Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Macau – Direcção dos Serviços de Turismo antevê “certas vantagens” para guias de língua portuguesa

Apenas quatro dos 1851 guias turísticos registados em Macau até ao final de 2025 conseguem falar português, número que se mantém há cinco anos, revelou a DST ao Jornal Tribuna de Macau. Porém, antevendo um aumento dos visitantes lusófonos, o organismo acredita que os guias de língua portuguesa terão “certas vantagens”, ainda que desafiados pela flutuação de receitas entre as épocas altas e as baixas. O director da União dos Guias Turísticos entende que o número deste tipo de guias é “insuficiente” para a procura e que o Governo deve dar incentivos para mais jovens se juntarem ao sector


No final de 2025, Macau contava com 1851 profissionais titulares de Cartão de Guia Turístico, menos três do que em 2021, sendo que apenas quatro sabem falar português, revelou a Direcção dos Serviços de Turismo (DST). No espaço de quatro anos, o número de guias que dominam a língua portuguesa manteve-se inalterado, apontou, numa resposta enviada ao Jornal Tribuna de Macau.

Na perspectiva do organismo, graças ao posicionamento de Macau como plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP), o número de turistas lusófonos poderá retomar a trajectória de crescimento. Neste contexto, acredita que os guias de língua portuguesa terão “certas vantagens”.

Contudo, também prevê “desafios” para o sector. “Quando o volume total de turistas for inferior ao das línguas dominantes, as receitas flutuarão bastante entre as épocas altas e as baixas”, observa.

A DST recorda que, desde 2016, tem disponibilizado cursos gratuitos de diferentes línguas aos profissionais do turismo. Em 2025, lançou cinco cursos de línguas, incluindo de português inglês, coreano, tailandês e japonês. Para este ano estão previstos cursos de português, inglês, coreano e francês.

Além disso, em 2019, o sítio sobre a indústria turística passou a integrar cursos online acompanhados de legendas com tradução para português. Nesse âmbito inserem-se as séries de cursos “Construindo uma positiva mentalidade de serviço” (lançada em 2022), “Tratamento de Reclamações e Habilidades de Mediação” (2023) e da “Campanha de Cortesia de Macau” (2024).

Em Março deste ano, em resposta a interpelações escritas dos deputados Ho Ion Sang e Chan Lai Kei, a DST indicou que, no corrente trimestre, seriam lançados novos cursos para guias em línguas portuguesa, inglesa e coreana, sobre temas como alojamento e compras. Posteriormente, serão planeados cursos temáticos nesses idiomas sobre templos, igrejas e arquitectura.

Falta de guias em português preocupa sector

Ouvido pelo Jornal Tribuna de Macau, Nelson Hoi, director da União dos Guias Turísticos, aponta que, em Macau, há muitas pessoas que sabem falar português, porém, os guias carecem de garantias básicas, como salário-base e seguro de saúde. “Para um jovem que acabe de entrar no sector, não é viável ficar à espera de trabalho com estas condições”, frisa, sublinhando que “tornar um residente que fale uma língua estrangeira num guia turístico exige muito tempo, dedicação e investimento”.

Na sua maioria, os guias de línguas ‘minoritárias’ são “muito concentrados” no trabalho e “encaram a profissão como um projecto de vida”, contudo, “agora não conseguem sustentar a vida quotidiana, com o volume actual de trabalho”, lamenta.

Na sua opinião, embora o Governo esteja empenhado em aumentar e diversificar o número de visitantes e turistas, “a capacidade de atendimento constitui um problema”. “Se de repente entrarem muitos turistas de países lusófonos, onde iremos pedir emprestados os respectivos guias?”, questionou.

Nelson Hoi revelou que, perante estas dificuldades, as agências de viagens recorrem, por vezes, aos acompanhantes das próprias excursões para fazer a tradução. “Pode ser tradução português-chinês ou português-inglês.

Consoante a situação concreta, se falarem chinês, faremos a conjugação com guias de chinês. Se falarem inglês, recorreremos a guias de inglês”, descreveu. No entanto, “a explicação de um tradutor é completamente diferente de um guia local, não conseguindo fazer uma apresentação perfeita da imagem da cidade”.

O dirigente associativo considera ainda pouco realista recorrer a alunos universitários para desempenharem temporariamente o papel de tradutores nas excursões, desde logo porque “podem não dominar, de forma tão completa, os termos técnicos do sector turístico”.

Nelson Hoi mostra-se preocupado com o facto de existirem apenas quatro guias de língua portuguesa, número que considera “insuficiente” para fazer face à procura. “Há muitos países de língua portuguesa e, com o desenvolvimento da economia e a melhoria das condições de vida, o número de turistas oriundos dessas nações tem vindo a aumentar. O Governo da RAEM também tem lançado muitas ofertas turísticas, como transporte gratuito de ida para turistas estrangeiros em Hong Kong, no intuito de os atrair a Macau”, nota.

Para o director da União dos Guias Turísticos, “as excursões vivem uma tendência de redução contínua, mas isso reflecte-se apenas nos excursionistas do Interior da China”. “Quanto aos turistas estrangeiros, continuam a querer viajar em excursão”.

Além disso, os guias “são, maioritariamente, de idade avançada”. “Quando se aposentarem, ficaremos sem guias de língua portuguesa”, alerta, instando o Governo a definir um plano a longo prazo e medidas de incentivo para atrair jovens para o sector turístico.

Nelson Hoi salienta ainda que muitos turistas dos PLP procuram, através de Macau, conhecer as culturas e a situação actual da China Continental, bem como “obter informações avançadas para além do mero turismo”. “Macau funciona como intermediário. Por isso, se considerarem que vale a pena visitar Macau, acabarão por utilizar a RAEM como trampolim para entrar no Interior da China”, apontou.

Na perspectiva do também director da Associação de Turismo Cultural da Grande Baía de Macau, embora Macau “tenha recursos turísticos limitados”, deve continuar a assumir o papel de “estação intermédia”, promovendo um desenvolvimento turístico articulado com a Grande Baía e outras cidades do Continente.

Por outro lado, as actividades turísticas e eventos relacionados com culturas dos países lusófonos, promovidos pelo Governo, “têm certamente um papel significativo”, tanto para a área comercial como para o turismo, incluindo o segmento de visitas individuais, especialmente ao nível da divulgação da imagem de Macau. Como Macau é uma cidade turística, defende que o Governo deve adoptar uma “atitude activa” na formação linguística dos guias.

Reforçadas actividades ligadas à Lusofonia

Em 2021, devido à pandemia, foram suspensos os trabalhos de divulgação turística junto dos PLP e vários grandes eventos. Mas, com a recuperação gradual do turismo, a DST tem vindo a alargar e optimizar a dimensão e o conteúdo das actividades nessa esfera.

Em 2025, a DST aumentou as despesas com actividades turísticas relacionadas com culturas dos PLP, face ao orçamento de há cinco anos, garantiu a este jornal, sem especificar o montante.

Nos últimos cinco anos, as iniciativas focadas na lusofonia envolveram convenções e exposições (MICE), eventos turísticos simbólicos e informações de campanha disponíveis nas contas oficiais da DST em redes sociais e na sua publicação mensal “What’s On”. O organismo liderado por Maria Helena de Senna Fernandes acredita que os turistas no território foram “orientados a participar nessas actividades e a sentir culturas portuguesas”, acabando Macau por desempenhar o papel de plataforma no intercâmbio cultural.

No âmbito do MICE, a DST realiza a Expo Internacional de Turismo (Indústria) de Macau, na qual o Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa instala um Pavilhão dos PLP, para apresentar o ambiente de investimento e comercial, e a situação do sector turístico lusófono. Desde 2023, representantes da indústria turística e dos media de Portugal, e a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, participam na Expo, num pavilhão cuja dimensão tem sido cada vez maior.

Paralelamente, DST tem convidado equipas portuguesas a participar, actuar ou trabalhar no design e produção de grandes eventos simbólicos, como a Parada do Ano Novo Lunar, o Concurso Internacional de Fogo de Artifício e o festival “Iluminar Macau”. Nos últimos dois anos, o organismo também levou grupos locais às Festas Populares de Lisboa, cujas equipas campeãs puderam participar nos espectáculos do Ano Novo Lunar em Macau nos anos seguintes. A DST destaca ainda a presença de cidades como Santa Maria da Feira, e Belém, Paraty Florianópolis e Belo Horizonte do Brasil, em eventos gastronómicos na RAEM.

Concomitantemente, a DST incluiu, na sua agenda de divulgação nas redes sociais, a Semana Cultural da China e dos PLP, Festival de Artes e Cultura China-PLP (que integra o Festival da Lusofonia), a exposição “Helena Almeida: Estou Aqui – Presença e Ressonância”, “Junho – mês de Portugal”, “Festival Luso-Chinês de Música e Artes” e exposição “As Artes Estão na Rua! – Portugal 1974-1978”. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


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