Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Irão, os cineastas resistem

Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do cenário do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão, e indicado para o próximo Oscar, foi preso em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irão, o realizador desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão, e se retornar ao Irão, está condenado a um ano de prisão, mesmo se ganhou a Palma de Ouro na França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e morreram de 20 a 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas quando manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão nos quais as ruas se avermelharam de sangue, sendo preso quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores. Embora não tivesse havido tantas mortes como as cometidas nestas últimas semanas pelos chamados Guardiães ou Guardas da Revolução Iraniana, como eles chamam a polícia da ditadura islâmica, criada em 1979 pelo aiatolá Khomeini, transformada numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia declarou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no DoiCodi pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado seu torturador.

Mas qual a oportunidade deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem dentro da esquerda brasileira alguns líderes ou gurus contando outra história ou deformações sobre a revolução popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura iraniana, afirmando terem sido agitadores de fora que provocaram o governo, ou, pior, que muitos dos mortos eram fiéis ao aiatolá, "mártires" vítimas dos agitadores, invertendo a realidade como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Khamenei, nem o líder da esquerda francesa Jean-Luc Mélenchon aprova o regime religioso iraniano, qualificando o de ditadura islâmica, defendendo um governo laico para o Irão. Mesmo porque, embora muitos tenham esquecido ou fossem jovens para saberem, logo depois da implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e mesmo mortos pelo aiatolá Khomeini, tão logo se implantou a ditadura teocrática islâmica no Irão.

Outro absurdo muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citada mesmo como avanço na frente dos ocidentais, é os homossexuais serem encorajados pelo governo para fazerem operação para mudar de sexo, a fim de não serem punidos e perseguidos. Essa assimilação de homossexuais, trans e bissexuais submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou morte é pouco divulgada. E minimizada a situação inferior das mulheres na sociedade.

É difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas, ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciavam a ditadura militar.

É estranho, mas pode ser falta de informação ou falsa informação, uma feminista ou um homossexual defender a ditadura teocrática iraniana e quem é de esquerda apoiar uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! A religião não é mais o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não são farinha do mesmo saco?

Trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país”. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

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