Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Portugal - Especialista da Universidade de Coimbra desenvolve guia ilustrado das principais macroalgas da costa portuguesa

Leonel Pereira, docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveu o Guia Ilustrado das Principais Macroalgas da Costa Atlântica Continental Portuguesa.

Asparagopsis armata

O guia, que contou com o contributo do professor Ignacio Bárbara, da Universidade da Corunha, vem colmatar uma lacuna há muito sentida no ensino e investigação da biologia marinha em Portugal. Este trabalho nasceu da necessidade de dispor de um recurso acessível, atualizado e visualmente apelativo para estudantes e investigadores das áreas da botânica marinha, biotecnologia e ecologia costeira.

Leonel Pereira, também investigador no Centro de Ecologia Funcional (CFE) da FCTUC, explica que o guia foi pensado «para apoiar diretamente as disciplinas que leciono, mas também para servir como ferramenta útil a outras universidades portuguesas e estrangeiras». Escrito em língua inglesa, o livro pretende alcançar um público internacional e reforçar a projeção científica da investigação portuguesa nesta área.

A costa portuguesa é descrita no guia como uma verdadeira “zona de transição biogeográfica”, um ponto de encontro entre o Atlântico Norte temperado e o Mediterrâneo subtropical. Esta posição singular permite a coexistência de espécies típicas de águas frias, como a Laminaria ochroleuca, com outras de águas mais quentes, como a Padina pavonica.

Bifurcaria bifurcata

«Essa diversidade faz do litoral português um autêntico laboratório natural para o estudo das alterações climáticas e da dinâmica dos ecossistemas marinhos, mas também o torna particularmente sensível às mudanças ambientais. Pequenas variações de temperatura ou salinidade podem alterar profundamente a composição das comunidades costeiras», considera o autor.

As macroalgas desempenham um papel essencial nestes ecossistemas. São produtoras primárias, responsáveis por grande parte do oxigénio e da matéria orgânica que sustenta a vida marinha, e criam habitats complexos que servem de abrigo, refúgio e zona de alimentação para uma enorme variedade de espécies, desde pequenos crustáceos até peixes juvenis.

«Além do seu valor ecológico, têm um papel químico e físico importante: ajudam a regular a qualidade da água, capturam dióxido de carbono e contribuem para a proteção das zonas costeiras, reduzindo a energia das ondas e estabilizando os sedimentos. A sua presença ou ausência é um indicador direto da saúde ambiental das águas portuguesas», afirma.

O guia também chama a atenção para espécies de interesse ecológico e económico, algumas delas cada vez mais raras. Entre as mais relevantes estão Gelidium corneum, usada na produção de agar, Gracilaria gracilis, sensível às variações de temperatura e salinidade, e Plocamium cartilagineum, que contém compostos com potencial farmacológico. No entanto, as alterações climáticas estão a modificar as fronteiras de distribuição destas espécies.

Calliblepharis jubata

De acordo com Leonel Pereira, as macroalgas de águas frias recuam para norte, enquanto espécies subtropicais avançam e dominam zonas antes temperadas. «Paralelamente, a chegada de espécies invasoras como Rugulopteryx okamurae, Asparagopsis armata e Sargassum muticum representa uma ameaça crescente à biodiversidade marinha e às atividades económicas ligadas ao mar», alerta.

Para responder a estes desafios, a investigação científica tem assumido um papel decisivo. Estudos genéticos e ecológicos permitem identificar espécies ameaçadas e acompanhar a evolução das comunidades ao longo do tempo. Além do controlo e monitorização, há também um esforço crescente de valorização da biomassa recolhida, através do seu aproveitamento para a produção de bioplásticos, cosméticos e compostos farmacêuticos.

É ainda de destacar o papel crescente da ciência cidadã. Com o apoio de plataformas digitais como iNaturalist e BioDiversity4All, qualquer cidadão pode participar na identificação e registo de macroalgas ao longo da costa, contribuindo para a monitorização de espécies e alertando para eventuais mudanças nos ecossistemas. «Esta colaboração entre cientistas e sociedade civil reforça a proteção ambiental e promove uma maior consciência ecológica entre as comunidades costeiras», conclui.

O Guia Ilustrado das Principais Macroalgas da Costa Atlântica Continental Portuguesa está disponível para consulta aqui. Universidade de Coimbra - Portugal



 


 


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Portugal - Intercepta narco-submarino com 1,7 toneladas de cocaína a caminho da Península Ibérica

As autoridades portuguesas interceptaram um navio que transportava drogas no Oceano Atlântico com 1,7 toneladas de cocaína destinadas aos mercados europeus. Quatro tripulantes foram presos


As autoridades portuguesas interceptaram um narco-submarino transportando mais de 1,7 toneladas de cocaína no Oceano Atlântico, numa operação coordenada com diversas agências estrangeiras, anunciou nesta segunda-feira a Polícia Judiciária portuguesa.

O submarino semissubmersível, com quatro tripulantes a bordo, tinha como destino "diversos países europeus", segundo as autoridades, que não especificaram o ponto de partida do submarino nem a nacionalidade dos detidos.

A Operação “El Dorado” envolveu a coordenação entre a Polícia Judiciária Portuguesa e a Marinha, com o apoio das autoridades do Reino Unido e dos Estados Unidos.

A Força Aérea Portuguesa, a Agência Nacional de Combate ao Crime do Reino Unido, a Agência Antidrogas dos EUA e a Força-Tarefa Interagências Conjunta Sul participaram da interdição.

A polícia portuguesa também contou com o auxílio de informações do Centro de Análise e Operações Marítimas sobre o Tráfico de Drogas, com sede em Lisboa, que inclui oito países da UE — Bélgica, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, Países Baixos e Portugal — no fortalecimento da cooperação internacional contra o tráfico de drogas por via marítima e aérea.

As autoridades descreveram a apreensão como "um novo golpe para as redes transnacionais de tráfico de cocaína que operam entre a América Latina e a Europa".

Os navios semissubmersíveis, projetados para navegar parcialmente submersos a fim de evitar a detecção, representam um método preferido pelos cartéis de drogas para transportar grandes carregamentos de cocaína da América do Sul para os mercados europeus.

O tráfico de drogas pelo Atlântico normalmente tem origem em regiões produtoras de cocaína na Colômbia, Peru ou Bolívia, antes de percorrer milhares de milhas náuticas para chegar à costa europeia.

As águas portuguesas têm se tornado cada vez mais pontos de trânsito para narcóticos que entram na Europa, com as autoridades relatando um aumento nas apreensões, à medida que as organizações de tráfico adaptam suas rotas e métodos para evitar a detecção. Euronews


sábado, 23 de agosto de 2025

Internacional - Bodião-de-pluma: Um peixe camaleónico que é capaz de ‘ver’ através da pele

Vários são os animais que hoje se sabe serem capazes de alterar a cor da sua pele. Camaleões, gecos, polvos e chocos são apenas alguns que modificam a distribuição de pigmento das suas células para se camuflarem e escaparem a predadores, para passarem despercebidos aos olhos das presas ou para comunicarem com membros da sua espécie ou mesmo com outros animais.


O bodião-de-pluma (Lachnolaimus maximus), uma espécie comum no oceano Atlântico, sobretudo na região ocidental, desde a costa da Carolina do Norte, nos Estados Unidos da América, até ao Brasil, é conhecido por alterar a cor da sua pele para se ‘fundir’ com corais, areia e rochas. E consegue fazê-lo em milésimos de segundo.

No entanto, os cientistas agora acreditam que este peixe é capaz de alterar a cor da pele mesmo depois de morto, levantando uma questão intrigante: será capaz de detetar mudanças na luz que o rodeia apenas através da pele?

Tudo começou há uns anos, quando a bióloga Lorian Schweikert, da Universidade da Carolina do Norte, e colegas investigadores participavam numa pescaria ao largo da Flórida. A cientista capturou um bodião-de-pluma e quando o puxou para o barco notou que a pele do peixe tinha mudado de cor, a mesma cor e padrão do convés. O que a intrigou foi o facto de a alteração de cor ter acontecido já depois de o bodião estar morto.

Desde então, a bióloga tem procurado perceber que mecanismos permitem a mudança de cor da pele mesmo após o cérebro e os olhos do peixe deixarem de funcionar.

Num artigo publicado esta semana na revista ‘Nature Communications’, Schweikert sugere que tal acontece porque esta espécie é capaz de ‘ver’ através da pele. Isto é, as células da pele do animal são capazes de captar a luz que sobre elas incide independentemente dos olhos e do cérebro.

O bodião transporta genes que codificam a produção de uma proteína chamada opsina, que é fotossensível, e que está presente na sua pele, e são diferentes dos que são encontrados nos seus olhos. De forma simples, o bodião, tal como o polvo, tem ‘detetores de luz’ na sua pele.

As alterações da cor da pele acontecem pelo movimento de pigmentos celulares, os cromatóforos, que tornam as células mais escuras ou mais claras. Acontece que, através de testes laboratoriais, os investigadores perceberam que as opsinas no bodião não são produzidas nas células que contêm cromatóforos, mas sim num conjunto de outras células localizadas por baixo, algo que até agora era desconhecido.

“Isso significa que a luz que incide sobre a pele tem de passar pelos cromatóforos repletos de pigmentos primeiro, antes de alcançar a camada sensível à luz”, explica Schweikert, que sugere que esse mecanismo permite ao peixe saber a cor da sua própria pele, como se tirasse uma fotografia instantânea da sua pele, a partir de dentro.

Assim, as células de opsina “de certa forma podem dizer ao animal qual o aspeto da sua pele, uma vez que não conseguem dobrar-se para verem eles próprios”. Mas os investigadores afastam qualquer ideia de que a pele do bodião possa agir como um verdadeiro olho.

Ao invés, o que dizem é que as células fotossensíveis ajudam o peixe a saber quais as alterações de cor que estão a ocorrer na sua pele e a ajustá-las ao ambiente circundante que o animal capta com os seus olhos.

“Se não tivermos um espelho, e não formos capazes de virar o pescoço, como poderíamos saber se estamos bem vestidos?”, lança Schweikert, numa metáfora que pretende descrever a funcionalidade desse mecanismo singular, explicando que saber ao certo qual a cor da sua pele o bodião pode aperfeiçoar a sua técnica de camuflagem.

“Pode ser uma questão de vida ou de morte”, salienta. Filipe Rações – Portugal in “Green Savers”


sexta-feira, 4 de abril de 2025

Portugal - É pioneiro na Europa em travar mineração no fundo do mar

O país acaba de aprovar lei que estabelece moratória sobre a atividade mineira em águas profundas, devido aos riscos que a extração de minérios com maquinaria pesada representa para os ecossistemas e pesca



Portugal deu um passo determinante na proteção dos oceanos ao aprovar a primeira lei europeia que estabelece uma moratória sobre a mineração no fundo do mar.

A medida, que proíbe a exploração de minérios em águas profundas até 2050, responde às preocupações ambientais e às reivindicações de cientistas e organizações de defesa dos oceanos.

Em letra de lei

A aprovação desta legislação coloca Portugal na vanguarda da proteção marinha, numa altura em que a comunidade internacional debate os impactos da mineração submarina nos ecossistemas.

Tiago Pitta e Cunha, presidente da Comissão Executiva da Fundação Oceano Azul, destacou a importância da decisão. "Portugal é o primeiro país a aprovar em letra de lei, ou seja, é a primeira lei europeia que estipula uma moratória até 2050 para a exploração mineira. Isso é relevante também porque a lei tem um grau hierárquico mais relevante, superior, à da resolução parlamentar. Ou seja, uma lei só pode ser alterada por outra lei", afirmou em entrevista à ONU News.

A promulgação da lei pelo Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, garante que a posição do país sobre a mineração submarina não poderá ser revertida sem novo debate parlamentar.

"Portugal está neste momento numa crise política, vai haver eleições, e eu tenho a certeza que o próximo governo, seja ele qual for, não vai poder mudar a posição do país relativamente à moratória para a mineração submarina, porque ela só pode ser alterada por lei do parlamento", explicou Pitta e Cunha. Ele destacou ainda que essa estabilidade legislativa é crucial, uma vez que Portugal teve três governos nos últimos três anos.

O que acontece no mar não fica no mar

Os riscos ambientais da mineração em alto-mar estão amplamente estudados e identificados. Estudos científicos indicam que o fundo do mar desempenha um papel fundamental na regulação do clima e na absorção de carbono.

"O que acontece no fundo do mar não fica no fundo do mar, tem repercussões negativas não apenas na coluna de água, mas em todo o sistema oceânico", alerta Pitta e Cunha.

A exploração mineral pode causar distúrbios significativos nos sedimentos marinhos, que acumulam calor e ajudam a regular o aquecimento global. Além disso, perturbar essas camadas pode libertar grandes quantidades de carbono armazenado, agravando ainda mais a crise climática.

Contaminação na pesca

A contaminação da coluna de água também representa uma preocupação para a pesca e para a segurança alimentar. "Para além do distúrbio dos sedimentos do fundo e do desaparecimento da biodiversidade, há uma pluma de sedimentos que contamina a coluna de água de uma forma absolutamente gigante”, afetando 20% da proteína que os humanos consomem no planeta.

Portugal na defesa dos oceanos

Portugal tem-se destacado internacionalmente na defesa dos oceanos. "Portugal realizou a maior conferência sobre oceanos do planeta, a Conferência da ONU em 2022, em que foi coanfitrião com o Quénia, uma conferência que impulsionou um grande progresso da agenda multilateral do oceano", explicou Pitta e Cunha. Segundo presidente da Comissão Executiva da Fundação Oceano Azul, nos últimos três anos tomaram-se mais decisões sobre a proteção marinha do que nos trinta anos anteriores.

Apesar deste avanço, Portugal ainda enfrenta desafios na formulação de uma política externa para os oceanos. "Portugal não tem uma verdadeira política externa para o oceano, e sem isso, Portugal não tem os mecanismos para influenciar decisões de outros estados-membros", alertou Pitta e Cunha.

Mesmo assim, o especialista defende que a nova lei fortalece a posição do país como um líder global na proteção dos oceanos, podendo incentivar outras nações a adotar medidas semelhantes.

Impacto internacional

A decisão portuguesa gera impacto nas discussões internacionais, especialmente no âmbito da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), organismo da ONU responsável pela regulamentação da mineração submarina em águas internacionais.

A ISA tem sido pressionada por governos, cientistas e organizações ambientais para impor uma moratória global à mineração no fundo do mar, mas enfrenta resistência de alguns países e empresas interessadas na exploração desses recursos.

A posição de Portugal pode fortalecer esse movimento e contribuir para um debate mais amplo sobre a necessidade de proteger os ecossistemas marinhos. Sara Rocha – Portugal ONU News


quarta-feira, 26 de março de 2025

Viagem pelo Atlântico vai relembrar pessoas escravizadas entre Brasil e Angola

“A Grande Travessia” é um projeto inédito sobre retomar a antiga rota marítima de tráfico de africanos vendidos como escravos; jornada deve inaugurar novo marco de cooperação cultural, turística e económica entre ambos os países



Mais de 2 mil pessoas vão cruzar o Atlântico a bordo de um navio, em dezembro deste ano, numa viagem que pretende refazer a rota do tráfico de pessoas escravizadas e promover a reflexão sobre a escravatura.

O projeto "A Grande Travessia" pretende fretar um navio de cruzeiro, com partida de Santos, parando no Rio de Janeiro e Salvador, antes de seguir rumo a Luanda, capital de Angola.

Viagem altamente simbólica

Dagoberto José Fonseca, antropólogo responsável pelo projeto, afirma que é a primeira vez que uma população que se autoidentifica oriunda de Angola, regressa ao continente africano nessa condição.

Em entrevista à ONU News, no Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de Escravos, o professor da Universidade Estadual Paulista, Unesp, explica que o projeto “visa reconhecer, reparar para seguir memória e história dos nossos, um mundo atlântico em terra firme”.

O grupo escolheu a viagem marítima por ser altamente simbólica em relação ao tráfico de milhões de pessoas escravizadas entre os séculos 15 e 19.

Voltar pelas águas

“Quando nós perdemos algo em nossas casas, nós fazemos o caminho de volta para encontrar o que perdemos. Não há como fazer o caminho de volta, buscar a ancestralidade pelo avião. Nós teremos que voltar pelas águas, porque é pelas águas que os nossos antepassados passaram”, justifica o antropólogo.

Estima-se que cerca 5 milhões de africanos escravizados tenham sido levados para o Brasil, mais do que qualquer outro país. A maioria foi capturada em Angola, na África Ocidental, e deportada em condições desumanas a bordo de navios portugueses.

“As populações que saem do continente africano pelos portos de Angola, do atual território de Angola, são colossais, perto das populações que saem de outros portos do continente africano”, explicou.

Marcas visíveis até hoje

O professor da Unesp garante que as marcas dessa população são visíveis até aos dias de hoje no Brasil, com impacto na identidade nacional, cultura, gastronomia e língua.

Com Angola a preparar-se para celebrar 50 anos de independência em novembro de 2025, Dagoberto José Fonseca destaca que essa é mais uma razão para a realização da viagem este ano. "Não é à toa que o Brasil é o primeiro país a reconhecer a independência de Angola a 11 de novembro de 1975", acrescentou.

Travessia de 21 dias

A viagem tem uma duração de 21 dias, com partida a 1 de dezembro de 2025. A travessia no Atlântico durará sete dias, seguidos de sete dias de permanência em Angola e a viagem de regresso por outros sete dias.

O projeto prevê a participação de cerca de 2000 passageiros, incluindo estudantes, professores, académicos, empresários, descendentes de pessoas escravizadas e líderes de várias religiões.

As atividades a bordo incluem workshops, mesas-redondas, oportunidades de networking. A equipa acredita que o projeto vai permitir fazer a reabertura das rotas marítimas do Atlântico.

“O Atlântico não é um lugar de sepultamento”

A bordo do navio vão decorrer homenagens aos mais de 2,5 milhões de pessoas que perderam a vida na travessia entre o continente africano e o continente americano.

Dagoberto José Fonseca lembra que “o Atlântico não é um lugar de sepultamento” e que o projeto pretende ser “um reencontro com aquelas pessoas que foram violentamente, criminosamente jogadas no Oceano Atlântico”.

Os organizadores veem o cruzeiro como “parte de um movimento mais amplo que luta por reparações pela escravatura transatlântica e pelo colonialismo europeu.”

“Esse é o grande marco do projeto da Grande Travessia, que eu acho que encontra eco em tudo aquilo que as Nações Unidas têm produzido, desde os seus documentos, em 1948”, concluiu o antropólogo.

O Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de Escravos foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007 e assinala-se a este 25 de março. Sara Rocha – Portugal ONU News


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Internacional - Investigadores portugueses e alemães descobrem que o Oceano Atlântico pode estar a morrer

Um estudo conjunto da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da Johannes Gutenberg University Mainz revelou a potencial criação de um anel de fogo no Oceano Atlântico num período próximo a 20 milhões de anos


Investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da Johannes Gutenberg University Mainz, na Alemanha, realizaram um estudo sobre os oceanos com recurso modelos computacionais, e os resultados não são agradáveis.

O estudo, que pode ser consultado aqui, prevê um futuro intrigante para o Oceano Atlântico: a formação de um sistema de subducção, similar ao “anel de fogo” do Pacífico. Essa transformação, embora distante em termos humanos (cerca de 20 milhões de anos), é significativa na escala geológica e pode marcar o início do declínio do Atlântico.

Os oceanos, colossais em comparação à vida humana, possuem um ciclo de vida finito: nascem, expandem-se e, eventualmente, fecham-se. O oceano Atlântico formou-se com a fragmentação do mega continente Pangeia, há cerca de 180 milhões de anos, e para que inicie o processo de fechamento, é preciso que se formem novas zonas de subducção, zonas em que duas placas tectónicas convergem e uma mergulha sob a outra. No entanto, a formação de tais zonas é complexa, pois exige a fratura e dobramento das placas, que são naturalmente rígidas e resistentes.

Uma solução para esse “paradoxo” reside na migração de zonas de subducção de oceanos em declínio, como o Mar Mediterrâneo, aqui bem perto, para oceanos em pleno desenvolvimento, como o Atlântico. Essa migração, impulsionada por processos geológicos ao longo de milhões de anos, pode ser o prenúncio do futuro “anel de fogo” atlântico.

Este processo em que uma zona de subducção invade um outro oceano é um processo inerentemente tridimensional, que requer ferramentas avançadas de modelação e supercomputadores que não estavam disponíveis há alguns anos. Podemos agora simular com grande detalhe a formação do Arco de Gibraltar e também como este poderá evoluir num futuro profundo“, explica João Duarte, primeiro autor do estudo, investigador do Instituto Dom Luiz, na Ciências ULisboa.

Existem outras duas zonas de subducção do outro lado do Atlântico – o Arco das Pequenas Antilhas, nas Caraíbas, e o Arco da Escócia, perto da Antártida. No entanto, estas zonas de subducção invadiram o Atlântico há vários milhões de anos. Estudar Gibraltar é uma oportunidade inestimável porque permite observar o processo nas suas fases iniciais, quando ainda está a acontecer“, acrescenta João Duarte.

Este estudo lança uma nova luz sobre a zona de subducção de Gibraltar: na comunidade científica poucos investigadores consideravam que esta ainda se encontrava ativa, pois a sua atividade abrandou significativamente nos últimos milhões de anos. Esta descoberta tem ainda implicações importantes para a atividade sísmica na região. As zonas de subducção são conhecidas por produzirem os sismos mais fortes do planeta, como por exemplo, o Grande Sismo de Lisboa de 1755. Universidade de Lisboa - Portugal


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Portugal - Biólogo José Ricardo Paula premiado por trabalho de investigação no Atlântico

A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) distinguiu o biólogo José Ricardo Paula com o prémio FLAD Science Award Atlantic 2023, pelo trabalho que pretende avaliar a resiliência dos peixes-limpadores do oceano Atlântico às alterações climáticas


José Ricardo Paula, especialista em evolução e ecologia comportamental, é investigador no polo de Lisboa do Mare – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e vai receber 300 mil euros concedidos pela FLAD, que anunciou em comunicado o vencedor de 2023 da bolsa com que apoia anualmente a investigação científica sobre o Atlântico.

A equipa de José Ricardo Paula irá trabalhar com cientistas da universidade norte-americana do Havai, esperando ter “informação relevante” no próximo ano.

“O projeto combina manipulações ecológicas de campo, análise de bases de dados globais e a integração de tecnologia de inteligência artificial na investigação marinha”, resumiu à Lusa o investigador.

O grupo de investigação de José Ricardo Paula irá usar câmaras de filmar subaquáticas ligadas à internet e acopladas a computadores preparados para inteligência artificial para monitorizar os ecossistemas marinhos de alguns locais do Atlântico, em particular os peixes-limpadores, que mantêm livre de parasitas o corpo de muitos outros peixes.

Os protótipos destas câmaras serão colocados em parte das cinco localizações atlânticas que serão alvo do estudo – Algarve e Açores em Portugal, Cabo Verde, Florida nos Estados Unidos e Curaçau.

Para estes cinco locais de estudo será feito o acompanhamento da evolução do ecossistema marinho na ausência (manipulada) de peixes-limpadores.

Na costa portuguesa serão seguidas as espécies bodião de boca pequena e peixe-rainha, enquanto na costa oeste do Atlântico serão o bodião de cabeça azul e os góbios do género ‘Elacatinus’.

Depois de aferido o impacto dos peixes-limpadores na biodiversidade marinha atlântica, a equipa de José Ricardo Paula propõe-se avaliar a resiliência destas espécies às alterações climáticas – aumento da temperatura, acidificação e perda de oxigénio no mar – em simuladores no Laboratório Marítimo da Guia, em Cascais.

Essa avaliação permitirá antecipar cenários de risco e estratégias de conservação.

Antes de se focarem nos peixes-limpadores do Atlântico, José Ricardo Paula e restantes membros da equipa vão analisar a uma escala mais abrangente as correlações entre a presença destas espécies e a abundância e a diversidade de outras espécies de peixes, a partir de uma base de dados recolhidos por mergulhadores recreativos voluntários no âmbito do programa ‘Reef Life Survey’ de monitorização de biodiversidade nos recifes rochosos e de coral. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


terça-feira, 4 de julho de 2023

Açores - Planador lançado na ilha do Faial vai mapear o oceano Atlântico

Um planador de investigação foi lançado na ilha do Faial, nos Açores, no domingo (25), visando mapear o oceano Atlântico, anunciou o Okeanos – Instituto de Investigação em Ciências do Mar, com sede na Horta


De acordo com o Okeanos, o lançamento surge no âmbito do projeto Mission Atlantic, financiado pela União Europeia através do Horizonte 2020.

O projeto, segundo uma nota de imprensa, tem como “objetivos principais mapear e avaliar o estado presente e futuro dos ecossistemas marinhos do Atlântico sob a influência das alterações climáticas e exploração humana”.

Pretende-se “identificar riscos e pressões nos ecossistemas do oceano Atlântico, para apoiar o desenvolvimento de estratégias de gestão que irão garantir o uso sustentável dos recursos marinhos e a preservação da biodiversidade marinha para as próximas gerações”.

O planador de investigação passará por vários pontos estratégicos, entre os quais Canárias, Cabo Verde e Brasil. “Ao longo deste percurso, os sensores, as sondas científicas e os hidrofones instalados irão recolher diversos parâmetros oceanográficos, será feita a medição do eco na coluna de água e será ainda possível detetar animais marcados com marcas acústicas”, refere-se na nota de imprensa.

O projeto, já em curso, “está a trabalhar no âmbito do mapeamento, modelação e avaliação dos ecossistemas do Oceano Atlântico, recolhendo novas observações e desenvolvendo e aplicando ferramentas e tecnologias, com base em modelos dinâmicos e técnicas avançadas de aprendizagem automática para análises de ‘big data’”.

Os indicadores “serão usados para avaliar o estado e desenvolvimento dos ecossistemas marinhos do Atlântico e para determinar as tendências históricas relativas às pressões antropogénicas”.

O projeto Mission Atlantic reúne cientistas, gestores e outros atores interessadas de 33 organizações parceiras formando uma equipa multidisciplinar, que inclui líderes reconhecidos em ciência, política e indústria oceânica, abrangendo um total de 14 países em quatro continentes (Europa, África, América do Norte e América do Sul). In “Milénio Stadium” - Canadá


domingo, 30 de abril de 2023

Brasil - A megaestrada que ligará o país ao Chile cruzando o ‘inferno verde’ no Paraguai

“É um novo Canal do Panamá”. É assim que Egon Neufeld descreve o corredor bioceânico, um gigantesco projeto de infraestrutura que tentará ligar a costa do Oceano Pacífico no Chile com a costa atlântica no Brasil

Neufeld, um rico proprietário de vastas terras no Paraguai, diz que a rodovia – que terá cerca de 2200 quilómetros e cortará Argentina, Brasil, Chile e Paraguai – facilitará a vida dos fazendeiros e camponeses da região no transporte de gado e na exportação de produtos de exportação aos portos que estão no Atlântico e no Pacífico.

Os governos de cada um dos países envolvidos no projeto manifestaram apoio, mas o presidente paraguaio, Mario Abdo, foi um de seus principais impulsores. Cada país tem a responsabilidade de cumprir alguns trechos e prazos, porém não está claro qual é o prazo final para a conclusão do projeto.

Cerca de 525 quilómetros dessa nova rodovia passam pela região conhecida como Gran Chaco, uma das principais reservas ambientais do país, povoada por cerrados e zonas húmidas.

É o lar de onças, onças-pardas, tamanduás e milhares de espécies de plantas, um dos lugares de maior biodiversidade do planeta. Estima-se que a rodovia terá cerca de 2200 quilómetros de extensão e o custo aproximado do investimento total é de US$ 10 mil milhões. In “Milénio Stadium” – Canadá com “G1”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Portugal - A Biodiversidade no Oceano Atlântico e as correntes marinhas


Foi publicado recentemente, na revista científica "Frontiers", o artigo "Ocean kinetic energy and photosynthetic biomass are important drivers of planktonic foraminifera diversity in the Atlantic Ocean".

Trata-se de um estudo em que estão envolvidos cientistas do IPMA/Centro de Estatística e Aplicações (CEAUL) e do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), que pretende descobrir como é que a biodiversidade dos oceanos varia e quais os fatores que a influenciam, de modo a poder preservá-la.

O estudo permitiu descobrir que apenas com três variáveis ambientais, medidas através dos satélites, consegue-se explicar até 88% da biodiversidade dos foraminíferos planctónicos (seres microscópicos do zooplâncton que navegam nas massas de água) fossilizados no fundo do oceano Atlântico durante o último século, ainda antes das consequências mais importantes da atividade humana durante o século XX.

Parece quase magia a diversidade de espécies que existem nos oceanos da Terra. Muitas tem formas incríveis que nos transportam para os mais arrojados filmes de ficção científica... ou será ao contrário? Todos estamos preocupados com o desaparecimento de muitas espécies que fazem parte deste mundo maravilhoso, ou seja, com a diminuição da biodiversidade nos oceanos. Para poder preservar a biodiversidade dos oceanos, é fundamental descobrir como é que ela varia e quais os fatores que a influenciam. Ou seja, o que determina a diversidade e distribuição das espécies.

A encabeçar os fatores ambientais mais importantes, está, como é bem conhecido, a temperatura da água, que regula todos os processos fisiológicos. O segundo fator é a produtividade, que representa a quantidade de energia disponível para os organismos comerem, e é medida por satélites da cor do oceano. O terceiro fator fundamental são as correntes marinhas, que têm implicações na estabilidade do meio onde os seres vivos vivem, assim como no transporte de organismos dum local para outro nos oceanos, e é representada pela energia cinética, ou seja a energia associada ao movimento, estimada através de satélites que medem a altura do oceano (altimetria).

Utilizando métodos estatísticos para quantificar a dinâmica da biodiversidade, os investigadores descobriram que estas três variáveis ambientais explicam em larga escala, a distribuição das espécies de foraminíferos no Atlântico durante o último século. Os investigadores conseguiram também determinar as principais zonas das diferentes comunidades no Oceano. Descobriram ainda os pontos de viragem das comunidades, para cada uma das variáveis ambientais.

Estas descobertas são fundamentais para uma melhor compreensão da forma como as alterações climáticas podem afetar a biodiversidade no futuro, assim como para a conservação dos oceanos. Sabendo como a biodiversidade se distribui e varia com estas variáveis no passado, podemos, utilizando os modelos climáticos atuais, poderemos estimar como poderá ser afetada no futuro. InInstituto Português do Mar e da Atmosfera” - Portugal


 

terça-feira, 3 de julho de 2018

América do Sul - Corredor ferroviário bioceânico

SÃO PAULO – A crise de abastecimento a que o País foi atirado pela paralisação de caminhoneiros, ao final de maio, mostrou o quanto o Brasil é refém do modal rodoviário e, principalmente, do óleo diesel, que é o combustível que move a economia nacional. Segundo dados do Instituto de Logística e Suplly Chain (Ilos), mais de 60% de tudo o que é transportado no País viajam em contêineres puxados por carretas ou sobre caminhões, percentual que, nos últimos anos, só tem crescido em razão da falta de investimentos em outros modais.

Ainda segundo o Ilos, entre 2006 e 2016, a participação das rodovias na matriz de transportes avançou de 59% para 62,8%, enquanto, no mesmo período, a fatia das ferrovias recuou de 24% para 21%, por falta de investimentos no setor. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Brasil, que já teve uma malha ferroviária maior que a dos Estados Unidos, tem hoje apenas 3 quilômetros de ferrovia para cada quilômetro quadrado, enquanto aquele país tem dez vezes mais: 30 quilômetros de trilhos para cada quilômetro quadrado.

E mais: dos atuais 28 mil quilômetros de malha passados a concessionárias, apenas 8 mil quilômetros estão em operação. Como ficou em segundo plano no processo de privatização, a situação do transporte de passageiros por trem está em situação ainda mais dramática.

Diante disso, os caminhoneiros fazem o que podem, enfrentando estradas mal conservadas e bem pouco policiadas, o que permite com frequência toda a sorte de imprevistos, inclusive aqueles derivados da violência social. Sem contar os prejuízos para as empresas transportadoras e para os donos das cargas, pois, muitas vezes, o caminhoneiro é obrigado a ficar três dias ou mais parado no cais para descarregar.

Em meio a tantas desditas, aparece agora uma luz no fim do túnel: Brasil, Bolívia, Paraguai e Peru acabam de concluir os entendimentos prévios para um acordo que prevê a construção de um corredor ferroviário entre o Oceano Pacífico (a partir de Puerto de Ilo, no Peru) e o Atlântico (Porto de Santos). Os estudos preliminares, que contam com assessoramento técnico da União Europeia, prevêem investimentos da ordem de US$ 14 bilhões e que a obra estará concluída até 2024.

Os estudos estimam ainda que o corredor bioceânico irá transportar 40 milhões de toneladas, percorrendo 3.755 quilômetros, facilitando principalmente as exportações para a Ásia. Ou seja, essa ferrovia, além de facilitar a tão almejada saída para o mar por parte da Bolívia, vai permitir o desenvolvimento, a exploração e a industrialização dos recursos naturais de todo o continente sul-americano, até porque está prevista ainda a adesão da Argentina e do Uruguai.

Entre outros benefícios, com a participação do trem bioceânico, será possível conduzir a carga desde o Brasil até o porto de Xangai, na China, em 36 dias e 8 horas. Hoje, a demora é de 67 dias e 13 horas. Segundo os estudos, até 2021, o corredor ferroviário terá ainda capacidade para transportar 6,1 milhões de passageiros por ano, número que deverá chegar a 13,3 milhões em 2055. Se o futuro irá confirmar esses números, não se sabe. Mas, até lá, haja otimismo! Milton Lourenço - Brasil



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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Brasil – Proposta para ampliar mar territorial

Proposta que expande fronteira marítima até 350 milhas náuticas será reapresentada à ONU. Em jogo, campos petrolíferos e jazidas minerais

Um projeto que o governo brasileiro deverá apresentar à Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015 poderá expandir o território marítimo nacional para além da faixa de 200 milhas náuticas. Atualmente, apenas nessa faixa o país possui direitos exclusivos de exploração dos recursos marinhos, incluindo as jazidas de petróleo do pré-sal. Com o projeto, apresentado pela primeira vez à ONU em 2004, os direitos brasileiros poderão se estender por toda a plataforma continental geográfica, até um limite de 350 milhas náuticas.

A proposta acrescentaria ao país uma nova área oceânica de 963 mil quilômetros quadrados, maior que o território da Venezuela. Pesquisadores brasileiros acabam de concluir o primeiro de três relatórios que detalham os extensos e complexos estudos científicos – exigidos pela ONU para a análise da proposta –, sobre a configuração geológica da plataforma continental.

O projeto, batizado de Amazônia Azul, é conduzido pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar. Caso seja aprovada, a proposta aumentará o território marítimo brasileiro dos atuais 3,5 milhões de quilômetros quadrados para 4,5 milhões de quilômetros quadrados – região equivalente a 52% da área continental do país.

A primeira proposta, apresentada em 2004 à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU, foi aprovada em sua maior parte, com a exceção de quatro áreas que correspondem a 190 mil quilômetros quadrados, menos de 20% da área reivindicada. O Brasil não aceitou a recomendação e optou por fazer novos estudos complementares para elaborar uma nova proposta revisada, de acordo com o capitão de mar e guerra Celso Peixoto Serra, coordenador do Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira – programa criado em 1989 pelo governo federal para estabelecer o limite continental além das 200 milhas.

“Não nos interessa conseguir só um pedaço desse território, ainda que ele corresponda a mais de 80% da nossa reivindicação. Queremos adquirir a maior área possível para o Brasil e, se tivéssemos aceitado a recomendação da ONU em 2007, não poderíamos agora fazer uma nova proposta”, disse.

Para suprimir as divergência entre os técnicos da comissão da ONU e os pesquisadores brasileiros, foi preciso apostar em estudos complementares. Entre dezembro de 2008 e maio de 2010, foram refeitos estudos em toda a margem continental.

O Brasil foi o segundo país a solicitar a ampliação da plataforma continental – o primeiro foi a Rússia, em 2001. Depois disso houve outros 77 pedidos à comissão da ONU. “Não é à toa, porque ao incorporar a plataforma continental, os países costeiros podem explorar todo o solo e subsolo, que tem todo tipo de riqueza”, afirmou Serra.

Estudo

Relatório defende critérios geológicos

Segundo o consultor jurídico do plano de levantamento, Rodrigo More, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo, o relatório que será apresentado à ONU é uma descrição completa, com coordenadas geográficas, de toda a área que será reivindicada pelo país.

Segundo ele, a reunião das Nações Unidas que estabeleceu a Convenção sobre o Direito do Mar, em 1973, criou critérios geológicos que definem a plataforma continental. Mas, para demonstrar que os critérios se aplicam ao litoral de um país, é preciso unir informações precisas. “É um debate que associa geologia, geomorfologia e a interpretação jurídica da convenção.”

A convenção define que a plataforma continental, do ponto de vista físico, é um platô que vai desde a terra firme até uma região onde há uma queda abrupta de profundidade – o chamado talude. Dependendo da conformação do litoral, o talude pode ficar antes ou depois da plataforma continental jurídica. Assim, a legislação prevê que a plataforma continental – onde o país tem direito de explorar os recursos do solo e subsolo – pode variar de acordo com a geografia, até um limite máximo de 350 milhas da costa. “Se a legislação define que a plataforma vai até certa distância do pé do talude, é preciso caracterizar cientificamente onde está esse ponto. Mas a regra jurídica é que vai orientar a aplicação dessa definição geológica.”, disse More. In “Gazeta do Povo” - Brasil

sábado, 26 de julho de 2014

Brasil – Amazônia Azul (continuação)

Brasil obtém permissão da ONU para explorar minério em fundo do oceano.

O Brasil foi autorizado por um braço da ONU a explorar recursos minerais em águas internacionais do oceano Atlântico, levantando tanto potenciais ganhos econômicos quanto preocupações ambientais.



Essa mineração submarina é considerada uma nova fronteira na busca por metais preciosos, como manganês, cobre e ouro, que se tornaram essenciais na economia mundial moderna.

A permissão foi concedida pela Autoridade Internacional de Fundos Marinhos (Isba), órgão vinculado à ONU, e confere ao país o direito de atuar por 15 anos em uma área de 3 mil quilômetros quadrados na região do Atlântico conhecida como Elevação do Rio Grande, localizada a cerca de 1,5 mil km da costa do Rio de Janeiro.

O pedido foi feito em dezembro pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) em nome do Ministério de Minas e Energia, depois do investimento de R$ 90 milhões ao longo de quatro anos de estudos sobre o potencial geológico desta área.

Potencial econômico

O Brasil poderá estudar as chamadas crostas ferromanganesíferas ricas em cobalto em projetos de mineração submarina. Segundo o CPRM, esses depósitos foram identificados como os de maior potencial econômico e estratégico em levantamentos realizados em expedições a essa região.

"Nestes 15 anos, mapearemos o que existe lá e avaliaremos seu potencial econômico. Depois, podemos entrar com um novo pedido para explorar economicamente", afirma à BBC Brasil Roberto Ventura Santos, diretor de geologia e recursos minerais do CPRM.



"As possibilidades são interessantes, porque é uma região rica em elementos químicos usados na indústria, especialmente nas de alta de tecnologia, na produção de chips, peças de usinas eólicas e carros elétricos."

Santos afirma ainda que o Brasil ampliará seu conhecimento técnico sobre este tipo de mineração submarina, formará profissionais capacitados a trabalhar nesta área e criará tecnologia para tal.

"Somos o primeiro país da América Latina a conseguir essa permissão e, assim, entramos no seleto grupo de países que fazem este tipo de exploração, como Japão, Estados Unidos e China", diz Santos.

Novas permissões

Além do Brasil, a ONU concedeu outras seis novas permissões a empresas públicas e estatais do Reino Unido, Cingapura, Ilhas Cook, Índia, Alemanha e Rússia.

Com isso, a área total do leito oceânico liberada para exploração foi ampliada para 1,2 milhão de quilômetros quadrados, sob um total de 26 permissões de exploração científica.

A ONU ainda não conferiu nenhuma permissão de exploração econômica, conhecida como explotação, mas as primeiras devem ser concedidas nos próximos anos, segundo a Isba.

"Existe um interesse crescente", disse Michael Lodge, da Isba, à BBC. "A maioria dessas últimas permissões foi concedida a empresas que esperam minerar estas áreas em pouco tempo".

No entanto, ainda precisam ser negociadas as condições e regras dessa atividade econômica, como por exemplo a divisão de royalties, já que um dos princípios básicos da Isba é que as riquezas do fundo do oceano devem ser compartilhadas globalmente.

A exploração mineral do fundo oceano começou a ser investigada na década de 1960, mas só recentemente tornou-se possível graças a avanços tecnológicos – criados nas indústrias de petróleo e gás. Ao mesmo tempo, o preço destas matérias-primas aumentou, também as chances de se obter um bom retorno econômico, o que viabilizou os investimentos necessários para obtê-las.

Impacto ambiental

No entanto, esse tipo de exploração não é vista com bons por grupos de defesa do meio ambiente, que alegam que a exploração pode trazer prejuízos para ecossistemas marinhos.

Um protocolo para minimizar o impacto ambiental ainda está sendo estudado.

O biólogo marinho Jon Copley, da Universidade de Southampton, vem monitorando a mineração nas chamadas dorsais oceânicas, nome dado às cadeias de montanhas submersas que se originam do afastamento de placas tectônicas.

"Cerca de 6.000km de dorsais oceânicas, ou 7,5% do total, são exploradas hoje por seu potencial mineral", afirma Copley.

"Essas dorsais são um dos três locais do fundo do oceano em que há depósitos mineirais que atraem o interesse de países e empresas. Mas também vivem nestes locais colônias de espécies que não são encontradas em outras partes do oceano e podem ser suscetíveis a impactos ambientais gerados pela mineração."

Santos, da CPRM, diz que isso será levado em conta no caso brasileiro: "Faremos um estudo de impacto ambiental junto com o de potencial econômico. Nosso pedido foi muito elogiado por causa disso".Rafael Barifouse – Brasil in “Defesanet”