Apenas quatro dos 1851 guias turísticos registados em Macau até ao final de 2025 conseguem falar português, número que se mantém há cinco anos, revelou a DST ao Jornal Tribuna de Macau. Porém, antevendo um aumento dos visitantes lusófonos, o organismo acredita que os guias de língua portuguesa terão “certas vantagens”, ainda que desafiados pela flutuação de receitas entre as épocas altas e as baixas. O director da União dos Guias Turísticos entende que o número deste tipo de guias é “insuficiente” para a procura e que o Governo deve dar incentivos para mais jovens se juntarem ao sector
No final de 2025, Macau contava com
1851 profissionais titulares de Cartão de Guia Turístico, menos três do que em
2021, sendo que apenas quatro sabem falar português, revelou a Direcção dos
Serviços de Turismo (DST). No espaço de quatro anos, o número de guias que
dominam a língua portuguesa manteve-se inalterado, apontou, numa resposta
enviada ao Jornal Tribuna de Macau.
Na perspectiva do organismo, graças ao posicionamento de
Macau como plataforma comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa
(PLP), o número de turistas lusófonos poderá retomar a trajectória de
crescimento. Neste contexto, acredita que os guias de língua portuguesa terão
“certas vantagens”.
Contudo, também prevê “desafios” para o sector. “Quando o
volume total de turistas for inferior ao das línguas dominantes, as receitas
flutuarão bastante entre as épocas altas e as baixas”, observa.
A DST recorda que, desde 2016, tem disponibilizado cursos
gratuitos de diferentes línguas aos profissionais do turismo. Em 2025, lançou
cinco cursos de línguas, incluindo de português inglês, coreano, tailandês e
japonês. Para este ano estão previstos cursos de português, inglês, coreano e
francês.
Além disso, em 2019, o sítio sobre a indústria turística
passou a integrar cursos online acompanhados de legendas com tradução
para português. Nesse âmbito inserem-se as séries de cursos “Construindo uma
positiva mentalidade de serviço” (lançada em 2022), “Tratamento de Reclamações
e Habilidades de Mediação” (2023) e da “Campanha de Cortesia de Macau” (2024).
Em Março deste ano, em resposta a interpelações escritas
dos deputados Ho Ion Sang e Chan Lai Kei, a DST indicou que, no corrente
trimestre, seriam lançados novos cursos para guias em línguas portuguesa,
inglesa e coreana, sobre temas como alojamento e compras. Posteriormente, serão
planeados cursos temáticos nesses idiomas sobre templos, igrejas e
arquitectura.
Falta de guias em português preocupa sector
Ouvido pelo Jornal Tribuna de Macau, Nelson Hoi, director
da União dos Guias Turísticos, aponta que, em Macau, há muitas pessoas que
sabem falar português, porém, os guias carecem de garantias básicas, como
salário-base e seguro de saúde. “Para um jovem que acabe de entrar no sector,
não é viável ficar à espera de trabalho com estas condições”, frisa,
sublinhando que “tornar um residente que fale uma língua estrangeira num guia
turístico exige muito tempo, dedicação e investimento”.
Na sua maioria, os guias de línguas ‘minoritárias’ são
“muito concentrados” no trabalho e “encaram a profissão como um projecto de
vida”, contudo, “agora não conseguem sustentar a vida quotidiana, com o volume
actual de trabalho”, lamenta.
Na sua opinião, embora o Governo esteja empenhado em
aumentar e diversificar o número de visitantes e turistas, “a capacidade de
atendimento constitui um problema”. “Se de repente entrarem muitos turistas de
países lusófonos, onde iremos pedir emprestados os respectivos guias?”,
questionou.
Nelson Hoi revelou que, perante estas dificuldades, as
agências de viagens recorrem, por vezes, aos acompanhantes das próprias
excursões para fazer a tradução. “Pode ser tradução português-chinês ou
português-inglês.
Consoante a situação concreta, se falarem chinês, faremos
a conjugação com guias de chinês. Se falarem inglês, recorreremos a guias de
inglês”, descreveu. No entanto, “a explicação de um tradutor é completamente
diferente de um guia local, não conseguindo fazer uma apresentação perfeita da
imagem da cidade”.
O dirigente associativo considera ainda pouco realista
recorrer a alunos universitários para desempenharem temporariamente o papel de
tradutores nas excursões, desde logo porque “podem não dominar, de forma tão
completa, os termos técnicos do sector turístico”.
Nelson Hoi mostra-se preocupado com o facto de existirem
apenas quatro guias de língua portuguesa, número que considera “insuficiente”
para fazer face à procura. “Há muitos países de língua portuguesa e, com o
desenvolvimento da economia e a melhoria das condições de vida, o número de
turistas oriundos dessas nações tem vindo a aumentar. O Governo da RAEM também
tem lançado muitas ofertas turísticas, como transporte gratuito de ida para
turistas estrangeiros em Hong Kong, no intuito de os atrair a Macau”, nota.
Para o director da União dos Guias Turísticos, “as
excursões vivem uma tendência de redução contínua, mas isso reflecte-se apenas
nos excursionistas do Interior da China”. “Quanto aos turistas estrangeiros,
continuam a querer viajar em excursão”.
Além disso, os guias “são, maioritariamente, de idade
avançada”. “Quando se aposentarem, ficaremos sem guias de língua portuguesa”,
alerta, instando o Governo a definir um plano a longo prazo e medidas de
incentivo para atrair jovens para o sector turístico.
Nelson Hoi salienta ainda que muitos turistas dos PLP
procuram, através de Macau, conhecer as culturas e a situação actual da China
Continental, bem como “obter informações avançadas para além do mero turismo”.
“Macau funciona como intermediário. Por isso, se considerarem que vale a pena
visitar Macau, acabarão por utilizar a RAEM como trampolim para entrar no
Interior da China”, apontou.
Na perspectiva do também director da Associação de
Turismo Cultural da Grande Baía de Macau, embora Macau “tenha recursos
turísticos limitados”, deve continuar a assumir o papel de “estação
intermédia”, promovendo um desenvolvimento turístico articulado com a Grande
Baía e outras cidades do Continente.
Por outro lado, as actividades turísticas e eventos
relacionados com culturas dos países lusófonos, promovidos pelo Governo, “têm
certamente um papel significativo”, tanto para a área comercial como para o
turismo, incluindo o segmento de visitas individuais, especialmente ao nível da
divulgação da imagem de Macau. Como Macau é uma cidade turística, defende que o
Governo deve adoptar uma “atitude activa” na formação linguística dos guias.
Reforçadas actividades ligadas à Lusofonia
Em 2021, devido à pandemia, foram suspensos os trabalhos
de divulgação turística junto dos PLP e vários grandes eventos. Mas, com a
recuperação gradual do turismo, a DST tem vindo a alargar e optimizar a
dimensão e o conteúdo das actividades nessa esfera.
Em 2025, a DST aumentou as despesas com actividades
turísticas relacionadas com culturas dos PLP, face ao orçamento de há cinco
anos, garantiu a este jornal, sem especificar o montante.
Nos últimos cinco anos, as iniciativas focadas na
lusofonia envolveram convenções e exposições (MICE), eventos turísticos
simbólicos e informações de campanha disponíveis nas contas oficiais da DST em
redes sociais e na sua publicação mensal “What’s On”. O organismo
liderado por Maria Helena de Senna Fernandes acredita que os turistas no
território foram “orientados a participar nessas actividades e a sentir
culturas portuguesas”, acabando Macau por desempenhar o papel de plataforma no
intercâmbio cultural.
No âmbito do MICE, a DST realiza a Expo Internacional de
Turismo (Indústria) de Macau, na qual o Secretariado Permanente do Fórum para a
Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa
instala um Pavilhão dos PLP, para apresentar o ambiente de investimento e
comercial, e a situação do sector turístico lusófono. Desde 2023,
representantes da indústria turística e dos media de Portugal, e a Associação
Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, participam na Expo, num pavilhão
cuja dimensão tem sido cada vez maior.
Paralelamente, DST tem convidado equipas portuguesas a
participar, actuar ou trabalhar no design e produção de grandes eventos
simbólicos, como a Parada do Ano Novo Lunar, o Concurso Internacional de Fogo
de Artifício e o festival “Iluminar Macau”. Nos últimos dois anos, o organismo
também levou grupos locais às Festas Populares de Lisboa, cujas equipas campeãs
puderam participar nos espectáculos do Ano Novo Lunar em Macau nos anos
seguintes. A DST destaca ainda a presença de cidades como Santa Maria da Feira,
e Belém, Paraty Florianópolis e Belo Horizonte do Brasil, em eventos
gastronómicos na RAEM.
Concomitantemente, a DST incluiu, na sua agenda de
divulgação nas redes sociais, a Semana Cultural da China e dos PLP, Festival de
Artes e Cultura China-PLP (que integra o Festival da Lusofonia), a exposição
“Helena Almeida: Estou Aqui – Presença e Ressonância”, “Junho – mês de
Portugal”, “Festival Luso-Chinês de Música e Artes” e exposição “As Artes Estão
na Rua! – Portugal 1974-1978”. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau
Sem comentários:
Enviar um comentário