia, sim ódio e raiva daquele pessoal contra os EUA e Israel. E cartazes diziam: vamos matar o Trump e o Netanyahu, inclusive carregados por crianças. É um povo sem medo. Bem politizados querem primeiro defender o país para depois resolver os problemas internos.

Para Tom, as Faculdades iranianas são muito boas e 60% dos alunos são mulheres - uma conclusão um tanto apressada para quem ficou apenas sete dias. Ele também afirma que as pessoas vivem bem, poucos pobres e poucos ricos, a maioria é classe média. O Irão, segundo Tom, vive uma vida normalizada.

Ele acha haver no Irão uma democracia evidente, com eleições, mesmo se o aiatolá tem a última palavra. Para Tom, ninguém tem medo da Guarda Revolucionária, não se sabe no que se baseia. Nacionalistas, estão lá para defender o país, nem que a população seja sacrificada. O islamismo é uma religião revolucionária e coletiva. O Irão é um país bom de se viver. Não tem ninguém pedindo dinheiro nas ruas. Ele nega que tenha havido tantos assassinatos nas recentes manifestações, isso foi inventado ou exagerado. Eles se manifestam mas não para derrubar o governo.

Tom mostra ingenuidade ao aceitar as explicações do governo iraniano e recusar ter havido mais de mil mortos na repressão da Guarda Revolucionária aos manifestantes. Nem havia controle das entrevistas que fazia... diz ele.

"Temos de ser justos, é uma sociedade conservadora, na qual há códigos de vestimentos, das funções dos homens e mulheres na sociedade, certos trabalhos que cabem às mulheres e aos homens. As mulheres devem ser médicas, professoras, etc. mas há mulheres, embora em número reduzido no parlamento. Há trabalhos só para mulheres e trabalho só para homens e para ambos. As mulheres são por mudanças mas sem intervenção externa.

E vai por aí, depois de mais de uma hora, acabei frustrado por não ter ouvido nada sobre os grandes problemas da ditadura teocrática iraniana, a violência contra as manifestações do movimento feminino Mulher, Vida e Liberdade pela paridade e igualdade com os homens e por mais liberdade dentro da família.

Embora Tom Altman tenha se entusiasmado com o Irão, num canal respeitado de esquerda, ficaram de fora questões importantes levantadas em tantos filmes iranianos, premiados em Cannes, Berlim ou Locarno, dirigidos por cineastas como Jafar Panahi, Mahammadi Rasoulof (que fugiu do Irão para não ser preso), Mehdi Mahmoudian, Mostafa Al-Ahmad, e outros.

Não podem ser esquecidos os crimes cometidos pelo Líder Supremo, falecido, e sua Guarda Revolucionária, os enforcamentos matinais de jovens por terem se manifestado contra o regime, a morte da jovem Amina Mahsi por não ter colocado direito o véu cobrindo os cabelos, assim como a prisão da líder feminina Narges Mohammadi, prêmio Nobel em 2023 por ter lutado pelos direitos humanos e denunciado a opressão contra as mulheres no Irão.

E são verdadeiras as denúncias de recentes massacres, em diversas cidades iranianas, de manifestantes contra a situação econômica no Irão.

Tanto Anistia Internacional como Mediapart ou Reporters sans Frontières condenam a ditadura teocrática iraniana, cujos crimes já eram cometidos antes mesmo dos ataques dos EUA e Israel. Seguem, em primeiro lugar, alguns links das publicações condenando o Irão. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins - Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Brasil - Jornalista da Folha de São Paulo em reportagem especial durante doze dias no Irão

A Folha de São Paulo tem um pioneirismo: foi o primeiro grande jornal brasileiro a enviar uma correspondente ao Irão, logo depois dos ataques dos Estados Unidos e Israel. Trata-se da colega Patrícia Campos Mello, repórter especial, que ficou 12 dias no Irão.

Essa reportagem foi importante por levar aos leitores da Folha uma visão neutra, jornalística, de um país sobre o qual se criaram mitos, existindo muita curiosidade sobre a real situação das mulheres e sobre a estrutura política de governança no país. A atual guerra dos EUA e Israel contra o Irão tem dificultado uma fria avaliação do país entre os progressistas brasileiros, mesmo porque o Irão faz parte do Brics e se inclui entre os países antiimperialistas ou antiocidentais, embora muito diferenciados, do Sul Global.

Nem todos puderam ler a série de reportagens publicada pela Folha, mas o  Uol ao convidar Patrícia para uma entrevista, um tanto curta, permitiu se fazer uma ideia resumida do Irão e sua estrutura político-religiosa. E, ao mesmo tempo, com base nos comentários e críticas publicados online, pode-se ter uma ideia de como o público ia reagindo no decorrer da entrevista.

Até agora, certos canais e redes sociais vinham favorecendo a ideia de uma república iraniana com eleições e minimizando a questão da situação das mulheres em termos de direitos humanos, realçando ser um país onde as mulheres são bem escolarizadas e ocupam posições importantes nas estruturas do país. A ideia de ser uma teocracia, para não dizer ditadura religiosa, e de ter um ditador com amplos poderes é sempre descartada mesmo nos canais de esquerda.

Uma exceção foi a entrevista, no canal Opera Mundi, de Breno Altman com a historiadora e escritora Arlene Clemesha, na qual se fica sabendo que, o 12. imã xiita iraniano, infalível e escolhido por Deus, foi substituído pelo aiatolá Líder Supremo, numa teocracia fundamentalista patriarcal, na qual as mulheres são secundárias e não chegam aos postos de comando.

Nem todos os comentários elogiaram ou aprenderam com as informações trazidas do Irão por Patrícia, principalmente quando ela acentuou ser "um governo que oprime as mulheres" ou quando lembrou ter havido, em 2022, uma revolta principalmente feminina depois da morte da jovem curda iraniana Mhasa Amini, por não usar o hijab ou o véu cobrindo os cabelos. "Não é super-tranquilo ser mulher no Irão, existem muitas leis, como no divórcio, que são repressivas".

O lado positivo de ser mulher, para Patrícia durante sua reportagem, foi uma maior facilidade para ter acesso às mulheres e famílias locais, nem sempre usando o véu nos cabelos. "Havia muitas restrições para fazer a reportagem, lá não existe liberdade de imprensa. Há mesmo um jornalista japonês preso, desde janeiro, por estar cobrindo os protestos contra o governo". Sabendo haver jornalistas presos, ela tomou a decisão com a redação da Folha, de só serem publicados os textos mais sensíveis da reportagem - sobre Internet, censura ao governo, condição das mulheres - quando já estivesse de volta no Brasil.

"Enquanto eu estava lá, fui alertada por alguns recados recebidos, que me deixaram preocupada, pois não estava acostumada com isso, quando publiquei sobre a inflação e a vida difícil das pessoas. Diante disso é que decidimos segurar os textos mais sensíveis. Eu fiquei com medo, é um país em guerra e não é um país democrático".

Josias de Souza quis saber se a guerra reforçou o nacionalismo iraniano. Patrícia acha que sim, "a tentativa de mudança de regime pelo regime Trump saiu pela culatra. Não há uma pesquisa de opinião, mas na parcela que apoia o governo, que é grande, toda noite existem manifestações, principalmente das camadas religiosas. Essas pessoas estão muito mobilizadas, a guerra incentivou o patriotismo e o nacionalismo.

Existe uma parcela que se opõe ao governo, difícil de calcular o tamanho, mas eles estão com medo. Ainda que essas pessoas sejam contra o governo não irão apoiar os EUA e pedir para que venham ajudar".

Continua no Irão a interrupção do acesso à Internet. É o mais longo bloqueio à Internet, 80 dias, já registrado num país. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

 

sábado, 11 de abril de 2026

Senegal - Primeiro-Ministro acusa presidente americano Donald Trump de desestabilizar o mundo

O primeiro-ministro do Senegal acusa o presidente dos Estados Unidos da América de criar instabilidade no mundo. Ousmane Sonko critica os ataques de Donald Trump ao Irão.

É a primeira vez que o Governo senegalês, através do Primeiro Ministro, assume posicionamento face ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão.

Ousmane Sonko, que falava numa conferência internacional sobre soberania, em Dakar, criticou duramente Donald Trump pela guerra contra o Irão, considerando que visa desestabilizar a ordem global, sem nenhum benefício.

“A redução da capacidade balística do Irão não foi alcançada. Forçar o Irão a abandonar todos os seus programas nucleares, tanto civis quanto militares, não é um objetcivo atingido”.

O primeiro-ministro do Senegal afirmou igualmente que Trump não é um homem de paz.

“Nenhum dos objectivos foi alcançado e, ainda assim, o mundo mergulhou num caos injustificável. O Sr. Trump não é um homem de paz, ele é um homem que desestabiliza o mundo”.

Sonko apelou às nações africanas para que unissem forças e compartilhassem o seu poder, apontando a juventude africana como uma “força a ser mobilizada”, afirmando que a soberania não pode ser alcançada sem o seu envolvimento. In “O País” - Moçambique


terça-feira, 7 de abril de 2026

Cabo Verde - Livro “Tudo sobre o Irão” explora complexidade da sociedade e do Estado iraniano

Cidade da Praia - O livro Tudo sobre o Irão, do jornalista português Ricardo Alexandre propõe uma análise aprofundada da complexidade da sociedade e do Estado iraniano, indo além da actualidade política e dos estereótipos habitualmente associados ao país.

Em declarações à Inforpress, o autor explicou que a obra aborda a história do Irão e da antiga Pérsia, bem como a sua relação com o mundo, incluindo temas como o programa nuclear, as tensões com os Estados Unidos, o conflito com Israel e as relações com a União Europeia.

O livro, segundo Ricardo Alexandre, também procura compreender o funcionamento da sociedade iraniana no quotidiano, explorando hábitos, costumes e expressões culturais, como o cinema, a música, a gastronomia e o turismo.

A obra pretende ainda contrariar visões simplistas sobre o país, oferecendo ao leitor ferramentas para entender as várias dimensões de uma nação com história milenar, grande riqueza natural e humana, e uma população jovem e muito qualificada, estimada em mais de 90 milhões de habitantes.

O autor revelou que a primeira versão do livro foi concluída em Dezembro de 2025, estando inicialmente previsto o lançamento para a segunda quinzena de Abril. Contudo, o início do conflito a 28 de Fevereiro, marcado por bombardeamentos de Israel e dos Estados Unidos, levou à antecipação da publicação.

Contou, Ricardo Alexandre que antes da impressão do livro foi possível incluir acontecimentos do primeiro mês do conflito, ainda que sem alterações substanciais à estrutura da obra, incluindo a morte do líder supremo Ali Khamenei e o início da operação militar denominada “Fúria Épica”.

Segundo informou o jornalista português, o livro encontra-se já na segunda edição e conta com um total de 447 páginas.

Ricardo Alexandre disse que a intenção era viajar para o Irão, mas que não conseguiu deslocar-se por falta de visto no início das tensões, sublinhando que o país vive actualmente uma realidade distinta da de períodos anteriores de paz.

O autor recordou também diferenças significativas entre as suas visitas ao Irão em 2006 e 2015, destacando os contextos políticos distintos, com a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, de linha dura, e posteriormente de Hassan Rouhani, considerado moderado, período em que foi alcançado um acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano.

Sobre o actual contexto geopolítico, o jornalista considerou que o cenário é “particularmente desafiante”, apontando para a combinação de um regime iraniano repressivo e a presença de lideranças consideradas extremistas, como Donald Trump nos Estados Unidos e o primeiro-ministro israelita, o que dificulta o diálogo internacional.

Ricardo Alexandre é licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), doutorado em Ciência Política e mestre em Sociedades e Políticas Europeias pelo ISCTE. É também investigador integrado do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) da Universidade Nova de Lisboa e professor universitário.

A apresentação da obra na cidade da Praia, segundo o autor, representa uma honra pessoal. A sessão contará com intervenções do investigador cabo-verdiano Manuel Brito Semedo e do deputado português Rui Tavares. In “Inforpress” – Cabo Verde


quinta-feira, 26 de março de 2026

Internacional - Discurso antissemita viraliza na Internet

Procurando novas informações na Internet, vi o título O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato, cliquei, havia um aviso: "Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas."

O aviso, colocado pelo próprio autor, queria dizer ser alguma coisa por ele bem elaborada, alguém ciente de ter escrito algo capaz de ferir, mas sua paciência esgotada levara a tirar os filtros com que se tratam certos temas.

Esse tipo de aviso preparatório funciona como um chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses dois povos europeus me lembrou textos da extrema-direita, textos racistas.

Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.

Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus?

Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os Estados Unidos, mas antes de se criticar o Império americano, não resiste à tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e holandeses, "gente que pode ser desagradável e detestável", será que isso não se chama preconceito?

E, enfim, o autor se define, depois das piruetas iniciais, Hannah Arendet inclusive, ele vai falar de Israel, "que nunca deveria ter sido criado", do sionismo, "mas não propriamente do povo judeu e dos judeus em geral". E, en passant, vai falar do Irão.

Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa me chamou a atenção - praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda, estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247, Carta Capital, etc.

Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir: esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.

Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de alguns críticos europeus do chamado movimento Sul Global, principalmente a professora socialista Renée Fregosi da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução no Brasil, pode me contatar).

Não é minha intenção responder ao texto tão viralisado ou polemizar com o autor, na base um economista de formação, mas destacar dentro do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente, que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.

Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irão, já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos. Sobre o Irão já deixei muito comentários, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando principalmente nos depoimentos cinematográficos de importantes cineastas iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados ao exílio para não serem presos.

Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da época, Sartre e Foucault.

Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico no Irão, se desfez com a criação de uma república factóide, na verdade uma teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.

No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o autor faz questão de exprimir seu desejo: "Vida longa ao Irão e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!"

Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse de apoio ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.

Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas, ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a situação das mulheres no Irão?

Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada por munições, mísseis e drones. Ou em outras palavras, que Israel seja destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irão, o império persa ex-zorotroatista, do livre-arbítrio e da ética, transformado numa ditadura teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irão, como o Hamas. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Do massacre de árvores ao Armagedon

Numa nova visita a São Paulo para matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo, uma área arborizada junto da avenida Paulista, onde se pode imaginar estar numa floresta. Ou que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma elite. Mas é preciso se reconhecer: uma elite ambientalista.

Diante de tanto respeito pela natureza com árvores das diversas regiões brasileiras, é quase impossível não se lembrar e não se fazer um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário, no Alto da Lapa, onde a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos Salesianos com autorização do prefeito Ricardo Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.

De um lado, um empreendimento investe no respeito da natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do Bosque dos Salesianos.

Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta protegida, cheguei logo à avenida Paulista e a tentação de visitar mais uma vez o MASP, com suas exposições atuais e seu acervo. Esse acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao antigo museu ainda na rua 7 de Abril.

Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irão, com um cartaz perguntando "Haverá paz no mundo? Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová. Um ramo original derivado dos evangélicos norte-americanos, criado em 1872, cujos missionários vieram ao Brasil em 1920 e hoje são um milhão e quatrocentos mil.

A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha do Armagedom, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos no mar Egeu. Armagedom seria a última guerra, pois significaria a intervenção de Deus numa guerra mundial. Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem a mesma ênfase do Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser chegada a época do retorno de Cristo.

Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail publicada pelo Brasil 247, estaria ocorrendo junto dos soldados e militares norte-americanos participando da guerra contra o Irão. Sabendo-se da influência dos evangélicos junto aos trumpistas, "comandantes militares associados ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas americanas em meio ao conflito com o Irão, afirmando que a guerra faria parte de um plano divino ligado ao “Armagedom”.

A imprensa francesa também repercute essa utilização das profecias do Apocalipse pelos comandantes trumpistas para que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do Bem contra o Mal. Do lado do Irão, os combatentes iranianos acreditam que se tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Irão - Aiatolá Khamenei, herói ou tirano?

Quem era Ali Khamenei, o chefe da teocracia iraniana, líder e guia supremo do governo do Irão?

Vamos deixar de lado se Israel e os Estados Unidos têm o direito de bombardear o Irão, ou vamos deixar de lado uma pergunta parecida mas relacionada com outros países - a Rússia tinha o direito de invadir e tem o direito de manter uma guerra de quatro anos contra a Ucrânia?

Por uma questão de direito internacional e de respeito à soberania, a resposta seria "não", mas por uma questão política, que alguns poderão qualificar de hipocrisia, quem justifica a invasão da Ucrânia pela Rússia geralmente condena os ataques ao Irão pelos EUA e Israel e vice-versa.

Será que a figura do aiatolá Khamenei consegue uma unanimidade de avaliação? O sucessor do aiatolá Khomeini, líder da revolução iraniana que derrubou o Xá Reza Phalevi, que desde 1989, até ontem, encarnava o Guia Supremo da Revolução Islâmica Iraniana, isso durante 37 anos, pode ser saudado na sua morte, ou assassinato, como um herói?

Ou será, como resume o jornal francês Le Monde, que Khamenei encarnava o governo islâmico, decidindo a linha política interna e externa do país, e no seu reinado optou por um endurecimento do regime e por uma repressão feroz de toda contestação? Ele era a autoridade suprema, guardião do dogma teocrático. Ou, fazendo-se um resumo - era um ditador e um tirano.

E surge, então, uma pergunta - quando os tiranos são aceitáveis e mesmo glorificados? O cinema brasileiro, na época da ditadura militar, denunciava os militares tiranos da época, o cinema iraniano denunciava e continua denunciando os crimes da tirania iraniana.

Foram os Festivais de Cinema de Berlim e de Locarno, nos quais fui um assíduo frequentador como jornalista, os primeiros a me chamarem a atenção para uma gradativa e discreta politização do cinema iraniano, depois do sucesso dos filmes de Abbas Kiarostami. Até ali, a esquerda estava entusiasmada com a derrubada do Xá Reza Pahlevi e a ascensão ao poder do imã Ruhollah Musavi Khomeini, o líder xiita iraniano.

Mas uma parte ficou de sobreaviso com a criação da chamada República Islâmica do Irão, quando se fundaram as bases de uma teocracia fundamentalista com perseguição dos próprios comunistas, que haviam apoiado a revolução contra o Xá, dos homossexuais e um rebaixamento do status feminino pondo fim à igualdade entre os sexos.

A República do Irão nada tinha e nada tem a ver com as repúblicas democráticas laicas ocidentais, era um governo repressivo, apoiado pelos Guardiães da Revolução, encarregados de repelir pela força seus opositores. É dessa época a fátua decretada por Khomeini contra o escritor Salman Rushdie por ter escrito o livro Versos Satânicos.

Com a morte do imã promovido a aiatolá, Khomeini, dez anos depois da revolução islâmica e queda do Xá, seu sucessor, com mais poderes que os de um Papa cristão, Ali Khamenei, apertou ainda mais os rigores do governo teocrático, provocando reações duramente reprimidas como aos manifestantes pelo assassinato da jovem curda Amina Mahi pelos guardiães da teocracia, pelo simples delito de não colocar corretamente o véu sobre os cabelos. Em fevereiro novas manifestações contra o regime foram ainda mais duramente reprimidas.

Mas retornando ao papel do cinema como divulgador do regime autoritário iraniano, por cineastas premiados em festivais como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof, cabe registrar uma feliz, embora infeliz coincidência. 

Dois filmes denunciam o tema e atos de tirania e concorrem mesmo ao próximo prêmio Oscar. São o Agente Secreto, de Kleber Mendonça, que trata da ditadura brasileira, na época do coronel Ustra, do Doi Codi; e do filme Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi premiado em Cannes, que trata da repressão, crimes e torturas, durante a teocracia iraniana.

Será que a repressão, a tortura, a tirania têm pesos diferentes segundo o cenário político e econômico internacional? São desculpáveis e elogiáveis ou condenáveis e puníveis? Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Irão, os cineastas resistem

Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do cenário do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão, e indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irão, o realizador desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irão, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e morreram de 20 a 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução Iraniana, como eles chamam a polícia da ditadura islâmica, criada em 1979 pelo aiatolá Khomeini, transformada numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.

Mas qual a oportunidade deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história ou deformações sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana, afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, "mártires" vítimas dos agitadores, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, nem o líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, qualificando o de ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irão. Mesmo porque, embora muitos tenham esquecido ou fossem jovens para saberem, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeini, tão logo se implantou a ditadura teocrática islâmica no Irão.

Outro absurdo muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citada mesmo como avanço na frente dos ocidentais, é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos. Essa assimilação de homossexuais, trans e bissexuais submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou morte é pouco divulgada. E minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

É difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciavam a ditadura militar.

É estranho, mas pode ser falta de informação ou falsa informação, uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não são farinha do mesmo saco?

Trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país”. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Esquerda rejeita revolução iraniana - Trump ameaçou, mas recua

Vai haver um ataque dos EUA às instalações do governo iraniano e aos quartéis dos Guardiães da Revolução em represália à violenta repressão contra o povo, revoltado e pedindo o fim da ditadura teocrática islâmica, no poder desde 1979?

Talvez não, essa a impressão nesta quinta-feira. Trump teria se dado por satisfeito diante das notícias de que, segundo ele, "teria parado a matança no Irão e não seria executado nenhum preso". Por sua pressão e ameaças ao Irão, é claro!

Mas, na verdade, Trump teria recuado depois de avaliar o risco da resposta iraniana afetar a segurança das bases norte-americanas na região e comprometer sua imagem dentro dos EUA. Acabaria se transformando numa repetição da guerra contra o Iraque.

Ninguém precisa se iludir com a imagem de um Trump preocupado com a vida dos iranianos anti-Khamenei! Quase ao mesmo tempo seus guardiães do ICE, a polícia contra imigrantes, está espalhando o terror, numa menor escala, na cidade de Minneápolis, a maior cidade de Minnesota, depois do assassinato (também com tiros na cabeça como no Irão) de Renée Nicole Good, norte-americana mãe de três crianças, acusada de ser dona de casa terrorista! Sem esquecermos da ameaça de invasão da Groenlândia!

Nem sempre funciona o refrão "o povo unido derruba a ditadura", principalmente quando não se tem armas diante de ferozes inimigos.

É válida uma ajuda externa? Aqui entra o argumento de que a queda do Xá Reza Pahlevi teve apoios, embora indiretos, da França, do Iraque, da União Soviética e de intelectuais de esquerda como Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault que, na luta contra o capitalismo e os EUA, não imaginavam estar incentivando o surgimento de uma ditadura religiosa retrógrada, no lugar da monarquia também ditatorial mas secular, modernista e pró-ocidente.

A monarquia do Xá procurava acentuar o passado persa do país, anterior ao islamismo, retirou parte das terras dos religosos e deu o direito de voto às mulheres, decisões mal vistas pelos religiosos. Embora o país crescesse com o petróleo e o aço, o regime do Xá favorecia as elites, enquanto o povo pobre se apegava ao islamismo e iria, mais tarde, preferir o aiatolá Khomeine ao país secularizado e ocidentalizado do Xá.

A chegada dos religiosos ao poder, acabou criando uma nova casta, a dos molás, e o fanatismo islâmico levou ao financiamento dos movimentos extremos pela expansão do Islão, contra o Ocidente e contra Israel.

De acordo com o sociólogo francês Gilles Kepel, autor de uma vintena de livros, o equilíbrio no Oriente Médio foi rompido com o atentado terrorista do 7 de outubro, cometido pelo Hamas, financiado pelo Irão, que também financiava o Esbolá. A fuga do ditador sírio Bachar-al-Assad, mais o aniquilamento do Hamas e do Esbolá isolaram e enfraqueceram o Irão, acentuando sua crise econômica com maior inflação, causada também por sanções ocidentais em represália ao financiamento do terrorismo, e o povo, também descontente com o desvio do dinheiro do Irão para o financiamento de grupos terroristas, saiu às ruas.

A repressão tem sido sangrenta e violenta. Não se viu nenhuma tentativa de apaziguamento por parte da ditadura teocrática. Ao que se informa, os guardiães da revolução têm a ordem de balear os manifestantes na cabeça e o número de mortos, ainda incerto pela falta de Internet, varia de três mil a doze mil, enquanto se fala em 20 mil presos. A maioria desses presos serão julgados rapidamente, sem advogado, e condenados, na maioria, à morte na forca, senão agora, dentro de alguns meses, como ocorreu com os manifestantes depois do assassinato da jovem curda Amina Mahsi.

O governo iraniano dirigido pelo aiatolá Khamenei cortou o acesso à Internet em todo país, diante da rebelião do povo iraniano contra a ditadura teocrática islâmica. Quase ao mesmo tempo, os chamados canais progressistas ou de esquerda deixaram de fazer comentários sobre essa situação de revolta popular ou acusaram ser uma revolta insuflada pelos EUA.

Sinto-me à vontade para fazer essa crítica porque sou de esquerda e não entendo porque companheiros de esquerda, que deram destaque a pirataria do ditador Trump, decidem fechar os olhos à ditadura teocrática islâmica iraniana, não criticam o ditador aiatolá Khamenei e não dão apoio à revolta popular iraniana.

Em 1979, eu era um dos exilados em Paris contra a ditadura militar brasileira. Vivia no Quartier Latin, mais precisamente na rue de la Sorbonne, e acompanhava os movimentos da esquerda em Paris contra o Xá Reza Pahlevi, movimentos liderados pelo aiatolá Khomeini, com o apoio de Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault.

A queda do Xá foi comemorada por todos, mas a alegria durou pouco porque o aiatolá, logo transformado em Guia Supremo, instaurou um regime religioso islâmico extremamente severo baseado na Charia.

As mulheres, consideradas cidadãs de segunda classe, se revoltaram e criaram recentemente o movimento Mulher Vida e Liberdade, depois de muita repressão e mortes.

Houve grande agitação depois do assassinato pelos chamados guardiães da revolução ou policiais da fé islâmica, da jovem curda Mahsa Amini por não ter colocado corretamente o véu na cabeça.

O que me obrigou a inserir aqui um comentário foi ter visto e ouvido, numa entrevista ao canal Opera Mundi, por um companheiro de esquerda, depois de uma viagem ao Irão de quinze dias mas sem falar farsi, o idioma iraniano, a versão de que não foram os policiais que mataram a jovem curda Mahsa Amini, adotando a versão da ditadura iraniana.

Isso me lembrou que, durante a ditadura militar no Brasil, também o Doi Codi sempre tinha uma outra versão para seus assassinatos, como aconteceu com Vladimir Herzog e Rubens Paiva. Não faz muito tempo, alguém no Canal GGN, tinha qualificado o ex-presidente iraniano, logo depois de sua morte num acidente de helicóptero, como um humanista! Ora Ebrahim Raisi, autor da condenação à morte na forca de mais de 8 mil pessoas, era conhecido como açougueiro!

Tenho acompanhado e publicado o processo de islamização da esquerda não só no Brasil como na França. Não se pode fazer seleção de ditadores, condenando uns e aceitando outros. Trump é um proto ditador perigoso, Maduro era também um ditador. Não se pode condenar o ato de pirataria na Venezuela sem condenar a invasão da Ucrânia e a ameaça de tomada de Taiwan.

Não se pode ser de esquerda e fechar os olhos às denúncias mostradas em filmes contra a ditadura teocrática islâmica, cujos diretores são presos e proibidos de ir aos festivais. Entrevistei alguns deles nos Festivais de Berlim e Locarno. O realizador do filme A Semente do Figo Sagrado, Mohammad Rasoulof, teve de fugir do Irão pelas montanhas para não ser preso. Jafar Panahi, premiado em Cannes, passou anos na prisão.

Para o 247 não existe uma revolução popular, mas uma situação criada por pressões e sanções econômicas. Ditadura teocrática islâmica? O que é isso?

Basta um trecho: “o colapso econômico iraniano precisa ser lido, portanto, como crise induzida. Uma crise fabricada de fora para dentro”. Num longo artigo, nenhuma menção à estrutura ditatorial religiosa do país.

Prefiro ficar com o povo iraniano e sua revolução contra o “evangelismo” iraniano e contra sua ditadura teocrática islâmica. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ano 2026 começou muito mal - Crans Montana, Venezuela e Irão

O ano de 2026 começou mal na Suíça, piorou logo depois na Venezuela e continua tenso no Irão. A sequência pode ser ainda mais terrível - uma invasão da Groenlândia, desta vez sem o pretexto do narcotráfico.

O ato de pirataria do presidente Trump ao sequestrar, em Caracas, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, rompe o equilíbrio mundial e instaura a lei da selva. Foi essa a principal reação da imprensa internacional. O desrespeito à soberania venezuelana, garantido pelo poderio militar dos EUA, fragiliza o respeito e o equilíbrio entre os países e instaura o domínio da força.

Isso não é nenhuma novidade, a maneira como Trump vem agindo lembra a progressão da Alemanha nazi de Hitler. Não se pode também esquecer que invasão e ataques já ocorreram e continuam na Ucrânia pela Rússia. E a prometida invasão da Groenlândia lembra as ameaças da China de se apossar de Taiwan.

Neste momento, ao se buscar uma visão na qual se consiga distinguir quem são os melhores e os piores podem surgir algumas dificuldades. Trump é um imperialista interessado em se apossar de um país e torná-lo um protetorado para ter acesso ao petróleo, mas Maduro não deixa de ser um ditador, tanto que o Brasil não reconheceu sua vitória nas eleições. Em todo o caso, se os donos do mundo são ditadores, que talvez cheguem a um acordo de paz repartindo entre si países e suas riquezas, a ONU deixará de ter qualquer utilidade.

O terceiro fator, que tumultuou e tumultua este começo do ano, é o Irão, vivendo um clima de revolta da população, capaz de derrubar a ditadura teocrática islâmica e o aiatola Khamenei. E aqui, novamente, a confusão: é a esquerda quem apoia o ditador islâmico.

Mas vamos retornar ao primeiro tema do ano - a tragédia do incêndio no subsolo do bar-discoteca Le Constellation, onde tanta insegurança e negligência nos fariam pensar, se fosse no Brasil, em corrupção.

Talvez nunca tenha havido uma passagem de ano tão trabalhosa e tão dolorosa para os jornalistas suíços e europeus, na madrugada do réveillon, no dramático incêndio no bar-discoteca Le Constellation, na luxuosa estação de esqui de Crans Montana.

As chamas e a fumaça, ainda na primeira hora e meia de 2026, acabaram com os festejos e a alegria próprios da passagem do ano. Os socorros foram rápidos, mas não puderam evitar 40 mortes e 119 pessoas gravemente queimadas, a maioria jovens e, entre os mortos, a metade era de menores.

Coube também aos jornalistas de diversas nacionalidades denunciarem a responsabilidade das autoridades locais, de funcionários encarregados do contrôle das instalações de casas de diversão e do casal proprietário pelas irregularidades existentes no Le Constellation, causadoras do incêndio e pelas dificuldades para sair rapidamente do local.

Ninguém poderia ter imaginado ser possível tal tragédia na Suíça, onde existe uma real e constante preocupação com a segurança da população. Muito menos numa estação de esqui e num bar-discoteca de luxo.

Entretanto, as negligências cometidas em matéria de segurança levantam suspeitas de que a falta de controles ou de controles malfeitos teriam sido voluntários. As investigações necessárias deverão mostrar porque o estabelecimento funcionava sem as garantias normalmente exigidas. Numa entrevista à televisão lo suíça, o embaixador italiano Gian Lorenzo Cornado denunciou não haver sequer extintor ou mangueira de incêndio, nem saída de emergência utilizável no bar Le Constellation. O incêndio começou com velas de faíscas nas garrafas de champagne, cujas chamas chegaram ao teto protegido com material inflamável amortecedor de som.

Nem numa boate de periferia no Brasil existe uma tal insegurança e irresponsabilidade. A saída de emergência estava fechada para evitar que frequentadores do bar saíssem sem pagar. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sábado, 28 de junho de 2025

Irão – Inicia processo de saída da agência da ONU que controla a energia atómica

Enquanto Israel procura voltar a aplicar toda a sua força letal contra a população desprotegida de Gaza, no Irão, o Governo do Presidente Masoud Pezeshkian e o aiatla Ali Khamenei, o Líder Supremo, desenvolvem o processo leal de saída do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o que coloca, em tese, Teerão no caminho da obtenção de armas nucleares.



Depois de o Parlamento iraniano ter aprovado a saída da AIEA, a instância Constitucional do país (Conselho da Guarda Revolucionária, que tem poder de veto sobre o Parlamento), ratificou a decisão parlamentar após os ataques israelitas e dos EUA à infra-estrutura nuclear iraniana nas últimas duas semanas.

A IRNA, agência oficial iraniana, cita o porta-voz do Conselho da Guarda Revolucionária, Hadi Tahan Nazif, para avançar que esta decisão é uma consequência directa dos ataques de Israel e dos EUA às instalações nucleares "pacíficas" do Irão.

Esta era a derradeira fase antes de a decisão ser submetida à aprovação final do Presidente Pezeskhian, sendo o país, a partir desse momento, livre para agir sem as grilhetas do TNP e da AIEA, o que, em tese, significa que pode começar a trabalhar na aplicação militar do seu urânio enriquecido.

\O Irão acusa a AIEA de ser "uma organização ao serviço do regime sionista e dos EUA", tendo mesmo Teerão mostrado alegados documentos que prova que esta agência da ONU estava, antes da guerra com o Irão, a passar informação a Telavive sobre o programa nuclear do Irão.

Este contexto é de grande melindre porque o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avisou com elevada sonoridade que ordenará novos ataques, ainda mais robustos, se o Irão voltar a enriquecer urânio ou sejam percebidas movimentações no sentido da obtenção de uma arma atómica.

O que vários analistas consideram ser uma porta aberta para o regresso da guerra israelo-americana contra o Irão, tendo o cessar-fogo sido uma mera gestão do conflito, porque o objectivo global de Washington é atacar a parte mais frágil do eixo estratégico Pequim-Teerão-Moscovo no âmbito da disputa global pela nova ordem mundial em construção. In “Novo Jornal” - Angola