Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inova no tratamento da leucemia mieloide aguda

Nova estratégia terapêutica que potencia quimioterapia contra a leucemia mieloide aguda deverá ser testada em colaboração com o IPO Porto


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova estratégia terapêutica, agora publicada na Science Translational Medicine, que pode melhorar a eficácia da quimioterapia e reduzir complicações graves associadas ao tratamento da leucemia mieloide aguda.

O grupo, liderado por Delfim Duarte, provou que a administração de transferrina, uma proteína que transporta ferro pela corrente sanguínea, em conjunto com a quimioterapia, melhora a recuperação da medula óssea, aumenta a sobrevivência e reduz as complicações infecciosas associadas à terapia convencional.

A leucemia mieloide aguda é tratada, na maioria dos casos, com quimioterapia intensiva. “Apesar de eliminar células cancerígenas com eficácia, este tratamento provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos”, explica 0 hematologista do IPO Porto e líder do grupo de investigação Hematopoiesis and Microenvironments do i3S.

Neste estudo, os investigadores testaram a administração de apotransferrina humana, uma forma de transferrina sem ferro, para captar esse mineral em excesso e redistribuí-lo para células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário.

Utilizando vários modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, a equipa demonstrou que esta abordagem reduz significativamente os níveis de ferro tóxico circulante após a quimioterapia.

Nova terapia reforça combate a infeções graves

A equipa estudou ainda a segurança desta estratégia no contexto de infeção grave, uma das principais causas de morte em doentes com leucemia mieloide aguda.

Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. “Não porque se eliminaram as bactérias, mas devido a uma resposta inflamatória mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção”, esclarece Marta Lopes, primeira autora do estudo.

Com base nestes “dados pré-clínicos promissores”, a equipa espera poder avançar, num futuro próximo, com um ensaio clínico, em colaboração com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto, que avalie o uso da transferrina como terapêutica adjuvante à quimioterapia.

“O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia desta combinação [transferrina e quimioterapia] em doentes com leucemia mieloide aguda”, conclui Delfim Duarte. Universidade de Porto


terça-feira, 30 de julho de 2024

Portugal - Associação europeia financia projeto do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde sobre pré-leucemia aguda

Financiamento de 240 mil euros permitirá ao investigador Delfim Duarte estudar o papel do ferro na formação e diferenciação anormal das células de sangue (hematopoiese clonal)


A Associação Europeia de Hematologia – The European Hematology Association (EHA) atribuiu recentemente uma das três Bolsas de Investigação para Médicos Cientistas a Delfim Duarte, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) e hematologista do IPO-Porto.

No valor de 240 mil euros, e com uma duração de três anos, este financiamento permitirá ao investigador estudar o papel do ferro no processo da formação e diferenciação anormal das células de sangue (hematopoiese clonal), que aumenta o risco de desenvolvimento da leucemia mieloide aguda (LMA).

A hematopoiese clonal é uma condição recentemente descrita que afeta a forma como as células sanguíneas são produzidas e que está associada com o envelhecimento e com o risco de LMA, um tipo agressivo de cancro do sangue que afeta os glóbulos brancos.

Neste projeto, especifica Delfim Duarte, “vamos estudar o papel da inflamação e do ferro na formação e diferenciação das células de sangue e desenvolvimento de leucemia”. Com o avançar da idade, acrescenta, “o número de erros nas células da medula que dão origem às células sanguíneas vai aumentando por acumulação de mutações em genes que regulam vários processos celulares. As células mutadas expandem e têm função alterada, aumentando assim o risco cardiovascular e de desenvolvimento de leucemia mieloide aguda”.

De acordo com o investigador, “vários estudos demonstraram que estas células mutadas têm um perfil pró-inflamatório, muitas vezes relacionado com uma proteína reguladora dos níveis sistémicos de ferro, a hepcidina”.

Além disso, acrescenta Delfim Duarte, “dados preliminares do nosso grupo de investigação no i3S (Hematopoiesis and Microenvironments) sugerem que essa proteína e os níveis de ferro regulam por sua vez a formação de novas células sanguíneas”.

Neste projeto, continua o também professor auxiliar convidado da Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP), “vamos estudar em doentes e modelos animais a relação entre a inflamação, ferro e a formação de novas células sanguíneas, bem como o risco de evolução para leucemia. Este estudo pode ter implicações importantes para a prevenção do risco cardiovascular e de desenvolvimento de leucemias nesta população”.

Para obter estas informações, a equipa de Delfim Duarte, que inclui investigadores da Universidade de Tours (França) e da Universidade de Zurique (Suíça), vai estudar amostras de doentes com hematopoiese clonal e modelos de ratinho que mimetizam a condição humana.

Para o investigador, este financiamento da Associação Europeia de Hematologia, que resultou de um processo de avaliação muito exigente, representa o “reconhecimento da solidez da proposta e uma motivação adicional. É também o reconhecimento do trabalho que a nossa equipa tem desenvolvido nesta área nos últimos anos”.

Como médico, continua Delfim Duarte, “é também uma oportunidade única de explorar num contexto pré-clínico possíveis futuros tratamentos para os doentes com patologia hemato-oncológica. Isto só é possível graças ao consórcio do Porto Comprehensive Cancer Center (P.CCC) Raquel Seruca, que inclui o i3S e o IPO-Porto”. Universidade do Porto - Portugal


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Brasil - Nova fase de estudo com células CAR-T no combate à leucemia e linfoma

Liberados pelo Ministério da Saúde, os recursos de R$ 100 milhões vão permitir a inclusão de 81 novos pacientes no estudo do Hemocentro de Ribeirão Preto em parceria com a Fundação Butantan


No início do próximo ano começa uma nova fase do estudo clínico para o tratamento de leucemia e linfoma utilizando células CAR-T. Esta pesquisa é uma iniciativa do Hemocentro de Ribeirão Preto, vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (HC-FMRP) da USP, em parceria com a Fundação Butantan. “Essa nova fase do estudo só foi possível com a liberação de R$ 100 milhões pelo Ministério da Saúde, dentro do Novo Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC-Saúde)”, conta o médico hematologista Gil De Santis, diretor médico do Laboratório de Terapia Celular do Hemocentro do HC-FMRP e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo.

Segundo o médico, esses recursos serão aplicados principalmente na manufatura dos produtos celulares, que envolve a compra de insumos e de reagentes, e financiarão os gastos hospitalares decorrentes do tratamento. “Nessa fase, avaliaremos a segurança e a eficácia do novo produto, para, ao final, solicitar a sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), depois do que, o produto poderá ser oferecido aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).”

Rodrigo do Tocantins Calado, diretor científico do Hemocentro de Ribeirão Preto e pró-reitor de Pós-Graduação da USP, afirma que esse estudo representa a concretização de uma ideia científica nascida no laboratório de pesquisa, que impacta diretamente a vida das pessoas, especialmente no tratamento oferecido a pacientes com câncer. “Essa transição inovadora é viabilizada pela colaboração entre diversas instituições. Aqui, podemos aproveitar a vasta expertise da USP, reunindo pesquisadores e médicos de variadas áreas, desde biologia molecular e imunologia até a prática clínica. Essa união se complementa com o conhecimento especializado do Instituto Butantan, permitindo que a ideia saia do laboratório e se transforme em uma nova tecnologia, pronta para beneficiar a sociedade.”

O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, destaca que “o Butantan fez um grande investimento na construção de plataforma de produção de células CAR-T. Agora, consolida a linha de pesquisa com a captação de recursos necessários para conduzir o primeiro estudo clínico com tecnologia desenvolvida junto com a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto (Fundherp) e a USP. Com isso, se posiciona para suprir a demanda que será exigida no Brasil para esta nova forma de tratamento”.

Em nota, Carlos Gadelha, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, afirmou que “nosso objetivo é garantir à população mais carente o acesso aos tratamentos mais modernos contra o câncer”.

Os estudos com células CAR-T também recebem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Alvo específico

O estudo vai incluir 81 pacientes com leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não Hodgkin de células B, que não obtiveram resposta ao tratamento convencional inicial, composto de quimioterapia e transplante de medula óssea. “Esta fase do estudo é direcionada para casos que não responderam ou apresentaram o retorno da doença após a primeira linha de tratamento convencional, com o uso da quimioterapia, e o transplante de medula óssea”, explica De Santis.

Serão selecionados pacientes que atenderem às informações do hematologista. O contato deve ser realizado pelo médico que atende o paciente interessado em participar do estudo, pelo e-mail: terapia@hemocentro.fmrp.usp.br, anexando o relatório de saúde do candidato. As informações serão avaliadas pela equipe médica das instituições participantes e, caso se enquadre no estudo clínico, o médico responsável pelo paciente será avisado.

O CAR-T desenvolvido no Hemocentro de Ribeirão Preto é “treinado” para atingir um alvo específico que se chama CD19, presente somente na leucemia linfoide aguda de células B e no linfoma não Hodgkin de células B. Por isso, esta imunoterapia não possui efetividade em outros tipos de cânceres sólidos.

O nome CAR-T vem da união de dois conceitos: CAR é a sigla em inglês para receptor quimérico de antígeno (chimeric antigen receptor) e T vem de linfócitos T, células do organismo responsáveis por sua defesa. Na terapia celular, o linfócito T é alterado para exibir em sua superfície os receptores CAR e se tornar ainda mais potente no combate ao câncer – ele deixa de ser uma célula T para se transformar em uma célula CAR-T. Considerado um dos tratamentos mais revolucionários da medicina, tem altíssima complexidade e é personalizado, pois usa as células de defesa do próprio paciente para combater a doença.

Pioneirismo

A terapia com células CAR-T surgiu no início de 2010 nos Estados Unidos e começou a ser aplicada experimentalmente em pacientes de câncer terminal. Os resultados positivos levaram a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos a aprovar, em 2017, o uso da terapia CAR-T para o combate ao câncer. No ano seguinte, em 2018, o tratamento rendeu aos seus descobridores, James P. Allison e Tasuku Honjo, o Prêmio Nobel de Medicina.

No Brasil, a terapia com células CAR-T foi desenvolvida pioneiramente no Centro de Terapia Celular (CTC) da USP, sediado no Hemocentro de Ribeirão Preto. O primeiro voluntário brasileiro, que recebeu o tratamento experimental em 2019, alcançou a remissão total de um linfoma em estágio terminal. Outros pacientes que optaram pelo tratamento também tiveram remissão. Até hoje, a terapia celular se mostrou altamente eficaz contra casos de leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não Hodgkin de células B, dois tipos de cânceres de sangue.

Para mais informações acesse o sítio do Hemocentro de Ribeirão Preto. Rose Talamone e Eduardo Vidal – Brasil in “Jornal USP”