Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre como o cancro do estômago convence a gordura a alimentá-lo

Estudo abre caminho ao desenvolvimento de terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células tumorais e as células do tecido adiposo


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova forma de comunicação entre as células do cancro do estômago e as células do tecido adiposo, isto é, as células de gordura. Os resultados do estudo, publicados na revista Extracellular Vesicles and Circulating Nucleic Acids, mostram como esta interação pode ser responsável pelo fornecimento de energia às células tumorais, favorecendo a progressão da doença.

“Sabe-se que as células cancerígenas comunicam constantemente com os tecidos à sua volta, criando condições que favorecem o desenvolvimento da doença”, explica Celso Reis, coordenador do grupo de investigação do i3S Glycobiology in Cancer. No entanto, existem ainda muitas perguntas por responder sobre como essa comunicação acontece.

Neste estudo, os investigadores analisaram células de cancro do estômago que apresentam à superfície uma molécula de açúcar chamada sialyl-Tn (STn), frequentemente encontrada em tumores mais agressivos. “Verificámos que estas células libertam pequenas partículas, conhecidas como vesículas extracelulares, que funcionam como «mensagens» enviadas para outras células do organismo”, refere Daniela Freitas, investigadora do i3S e coordenadora do estudo. Quando estas partículas chegam às células de gordura, provocam alterações no seu funcionamento. Como resultado, o tecido adiposo começa a libertar mais ácidos gordos, moléculas ricas em energia que podem ser aproveitadas pelas células tumorais.

“Observámos que as células cancerígenas conseguem adaptar-se para utilizar essa gordura como combustível. Ao terem acesso a esta fonte adicional de energia, tornam-se mais móveis e podem ganhar uma maior capacidade de invadir os tecidos vizinhos”, sublinha Cátia Ramos, primeira autora do estudo.

O trabalho identificou ainda a molécula STn como um elemento central neste processo de comunicação. Esta descoberta, garantem os investigadores do i3S, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novas terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células cancerígenas e as células de gordura, dificultando o acesso do tumor a esta fonte de energia.

Além do seu potencial impacto no controlo da progressão do cancro, esta investigação poderá também contribuir para combater problemas frequentemente associados à doença, como a perda acentuada de peso, de massa muscular e de gordura corporal, afetando de forma significativa a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes com cancro.

Ao revelar esta nova forma de interação entre o tumor e os tecidos que o rodeiam, o trabalho do i3S reforça a importância de compreender não apenas as células cancerígenas, mas também o ambiente em que estas se desenvolvem. Universidade do Porto - Portugal

 


sábado, 18 de julho de 2026

Suíça - Redes familiares facilitam integração dos portugueses no cantão de Zurique

As redes familiares e de amizade continuam a desempenhar um papel determinante na integração dos portugueses que se estabelecem no cantão de Zurique, na Suíça. A conclusão é do estudo publicado no capítulo “Os novos migrantes portugueses no cantão de Zurique: integração, redes e experiência vivida” que faz parte da obra “Integração e Regresso na Emigração Portuguesa”, do Observatório da Emigração


A investigação realizada por Maria Carolina Pinto (emigrante residente em Zurique) indica que a integração é um processo “não linear” e profundamente influenciado por fatores relacionais, estruturais e individuais. O estudo conclui que o apoio de familiares e amigos é decisivo, sobretudo nos primeiros tempos, ajudando os emigrantes a encontrar habitação, emprego, a ultrapassar barreiras administrativas e linguísticas e a adaptar-se à nova realidade.

“No contexto suíço, em particular no cantão de Zurique, as redes migratórias revelam-se determinantes na instalação dos migrantes portugueses. Atuam como mecanismos de mobilização de recursos, ajudando a mitigar as dificuldades iniciais. No entanto, a forte presença de redes intranacionais pode ter efeitos ambivalentes se, por um lado, facilitam a adaptação nos primeiros tempos, por outro, tendem a restringir o acesso a contextos de inserção mais amplos e a oportunidades de integração plena”, lê-se no referido estudo.

Os dados mostram que cerca de 66% dos participantes viveram inicialmente com familiares ou com o cônjuge quando chegaram ao cantão de Zurique, enquanto 58% emigraram já com uma oferta de emprego garantida. Além disso, 80,1% referiram não ter tido dificuldades em encontrar alojamento e 83,7% conseguiram aceder rapidamente ao seguro de saúde obrigatório, fatores que contribuíram para uma instalação mais estável.

A autora conclui que estas redes informais funcionam como uma verdadeira estrutura de acolhimento. Para além do apoio emocional, facilitam o acesso a informação, ao mercado de trabalho e aos serviços essenciais, assumindo muitas vezes um papel mais relevante do que as próprias instituições formais.

O estudo baseou-se numa metodologia mista, que combinou um questionário feito a 361 portugueses residentes no cantão de Zurique com entrevistas autobiográficas e semiestruturadas, permitindo analisar não só indicadores objetivos de integração, como o emprego e a habitação, mas também a forma como os próprios emigrantes avaliam o seu percurso.

Um dos aspetos relevantes da investigação prende-se com o tipo de apoio considerado mais importante pelos emigrantes no processo de integração. Os contactos com colegas suíços surgem em primeiro lugar, sendo considerados importantes ou muito importantes por 62,1% dos inquiridos, seguindo-se as redes de familiares e amigos portugueses (60,2%). Já os grupos de emigrantes nas redes sociais, como o Facebook, são valorizados por 32,3% dos participantes. Em sentido inverso, as associações portuguesas e as instituições públicas, tanto portuguesas como suíças, foram percecionadas pela maioria dos inquiridos como tendo um papel menos relevante no apoio direto ao percurso de integração.

Outro dado que se destaca é o perfil dos novos emigrantes portugueses. Mais de metade dos inquiridos (53,5%) possui formação superior, contrariando a imagem tradicional de uma emigração pouco qualificada. A maioria tem entre 30 e 39 anos, encontra-se em idade ativa e desenvolve projetos de permanência de médio e longo prazo na Suíça.

Apesar da avaliação globalmente positiva do processo de integração, a investigação identifica desafios que persistem. O domínio da língua alemã, a construção de relações de proximidade com a sociedade de acolhimento e alguns sentimentos de distância simbólica continuam a marcar a experiência de muitos portugueses residentes em Zurique.

Segundo a autora, a integração deve ser entendida como um processo dinâmico e multidimensional, que não depende apenas do esforço individual dos emigrantes, mas também das políticas públicas, das instituições e das redes de apoio existentes na sociedade de acolhimento.

A obra “Integração e Regresso na Emigração Portuguesa” é o segundo volume da coleção “Estado da Emigração” e apresenta sínteses de resultados de cinco teses de doutoramento recentes, efetuadas entre 2018 e 2023, centrando-se em duas dimensões fundamentais da experiência migratória: a integração nos países de destino e o regresso a Portugal. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo



 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Macau - ‘Kaifong’ defendem zona sino-portuguesa para dinamizar negócios no ZAPE

Um estudo desenvolvido pelo Centro da Política da Sabedoria Colectiva, ligado aos ‘Kaifong’, abordou soluções para a transformação do ZAPE. Segundo o estudo, os investigadores defendem a criação de uma “zona de experimentação da cultura sino-portuguesa” no sul do ZAPE, onde o público possa passar numa “rua de estilo da cultura portuguesa”


O Centro da Política da Sabedoria Colectiva, associado à União Geral das Associações dos Moradores de Macau (‘Kaifong’), promoveu um estudo com o intuito de identificar medidas para impulsionar a transformação do ZAPE e injectar dinamismo na respectiva economia comunitária. Segundo o Centro, o estudo visa “dar impulso à reconfiguração das funções do ZAPE e à transformação da economia comunitária”.

Segundo os ‘Kaifong’, os autores do estudo consideram que alguns terrenos desaproveitados no sul do ZAPE à beira-mar poderiam ser aproveitados para acolher uma “zona de experimentação da cultura sino-portuguesa”, tirando partido da localização geográfica e paisagem natural da área costeira no sul do ZAPE e tomando como referência o modelo de remodelação da Rua Fremont em Las Vegas. Isso incluiria a criação de uma “rua de estilo da cultura portuguesa”, virada para os turistas e visitantes de lazer, refere o documento.

Além disso, citado pelo Canal Macau da TDM, Leong Hong Sai, subdirector do Centro da Política da Sabedoria Colectiva, sugeriu a introdução de réplicas de alguns monumentos de Portugal nessa zona, como a Torre de Belém e pontos turísticos do bairro de Alfama, bem como o recurso a tecnologia interactiva de realidade virtual. O também deputado sugeriu ainda a abertura no ZAPE um hotel focado no tema de Portugal e um pavilhão para exposições sobre a cultura portuguesa.

Por outro lado, Leong Hong Sai propôs uma zona de espectáculos musicais na zona da beira-mar e um mercado de gastronomia, aberto durante a noite, além da realização de alguns mercados com produtos criativos e culturais.

Segundo o resumo divulgado pelos ‘Kaifong’, de um modo geral, o estudo defende a redefinição das funções e do posicionamento do ZAPE, para o transformar gradualmente numa zona multifuncional onde se possa encontrar serviços comerciais, consumo comunitário, experiências culturais e turísticas e elementos da economia nocturna. Neste ponto, destaca a importância de optimizar o sistema pedonal e acrescentar mapas de orientação multilingues que sejam explícitos, para reforçar a acessibilidade entre o ZAPE, a zona da Praia Grande e os pontos turísticos circundantes.

Em relação às áreas no centro e norte do ZAPE, o Centro da Sabedoria mostra-se favorável à criação de uma “área central para os assuntos governamentais e comerciais”, através do aproveitamento dos escritórios e hotéis existentes no centro e no norte desta parte da cidade.

Ao mesmo tempo, defende que as autoridades devem recorrer a instituições profissionais para prestarem formação e “serviços de diagnóstico caso a caso” às pequenas e médias empresas na zona, ajudando-as a reforçar as capacidades de atrair clientes, transformar a clientela no volume económico e impulsionar novas compras entre os turistas. Nesse aspecto, propõe, inclusive, a criação de uma “aliança de comerciantes do ZAPE”.

Ademais, os ‘Kaifong’ apelam à aceleração do planeamento da Linha Sul do Metro Ligeiro, com vista a facilitar o acesso à zona, assim como o reforço da articulação entre a Doca dos Pescadores, Centro Cultural, Centro de Ciência e Universidade Politécnica com os recursos culturais e turísticos na San Ma Lou e na Praia Grande. Em termos de instalações complementares, sugerem mais instalações de arte públicas, mais assentos para descanso, a actualização da cobertura do “wi-fi” e apoios ou subsídios que orientem os comerciantes a prolongar o horário de operações nocturnas dos seus estabelecimentos.

O estudo adverte ainda que, desde o encerramento dos casinos-satélite na zona no final de 2025, a economia comunitária continua a enfrentar um cenário marcado pela falta da força motriz no consumo interno, embora as medidas de incentivo ao consumo lançadas pelas autoridades tenham contribuído, a curto prazo, para um maior fluxo de pessoas na zona. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre função “escondida” do ADN associada a doença neurodegenerativa

A ataxia espinocerebelosa tipo 37 é uma doença neurodegenerativa genética rara, cujos sintomas se assemelham aos da doença de Machado-Joseph


Apenas uma pequena parte do nosso ADN (cerca de 2%) contém instruções para a produção de proteínas. Durante muitos anos, pensou-se que os restantes 98% não tinham qualquer função e, por isso, foram considerados «junk DNA» (ADN lixo, em português). Hoje, porém, sabe-se que isto não é verdade, embora muito deste ADN permaneça ainda um mistério. Uma equipa de cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, liderada por Isabel Silveira e José Bessa, tem tentado desvendá-lo, descobrindo recentemente que uma pequena região deste ADN controla a atividade do gene DAB1, essencial para o desenvolvimento e para o funcionamento do cérebro.

O trabalho, agora publicado na revista Cell Reports, revela que esta região não codificante do genoma funciona como um elemento regulador chamado enhancer, o qual controla a ativação do gene DAB1 nas células nervosas. “Este gene faz parte de um sistema que ajuda os neurónios a encontrar o seu lugar no cérebro e a formar ligações corretas entre si”, explica a investigadora Isabel Silveira.

Os cientistas demonstraram, assim, que, na ataxia espinocerebelosa tipo 37 (SCA37), uma doença degenerativa hereditária rara, ocorre o aparecimento anormal de uma pequena sequência de ADN que se repete várias vezes [A, T, T, T, C] precisamente neste enhancer. Longe de ser uma alteração neutra, esta mutação faz com que o gene fique demasiado ativo, levando a uma produção excessiva de DAB1 nos neurónios, com efeitos prejudiciais para a saúde.

Para perceber o impacto desta alteração, a equipa recorreu a diferentes modelos experimentais. “Em células do sistema nervoso de doentes com esta ataxia, obtidas em laboratório, observámos níveis significativamente mais elevados do gene DAB1. Em paralelo, em embriões de peixe-zebra, verificámos que o aumento deste gene afeta o crescimento e a direção dos axónios, estruturas essenciais para a comunicação entre neurónios”, conta Joana Loureiro, primeira autora do estudo. Estas alterações ajudam a explicar as dificuldades motoras características da doença, como a perda de equilíbrio, coordenação motora e fala.

O estudo mostra ainda que esta mutação atua através de um mecanismo particularmente complexo. “Por um lado, altera a forma como o ADN controla a atividade dos genes. Por outro lado, a sequência repetitiva gera moléculas anormais que se acumulam nas células e interferem com o funcionamento normal de proteínas importantes”, acrescenta Isabel Silveira.

Além do aumento de DAB1, os investigadores identificaram alterações na atividade de vários outros genes envolvidos em funções essenciais do sistema nervoso. “Estes efeitos em cadeia poderão ajudar a explicar a sobreposição de sintomas entre esta ataxia e outras doenças neurológicas, como a Doença de Machado-Joseph”, sublinha a investigadora do i3S.

Outro aspeto relevante deste trabalho é a importância das sequências repetitivas do genoma humano. “Durante décadas, estes elementos foram considerados sem função, mas agora acredita-se que podem desempenhar papéis reguladores importantes. Quando alterados, como neste caso, podem contribuir diretamente para o desenvolvimento de doença”, conclui o investigador José Bessa.

Este estudo abre novas perspetivas na compreensão de doenças genéticas associadas ao aumento do número de repetições de pequenas sequências de ADN e destaca a importância de olhar para além dos genes propriamente ditos, explorando também as regiões que controlam a sua atividade. No futuro, este conhecimento poderá contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais direcionadas e eficazes. Universidade do Porto - Portugal


Portugal – O potencial biotecnológico oculto do Gastrópode Vermetídeo Vermetus Triquetrus: novas perspectivas sobre um recurso marinho inexplorado

Os investigadores do IPMA, IP, André Breves, Carlos Cardoso, Cláudia Afonso, Joana Matos, Jorge Lobo-Arteaga, Cátia Bartilotti, Sabrina Sales, Sónia Pedro e Narcisa M. Bandarra publicaram um artigo pioneiro sobre o vermetídeo Vermetus triquetrus, um gastrópode séssil que forma recifes e tem uma presença relevante na costa nacional (no presente artigo foram estudados espécimes do Estuário do Mira), mas negligenciado pela comunidade científica. O artigo visou aspetos da composição bioquímica do organismo e da sua atividade biológica (atividades antioxidante e anti-inflamatória) e diferenciou entre as duas principais unidades anatómicas do organismo, a massa visceral e o manto (‘head-foot’).


O artigo intitulado “Unveiling the Hidden Biotechnological Potential of the Vermetid Gastropod Vermetus triquetrus: Insights into an Unexplored Marine Resource” foi publicado no passado dia 28 de maio na prestigiada revista científica da área, Marine Biotechnology, e suscitou grande interesse e significativa repercussão dada a novidade de um estudo sobre este organismo. O interesse pelo estudo foi também reforçado pelos resultados obtidos, que mostraram elevados níveis de atividade biológica e permitiram identificar o V. triquetrus como uma fonte de compostos polifenólicos, especialmente no caso da massa visceral. O artigo é de acesso livre e pode ser encontrado aqui.

Os investigadores do IPMA concluíram que, dados os níveis de atividade biológica quantificados e os componentes presentes, não só se justifica um estudo mais aprofundado sobre a composição bioquímica e o refinamento das frações obtidas da biomassa, como também se pode procurar uma valorização e aplicações futuras destas frações em domínios como o nutracêutico, o cosmético ou mesmo o farmacêutico.

Este estudo faz parte de um esforço de investigação mais amplo e de longo prazo almejando a expansão das fronteiras do saber sobre a grande biodiversidade nas nossas águas e o aprofundamento do conhecimento sobre os diferentes grupos de organismos marinhos, indo dos microorganismos aos animais vertebrados e compreendendo as dimensões genómica, metabolómica e biotecnológica aplicada. Tal esforço e desafio para o futuro só é possível no âmbito do projeto GENEMARE_PORTUGAL “Biobanco Azul - Banco Nacional dos Recursos Vivos Marinhos” – Projeto MAR2030, Operação - P01M09 – Apoio à Proteção e Restauração da Biodiversidade e dos Ecossistemas Marinhos, Anúncio de abertura nº MAR2030-2023-16 (MAR-016.9.1-FEAMPA-00008), o qual financiou e suportou a todos os níveis a realização do estudo sobre o vermetídeo V. triquetrus. Instituto Português do Mar e da Atmosfera - Portugal


terça-feira, 9 de junho de 2026

Internacional - Universidade de Coimbra coordena descoberta de novas orquídeas africanas com sistema de polinização raro

Duas novas espécies de orquídeas descobertas na África Central estão a ajudar cientistas a compreender melhor como plantas tropicais interagem com os seus polinizadores e a revelar um tipo de polinização raramente observado na natureza. O estudo, coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra mostra, ainda, que estas espécies, agora identificadas, já se encontram ameaçadas de extinção.


As espécies, pertencentes ao género Rhipidoglossum, foram identificadas através de uma abordagem que combinou trabalho de campo, análise morfológica e dados de distribuição geográfica. Para além da descoberta, os investigadores conseguiram algo pouco comum: observar diretamente a interação com os seus polinizadores, neste caso mariposas noturnas, um comportamento raramente documentado.

Estas observações ajudam a confirmar que a forma das flores está intimamente adaptada aos insetos que as polinizam, revelando relações ecológicas altamente especializadas.

As novas espécies foram encontradas em regiões da África Central, incluindo áreas montanhosas e florestas tropicais, consideradas importantes centros de biodiversidade. No entanto, apresentam uma distribuição limitada e já foram classificadas como ameaçadas, sobretudo devido à destruição de habitat.

Para os investigadores, este trabalho demonstra que a biodiversidade tropical é não só mais rica do que se pensava, mas também mais complexa nas suas interações ecológicas. A falta de dados e a pressão sobre os ecossistemas tornam urgente continuar a estudar e proteger estas espécies antes que desapareçam.

"No grande quebra-cabeças que é a biodiversidade tropical, cada nova amostra ou registo pode representar uma peça ainda desconhecida pela ciência. Estes ecossistemas estão entre os mais ricos em biodiversidade do planeta, mas também entre os mais ameaçados e com maiores lacunas de informação. Estudos que combinem coleções biológicas, trabalho de campo e colaboração internacional são essenciais para compreender esta diversidade e apoiar estratégias de conservação antes que muitas destas espécies desapareçam", refere Arthur Macedo, doutorando do CFE.

Os investigadores registaram ainda interações entre grilos e flores de orquídeas, um fenómeno extremamente raro e pouco documentado em escala global. Esta observação representa uma descoberta inédita e sugere que estes insetos poderão desempenhar um papel ecológico mais relevante na polinização de algumas espécies tropicais do que se pensava anteriormente.

“A grande diversidade floral de Rhipidoglossum deixa adivinhar muitas interações desconhecidas. Quem sabe se os grilos não poderão ser os polinizadores principais de alguma espécie na flora da África Tropical?”, questiona João Farminhão, investigador do CFE e orientador principal. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Brasil - Estudo prevê secas acima da média nos próximos 5 anos

Relatório da Organização Meteorológica Mundial afirma que temperaturas devem subir de 1,3°C a 1,9°C acima da média entre 2026 e 2030. Os especialistas citam alta probabilidade de novo recorde de calor em 2027, redução de chuvas e condições de seca vão atingir especialmente o Hemisfério Sul


As temperaturas médias globais provavelmente continuarão em níveis recordes ou próximo deles até 2030, de acordo com um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial, OMM, produzido pelo Met Office do Reino Unido.

O estudo, divulgado nesta quinta-feira, afirma que as temperaturas médias globais próximas à superfície durante 2026 a 2030 devem variar entre 1,3°C e 1,9°C acima da média de 1850-1900, a era pré-industrial.

86% de possibilidades de um novo recorde de calor

Os dados revelam ainda uma eventualidade de 86% de que um dos anos de agora até 2030 ultrapasse 2024 como o ano mais quente já registado.

O autor principal do relatório, Leon Hermanson, ressaltou que há um El Niño previsto para o final deste ano, o que aumenta as possibilidades de que 2027, seja o próximo ano recorde.

Os especialistas afirmam ser excepcionalmente improvável que, nos próximos cinco anos, a temperatura ultrapasse 2°C acima da média pré-industrial.

Condições de seca afetam o Brasil

E o estudo cita o Brasil, ao afirmar que previsões de chuvas para as estações, de maio a setembro, sugerem anomalias húmidas na região do Sahel, norte da Europa, Alasca e Sibéria, e anomalias secas sobre a Amazónia entre 2026 e 2030.

O estudo ressalta ainda que partes do Brasil provavelmente ficarão mais secas do que o habitual.

Já em latitudes altas do Hemisfério Norte, as previsões de chuva favorecem condições mais húmidas que a média para as próximas cinco estações de inverno.

O padrão de aumento da precipitação nos trópicos e latitudes altas em comparação com o período de referência de 1991 a 2020, e a redução das chuvas nos subtrópicos, especialmente no Hemisfério Sul, é considerado consistente com as expectativas de um clima em aquecimento.

Temperaturas árticas 2,8°C acima da média

As temperaturas árticas nos próximos cinco invernos do Hemisfério Norte, de novembro a março, devem ser 2,8°C acima da média registada de 1991 a 2020.

Esta alta é 3,5 vezes superior à anomalia global de temperatura no mesmo período, segundo o estudo.

Além disso, as previsões para março de 2026 a 2035 sugerem novas reduções na concentração de gelo marinho nos Mares de Barents, Bering e Okhotsk. ONU News – Nações Unidas


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Portugal - Investigação da Universidade de Coimbra revela presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga

Uma equipa internacional liderada pelo Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra) identificou a presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga, dois dos principais sistemas fluviais da região Centro de Portugal.


O estudo, publicado na revista científica Journal of Hazardous Materials: Plastics, analisou microplásticos em suspensão na coluna de água destes dois rios, tendo sido detetados em todos os locais de amostragem. Os resultados confirmam que a poluição por plásticos está amplamente disseminada, mesmo em ecossistemas de água doce no interior do território.

O estudo, que resulta numa colaboração entre a Universidade de Coimbra (UC) e o Indian Institute of Science Education and Research Kolkata, identificou variações nos níveis de contaminação associadas a diferentes pressões antrópicas, incluindo atividades urbanas, turismo, agricultura e infraestruturas.

A maioria das partículas detetadas apresentava dimensões inferiores a um milímetro, sendo as fibras o tipo mais comum. Entre os polímeros mais frequentes destacam-se o polietileno e o polipropileno, amplamente utilizados em embalagens e plásticos de uso único.

Para além da quantificação da contaminação, a investigação incluiu uma avaliação do risco ecológico com base em índices internacionais de poluição e perigo. Apesar de concentrações globais moderadas, várias zonas dos rios Mondego e Vouga apresentaram níveis de risco entre baixo e potencialmente elevado, sobretudo devido à presença de partículas pequenas, mais facilmente transportadas e ingeridas por organismos aquáticos.

Segundo Seena Sahadevan, líder do estudo e investigadora do MARE e do Departamento de Ciências da Vida da UC, “este trabalho fornece informação de base importante sobre a contaminação por microplásticos em sistemas de água doce em Portugal e evidencia a necessidade de monitorização contínua e de estratégias de mitigação”.

Este estudo constitui uma das primeiras avaliações integradas de risco ecológico associadas a microplásticos em suspensão nos rios Mondego e Vouga, contribuindo com dados relevantes para a conservação de ecossistemas aquáticos e a gestão ambiental em Portugal.

A investigação contou ainda com a participação de Sarra Ben Tanfous, na qualidade de primeira autora, bem como dos investigadores Abhishek Mandal, Juliana Barros e Gopala Krishna Darbha. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Portugal – Universidade do Porto lidera estudo para mitigar desigualdades no acesso à Saúde

Trabalho inovador, coordenado por investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, vai estar em destaque na oitava sessão do Centro de Conferências da U.Porto


É possível mitigar as desigualdades no acesso à Saúde. Para tal, um grupo de investigação liderado por Sílvia Fraga, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), está a estudar e a procurar determinar as causas estruturais que moldam a saúde da população do Porto, freguesia a freguesia, a fim de procurar soluções que permitam, a nível global, corrigir também a reprodução desta injustiça.

O trabalho realizado pelo grupo de investigação em “Adversidade Social e Desigualdades em Saúde” do ISPUP vai ser apresentado por Sílvia Fraga na oitava sessão do Centro de Conferências da U.Porto, que terá lugar no dia 21 de maio, às 17h00, no Salão Nobre da Reitoria.

Intitulada “Justiça social e equidade em saúde: o que o Porto nos está a ensinar”, a conferência mostrará de que modo esta investigação, realizada à microescala do tecido urbano da cidade, permite inferir dados com possível impacto global. Sílvia Fraga defende, aliás, que as desigualdades em saúde “são evitáveis e injustas”, exigindo, por isso, «uma abordagem centrada nas condições de vida ao longo do seu curso».

Deste modo, a investigação realizada no Porto constitui “um laboratório privilegiado e único para a investigação das desigualdades em saúde”, possibilitando a obtenção de “informação e conhecimento novos”. Esta “base empírica” sustenta, por outro lado, uma “reflexão que, partindo do tecido da cidade, permite inferir globalmente”, explica a também docente da Faculdade de Medicina da U.Porto (FCUP).

Doutorada em Saúde Pública pela U.Porto (2013) e licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior de Serviço Social do Porto, Sílvia Fraga foi, entre 2016 e 2018, investigadora no Instituto de Medicina Preventiva da Universidade de Lausanne, na Suíça. É agora investigadora auxiliar no ISPUP, centrando a sua atividade na análise dos determinantes sociais da saúde, com enfoque na origem e na formação das desigualdades em saúde ao longo da vida

Sílvia Fraga é também membro integrado na Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit), onde coordena a pesquisa sobre “Sindemias, desigualdades em saúde e populações vulneráveis” no Laboratório de Investigação Integrativa e Translacional em Saúde Populacional (ITR). Lidera ainda o grupo de investigação “Adversidade Social e Desigualdades em Saúde”, centrado na compreensão dos mecanismos e processos envolvidos na produção de desigualdades em saúde desde as fases iniciais da vida. É vogal da Direção do ISPUP desde 2023.

Com entrada livre e aberta ao público em geral, a sessão terá também transmissão, em direto, através do canal YouTube da U.Porto.

Sobre o Centro de Conferências da U.Porto

Criado em julho de 2025, o Centro de Conferências da Universidade do Porto tem como missão afirmar a U.Porto como espaço privilegiado de diálogo e reflexão crítica e cívica sobre os grandes desafios da atualidade, envolvendo a comunidade académica, os decisores públicos e a sociedade civil.

O Centro é coordenado por Luís Valente de Oliveira e Elisa Ferreira, antigos docentes da U.Porto, e conta com um programa regular de sessões, em que são abordados  temas diretamente relacionados com as mais diversas áreas de estudo, da geopolítica à tecnologia, passando pela economia, o urbanismo, as artes, a saúde ou o desporto.

As sete primeiras sessões tiveram como temas a proposta de requalificação da Via de Cintura Interna do Porto desenvolvida por investigadores da FCUP, o trabalho inovador desenvolvido pelo IPO Porto, os desafios da inteligência artificial, os riscos geopolíticos para as empresas, a crise habitacional da cidade do Porto, a alteração dos programas financeiros plurianuais da União Europeia e o percurso do “unicórnio” tecnológico Feedzai. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 23 de março de 2026

Portugal - Polpa de café pode ajudar a combater a síndrome metabólica

Estudo liderado por investigadores da FMUP e da FFUP demonstra benefícios no controlo do peso, da glicose e da pressão arterial


Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), em colaboração com a Faculdade de Farmácia (FFUP) e o Laboratório Associado para a Química Verde e da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE/LAQV), concluiu que a polpa de café – um subproduto frequentemente descartado durante a produção do grão – apresenta benefícios metabólicos relevantes.

Publicado na revista científica Antioxidants, o trabalho demonstrou que a suplementação com polpa de café reduziu o aumento de peso, melhorou os níveis de glicose no sangue, diminuiu a resistência à insulina e atenuou a subida da pressão arterial em animais alimentados à base de uma dieta rica em frutose.

Fátima Martel, professora da FMUP e uma das autoras deste trabalho, explica que foram avaliados os efeitos da polpa de café num modelo experimental, no qual se mimetizaram as alterações observadas na síndrome metabólica humana. Os resultados indicam que a suplementação com este subproduto contribuiu para atenuar várias dessas alterações, incluindo a acumulação de gordura no fígado e perturbações no metabolismo da glicose.

“Os componentes bioativos da polpa de café atuam de forma integrada sobre as vias metabólicas, inflamatórias e vasculares, revelando-se um potencial funcional relevante na mitigação de múltiplos componentes da síndrome metabólica”, descreve a investigadora.

O estudo destaca que este subproduto é particularmente rico em cafeína e compostos fenólicos, associados a uma elevada atividade antioxidante e a efeitos benéficos no combate à inflamação, hipertensão, diabetes e acumulação de gordura.

Aplicações alimentares em desenvolvimento

“A polpa de café pode ser utilizada de diferentes formas, como infusão ou incorporada em alimentos como pães, bolos, bolachas e iogurtes”, descreve Rita Carneiro Alves, investigadora do REQUIMTE/LAQV, que acrescenta que as equipas de investigação já desenvolveram bolachas e bebidas com polpa de café, que registaram boa aceitação num painel de avaliação sensorial.

Saliente-se que a introdução da polpa seca de café no mercado da União Europeia foi recentemente autorizada pelas autoridades competentes.

Assim, os investigadores sugerem que a polpa de café poderá evoluir para um recurso multifuncional, capaz de gerar alimentos funcionais e ingredientes tecnológicos.

“Esta transição não só amplia o portefólio de aplicações económicas, como também contribui para práticas agrícolas mais sustentáveis e para a redução do impacto ambiental da produção de café”, finalizam as investigadoras.

Os próximos passos passam pela transposição dos resultados obtidos para o contexto clínico em humanos, mas a realização desses ensaios dependerá da obtenção de novo financiamento.

O estudo contou com a participação dos investigadores Nelson Andrade, Ilda Rodrigues, Francisca Carmo, Gabriela Campanher, Isabella Bracchi, Joanne Lopes, Emília Patrício, João T. Guimarães, Juliana A. Barreto-Peixoto, Anabela S. G. Costa, Liliana Espírito Santo, Marlene Machado, Thiago F. Soares, Susana Machado, Maria Beatriz P. P. Oliveira, Rita C. Alves, Fátima Martel e Cláudia Silva, e foi realizada no âmbito do projeto COBY4HEALTH, liderado pelo REQUIMTE e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 21 de março de 2026

Angola - Estudo sobre a bebida kissangua publicado em revista internacional

O estudo foi feito pelos investigadores e docentes da Universidade Rainha Njinga a Mbande (URNM), Isabel Balanga Pedro e Bettencourt Munanga com a participação de um estudante de tecnologia agro-alimentar, Emanuel Braga, e publicado na revista americana Journal of Food and Nutrition Sciences


A produção científica nacional começa, lentamente, a dar sinais de maturidade e de ligação a activos económicos locais, rompendo com uma tradição excessivamente teórica e distante da realidade produtiva. O mais recente exemplo surge da Universidade Rainha Njinga a Mbande, onde um grupo de investigadores conseguiu transformar um produto tradicional - a kissangua - em objecto de estudo estruturado, com publicação numa revista científica internacional de referência, a Journal of Food and Nutrition Sciences. Mais do que um exercício académico, trata-se de um sinal relevante sobre o potencial económico ainda subexplorado de produtos endógenos angolanos.

O estudo, que envolveu 35 produtores e 100 consumidores nas cidades do Huambo, Malanje e Kuito, não se limita a descrever práticas tradicionais, indo mais longe ao cruzar dimensões tecnológicas, sensoriais e socioeconómicas da produção de kissangua.

Esta abordagem integrada revela, desde logo, uma mudança de paradigma: a academia começa a olhar para os produtos locais não apenas como património cultural, mas como potenciais activos industriais com viabilidade económica, ainda que condicionada por factores muito específicos do comportamento do consumidor.

Do ponto de vista económico, o estudo traz dados concretos que ajudam a enquadrar a cadeia de valor desta bebida. As margens de comercialização variam entre cerca de 160 Kz por litro em Malanje e aproximadamente 240 Kz no Huambo e Kuito, evidenciando assimetrias regionais que podem estar associadas tanto a custos de produção como à própria dinâmica de mercado local.

Esta diferença, aparentemente marginal, levanta questões relevantes sobre eficiência produtiva, acesso a matérias-primas e elasticidade da procura, factores que devem ser considerados em qualquer tentativa de escalonamento industrial. Mas é sobretudo na dimensão da industrialização que o estudo ganha maior relevância estratégica. A investigação conclui que a transformação da kissangua num produto industrial é tecnicamente viável, mas economicamente dependente de um factor crítico: a capacidade de replicar, em escala, características sensoriais profundamente enraizadas nas preferências dos consumidores.

A fermentação natural, o sabor das raízes locais (mbundi no Huambo e Kuito, mucundu em Malanje) e o equilíbrio entre acidez e doçura não são meros detalhes - são elementos estruturais da aceitação do produto . A experiência falhada da industrialização anterior - com a introdução da "Compal Kissangua da Banda" em 2018 - surge, neste contexto, como um estudo de caso quase didáctico.

O produto foi rejeitado não apenas pelo preço elevado, mas sobretudo por ser percepcionado como "artificial", falhando precisamente nos atributos que o estudo agora identifica como críticos para o sucesso. Ou seja, a tentativa de industrialização ignorou aquilo que este novo trabalho académico demonstra: que o valor económico da kissangua está intrinsecamente ligado à sua autenticidade.

Os dados recolhidos reforçam esta leitura. Cerca de 67,62% dos inquiridos nunca ouviram falar de versões industrializadas e 84% nunca as consumiram, enquanto os poucos que experimentaram apontaram falhas claras na qualidade sensorial, desde a ausência de ingredientes tradicionais até deficiências no processo de fermentação.

Ainda assim, existe uma base potencial de mercado, desde que essas limitações sejam ultrapassadas - o que abre espaço para modelos híbridos entre produção artesanal e industrial, eventualmente com certificação de origem ou processos semi-industriais adaptados às especificidades regionais.

Em termos mais amplos, este trabalho levanta uma questão central para a economia angolana: até que ponto o País está preparado para transformar conhecimento científico em valor económico?

A existência de investigação aplicada, publicada em revistas internacionais, é um passo importante, mas insuficiente se não houver mecanismos de ligação ao sector empresarial, financiamento à inovação e políticas públicas que incentivem a industrialização de produtos locais com base em evidências científicas.

A kissangua, neste caso, funciona como exemplo de um universo muito mais vasto de produtos tradicionais que permanecem fora dos circuitos formais da economia. O estudo demonstra que há conhecimento, há mercado e há potencial de margem. Falta, como tantas vezes, a ponte entre a academia e a indústria - e, sobretudo, a capacidade de transformar tradição em escala sem destruir aquilo que lhe dá valor económico: a autenticidade. Adriano Kayunduma – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 19 de março de 2026

Timor-Leste - Investimentos aproximam o país da China, diz estudo

Um estudo recente destaca como Timor-Leste tem procurado mais investimentos da China como estratégia de desenvolvimento económico e de superação de isolamento geopolítico

O trabalho realizado por William Vogt, membro executivo sénior de política no think-tank The Digital Economist, e por Guilan Massoud-Moghaddam e Robert Miles Chong da Universidade de Georgetown, explora a crescente presença da China em Timor-Leste e o impacto dessa relação no desenvolvimento tecnológico do país.

“A presença chinesa em Timor-Leste ocorre num momento em que três outras nações — Índia, Austrália e Portugal — fornecem ajuda em tecnologias de informação e comunicação, sendo a Austrália o contribuinte mais ativo”, destacou o estudo.

Segundo os autores, a abordagem da política externa tecnológica da China é concebida para desafiar os interesses geopolíticos australianos no Sudeste Asiático, investindo fortemente em áreas essenciais para o desenvolvimento digital timorense, incluindo eletrificação e conectividade.

Timor-Leste tem procurado integrar-se plenamente na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), embora enfrente escrutínio devido a fragilidades económicas, com “cerca de 42% dos timorenses a viver abaixo do limiar da pobreza e o fundo soberano do país em declínio”.

A adesão, apoiada diplomaticamente por Pequim, abriria acesso ao fundo de cooperação ASEAN–China e a “benefícios económicos tangíveis”, com os investigadores a descrever que Timor-Leste pode estar a recalibrar a sua política externa, privilegiando novas parcerias.

Para os autores, a presença crescente da China em sectores-chave — telecomunicações, energia, agricultura e defesa — sugere que Díli procura superar o isolamento geopolítico e construir uma economia digital funcional. “A China encontra-se bem posicionada para competir oferecendo o trabalho de campeões nacionais como a Huawei, em conjunto com outros fornecedores de energia e tecnologia”, assinalaram.

A companhia China Nuclear Industry 22nd Construction Company, por exemplo adjudicou um contrato de 360 milhões de dólares para melhorar a rede elétrica nacional timorense, enquanto a gigante tecnológica Huawei se afirma como fornecedora central de infraestrutura de Internet.

A Austrália continua a ser um parceiro relevante, financiando cabos de fibra ótica que substituem a dependência timorense de conexões via satélite, contudo Pequim tem avançado em áreas sensíveis, apoiando a Rádio e Televisão de Timor-Leste na digitalização de conteúdos e promovendo um sistema de transmissão televisiva digital terrestre. “A China aumenta o acesso dos timorenses a essas transmissões, criando um destino potencial para propaganda chinesa”, alertam Vogt, Massoud-Moghaddam e Chong.

O estudo descreve também que a cooperação sino-timorense não se limita ao setor civil, pois em julho de 2024 os dois países acordaram reforçar intercâmbios militares e investir em áreas como formação de pessoal, tecnologia de equipamentos e exercícios conjuntos.

Para os autores, esta aproximação reflete uma mudança significativa na política externa timorense, com o presidente José Ramos-Horta a alinhar-se cada vez mais com os interesses chineses. “Díli pode ser persuadida a continuar a aprofundar suas relações com Pequim como estratégia para o desenvolvimento económico contínuo e para a superação do isolamento geopolítico”, acrescentou o estudo.

Além de apoiar a Marinha timorense e integrar Timor-Leste na sua Rota Marítima da Seda, Pequim tem investido em tecnologia agrícola, introduzindo arroz híbrido e métodos como a tecnologia Juncao, aplicados em zonas agrícolas com suporte digital.

Segundo o estudo, os financiamentos são frequentemente canalizados através do China Exim Bank, permitindo a Díli aceder a crédito para obras públicas e projetos digitais, uma parceria é vista como alternativa às limitações de capital interno, dependente das receitas de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, o comércio eletrónico é visto como caminho para o desenvolvimento económico moderno e Díli poderá colher frutos ao integrar-se no mercado digital regional, recorrendo às plataformas e produtos chineses. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Portugal - Novo cone de conífera com cerca de 133 milhões de anos descoberto no Cretácico Inferior

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou uma nova espécie de conífera, com cerca de 133 milhões de anos, na flora de Vale Cortiço, na região de Torres Vedras. 


Trata-se de um cone masculino muito bem preservado, composto por microsporófilos imbricados e dispostos helicoidalmente, no qual se observam grãos de pólen do género Classopollis. O achado enquadra-se no género Classostrobus (porque produzia pólenes do género Classopollis) e foi descrito como Classostrobus amealensis, derivando o restritivo específico do nome da pequena localidade de Ameal, onde foi encontrado.

«As floras do Cretácico português são ricas em coníferas da família Cheirolepidiaceae (atualmente extintas) de grande importância para a compreensão das condições paleoclimáticas e dos ecossistemas em que viveram», explica Mário Miguel Mendes, investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC) e professor da Universidade Fernando Pessoa (Porto).

Nesta família enquadram-se os frenelopsídeos pertencentes aos géneros Frenelopsis e Pseudofrenelopsis. Atendendo ao que tem sido observado no registo fóssil, estas plantas tinham uma notável capacidade de adaptação, habitando uma ampla gama de habitats, desde ambientes semiáridos a áridos e, em certos casos, regiões interiores com condições mais amenas.

«A presença destes frenelopsídeos, mas, sobretudo, dos seus pólenes característicos atribuíveis ao género Classopollis, é um indicador chave de climas quentes, semiáridos ou áridos. A flora de Vale Cortiço é rica em restos de frenelopsídeos pertencentes às espécies Frenelopsis teixeirae e Pseudofrenelopsis dinisii, sendo a primeira, particularmente, abundante nos níveis fossilíferos de onde provém o novo cone masculino agora descrito. Portanto, além dos restos vegetativos, foi encontrada, agora, uma estrutura reprodutiva masculina», revela o especialista.

Mário Miguel Mendes já tinha estudado, com detalhe, a associação esporo-polínica desta jazida fossilífera e identificou pólenes que suspeitava pertencerem à espécie Classopollis martinottii. No entanto, e porque apenas os observou em microscopia ótica, optou por classificá-los dentro do género Classopollis e como espécie indeterminada.

«Os pólenes observados in situ foram estudados minuciosamente, através da técnica de microscopia eletrónica de transmissão. Os resultados obtidos permitiram concluir tratar-se da espécie Classopollis martinotii, o que significa que o novo cone, Classotrobus amealensis, produzia pólenes da espécie Classopollis martinottii. Todavia, o novo cone não se encontrava anexado a nenhum ramo vegetativo – Frenelopsis teixeirae ou Pseudofrenelopsis dinisii», esclarece o paleobotânico.

No entanto, conclui, «a predominância de fragmentos de Frenelopsis teixeirae, no mesmo nível fossilífero, e a organização dos estomas observada nas cutículas de Classostrobus amealensis, sugere que a espécie Frenelopsis teixeirae dava origem a cones da espécie Classotrobus amealensis que, por sua vez, produziam pólenes atribuíveis a Classopollis martinottii».

Este trabalho foi realizado em parceria com investigadores do Paleontological Institute of the Russian Academy of Sciences (Rússia), do National Museum Prague (República Checa) e do Naturalis Biodiversity Center (Leiden, Países Baixos), tendo recebido financiamento do CITEUC e da Czech Grant Agency.

O estudo será publicado no volume de maio da revista internacional Cretaceous Research e pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Internacional - Estudo mostra que a preferência das aves por frutos raros é importante para a manutenção da biodiversidade

Um estudo internacional, liderado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que a preferência das aves frugívoras por frutos raros desempenha um papel fundamental na manutenção da diversidade de plantas.


Com base em dados recolhidos de forma sistemática, ao longo de 12 anos, numa floresta em Coimbra, investigadores das universidades de Coimbra, Porto (Associação BIOPOLIS) e Córdoba (Argentina), analisaram de que forma a composição nutricional e energética dos frutos e a densidade de outras plantas influenciam as escolhas alimentares das aves e os serviços que estas prestam na dispersão de sementes.

Os resultados, publicados na revista científica Current Biology, mostram que as aves frugívoras preferem frutos raros, com características nutricionais mais distintivas em relação à vizinhança. Os especialistas verificaram, ainda, que as plantas beneficiam da proximidade de outras plantas com frutos, uma vez que assim conseguem atrair mais aves dispersoras de sementes para a mesma área.

«Esta preferência que as aves têm para comer frutos raros e dispersar as suas sementes mostram a importância das interações entre as espécies para a diversidade das plantas», considera Guadalupe Peralta, primeira autora do estudo e investigadora do Instituto Multidisciplinario de Biología Vegetal, CONICET, da Universidad Nacional de Córdoba.

A investigação fornece a primeira evidência empírica de que a tendência das aves para complementarem as suas dietas com nutrientes e frutos raros é um mecanismo importante para favorecer a dispersão de sementes das espécies localmente raras, contribuindo assim para a manutenção da biodiversidade vegetal à escala regional.

«É extraordinário que o simples facto de as aves tentarem diversificar a sua dieta, consumindo os frutos mais raros e estranhos que encontram, ajude essas plantas a não serem eliminadas por outras mais comuns e competitivas. Num certo sentido isto faz das aves as defensoras dos fracos e oprimidos na natureza e zeladoras da biodiversidade», realça Ruben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC e investigador do CFE. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto mostra que solidão leva idosos a utilizar mais recursos de saúde

Estudo da Faculdade de Medicina revela que a maior procura por cuidados médicos poderá refletir a ausência de relações sociais significativas


“Quanto maior o nível de solidão, maior é a utilização de recursos de saúde”. A conclusão resulta de um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que identificou um maior número de consultas, mais episódios de ida às urgências e um consumo mais elevado de medicamentos entre idosos que apresentam solidão severa.

De acordo com os investigadores, a solidão surge como um determinante clínico que aumenta a procura de cuidados médicos, não por agravamento da doença, mas frequentemente como forma de substituir a ausência de relações sociais, com potenciais impactos humanos e económicos relevantes.

Neste estudo, os investigadores realizaram um inquérito a mais de 300 pessoas idosas residentes no Baixo Alentejo, uma região predominantemente rural, envelhecida e socialmente vulnerável. Os resultados mostram que mais de metade dos participantes referiram solidão leve e cerca de 15% apresentaram níveis de solidão severa.

“A solidão severa associou-se a uma média de quase sete medicamentos por dia, cerca de seis consultas anuais nos cuidados de saúde primários e duas visitas ao serviço de urgência, números substancialmente superiores aos observados nos participantes sem solidão”, revela Paulo Santos, professor da FMUP e um dos autores do estudo.

Solução não pode passar por prescrever mais comprimidos

Os investigadores alertam também que “a falta de identificação da solidão como qualquer outro fator de risco contribui para a medicalização do sofrimento social e para respostas de saúde menos ajustadas às necessidades reais das pessoas idosas”, lembrando que “a solidão é prevenível, identificável e dispõe de tratamento adequado”.

Publicado na revista European Geriatric Medicine, os resultados do estudo sublinham a necessidade de mudanças estruturais na forma como a solidão é reconhecida e tratada, incluindo um reforço do investimento em transportes, espaços públicos, programas comunitários e estratégias de envelhecimento ativo.

Para os autores, medidas como integrar o rastreio sistemático da solidão nos cuidados de saúde e implementar modelos de prescrição social, tais como atividades comunitárias, programas intergeracionais ou grupos de vizinhança, são uma resposta eficaz e alinhada com a evidência internacional.

“A solidão afeta negativamente a saúde dos idosos e acarreta uma maior pressão sobre o sistema de saúde. A solução não pode passar pela prescrição de mais comprimidos, mas sim por reforçar este sentido de comunidade”, conclui Paulo Santos.

O estudo, intitulado “A solidão como determinante da utilização dos serviços de saúde em idosos”, contou ainda com a participação de Ângela Mira e Cristina Galvão, médicas e investigadoras da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo. Universidade do Porto - Portugal