Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 28 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde acelera valorização de terapias para tumores cerebrais

Quatro investigadoras do instituto concluíram um dos principais programas nacionais de transferência de tecnologia para projetos de investigação


Uma equipa de investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto concluiu com sucesso a edição de 2026 do HiTech by HiSeedTech, um dos mais prestigiados programas nacionais de valorização e transferência de tecnologia para projetos deep tech com potencial de mercado.

O projeto GlioBrain-Plate, desenvolvido por Ana Olival, Cecília Ferreira e Diana Ribeiro, sob a liderança de Cláudia Martins, integra o grupo Nanomedicines and Translational Drug Delivery do i3S, liderado por Bruno Sarmento. “Estamos a desenvolver uma plataforma pré-clínica inovadora para o teste de novas terapias dirigidas a tumores cerebrais sólidos, com foco inicial no glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais frequente e mortal em adultos”, explica Cláudia Martins.

A tecnologia reproduz, em laboratório, a interação entre a barreira hematoencefálica e o tumor, permitindo avaliar, em simultâneo, a capacidade de uma terapia atravessar esta barreira natural de proteção do cérebro e a sua eficácia terapêutica.

“Ao disponibilizar um modelo mais preditivo da resposta humana, o GlioBrain-Plate pretende acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos, reduzir os custos e riscos associados ao desenvolvimento clínico e contribuir para aumentar a probabilidade de sucesso de novas terapias para pacientes com tumores cerebrais”, sublinha a investigadora.

A participação no HiTech permitiu à equipa aprofundar competências em inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia ao longo de 18 semanas de formação, mentoria e contacto com a indústria, empreendedores e investidores. Entre todas as candidaturas submetidas a nível nacional, apenas 10 projetos foram selecionados para integrar a edição de 2026.

O programa terminou com a apresentação do pitch final no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, perante representantes da indústria, investidores, empreendedores e especialistas do ecossistema nacional de inovação. O percurso constituiu um passo importante na valorização da tecnologia desenvolvida pela equipa e na preparação da sua futura transferência para o mercado. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre como o cancro do estômago convence a gordura a alimentá-lo

Estudo abre caminho ao desenvolvimento de terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células tumorais e as células do tecido adiposo


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova forma de comunicação entre as células do cancro do estômago e as células do tecido adiposo, isto é, as células de gordura. Os resultados do estudo, publicados na revista Extracellular Vesicles and Circulating Nucleic Acids, mostram como esta interação pode ser responsável pelo fornecimento de energia às células tumorais, favorecendo a progressão da doença.

“Sabe-se que as células cancerígenas comunicam constantemente com os tecidos à sua volta, criando condições que favorecem o desenvolvimento da doença”, explica Celso Reis, coordenador do grupo de investigação do i3S Glycobiology in Cancer. No entanto, existem ainda muitas perguntas por responder sobre como essa comunicação acontece.

Neste estudo, os investigadores analisaram células de cancro do estômago que apresentam à superfície uma molécula de açúcar chamada sialyl-Tn (STn), frequentemente encontrada em tumores mais agressivos. “Verificámos que estas células libertam pequenas partículas, conhecidas como vesículas extracelulares, que funcionam como «mensagens» enviadas para outras células do organismo”, refere Daniela Freitas, investigadora do i3S e coordenadora do estudo. Quando estas partículas chegam às células de gordura, provocam alterações no seu funcionamento. Como resultado, o tecido adiposo começa a libertar mais ácidos gordos, moléculas ricas em energia que podem ser aproveitadas pelas células tumorais.

“Observámos que as células cancerígenas conseguem adaptar-se para utilizar essa gordura como combustível. Ao terem acesso a esta fonte adicional de energia, tornam-se mais móveis e podem ganhar uma maior capacidade de invadir os tecidos vizinhos”, sublinha Cátia Ramos, primeira autora do estudo.

O trabalho identificou ainda a molécula STn como um elemento central neste processo de comunicação. Esta descoberta, garantem os investigadores do i3S, poderá abrir caminho ao desenvolvimento de novas terapias capazes de bloquear a troca de mensagens entre as células cancerígenas e as células de gordura, dificultando o acesso do tumor a esta fonte de energia.

Além do seu potencial impacto no controlo da progressão do cancro, esta investigação poderá também contribuir para combater problemas frequentemente associados à doença, como a perda acentuada de peso, de massa muscular e de gordura corporal, afetando de forma significativa a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes com cancro.

Ao revelar esta nova forma de interação entre o tumor e os tecidos que o rodeiam, o trabalho do i3S reforça a importância de compreender não apenas as células cancerígenas, mas também o ambiente em que estas se desenvolvem. Universidade do Porto - Portugal

 


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Portugal - Estudo do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde abre caminho para atrasar o envelhecimento do sistema imunitário

Cientistas identificaram proteínas essenciais para preservar a função do timo e a produção de células T


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto descobriu um mecanismo fundamental que ajuda o timo, um órgão central do sistema imunitário, a manter-se funcional ao longo da vida. Os resultados, publicados na prestigiada revista Cell Death & Differentiation, ajudam a explicar por que é que o sistema imunitário enfraquece com a idade e poderão contribuir para novas estratégias terapêuticas destinadas a promover um envelhecimento mais saudável.

O timo é um pequeno órgão localizado acima do coração que desempenha uma função essencial: é nele que se formam e se “treinam” as células T, um dos principais pilares das defesas do organismo contra infeções e cancro. Apesar da sua importância, o timo começa a perder tamanho e atividade logo após a adolescência. “Sabemos há muito tempo que o timo perde capacidade com a idade, diminuindo a resposta a vacinas e a nossa resistência contra infeções e cancro. No entanto, ainda não compreendemos os mecanismos que ajudam este órgão a manter-se funcional. Este estudo identifica peças-chave desse processo”, explica Nuno Alves, coordenador do trabalho.

A equipa descobriu que existem duas proteínas (ZFP36L1 e ZFP36L2) fundamentais para preservar o funcionamento das células que sustentam a estrutura do timo e permitem a formação adequada das células T. A equipa demonstrou também que os níveis destas proteínas diminuem naturalmente com a idade, reforçando a ideia de que podem estar envolvidas no processo de envelhecimento do sistema imunitário. Os cientistas acreditam que estas descobertas poderão abrir caminho a novas estratégias terapêuticas para atrasar ou contrariar a perda de função do timo.

“O objetivo não é apenas compreender como envelhece o sistema imunitário, mas também encontrar formas de o manter mais competente durante mais tempo. Se conseguirmos preservar a função do timo, poderemos contribuir para melhorar a resposta do organismo às infeções, às vacinas e até a algumas terapias contra o cancro”, sublinha Nuno Alves.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores utilizaram modelos animais e ferramentas genéticas avançadas. Quando as duas proteínas foram removidas, o timo envelheceu precocemente, perdeu capacidade para produzir células T e deixou de assegurar um funcionamento adequado do sistema imunitário. “Observámos que, sem estas proteínas, o timo começa a apresentar, muito cedo, características normalmente associadas ao envelhecimento. Isso sugere que desempenham um papel essencial na preservação da função deste órgão ao longo da vida”, afirma o investigador.

Para a equipa do i3S, o trabalho representa um passo importante na compreensão dos processos biológicos que influenciam a saúde ao longo do envelhecimento: “Durante muitos anos, o timo foi visto como um órgão importante apenas na infância. Sabe-se agora que indivíduos com um timo mais funcional podem estar mais protegidos contra doenças e responder melhor a terapias inovadoras, incluindo imunoterapias contra o cancro. Por isso, quanto melhor compreendermos o seu funcionamento, mais perto estaremos de desenvolver estratégias que ajudem a envelhecer melhor com um sistema imunitário mais forte”, conclui o investigador. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Angola - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto lidera esforço para salvar últimos elefantes-da-floresta

Parceria com a Fundação Kissama recebeu financiamento de 1,2 milhões de dólares para reforçar a conservação de uma das populações de elefantes mais ameaçadas de África


A Fundação Kissama, em parceria com o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO), garantiu um financiamento de 1,2 milhões de dólares norte-americanos para proteger os últimos elefantes-da-floresta que sobrevivem no noroeste de Angola.

Apoiado pelo Elephant Crisis Fund (ECF), uma iniciativa conjunta da Save the Elephants e da Wildlife Conservation Network, o projeto representa o maior financiamento concedido por este programa desde a sua criação, há 13 anos. Cerca de metade do montante será investida em Angola e a restante em Portugal, reforçando uma colaboração científica e de conservação que une os dois países há mais de uma década.

Proteger uma população única e ameaçada

Estima-se que restem menos de 200 elefantes-da-floresta nas áreas florestais a leste e nordeste de Luanda. Vivendo fora de áreas protegidas, estes animais enfrentam ameaças crescentes, como a desflorestação, a caça furtiva, os atropelamentos e os conflitos com comunidades agrícolas.

Ao longo dos próximos três anos, a equipa irá estudar a distribuição e a ecologia desta população, desenvolver medidas para reduzir os conflitos entre pessoas e elefantes e apoiar estratégias de conservação de longo prazo numa região considerada prioritária para a biodiversidade africana.

A componente científica será liderada por Pedro Vaz Pinto, investigador do CIBIO, em estreita articulação com Ninda Baptista, bióloga angolana, doutorada pela U.Porto e coordenadora do projeto. A iniciativa combina investigação científica, conservação no terreno e capacitação local, promovendo uma abordagem integrada para proteger uma das populações de elefantes mais ameaçadas de África.

“Nos últimos anos, o BIOPOLIS-CIBIO tem desenvolvido trabalho científico no âmbito de uma parceria com a Fundação Kissama para a conservação do elefante-da-floresta em Angola. O lançamento desta nova fase do projeto representa o reconhecimento desse trabalho e uma oportunidade para reforçar uma colaboração de longo prazo que esperamos venha a produzir resultados decisivos para a proteção da espécie”, afirma Pedro Vaz Pinto.

Uma colaboração científica com mais de 15 anos

Para o diretor do CIBIO,  Nuno Ferrand, este financiamento representa mais um passo numa colaboração científica entre Portugal e Angola construída ao longo dos últimos 15 anos.

“Este projeto enquadra-se numa parceria que integra os TwinLabs com as Universidades Mandume Ya Ndemufayo, no Lubango, e 11 de Novembro, em Cabinda, e que foi recentemente reforçada com a criação do primeiro mestrado internacional entre uma instituição africana e uma instituição europeia, lecionado integralmente em Angola”, destaca.

Segundo o diretor do CIBIO, este mestrado, desenvolvido entre a Universidade Mandume Ya Ndemufayo e a U.Porto, recebeu recentemente apoio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua para financiar as duas próximas edições. O financiamento permitirá também impulsionar novos projetos de investigação, entre os quais se inclui esta iniciativa de conservação dos elefantes-da-floresta. Universidade do Porto - Portugal



segunda-feira, 29 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inova no tratamento da leucemia mieloide aguda

Nova estratégia terapêutica que potencia quimioterapia contra a leucemia mieloide aguda deverá ser testada em colaboração com o IPO Porto


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova estratégia terapêutica, agora publicada na Science Translational Medicine, que pode melhorar a eficácia da quimioterapia e reduzir complicações graves associadas ao tratamento da leucemia mieloide aguda.

O grupo, liderado por Delfim Duarte, provou que a administração de transferrina, uma proteína que transporta ferro pela corrente sanguínea, em conjunto com a quimioterapia, melhora a recuperação da medula óssea, aumenta a sobrevivência e reduz as complicações infecciosas associadas à terapia convencional.

A leucemia mieloide aguda é tratada, na maioria dos casos, com quimioterapia intensiva. “Apesar de eliminar células cancerígenas com eficácia, este tratamento provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos”, explica 0 hematologista do IPO Porto e líder do grupo de investigação Hematopoiesis and Microenvironments do i3S.

Neste estudo, os investigadores testaram a administração de apotransferrina humana, uma forma de transferrina sem ferro, para captar esse mineral em excesso e redistribuí-lo para células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário.

Utilizando vários modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, a equipa demonstrou que esta abordagem reduz significativamente os níveis de ferro tóxico circulante após a quimioterapia.

Nova terapia reforça combate a infeções graves

A equipa estudou ainda a segurança desta estratégia no contexto de infeção grave, uma das principais causas de morte em doentes com leucemia mieloide aguda.

Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. “Não porque se eliminaram as bactérias, mas devido a uma resposta inflamatória mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção”, esclarece Marta Lopes, primeira autora do estudo.

Com base nestes “dados pré-clínicos promissores”, a equipa espera poder avançar, num futuro próximo, com um ensaio clínico, em colaboração com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto, que avalie o uso da transferrina como terapêutica adjuvante à quimioterapia.

“O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia desta combinação [transferrina e quimioterapia] em doentes com leucemia mieloide aguda”, conclui Delfim Duarte. Universidade de Porto


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde lidera projeto para inovar no tratamento do glioblastoma

Projeto para desenvolver nanomedicinas ativadas por ultrassons recebeu financiamento de 150 mil euros do Programa UT Austin Portugal


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto recebeu financiamento do Programa UT Austin Portugal para desenvolver um projeto orientado para o «Tratamento do glioblastoma através de nanoterapias baseadas em estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio para libertação local de bevacizumab ativada por ultrassons». Este projeto foi um dos selecionados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no âmbito de uma iniciativa de colaboração internacional com a University of Texas at Austin (UT Austin).

Com um financiamento total de 150 mil euros, dos quais 50 mil euros são assegurados pela FCT e 100 mil euros pela UT Austin, o projeto resulta de uma colaboração entre o grupo de investigação Nanomedicines & Translational Drug Delivery do i3S e o Department of Biomedical Engineering da universidade norte-americana, sendo coordenado em Portugal por Bruno Sarmento e, nos EUA, pelo investigador e professor Huiliang Wang.

“O projeto pretende desenvolver uma nova geração de nanomedicinas inteligentes para o tratamento do glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais agressivos e difíceis de tratar”, explica Ana Catarina Pacheco, investigadora do i3S.

A estratégia combina nanopartículas inovadoras com ultrassons direcionados para permitir a libertação localizada e controlada de bevacizumab. Este medicamento reduz a formação de vasos sanguíneos que alimentam o tumor e promovem o seu crescimento.

A equipa vai recorrer a estruturas orgânicas ligadas por pontes de hidrogénio (Hydrogen-bonded Organic Frameworks, HOF), materiais supramoleculares altamente biocompatíveis capazes de encapsular proteínas terapêuticas e responder a estímulos externos. Quando expostas a ultrassons direcionados, estas nanopartículas sofrem alterações estruturais que desencadeiam a libertação do fármaco apenas na região do tumor.

“Esta abordagem permite separar a distribuição sistémica do medicamento da sua ativação terapêutica”, acrescenta a investigadora do i3S Cláudia Martins.

“O bevacizumab circula encapsulado e inativo no organismo, sendo libertado apenas no local pretendido através da aplicação de ultrassons. Desta forma, espera-se reduzir significativamente os efeitos adversos associados à terapêutica convencional e aumentar a eficácia do tratamento”, conclui.

Combater o glioblastoma com “maior precisão terapêutica”

O glioblastoma caracteriza-se por uma elevada vascularização e por uma grande resistência aos tratamentos atualmente disponíveis. Embora o bevacizumab seja utilizado na prática clínica para controlar a progressão da doença, a sua administração sistémica pode provocar várias complicações, incluindo hipertensão, formação de coágulos sanguíneos e hemorragias. Além disso, o cérebro possui uma barreira protetora que limita a quantidade de medicamento que chega ao tumor.

Para ultrapassar estes desafios, os investigadores vão desenvolver e otimizar nanopartículas capazes de transportar o fármaco de forma segura até ao cérebro e libertá-lo apenas depois de ativado por ultrassons. O projeto inclui estudos em modelos celulares 3D e em modelos animais de glioblastoma, permitindo avaliar a eficácia terapêutica, a segurança sistémica e o impacto da estratégia na progressão tumoral e na sobrevivência.

Segundo Bruno Sarmento, este financiamento representa também uma oportunidade para consolidar uma linha de investigação que o grupo tem vindo a desenvolver nos últimos anos na área da nanomedicina para o tratamento de tumores cerebrais.

“Este projeto permitirá dar continuidade ao trabalho que temos realizado no desenvolvimento de sistemas avançados de libertação de fármacos para o glioblastoma, explorando agora uma abordagem inovadora que combina nanotecnologia e ultrassons para alcançar uma maior precisão terapêutica”, explica o líder do grupo de investigação.

O Concurso de Projetos Exploratórios 2025 dos programas UT Austin Portugal financiou um total de oito projetos, de 41 candidaturas, correspondendo a um investimento global de quase 400 mil euros, integralmente financiado pela FCT. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobre função “escondida” do ADN associada a doença neurodegenerativa

A ataxia espinocerebelosa tipo 37 é uma doença neurodegenerativa genética rara, cujos sintomas se assemelham aos da doença de Machado-Joseph


Apenas uma pequena parte do nosso ADN (cerca de 2%) contém instruções para a produção de proteínas. Durante muitos anos, pensou-se que os restantes 98% não tinham qualquer função e, por isso, foram considerados «junk DNA» (ADN lixo, em português). Hoje, porém, sabe-se que isto não é verdade, embora muito deste ADN permaneça ainda um mistério. Uma equipa de cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, liderada por Isabel Silveira e José Bessa, tem tentado desvendá-lo, descobrindo recentemente que uma pequena região deste ADN controla a atividade do gene DAB1, essencial para o desenvolvimento e para o funcionamento do cérebro.

O trabalho, agora publicado na revista Cell Reports, revela que esta região não codificante do genoma funciona como um elemento regulador chamado enhancer, o qual controla a ativação do gene DAB1 nas células nervosas. “Este gene faz parte de um sistema que ajuda os neurónios a encontrar o seu lugar no cérebro e a formar ligações corretas entre si”, explica a investigadora Isabel Silveira.

Os cientistas demonstraram, assim, que, na ataxia espinocerebelosa tipo 37 (SCA37), uma doença degenerativa hereditária rara, ocorre o aparecimento anormal de uma pequena sequência de ADN que se repete várias vezes [A, T, T, T, C] precisamente neste enhancer. Longe de ser uma alteração neutra, esta mutação faz com que o gene fique demasiado ativo, levando a uma produção excessiva de DAB1 nos neurónios, com efeitos prejudiciais para a saúde.

Para perceber o impacto desta alteração, a equipa recorreu a diferentes modelos experimentais. “Em células do sistema nervoso de doentes com esta ataxia, obtidas em laboratório, observámos níveis significativamente mais elevados do gene DAB1. Em paralelo, em embriões de peixe-zebra, verificámos que o aumento deste gene afeta o crescimento e a direção dos axónios, estruturas essenciais para a comunicação entre neurónios”, conta Joana Loureiro, primeira autora do estudo. Estas alterações ajudam a explicar as dificuldades motoras características da doença, como a perda de equilíbrio, coordenação motora e fala.

O estudo mostra ainda que esta mutação atua através de um mecanismo particularmente complexo. “Por um lado, altera a forma como o ADN controla a atividade dos genes. Por outro lado, a sequência repetitiva gera moléculas anormais que se acumulam nas células e interferem com o funcionamento normal de proteínas importantes”, acrescenta Isabel Silveira.

Além do aumento de DAB1, os investigadores identificaram alterações na atividade de vários outros genes envolvidos em funções essenciais do sistema nervoso. “Estes efeitos em cadeia poderão ajudar a explicar a sobreposição de sintomas entre esta ataxia e outras doenças neurológicas, como a Doença de Machado-Joseph”, sublinha a investigadora do i3S.

Outro aspeto relevante deste trabalho é a importância das sequências repetitivas do genoma humano. “Durante décadas, estes elementos foram considerados sem função, mas agora acredita-se que podem desempenhar papéis reguladores importantes. Quando alterados, como neste caso, podem contribuir diretamente para o desenvolvimento de doença”, conclui o investigador José Bessa.

Este estudo abre novas perspetivas na compreensão de doenças genéticas associadas ao aumento do número de repetições de pequenas sequências de ADN e destaca a importância de olhar para além dos genes propriamente ditos, explorando também as regiões que controlam a sua atividade. No futuro, este conhecimento poderá contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais direcionadas e eficazes. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Portugal – Universidade do Porto vai ser destino "Erasmus para estudantes norte-americanos"

A adesão ao programa "Study in Portugal Network" da FLAD promete afirmar a Universidade como "destino de excelência" para estudantes dos EUA


A Universidade do Porto vai integrar a Study in Portugal Network (SiPN), uma iniciativa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) que tem como objetivo reforçar o posicionamento de Portugal como destino académico de excelência para estudantes norte-americanos.

A adesão da U.Porto à SiPN foi formalizada no passado dia 21 de maio, numa cerimónia realizada no edifício da Reitoria. “Acho que é um dia muito feliz”, sublinhou Maria Joana Carvalho, Vice-Reitora da U.Porto com os pelouros das Relações Internacionais, Responsabilidade Social e Desporto, destacando o papel do programa “na atração de estudantes norte-americanos para Portugal e, neste caso, esperemos muito para a Universidade do Porto”.

Para a responsável, o passo agora dado evidencia “a qualidade quer do ensino, quer da investigação” da U.Porto, ao mesmo tempo que reforça uma relação já longa e sólida com a FLAD em áreas como a cooperação científica, a mobilidade e o desenvolvimento de programas académicos.

A entrada da Universidade na SiPN representa, assim, uma evolução natural dessa parceria. “Esperemos agora aumentar um bocadinho” essa colaboração, nota Joana Carvalho, apontando para o objetivo de “promover mobilidades de maior duração, complementando a oferta já existente de cursos de verão e de inverno”. A ambição passa também por “reforçar o posicionamento estratégico da Universidade junto dos estudantes americanos”.

Do lado da FLAD, Michael Baum destacou o alinhamento do programa com a missão da fundação de “criar pontes entre Portugal e os Estados Unidos”. A integração da U.Porto responde ainda a um “objetivo de longa data”: expandir a rede para além de Lisboa e desenvolver programas semestrais noutras regiões do país.

“A Universidade do Porto é um parceiro de excelência”, afirmou o membro do Conselho Executivo da FLAD, lembrando o reconhecimento internacional da instituição e a diversidade da sua oferta formativa.

O modelo agora em desenvolvimento permitirá que estudantes norte-americanos frequentem a U.Porto durante um semestre — ou mesmo um ano letivo —, acompanhando as aulas regulares lado a lado com estudantes portugueses e internacionais. “Será uma espécie de Erasmus para alunos norte-americanos”, explicou Michael Baum, sublinhando a importância de proporcionar uma experiência académica imersiva, mas também cultural.

Entre as mais-valias que se abrem aos estudantes norte-americanos está a possibilidade de contactarem com conteúdos ligados à realidade portuguesa — da história e da arte ao território e à cultura do Norte —, através de unidades curriculares lecionadas em inglês. A aposta passa por valorizar aquilo que é distintivo do país e da região, contribuindo para uma experiência enriquecedora que, nas palavras do responsável da FLAD, pode funcionar como “um chamativo para o aluno voltar ao Porto e a Portugal para o resto da vida”. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Internacional - Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto revela “mapas” cerebrais de risco psiquiátrico

Estudo internacional cruzou genética e neuroimagem para perceber porque certas áreas do cérebro são mais vulneráveis a doenças como a depressão ou a esquizofrenia


Um estudo com a participação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) desenvolveu mapas de risco genético para doenças psiquiátricas com base em imagens da estrutura do cérebro e numa técnica de biologia molecular que analisa a expressão de genes num determinado momento, designada transcriptómica.

Publicado na prestigiada revista científica Molecular Psychiatry, do grupo Nature, “este trabalho revela como o risco genético para doenças psiquiátricas se organiza no cérebro humano e se relaciona com alterações estruturais cerebrais observadas em neuroimagens”, explica Daniel Martins, professor e investigador da FMUP na área das Neurociências.

Os investigadores utilizaram um método inovador que integra dados genéticos de larga escala e a neuroimagem para analisar sete doenças psiquiátricas, incluindo depressão, esquizofrenia, perturbação de hiperatividade/défice de atenção (PHDA), autismo e perturbação obsessivo-compulsiva. O objetivo era “compreender por que certas regiões cerebrais são mais vulneráveis em cada uma das doenças psiquiátricas”.

Embora estas doenças tenham causas multifatoriais resultantes da interação entre fatores genéticos, ambientais e do neurodesenvolvimento, as abordagens tradicionais tendem a analisar a suscetibilidade genética e as alterações neuroanatómicas separadamente.

Este novo estudo permite, assim, “projetar o impacto do risco genético no espaço do cérebro, com base em mapas de risco derivados da expressão génica. Esta abordagem estabelece uma ponte direta entre genes, processos moleculares e alterações anatómicas observadas por ressonância magnética”.

“As alterações estruturais do cérebro observadas em algumas doenças psiquiátricas não surgem ao acaso, mas refletem, em parte, a organização molecular do próprio cérebro. Na depressão major e na esquizofrenia, por exemplo, há uma correspondência clara entre padrões de expressão génica associados ao risco genético e as regiões cerebrais mais afetadas”, explica Daniel Martins.

Segundo o docente da FMUP, os resultados indicam ainda que diferentes doenças psiquiátricas parecem envolver mecanismos biológicos distintos. “Enquanto a depressão e a esquizofrenia mostram forte envolvimento de vias imunitárias e inflamatórias, a PHDA apresenta maior associação a processos de neurodesenvolvimento”, elucida.

Os autores sublinham, aliás, que “esta abordagem não é reducionista” e que “os genes não determinam isoladamente a doença, antes interagem com fatores ambientais, desenvolvimento e experiência ao longo da vida”.

“A publicação na Molecular Psychiatry — uma das revistas mais prestigiadas na área da psiquiatria biológica — reforça a visibilidade internacional da investigação desenvolvida com participação da FMUP e o seu contributo para os avanços na área da psiquiatria”, conclui Daniel Martins.

Além de Daniel Martins, que integra a área de Neurociências e Saúde Mental da FMUP, liderada por Lia Fernandes (ambos FMUP/RISE-Health), esta investigação é assinada também por cientistas do King’s College London, Universidade de Londres (Reino Unido), Universidade Goethe (Alemanha) e Universidade de Padova (Itália). Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Portugal - Investigador da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto estuda como degradar o plástico com ajuda da inteligência artificial

Alexandre Pinto conquistou uma bolsa da Federação Europeia de Sociedades de Bioquímica para desenvolver ferramentas de design computacional de enzimas.


Anualmente, são produzidas 500 mil milhões de garrafas a partir de um plástico conhecido por PET (polietileno tereftalato), com graves consequências para o meio ambiente e para a saúde humana. Através da bioquímica computacional, é possível criar enzimas capazes de degradar este tipo de plástico. É esta a motivação de Alexandre Pinto, investigador e docente da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), que conquistou uma bolsa da Federação Europeia de Sociedades de Bioquímica (FEBS) e rumou à Universidade de Girona, em Espanha, para integrar o grupo da cientista Silvia Osuna, uma referência mundial em design computacional de enzimas.

Durante a estadia em Girona, Alexandre, que terminou em 2025 o doutoramento em Química, estará a trabalhar no desenvolvimento de ferramentas de design computacional de proteínas através da inteligência artificial.

“Espero que esta oportunidade ajude a reforçar a nossa capacidade de conceber enzimas mais eficientes para aplicações biotecnológicas na área da reciclagem de plásticos”, salienta o alumnus da FCUP.  O objetivo é aplicar estas novas moléculas, por exemplo, a bioreatores enzimáticos em centros de reciclagem, que terão assim taxas de degradação do plástico superiores e um menor gasto energético.

“A ciência computacional que desenvolvemos é poderosa, mas precisa de chegar a quem trabalha no laboratório e na indústria, e aproximar esses mundos é algo que me motiva cada vez mais”, confessa o jovem cientista, que tem desenvolvido a sua investigação no grupo High Performance Computing in Molecular Modelling, do LAQV/REQUIMTE – Laboratório Associado para a Química Verde, sob orientação da docente Maria João Ramos, especialista em bioquímica computacional.

O foco do seu trabalho é o estudo de enzimas capazes de degradar plásticos como o PET, com recurso a simulações de dinâmica molecular e métodos de mecânica quântica/mecânica molecular. Com todo o percurso académico realizado na FCUP, Alexandre tem como ambição dar uma aplicação prática à sua investigação, “contribuindo efetivamente para soluções sustentáveis no problema global dos plásticos”.

Para o investigador, ter sido selecionado para esta bolsa, um objetivo que surgiu ainda durante o doutoramento, é um “reconhecimento do trabalho desenvolvido e também da visibilidade e relevância internacional da ciência feita em Portugal”.

“É uma oportunidade única de aprender com um dos melhores grupos da área e de construir uma rede de colaborações que certamente marcará a minha carreira”, acrescenta Alexandre Pinto, que estará na Universidade de Girona até meados de junho.

Sobre a bolsa da Federação Europeia de Sociedades de Bioquímica

A Federação Europeia de Sociedades de Bioquímica (FEBS, na sigla em inglês) é uma das organizações científicas mais prestigiadas na Europa na área das ciências bioquímicas.

A FEBS Short-Term Fellowship é uma bolsa da área das ciências biomoleculares (bioquímica, biologia molecular, biotecnologia, biomedicina, etc.) que tem como objetivo fomentar colaborações internacionais intensivas entre grupos de investigação europeus, através do financiamento de estadias curtas.

As bolsas têm uma duração de dois a três meses e destinam-se sobretudo a investigadores em início de carreira. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Portugal – Universidade do Porto lidera estudo para mitigar desigualdades no acesso à Saúde

Trabalho inovador, coordenado por investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, vai estar em destaque na oitava sessão do Centro de Conferências da U.Porto


É possível mitigar as desigualdades no acesso à Saúde. Para tal, um grupo de investigação liderado por Sílvia Fraga, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), está a estudar e a procurar determinar as causas estruturais que moldam a saúde da população do Porto, freguesia a freguesia, a fim de procurar soluções que permitam, a nível global, corrigir também a reprodução desta injustiça.

O trabalho realizado pelo grupo de investigação em “Adversidade Social e Desigualdades em Saúde” do ISPUP vai ser apresentado por Sílvia Fraga na oitava sessão do Centro de Conferências da U.Porto, que terá lugar no dia 21 de maio, às 17h00, no Salão Nobre da Reitoria.

Intitulada “Justiça social e equidade em saúde: o que o Porto nos está a ensinar”, a conferência mostrará de que modo esta investigação, realizada à microescala do tecido urbano da cidade, permite inferir dados com possível impacto global. Sílvia Fraga defende, aliás, que as desigualdades em saúde “são evitáveis e injustas”, exigindo, por isso, «uma abordagem centrada nas condições de vida ao longo do seu curso».

Deste modo, a investigação realizada no Porto constitui “um laboratório privilegiado e único para a investigação das desigualdades em saúde”, possibilitando a obtenção de “informação e conhecimento novos”. Esta “base empírica” sustenta, por outro lado, uma “reflexão que, partindo do tecido da cidade, permite inferir globalmente”, explica a também docente da Faculdade de Medicina da U.Porto (FCUP).

Doutorada em Saúde Pública pela U.Porto (2013) e licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior de Serviço Social do Porto, Sílvia Fraga foi, entre 2016 e 2018, investigadora no Instituto de Medicina Preventiva da Universidade de Lausanne, na Suíça. É agora investigadora auxiliar no ISPUP, centrando a sua atividade na análise dos determinantes sociais da saúde, com enfoque na origem e na formação das desigualdades em saúde ao longo da vida

Sílvia Fraga é também membro integrado na Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit), onde coordena a pesquisa sobre “Sindemias, desigualdades em saúde e populações vulneráveis” no Laboratório de Investigação Integrativa e Translacional em Saúde Populacional (ITR). Lidera ainda o grupo de investigação “Adversidade Social e Desigualdades em Saúde”, centrado na compreensão dos mecanismos e processos envolvidos na produção de desigualdades em saúde desde as fases iniciais da vida. É vogal da Direção do ISPUP desde 2023.

Com entrada livre e aberta ao público em geral, a sessão terá também transmissão, em direto, através do canal YouTube da U.Porto.

Sobre o Centro de Conferências da U.Porto

Criado em julho de 2025, o Centro de Conferências da Universidade do Porto tem como missão afirmar a U.Porto como espaço privilegiado de diálogo e reflexão crítica e cívica sobre os grandes desafios da atualidade, envolvendo a comunidade académica, os decisores públicos e a sociedade civil.

O Centro é coordenado por Luís Valente de Oliveira e Elisa Ferreira, antigos docentes da U.Porto, e conta com um programa regular de sessões, em que são abordados  temas diretamente relacionados com as mais diversas áreas de estudo, da geopolítica à tecnologia, passando pela economia, o urbanismo, as artes, a saúde ou o desporto.

As sete primeiras sessões tiveram como temas a proposta de requalificação da Via de Cintura Interna do Porto desenvolvida por investigadores da FCUP, o trabalho inovador desenvolvido pelo IPO Porto, os desafios da inteligência artificial, os riscos geopolíticos para as empresas, a crise habitacional da cidade do Porto, a alteração dos programas financeiros plurianuais da União Europeia e o percurso do “unicórnio” tecnológico Feedzai. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Portugal - CIIMAR deteta microplásticos em larvas de peixes logo após a eclosão

Estudo mostra que a quantidade de microplásticos nas larvas reflete diretamente os níveis deste poluente presentes no ambiente envolvente


Um estudo liderado por investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), publicado na revista Frontiers in Marine Science, demonstra pela primeira vez que as larvas de peixes em ambiente natural já contêm microplásticos imediatamente após a eclosão, antes mesmo de começarem a alimentar-se.

Os microplásticos estão hoje amplamente distribuídos no ambiente: de água, ao ar, no solo e até no interior de organismos vivos, incluindo seres vivos marinhos. No entanto, a maioria dos estudos até à data têm-se focado em peixes adultos, entre eles os que servem a alimentação humana. A história destes microplásticos porém permanecia desconhecida: faltava perceber quando começa, exatamente, esta contaminação ao longo do ciclo de vida.

Foi durante o seu doutoramento em Ciências do Meio Aquático, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da U.Porto, que Sabrina Rodrigues, investigadora no grupo Ecologia de Peixes e Sustentabilidade do CIIMAR, recolheu larvas de peixes selvagens diretamente no meio natural, e analisou a presença de microplásticos em todas as fases iniciais de desenvolvimento, incluindo o seu estádio mais precoce, logo após a eclosão.

Microplásticos em estádios precoces do desenvolvimento

Os resultados agora publicados pela equipa do CIIMAR no estudo “Are fish larvae contaminated before they start eating? First evidence of microplastic contamination in the yolk-sac of wild fish larvae” mostram que estes microplásticos já estão presentes em larvas com saco vitelino, uma fase em que os organismos ainda não abriram a boca nem iniciaram a alimentação.

“Os estudos anteriores sobre microplásticos em peixes limitavam-se, em grande parte, a organismos de laboratório ou centravam-se apenas em adultos que já se alimentavam ativamente. Este estudo foi diferente porque procurou perceber o que se passa durante todas as fases do desenvolvimento” explica Sabrina Rodrigues, primeira autora do estudo.

Os resultados indicam que a contaminação por microplásticos nesta fase não ocorre por ingestão, mas provavelmente por transferência da mãe para a descendência, através do ovo ou do vitelo, a substância nutritiva no ovo, composta sobretudo por proteínas e gorduras, para alimentar o embrião durante o seu desenvolvimento. Esta via de exposição nunca tinha sido, até agora, documentada em peixes selvagens.

“Enquanto investigadora, encontrar microplásticos em larvas que nunca tinham aberto a boca foi simultaneamente fascinante e preocupante. Percebemos que a poluição por plástico atinge os peixes desde o início da sua vida”, acrescenta a investigadora.

Uma relação direta com o ambiente

Mas os resultados não ficam por aqui. O estudo liderado pelas investigadoras do CIIMAR Sandra Ramos e Marisa Almeida, verificou ainda que a quantidade de microplásticos nas larvas reflete diretamente os níveis deste poluente presentes no ambiente envolvente. Ou seja, quanto maior a concentração de microplásticos na água, maior a contaminação nas larvas, independentemente da espécie, tamanho ou estádio de desenvolvimento.

“Os nossos resultados abrem uma nova linha de investigação, nomeadamente sobre a forma como os microplásticos podem ser transmitidos dos adultos para a sua descendência, como a saúde dos peixes é afetada desde essas fases iniciais e o que isso significa para os ecossistemas marinhos e a segurança dos produtos do mar”, refere Sandra Ramos, abrindo os horizontes para investigação futura.

Com este trabalho levantam-se assim novas questões científicas relevantes: quais são os impactos desta exposição precoce no desenvolvimento, crescimento e sobrevivência dos peixes? E de que forma esta contaminação inicial pode propagar-se ao longo da cadeia alimentar marinha?

Ao demonstrar que a exposição a microplásticos começa mais cedo do que se pensava, o estudo amplia a compreensão sobre a vulnerabilidade dos organismos marinhos e “reforça a necessidade de reduzir a poluição plástica nos oceanos numa altura que que o público já se parece ter tornado insensível às notícias sobre a poluição por plástico”, remata Marisa Almeida. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde vai ter primeiro Centro de Excelência em Medicina Genómica do país

O i3S-Health é o único projeto da região Norte - e o único na área da Saúde - distinguido com financiamento do programa europeu Teaming, no valor de 36 milhões de euros


O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) vai criar o primeiro Centro de Excelência em Medicina Genómica de Portugal, na sequência do financiamento atribuído ao projeto i3S-Health pelo programa Horizon Europe Teaming for Excellence, uma das iniciativas mais competitivas da Comissão Europeia. Este é um dos seis projetos portugueses distinguidos neste concurso, sendo o único na Região Norte e o único na área da Saúde.

O financiamento total ascende a 36 milhões de euros – 15 milhões da Comissão Europeia, 15 milhões do Governo português e 6 milhões de investimento privado — e permitirá estabelecer uma infraestrutura europeia de referência em inovação e excelência na investigação em saúde genómica, com impacto duradouro na ciência e na área da saúde sustentável.

O i3S-Health dará origem a um Centro de Medicina Genómica de última geração, integrando sequenciação de DNA de nova geração, biologia computacional, bioinformática orientada por inteligência artificial e genómica funcional de alto débito. O objetivo, explica Claudio Sunkel, diretor do i3S, “é acelerar a descoberta de novas variantes genéticas patogénicas, com impacto nos cuidados de saúde, por meio de diagnósticos mais precisos e personalizados”.

“Esta será a primeira plataforma multidisciplinar em Portugal a ligar investigação genómica avançada à prática clínica, aproximando investigação e diagnóstico de forma estruturada”, acrescenta.

Na vanguarda da medicina genómica

A medicina genómica está a transformar os sistemas de saúde ao permitir abordagens mais precisas e personalizadas. No entanto, Portugal enfrenta ainda desafios relevantes, como capacidade limitada de sequenciação, aplicações clínicas fragmentadas e escassez de recursos humanos altamente especializados.

O i3S-Health pretende responder a estes desafios, modernizando o i3S e posicionando-o como um Centro de Excelência em Medicina Genómica à escala europeia.

O projeto será desenvolvido sob a orientação do European Molecular Biology Laboratory (EMBL), com colaboração estreita com o seu Instituto Europeu de Bioinformática (EMBL-EBI), uma infraestrutura central no ecossistema de dados da Genomics England, no Reino Unido.

Integram também este consórcio parceiros nacionais, como o Ipatimup Diagnósticos e o CGPP-IBMC, reforçando a ligação entre a investigação e o diagnóstico clínico. O projeto prevê ainda uma forte articulação com o sistema de saúde, contando com o apoio de várias Unidades Locais de Saúde (ULS) de referência da região Norte.

Esta colaboração com as ULS integra a estratégia que o i3S tem vindo a desenvolver para tornar a medicina genómica uma realidade em Portugal e “esteve, aliás, na base de um financiamento recente atribuído pela CCDR-N para implementar um Centro de Medicina de Precisão do Norte no i3S que, é, no fundo, o embrião deste novo Centro de Excelência de Genómica”, explica Claudio Sunkel.

“Trata-se de uma abordagem que assenta num princípio fundamental: garantir que as tecnologias de genómica médica sejam utilizadas de forma ampla e que o acesso seja equitativo, independentemente do local onde o doente é acompanhado”, sublinha o diretor do i3S.

Entre os principais resultados esperados do projeto i3S-HEALTH estão o aumento da capacidade e da precisão do diagnóstico, a formação de novos especialistas, o desenvolvimento de algoritmos preditivos para doenças genéticas complexas e a identificação de biomarcadores multi-ómicos com aplicação clínica.

O projeto prevê ainda uma forte articulação com a indústria, através de parcerias público-privadas para o codesenvolvimento de novos diagnósticos e terapêuticas. A sustentabilidade da iniciativa será assegurada pelo crescimento dos serviços de diagnóstico avançado, parcerias estratégicas, novos projetos, desenvolvimento de propriedade intelectual e criação de spin-offs na área da genómica.

Seis projetos portugueses financiados

Nesta edição do concurso Teaming for Excellence, para além do projeto do i3S, foram aprovadas para financiamento mais cinco candidaturas portuguesas, o que corresponde a um financiamento total de 81 milhões de euros para criar ou modernizar centros de investigação de excelência.

Dos seis projetos selecionados, dois estão integrados na região de Lisboa e Vale do Tejo, um no Norte, um no Centro, um no Alentejo e um no Algarve. Os seis novos centros de excelência irão atuar em áreas estratégicas: “Teaming to Drive the Future of Genomic Medicine” (i3S, da U. Porto), na área da medicina genómica; “Institute for Integrated Social and Biological Assessment” (U. Coimbra), combinando ciências sociais e biomédicas; “NOVA Institute for a Sustainable Future” (U. NOVA Lisboa), nas áreas de saúde humana e ambiental; “Excellence in Mediterranean Soil Regeneration” (U. Évora), em regeneração e monitorização de solos mediterrânicos; “Sustainable Artificial Intelligence Laboratory” (INESC-ID), em sistemas de inteligência artificial sustentável; e “UAlgTec Heritage Center of Excellence” (U. Algarve), nas áreas de arqueologia e património cultural.

As instituições irão agora iniciar a preparação do acordo de subvenção com a Comissão Europeia e os projetos deverão decorrer entre 2027 e 2032.

Os vários Estados-Membros e países associados submeteram um total de 64 propostas para um envelope financeiro indicativo disponível de 270 milhões de euros. As seis candidaturas nacionais representam 30% do financiamento total, um resultado de grande impacto para o Sistema Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação.

O Teaming for Excellence é um concurso de referência do Horizonte Europa, que visa a criação ou a modernização de centros de excelência. Para maximizar o impacto destes projetos, estes concursos exigem que o financiamento por via do Horizonte Europa seja complementado por financiamento nacional (através da FCT e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional – CCDR), de montante equivalente ao financiamento europeu, promovendo sinergias de fontes de financiamento e conjugando investimento estratégico nacional e europeu. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 20 de abril de 2026

Internacional - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde lidera programa doutoral para estudar o cérebro

Consórcio internacional reúne 23 parceiros de 12 países para formar 15 doutorandos e explorar novas abordagens terapêuticas para doenças neurológicas e psiquiátricas


O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto vai coordenar, pela primeira vez, um consórcio internacional no âmbito das Marie Skłodowska-Curie Actions – Doctoral Networks, tendo sido distinguido com um financiamento europeu de 4,5 milhões de euros para a criação de um programa doutoral pioneiro no domínio das neurociências.

Coordenado por Olga Sin e denominado AstroCirc, este programa doutoral reúne 23 parceiros académicos e não académicos, de 12 países europeus, incluindo Portugal, Reino Unido, Noruega, Áustria, República Checa e Alemanha. O objetivo principal é investigar o papel dos astrócitos — as células não neuronais mais abundantes no cérebro — na formação, funcionamento e manutenção dos circuitos cerebrais.

“Queremos compreender os mecanismos que estão na base da disfunção dos astrócitos num conjunto alargado de doenças neurológicas e psiquiátricas, incluindo epilepsia, depressão, doença de Alzheimer e doença de Parkinson, e abrir caminho a abordagens terapêuticas mais integradas e inovadoras”, sublinha Olga Sin.

Formação doutoral internacional e intersetorial

Com início previsto para 2027 e duração de três anos, o AstroCirc vai formar 15 estudantes de doutoramento, especializados nas interações astrócito-neurónio e na dinâmica dos circuitos neurais.

Os doutorandos serão distribuídos por 12 instituições académicas do consórcio e terão a oportunidade de realizar estágios noutras instituições académicas e parceiros não académicos, promovendo uma verdadeira mobilidade internacional e intersetorial. Dois estudantes vão ficar sedeados no i3S, cabendo ao Instituto da U.Porto receber mais quatro doutorandos de outras instituições em sistema de rotatividade.

De acordo com Olga Sin, o programa distingue-se por uma abordagem simultaneamente interdisciplinar e intersetorial: “É interdisciplinar porque reúne investigadores de renome internacional em biologia glial, provenientes de backgrounds científicos muito diversos, que colaboram pela primeira vez para responder a questões científicas complexas a partir de perspetivas complementares”.

Por outro lado, continua a gestora do programa, “é intersetorial porque expõe os doutorandos a contextos para além da academia, através de estágios, cursos e workshops dinamizados por empresas de biotecnologia, indústria farmacêutica, editores-chefes de revistas científicas, associações de doentes e profissionais da área do direito”.

Preparar carreiras dentro e fora da academia

Para além de proporcionar uma formação científica de excelência, o AstroCirc pretende capacitar os doutorandos para tomarem decisões informadas sobre os seus percursos profissionais, seja na investigação académica, na indústria ou outros setores da sociedade.

Para Olga Sin, este programa doutoral tem um significado pessoal e profissional profundo. Tendo feito a transição da investigação para a gestão de projetos científicos, explica, a coordenação do AstroCirc é “a concretização de um sonho profissional”.

“Conceber um programa educativo de raiz, ajustado às necessidades atuais da nossa área de investigação, é exactamente onde queria estar nesta fase da minha carreira. Vou ter o privilégio de moldar a próxima geração de cientistas, gestores de ciência ou líderes em setores não académicos, e fazê-lo num contexto internacional”, sublinha.

A gestora destaca ainda a importância do contacto próximo com os doutorandos e da colaboração com parceiros fora da academia: “Motiva-me a poder contribuir de forma ativa e próxima para a educação e carreira de jovens promissores, trabalhando lado a lado com cientistas de renome e com exemplos de sucesso na biotecnologia, farmacêutica, advocacia, edição científica e empreendedorismo”.

Sobre as MSCA Doctoral Networks

As redes de doutoramento Marie Skłodowska-Curie Actions constituem um dos instrumentos centrais de financiamento do Horizonte Europa, focado na formação de doutorandos de elevado nível.

Cada rede apoia um grupo de investigadores em fase de doutoramento, distribuídos entre as instituições parceiras do consórcio, promovendo a mobilidade internacional, a colaboração interdisciplinar e a articulação com o setor não académico.

Para mais informações, consultar a página da iniciativa. Universidade do Porto - Portugal