Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Bélgica - Tem o pior histórico em relação a produtos químicos permanentes na Europa

A ONG ambiental ClientEarth argumenta que as autoridades belgas não tomaram nenhuma providência, apesar de terem conhecimento dos altos níveis de poluentes há anos


Advogados apresentaram uma queixa contra a Bélgica pela sua falha em proteger os seus cidadãos dos significativos riscos à saúde causados ​​por substâncias químicas persistentes.

A ClientEarth apresentou uma queixa de violação dos direitos humanos ao Comité Europeu dos Direitos Sociais (CEDS). A Bélgica tem os níveis mais elevados de substâncias químicas PFAS persistentes (PFAS) de qualquer país europeu.

“Não só a contaminação existe há muito tempo, como também notamos que as autoridades têm informações sobre esta contaminação há anos, senão décadas, e que muito pouco foi feito”, afirma Hélène Duguy, advogada ambiental da ClientEarth.

A ONG ClientEarth tem um histórico sólido de ações judiciais contra governos e empresas em questões ambientais. Esta é a primeira vez que a organização se dirige ao ECSR, órgão de monitorização do Conselho da Europa que avalia se os Estados-membros estão respeitando a Carta Social Europeia. "Escolhemos este comité porque sabemos que ele tem um grande poder de fiscalização", disse Duguy à Euronews Earth.

Bélgica: o principal foco europeu de PFAS

PFAS, também conhecidos como "químicos eternos", são um grupo de mais de 10.000 substâncias químicas sintéticas amplamente utilizadas pela indústria pelas suas propriedades de resistência à água, manchas e gordura. Elas também são encontradas em caixas de pizza, panelas antiaderentes, absorventes higiénicos e roupas para atividades ao ar livre.

Eles têm sido associados a múltiplos riscos à saúde, como certos tipos de cancros, doenças metabólicas e problemas de fertilidade.

De acordo com o projeto The Forever Pollution Project , que coletou dados e mapeou a poluição por PFAS em todo o continente, a Bélgica apresenta os níveis mais elevados de poluição por PFAS na Europa.

Entre os principais locais belgas afetados pela poluição por PFAS, destacam-se Zwijndrecht, uma cidade próxima a Antuérpia fortemente impactada devido à sua proximidade com a fábrica da multinacional 3M, e Chièvres, perto da fronteira francesa, onde a contaminação foi associada a uma base aérea próxima. O mapa também mostra que Bruxelas é significativamente afetada pela poluição por PFAS, particularmente nas áreas ao redor de Anderlecht e Uccle.

A reclamação da ClientEarth baseia-se em exemplos como o de Zwijndrecht, onde as agências públicas tinham conhecimento do problema das PFAS anos antes do escândalo vir à tona em 2021.

Membros do governo flamengo, incluindo Bart De Wever, então prefeito de Antuérpia e atual primeiro-ministro da Bélgica, foram informados da contaminação já em 2017, mas não tomaram nenhuma providência.

Já no início dos anos 2000, a 3M e as agências flamengas discutiam a poluição por PFAS na área próxima à fábrica, mas subestimaram a dimensão do problema.

Quais são os riscos para a saúde associados aos produtos químicos eternos?

Os PFAS estão associados a diversas condições de saúde. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde classificou o ácido perfluorooctanoico (PFOA) como carcinogénico para humanos e o ácido perfluorooctanossulfônico (PFOS) como possivelmente carcinogénico para humanos.

Estas duas substâncias PFAS são proibidas na UE, mas, como podem levar centenas de anos para se decompor, ainda estão presentes no solo, na água e no sangue de pessoas em muitas áreas contaminadas da Europa.

O cancro não é o único risco à saúde associado aos PFAS. "Estes compostos estão associados a várias doenças metabólicas, como diabetes, diminuição da fertilidade e obesidade", disse Philippe Grandjean, professor de medicina ambiental do Instituto Nacional de Saúde Pública de Copenhague, à Euronews Earth.

Grandjean destacou que os PFAS representam um risco não apenas para os adultos atualmente expostos a eles, mas também para as gerações futuras.

“Os PFAS afetam a saúde do sêmen do pai, ou seja, a qualidade do sêmen, e aumentam o risco de infertilidade ou aborto espontâneo”, explicou. “Os PFAS atravessam a placenta e, portanto, a mãe transmite essa carga de PFAS para o feto. Além disso, os PFAS são excretados no leite materno”, acrescentou.

De acordo com Grandjean, todos esses riscos à saúde devem, portanto, servir como importantes incentivos para que os governos invistam em prevenção.

Como os produtos químicos eternos se tornaram uma questão de direitos humanos

Não é a primeira vez que a poluição por PFAS é associada a violações de direitos humanos. Em 2024, especialistas das Nações Unidas classificaram a poluição por PFAS gerada pela DuPont e pela Chemours na Carolina do Norte como uma questão de direitos humanos.

Ações judiciais sobre a poluição por PFAS estão em andamento em toda a Europa, com ONG ambientais e moradores a processar a França pela sua falha em lidar com a poluição por PFAS em maio de 2026. Uma decisão é esperada em 2027.

“Queremos mesmo apresentar uma queixa que apoie e seja complementar a essas ações [europeias]”, explica Duguy.

“PFAS não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão humana, e os governos e as autoridades públicas têm o dever de proteger esses direitos”, continuou ela.

Num comunicado à imprensa, a ClientEarth observou que a ECSR deverá decidir sobre a admissibilidade da reclamação em 2027 e que uma decisão final é estimada em dois a três anos.

Com esta denúncia, a ClientEarth espera provocar mudanças concretas na regulamentação de PFAS na Bélgica.

Especificamente, eles querem que a Bélgica proíba todos os produtos químicos persistentes e forneça soluções para as comunidades afetadas. “Essas medidas incluem, por exemplo, garantir o monitoramento biológico sistêmico das pessoas, especialmente das populações vulneráveis, como crianças e gestantes. Mas também começar a remediar e descontaminar, algo que ainda é muito lento na Bélgica”, disse Duguy à Euronews Earth.

No entanto, a limpeza da poluição por PFAS é incrivelmente complexa. De acordo com um estudo publicado na segunda-feira (6 de julho) no periódico Environmental Science: Processes and Impacts, mesmo que a Europa investisse 100 mil milhões de euros por ano em remediação, isso removeria uma fração ínfima desses produtos químicos persistentes do meio ambiente. Euronews



quinta-feira, 19 de março de 2026

Do massacre de árvores ao Armagedon

Numa nova visita a São Paulo para matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo, uma área arborizada junto da avenida Paulista, onde se pode imaginar estar numa floresta. Ou que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma elite. Mas é preciso se reconhecer: uma elite ambientalista.

Diante de tanto respeito pela natureza com árvores das diversas regiões brasileiras, é quase impossível não se lembrar e não se fazer um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário, no Alto da Lapa, onde a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos Salesianos com autorização do prefeito Ricardo Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.

De um lado, um empreendimento investe no respeito da natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do Bosque dos Salesianos.

Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta protegida, cheguei logo à avenida Paulista e a tentação de visitar mais uma vez o MASP, com suas exposições atuais e seu acervo. Esse acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao antigo museu ainda na rua 7 de Abril.

Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irão, com um cartaz perguntando "Haverá paz no mundo? Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová. Um ramo original derivado dos evangélicos norte-americanos, criado em 1872, cujos missionários vieram ao Brasil em 1920 e hoje são um milhão e quatrocentos mil.

A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha do Armagedom, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos no mar Egeu. Armagedom seria a última guerra, pois significaria a intervenção de Deus numa guerra mundial. Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem a mesma ênfase do Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser chegada a época do retorno de Cristo.

Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail publicada pelo Brasil 247, estaria ocorrendo junto dos soldados e militares norte-americanos participando da guerra contra o Irão. Sabendo-se da influência dos evangélicos junto aos trumpistas, "comandantes militares associados ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas americanas em meio ao conflito com o Irão, afirmando que a guerra faria parte de um plano divino ligado ao “Armagedom”.

A imprensa francesa também repercute essa utilização das profecias do Apocalipse pelos comandantes trumpistas para que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do Bem contra o Mal. Do lado do Irão, os combatentes iranianos acreditam que se tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel. Rui Martins – Suíça

__________

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


domingo, 1 de março de 2026

Equador - Quase 150 anos depois de terem sido extintas, as tartarugas gigantes regressam à ilha Floreana, no arquipélago de Galápagos

Os guardas-florestais soltaram 158 tartarugas híbridas juvenis em Floreana para restaurar o ecossistema da ilha


Quase 150 anos depois da remoção das últimas tartarugas-gigantes da Ilha Floreana, no arquipélago de Galápagos, no Equador, a espécie retornou na sexta-feira (20 de fevereiro), quando dezenas de híbridos juvenis foram soltos para iniciar a restauração do ecossistema degradado da ilha.

As 158 novas tartarugas, com idades entre 8 e 13 anos, começaram a explorar o habitat que irão remodelar nos próximos anos. A sua soltura coincidiu perfeitamente com a chegada das primeiras chuvas de inverno.

“Elas são grandes o suficiente para serem soltas e conseguem defender-se de animais introduzidos, como ratos e gatos”, diz Fredy Villalba, diretor do centro de reprodução do Parque Nacional de Galápagos, na Ilha de Santa Cruz, observando que os melhores espécimes, com a linhagem mais forte, foram selecionados especificamente para Floreana.

Por que as tartarugas gigantes de Floreana foram extintas?

Estes espécimes juvenis libertados, de um total de 700 planeados para Floreana, serão introduzidos gradualmente. De acordo com Christian Sevilla, diretor de ecossistemas do Parque Nacional de Galápagos, elas carregam entre 40% e 80% da composição genética do Chelonoidis niger – uma espécie extinta há 150 anos.

A linhagem desses híbridos remonta ao Vulcão Wolf, na Ilha Isabela, uma descoberta que ainda intriga os cientistas. Ao selecionar adultos com a composição genética mais forte, diz Sevilla, o programa de reprodução visa trazer gradualmente a espécie extinta Floreana de volta à sua pureza original.

Há dois séculos, Floreana abrigava aproximadamente 20.000 tartarugas-gigantes. No entanto, a caça às baleias, um incêndio devastador e a exploração humana implacável acabaram por levar à sua completa extinção na ilha.

“Em termos genéticos, reintroduzir uma espécie naquela ilha com um componente genético significativo da espécie original é vital”, afirma o biólogo Washington Tapia.

Tapia, pesquisador e diretor da Biodiversa-Consultores – empresa especializada nas Ilhas Galápagos – enfatizou que esse processo vai além de simples cálculos, trata-se de restaurar uma linhagem perdida.

Floreana é um sítio ecológico remoto e de vital importância

Floreana, uma ilha com aproximadamente 173 quilômetros quadrados, é uma massa de terra vulcânica e o ponto mais meridional do arquipélago de Galápagos. Situada no meio do Oceano Pacífico – a cerca de 1000 quilômetros da costa continental – permanece um local remoto e de vital importância ecológica.

As tartarugas reintroduzidas em Floreana compartilharão o seu território com uma população diversificada de quase 200 pessoas, além de flamingos, iguanas, pinguins, gaivotas e gaviões. No entanto, elas também terão de lidar com espécies de plantas introduzidas, como a amora-preta e a goiaba, bem como com animais como ratos, gatos, porcos e burros. Essas espécies não nativas, introduzidas pela atividade humana, representam ameaças potenciais aos novos habitantes da ilha.

A moradora de Floreana, Verónica Mora, descreve a soltura das tartarugas como um sonho realizado. "Estamos vendo a concretização de um projeto que começou há vários anos", diz ela, acrescentando que a comunidade sente imenso orgulho com o retorno das tartarugas gigantes.

As Nações Unidas designaram as Ilhas Galápagos como Património Natural da Humanidade em 1978. Essa honra reconhece a abundância única de espécies terrestres e marinhas presentes nas ilhas, encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Euronews


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Brasil - Instituição que protege a Amazónia está entre os “Campeões da Terra”

Premiação internacional reconheceu trabalho pioneiro do Imazon que usa inteligência artificial para prever e impedir desmatamento na floresta amazónica. A abordagem já ajudou a identificar 15 mil km² de áreas florestais de alto risco, 71% das quais foram posteriormente preservadas


O instituto de pesquisa brasileiro Imazon, que utiliza tecnologia de ponta para combater o desmatamento na Amazónia, é um dos cinco vencedores do prémio “Campeões da Terra” de 2025.

A distinção, anunciada nesta terça-feira, foi concedida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, na 7.ª sessão da Assembleia Ambiental da ONU, Unea-7, que acontece em Nairóbi, no Quénia.

Alertas precoces para a proteção da floresta

O Imazon desenvolveu modelos de inteligência artificial para previsão do desmatamento, causado principalmente pela pecuária e pela exploração madeireira. O objetivo é criar alertas precoces, orientar políticas públicas e auxiliar as autoridades na proteção da floresta.

O pesquisador associado do Imazon, Carlos Souza Jr., explicou que nem o Brasil nem o mundo serão os mesmos sem a floresta amazónica.

“Se a Amazónia chegar num ponto de não retorno nós vamos ter vários impactos. Primeiro, a perda de biodiversidade. Segundo, a emissão de gases de efeito estufa, pois a Amazónia armazena muito carbono nas florestas e no subsolo.”

O instituto usa um mapa digital onde são lançados pontos amarelos, laranjas e vermelhos. Cada ponto representa um local onde o Imazon acredita que ocorrerá desmatamento, e cada cor indica o grau de risco, com base em dados de satélite e modelagem de inteligência artificial.

Uso da tecnologia ajudou a descobrir 99% dos casos de desmatamento ilegal

Em 2021, ano de lançamento do mapa, esses pontos ajudaram a identificar 15 mil km² de áreas florestais de alto risco, 71% das quais foram posteriormente preservadas.

Os dados também serviram de base para mais de 4,4 mil processos judiciais ambientais e ajudaram a descobrir 99% dos casos de desmatamento ilegal.

Carlos destacou a importância da tecnologia na defesa do meio ambiente.

“É uma mudança de paradigma significativa que a inteligência artificial, a computação em nuvem e os novos algoritmos permitem para que a gente tenha informações ainda mais precisas sobre o futuro próximo da Amazónia e tentar evitar estes cenários de destruição por desmatamento e degradação florestal.”

União da ciência com conhecimento ancestral

Os pesquisadores acompanharam a dinâmica do desmatamento na Amazónia de 1985 a 2024, para desenvolver uma ferramenta prática que permitisse à sociedade brasileira trabalhar em conjunto para evitar a destruição da Amazónia.

Outro foco da ONG é estimular o crescimento económico sustentável na região. Isso envolve trabalho de campo com as comunidades locais para apoiar práticas sustentáveis ​​e áreas florestais protegidas.

A entidade acredita na junção do conhecimento científico com o conhecimento ancestral local e a sabedoria dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

A pesquisa do Imazon demonstrou que a extração sustentável de madeira é possível e que as regulamentações de gestão florestal poderiam reduzir significativamente o impacto ambiental, mantendo os ganhos económicos. 

Com sede em Belém, no Pará, o Imazon é uma instituição científica sem fins lucrativos, que atua há 35 anos para promover a conservação e o desenvolvimento sustentável na Amazónia. ONU News – Nações Unidas



quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Lusofonia - Países lusófonos sofrem impactos crescentes da degradação ambiental, diz estudo

Desmatamento no Brasil, redução da pesca em Portugal e aumento da frequência de ciclones em Moçambique são exemplos de como modelo de desenvolvimento atual causa cada vez mais mortes e prejuízos económicos, o relatório do Pnuma defende transformações que podem gerar ganhos substanciais


O avanço da degradação ambiental está a causar milhões de mortes todos os anos e prejuízos de triliões de dólares.

A 7.ª edição do relatório Visão Global do Meio Ambiente, produzida por 287 cientistas, de 82 países, revela que o modelo de desenvolvimento atual está a sobrecarregar o planeta, as pessoas e as economias.

Desmatamento e poluição na Amazónia

O estudo lançado nesta terça-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, revela que o custo dos eventos extremos atribuídos às alterações climáticas nos últimos 20 anos é estimado em US$ 143 biliões por ano. Já os danos à saúde causados pela poluição do ar criaram um prejuízo de US$ 8,1 triliões em 2019, cerca de 6,1% do Produto Interno Bruto, PIB, global.

O relatório mostra que esses impactos são evidentes em países lusófonos. No Brasil, por exemplo, o crescimento do desmatamento foi associado a um aumento de 39% no número de incêndios florestais entre 2012 e 2019 na Amazónia, afetando negativamente a qualidade do ar na América do Sul.

A região também sofre com a poluição por plásticos. De acordo com o estudo, foram identificadas até 74,5 mil partículas de microplástico por litro na Amazónia brasileira e seus afluentes.

No nordeste e sudeste do Brasil, mais de 30% do habitat de espécies de aves e anfíbios são direta ou indiretamente afetados pela mineração, que coloca em risco a rica biodiversidade da região.

Já na zona costeira do país, uma preocupação crescente é o descarte de produtos farmacêuticos. Estudos revelaram que medicamentos como o ibuprofeno podem ser encontrados em águas costeiras e em certas espécies de frutos do mar.

Risco para a pesca em Portugal

Outra grande ameaça nos mares é a sobrepesca, que intensificou-se nas últimas décadas, com mais de 37% dos estoques pesqueiros classificados como sobre explorados.

Até 2100, a produção global de peixes deverá diminuir, afetando principalmente países com alta dependência de proteínas de origem aquática, como Portugal.

O relatório lembra que nos incêndios florestais de 2024, o país europeu perdeu 50 km² da floresta de laurisilva da Madeira, que faz parte das áreas protegidas da União Europeia.

Aumento da frequência de ciclones em Moçambique

O levantamento também aponta que o aumento da temperatura dos oceanos, de +0,3 a +1,5°C em torno da África nos últimos 30 anos levou à duplicação do número de ciclones que atingem o continente desde a década de 1970.

Essa mudança faz com que a frequência de ciclones tropicais que atingem a região central e norte de Moçambique esteja a aumentar.

As alterações climáticas também estão a agravar os problemas de disponibilidade de água em África, ameaçando a produção de alimentos e a geração de energia hidroelétrica.

A produção das principais centrais hidroelétricas do rio Zambeze, em África, poderá diminuir entre 10% e 20% em condições climáticas mais secas, o que levaria a um aumento de 20% a 30% nos custos da eletricidade a curto prazo nos países de Moçambique e Zâmbia, que dependem fortemente desta fonte de energia.

Caminho para gerar ganhos anuais substanciais

Os países costeiros da África Ocidental e Austral, incluindo Senegal, Nigéria e Angola, enfrentam erosão e aumento do nível do mar devido às suas costas baixas e lagunares. A situação é preocupante, pois muitos desses países possuem cidades costeiras em rápida expansão.

O relatório constata que investir num clima estável, natureza e terra saudáveis, e um planeta livre de poluição é o caminho para evitar esses impactos.

O levantamento estima que a transformação para uma modelo mais sustentável traria benefícios macroeconómicos a partir de 2050, que poderiam chegar a US$ 20 triliões por ano até 2070 e continuar a crescer.

Os autores propõem mudanças profundas em cinco áreas-chave: finanças, materiais e resíduos, energia, sistemas alimentares e meio ambiente. Felipe de Carvalho ONU News – Nações Unidas


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Europa - Investigadores alertam para elevada contaminação das ribeiras urbana europeias por fármacos

Um estudo internacional, liderado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), revelou uma contaminação generalizada por fármacos nas águas de ribeiras urbanas europeias, incluindo as de Coimbra. A investigação, publicada na revista Journal of Hazardous Materials, está integrada no projeto OneAquaHealth e analisou 102 ribeiras situadas nas cidades de Benevento (Itália), Coimbra (Portugal), Ghent (Bélgica), Toulouse (França) e Oslo (Noruega).


Os resultados deste estudo apontam para a presença de 16 fármacos pertencentes a seis grupos terapêuticos, detetados em 91% dos locais de amostragem. Misturas de fármacos foram encontradas em 79% dos pontos analisados.

«Entre os compostos mais frequentes destacam-se os irbesartan e bisoprolol (anti-hipertensores), bem como carbamazepina (anticonvulsivo), identificado em mais de metade das ribeiras urbanas. O paracetamol apresentou maiores concentrações, enquanto irbesartan, bisoprolol e fluoxetina atingiram níveis recorde face ao reportado anteriormente na literatura científica», revela Fernanda Rodrigues, estudante de doutoramento da FCTUC.

Em Coimbra, foram detetados 14 fármacos nas ribeiras urbanas, com destaque para carbamazepina, irbesartan, losartan, atenolol e venlafaxina. «Um dos locais de amostragem da cidade apresentou 70% dos compostos analisados. As concentrações mais elevadas correspondem aos anti-hipertensores irbesartan e atenolol. Embora menos frequentes, quatro dos sete antibióticos testados também foram encontrados nas águas coimbrãs, um dado particularmente preocupante face à crescente resistência antimicrobiana, considerada uma das mais graves ameaças à saúde pública global», alerta Maria João Feio, investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da FCTUC.

O estudo identificou diferenças estatísticas significativas entre os padrões de contaminação das cidades, com Coimbra e Oslo a apresentarem níveis mais baixos. No caso português, a presença de fármacos foi estatisticamente associada à condição morfológica e ecológica das ribeiras e ao grau de impermeabilização urbana. Segundo os investigadores, estes resultados demonstram que a poluição não depende apenas do consumo de medicamentos, mas também da qualidade ecológica e do estado de conservação dos ecossistemas ribeirinhos.

«Esta investigação evidencia a necessidade urgente de restaurar os ecossistemas de água doce e de implementar novas tecnologias de remoção de fármacos nas estações de tratamento de águas residuais. Estas medidas são essenciais para reduzir o impacto destes contaminantes nos rios e ribeiras urbanos e alinhar a gestão da água com os princípios da Saúde Única (One Health) – uma abordagem integrada que liga a saúde humana, animal e ambiental», concluem os especialistas.

O trabalho foi liderado por Fernanda Rodrigues e Maria João Feio, coordenadora do projeto OneAquaHealth, e contou com a participação de Ana R. Calapez, André Pereira, Liliana Silva, Janine Silva, Luísa Durães e Nuno Simões, com o envolvimento dos departamentos de Ciências da Vida, Engenharia Civil e Engenharia Química da FCTUC e da Faculdade de Farmácia. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Suíça - Vota serviço cívico e fim do serviço militar, ambos obrigatórios

Os eleitores votam em 30 de novembro um projeto de lei que substitui o atual serviço militar obrigatório por um serviço cívico universal, que inclui mulheres e pode abranger estrangeiros. A proposta, apoiada por partidos e organizações diversas, visa promover a igualdade de género


A Suíça está prestes a conduzir um debate de alcance nacional sobre o valor e o futuro do engajamento cívico. Submetida ao veredito das urnas em 30 de novembro, a iniciativa “Por uma Suíça engajada“, também chamada de iniciativa pelo serviço cidadão, propõe uma reforma profunda do serviço militar.

O que a iniciativa pede?

O texto exige que toda pessoa de nacionalidade suíça realize um serviço em benefício da coletividade e do meio ambiente. Diferentemente do sistema atual, essa obrigação também se aplica às mulheres. A iniciativa prevê ainda que o legislador possa estendê-la a pessoas não suíças.

Hoje, a obrigação de servir limita-se ao exército, à proteção civil e ao serviço civil. Os proponentes da iniciativa querem abrir o serviço a outras formas de contribuição à sociedade.

Esse serviço de milícia poderá ser realizado em diversas áreas. O comité da iniciativa cita alguns exemplos: proteção ao meio ambiente, assistência a pessoas vulneráveis, segurança alimentar e prevenção de desastres. Caberá às autoridades definirem as tarefas concretas, de acordo com as necessidades do país.

Este novo sistema pretende substituir o serviço militar como existe atualmente, que obriga os homens suíços a servirem no exército ou na proteção civil. Aqueles que recusam o serviço armado por motivos de consciência podem optar pelo serviço civil, que é mais longo e geralmente realizado nos setores social, de saúde ou ambiental. Os homens que não cumprem nenhuma dessas obrigações devem pagar uma taxa de isenção.

Quem está por trás dessa proposta?

A iniciativa foi lançada pela associação genebrina servicecitoyen.ch, fundada em 2013. Ela foi registada em 26 de outubro de 2023 com 107.613 assinaturas. O texto conta com o apoio do Partido Verde-Liberal, do Partido Evangélico, do Partido Pirata, dos Jovens do Centro, além de diversas associações.

Quais são os argumentos das defensoras e defensores da reforma?

As proponentes e os proponentes da iniciativa consideram que o sistema atual está ultrapassado e é desigual. Eles criticam o facto de que apenas os homens suíços estão sujeitos à obrigação de servir, enquanto mulheres e pessoas estrangeiras estão isentas.

O comité da iniciativa acredita que um serviço cidadão universal permitirá concretizar a igualdade de género, reforçar a coesão social e valorizar o engajamento cívico.

Aos olhos dos seus defensores, a reforma também poderá garantir os efetivos necessários para o exército e para a proteção civil, ampliando o pool de pessoas mobilizáveis.

O comité da iniciativa destaca ainda que o texto permitirá reconhecer formas civis de engajamento como equivalentes ao serviço militar, atendendo assim às necessidades crescentes em áreas como meio ambiente, saúde e ação social.

Qual é a posição do governo federal e do Parlamento?

O Conselho Federal (gabinete de sete ministros que governa a Suíça) e o Parlamento saúdam o objetivo da iniciativa, ou seja, o desejo de fortalecer o engajamento dos cidadãos suíços em prol da sociedade. No entanto, consideram que o serviço cidadão não constitui uma solução adequada.

O governo preocupa-se, sobretudo, em manter efetivos suficientes para o exército e para a proteção civil, que, segundo um estudo realizado em 2021, poderiam em breve deixar de ser assegurados. Contudo, considera que a iniciativa vai longe demais. Com o serviço cidadão, o Conselho Federal estima que quase 70 mil pessoas seriam mobilizadas a cada ano. No entanto, a necessidade real é de cerca de 30.400 pessoas obrigadas ao serviço civil por ano. Assim, o número de recrutados superaria amplamente a procura real.

Para o Conselho Federal, não seria igualmente prudente alocar tantas pessoas em tarefas que não correspondem às suas competências profissionais e para as quais estão menos qualificadas. O governo também alerta para os custos adicionais: as despesas anuais relacionadas ao subsídio por perda de ganho (APG, na sigla em francês) e ao seguro militar dobrariam, atingindo, respectivamente, 1,6 bilhão de francos e 320 milhões. O mercado de trabalho ficaria privado de duas vezes mais mão de obra do que atualmente, e os empregadores teriam de arcar com custos elevados para compensar as ausências.

Quem é contra a iniciativa?

Embora políticos de diferentes espectros apoiem o serviço cidadão, o texto não convence nenhum partido do governo. O Grupo por uma Suíça sem Exército também está entre os seus críticos.

Argumentos dos opositores

Os adversários da iniciativa apontam lacunas na implementação do texto. Perguntam, por exemplo, como garantir os efetivos do exército e da proteção civil, se as pessoas obrigadas a servir podem escolher em qual área cumprirão o seu serviço.

Os partidos de direita e centro temem impactos negativos na economia, enquanto a esquerda afirma que o serviço cidadão poderia ser assimilado a trabalho forçado, violando o direito internacional.

As opositoras e opositores também argumentam que a obrigação de servir para as mulheres não representaria um verdadeiro progresso em termos de igualdade, considerando que a equidade no mundo profissional e na sociedade ainda não é uma realidade. Isso poderia sobrecarregar ainda mais as mulheres, que já assumem grande parte do trabalho não remunerado. Samuel Jaberg – Suíça in “Swissinfo”


terça-feira, 26 de agosto de 2025

Suécia - Em conferência global, indígena brasileira faz apelo por proteção das águas

Uruba Pataxó participa em Estocolmo da Semana Mundial da Água, segundo ela, os rios estão a ser destruídos por mineradoras e empresas do agronegócio. A investigadora brasileira afirma que parcerias com os povos indígenas podem apoiar demarcação de terras


A Semana Mundial da Água chega à sua 35ª edição com o tema “água para a adaptação climática”. O evento, organizado pelo Instituto Internacional da Água de Estocolmo teve início no domingo e vai até esta quinta-feira, na capital da Suécia.

O encontro destaca a importância dos conhecimentos tradicionais e valores espirituais dos povos indígenas no manejo e proteção de rios, mares, manguezais e outros ecossistemas aquáticos.

Relação espiritual com a natureza

A vice cacique da aldeia Mãe Barra Velha, na Bahia, Uruba Pataxó, participou de um painel sobre liderança dos povos indígenas. Após a atividade, ela contou à ONU News, de Estocolmo, como o seu povo se relaciona com o meio ambiente.

“Para o povo indígena, a água é o nosso sangue, a terra, o nosso corpo, e a mata é o nosso espírito. Se a gente não cuidar da mãe natureza, nós não estamos a cuidar da gente”.

Ela ressalta que aqueles que destroem a natureza em troca de lucros não ameaçam apenas os povos indígenas, mas também a si mesmos, pois “estão a acabar com o ar que existe para respirar e com a água que sacia a sede.”

Uruba afirma que aqueles que agridem o meio ambiente acham que estão protegidos pelo dinheiro, mas não estão.

Crítica a projeto de lei

A líder indígena criticou a aprovação no Brasil do Projeto de Lei 2159/21 pelo Congresso do país.

“Foi o Congresso que aprovou a lei da devastação, que autoriza mineradoras, o agronegócio, o processamento dentro da terra indígena. As mineradoras jogam mercúrio e os seus resíduos que é para retirar o ouro, diamante, tudo dentro da água e está a matar o nosso povo, matando as nossas caça, matando o peixe de onde o nosso povo sobrevive”.

Aprovado em julho e sancionado pelo governo federal, com veto do presidente da República, em agosto, o texto voltou aos congressistas para consideração.

Uruba Pataxó afirmou que o povo Pataxó surgiu das águas e que vai sempre atuar para proteger esse recurso natural.

Parcerias para apoiar demarcação de territórios

Já a doutora em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela Universidade Federal de São Carlos, Márcia Camargo, que também participou do painel, abordou a importância da troca de conhecimentos entre povos indígenas e investigadores.

Ela destacou diversas parcerias que realiza com Uruba em pesquisas dentro do território Pataxó.

“Viemos fazer também um workshop, eu e Uruba, sobre o genoma da terra, extração do genoma e do DNA, tanto de solo como da água. E como a gente pode usar isso também como ferramenta para defesa e para demarcação, para ajudar no processo de demarcação do território. Então, são várias trocas de conhecimentos que são importantíssimos hoje em dia”.

Márcia Camargo enfatizou que o evento em Estocolmo serve também para abrir novos espaços de “captação de recursos pra que projetos elaborados pelas lideranças indígenas sejam apoiados e financiados”

A Semana Mundial da Água é a principal conferência sobre questões globais relacionadas à água, realizada todos os anos desde 1991. Felipe de Carvalho – ONU News Nações Unidas


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Moçambique - Mais 5 mil tipos de sementes de plantas silvestres salvas da extinção no país

Pouco mais de 5 mil sementes entre agrícolas e silvestres estão conservadas no banco de sementes do país. Assim, o Instituto de Investigação Agrária pretende garantir a continuidade de plantas ameaçadas mesmo depois de extintas na natureza.

Plantas silvestres são constantemente ameaçadas por actividades como abate frequente de árvores para uso de biocombustíveis para cozinhar alimentos e não só, bem como pelas alterações climáticas, o que põe em risco a flora moçambicana.

Pensando nisso, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique colecta sementes de plantas em risco de desaparecer na natureza e as conserva em laboratórios como este que existem nas três regiões do país. A missão é garantir o futuro ambiental e alimentar.

Actualmente, existem mais de cinco mil sementes agrícolas e silvestres conservadas no banco de sementes do país. Assim, o Instituto de Investigação Agrária pretende garantir a continuidade de plantas ameaçadas mesmo depois de extintas na natureza, explicou a Directora do IIAM, Zélia Menete.

Tratam-se de plantas com teor medicinal, algumas até comestíveis e outras florestas que são salvas da extinção para o futuro. As sementes poderão ser usadas para reflorestação de áreas onde dada espécie tenha desaparecido.

No fim, o projecto prevê colectar e conservar pouco mais de mil tipos de sementes em todo o país, que vão servir para reflorestar garantindo a continuidade de plantas silvestres e algumas agrícolas que servem de alimento para as comunidades. Regina Ernesto – Moçambique in “O País”


sexta-feira, 4 de abril de 2025

Portugal - É pioneiro na Europa em travar mineração no fundo do mar

O país acaba de aprovar lei que estabelece moratória sobre a atividade mineira em águas profundas, devido aos riscos que a extração de minérios com maquinaria pesada representa para os ecossistemas e pesca



Portugal deu um passo determinante na proteção dos oceanos ao aprovar a primeira lei europeia que estabelece uma moratória sobre a mineração no fundo do mar.

A medida, que proíbe a exploração de minérios em águas profundas até 2050, responde às preocupações ambientais e às reivindicações de cientistas e organizações de defesa dos oceanos.

Em letra de lei

A aprovação desta legislação coloca Portugal na vanguarda da proteção marinha, numa altura em que a comunidade internacional debate os impactos da mineração submarina nos ecossistemas.

Tiago Pitta e Cunha, presidente da Comissão Executiva da Fundação Oceano Azul, destacou a importância da decisão. "Portugal é o primeiro país a aprovar em letra de lei, ou seja, é a primeira lei europeia que estipula uma moratória até 2050 para a exploração mineira. Isso é relevante também porque a lei tem um grau hierárquico mais relevante, superior, à da resolução parlamentar. Ou seja, uma lei só pode ser alterada por outra lei", afirmou em entrevista à ONU News.

A promulgação da lei pelo Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, garante que a posição do país sobre a mineração submarina não poderá ser revertida sem novo debate parlamentar.

"Portugal está neste momento numa crise política, vai haver eleições, e eu tenho a certeza que o próximo governo, seja ele qual for, não vai poder mudar a posição do país relativamente à moratória para a mineração submarina, porque ela só pode ser alterada por lei do parlamento", explicou Pitta e Cunha. Ele destacou ainda que essa estabilidade legislativa é crucial, uma vez que Portugal teve três governos nos últimos três anos.

O que acontece no mar não fica no mar

Os riscos ambientais da mineração em alto-mar estão amplamente estudados e identificados. Estudos científicos indicam que o fundo do mar desempenha um papel fundamental na regulação do clima e na absorção de carbono.

"O que acontece no fundo do mar não fica no fundo do mar, tem repercussões negativas não apenas na coluna de água, mas em todo o sistema oceânico", alerta Pitta e Cunha.

A exploração mineral pode causar distúrbios significativos nos sedimentos marinhos, que acumulam calor e ajudam a regular o aquecimento global. Além disso, perturbar essas camadas pode libertar grandes quantidades de carbono armazenado, agravando ainda mais a crise climática.

Contaminação na pesca

A contaminação da coluna de água também representa uma preocupação para a pesca e para a segurança alimentar. "Para além do distúrbio dos sedimentos do fundo e do desaparecimento da biodiversidade, há uma pluma de sedimentos que contamina a coluna de água de uma forma absolutamente gigante”, afetando 20% da proteína que os humanos consomem no planeta.

Portugal na defesa dos oceanos

Portugal tem-se destacado internacionalmente na defesa dos oceanos. "Portugal realizou a maior conferência sobre oceanos do planeta, a Conferência da ONU em 2022, em que foi coanfitrião com o Quénia, uma conferência que impulsionou um grande progresso da agenda multilateral do oceano", explicou Pitta e Cunha. Segundo presidente da Comissão Executiva da Fundação Oceano Azul, nos últimos três anos tomaram-se mais decisões sobre a proteção marinha do que nos trinta anos anteriores.

Apesar deste avanço, Portugal ainda enfrenta desafios na formulação de uma política externa para os oceanos. "Portugal não tem uma verdadeira política externa para o oceano, e sem isso, Portugal não tem os mecanismos para influenciar decisões de outros estados-membros", alertou Pitta e Cunha.

Mesmo assim, o especialista defende que a nova lei fortalece a posição do país como um líder global na proteção dos oceanos, podendo incentivar outras nações a adotar medidas semelhantes.

Impacto internacional

A decisão portuguesa gera impacto nas discussões internacionais, especialmente no âmbito da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), organismo da ONU responsável pela regulamentação da mineração submarina em águas internacionais.

A ISA tem sido pressionada por governos, cientistas e organizações ambientais para impor uma moratória global à mineração no fundo do mar, mas enfrenta resistência de alguns países e empresas interessadas na exploração desses recursos.

A posição de Portugal pode fortalecer esse movimento e contribuir para um debate mais amplo sobre a necessidade de proteger os ecossistemas marinhos. Sara Rocha – Portugal ONU News


sábado, 22 de fevereiro de 2025

Cabo Verde - Princezito lança música e videoclipe de “Garça Vermelha”

O cantor e compositor Princezito lançou, na semana passada, a música e o videoclipe de “Garça Vermelha”. Trata-se de um tema sobre uma espécie existente na ilha de Santiago, cuja preservação tem sido trabalhada pela Associação Lantuna

Em entrevista ao Expresso das Ilhas, o biólogo marinho da Associação Lantuna, Samir Martins, explica que a música foi escrita por Princezito com base em algumas informações fornecidas pela associação.

“Falamos das ameaças às garças-vermelhas e das acções que podemos tomar para a sua preservação. Explicamos o que é a Garça Vermelha, sua ecologia, por exemplo, o que ela vem, bebe e onde está localizado”, destaca.

A partir destas informações, o cantor compôs uma letra com o objectivo de consciencializar as pessoas sobre o que deve e o que não deve ser feito para preservar esta espécie.

“É uma espécie ameaçada que existe apenas na ilha de Santiago. E, por estar restrito a uma única ilha, qualquer impacto local pode colocar a sua existência em risco. Por isso, há uma necessidade urgente de preservá-la”, afirma.

Conforme explicado, o objectivo da música é sensibilizar para a preservação da espécie, levando as pessoas a conhecerem melhor a Garça Vermelha e despertando a atenção para outras espécies igualmente vulneráveis. “Cabo Verde, por ser um arquipélago, sofre com diversas ameaças, como as alterações climáticas e o aumento da temperatura do mar, tornando a sua biodiversidade ainda mais frágil”, alerta.

“Esta música soma-se a um conjunto de acções que estamos a desenvolver para consciencializar a população sobre a necessidade de preservar e conhecer melhor a nossa biodiversidade. Caso contrário, no futuro, essas espécies poderão desaparecer sem que as pessoas sequer conheçam”, acrescenta.

A música já está disponível nas plataformas digitais e está sendo reproduzida nas rádios.

A Lantuna é uma Associação Não Governamental que actua na conservação do meio ambiente e no desenvolvimento sustentável em Cabo Verde. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Açores - Catarina Andrade transformou, na Irlanda, a saudade da sua terra em cosmética sustentável

Catarina Nascimento Andrade é a prova viva de como as raízes açorianas podem inspirar grandes projetos. Natural da ilha do Corvo, a mais pequena do arquipélago dos Açores, a jovem abraçou o mundo ao viver na Irlanda durante seis anos. No entanto, o chamamento das suas origens a trouxe de volta a Portugal, onde fundou a Sazorea, uma marca de cosmética sustentável que valoriza os recursos naturais dos Açores. Com dedicação e resiliência, Catarina transformou a saudade em inovação, criando um projeto que não só respeita a essência açoriana, mas também coloca as ilhas no mapa global da cosmética ética. O Bom Dia falou com a jovem empreendedora e partilha agora o seu interessante percurso que a levou a criar a Sazorea, abordando os desafios de empreender em Portugal e as lições aprendidas no regresso às suas origens



Para Catarina, a experiência de crescer na ilha do Corvo foi única, por ter sido uma vivência “tranquila e intimista” num lugar onde todos se conhecem e as relações interpessoais são muito próximas. “O isolamento geográfico do arquipélago faz com que nós, os açorianos, desenvolvêssemos um espírito de resistência, resiliência e autossuficiência, mas também de grande hospitalidade e união comunitária”, afirma Catarina. A ilha, com a sua paz e contacto direto com a natureza, proporcionou-lhe uma sensação de pertença e valores comunitários que marcaram a sua visão de vida e negócio.

O início

A ideia de criar a Sazorea surgiu do desejo de Catarina de representar os Açores e a sua cultura no mercado global da cosmética. O nome, o packaging e os ingredientes (criptoméria japónica, laurus azorica, gerânio, funcho e camellia japonica) da marca foram pensados para refletir a sua “açorianidade” e a proximidade com o mar. “Queria que tudo na marca fosse sobre os Açores, desde o nome, o packaging e os ingredientes”, explica a empreendedora, que viu na sua terra natal uma fonte de inspiração.

A experiência no estrangeiro

Catarina viveu na Irlanda entre 2015 e 2021, uma experiência que, apesar de difícil na adaptação, lhe permitiu ver os Açores sob uma nova perspetiva. “Saí de Portugal porque estava recém-formada e não conseguia encontrar emprego no nosso país”, recorda. Durante os anos na Irlanda, percebeu o valor das suas raízes: “quando estamos longe, aprendemos a valorizar mais o que é nosso”. A açoriana, formada em fisiologia cardíaca, trabalhou em hospitais, mas acabou por se sentir infeliz e desmotivada. Foi nesse momento que notou uma mudança drástica na sua pele, que se tornou seca, sem brilho e desequilibrada. Esse contexto levou-a a estudar cosmética e a criar fórmulas para cuidar da saúde da sua pele. Sem saber, em 2018, começou a dar os primeiros passos para a criação da sua marca.

Entretanto, obteve uma certificação como formuladora orgânica na Formula Botânica, uma escola do Reino Unido. Posteriormente, fez uma pós-graduação em Cosmetologia Avançada e, mais tarde, concluiu um mestrado em Ciências e Dermofarmácia.

Deixar tudo para trás

A perda repentina da sua avó e, um ano depois, do seu avô, fez com que Catarina questionasse toda a sua vida. “Tudo era demasiado breve. Estes acontecimentos devastadores foram a chama que acendeu de novo a minha paixão adormecida, fez perder o medo de sair da zona de conforto e perceber que a vida deveria ser sobre quem queremos ser e seguir a nossa intuição”. Era hora de voltar aos Açores para seguir o seu sonho.

Disciplina e resiliência

Criar a Sazorea não foi tarefa fácil. Catarina teve de conciliar os estudos em cosmética, o trabalho no hospital (na Irlanda) e o desenvolvimento da sua marca, um equilíbrio exigente que a obrigou a desenvolver a sua capacidade de gestão. “Foram tempos muito exigentes e que me obrigaram a ter muita disciplina e resiliência e, acima de tudo, a nunca perder o foco.” Os desafios ao iniciar o negócio foram muitos, incluindo a burocracia e a procura por financiamentos e parceiros. A escolha de ingredientes exclusivamente açorianos também representou um desafio. Catarina procurou produtores locais que pudessem fornecer os extratos naturais desejados, garantindo sempre a sustentabilidade na exploração dos recursos. “Estudando as plantas e percebendo o que poderíamos extrair de cada uma, foi só uma questão de encontrar os produtores que nos pudessem fornecer os extratos que queríamos”, sublinha.

Compromisso com o meio ambiente

A Sazorea é uma marca que coloca a sustentabilidade como um valor central. Catarina explica que o conceito da marca é minimalista, visando evitar o desperdício e concentrar o máximo benefício em cada produto. “Adotamos um conceito minimalista de skincare, que evita o desperdício de produtos e excesso dos mesmos.” Além disso, as embalagens são recicláveis e feitas com materiais reciclados, e a marca ainda colabora com a One Tree Planted, plantando uma árvore para cada produto vendido.

Para a empreendedora, o conceito de “clean beauty” vai além dos produtos: “Somos completamente próximos da nossa comunidade e transparentes sobre os nossos ingredientes e as nossas práticas. A nossa principal preocupação é enfatizar o cuidado com a pele e a saúde.”

Reconhecimento nacional e internacional

O produto mais popular da Sazorea é o sérum regenerador “The Wonder Complexion”, que tem conquistado os consumidores. Catarina e a sua equipa encontram-se a trabalhar em novos produtos. Para já, o feedback dos consumidores tem sido muito positivo: “O feedback que nos chega dos açorianos é de orgulho ao ver uma marca de skincare ter origem nas ilhas e estar a fazer sucesso nacional e também já internacional.”

Próximos passos

Os próximos passos para a Sazorea incluem afirmar-se no mercado de cosmética de nicho em Portugal e consolidar a sua expansão internacional. Catarina acredita que a marca pode tornar-se um “símbolo dos Açores” no mundo, associando o nome da marca à identidade açoriana. “Gostava muito que ficasse na história como a marca mais internacional com origem nos Açores”, assume.

Inspiração e conselhos

A jovem encontra inspiração nos Açores e nos seus avós, que sempre lhe incutiram os valores de autenticidade, transparência e superação. “Os meus avós sempre me fizeram acreditar que somos capazes de criar a nossa própria história.” Para aqueles que desejam empreender, especialmente aqueles ligados às suas raízes, Catarina deixa um conselho claro: “Se em algum momento tiverem uma ideia da qual não conseguem desistir de pensar, para seguirem o vosso instinto. Deus não coloca sonhos na nossa vida que não consigamos realizar.” A açoriana reforça ainda que, apesar das dificuldades e dos momentos solitários, o mais importante é manter o foco no objetivo e nunca desistir. “Se queremos viver o melhor do negócio, é com o pior que nos moldamos.”

Para a comunidade portuguesa no estrangeiro que pensa em voltar às suas origens para empreender, Catarina deixa uma mensagem de confiança. “Que o façam. Em Portugal temos capacidade para criar, inovar e produzir com qualidade.” O exemplo de Catarina é um testemunho de como as raízes podem ser uma fonte poderosa de inspiração para quem deseja criar algo único e bem-sucedido. Fabiana Bravo – Portugal in “Bom dia Europa”


quinta-feira, 11 de julho de 2024

Turquia – Jovens criam soluções na agricultura para combater as alterações climáticas

Estes adolescentes da Turquia são os finalistas do Prémio Terra pela sua solução rápida e barata para a quebra de colheitas


“A minha comunidade é a minha inspiração”, diz Beyza, de 17 anos, vice-campeã do The Earth Prize.

“Na Turquia, estamos a viver os efeitos das alterações climáticas. Esta região era a Mesopotâmia, onde a agricultura e a civilização nasceram, mas agora as pessoas estão a lutar contra as alterações climáticas e a seca.”

Enquanto muitos jovens marcham para exigir ações climáticas, Beyza alavancou a sua mente científica ao desenvolver uma “solução de cultivo alimentada por plasma que desafia a seca”.

“Não é bom assistir quando os grandes governos conseguem resolver estes problemas, mas estamos a tentar fazer isso e não eles”, diz Diyar, de 18 anos, que está a trabalhar no projeto com Beyza.

“E já que não somos capazes de mudar o clima - o problema em si - estamos a tentar resolver os efeitos dele. Acho que se este problema recebesse atenção suficiente de autoridades muito maiores, ele poderia ser resolvido - essa é a parte com a qual as pessoas estão com raiva.”

Junto com os seus colegas inventores da Equipe Ceres, eles inscreveram a sua solução no The Earth Prize, uma competição global de sustentabilidade ambiental para estudantes que fornece orientação e financiamento para ideias vencedoras.

Enquanto Beyza tira o protótipo ' Plantzma ' do guarda-roupa do quarto e o explica numa videochamada, fica claro que eles não são adolescentes comuns.

Como o plasma pode ajudar os agricultores a lutar contra as alterações climáticas?

“A nossa ideia para o Plantzma surgiu dos desafios agrícolas que observamos na nossa comunidade e família”, diz Beyza.

“Muitas pessoas que conhecemos trabalham na agricultura, já que a nossa região tem acesso limitado a recursos como a educação, e elas enfrentam problemas significativos devido à seca e à quebra de colheita - houve um declínio de 40% nas taxas de precipitação, levando a uma perda de 80% nas colheitas.”

A probabilidade de quebra de colheitas deverá ser até 4,5 vezes maior globalmente até 2030, e 25 vezes maior até 2050, de acordo com o Fórum Económico Mundial.

Isso não só afeta os meios de subsistência e a segurança alimentar dos agricultores, como também leva ao uso excessivo de fertilizantes, o que piora o problema por meio da poluição e da degradação do solo.

Beyza e a sua equipa decidiram resolver estes problemas com o Plantzma: um dispositivo fácil de usar que utiliza plasma para criar culturas mais resistentes e enriquecer a água de irrigação.

Com o preço de €176, um único dispositivo pode evitar perdas de colheitas em até 60% e reduzir o uso de fertilizantes caros em até 40%, estima a Equipa Ceres.

“Então, quando entrevistamos os agricultores, eles ficaram felizes em ouvir sobre este produto”, diz Beyza. “Ele pode ser usado clicando apenas em dois ou três botões.”

O que é exatamente o plasma?

Plasma — o quarto estado da matéria, além do sólido, líquido e gasoso — “é essencialmente ar ionizado supercarregado”, explica Diyar.

As suas partículas superaquecidas têm tanta energia que os eletrões se separam dos seus átomos. Ao contrário do gás, conduz eletricidade facilmente.

Raro na Terra, mas abundante no Espaço, o plasma requer três coisas para ser criado: um gás como o ar, um sistema de descarga com elétrodos e um sistema de voltagem, explica Beyza.

A sua jornada com plasma é uma prova da sua curiosidade científica além da sala de aula.

“Pensei em usar plasma porque eu gostava de exoplanetas”, ela relembra. “Então eu estava a ler muito os artigos da NASA, e a NASA tem muito trabalho sobre plasma e a sua ampla gama de usos.”

O dispositivo Plantzma usa plasma de baixa temperatura de duas maneiras.

“No tratamento direto, tratamos as sementes num recipiente com plasma antes do cultivo, melhorando a taxa de germinação e o potencial de crescimento desde o início, criando nanofissuras na superfície dessas sementes, e isso aumenta a resistência a doenças, seca e outros problemas ambientais”, explica Diyar.

“No tratamento indireto, tratamos a água de irrigação com plasma, enriquecendo as suas propriedades para beneficiar o crescimento das plantas, e esse processo transforma a água num fertilizante de plasma [ecológico e enriquecido com nitrogénio] que fornece nutrientes essenciais para a planta e estimula frutas e vegetais.”

'Quero trabalhar na ONU, esse é meu sonho'

A equipa Ceres quer que a sua tecnologia de plasma se torne o mais acessível possível, para que possa ser dimensionada e usada em comunidades rurais.

“A solução pode ser implementada em qualquer lugar do mundo onde a agricultura seja [prevalente], incluindo muitos lugares que não têm acesso a tecnologias modernas”, diz Beyza.

Para que isso se torne realidade, eles estão a tentar levantar fundos para promover a ideia e, eventualmente, expandi-la internacionalmente.

Enquanto Diyar se forma em engenharia elétrica na NYU Abu Dhabi, Beyza espera em breve estudar engenharia ambiental e ciência política na universidade.

“Sinto raiva sobre a alteração climática porque, como sabe, não está relacionada apenas ao meio ambiente, está principalmente relacionada à economia ... e estou com raiva do futuro, pensando: 'Os nossos recursos hídricos são suficientes para nós? E seremos capazes de mitigar os efeitos da alteração climática na nossa região?'”, pergunta ela.

“Quero trabalhar na ONU, esse é meu sonho… Vejo que há uma falta de políticas ambientais em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento… [onde] as alterações climáticas são um verdadeiro desafio.

“Então, quando inventamos algo, torná-lo realmente acessível e mudar as políticas ambientais é realmente importante para essas comunidades vulneráveis.” Euronews.green