Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 11 de março de 2026

Internacional - Cientistas da Universidade do Porto revelam como as cobras sobrevivem sem comer

As cobras são conhecidas pela sua capacidade de sobreviver meses sem comer, um aspeto que intrigou cientistas de todo o mundo durante décadas. Um novo estudo internacional, liderado por investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), revela que este feito extraordinário pode estar ligado à perda evolutiva de uma hormona chave que regula a fome


O trabalho da equipa, publicado na Royal Society Open Biology e destacado pela prestigiada revista Science, mostra que as cobras perderam o gene responsável pela produção da grelina, uma hormona que, na maioria dos vertebrados, estimula o apetite e ajuda a controlar o metabolismo energético.

Esta alteração genética parece ter permitido uma profunda reorganização fisiológica que favorece o armazenamento e a utilização eficiente de energia, permitindo a estes répteis sobreviver meses sem se alimentarem.

“Este estudo demonstra como a evolução pode produzir adaptações radicais não apenas através do surgimento de novos genes, mas também pela perda estratégica de funções antigas”, explica Rui Pinto, investigador do CIIMAR e estudante do doutoramento em Biologia da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP).

“Ao perderem a grelina, as cobras parecem ter desenvolvido mecanismos alternativos para controlar o apetite e gerir as reservas energéticas, tornando-se verdadeiros especialistas em sobreviver a longos períodos de escassez alimentar”, acrescenta o investigador, envolvido na área da evolução metabólica e primeiro autor deste estudo.

Para os cientistas, esta descoberta ajuda a compreender melhor como os vertebrados podem adaptar-se a ambientes extremos e imprevisíveis, onde a disponibilidade de alimento é irregular.

Filipe Castro, líder do grupo de investigação em Genética e Evolução Animal do CIIMAR e professor da FCUP, destaca o impacto mais amplo da descoberta. “Este trabalho reforça uma ideia fundamental na biologia evolutiva: perder genes pode ser tão importante quanto ganhar novos. As cobras mostram-nos como a evolução pode reconfigurar profundamente sistemas fisiológicos complexos, abrindo novas perspetivas para compreender o metabolismo energético e até doenças humanas relacionadas com o controlo do apetite e do metabolismo”, aponta.

Os investigadores sublinham que compreender estes mecanismos naturais poderá, no futuro, contribuir para novas abordagens no estudo da obesidade, diabetes e outros distúrbios metabólicos. Universidade do Porto - Portugal


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