Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 21 de março de 2026

Angola - Estudo sobre a bebida kissangua publicado em revista internacional

O estudo foi feito pelos investigadores e docentes da Universidade Rainha Njinga a Mbande (URNM), Isabel Balanga Pedro e Bettencourt Munanga com a participação de um estudante de tecnologia agro-alimentar, Emanuel Braga, e publicado na revista americana Journal of Food and Nutrition Sciences


A produção científica nacional começa, lentamente, a dar sinais de maturidade e de ligação a activos económicos locais, rompendo com uma tradição excessivamente teórica e distante da realidade produtiva. O mais recente exemplo surge da Universidade Rainha Njinga a Mbande, onde um grupo de investigadores conseguiu transformar um produto tradicional - a kissangua - em objecto de estudo estruturado, com publicação numa revista científica internacional de referência, a Journal of Food and Nutrition Sciences. Mais do que um exercício académico, trata-se de um sinal relevante sobre o potencial económico ainda subexplorado de produtos endógenos angolanos.

O estudo, que envolveu 35 produtores e 100 consumidores nas cidades do Huambo, Malanje e Kuito, não se limita a descrever práticas tradicionais, indo mais longe ao cruzar dimensões tecnológicas, sensoriais e socioeconómicas da produção de kissangua.

Esta abordagem integrada revela, desde logo, uma mudança de paradigma: a academia começa a olhar para os produtos locais não apenas como património cultural, mas como potenciais activos industriais com viabilidade económica, ainda que condicionada por factores muito específicos do comportamento do consumidor.

Do ponto de vista económico, o estudo traz dados concretos que ajudam a enquadrar a cadeia de valor desta bebida. As margens de comercialização variam entre cerca de 160 Kz por litro em Malanje e aproximadamente 240 Kz no Huambo e Kuito, evidenciando assimetrias regionais que podem estar associadas tanto a custos de produção como à própria dinâmica de mercado local.

Esta diferença, aparentemente marginal, levanta questões relevantes sobre eficiência produtiva, acesso a matérias-primas e elasticidade da procura, factores que devem ser considerados em qualquer tentativa de escalonamento industrial. Mas é sobretudo na dimensão da industrialização que o estudo ganha maior relevância estratégica. A investigação conclui que a transformação da kissangua num produto industrial é tecnicamente viável, mas economicamente dependente de um factor crítico: a capacidade de replicar, em escala, características sensoriais profundamente enraizadas nas preferências dos consumidores.

A fermentação natural, o sabor das raízes locais (mbundi no Huambo e Kuito, mucundu em Malanje) e o equilíbrio entre acidez e doçura não são meros detalhes - são elementos estruturais da aceitação do produto . A experiência falhada da industrialização anterior - com a introdução da "Compal Kissangua da Banda" em 2018 - surge, neste contexto, como um estudo de caso quase didáctico.

O produto foi rejeitado não apenas pelo preço elevado, mas sobretudo por ser percepcionado como "artificial", falhando precisamente nos atributos que o estudo agora identifica como críticos para o sucesso. Ou seja, a tentativa de industrialização ignorou aquilo que este novo trabalho académico demonstra: que o valor económico da kissangua está intrinsecamente ligado à sua autenticidade.

Os dados recolhidos reforçam esta leitura. Cerca de 67,62% dos inquiridos nunca ouviram falar de versões industrializadas e 84% nunca as consumiram, enquanto os poucos que experimentaram apontaram falhas claras na qualidade sensorial, desde a ausência de ingredientes tradicionais até deficiências no processo de fermentação.

Ainda assim, existe uma base potencial de mercado, desde que essas limitações sejam ultrapassadas - o que abre espaço para modelos híbridos entre produção artesanal e industrial, eventualmente com certificação de origem ou processos semi-industriais adaptados às especificidades regionais.

Em termos mais amplos, este trabalho levanta uma questão central para a economia angolana: até que ponto o País está preparado para transformar conhecimento científico em valor económico?

A existência de investigação aplicada, publicada em revistas internacionais, é um passo importante, mas insuficiente se não houver mecanismos de ligação ao sector empresarial, financiamento à inovação e políticas públicas que incentivem a industrialização de produtos locais com base em evidências científicas.

A kissangua, neste caso, funciona como exemplo de um universo muito mais vasto de produtos tradicionais que permanecem fora dos circuitos formais da economia. O estudo demonstra que há conhecimento, há mercado e há potencial de margem. Falta, como tantas vezes, a ponte entre a academia e a indústria - e, sobretudo, a capacidade de transformar tradição em escala sem destruir aquilo que lhe dá valor económico: a autenticidade. Adriano Kayunduma – Angola in “Expansão”


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