Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Internacional - Cientistas da Universidade do Porto lideram estudo sobre novas terapias contra a tuberculose

Estudo internacional reúne contributos de 24 investigadores de 13 países e analisa abordagens inovadoras que poderão contribuir para tratamentos mais curtos, seguros e eficazes


Investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da REQUIMTE (Rede de Química e Tecnologia) e da Faculdade de Farmácia da U.Porto (FFUP) lideraram uma revisão internacional que reúne algumas das estratégias terapêuticas mais promissoras para o combate à tuberculose e a outras infeções causadas por micobactérias. O artigo foi publicado na revista Medicinal Research Reviews e envolveu 24 autores de 13 países.

Apesar dos avanços alcançados nas últimas décadas, a tuberculose continua a representar um importante desafio global de saúde pública. “O aumento dos casos de tuberculose multirresistente e a crescente incidência de infeções causadas por micobactérias não tuberculosas reforçam a necessidade de desenvolver tratamentos mais eficazes e capazes de ultrapassar os mecanismos de resistência aos medicamentos atualmente disponíveis”, afirma Tânia Silva, investigadora do grupo Host Targets of Infection do i3S e primeira autora do estudo.

Neste contexto, o estudo analisa diferentes abordagens terapêuticas emergentes. “Entre elas encontram-se pequenas moléculas dirigidas a alvos bacterianos essenciais, incluindo compostos concebidos para contornar fenómenos de resistência, bem como produtos naturais e fitoquímicos com potencial antimicrobiano”, explica Mafalda Sarraguça, investigadora da REQUIMTE na FFUP e última autora do artigo. A revisão científica explora ainda estratégias não convencionais, como os péptidos antimicrobianos e o uso de bacteriófagos (vírus que infectam bactérias).

Os autores dedicam também especial atenção às chamadas terapias dirigidas ao hospedeiro, uma abordagem inovadora que procura modular a resposta imunitária do organismo para promover uma eliminação mais eficaz das micobactérias e reduzir os danos causados pela infeção.

De acordo com os investigadores, o futuro do tratamento destas doenças passará, provavelmente, pela combinação de diferentes estratégias terapêuticas. “A integração de novos compostos antimicrobianos com terapias dirigidas ao hospedeiro e sistemas mais eficientes de administração de fármacos poderá contribuir para tratamentos mais curtos, seguros e eficazes”, esclarece Mafalda Sarraguça.

Rede europeia contra a tuberculose

Além da relevância científica do trabalho, a publicação constitui um dos resultados da COST Action ADVANCE-TB, uma rede europeia criada em 2022 para promover a colaboração entre investigadores, clínicos, indústria e organizações ligadas à investigação em tuberculose.

A iniciativa, financiada pela COST (European Cooperation in Science and Technology), tem impulsionado colaborações internacionais, missões científicas, atividades de formação, workshops e a participação em congressos, com especial enfoque no apoio a investigadores em início de carreira.

A participação portuguesa nesta rede tem sido particularmente expressiva, contando com vários investigadores em posições de liderança. Entre eles, Tânia Silva, que desempenha as funções de Vice-Chair da ADVANCE-TB. Esta presença tem contribuído para reforçar a projeção internacional da investigação desenvolvida em Portugal e para integrar equipas nacionais em redes científicas e consórcios europeus.

Com o término da ADVANCE-TB previsto para o final de setembro de 2026, Tânia Silva acredita que as colaborações estabelecidas ao longo dos últimos anos continuarão a traduzir-se em novos projetos, publicações e candidaturas conjuntas a financiamento. “O artigo agora publicado demonstra o impacto que estas redes internacionais podem ter na produção de conhecimento e no desenvolvimento de novas soluções para combater uma das doenças infecciosas mais persistentes à escala global”, conclui a Professora Auxiliar Convidada no ICBAS.

A COST (European Cooperation in Science and Technology) é uma agência de financiamento de redes de investigação e inovação que ajuda a interligar iniciativas de investigação em toda a Europa e permite que os cientistas desenvolvam as suas ideias, partilhando-as com os seus pares. Isto impulsiona a sua investigação, carreira e inovação. Universidade do Porto - Portugal


terça-feira, 28 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde acelera valorização de terapias para tumores cerebrais

Quatro investigadoras do instituto concluíram um dos principais programas nacionais de transferência de tecnologia para projetos de investigação


Uma equipa de investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto concluiu com sucesso a edição de 2026 do HiTech by HiSeedTech, um dos mais prestigiados programas nacionais de valorização e transferência de tecnologia para projetos deep tech com potencial de mercado.

O projeto GlioBrain-Plate, desenvolvido por Ana Olival, Cecília Ferreira e Diana Ribeiro, sob a liderança de Cláudia Martins, integra o grupo Nanomedicines and Translational Drug Delivery do i3S, liderado por Bruno Sarmento. “Estamos a desenvolver uma plataforma pré-clínica inovadora para o teste de novas terapias dirigidas a tumores cerebrais sólidos, com foco inicial no glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais frequente e mortal em adultos”, explica Cláudia Martins.

A tecnologia reproduz, em laboratório, a interação entre a barreira hematoencefálica e o tumor, permitindo avaliar, em simultâneo, a capacidade de uma terapia atravessar esta barreira natural de proteção do cérebro e a sua eficácia terapêutica.

“Ao disponibilizar um modelo mais preditivo da resposta humana, o GlioBrain-Plate pretende acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos, reduzir os custos e riscos associados ao desenvolvimento clínico e contribuir para aumentar a probabilidade de sucesso de novas terapias para pacientes com tumores cerebrais”, sublinha a investigadora.

A participação no HiTech permitiu à equipa aprofundar competências em inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia ao longo de 18 semanas de formação, mentoria e contacto com a indústria, empreendedores e investidores. Entre todas as candidaturas submetidas a nível nacional, apenas 10 projetos foram selecionados para integrar a edição de 2026.

O programa terminou com a apresentação do pitch final no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, perante representantes da indústria, investidores, empreendedores e especialistas do ecossistema nacional de inovação. O percurso constituiu um passo importante na valorização da tecnologia desenvolvida pela equipa e na preparação da sua futura transferência para o mercado. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre como o cancro do estômago convence a gordura a alimentá-lo

Estudo abre caminho ao desenvolvimento de terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células tumorais e as células do tecido adiposo


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova forma de comunicação entre as células do cancro do estômago e as células do tecido adiposo, isto é, as células de gordura. Os resultados do estudo, publicados na revista Extracellular Vesicles and Circulating Nucleic Acids, mostram como esta interação pode ser responsável pelo fornecimento de energia às células tumorais, favorecendo a progressão da doença.

“Sabe-se que as células cancerígenas comunicam constantemente com os tecidos à sua volta, criando condições que favorecem o desenvolvimento da doença”, explica Celso Reis, coordenador do grupo de investigação do i3S Glycobiology in Cancer. No entanto, existem ainda muitas perguntas por responder sobre como essa comunicação acontece.

Neste estudo, os investigadores analisaram células de cancro do estômago que apresentam à superfície uma molécula de açúcar chamada sialyl-Tn (STn), frequentemente encontrada em tumores mais agressivos. “Verificámos que estas células libertam pequenas partículas, conhecidas como vesículas extracelulares, que funcionam como «mensagens» enviadas para outras células do organismo”, refere Daniela Freitas, investigadora do i3S e coordenadora do estudo. Quando estas partículas chegam às células de gordura, provocam alterações no seu funcionamento. Como resultado, o tecido adiposo começa a libertar mais ácidos gordos, moléculas ricas em energia que podem ser aproveitadas pelas células tumorais.

“Observámos que as células cancerígenas conseguem adaptar-se para utilizar essa gordura como combustível. Ao terem acesso a esta fonte adicional de energia, tornam-se mais móveis e podem ganhar uma maior capacidade de invadir os tecidos vizinhos”, sublinha Cátia Ramos, primeira autora do estudo.

O trabalho identificou ainda a molécula STn como um elemento central neste processo de comunicação. Esta descoberta, garantem os investigadores do i3S, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novas terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células cancerígenas e as células de gordura, dificultando o acesso do tumor a esta fonte de energia.

Além do seu potencial impacto no controlo da progressão do cancro, esta investigação poderá também contribuir para combater problemas frequentemente associados à doença, como a perda acentuada de peso, de massa muscular e de gordura corporal, afetando de forma significativa a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes com cancro.

Ao revelar esta nova forma de interação entre o tumor e os tecidos que o rodeiam, o trabalho do i3S reforça a importância de compreender não apenas as células cancerígenas, mas também o ambiente em que estas se desenvolvem. Universidade do Porto - Portugal

 


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Portugal - Estudo do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde abre caminho para atrasar o envelhecimento do sistema imunitário

Cientistas identificaram proteínas essenciais para preservar a função do timo e a produção de células T


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto descobriu um mecanismo fundamental que ajuda o timo, um órgão central do sistema imunitário, a manter-se funcional ao longo da vida. Os resultados, publicados na prestigiada revista Cell Death & Differentiation, ajudam a explicar por que é que o sistema imunitário enfraquece com a idade e poderão contribuir para novas estratégias terapêuticas destinadas a promover um envelhecimento mais saudável.

O timo é um pequeno órgão localizado acima do coração que desempenha uma função essencial: é nele que se formam e se “treinam” as células T, um dos principais pilares das defesas do organismo contra infeções e cancro. Apesar da sua importância, o timo começa a perder tamanho e atividade logo após a adolescência. “Sabemos há muito tempo que o timo perde capacidade com a idade, diminuindo a resposta a vacinas e a nossa resistência contra infeções e cancro. No entanto, ainda não compreendemos os mecanismos que ajudam este órgão a manter-se funcional. Este estudo identifica peças-chave desse processo”, explica Nuno Alves, coordenador do trabalho.

A equipa descobriu que existem duas proteínas (ZFP36L1 e ZFP36L2) fundamentais para preservar o funcionamento das células que sustentam a estrutura do timo e permitem a formação adequada das células T. A equipa demonstrou também que os níveis destas proteínas diminuem naturalmente com a idade, reforçando a ideia de que podem estar envolvidas no processo de envelhecimento do sistema imunitário. Os cientistas acreditam que estas descobertas poderão abrir caminho a novas estratégias terapêuticas para atrasar ou contrariar a perda de função do timo.

“O objetivo não é apenas compreender como envelhece o sistema imunitário, mas também encontrar formas de o manter mais competente durante mais tempo. Se conseguirmos preservar a função do timo, poderemos contribuir para melhorar a resposta do organismo às infeções, às vacinas e até a algumas terapias contra o cancro”, sublinha Nuno Alves.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores utilizaram modelos animais e ferramentas genéticas avançadas. Quando as duas proteínas foram removidas, o timo envelheceu precocemente, perdeu capacidade para produzir células T e deixou de assegurar um funcionamento adequado do sistema imunitário. “Observámos que, sem estas proteínas, o timo começa a apresentar, muito cedo, características normalmente associadas ao envelhecimento. Isso sugere que desempenham um papel essencial na preservação da função deste órgão ao longo da vida”, afirma o investigador.

Para a equipa do i3S, o trabalho representa um passo importante na compreensão dos processos biológicos que influenciam a saúde ao longo do envelhecimento: “Durante muitos anos, o timo foi visto como um órgão importante apenas na infância. Sabe-se agora que indivíduos com um timo mais funcional podem estar mais protegidos contra doenças e responder melhor a terapias inovadoras, incluindo imunoterapias contra o cancro. Por isso, quanto melhor compreendermos o seu funcionamento, mais perto estaremos de desenvolver estratégias que ajudem a envelhecer melhor com um sistema imunitário mais forte”, conclui o investigador. Universidade do Porto - Portugal


terça-feira, 7 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde valida estratégia para vacinas contra cancro colorretal

Estudo identificou vulnerabilidades persistentes em tumores colorretais e fornece bases para o desenvolvimento de imunoterapias personalizadas


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou vulnerabilidades imunológicas persistentes em tumores colorretais que poderão ser exploradas no desenvolvimento de vacinas terapêuticas personalizadas contra o cancro.

O estudo, agora publicado na prestigiada revista científica Gut, centrou-se em tumores colorretais conhecidos por produzirem muitos neoantigénios, isto é, moléculas alteradas que podem ser reconhecidas pelo sistema imunitário como sinais de perigo. Na maioria das situações, o sistema imunitário consegue interpretar esses sinais e eliminar completamente as células tumorais.

O problema surge quando este mecanismo falha. “Nesses casos, o tumor promove um ambiente imunossupressor que impede o sistema imunitário de completar a tarefa e, por isso, o tumor desenvolve-se”, explica Helena Xavier Ferreira, primeira autora do artigo.

Apesar de o tumor crescer, ele não deixa de ser reconhecido pelo sistema imunitário. Na verdade, muitas das suas células sofrem mutações que resultam na produção de mais neoantigénios. “O desafio passa a ser ajudar o sistema imune adormecido pelo ambiente imunossupressor a fazer aquilo que já sabe fazer: atacar estas células com neoantigénios”, acrescenta Carlos Resende, um dos autores seniores do artigo.

Esta descoberta tem importantes implicações clínicas. Ao identificar os neoantigénios que provocam uma verdadeira resposta imunológica, este trabalho fornece conhecimento fundamental para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o cancro. Estas vacinas são concebidas a partir das características genéticas específicas de cada tumor.

“Estamos perante uma das expressões mais avançadas da medicina personalizada. Cada vacina tem de ser desenhada para um doente específico, tendo em conta as mutações e os neoantigénios presentes no seu tumor. Uma mesma vacina não será eficaz em doentes diferentes”, sublinha José Carlos Machado, coordenador do grupo de investigação.

Além de contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, este trabalho ajuda a compreender melhor a forma como os tumores evoluem sob a pressão exercida pelo sistema imunitário. Os resultados reforçam a perspetiva de uma nova geração de imunoterapias personalizadas, capazes de explorar as vulnerabilidades únicas de cada tumor e de potenciar a capacidade natural do organismo para combater o cancro. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inova no tratamento da leucemia mieloide aguda

Nova estratégia terapêutica que potencia quimioterapia contra a leucemia mieloide aguda deverá ser testada em colaboração com o IPO Porto


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova estratégia terapêutica, agora publicada na Science Translational Medicine, que pode melhorar a eficácia da quimioterapia e reduzir complicações graves associadas ao tratamento da leucemia mieloide aguda.

O grupo, liderado por Delfim Duarte, provou que a administração de transferrina, uma proteína que transporta ferro pela corrente sanguínea, em conjunto com a quimioterapia, melhora a recuperação da medula óssea, aumenta a sobrevivência e reduz as complicações infecciosas associadas à terapia convencional.

A leucemia mieloide aguda é tratada, na maioria dos casos, com quimioterapia intensiva. “Apesar de eliminar células cancerígenas com eficácia, este tratamento provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos”, explica 0 hematologista do IPO Porto e líder do grupo de investigação Hematopoiesis and Microenvironments do i3S.

Neste estudo, os investigadores testaram a administração de apotransferrina humana, uma forma de transferrina sem ferro, para captar esse mineral em excesso e redistribuí-lo para células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário.

Utilizando vários modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, a equipa demonstrou que esta abordagem reduz significativamente os níveis de ferro tóxico circulante após a quimioterapia.

Nova terapia reforça combate a infeções graves

A equipa estudou ainda a segurança desta estratégia no contexto de infeção grave, uma das principais causas de morte em doentes com leucemia mieloide aguda.

Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. “Não porque se eliminaram as bactérias, mas devido a uma resposta inflamatória mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção”, esclarece Marta Lopes, primeira autora do estudo.

Com base nestes “dados pré-clínicos promissores”, a equipa espera poder avançar, num futuro próximo, com um ensaio clínico, em colaboração com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto, que avalie o uso da transferrina como terapêutica adjuvante à quimioterapia.

“O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia desta combinação [transferrina e quimioterapia] em doentes com leucemia mieloide aguda”, conclui Delfim Duarte. Universidade de Porto


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde lidera projeto para inovar no tratamento do glioblastoma

Projeto para desenvolver nanomedicinas ativadas por ultrassons recebeu financiamento de 150 mil euros do Programa UT Austin Portugal


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto recebeu financiamento do Programa UT Austin Portugal para desenvolver um projeto orientado para o «Tratamento do glioblastoma através de nanoterapias baseadas em estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio para libertação local de bevacizumab ativada por ultrassons». Este projeto foi um dos selecionados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito de uma iniciativa de colaboração internacional com a University of Texas at Austin (UT Austin).

Com um financiamento total de 150 mil euros, dos quais 50 mil euros são assegurados pela FCT e 100 mil euros pela UT Austin, o projeto resulta de uma colaboração entre o grupo de investigação Nanomedicines & Translational Drug Delivery do i3S e o Department of Biomedical Engineering da universidade norte-americana, sendo coordenado em Portugal por Bruno Sarmento e, nos EUA, pelo investigador e professor Huiliang Wang.

“O projeto pretende desenvolver uma nova geração de nanomedicinas inteligentes para o tratamento do glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais agressivos e difíceis de tratar”, explica Ana Catarina Pacheco, investigadora do i3S.

A estratégia combina nanopartículas inovadoras com ultrassons direcionados para permitir a libertação localizada e controlada de bevacizumab. Este medicamento reduz a formação de vasos sanguíneos que alimentam o tumor e promovem o seu crescimento.

A equipa vai recorrer a estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio (Hydrogen-bonded Organic Frameworks, HOF), materiais supramoleculares altamente biocompatíveis capazes de encapsular proteínas terapêuticas e responder a estímulos externos. Quando expostas a ultrassons direcionados, estas nanopartículas sofrem alterações estruturais que desencadeiam a libertação do fármaco apenas na região do tumor.

“Esta abordagem permite separar a distribuição sistémica do medicamento da sua ativação terapêutica”, acrescenta a investigadora do i3S Cláudia Martins.

“O bevacizumab circula encapsulado e inativo no organismo, sendo libertado apenas no local pretendido através da aplicação de ultrassons. Desta forma, espera-se reduzir significativamente os efeitos adversos associados à terapêutica convencional e aumentar a eficácia do tratamento”, conclui.

Combater o glioblastoma com “maior precisão terapêutica”

O glioblastoma caracteriza-se por uma elevada vascularização e por uma grande resistência aos tratamentos atualmente disponíveis. Embora o bevacizumab seja utilizado na prática clínica para controlar a progressão da doença, a sua administração sistémica pode provocar várias complicações, incluindo hipertensão, formação de coágulos sanguíneos e hemorragias. Além disso, o cérebro possui uma barreira protetora que limita a quantidade de medicamento que chega ao tumor.

Para ultrapassar estes desafios, os investigadores vão desenvolver e otimizar nanopartículas capazes de transportar o fármaco de forma segura até ao cérebro e libertá-lo apenas depois de ativado por ultrassons. O projeto inclui estudos em modelos celulares 3D e em modelos animais de glioblastoma, permitindo avaliar a eficácia terapêutica, a segurança sistémica e o impacto da estratégia na progressão tumoral e na sobrevivência.

Segundo Bruno Sarmento, este financiamento representa também uma oportunidade para consolidar uma linha de investigação que o grupo tem vindo a desenvolver nos últimos anos na área da nanomedicina para o tratamento de tumores cerebrais.

“Este projeto permitirá dar continuidade ao trabalho que temos realizado no desenvolvimento de sistemas avançados de libertação de fármacos para o glioblastoma, explorando agora uma abordagem inovadora que combina nanotecnologia e ultrassons para alcançar uma maior precisão terapêutica”, explica o líder do grupo de investigação.

O Concurso de Projetos Exploratórios 2025 dos programas UT Austin Portugal financiou um total de oito projetos, de 41 candidaturas, correspondendo a um investimento global de quase 400 mil euros, integralmente financiado pela FCT. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre função “escondida” do ADN associada a doença neurodegenerativa

A ataxia espinocerebelosa tipo 37 é uma doença neurodegenerativa genética rara, cujos sintomas se assemelham aos da doença de Machado-Joseph


Apenas uma pequena parte do nosso ADN (cerca de 2%) contém instruções para a produção de proteínas. Durante muitos anos, pensou-se que os restantes 98% não tinham qualquer função e, por isso, foram considerados «junk DNA» (ADN lixo, em português). Hoje, porém, sabe-se que isto não é verdade, embora muito deste ADN permaneça ainda um mistério. Uma equipa de cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, liderada por Isabel Silveira e José Bessa, tem tentado desvendá-lo, descobrindo recentemente que uma pequena região deste ADN controla a atividade do gene DAB1, essencial para o desenvolvimento e para o funcionamento do cérebro.

O trabalho, agora publicado na revista Cell Reports, revela que esta região não codificante do genoma funciona como um elemento regulador chamado enhancer, o qual controla a ativação do gene DAB1 nas células nervosas. “Este gene faz parte de um sistema que ajuda os neurónios a encontrar o seu lugar no cérebro e a formar ligações corretas entre si”, explica a investigadora Isabel Silveira.

Os cientistas demonstraram, assim, que, na ataxia espinocerebelosa tipo 37 (SCA37), uma doença degenerativa hereditária rara, ocorre o aparecimento anormal de uma pequena sequência de ADN que se repete várias vezes [A, T, T, T, C] precisamente neste enhancer. Longe de ser uma alteração neutra, esta mutação faz com que o gene fique demasiado ativo, levando a uma produção excessiva de DAB1 nos neurónios, com efeitos prejudiciais para a saúde.

Para perceber o impacto desta alteração, a equipa recorreu a diferentes modelos experimentais. “Em células do sistema nervoso de doentes com esta ataxia, obtidas em laboratório, observámos níveis significativamente mais elevados do gene DAB1. Em paralelo, em embriões de peixe-zebra, verificámos que o aumento deste gene afeta o crescimento e a direção dos axónios, estruturas essenciais para a comunicação entre neurónios”, conta Joana Loureiro, primeira autora do estudo. Estas alterações ajudam a explicar as dificuldades motoras características da doença, como a perda de equilíbrio, coordenação motora e fala.

O estudo mostra ainda que esta mutação atua através de um mecanismo particularmente complexo. “Por um lado, altera a forma como o ADN controla a atividade dos genes. Por outro lado, a sequência repetitiva gera moléculas anormais que se acumulam nas células e interferem com o funcionamento normal de proteínas importantes”, acrescenta Isabel Silveira.

Além do aumento de DAB1, os investigadores identificaram alterações na atividade de vários outros genes envolvidos em funções essenciais do sistema nervoso. “Estes efeitos em cadeia poderão ajudar a explicar a sobreposição de sintomas entre esta ataxia e outras doenças neurológicas, como a Doença de Machado-Joseph”, sublinha a investigadora do i3S.

Outro aspeto relevante deste trabalho é a importância das sequências repetitivas do genoma humano. “Durante décadas, estes elementos foram considerados sem função, mas agora acredita-se que podem desempenhar papéis reguladores importantes. Quando alterados, como neste caso, podem contribuir diretamente para o desenvolvimento de doença”, conclui o investigador José Bessa.

Este estudo abre novas perspetivas na compreensão de doenças genéticas associadas ao aumento do número de repetições de pequenas sequências de ADN e destaca a importância de olhar para além dos genes propriamente ditos, explorando também as regiões que controlam a sua atividade. No futuro, este conhecimento poderá contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais direcionadas e eficazes. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde desenvolve Inteligência Artificial que aprende a comunicar com neurónios

O projeto NeuroSAFE vai ser financiado com cerca de 100 mil euros no âmbito do Concurso de Projetos Exploratórios 2025 do Programa CMU Portugal


O investigador Paulo Aguiar, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, vai liderar um novo projeto financiado em cerca de 100 mil euros pelo Concurso de Projetos Exploratórios 2025 do Programa CMU Portugal. O projeto intitulado NeuroSAFE foi um dos sete selecionados para financiamento pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito desta iniciativa de colaboração internacional com a Carnegie Mellon University (CMU).

“O projeto NeuroSAFE pretende desenvolver novos métodos de inteligência artificial (IA) para controlar a atividade de neurónios, de forma segura e adaptativa”, explica o líder do grupo de investigação Neuroengineering and Computational Neuroscience do i3S. A ideia é criar algoritmos que observam continuamente a atividade dos neurónios, tomam decisões sobre quando e como estimulá-los e ajustam essas decisões com base na resposta obtida. Este processo acontece em tempo real, funcionando de forma semelhante a um sistema que aprende com a experiência e melhora gradualmente o seu desempenho.

Esta abordagem poderá contribuir para o desenvolvimento de futuras gerações de sistemas de estimulação cerebral profunda, utilizados, por exemplo, no tratamento da doença de Parkinson e de outras perturbações neurológicas.

“Como estes algoritmos não podem ser desenvolvidos diretamente com pacientes, a equipa recorrerá a plataformas brain-on-chip”, acrescenta Paulo Aguiar. Estas plataformas funcionam como pequenos laboratórios onde neurónios vivos são cultivados e ligados a sensores capazes de registar e estimular a sua atividade elétrica. Isto permite aos investigadores treinar os algoritmos em condições controladas e seguras.

O projeto resulta de uma colaboração entre o i3S e o Department of Electrical and Computer Engineering (ECE) da Carnegie Mellon University, sendo coordenado por Paulo Aguiar em Portugal e por Yorie Nakahira na instituição norte-americana. Para o investigador do i3S, este financiamento representa também uma oportunidade para reforçar a cooperação científica internacional e lançar bases para futuros desenvolvimentos na área das neurotecnologias. “

Este financiamento é particularmente importante porque permite estreitar a colaboração entre o i3S e a CMU, gerar dados preliminares e desenvolver ferramentas computacionais que poderão contribuir para futuras neurotecnologias inteligentes e personalizadas”, sublinha Paulo Aguiar.

Os resultados provisórios dos Concursos de Projetos Exploratórios 2025 dos programas CMU Portugal e UT Austin Portugal contemplam um total de 15 projetos, correspondendo a um investimento global de quase 800 mil euros, integralmente financiado pela FCT. No caso concreto do Programa CMU Portugal, foram apoiados sete projetos na área das Tecnologias de Informação, entre 36 candidaturas submetidas.

Desde 2017, o programa já financiou 42 projetos, contribuindo para reforçar a competitividade internacional e a capacidade de inovação científica e tecnológica de Portugal. Universidade do Porto - Portugal