Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 28 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde acelera valorização de terapias para tumores cerebrais

Quatro investigadoras do instituto concluíram um dos principais programas nacionais de transferência de tecnologia para projetos de investigação


Uma equipa de investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto concluiu com sucesso a edição de 2026 do HiTech by HiSeedTech, um dos mais prestigiados programas nacionais de valorização e transferência de tecnologia para projetos deep tech com potencial de mercado.

O projeto GlioBrain-Plate, desenvolvido por Ana Olival, Cecília Ferreira e Diana Ribeiro, sob a liderança de Cláudia Martins, integra o grupo Nanomedicines and Translational Drug Delivery do i3S, liderado por Bruno Sarmento. “Estamos a desenvolver uma plataforma pré-clínica inovadora para o teste de novas terapias dirigidas a tumores cerebrais sólidos, com foco inicial no glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais frequente e mortal em adultos”, explica Cláudia Martins.

A tecnologia reproduz, em laboratório, a interação entre a barreira hematoencefálica e o tumor, permitindo avaliar, em simultâneo, a capacidade de uma terapia atravessar esta barreira natural de proteção do cérebro e a sua eficácia terapêutica.

“Ao disponibilizar um modelo mais preditivo da resposta humana, o GlioBrain-Plate pretende acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos, reduzir os custos e riscos associados ao desenvolvimento clínico e contribuir para aumentar a probabilidade de sucesso de novas terapias para pacientes com tumores cerebrais”, sublinha a investigadora.

A participação no HiTech permitiu à equipa aprofundar competências em inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia ao longo de 18 semanas de formação, mentoria e contacto com a indústria, empreendedores e investidores. Entre todas as candidaturas submetidas a nível nacional, apenas 10 projetos foram selecionados para integrar a edição de 2026.

O programa terminou com a apresentação do pitch final no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, perante representantes da indústria, investidores, empreendedores e especialistas do ecossistema nacional de inovação. O percurso constituiu um passo importante na valorização da tecnologia desenvolvida pela equipa e na preparação da sua futura transferência para o mercado. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre como o cancro do estômago convence a gordura a alimentá-lo

Estudo abre caminho ao desenvolvimento de terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células tumorais e as células do tecido adiposo


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova forma de comunicação entre as células do cancro do estômago e as células do tecido adiposo, isto é, as células de gordura. Os resultados do estudo, publicados na revista Extracellular Vesicles and Circulating Nucleic Acids, mostram como esta interação pode ser responsável pelo fornecimento de energia às células tumorais, favorecendo a progressão da doença.

“Sabe-se que as células cancerígenas comunicam constantemente com os tecidos à sua volta, criando condições que favorecem o desenvolvimento da doença”, explica Celso Reis, coordenador do grupo de investigação do i3S Glycobiology in Cancer. No entanto, existem ainda muitas perguntas por responder sobre como essa comunicação acontece.

Neste estudo, os investigadores analisaram células de cancro do estômago que apresentam à superfície uma molécula de açúcar chamada sialyl-Tn (STn), frequentemente encontrada em tumores mais agressivos. “Verificámos que estas células libertam pequenas partículas, conhecidas como vesículas extracelulares, que funcionam como «mensagens» enviadas para outras células do organismo”, refere Daniela Freitas, investigadora do i3S e coordenadora do estudo. Quando estas partículas chegam às células de gordura, provocam alterações no seu funcionamento. Como resultado, o tecido adiposo começa a libertar mais ácidos gordos, moléculas ricas em energia que podem ser aproveitadas pelas células tumorais.

“Observámos que as células cancerígenas conseguem adaptar-se para utilizar essa gordura como combustível. Ao terem acesso a esta fonte adicional de energia, tornam-se mais móveis e podem ganhar uma maior capacidade de invadir os tecidos vizinhos”, sublinha Cátia Ramos, primeira autora do estudo.

O trabalho identificou ainda a molécula STn como um elemento central neste processo de comunicação. Esta descoberta, garantem os investigadores do i3S, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novas terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células cancerígenas e as células de gordura, dificultando o acesso do tumor a esta fonte de energia.

Além do seu potencial impacto no controlo da progressão do cancro, esta investigação poderá também contribuir para combater problemas frequentemente associados à doença, como a perda acentuada de peso, de massa muscular e de gordura corporal, afetando de forma significativa a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes com cancro.

Ao revelar esta nova forma de interação entre o tumor e os tecidos que o rodeiam, o trabalho do i3S reforça a importância de compreender não apenas as células cancerígenas, mas também o ambiente em que estas se desenvolvem. Universidade do Porto - Portugal

 


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inova no tratamento da leucemia mieloide aguda

Nova estratégia terapêutica que potencia quimioterapia contra a leucemia mieloide aguda deverá ser testada em colaboração com o IPO Porto


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova estratégia terapêutica, agora publicada na Science Translational Medicine, que pode melhorar a eficácia da quimioterapia e reduzir complicações graves associadas ao tratamento da leucemia mieloide aguda.

O grupo, liderado por Delfim Duarte, provou que a administração de transferrina, uma proteína que transporta ferro pela corrente sanguínea, em conjunto com a quimioterapia, melhora a recuperação da medula óssea, aumenta a sobrevivência e reduz as complicações infecciosas associadas à terapia convencional.

A leucemia mieloide aguda é tratada, na maioria dos casos, com quimioterapia intensiva. “Apesar de eliminar células cancerígenas com eficácia, este tratamento provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos”, explica 0 hematologista do IPO Porto e líder do grupo de investigação Hematopoiesis and Microenvironments do i3S.

Neste estudo, os investigadores testaram a administração de apotransferrina humana, uma forma de transferrina sem ferro, para captar esse mineral em excesso e redistribuí-lo para células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário.

Utilizando vários modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, a equipa demonstrou que esta abordagem reduz significativamente os níveis de ferro tóxico circulante após a quimioterapia.

Nova terapia reforça combate a infeções graves

A equipa estudou ainda a segurança desta estratégia no contexto de infeção grave, uma das principais causas de morte em doentes com leucemia mieloide aguda.

Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. “Não porque se eliminaram as bactérias, mas devido a uma resposta inflamatória mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção”, esclarece Marta Lopes, primeira autora do estudo.

Com base nestes “dados pré-clínicos promissores”, a equipa espera poder avançar, num futuro próximo, com um ensaio clínico, em colaboração com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto, que avalie o uso da transferrina como terapêutica adjuvante à quimioterapia.

“O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia desta combinação [transferrina e quimioterapia] em doentes com leucemia mieloide aguda”, conclui Delfim Duarte. Universidade de Porto


sábado, 27 de junho de 2026

Angola - Cátedra UNESCO desafia ensino superior a produzir mais ciência

A funcionar desde o dia 8 de junho, a iniciativa surge como um instrumento para reforçar a investigação, modernizar o acesso ao conhecimento e aproximar o ensino superior angolano dos padrões internacionais. O sucesso dependerá agora da adesão efectiva das instituições académicas


Instalada na Universidade Óscar Ribas (UÓR). Trata-se de um instrumento de cooperação internacional destinado a fortalecer a investigação científica, melhorar a circulação do conhecimento e aumentar a qualidade do ensino superior no País.

A adesão de Angola ao programa UNITWIN/UNESCO, que suporta a criação destas cátedras, começou ainda em 2019, quando o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI), em parceria com instituições académicas nacionais e organismos internacionais, iniciou um diagnóstico sobre o estado da ciência aberta no País. O trabalho culminou com a aprovação da proposta angolana em 2021.

Desde então, o projecto passou por várias fases de consolidação institucional. Entre 2022 e 2024 foram desenvolvidos os instrumentos estruturantes da iniciativa, incluindo a Política Nacional de Ciência Aberta, o Repositório Nacional de Acesso Aberto (RaNAA) e os mecanismos de integração das bibliotecas virtuais universitárias.

O objectivo é criar uma infraestrutura nacional que permita armazenar, partilhar e disseminar gratuitamente artigos científicos, teses, estudos e outros conteúdos produzidos pelas instituições de ensino superior e centros de investigação do País.

A lógica seguida pela UNESCO mostra que antes de internacionalizar a produção científica, é necessário organizar e fortalecer o ecossistema nacional de conhecimento. Por isso, a prioridade inicial passa pela criação de uma rede nacional de ensino e investigação capaz de interligar universidades, centros de pesquisa, revistas científicas e bibliotecas digitais. Só depois estarão reunidas as condições para uma participação plena nas grandes redes internacionais de investigação e nos repositórios científicos globais.

Uma das questões que tem gerado alguma confusão pública é a associação da Cátedra UNESCO ao projecto da futura Universidade Virtual de Angola (UVA). Embora ambos utilizem ferramentas digitais, trata-se de iniciativas completamente distintas.

A Universidade Virtual de Angola é um projecto de ensino à distância que pretende disponibilizar cursos superiores através de plataformas online e que continua dependente de enquadramento legal próprio e de financiamento para a sua implementação. Já a Cátedra UNESCO de Ciência Aberta não é uma universidade nem atribui graus académicos. A sua função consiste em promover investigação, formação especializada, cooperação científica, produção de conhecimento e articulação entre instituições nacionais e internacionais.

Na prática, funcionará como uma plataforma de excelência dedicada à organização de seminários, conferências, programas de capacitação, cursos de curta duração, produção de estudos e apoio à formulação de políticas públicas baseadas em evidência científica... Adriano Kayunduma – Angola in “Expansão”


sábado, 20 de junho de 2026

Angola - Investigação associa o país a empresa suspeita de interferência em eleições

Companhia israelita Blackcore averiguada em França. A Viginum, agência governamental francesa que monitoriza, detecta e caracteriza eventuais operações de interferência digital estrangeira afirma que a BlackCore coordena dezenas de perfis e grupos falsos no Facebook que defendem o governo e o MPLA

O que começou por ser uma investigação sobre influência estrangeira e manipulação das eleições locais em França, rapidamente se transformou num caso que envolve vários países e actividades suspeitas no Togo, Escócia, EUA e Angola. No centro das investigações está uma obscura empresa de origem israelita, chamada BlackCore, que em Fevereiro de 2026 terá sido contratada pelo Governo angolano, segundo as autoridades francesas.


No passado dia 12 de Junho, a Viginum, agência governamental francesa encarregada de monitorizar, detectar e caracterizar operações de interferência digital estrangeira, que é tutelada pelo Secretariado-Geral de Defesa e Segurança Nacional (SGDSN) de França, divulgou publicamente um relatório com o título "Rokh Solis: Análise de um modus operandi informativo que teve como alvo as eleições autárquicas de Março de 2026", que divulga as informações apuradas sobre as operações da BlackCore naquele país.

No caso de Angola, a agência identificou dezenas de contas, grupos e perfis falsos, que actuam de forma coordenada para expandir, abafar ou interferir directamente em narrativas e informações que circulam nas redes sociais e na internet, sobretudo para veicular mensagens favoráveis ao governo e ao MPLA. "As investigações conduzidas pela Viginum permitiram identificar", para além das contas associadas às eleições autárquicas em França, outro conjunto "com características idênticas, mas que, desta vez, visavam públicos em Angola", segundo consta no relatório oficial consultado pelo Expansão.

"Com efeito, foram identificadas 48 contas ainda activas, que apresentam vários elementos semelhantes ao conjunto descrito anteriormente: fotografias geradas por inteligência artificial, utilização de nomes com conotação lusófona («Maria Sousa», «Paulo Carvalho», «Luísa Pereira», etc.), partilhas em comum entre estas diferentes contas e coordenação das suas interacções nas mesmas publicações através de "gostos" ou comentários", descreve a Viginum. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


terça-feira, 16 de junho de 2026

Macau – Inteligência Artificial está a gerar “transformação profunda” em universidades lusófonas

A presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) afirmou em Macau que as instituições de ensino superior lusófonas enfrentam “uma época de transformação profunda”, marcada pela inteligência artificial (IA) e pela digitalização.


“A inteligência artificial está a alterar a forma como produzimos, partilhamos e utilizamos o conhecimento, e a transformação digital redefine os processos de ensino, aprendizagem e investigação”, disse Astrigilda Silveira, na abertura do 35.º Encontro da AULP organizado no território.

Este encontro junta 36 reitores e presidentes de instituições de ensino superior dos Países de Língua Portuguesa (PLP) até amanhã, e coincide com o IV Fórum de Reitores da China, Macau e Países de Língua Portuguesa.

Sobre outro assunto, Silveira alertou também que as “alterações climáticas desafiam particularmente os pequenos Estados insulares, as regiões costeiras e as comunidades mais vulneráveis”, sublinhando que as universidades devem assumir-se como “líderes e promotoras da mudança”, formando profissionais “altamente qualificados e cidadãos comprometidos” com o desenvolvimento sustentável.

“Nenhuma universidade, por mais forte que seja, conseguirá responder sozinha aos grandes desafios globais. Precisamos da ciência colaborativa, da rede de investigação, de partilhar infra-estruturas, conhecimentos e talentos”, frisou a também reitora da Universidade de Cabo Verde.

A responsável destacou que os programas de mobilidade, as parcerias internacionais e os projectos de investigação colaborativa já demonstraram o valor acrescentado da associação, mas advertiu que os próximos anos exigem “mais ambição”.

Entre as prioridades, apontou o reforço da colaboração científica entre os membros, a internacionalização da produção científica em língua portuguesa, a aceleração da transformação digital e da transição energética, bem como a criação de mais oportunidades para estudantes e investigadores.

“A nossa língua é um património comum, mas é também um activo estratégico, um instrumento de aproximação e uma plataforma para a construção de soluções globais a partir de realidades diversas”, afirmou, defendendo que o português deve continuar a afirmar-se como “língua da ciência, inovação e conhecimento”.

Apelou a que o “espírito de cooperação que caracteriza Macau” inspire os trabalhos e decisões da comunidade académica lusófona.

“Que daqui surjam novas ideias, novos projectos, novas parcerias e uma renovada ambição para os 40 anos da nossa Associação”, concluiu.

O evento contou também com a presença do ministro da Educação, Ciência e Inovação de Portugal, Fernando Alexandre, que revelou que o modelo de linguagem de IA em português Amália será apresentado “este mês”.

Este ano, o Ministério da Reforma do Estado classificou o modelo de IA como “estratégico para Portugal”, anunciando que seria “orientado para o desenvolvimento de novos casos de uso, incluindo no sistema educativo, para apoiar alunos e professores com ferramentas adaptadas ao contexto português”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde desenvolve Inteligência Artificial que aprende a comunicar com neurónios

O projeto NeuroSAFE vai ser financiado com cerca de 100 mil euros no âmbito do Concurso de Projetos Exploratórios 2025 do Programa CMU Portugal


O investigador Paulo Aguiar, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, vai liderar um novo projeto financiado em cerca de 100 mil euros pelo Concurso de Projetos Exploratórios 2025 do Programa CMU Portugal. O projeto intitulado NeuroSAFE foi um dos sete selecionados para financiamento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito desta iniciativa de colaboração internacional com a Carnegie Mellon University (CMU).

“O projeto NeuroSAFE pretende desenvolver novos métodos de inteligência artificial (IA) para controlar a atividade de neurónios, de forma segura e adaptativa”, explica o líder do grupo de investigação Neuroengineering and Computational Neuroscience do i3S. A ideia é criar algoritmos que observam continuamente a atividade dos neurónios, tomam decisões sobre quando e como estimulá-los e ajustam essas decisões com base na resposta obtida. Este processo acontece em tempo real, funcionando de forma semelhante a um sistema que aprende com a experiência e melhora gradualmente o seu desempenho.

Esta abordagem poderá contribuir para o desenvolvimento de futuras gerações de sistemas de estimulação cerebral profunda, utilizados, por exemplo, no tratamento da doença de Parkinson e de outras perturbações neurológicas.

“Como estes algoritmos não podem ser desenvolvidos diretamente com pacientes, a equipa recorrerá a plataformas brain-on-chip”, acrescenta Paulo Aguiar. Estas plataformas funcionam como pequenos laboratórios onde neurónios vivos são cultivados e ligados a sensores capazes de registar e estimular a sua atividade elétrica. Isto permite aos investigadores treinar os algoritmos em condições controladas e seguras.

O projeto resulta de uma colaboração entre o i3S e o Department of Electrical and Computer Engineering (ECE) da Carnegie Mellon University, sendo coordenado por Paulo Aguiar em Portugal e por Yorie Nakahira na instituição norte-americana. Para o investigador do i3S, este financiamento representa também uma oportunidade para reforçar a cooperação científica internacional e lançar bases para futuros desenvolvimentos na área das neurotecnologias. “

Este financiamento é particularmente importante porque permite estreitar a colaboração entre o i3S e a CMU, gerar dados preliminares e desenvolver ferramentas computacionais que poderão contribuir para futuras neurotecnologias inteligentes e personalizadas”, sublinha Paulo Aguiar.

Os resultados provisórios dos Concursos de Projetos Exploratórios 2025 dos programas CMU Portugal e UT Austin Portugal contemplam um total de 15 projetos, correspondendo a um investimento global de quase 800 mil euros, integralmente financiado pela FCT. No caso concreto do Programa CMU Portugal, foram apoiados sete projetos na área das Tecnologias de Informação, entre 36 candidaturas submetidas.

Desde 2017, o programa já financiou 42 projetos, contribuindo para reforçar a competitividade internacional e a capacidade de inovação científica e tecnológica de Portugal. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Internacional - Arribas de São Pedro de Moel guardam o registo geológico mais completo do mundo de um período crítico do Jurássico

Investigação contou com a colaboração do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra


Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth-Science Reviews, revela que as arribas costeiras de São Pedro de Moel (Portugal) e das Astúrias (Espanha) conservam o registo mais completo conhecido a nível mundial de um período crítico da história da Terra: a transição entre os andares Sinemuriano e o Pliensbaquiano, ocorrida há cerca de 193 milhões de anos, no Jurássico Inferior.

A investigação, liderada pela Universidade Complutense de Madrid, em colaboração com o Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra (MARE-U. Coimbra), demonstra que estas regiões ibéricas são autênticos "laboratórios naturais". A análise detalhada de fósseis de amonites permitiu refinar a escala de tempo geológico com uma precisão sem precedentes.

Através da análise detalhada de fósseis de amonites, antigos moluscos cefalópodes marinhos, os investigadores conseguiram refinar a escala do tempo geológico com uma precisão sem precedentes. O estudo destaca ainda que as secções de Água de Madeiros, no concelho da Marinha Grande, e Pedra do Ouro, no concelho de Alcobaça, são referências globais pela sua continuidade estratigráfica e riqueza fóssil, superando em detalhe muitas outras regiões europeias.

Luís Vítor Duarte, coautor do estudo e investigador do MARE-U. Coimbra e do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), explica que “este trabalho mostra a importância destas secções geológicas como referências internacionais para melhorar a forma como medimos o tempo no Jurássico Inferior. Como os fósseis estão muito bem preservados e aparecem de forma contínua, é possível comparar com grande precisão estas camadas em Portugal e noutros países da Europa, ajudando a construir uma escala do tempo geológico mais exata a nível global.”

Entre os principais resultados, o trabalho demonstra como variações significativas no nível do mar e alterações no ciclo global do carbono, identificadas através de análises geoquímicas, estiveram associadas a episódios de extinção de grupos de amonites e ao aparecimento de novas espécies mais adaptadas às mudanças ambientais. Estes mecanismos permitem compreender de forma mais clara como as crises ambientais influenciaram a evolução da vida marinha há cerca de 190 milhões de anos.

O estudo estima ainda que cada “horizonte” de amonites, unidade fundamental usada na datação destes registos geológicos, corresponde em média a cerca de 100 mil anos, possibilitando uma leitura de alta resolução do passado da Terra. Esta precisão reforça o valor científico das secções ibéricas como uma das melhores janelas globais para a reconstrução do Jurássico Inferior.

O estudo fornece ainda novos elementos para compreender as ligações paleobiogeográficas entre diferentes bacias marinhas do Jurássico Inferior, incluindo discussões relacionadas com o chamado “Corredor Hispânico”, uma antiga ligação marinha entre o Tétis e o Pacífico que poderá ter facilitado a dispersão de organismos marinhos.

Em síntese, os autores sublinham que estas secções ibéricas representam peças fundamentais para a calibração da escala do tempo geológico. Ao compreender como os ecossistemas marinhos responderam a alterações climáticas e variações do nível do mar no passado profundo da Terra, torna-se possível melhorar a previsão dos padrões de resposta da biodiversidade face às atuais mudanças globais. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Internacional - Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto revela “mapas” cerebrais de risco psiquiátrico

Estudo internacional cruzou genética e neuroimagem para perceber porque certas áreas do cérebro são mais vulneráveis a doenças como a depressão ou a esquizofrenia


Um estudo com a participação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) desenvolveu mapas de risco genético para doenças psiquiátricas com base em imagens da estrutura do cérebro e numa técnica de biologia molecular que analisa a expressão de genes num determinado momento, designada transcriptómica.

Publicado na prestigiada revista científica Molecular Psychiatry, do grupo Nature, “este trabalho revela como o risco genético para doenças psiquiátricas se organiza no cérebro humano e se relaciona com alterações estruturais cerebrais observadas em neuroimagens”, explica Daniel Martins, professor e investigador da FMUP na área das Neurociências.

Os investigadores utilizaram um método inovador que integra dados genéticos de larga escala e a neuroimagem para analisar sete doenças psiquiátricas, incluindo depressão, esquizofrenia, perturbação de hiperatividade/défice de atenção (PHDA), autismo e perturbação obsessivo-compulsiva. O objetivo era “compreender por que certas regiões cerebrais são mais vulneráveis em cada uma das doenças psiquiátricas”.

Embora estas doenças tenham causas multifatoriais resultantes da interação entre fatores genéticos, ambientais e do neurodesenvolvimento, as abordagens tradicionais tendem a analisar a suscetibilidade genética e as alterações neuroanatómicas separadamente.

Este novo estudo permite, assim, “projetar o impacto do risco genético no espaço do cérebro, com base em mapas de risco derivados da expressão génica. Esta abordagem estabelece uma ponte direta entre genes, processos moleculares e alterações anatómicas observadas por ressonância magnética”.

“As alterações estruturais do cérebro observadas em algumas doenças psiquiátricas não surgem ao acaso, mas refletem, em parte, a organização molecular do próprio cérebro. Na depressão major e na esquizofrenia, por exemplo, há uma correspondência clara entre padrões de expressão génica associados ao risco genético e as regiões cerebrais mais afetadas”, explica Daniel Martins.

Segundo o docente da FMUP, os resultados indicam ainda que diferentes doenças psiquiátricas parecem envolver mecanismos biológicos distintos. “Enquanto a depressão e a esquizofrenia mostram forte envolvimento de vias imunitárias e inflamatórias, a PHDA apresenta maior associação a processos de neurodesenvolvimento”, elucida.

Os autores sublinham, aliás, que “esta abordagem não é reducionista” e que “os genes não determinam isoladamente a doença, antes interagem com fatores ambientais, desenvolvimento e experiência ao longo da vida”.

“A publicação na Molecular Psychiatry — uma das revistas mais prestigiadas na área da psiquiatria biológica — reforça a visibilidade internacional da investigação desenvolvida com participação da FMUP e o seu contributo para os avanços na área da psiquiatria”, conclui Daniel Martins.

Além de Daniel Martins, que integra a área de Neurociências e Saúde Mental da FMUP, liderada por Lia Fernandes (ambos FMUP/RISE-Health), esta investigação é assinada também por cientistas do King’s College London, Universidade de Londres (Reino Unido), Universidade Goethe (Alemanha) e Universidade de Padova (Itália). Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Internacional - Fungos únicos no planeta estão a desaparecer. Estudo liderado pela Universidade de Coimbra alerta para perdas irreversíveis

Apesar de serem vitais para os ecossistemas, os fungos continuam largamente esquecidos na conservação global


Um estudo internacional liderado pelo Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) alerta que há espécies de fungos únicas no planeta, sem parentes próximos na árvore da vida, que podem desaparecer para sempre.

A investigação, desenvolvida em colaboração com o Comité para a Conservação dos Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), identificou espécies evolutivamente distintas e globalmente ameaçadas. Estas espécies representam linhagens isoladas, com histórias evolutivas únicas acumuladas ao longo de milhões de anos, o que significa que a sua extinção não seria apenas mais uma perda de biodiversidade, mas sim o desaparecimento de ramos inteiros da história da vida na Terra.

Publicado na revista científica Conservation Letters, o estudo analisou 94 espécies de fungos pertencentes a géneros monotípicos, grupos que incluem apenas uma única espécie conhecida. Os resultados revelam um cenário preocupante: nove espécies já se encontram ameaçadas ou próximas disso, enquanto a maioria, 56, não dispõe de informação suficiente para avaliar o seu estado de conservação. Apenas 28 foram classificadas como de baixo risco. Para os investigadores, este desconhecimento é, por si só, um dos maiores sinais de alerta.

“A deficiência de dados reflete graves lacunas no conhecimento sobre estes organismos. Em muitos casos, as espécies são conhecidas apenas pela sua descrição original, feita há mais de uma década, sem qualquer registo desde então”, explica Susana Cunha, líder do estudo e aluna do Doutoramento em Biociências da FCTUC e do Jardim Botânico Real de Kew no Reino Unido.

“Isto significa que podemos estar a perder espécies únicas sem sequer termos consciência disso.”

Apesar do seu papel fundamental para a vida na Terra, nomeadamente na decomposição de matéria orgânica e na regulação dos ciclos de nutrientes, os fungos continuam largamente ausentes das prioridades globais de conservação. Ao contrário do que acontece com animais e plantas, ainda não existe uma lista que identifique as espécies de fungos mais distintas evolutivamente e ameaçadas, uma lacuna que os investigadores consideram urgente colmatar.

O estudo sublinha que a falta de dados resulta de anos de subinvestimento na investigação micológica. Sem informação básica sobre distribuição, ecologia e diversidade, torna-se difícil integrar os fungos nas políticas de conservação e garantir a sua proteção efetiva.

Para inverter esta tendência, os autores defendem um reforço do investimento em investigação de base, incluindo inventariações de campo e o uso de ferramentas inovadoras como o DNA ambiental, que pode ajudar a revelar a presença de espécies difíceis de detetar. Ao mesmo tempo, destacam o potencial da ciência cidadã como forma de acelerar o conhecimento, envolvendo comunidades locais na recolha de dados sobre a diversidade fúngica.

“Espécies com poucos registos ou registos antigos são candidatas ideais para projetos participativos”, sublinha Susana Gonçalves, coautora do estudo. “O envolvimento dos cidadãos pode ser decisivo para colmatar lacunas de informação e apoiar a conservação.”

Os investigadores recomendam, ainda, que estas espécies únicas sejam alvo de análises moleculares para confirmar a sua posição isolada na árvore da vida e, sempre que se confirme o seu carácter singular, que passem a ser prioridade na conservação. Sem uma ação concertada, alertam, o mundo arrisca-se a perder uma parte insubstituível do seu património natural, muitas vezes antes mesmo de a conhecer. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Portugal - Universidade de Coimbra lidera projeto de reutilização de água tratada na agricultura

Iniciativa promove o aproveitamento de efluentes municipais para uma gestão mais sustentável dos recursos hídricos


O projeto SAFEWATER, liderado pelo investigador João Gomes do CERES - Chemical Engineering and Renewable Resources for Sustainability, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, já está em andamento e visa promover a reutilização sustentável de água tratada para fins agrícolas, contribuindo para uma gestão mais eficiente dos recursos hídricos e para a adaptação às alterações climáticas.

Desenvolvido em parceria com a InovCluster, os Serviços Municipalizados de Castelo Branco, o AdP VALOR e com a cooperação do Parque Natural do Tejo Internacional, o projeto testa a aplicação de tratamento quaternário de efluentes provenientes da ETAR de Castelo Branco assim como do sistema de drenagem municipal, permitindo a sua utilização na irrigação agrícola, nomeadamente na região do Parque Natural do Tejo Internacional.

Esta abordagem pretende reforçar a resiliência do setor agrícola, promovendo soluções inovadoras para a gestão da água em territórios sensíveis e valorizando as potencialidades locais.

O SAFEWATER integra múltiplas áreas de investigação e inovação, incluindo microbiologia aplicada à agricultura, gestão e operação de redes de água e soluções tecnológicas e práticas inovadoras para o setor agrícola.

O projeto promove, ainda, a cooperação entre investigadores, entidades públicas e parceiros do setor privado, fomentando a partilha de conhecimento e o desenvolvimento de soluções práticas que possam ser replicadas noutras regiões.

Financiado pela Fundação “la Caixa” e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), o SAFEWATER destaca-se como um contributo estratégico para a transição para modelos mais sustentáveis no uso eficiente da água, reforçando a inovação territorial e a sustentabilidade ambiental. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 1 de abril de 2026

Portugal - Investigadores da Universidade de Coimbra alertam que a avaliação da saúde dos rios em Portugal está incompleta e propõem um método complementar

Um estudo coordenado pelo MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com o laboratório Rede de Investigação Aquática (ARNET), alerta que a avaliação da saúde dos rios em Portugal está incompleta e propõe um método complementar baseado na decomposição da matéria vegetal.


O trabalho, intitulado “Moderators of Organic Matter Decomposition in Portuguese Streams: A Field Study and Literature Review” e publicado na revista Freshwater Biology, envolveu 23 investigadores de sete instituições nacionais. A equipa analisou a decomposição de folhas e madeira em 37 ribeiros do continente e da Madeira, e realizou uma revisão de 61 estudos prévios sobre decomposição de detritos vegetais em rios portugueses.

Segundo os investigadores, medir a taxa de decomposição da matéria vegetal permite avaliar a integridade funcional dos ecossistemas aquáticos, um aspeto que não é considerado na avaliação oficial, que se baseia quase exclusivamente em indicadores estruturais, como as comunidades aquáticas ou a qualidade da água.

“Mesmo entre ribeiros praticamente intactos, observamos grande variabilidade nas taxas de decomposição”, afirma Verónica Ferreira, coordenadora do estudo. “Só conhecendo as taxas naturais de decomposição é possível identificar desvios que indiquem perturbações, mesmo antes de serem visíveis nas comunidades aquáticas.”

O estudo revela, ainda, que fatores como o tipo de detrito vegetal, a presença de macroinvertebrados fragmentadores, a temperatura da água, o regime hidrológico, a estação do ano e a composição química da água influenciam a velocidade de decomposição. Ribeiros permanentes e intermitentes apresentam dinâmicas distintas, refletindo diferenças na disponibilidade de água e na atividade biológica ao longo do ano.

Os autores defendem a padronização dos métodos de medição das taxas de decomposição - incluindo o tipo de detrito a usar, a duração da incubação e o acesso dos invertebrados - como ferramenta robusta para avaliação funcional e comparações entre diferentes ecossistemas.

“Este trabalho estimula a integração de indicadores funcionais na avaliação da saúde dos rios, permitindo uma visão mais completa e realista da condição destes ecossistemas”, concluem os investigadores. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 23 de março de 2026

Portugal - Polpa de café pode ajudar a combater a síndrome metabólica

Estudo liderado por investigadores da FMUP e da FFUP demonstra benefícios no controlo do peso, da glicose e da pressão arterial


Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), em colaboração com a Faculdade de Farmácia (FFUP) e o Laboratório Associado para a Química Verde e da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE/LAQV), concluiu que a polpa de café – um subproduto frequentemente descartado durante a produção do grão – apresenta benefícios metabólicos relevantes.

Publicado na revista científica Antioxidants, o trabalho demonstrou que a suplementação com polpa de café reduziu o aumento de peso, melhorou os níveis de glicose no sangue, diminuiu a resistência à insulina e atenuou a subida da pressão arterial em animais alimentados à base de uma dieta rica em frutose.

Fátima Martel, professora da FMUP e uma das autoras deste trabalho, explica que foram avaliados os efeitos da polpa de café num modelo experimental, no qual se mimetizaram as alterações observadas na síndrome metabólica humana. Os resultados indicam que a suplementação com este subproduto contribuiu para atenuar várias dessas alterações, incluindo a acumulação de gordura no fígado e perturbações no metabolismo da glicose.

“Os componentes bioativos da polpa de café atuam de forma integrada sobre as vias metabólicas, inflamatórias e vasculares, revelando-se um potencial funcional relevante na mitigação de múltiplos componentes da síndrome metabólica”, descreve a investigadora.

O estudo destaca que este subproduto é particularmente rico em cafeína e compostos fenólicos, associados a uma elevada atividade antioxidante e a efeitos benéficos no combate à inflamação, hipertensão, diabetes e acumulação de gordura.

Aplicações alimentares em desenvolvimento

“A polpa de café pode ser utilizada de diferentes formas, como infusão ou incorporada em alimentos como pães, bolos, bolachas e iogurtes”, descreve Rita Carneiro Alves, investigadora do REQUIMTE/LAQV, que acrescenta que as equipas de investigação já desenvolveram bolachas e bebidas com polpa de café, que registaram boa aceitação num painel de avaliação sensorial.

Saliente-se que a introdução da polpa seca de café no mercado da União Europeia foi recentemente autorizada pelas autoridades competentes.

Assim, os investigadores sugerem que a polpa de café poderá evoluir para um recurso multifuncional, capaz de gerar alimentos funcionais e ingredientes tecnológicos.

“Esta transição não só amplia o portefólio de aplicações económicas, como também contribui para práticas agrícolas mais sustentáveis e para a redução do impacto ambiental da produção de café”, finalizam as investigadoras.

Os próximos passos passam pela transposição dos resultados obtidos para o contexto clínico em humanos, mas a realização desses ensaios dependerá da obtenção de novo financiamento.

O estudo contou com a participação dos investigadores Nelson Andrade, Ilda Rodrigues, Francisca Carmo, Gabriela Campanher, Isabella Bracchi, Joanne Lopes, Emília Patrício, João T. Guimarães, Juliana A. Barreto-Peixoto, Anabela S. G. Costa, Liliana Espírito Santo, Marlene Machado, Thiago F. Soares, Susana Machado, Maria Beatriz P. P. Oliveira, Rita C. Alves, Fátima Martel e Cláudia Silva, e foi realizada no âmbito do projeto COBY4HEALTH, liderado pelo REQUIMTE e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 21 de março de 2026

Angola - Estudo sobre a bebida kissangua publicado em revista internacional

O estudo foi feito pelos investigadores e docentes da Universidade Rainha Njinga a Mbande (URNM), Isabel Balanga Pedro e Bettencourt Munanga com a participação de um estudante de tecnologia agro-alimentar, Emanuel Braga, e publicado na revista americana Journal of Food and Nutrition Sciences


A produção científica nacional começa, lentamente, a dar sinais de maturidade e de ligação a activos económicos locais, rompendo com uma tradição excessivamente teórica e distante da realidade produtiva. O mais recente exemplo surge da Universidade Rainha Njinga a Mbande, onde um grupo de investigadores conseguiu transformar um produto tradicional - a kissangua - em objecto de estudo estruturado, com publicação numa revista científica internacional de referência, a Journal of Food and Nutrition Sciences. Mais do que um exercício académico, trata-se de um sinal relevante sobre o potencial económico ainda subexplorado de produtos endógenos angolanos.

O estudo, que envolveu 35 produtores e 100 consumidores nas cidades do Huambo, Malanje e Kuito, não se limita a descrever práticas tradicionais, indo mais longe ao cruzar dimensões tecnológicas, sensoriais e socioeconómicas da produção de kissangua.

Esta abordagem integrada revela, desde logo, uma mudança de paradigma: a academia começa a olhar para os produtos locais não apenas como património cultural, mas como potenciais activos industriais com viabilidade económica, ainda que condicionada por factores muito específicos do comportamento do consumidor.

Do ponto de vista económico, o estudo traz dados concretos que ajudam a enquadrar a cadeia de valor desta bebida. As margens de comercialização variam entre cerca de 160 Kz por litro em Malanje e aproximadamente 240 Kz no Huambo e Kuito, evidenciando assimetrias regionais que podem estar associadas tanto a custos de produção como à própria dinâmica de mercado local.

Esta diferença, aparentemente marginal, levanta questões relevantes sobre eficiência produtiva, acesso a matérias-primas e elasticidade da procura, factores que devem ser considerados em qualquer tentativa de escalonamento industrial. Mas é sobretudo na dimensão da industrialização que o estudo ganha maior relevância estratégica. A investigação conclui que a transformação da kissangua num produto industrial é tecnicamente viável, mas economicamente dependente de um factor crítico: a capacidade de replicar, em escala, características sensoriais profundamente enraizadas nas preferências dos consumidores.

A fermentação natural, o sabor das raízes locais (mbundi no Huambo e Kuito, mucundu em Malanje) e o equilíbrio entre acidez e doçura não são meros detalhes - são elementos estruturais da aceitação do produto . A experiência falhada da industrialização anterior - com a introdução da "Compal Kissangua da Banda" em 2018 - surge, neste contexto, como um estudo de caso quase didáctico.

O produto foi rejeitado não apenas pelo preço elevado, mas sobretudo por ser percepcionado como "artificial", falhando precisamente nos atributos que o estudo agora identifica como críticos para o sucesso. Ou seja, a tentativa de industrialização ignorou aquilo que este novo trabalho académico demonstra: que o valor económico da kissangua está intrinsecamente ligado à sua autenticidade.

Os dados recolhidos reforçam esta leitura. Cerca de 67,62% dos inquiridos nunca ouviram falar de versões industrializadas e 84% nunca as consumiram, enquanto os poucos que experimentaram apontaram falhas claras na qualidade sensorial, desde a ausência de ingredientes tradicionais até deficiências no processo de fermentação.

Ainda assim, existe uma base potencial de mercado, desde que essas limitações sejam ultrapassadas - o que abre espaço para modelos híbridos entre produção artesanal e industrial, eventualmente com certificação de origem ou processos semi-industriais adaptados às especificidades regionais.

Em termos mais amplos, este trabalho levanta uma questão central para a economia angolana: até que ponto o País está preparado para transformar conhecimento científico em valor económico?

A existência de investigação aplicada, publicada em revistas internacionais, é um passo importante, mas insuficiente se não houver mecanismos de ligação ao sector empresarial, financiamento à inovação e políticas públicas que incentivem a industrialização de produtos locais com base em evidências científicas.

A kissangua, neste caso, funciona como exemplo de um universo muito mais vasto de produtos tradicionais que permanecem fora dos circuitos formais da economia. O estudo demonstra que há conhecimento, há mercado e há potencial de margem. Falta, como tantas vezes, a ponte entre a academia e a indústria - e, sobretudo, a capacidade de transformar tradição em escala sem destruir aquilo que lhe dá valor económico: a autenticidade. Adriano Kayunduma – Angola in “Expansão”


terça-feira, 17 de março de 2026

Angola e Rússia formalizam cooperação espacial que consolida parceria iniciada com os Angosat

O acordo estabelece o quadro jurídico para investigação, desenvolvimento tecnológico e actividades comerciais no espaço, bem como define regras sobre financiamento, propriedade intelectual e controlo de exportações. E institucionaliza ainda uma parceria que já dura há mais de uma década no programa espacial angolano


A cooperação espacial entre Angola e a Federação Russa ganhou um novo enquadramento jurídico com a publicação do acordo bilateral que estabelece as bases institucionais para o desenvolvimento de actividades conjuntas no domínio da exploração e utilização do espaço exterior para fins pacíficos.

O documento, agora formalizado em Diário da República, procura organizar e dar previsibilidade a uma relação tecnológica que, na prática, já existe há mais de uma década, sobretudo desde o início do programa Angosat. A parceria não surge, portanto, como uma novidade estratégica, mas antes como a consolidação institucional de um eixo de cooperação que tem sido determinante para a entrada de Angola no sector espacial.

Foi com a Rússia que o País desenvolveu os seus dois principais projectos nesta área - o Angosat-1, lançado em 2017, e o Angosat-2, colocado em órbita em 2022 - ambos concebidos com tecnologia russa e lançados a partir de infra-estruturas controladas por Moscovo. O entendimento estabelece que a execução do acordo ficará a cargo, do lado angolano, do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação (MTTI) e do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, enquanto a Rússia será representada pela corporação espacial estatal Roscosmos.

Estes organismos passam a assumir o papel de autoridades competentes responsáveis por coordenar programas, projectos e contratos específicos que possam surgir no âmbito desta cooperação. No plano formal, o acordo define como objectivo central a criação de uma base organizacional e jurídica para o desenvolvimento de cooperação científica, tecnológica, industrial e comercial no domínio das tecnologias espaciais. O texto prevê a promoção de investigação conjunta, o desenvolvimento e operação de sistemas espaciais, a troca de tecnologias e conhecimento especializado e o estabelecimento de condições para actividades comerciais associadas ao lançamento de veículos espaciais.

Quadro jurídico e financiamento

No entanto, uma leitura mais atenta do documento revela que o acordo funciona sobretudo como um quadro jurídico geral, deixando praticamente todas as decisões operacionais para futuros "acordos específicos". Ou seja, embora estabeleça princípios amplos de cooperação, o texto não define projectos concretos, metas tecnológicas ou compromissos financeiros relevantes. Esta abordagem é comum em acordos intergovernamentais deste tipo, mas também significa que o impacto real da parceria dependerá da capacidade das instituições angolanas de negociar e executar programas subsequentes.

As áreas de cooperação previstas são amplas e cobrem praticamente todo o espectro das atividades espaciais: investigação científica no espaço, sensoriamento remoto da Terra, comunicações por satélite, navegação, meteorologia espacial, geodesia, medicina espacial e até voos tripulados.

O acordo inclui igualmente a formação e reciclagem de quadros especializados, um ponto relevante para um país que ainda possui uma base científica limitada neste domínio. Apesar desta amplitude temática, o documento não define qualquer estratégia clara para a transferência efectiva de conhecimento ou para a criação de capacidade industrial local. A experiência do programa Angosat mostra que a maior parte do valor tecnológico continua concentrado nos parceiros externos, enquanto Angola permanece sobretudo como utilizador de serviços e operador de infra-estruturas adquiridas no exterior. Outro elemento relevante do acordo é o regime de financiamento. O texto estabelece que as actividades conjuntas serão financiadas de acordo com a disponibilidade de fundos nos orçamentos nacionais, podendo também envolver recursos de empresas ou outras entidades participantes. Ao mesmo tempo, o documento deixa explícito que as partes não assumem automaticamente responsabilidades financeiras pelos contratos celebrados entre instituições ou empresas envolvidas nos projectos.

Na prática, esta formulação significa que o acordo não cria obrigações financeiras concretas para os Estados, funcionando mais como um instrumento facilitador para projectos futuros. A ausência de compromissos financeiros directos reduz o risco orçamental imediato, mas também deixa em aberto a questão sobre a dimensão real dos investimentos que poderão resultar desta parceria. In “Expansão” - Angola

 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Internacional - Cientistas da Universidade do Porto revelam como as cobras sobrevivem sem comer

As cobras são conhecidas pela sua capacidade de sobreviver meses sem comer, um aspeto que intrigou cientistas de todo o mundo durante décadas. Um novo estudo internacional, liderado por investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), revela que este feito extraordinário pode estar ligado à perda evolutiva de uma hormona chave que regula a fome


O trabalho da equipa, publicado na Royal Society Open Biology e destacado pela prestigiada revista Science, mostra que as cobras perderam o gene responsável pela produção da grelina, uma hormona que, na maioria dos vertebrados, estimula o apetite e ajuda a controlar o metabolismo energético.

Esta alteração genética parece ter permitido uma profunda reorganização fisiológica que favorece o armazenamento e a utilização eficiente de energia, permitindo a estes répteis sobreviver meses sem se alimentarem.

“Este estudo demonstra como a evolução pode produzir adaptações radicais não apenas através do surgimento de novos genes, mas também pela perda estratégica de funções antigas”, explica Rui Pinto, investigador do CIIMAR e estudante do doutoramento em Biologia da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP).

“Ao perderem a grelina, as cobras parecem ter desenvolvido mecanismos alternativos para controlar o apetite e gerir as reservas energéticas, tornando-se verdadeiros especialistas em sobreviver a longos períodos de escassez alimentar”, acrescenta o investigador, envolvido na área da evolução metabólica e primeiro autor deste estudo.

Para os cientistas, esta descoberta ajuda a compreender melhor como os vertebrados podem adaptar-se a ambientes extremos e imprevisíveis, onde a disponibilidade de alimento é irregular.

Filipe Castro, líder do grupo de investigação em Genética e Evolução Animal do CIIMAR e professor da FCUP, destaca o impacto mais amplo da descoberta. “Este trabalho reforça uma ideia fundamental na biologia evolutiva: perder genes pode ser tão importante quanto ganhar novos. As cobras mostram-nos como a evolução pode reconfigurar profundamente sistemas fisiológicos complexos, abrindo novas perspetivas para compreender o metabolismo energético e até doenças humanas relacionadas com o controlo do apetite e do metabolismo”, aponta.

Os investigadores sublinham que compreender estes mecanismos naturais poderá, no futuro, contribuir para novas abordagens no estudo da obesidade, diabetes e outros distúrbios metabólicos. Universidade do Porto - Portugal