Analistas declararam à Lusa, no âmbito
dos 30 anos da CPLP, que a organização falhou no acompanhamento da crise na
Guiné-Bissau, especialmente com o seu ex-secretário-executivo, e consideraram a
suspensão do país um acto simbólico.
O analista político guineense Rui Landim criticou a
actuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que, a seu ver,
desde os primórdios, nunca teve uma actuação eficaz no seu país.
“A CPLP foi criada em 1996, em 1998 a Guiné-Bissau
mergulhou numa guerra civil e logo aí não houve intervenção”, reflectiu.
Agora, o país encontra-se, pela primeira vez na sua
História, suspenso da CPLP, assim como de outras organizações, devido ao golpe
de Estado militar de 26 de Novembro de 2025, na véspera da divulgação dos
resultados eleitorais de 23 de Novembro.
Nesse seguimento, o activista guineense questionou: “Qual
é a consequência dessa suspensão? A Guiné-Bissau vive há cerca de 12 anos uma
crise [política] e nada de CPLP”.
Além disso, prosseguiu, Domingos Simões Pereira, líder do
histórico PAIGC, que foi secretário-executivo da CPLP entre 2008 e 2012, está
detido e a organização lusófona, aparentemente, nada fez sobre isso.
O professor moçambicano Elísio Macamo corrobora essa
opinião. Domingos Simões Pereira, líder da oposição guineense e
ex-secretário-executivo da CPLP, está detido há meses “sem nenhuma acusação” e
“não se vê nada da parte da CPLP em relação a isso”, criticou. “É nesses
momentos que se pode perguntar, com certa legitimidade, para que é que uma
organização dessas existe”, frisou o docente.
O especialista brasileiro em História das Relações
Internacionais Adriano de Freixo questionou o efeito prático do envio de uma
missão de ofício ao país. “Mandar uma missão de ofício seria muito mais para
chegar lá e verificar que, de facto, a situação se deteriorou desde o golpe de
Estado, que a oposição está calada, que há violações de direitos humanos, que
há repressão a manifestações contrárias ao Governo militar. [Essa missão] iria
lá, confirmaria isso, a Guiné-Bissau continuaria suspensa, e aí, qual a
consequência prática disso?”, reflectiu.
“O que significou para a Guiné-Bissau a suspensão da
CPLP? Nada. É uma coisa mais simbólica do que outra coisa. Não tem efeito
prático, da mesma maneira que uma missão no país não teria nenhum efeito
prático porque não há mecanismos dentro da CPLP que permitam exercer controlo
sobre os Estados-membros para que cumpram os princípios fundadores”,
acrescentou.
Para o presidente da Universidade Lusíada de São Tomé e
Príncipe, Liberato Moniz, tem havido uma indiferença internacional enorme
perante o que se passa na Guiné-Bissau. “Nós vemos, na televisão portuguesa e
brasileira, guerras que estão a milhares de quilómetros, mas o que está mesmo
aqui ao lado ninguém fala”, lamentou o ex-pré-candidato presidencial, que
considerou que a missão de ofício à Guiné-Bissau “faz todo o sentido”, mas
exige “objectivos concretos” para ajudar a mudar a situação do país.
Divergindo sobre o estatuto do país na comunidade, o
politólogo angolano Almeida Henriques defendeu que a Guiné-Bissau “não reúne
condições para pertencer à organização”. O analista argumentou que a falta de
verticalidade institucional, a profunda instabilidade política interna e a
necessidade de respeitarem os valores democráticos impedem o país de responder
aos anseios mínimos exigidos pela CPLP.
Por outro prisma, o analista português Fernando Jorge
Cardoso explicou que “o que se passa na Guiné-Bissau tem raízes regionais que
ultrapassam a CPLP”. “O que aconteceu, como sabemos, foi uma encenação de
golpe. Ele [Sissoco Embaló] ia perder as eleições e, portanto, fez-se de conta
que houve um golpe de Estado. Mas sabe-se que ele tem apoio da Nigéria e nenhum
país da CPLP vai confrontar Lagos”, explicou.
“Qual é o país da CPLP que se vai
meter com a Nigéria? Portugal? Nem pensar. O Brasil? Nem pense”, acrescentou o
especialista em estudos africanos.
O professor na Universidade Autónoma de Lisboa sustentou
que a não interferência da CPLP na Guiné-Bissau se explica porque “aqueles que
mandam na CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, sediada
em Abuja, na Nigéria] não deixam”. “As organizações regionais africanas têm
primazia territorial e a CPLP não tem capacidade política nem militar para agir
de forma independente neste contexto”, contextualizou.
Para o sociólogo cabo-verdiano Redy Lima, comparar a CPLP
à CEDEAO é injusto, pois “a CEDEAO tem muito mais peso, tem muito mais
presença”. De acordo com o analista, a “Guiné-Bissau é um grande exemplo do
peso político inexistente da CPLP”.
Por outro lado, e referindo-se directamente a Portugal,
“o passado colonial acaba sempre por envergonhar um pouco a acção da CPLP”,
pois facilmente é usado esse argumento contra a ex-metrópole, como o próprio
Sissoco Embaló chegou a fazer, recordou.
Sobre o anúncio de 23 de Junho relativo à possibilidade
da saída da Guiné-Bissau da CPLP, após as eleições previstas para Dezembro,
Fernando Jorge Cardoso declarou que uma ruptura ou saída formal do país é
improvável, uma vez que o actual regime depende do financiamento de Portugal e
da União Europeia, assim como de doadores internacionais, defendido pela
diplomacia portuguesa.
A CPLP, que assinala 30 anos a 17 de Julho, é composta
por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique,
Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, que detém a presidência rotativa
temporária da organização desde a suspensão de Bissau. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”
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