Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Europa – Cinco países vão economizar 58% nas contas de energia este ano graças à energia limpa

Consumidores em cinco países da UE economizarão até € 8,5 mil milhões nas suas contas de energia este ano, em comparação com aqueles que possuem a matriz energética mais poluente.

Espanha e Portugal também estão a beneficiar do investimento acelerado em energias renováveis, tendo registado um crescimento de 21% na energia limpa em 2025 em comparação com 2022. Este crescimento foi impulsionado, em grande parte, por um aumento de 74% na energia solar.


Os países da UE com a matriz energética mais limpa estarão protegidos do aumento vertiginoso do preço do petróleo e do gás, uma vez que a guerra contra o Irão continua a evidenciar o verdadeiro custo da dependência dos combustíveis fósseis.

Dois dias após os bombardeamentos atingirem o Médio Oriente, os preços do TTF holandês (referência para os preços do gás no grosso em toda a Europa) dispararam 68%, chegando a € 52,8 por megawatt-hora, o nível mais alto em dois anos.

No início desta semana (segunda-feira, 20 de abril), o TTF holandês estava a ser negociado a um preço bem mais baixo, de € 40,2 por MWh. A queda ocorre após sinais de significativa desaceleração em meio a um cessar-fogo de duas semanas, mas ainda é consideravelmente mais alta do que antes do início do conflito (€ 31,5 por MWh).

Grande parte da volatilidade se deve ao controlo do Irão sobre o Estreito de Ormuz, uma passagem de 38 km que transporta cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás. Em março, as exportações de gás natural liquefeito (GNL) para a UE caíram 11%.

Isso levou o comissário de energia da UE a recomendar que os países reabasteçam os seus estoques de forma constante durante o verão para "mitigar a pressão sobre os preços e evitar uma corrida no final do verão".

Isso também abriu caminho para um rápido interesse em energias renováveis ​​produzidas localmente, que são cada vez mais consideradas um investimento mais estável em vista das tensões geopolíticas.

“Não há aumentos acentuados nos preços da luz solar nem embargos à energia eólica”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, no mês passado.

Será que a energia limpa pode proteger a UE do aumento dos preços do gás?

Um novo relatório do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA) constatou que, apesar da forte alta dos preços e dos crescentes temores sobre a diminuição da oferta, o bloco permanece "mais bem protegido" da sensibilidade aos preços do que em 2022 – após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Isso deve-se principalmente ao crescimento explosivo das energias renováveis, que atingiram novos recordes em 2025 e poderão economizar para a UE a impressionante quantia de € 5,8 mil milhões em 2026, substituindo o gás natural, que é caro.

Especialistas apontam que esse valor seria significativamente maior se os preços do gás não fossem responsáveis ​​por definir o preço da energia em muitos países, devido ao mecanismo de precificação marginal da UE.

Em 2025, cada aumento de €1/MWh no preço do gás levou a um aumento de €0,37 por MWh nos preços da eletricidade – uma redução de oito por cento em relação a 2022.

“Isto está diretamente ligado à separação [do preço da eletricidade] do gás e aos investimentos em energia limpa, cuja participação na geração de eletricidade na UE cresceu 14% em 2025, em comparação com 2022”, explica o relatório.

Quais são os países da UE que estão mais protegidos do aumento dos preços do gás?

Todos os Estados-membros da UE têm observado uma redução na sua sensibilidade às flutuações dos preços do gás nos últimos anos, na sequência do aumento da energia limpa.

Mas são os consumidores de cinco países da UE em particular – Dinamarca, Finlândia, França, Suécia e Eslováquia – que beneficiam da maior participação de energia limpa na sua matriz elétrica. O relatório afirma que estas nações economizarão € 8,5 mil milhões nas suas contas de energia este ano. Isso representa uma redução de 58% nas contas em comparação com os países com a matriz energética mais poluente (Polónia, Itália, Grécia, Estónia e Países Baixos).

A estimativa baseia-se na premissa de que o consumo permanecerá o mesmo este ano em comparação com 2025, levando em consideração os preços mais altos e a sensibilidade do preço do gás.

De acordo com dados de 2025, a Suécia saiu vitoriosa como o país da UE com a menor sensibilidade às oscilações do preço do gás. Em média, para cada aumento de €1 no preço do gás, a Suécia regista um aumento de apenas €0,04/MWh nos preços da eletricidade no mercado grossista.

“Embora a Suécia seja um dos nove países com reservas de gás natural significativamente abaixo da média da UE, a sua baixa dependência dessa fonte de energia – com 99% de sua eletricidade proveniente de energia limpa – protege ainda mais o mercado de eletricidade de choques de preços”, afirma o relatório.

Espanha e Portugal também estão a beneficiar do investimento acelerado em energias renováveis, tendo registado um crescimento de 21% na energia limpa em 2025 em comparação com 2022. Este crescimento foi impulsionado, em grande parte, por um aumento de 74% na energia solar.

Ao mesmo tempo, a sensibilidade de ambos os países aos choques nos preços do gás diminuiu 53%. No ano passado, para cada aumento de €1 no preço do gás, a zona de produção conjunta de Espanha e Portugal registou um aumento de €0,089 por MWh, o terceiro mais baixo do bloco.

A França também testemunhou uma redução acentuada na sua sensibilidade aos preços do gás, principalmente devido ao crescimento da energia limpa, que fez com que a sua sensibilidade ao gás caísse pela metade entre 2022 e 2025.

Quais são os países que estão a pagar o preço pela sua dependência de combustíveis fósseis?

Apesar de ter registado um aumento de 31% na geração de energia limpa, os Países Baixos continuam mais sensíveis aos preços do gás do que em 2022.

Apesar da participação da energia solar e eólica na geração de eletricidade do país ser superior à média da UE, o gás continua sendo a principal fonte individual de eletricidade no país.

“A sua sensibilidade também está ligada à sua elevada integração no mercado europeu de gás – muitas vezes como tomadores de preços – e, portanto, à sua suscetibilidade a choques transmitidos por países vizinhos como a Alemanha”, acrescenta o relatório.

“O gás tem tradicionalmente desempenhado um papel desproporcional na produção centralizada de eletricidade nos Países Baixos (22%), enquanto as fontes de energia limpa, especificamente a solar, têm um papel mais importante na geração descentralizada de eletricidade.”

Por exemplo, nos Países Baixos, a energia solar é muito utilizada durante o dia, mas à noite é preciso recorrer a outras fontes de energia, muitas vezes com necessidade de gás.

A Polónia é outra anomalia na tendência geral da UE. Apesar de registar um crescimento anual de 48% em energias renováveis ​​desde 2022, a sensibilidade do país aos preços do gás permanece alta.

Isso deve-se principalmente ao facto de a Polónia estar a incentivar a geração de eletricidade a gás, num esforço para substituir e reduzir o carvão, que continua sendo essencial para mais da metade da produção total de eletricidade no país.

“A mudança de foco da Polónia para o gás, em vez de fontes de energia limpas, fez com que a geração de energia a partir dessa commodity aumentasse 132% em 2025 em comparação com 2022”, explica o estudo.

“Essa maior dependência, que representou 13% do total em 2025, fez com que a sensibilidade aos preços do gás também aumentasse em 87%.”

Para cada aumento de €1 no preço do gás, a Polónia regista um aumento de €0,36 por MWh na eletricidade.

A Hungria também demonstrou maior sensibilidade aos preços do gás em comparação com 2022, registando um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Embora o país tenha testemunhado um crescimento expressivo da energia solar, a falta de capacidade de conexão à rede elétrica faz com que a Hungria ainda seja obrigada a depender do gás natural para manter a estabilidade. Euronews


terça-feira, 21 de abril de 2026

França - Fabricante de cimento Lafarge é condenada por financiar terrorismo na Síria

A Justiça francesa condenou a Lafarge por pagar a grupos jihadistas, incluindo o Estado Islâmico, para manter uma fábrica a operar durante a guerra na Síria

A fabricante francesa de cimento Lafarge e oito ex-executivos foram considerados culpados nesta segunda-feira por financiar o terrorismo em 2013 e 2014, ao pagarem a grupos jihadistas para manter uma fábrica em funcionamento em meio à guerra na Síria.

A empresa, que desde então se fundiu com o grupo suíço Holcim, realizou pagamentos a três organizações jihadistas, incluindo o Estado Islâmico, que somaram quase €5,6 milhões, segundo a decisão do Tribunal Criminal de Paris. A corte destacou que os pagamentos permitiram aos jihadistas “preparar atentados terroristas”, em especial os de janeiro de 2015 na França.

“Esse método de financiamento de organizações terroristas, e principalmente do Estado Islâmico, foi essencial para o controlo da organização sobre os recursos naturais da Síria, permitindo financiar atos terroristas na região e planeados no exterior, particularmente na Europa”, afirmou a presidente do tribunal, Isabelle Prévost-Desprez. In “Swissinfo” - Suíça


sábado, 11 de abril de 2026

Senegal - Primeiro-Ministro acusa presidente americano Donald Trump de desestabilizar o mundo

O primeiro-ministro do Senegal acusa o presidente dos Estados Unidos da América de criar instabilidade no mundo. Ousmane Sonko critica os ataques de Donald Trump ao Irão.

É a primeira vez que o Governo senegalês, através do Primeiro Ministro, assume posicionamento face ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão.

Ousmane Sonko, que falava numa conferência internacional sobre soberania, em Dakar, criticou duramente Donald Trump pela guerra contra o Irão, considerando que visa desestabilizar a ordem global, sem nenhum benefício.

“A redução da capacidade balística do Irão não foi alcançada. Forçar o Irão a abandonar todos os seus programas nucleares, tanto civis quanto militares, não é um objetcivo atingido”.

O primeiro-ministro do Senegal afirmou igualmente que Trump não é um homem de paz.

“Nenhum dos objectivos foi alcançado e, ainda assim, o mundo mergulhou num caos injustificável. O Sr. Trump não é um homem de paz, ele é um homem que desestabiliza o mundo”.

Sonko apelou às nações africanas para que unissem forças e compartilhassem o seu poder, apontando a juventude africana como uma “força a ser mobilizada”, afirmando que a soberania não pode ser alcançada sem o seu envolvimento. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 19 de março de 2026

Do massacre de árvores ao Armagedon

Numa nova visita a São Paulo para matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo, uma área arborizada junto da avenida Paulista, onde se pode imaginar estar numa floresta. Ou que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma elite. Mas é preciso se reconhecer: uma elite ambientalista.

Diante de tanto respeito pela natureza com árvores das diversas regiões brasileiras, é quase impossível não se lembrar e não se fazer um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário, no Alto da Lapa, onde a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos Salesianos com autorização do prefeito Ricardo Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.

De um lado, um empreendimento investe no respeito da natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do Bosque dos Salesianos.

Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta protegida, cheguei logo à avenida Paulista e a tentação de visitar mais uma vez o MASP, com suas exposições atuais e seu acervo. Esse acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao antigo museu ainda na rua 7 de Abril.

Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irão, com um cartaz perguntando "Haverá paz no mundo? Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová. Um ramo original derivado dos evangélicos norte-americanos, criado em 1872, cujos missionários vieram ao Brasil em 1920 e hoje são um milhão e quatrocentos mil.

A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha do Armagedom, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos no mar Egeu. Armagedom seria a última guerra, pois significaria a intervenção de Deus numa guerra mundial. Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem a mesma ênfase do Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser chegada a época do retorno de Cristo.

Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail publicada pelo Brasil 247, estaria ocorrendo junto dos soldados e militares norte-americanos participando da guerra contra o Irão. Sabendo-se da influência dos evangélicos junto aos trumpistas, "comandantes militares associados ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas americanas em meio ao conflito com o Irão, afirmando que a guerra faria parte de um plano divino ligado ao “Armagedom”.

A imprensa francesa também repercute essa utilização das profecias do Apocalipse pelos comandantes trumpistas para que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do Bem contra o Mal. Do lado do Irão, os combatentes iranianos acreditam que se tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Japão - Oito décadas depois: rezando pela paz nos memoriais da bomba de Hiroshima

Em 6 de agosto de 1945, Hiroshima tornou-se a primeira cidade a sofrer um ataque com armas atómicas. Oitenta anos depois, a cidade abriga um Património Mundial e exposições em museus que alertam as gerações futuras sobre a ameaça de guerra na era nuclear

A imagem daquela nuvem em forma de cogumelo, capturada do ar pelo exército americano após o lançamento da bomba, é provavelmente uma das primeiras que vêm à mente de muitos que pensam no bombardeio atómico de Hiroshima


Ainda de pé: a cúpula da bomba atómica

O Domo da Bomba Atómica, no lado norte do Parque Memorial da Paz de Hiroshima, é uma das poucas estruturas que restam de pé perto do hipocentro da explosão da bomba atómica de 6 de agosto de 1945, que arrasou a cidade. O domo e o restante do parque são paradas regulares nos itinerários de excursões escolares realizadas por escolas japonesas em todo o país. Desde 1996, quando foi declarado Património Mundial da UNESCO, o Domo da Bomba Atómica também tem sido um destino importante para visitantes estrangeiros no oeste do Japão.

Originalmente construído em 1915 como o Salão de Exposições Comerciais da Prefeitura de Hiroshima, a estrutura abobadada de aparência moderna foi projetada pelo arquiteto tcheco Jan Letzel. O hipocentro da explosão, o ponto diretamente abaixo de onde a bomba atómica Little Boy detonou, a pouco menos de 600 metros acima do solo, fica a apenas 160 metros a sudeste.

Durante os anos imediatamente posteriores à guerra, as memórias das mais de 140.000 vidas perdidas ali ainda estavam frescas, e havia frequentes apelos para a demolição do antigo salão de exposições como lembrança do passado doloroso. Na década de 1960, porém, com o acirramento da corrida armamentista nuclear entre o Oriente e o Ocidente, cresceu a consciência da importância da estrutura como uma mensagem simbólica ao mundo sobre a ameaça dessas novas armas. Um movimento para preservar a cúpula ganhou força, e começaram as obras de reforço para evitar que a estrutura desabasse.

Hoje, o Domo da Bomba Atómica não é estruturalmente seguro o suficiente para permitir a entrada de visitantes, mas é possível ter uma vista do interior da passarela no lado oeste, ao longo do rio. A vegetação exuberante dos relvados e árvores ao redor contrasta fortemente com os restos danificados do edifício, servindo como mais uma lembrança da destruição daquele dia em 1945.

Exposições de museus transmitem a mensagem para casa

Ao sul do parque fica o Museu Memorial da Paz de Hiroshima. Há 70 anos, desde a sua inauguração em 1955, ele compartilha mensagens sobre o horror da guerra e das armas nucleares por meio de suas exposições de fotos e recordações das vítimas da explosão.

Nos últimos anos, houve um ressurgimento do interesse pelo sítio arqueológico de Hiroshima, acompanhando a cúpula do Grupo dos Sete realizada na cidade em 2023 e a concessão do Prémio Nobel da Paz de 2024 à Nihon Hidankyō, a Confederação Japonesa de Organizações de Vítimas de Bombas A e H. Durante o ano fiscal de 2024 (abril de 2024 a março de 2025), o total de visitantes ao museu ultrapassou 2,26 milhões, com cerca de um terço, ou 720.000, vindos do exterior — ambos recordes históricos.

Uma grande reforma do museu em 2019 trouxe novas perspectivas para o seu acervo e espaços expositivos. O foco agora está nas histórias das pessoas que foram vítimas da bomba naquele dia, sem distinção de nacionalidade ou origem cultural, num esforço para pintar um quadro mais completo e humano da história do evento.


Visitantes observam pertences pessoais de pessoas em Hiroshima em 6 de agosto de 1945: um uniforme escolar carbonizado, um relógio parado precisamente às 8h15, horário da explosão, e muito mais, tudo acompanhado de fotos e relatos das pessoas envolvidas. Os relatos daqueles que não morreram instantaneamente também são comoventes, como o de uma mulher que morreu alguns anos depois de uma doença relacionada à radiação libertada pela bomba.

O espaço da Exposição Introdutória na ala leste do museu foi inaugurado em 2017, antes da reforma completa. Inclui um enorme diorama de Hiroshima, como se manteve durante o verão de 1945, sobreposto por uma exibição gráfica computadorizada do impacto da explosão. Seções adicionais do museu focam nos perigos das armas nucleares e na história da cidade de Hiroshima, desde a era da guerra até ao movimento antinuclear dos dias atuais. Telas fotográficas e vídeos com tela sensível ao toque proporcionam uma experiência de aprendizagem envolvente e altamente acessível.

Ao percorrer as exposições, os visitantes podem vivenciar, num breve momento, a ampla extensão da terra carbonizada do fim da guerra, passando pelo renascimento da cidade até aos dias atuais. Apesar de tudo, a mensagem permanece clara: não devemos permitir que uma guerra como essa se repita. O museu é uma representação de Hiroshima como símbolo desse desejo por uma paz duradoura.

Outros locais no Parque Memorial da Paz

Na praça ao norte do museu encontra-se o Cenotáfio em forma de arco para as Vítimas da Bomba Atómica. Projetado pelo célebre arquiteto Tange Kenzō, juntamente com o próprio museu, este monumento abriga um baú com os nomes de todos os que pereceram em decorrência da bomba, e traz a inscrição: "Que todas as almas aqui presentes descansem em paz, pois não repetiremos o mal."

Ao norte do cenotáfio, com a cúpula ao fundo, queima a Chama pela Paz, acesa em 1º de agosto de 1964 e que brilha eternamente como um símbolo de esperança pela paz e por um mundo livre de armas nucleares.

Logo a leste da chama fica o Salão Memorial Nacional da Paz de Hiroshima, em homenagem às vítimas da bomba atómica; ainda mais ao norte, fica o Monte Memorial da Bomba Atómica, que abriga alguns dos restos mortais de cerca de 70.000 vítimas não identificadas da explosão. O parque como um todo é um local de luto e reflexão silenciosa.

O Parque Memorial da Paz ocupa mais de 120.000 metros quadrados na ponta norte de uma ilha fluvial no coração de Hiroshima. Antigamente um movimentado distrito de entretenimento, com cerca de 4400 habitantes, hoje abriga os monumentos e instalações descritos acima, além de muitos outros — monumentos a crianças, estudantes, residentes coreanos, soldados e outros afetados pelo bombardeio, entre eles. Uma caminhada tranquila pelo parque proporciona uma compreensão mais profunda das muitas maneiras pelas quais essas pessoas continuam a contar as suas histórias até hoje. InNippon.com” - Japão






sexta-feira, 4 de julho de 2025

Moçambique - John Kanumbo apresenta “A Deslocada Joaquina” aos leitores de Nampula

A obra “A Deslocada Joaquina”, de autoria de John Kanumbo, será apresentada aos leitores da cidade de Nampula, no dia 11 de Julho, às 18h30, no Centro Cultural Ruby – Rua das Flores. Trata-se de um título que, para os desavisados, pode soar apenas como a história de uma mulher ou de uma deslocada, mas que, para os olhos atentos e as consciências inquietas, se revela como um grito literário contra o esquecimento, a mentira institucional e o genocídio camuflado em relatórios humanitários.


Com mais de duzentas páginas, divididas em 10 capítulos, a obra denuncia profundamente na espessura sombria dos acontecimentos que têm dilacerado Cabo Delgado desde o início da insurgência armada, propondo uma leitura que ultrapassa os factos noticiados e vasculha as entranhas ocultas de uma guerra sem nome e de um silêncio ensurdecedor.

Cada capítulo de A Deslocada Joaquina, adianta uma nota de imprensa, carrega um título que é, por si só, um convite à inquietação: “É mais que um livro — é uma verdade contada nas entrelinhas da nossa história esquecida. É uma filosofia encarnada na pele e na voz dos que nunca tiveram voz”, pode-se ler ainda na nota de imprensa: “Joaquina não é só personagem, é denúncia viva das mentiras insoladas nas ruas Madembes (ruínas) dos discursos oficiais, das políticas amnésicas e dos silêncios cúmplices”.

A Deslocada Joaquina” é um grito. É literatura feita de denúncia, feita lamento, feita resistência.

A apresentação do livro será feita por Michael Nivorocha.

Antes, o livro foi lançado na Cidade de Pemba, no passado dia 21 de Junho. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 26 de junho de 2025

Guerra Israel, EUA, Irão: Informação e Contra-Informação

Afinal quem ganhou a Guerra dos 12 Dias, desencadeada por Israel contra o Irão? Não são todas as mídias que se arriscam a fazer o balanço e proclamar o vencedor, mesmo porque o suposto perdedor, o Irão, comemorou com manifestação popular o cessar-fogo entre os dois países como uma vitória. Por sua vez, o Líder Supremo iraniano Ali Khamenei, numa declaração televisiva, se vangloriou dessa vitória, negando ter havido destruição no Irão, que deu um tapa na cara dos EUA. O comentarista do Uol Josias de Souza considerou essa declaração uma mostra da senilidade do chefe religioso iraniano.Entretanto, essa versão de um Irão vitorioso é também defendida pelo professor da Fundação Getúlio Vargas, Salem Nasser, no seu canal Youtube, e pelo analista político do Canal Ópera Mundi, Breno Altman, contraditada por comentaristas de jornais e televisões de diversos países ocidentais. 

Onde estão a Informação e a Contra-Informação, sabendo-se que, em tempos de guerra, a verdade é a primeira vítima?

Vamos começar pela Rádio Canadá, órgão estatal de comunicação, vizinha dos Estados Unidos, cuja participação nos bombardeios dos centros nucleares iranianos permitiu a suspensão da guerra.

A Rádio canadense cita o discurso do dirigente israelense, no qual Benjamin Netanyahou proclamou a vitória de Israel contra o Irão por ter "destruído a indústria de fabricação de mísseis", afirmando recomeçar a guerra se ocorrer qualquer "tentativa do Irão retomar suas ambições nucleares", comemorando terem sido liquidadas as capacidades nucleares iranianas.

Disse também "ter dado um golpe decisivo contra o regime iraniano", o mais severo desde sua implantação no Irão. Esse ataque incluiu a eliminação de diversos dirigentes dos Guardiães da Revolução e de uma dezena dos principais cientistas do programa nuclear iraniano, mais a destruição de instalações militares e a danificação de centrais nucleares. Netanyahu também citou os ataques aos radares e à defesa aérea iraniana.

Israel contou também com o apoio de agentes secretos recrutados dentro do Irão, facilitando a eliminação de importantes dirigentes do governo iraniano.

A razão da intervenção israelense no Irão, qualificada de preventiva, seria uma próxima ameaça nuclear iraniana com o objetivo de destruir Israel.

Os objetivos de Israel eram três: derrubar o governo do aiatolá e molás iranianos, destruir o programa nuclear e liquidar o arsenal balístico.

Embora tenha havido uma eliminação de generais dirigentes do regime, ela não foi suficiente para derrubar o regime. Não houve também uma revolta popular derrubando o regime, pois os ataques reavivaram sentimentos nacionalistas na população e os apelos do filho do Xá Reza Pahlevi não tiveram eco. E existem dúvidas quanto ao sucesso dos ataques às centrais nucleares de Natanz, Ispahan, Arak e Fordo.

Embora o presidente Trump tenha assegurado, no encontro da OTAN em Haia, ter liquidado o programa nuclear iraniano, existem as informações de terem sido transferidos 400 quilos de urânio enriquecido e centrífugas para outros subterrâneos mais seguros, antes dos bombardeios israelenses e norte-americanos.

Por sua vez, a CNN informou, com base em informações militares, refutadas por Trump, não terem sido totalmente destruídas as instalações nucleares iranianas mas apenas danificadas, podendo ser reparadas em um máximo de seis meses.

De acordo com o responsável pela Organização da Energia Nuclear Iraniana, existe uma outra central de enriquecimento de urânio num lugar secreto, possibilitando continuar com o programa nuclear.

Restam os mísseis iranianos de diferentes tipos, disparados numa média de 40 por dia contra Israel, num total de 500, durante os 12 dias de guerra, causadores de sérios danos em Haifa e Tel Aviv. Ironia da guerra - o último míssil disparado pelo Irão matou a quase totalidade de uma família palestina vivendo em Haifa.

Patrick Sauce, chefe do Serviço Internacional de BFMTV, em Paris, diz ter sido Netanyahu o vencedor dessa guerra, mesmo se não conseguiu derrubar o regime. Entretanto, o regime saiu enfraquecido e começou uma grande repressão no Irão, onde o enforcamento de três suspeitos de espionagem foi o ponto de partida.

Gaidz Minassian, jornalista do Le Monde, se indaga o que se pode saber de credível numa situação de guerra, mas afirma terem sido afetados o programa nuclear e a situação política no Irão, embora não se possa falar em vitória israelense, mesmo porque um cessar-fogo não significa o fim da guerra que pode recomeçar a qualquer momento.

Prefere falar em resultados positivos e operação bem sucedida. Em síntese, mudou agora a maneira de como se tratará a questão: o Irão não poderá mais fingir obedecer o controle nuclear e continuar a fabricar suas bombas nucleares.

A visão do prof. Salem Nasser é totalmente contrária a essas análises, afirmando mesmo no seu vídeo no Youtube, que o cessar fogo teria sido uma iniciativa de Israel "que não aguentava mais os ataques iranianos por estarem causando muito prejuízo aos israelenses, com muita gente querendo sair e a economia muito afetada... com os riscos de uma guerra prolongada que seria muito mais prejudicial a Israel que ao Irão".

Verdade ou isso é contestável? Nessa mesma linha, o Irão teria mostrado uma força e resistência não esperada pelos EUA e Israel, enquanto as informações da Agência Internacional de Energia Atômica foram colocadas em dúvida com um recuo do seu diretor-geral sobre o programa iraniano. Por isso, afirma o professor, se houver novas tentativas de negociações sobre o programa nuclear, o Irão terá uma posição mais firme com a Agência Internacional e com os EUA.

O que não será fácil, pois segundo a imprensa internacional não simpatizante com o chamado regime teocrático repressivo dos molás e do aiatolá Khamenei, o Irão saiu fragilizado dessa Guerra dos 12 Dias.

Por uma feliz coincidência, durante a guerra contra o Irão, havia em Paris o 12.º Festival do Cinema Iraniano com 18 filmes. O cinema iraniano tem revelado, nos festivais internacionais, a repressão do regime iraniano aos seus cineastas, ganhadores de prêmios em Berlim, Cannes, Veneza e Locarno. Por isso, ao divulgar o festival, a Rádio Franc fala em "grito de resistência" representado pelo cinema iraniano.

De acordo com a iraniana Nahal Khaknegar, programadora do festival, o jovem cinema iraniano confirma seu papel de resistência, depois do movimento Mulheres, Vida e Liberdade. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

África - Um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem

12 de Maio de 2025. O norte do Burkina Faso sangra. Mais uma vez. Como sangra o norte de Moçambique, como sangrou o Ruanda, como sangra a Nigéria, o Mali, a RDC e qualquer pedaço de terra onde o cheiro do ouro, da droga ou do petróleo se misture ao sangue de jovens pobres. Dezenas de civis e militares foram executados no domingo na cidade de Djibo, cercados e abatidos como se as suas vidas fossem meros grãos de areia na vastidão da indiferença africana e internacional. Segundo as notícias que circulam e da fonte Lusa vieram de motorizadas e viaturas, centenas deles, os chamados “extremistas islâmicos”, atacando destacamentos, esquadras e lares de famílias anónimas. Mataram homens na frente das esposas e filhos. Deixaram corpos no chão quente da terra vermelha de África. O Burkina Faso é apenas um dos palcos de uma guerra longa, suja, e que quase sempre não tem nome nem rosto. E quando tem, não são os rostos certos.

Porquê África? Por que sempre aqui? Quem ganha com essa dor? E por que os nossos mortos não têm memória?

A pergunta que me atormenta não é só “porquê?” — mas por quem o terrorismo em África, para quê e até quando?

A guerra invisível tem nomes. Muitos. Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI): herança das guerras sujas da Argélia nos anos 90. Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS): explosão do caos após a queda de Kadhafi.

Boko Haram, um movimento que começou denunciando a corrupção na Nigéria e terminou como mercenário religioso de guerras subterrâneas. Ora Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) a aliança jihadista que unificou facções para dominar o Sahel. Entre outros Burkina Faso, Chade, Congo, Nigéria, Moçambique e outros.

Mas raramente contam de onde vieram, quem os ensinou a manejar as armas, quem os financia, e o mais importante: quem ganha com a sua existência. Esses grupos dizem lutar por Deus, mas alimentam-se de ouro, tráfico, miséria e abandono. Alguns começaram como movimentos locais de autodefesa. Hoje são milícias transnacionais armadas até aos dentes, em motos ou pickups, com GPS, drones e metralhadoras ocidentais.

Mas a verdade é que não nasceram do nada. Foram produto de décadas de abandono, má governação, manipulação étnica e religiosa, e sobretudo da geopolítica internacional que continua a tratar África como um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas.

Esses grupos não surgem do nada. São filhos bastardos da Guerra Fria, do fracasso dos Estados pós-coloniais e das intervenções “humanitárias” que destroem mais do que salvam. A Guerra Civil da Argélia (1990–2002) deixou desertos cheios de combatentes desempregados, que se espalharam. Quando o Mali caiu em golpe em 2012, o Sahel ficou exposto. O deserto tornou-se estrada da morte. Em 2011, a NATO destruiu a Líbia e, as armas circularam livremente. Armas pesadas, mísseis e milhares de soldados tribais dispersaram-se pelo Sahel. As fronteiras coloniais artificiais feitas a régua e compasso por franceses e britânicos facilitaram. Assim nascia o inferno onde também hoje eterniza o norte de Moçambique.

A religião é só a capa. Por dentro, há ouro, urânio, petróleo, tráfico humano e cocaína vinda da América Latina. O Sahel é rota de tudo. E quem controla a rota, controla o poder.

Hoje, grupos “jihadistas” controlam zonas ricas em ouro, urânio, diamantes e tráfico de drogas, enquanto as capitais africanas fingem governar territórios onde nunca colocaram os pés.

Porquê sempre África?

Porque África continua colonizada, mesmo sem colónia. Porque os Estados são frágeis, porque os sistemas de ensino estão em ruínas, porque metade da população é jovem, sem futuro, sem emprego, e a jihad aparece como única via de sentido e redenção.

As fronteiras foram desenhadas com régua por europeus. Dividiram povos, juntaram inimigos, e criaram bombas-relógio. Agora explodem.

África tornou-se o território perfeito para este tipo de guerra porque aqui o Estado é frágil, a educação falida, as forças armadas mal pagas e as comunidades divididas.

As potências coloniais nunca deixaram de facto os seus interesses. Mantêm-se presentes nos negócios de segurança, petróleo, mineração e consultoria militar. Precisam de zonas instáveis para justificar presenças militares e negócios opacos.

Aqui, o jovem não sonha com a universidade. Sonha com uma Kalashnikov e a promessa de salário mensal ou virgindades prometidas no paraíso. Num continente onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos e vive sem emprego, o terrorismo floresce como planta nativa.

Quem financia? Quem ganha?

Por detrás das siglas jihadistas estão rotas de cocaína sul-americana para a Europa, tráfico de armas da Líbia, e mineração ilegal em zonas sem lei.

Os chamados “extremistas religiosos” controlam minas de ouro e extorquem empresários locais.

Vendem segurança onde o Estado não chega. Alguns governos africanos mantêm acordos secretos para evitar ataques a certas áreas.

Ninguém sustenta uma guerra por décadas sem dinheiro. Os financiadores vêm do tráfico de drogas, do resgate de sequestros, da mineração ilegal. Mas também de grandes silêncios: de Estados que fingem não ver, de multinacionais que exploram recursos em zonas de conflito, de alianças que usam os grupos armados como peões em jogos maiores.

Companhias internacionais de segurança, empresas de exploração de recursos naturais e traficantes internacionais movimentam milhões com esta instabilidade.

E, claro, países estrangeiros mantêm bases militares sob o pretexto de combater o terror — quando o verdadeiro interesse é garantir acesso estratégico a recursos e controlar rotas comerciais.

Em África a morte tem patrocinadores. A miséria tem acionistas. No fundo, este terrorismo é a versão moderna da lógica colonial: dividir para reinar, enfraquecer Estados africanos, garantir zonas de instabilidade que justificam interferência externa e impossibilitam o crescimento de governos fortes.

Essa guerra é também filosófica. Ela reatualiza o controlo colonial sob nova roupagem. A miséria programada, o caos funcional, o terrorismo como estratégia de contenção populacional.

Matam-se jovens pobres para que o sistema rico sobreviva.

A religião é instrumentalizada. A identidade é manipulada. A violência torna-se o idioma das relações internacionais. E o africano comum, sem voz, é o sacrifício contínuo em nome de uma ordem que nunca o inclui.

A religião é apenas um pretexto. O verdadeiro motor desta guerra é económico e político.

As populações locais tornam-se prisioneiras entre o exército nacional corrupto, mercenários privados e jihadistas, sem saber quem é o inimigo e quem é o salvador.

Nestes estados de conflitos os chefes dizem que combatem o terrorismo. Mas o que se vê é militarização, censura e países onde jornalistas e ONG são impedidos de reportar. As mortes desaparecem dos comunicados. A dor é apagada dos discursos oficiais.

As juntas militares não são solução. São mais um sintoma. A população continua refém. Sem Estado, sem proteção, sem futuro.

E se gritássemos mais alto?

Chega de silêncios. Chega de aceitar que a África seja o palco perpétuo da dor do mundo.

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem.

A maior tragédia africana não é só a violência. É o silêncio intelectual e académico cúmplice.

Universidades discutem teorias europeias enquanto aldeias desaparecem. Escritores e filósofos calam-se para não incomodar governos militares ou embaixadas financiadoras.

África precisa de uma geração que denuncie, que acuse, que escreva, que nomeie os mentores desta guerra invisível.

Que diga alto: não é guerra santa, é guerra pelo ouro, pela droga e pelo controlo geopolítico. E que convoque a filosofia, a história, a antropologia e a política para desmontar esse teatro macabro.

A guerra invisível é real. E só deixará de existir quando a pensarmos de frente, quando a nomearmos, quando a desmontarmos. Porque o terrorismo é uma construção. E tudo o que é construído pode ser demolido. John Kanumbo – Moçambique in “O País”


sexta-feira, 22 de março de 2024

Internacional - Português venceu prémio de fotógrafo do ano 2023 e agora lança livro

O fotógrafo português Edgar Martins vai publicar em livro um projeto premiado de homenagem ao amigo Anton Hammerl na guerra civil líbia, trabalho que descreveu como o “mais complexo e mais ambicioso até a data”


Intitulado “Anton’s Hand is made of Guilt. No Muscle of Bone. He has a Gung-ho Finger and a Grief-stricken Thumb”, o livro vai ser publicado em abril e é caracterizado como “um trabalho de pesquisa, um lipograma e um estudo antropológico imaginário”.

“A metodologia e linguagem adotada e a sensibilidade com que o tema foi abordado tornou possível abrir um diálogo sobre como representamos a guerra, a morte e o trauma”, afirmou à agência Lusa.

O trabalho é uma sequência do projeto que iniciou em 2019 quando, frustrado com a falta de informação, decidiu investigar a morte do amigo fotojornalista Anton Hammerl durante a guerra civil líbia, em 2011.

Além de viagens ao norte de África, fez investigação na Internet, que abrangeu espaços encriptados, conhecidos como ‘dark web’, reservados a extremistas islamitas ou a apoiantes de Mohammar Khadaffi, com o objetivo de encontrar referências ao amigo.

A série de fotografias que produziu na sequência deste projeto, chamada “A Nossa Guerra”, mereceu a Edgar Martins, que vive e trabalha no Reino Unido, o prémio de Fotógrafo do Ano na categoria Retrato dos Prémios Mundiais de Fotografia Sony 2023.

Ao publicar o trabalho fotográfico decidiu adicionar imagens recolhidas durante a pesquisa e textos do escritor britânico Will Self e do académico David Campany.


O livro de 328 páginas será acompanhado por um álbum de paisagens sonoras “que explora, de forma tátil e sensorial a experiência da guerra”, e incluirá, numa edição limitada da obra, a reprodução de desenhos encomendados a um combatente líbio.

Esta produção também está na base de várias exposições sobre este projeto em Londres, durante a Sony World Photography Awards Exhibition 2024, a decorrer até 06 de maio, e em Lisboa, na Galeria Filomena Soares, em setembro.

Além das fotografias e das instalações sonoras, a exposição conta com uma tecnologia desenvolvida propositadamente para programar, sincronizar e apresentar projeções em equipamento visual específico.

O artista pretende que o livro e exposição levem o leitor ou visitante a reposicionar-se na forma como se relaciona com o tema da fotografia em situação de conflito.

“Incita uma leitura experimental. Ela exige uma mudança epistemológica: a renúncia da predisposição automática do espectador/leitor para a certeza e clareza na forma como nos relacionamos com imagens e sobretudo imagens de guerra”, explicou à Lusa.

Além das fotografias que tirou com combatentes líbios, dissidentes ou outros locais, livro e exposição incluem fotografias tirada por civis em telefones móveis que estes partilharam em fóruns na Internet e em redes sociais.

Algumas destas imagens parecem mostrar crimes e atos de violência na Líbia, o que acentua a consciência do conflito, bem como a dificuldade de documentar e testemunhar a guerra, sendo acompanhadas por um texto ficcional de Will Self.

“O desafio que coloquei ao Will foi abordar o tema indiretamente de forma a conectar com as experiências de perda e trauma a que mais estamos habituados, como a morte de um ente querido”, referiu o fotógrafo português.

“O projeto apela à razão, ao sentido, ao sentimento, mas também ao nosso sentido de descoberta, ao nosso sentido de indignação, à nossa capacidade de empatia. É um livro que faz com que questionemos constantemente as nossas expectativas e convicções e o que esperamos de imagens e a forma como nos relacionamos com elas”, resumiu. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Israel - Ganha em Gaza, mas perde na imagem

O custo é extremamente elevado: por não ter sabido dosar a resposta ao ataque terrorista do Hamas, Natanyahu está transformando numa dolorosa derrota sua vitória em Gaza, comprometendo a imagem de Israel e permitindo o ressurgimento do antissemitismo. Mais de quatro meses de combate e bombardeios, mais de 30 mil mortos, a impressão é a de Israel ter entrado num enorme atoleiro, do qual não se pode ainda prever como sairá.

Numa situação dessas, sem poder resistir aos ataques israelenses, sem poder evitar a destruição do seu sistema de túneis e diante do massacre da sua população civil, o Hamas - como costuma acontecer nas guerras - teria se rendido e aceitado a derrota e devolvido os reféns. Porém, isso não acontecerá, a utilização do sacrifício da população palestina é sua melhor arma para impedir uma real vitória israelense.

As acusações de cometer crimes de guerra e mesmo a responsabilização por um discutível genocídio, estão isolando Israel e a perda do apoio do Brasil, depois das declarações do presidente Lula, é preocupante. Nesta altura, já foram esquecidas as 1400 vítimas do ataque do Hamas no 7 de outubro, as violências atrozes contra mulheres e os reféns israelenses não têm mais peso.

Nesse contexto, se pode recorrer à frase do cineasta israelense Amos Gitai, pronunciada nesta semana em Berlim, depois da exibição do seu novo filme Shikun, crítico do primeiro-ministro Netanyahu: "não existe alternativa à paz entre israelenses e palestinos".

Mas essa paz, encontrada só em alguns períodos, tem sido rara desde a antiguidade bíblica, mesmo se Isaac e Ismael, seriam meio-irmãos filhos do patriarca Abraão, deles provindo os judeus e os palestinos. Com o decorrer do tempo, as divergências e guerras entre eles envolveram e envolvem disputas por terras e por diferenças religiosas.

Nesta semana, diante da Corte Internacional de Justiça da ONU, defendendo uma queixa levada a Haia em dezembro de 2022, portanto antes da guerra de Israel contra o Hamas, as autoridades palestinas denunciaram haver ilegalidade na ocupação por Israel de território palestino desde 1967, depois da Guerra dos Seis Dias. Com a vitória sobre o Egipto, Síria e Jordânia, Israel tomou a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém e as Colinas do Golã. Essas conquistas israelenses levaram à Guerra do Yom Kippur, em 1973. Mais tarde, para resumir, em 1993, houve uma curta trégua de paz com o reconhecimento mútuo entre Israel e a OLP, organização laica, de Yasser Arafat.

O cessar-fogo impossível

Essa época na qual houve um breve diálogo e entendimento terminou faz tempo. Depois do atentado do 7 de outubro, o primeiro-ministro Netanyahu jurou acabar com o Hamas. Por sua vez, o estatuto do Hamas define a destruição do Estado de Israel como seu objetivo principal. Diante desses objetivos destrutivos coincidentes, torna-se difícil negociar qualquer acordo. Cada trégua ou cessar-fogo parece funcionar como uma pausa de preparação para um novo ataque. Além disso, ao contrário da OLP e o Fatha, movimentos palestinos laicos, o Hamas tem como objetivo criar um Estado fundamentalista islâmico na região. Israel não é um Estado religioso, mas é atualmente governado pela extrema-direita com o apoio religioso dos ultra-ortodoxos.

Há uns vinte ou trinta anos, essa opção teocrática islâmica teria impedido ao Hamas receber o apoio de partidos de esquerda ocidentais. Entretanto, com o aumento da imigração vinda do Oriente Médio e norte-africano, a realidade social mudou em muitos países europeus e a antiga imagem do operário acabou sendo substituída pelo imigrante árabe muçulmano.

Ao mesmo tempo, conta bastante o Irão ser o grande inimigo dos EUA. Essa nova realidade social. política e religiosa reforçou a extrema-direita, acusada de islamofobia, mas tem levado a esquerda europeia, principalmente a francesa, a rever suas posições ideológicas tradicionais, a rediscutir sua laicidade e a fazer vista grossa ao islamismo com suas teocracias. Seria a islamofilia.

Uma adaptação do feminismo ao islamismo?

As primeiras vítimas dessa islamização da esquerda são as mulheres ou num conceito sociológico, o feminismo. Na França laica, a recente proibição das meninas usarem o véu, hijab ou o foulard islâmico nas escolas por ser uma manifestação religiosa, provocou divisões e abriu discussões dentro do feminismo, envolvendo a emancipação da mulher e legados discriminatórios no pós-colonialismo.

O véu seria sem importância, nada além de um mero traje feminino, ou a materialização da condição inferior da mulher destinada ao casamento e à reprodução, na qual está implícita a proibição do homossexualismo e da liberdade sexual feminina? Uma parcela das feministas minimizou ou rejeitou esse debate como secundário, para evitar uma discriminação.

A variação do pensamento do líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon, aceitando o véu ou hijab no espaço público mas por sua proibição nas escolas, revela um compromisso com seu eleitorado de confissão islâmica, que poderá levar, numa próxima campanha eleitoral a defender a abrogação da lei. O que permite uma pergunta: a defesa dos princípios básicos do feminismo voltará a ser secundária no programa da esquerda, diante dos problemas sociais mais urgentes e da influência islâmica?

Usamos essa questão de uma reavaliação do feminismo francês diante da presença islâmica, ainda inserida nos debates das discriminações pós-colonialistas, para mostrar a atual influência da religião islâmica dentro da esquerda francesa. E na esquerda brasileira?

Talvez o desconhecimento dos Estatutos do Hamas tem feito muita feminista brasileira, algumas com cargo de deputadas federais, apoiarem o Hamas. O mesmo ocorre com relação a alguns líderes políticos masculinos de esquerda, cujo apoio nem sempre é ao povo palestino mas à organização do Hamas, organização religiosa, autoritária, machista, com o objetivo de implantar uma teocracia na antiga Palestina, no modelo iraniano.

Nisso se sobressai o POC, Partido da Causa Operária, extrema-esquerda, que se declara 100% com o Hamas... "se é um grupo religioso, estamos ao seu lado e apoiamos os importantes serviços que prestam à humanidade".

Essa declaração pública rejeita os princípios básicos da esquerda tradicional, encampa os atos de uma teocracia violenta, despreza as denúncias de governo ditatorial na Faixa de Gaza e pode ser considerada como um elogio político ao antissemitismo.

É uma declaração extrema, porém o líder da esquerda francesa Mélenchon não condenou claramente o ataque do 7 de outubro e pressionado por um jornalista da BFMTV sobre se designava o Hamas como organização terrorista, negou-se a usar esse termo mas sim o de "ato de guerra". Para ele, as duas únicas organizações consideradas terroristas pela ONU são Al Qaida e Daesh.

É nesse contexto que talvez se possa entender a frase de Lula considerando haver genocídio na Faixa de Gaza, não ter existido nada igual em nenhum momento histórico e comparando, o que ali ocorre, com a matança de judeus, ou o Holocausto, por Hitler. Imagina-se que essa frase, de repercussão mundial, seguida de uma crise com Israel, tenha sido elaborada com seu assessor Celso Amorim. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.