Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 28 de julho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde acelera valorização de terapias para tumores cerebrais

Quatro investigadoras do instituto concluíram um dos principais programas nacionais de transferência de tecnologia para projetos de investigação


Uma equipa de investigadoras do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto concluiu com sucesso a edição de 2026 do HiTech by HiSeedTech, um dos mais prestigiados programas nacionais de valorização e transferência de tecnologia para projetos deep tech com potencial de mercado.

O projeto GlioBrain-Plate, desenvolvido por Ana Olival, Cecília Ferreira e Diana Ribeiro, sob a liderança de Cláudia Martins, integra o grupo Nanomedicines and Translational Drug Delivery do i3S, liderado por Bruno Sarmento. “Estamos a desenvolver uma plataforma pré-clínica inovadora para o teste de novas terapias dirigidas a tumores cerebrais sólidos, com foco inicial no glioblastoma, o tumor cerebral maligno mais frequente e mortal em adultos”, explica Cláudia Martins.

A tecnologia reproduz, em laboratório, a interação entre a barreira hematoencefálica e o tumor, permitindo avaliar, em simultâneo, a capacidade de uma terapia atravessar esta barreira natural de proteção do cérebro e a sua eficácia terapêutica.

“Ao disponibilizar um modelo mais preditivo da resposta humana, o GlioBrain-Plate pretende acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos, reduzir os custos e riscos associados ao desenvolvimento clínico e contribuir para aumentar a probabilidade de sucesso de novas terapias para pacientes com tumores cerebrais”, sublinha a investigadora.

A participação no HiTech permitiu à equipa aprofundar competências em inovação, empreendedorismo e transferência de tecnologia ao longo de 18 semanas de formação, mentoria e contacto com a indústria, empreendedores e investidores. Entre todas as candidaturas submetidas a nível nacional, apenas 10 projetos foram selecionados para integrar a edição de 2026.

O programa terminou com a apresentação do pitch final no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, perante representantes da indústria, investidores, empreendedores e especialistas do ecossistema nacional de inovação. O percurso constituiu um passo importante na valorização da tecnologia desenvolvida pela equipa e na preparação da sua futura transferência para o mercado. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde inova no tratamento da leucemia mieloide aguda

Nova estratégia terapêutica que potencia quimioterapia contra a leucemia mieloide aguda deverá ser testada em colaboração com o IPO Porto


Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto identificou uma nova estratégia terapêutica, agora publicada na Science Translational Medicine, que pode melhorar a eficácia da quimioterapia e reduzir complicações graves associadas ao tratamento da leucemia mieloide aguda.

O grupo, liderado por Delfim Duarte, provou que a administração de transferrina, uma proteína que transporta ferro pela corrente sanguínea, em conjunto com a quimioterapia, melhora a recuperação da medula óssea, aumenta a sobrevivência e reduz as complicações infecciosas associadas à terapia convencional.

A leucemia mieloide aguda é tratada, na maioria dos casos, com quimioterapia intensiva. “Apesar de eliminar células cancerígenas com eficácia, este tratamento provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos”, explica 0 hematologista do IPO Porto e líder do grupo de investigação Hematopoiesis and Microenvironments do i3S.

Neste estudo, os investigadores testaram a administração de apotransferrina humana, uma forma de transferrina sem ferro, para captar esse mineral em excesso e redistribuí-lo para células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário.

Utilizando vários modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, a equipa demonstrou que esta abordagem reduz significativamente os níveis de ferro tóxico circulante após a quimioterapia.

Nova terapia reforça combate a infeções graves

A equipa estudou ainda a segurança desta estratégia no contexto de infeção grave, uma das principais causas de morte em doentes com leucemia mieloide aguda.

Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. “Não porque se eliminaram as bactérias, mas devido a uma resposta inflamatória mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção”, esclarece Marta Lopes, primeira autora do estudo.

Com base nestes “dados pré-clínicos promissores”, a equipa espera poder avançar, num futuro próximo, com um ensaio clínico, em colaboração com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto, que avalie o uso da transferrina como terapêutica adjuvante à quimioterapia.

“O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia desta combinação [transferrina e quimioterapia] em doentes com leucemia mieloide aguda”, conclui Delfim Duarte. Universidade de Porto


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Portugal - Investigadores da Universidade de Coimbra desenvolvem molécula inovadora para tratamento do cancro

Um grupo de investigadores do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em colaboração com a empresa Luzitin SA, desenvolveram uma molécula inovadora que poderá representar um avanço significativo no tratamento de tumores sólidos através de Terapia Fotodinâmica (TFD).


O desenvolvimento de medicamentos eficazes contra tumores sólidos enfrenta dois grandes desafios: a acumulação seletiva do fármaco no tumor e a sua capacidade de infiltração para alcançar todas as células tumorais. A abordagem dominante tem sido o desenvolvimento de moléculas cada vez maiores e de nanopartículas mais complexas, o que, apesar de aumentar a seletividade, compromete a penetração em tumores densos e rígidos.

Contrariando esta tendência, a equipa de Coimbra optou por uma estratégia inovadora: identificar a menor estrutura molecular com propriedades farmacológicas ideais para Terapia Fotodinâmica. O resultado foi a síntese da molécula LUZ51, o mais pequeno fotossensibilizador conhecido que absorve luz infravermelha, essencial para atravessar eficazmente os tecidos humanos.

«A Terapia Fotodinâmica baseia-se na ativação de um fotossensibilizador através de luz vermelha ou infravermelha. Na presença de oxigénio, esta ativação desencadeia uma cascata de reações químicas que levam à morte das células tumorais. Uma das grandes vantagens desta terapia é a sua elevada seletividade: o fármaco é praticamente inócuo sem luz, permitindo destruir o tumor apenas na área iluminada», explica Luís Arnaut, professor da FCTUC e investigador do Centro de Química de Coimbra (CQC).

Os estudos realizados demonstraram que a LUZ51 se acumula 13 vezes mais nos tumores do que nos tecidos adjacentes, é rapidamente internalizada pelas células tumorais e induz a sua morte quando ativada por luz infravermelha. Em modelos animais, a Terapia Fotodinâmica com LUZ51 permitiu curar ratinhos com tumores agressivos e relativamente grandes, preservando os tecidos saudáveis circundantes e minimizando efeitos adversos.

«Um dos resultados mais notáveis foi observado no tratamento do análogo humano do cancro da mama triplo negativo. Mesmo quando o tumor primário já apresentava sinais de metastização para os pulmões, o tratamento local com LUZ51 levou à redução significativa, e em alguns casos à eliminação, das metástases pulmonares. Estes dados sugerem que a Terapia Fotodinâmica com LUZ51 poderá ativar o sistema imunitário do hospedeiro, promovendo uma resposta antitumoral para além da área diretamente tratada», revela o cientista.

A molécula LUZ51 foi patenteada pela Universidade de Coimbra e pela Luzitin SA, com patentes concedidas nos principais mercados da oncologia. Os resultados dos estudos in vivos foram recentemente publicados na prestigiada revista científica Angewandte Chemie International Edition, no artigo intitulado “Seamlessly Overcoming Biological Barriers with a Small Photosensitizer to Treat Metastatic Tumours with Photodynamic Therapy”.

Apesar do enorme potencial demonstrado, os investigadores sublinham que a LUZ51 terá ainda de ser avaliada em ensaios clínicos antes de poder ser utilizada em doentes oncológicos, um processo que poderá demorar cerca de cinco anos. Ainda assim, esta descoberta abre novas perspetivas para tratamentos mais seletivos, eficazes e com menor impacto nos tecidos saudáveis. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Vietname - O negócio sujo da reciclagem que está a fazer ricos

Agachado entre montanhas de plástico descartado, Lanh retira os rótulos das garrafas de Coca-Cola, Evian e chás vietnamitas locais para que possam ser derretidos e transformados em pequenos grânulos para reutilização. Mais lixo chega diariamente, acumulando-se como nevões multicoloridos ao longo das estradas e rios de Xa Cau, uma das centenas de aldeias de reciclagem “artesanais” que rodeiam Hanói, a capital do Vietname, onde o lixo é separado, triturado e derretido


As aldeias apresentam um paradoxo: permitem a reutilização de parte das 1,8 milhões de toneladas de resíduos plásticos que o Vietname produz anualmente e possibilitam aos trabalhadores a obtenção de salários tão necessários. Mas, a reciclagem é feita com pouca regulamentação, polui o ambiente e ameaça a saúde dos envolvidos, disseram à AFP trabalhadores e especialistas.

“Este trabalho é extremamente sujo. A poluição ambiental é realmente grave”, disse Lanh, de 64 anos, pedindo para ser identificada apenas pelo primeiro nome por receio de perder o emprego.

É um dilema enfrentado por muitas economias em rápido crescimento, onde a utilização e eliminação do plástico ultrapassou a capacidade do governo de recolher, separar e reciclar. Mesmo nos países ricos, as taxas de reciclagem são frequentemente muito baixas porque a reutilização de produtos plásticos pode ser cara e as taxas de triagem são baixas.

No entanto, os métodos rudimentares utilizados nas aldeias artesanais do Vietname produzem emissões perigosas e expõem os trabalhadores a produtos químicos tóxicos, alertam os especialistas.

“O controlo da poluição do ar é zero nestas instalações”, disse Hoang Thanh Vinh, analista do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, com foco na reciclagem de resíduos. O esgoto não tratado é frequentemente despejado directamente nos cursos de água, acrescentou.

A verdadeira dimensão do problema é difícil de avaliar, existindo poucos estudos abrangentes.

Na aldeia de Minh Khai, segundo Vinh, uma análise de sedimentos detectou “uma contaminação muito elevada por chumbo e a presença de dioxinas”, bem como furano – todos associados ao cancro. Em 2008, verificou-se que a esperança de vida dos residentes das aldeias era uma década inferior à média nacional, segundo o Ministério do Ambiente.

As autoridades locais e o ministério não responderam aos pedidos de comentários da AFP.

Lanha acredita que o lixo tóxico em Xa Cau causou cancro no sangue do marido, mas ainda passa os dias a separar o lixo para pagar as suas despesas médicas. “Esta aldeia está cheia de casos de cancro, pessoas apenas à espera da morte”, disse ela.

Não existem dados sobre as taxas de cancro nas aldeias, mas a AFP falou com mais de meia dúzia de trabalhadores em Xa Cau e Minh Khai que relataram casos de colegas ou familiares com cancro.

O coordenador da Aliança Lixo Zero do Vietname, Xuan Quach, disse que a exposição contínua ao “ambiente tóxico” torna inevitável que os residentes enfrentem “riscos para a saúde que são, obviamente, maiores”.

Um residente de 60 anos, conhecido por Dat, separa o plástico em Xa Cau há uma década e disse que o trabalho “afecta definitivamente a saúde”. “Não faltam casos de cancro nesta aldeia”, aponta.

Mas também não faltam trabalhadores, ávidos da tábua de salvação económica que a reciclagem proporciona.

Em Xa Cau, o plástico acumula-se em redor de casas de vários andares, algumas com fachadas ornamentadas que indicam os anos em que foram construídas.

“Enriquecemos graças a este negócio”, disse Nguyen Thi Tuyen, de 58 anos, que vive numa casa de dois andares. “Agora todas as casas são de tijolo. No passado éramos apenas uma aldeia agrícola”.

A maior parte do lixo que os residentes reciclam é de produção local, dizem investigadores e residentes.

Embora o Vietname recicle apenas cerca de um terço do seu próprio lixo plástico, importa milhares de toneladas anualmente da Europa, EUA e Ásia. As importações dispararam depois de a China ter deixado de aceitar lixo plástico em 2018, embora o Vietname tenha recentemente endurecido as regulamentações e anunciado planos para eliminar gradualmente também as importações.

Para já, estatísticas comerciais dos EUA e da União Europeia mostram que as remessas para o Vietname provenientes destas duas economias atingiram mais de 200 mil toneladas em 2024.

Em Minh Khai, o proprietário de uma fábrica de grânulos de plástico disse que a oferta interna “não é suficiente”. “Preciso de importar do estrangeiro”, explicou Dinh, de 23 anos, no meio do zumbido das máquinas pesadas.

A maior parte do lixo doméstico não está separado, pelo que não pode ser facilmente reutilizado.

Houve esforços para melhorar o sector, incluindo a proibição da queima de resíduos não recicláveis ​​e a construção de instalações modernas. Mas, a queima continua e o lixo inutilizável é frequentemente descartado em terrenos baldios, referiu Vinh, defendendo que o governo deveria ajudar as empresas de reciclagem a mudarem-se para parques industriais com melhores medidas de protecção ambiental, formalizando um sector que processa um quarto da reciclagem do país.

“O método actual de reciclagem nas aldeias de reciclagem… não é nada bom para o ambiente”. In “Jornal Tribuna de Macau” com “AFP”


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Portugal - Investigação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde recebe financiamento da Fundação «la Caixa»

Projetos nas áreas dos danos cerebrais, cancro e autismo estão entre os 34 distinguidos no âmbito do Concurso de Investigação em Saúde 2025


Desenvolver novas terapias para doenças neurológicas como o AVC, a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica, criar um dispositivo implantável para tratar o glioblastoma e melhorar a avaliação do risco de desenvolver autismo são os principais objetivos dos três projetos liderados por investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), que acabam de ser distinguidos no âmbito do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa”. O financiamento total ascende a quase três milhões de euros.

As três propostas do i3S estão entre um total de 34 projetos (portugueses e espanhóis) de investigação biomédica de excelência, que vão receber mais de 26 milhões de euros. Nesta oitava edição, foram apresentadas 714 propostas de investigação básica, clínica e translacional, tendo sido selecionadas nove portuguesas e 25 espanholas.

No âmbito deste concurso, a Fundação “la Caixa” concede até 500 mil euros a projetos com uma única instituição de investigação envolvida e até um milhão de euros a consórcios de investigação formados por várias instituições, como acontece com os projetos liderados por investigadores do i3S.

Uma nova forma de combater os danos cerebrais a partir do interior

Liderado por Ana Paula Pêgo, líder do grupo «NanoBiomaterials for Targeted Therapies» do i3S, o projeto «MIND» foi financiado pela Fundação “la Caixa” e pela FCT com um milhão de euros e vai focar-se nas doenças neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que afetam milhões de pessoas em todo o mundo, provocando frequentemente incapacidades a longo prazo ou mesmo a morte.

Uma das principais causas do dano cerebral associado a estas doenças, explica a investigadora do i3S, “é a acumulação no cérebro de uma substância química que, em excesso, leva à morte neuronal. Apesar de décadas de investigação, nenhum tratamento conseguiu até agora proteger eficazmente o cérebro deste processo”. Embora a maioria dos estudos se tenha centrado em formas de neuroproteção focando-se nos neurónios, Ana Paula Pêgo considera que a chave poderá residir noutro tipo de célula cerebral: os astrócitos.

Este projeto propõe uma nova estratégia de proteção cerebral, que consiste em aumentar a eficiência dos astrócitos. Conforme explica Ana Paula Pêgo, “os astrócitos eliminam o excesso da substância química nociva, mas durante um AVC ou outro evento neurológico agudo, não conseguem manter o equilíbrio, o que leva à acumulação de danos”.

Como tal, a equipa propõe uma solução inovadora: “Introduzir diretamente nos astrócitos instruções úteis através de ARN mensageiro (mRNA) que dão indicações às células para produzir mais quantidade de uma proteína essencial para eliminar a substância química tóxica”. Para garantir a segurança e eficácia do tratamento, os investigadores estão a desenvolver pequenas partículas inteligentes capazes de libertar a sua carga apenas nas áreas danificadas do cérebro.

O projeto, que será desenvolvido em consórcio com os investigadores Francisco Campos, do Instituto de Investigación Sanitaria de Santiago de Compostela (IDIS) (Espanha), e Ben Maoz, da Universidade de Telavive (Israel), inclui ainda o desenvolvimento de um modelo tridimensional (3D) relevante para mimetizar o cérebro humano, que «permitirá testar a terapia em condições fisiológicas realistas, bem como a utilização de ferramentas de imagem avançadas para monitorizar os efeitos do tratamento, que será testado no contexto do AVC», sublinha Ana Paula Pêgo.

Se alcançar os objetivos propostos, garante a cientista, «esta abordagem poderá abrir caminho a novas terapias, não só para o AVC, mas também para outras doenças cerebrais com mecanismos semelhantes de dano neuronal».

Dispositivo implantável para administração de fármacos contra o glioblastoma

Financiado com 990 mil euros, o projeto liderado por Bruno Sarmento, em consórcio com os investigadores Bruno Costa, da Universidade do Minho, e Álvaro Mata, da Universidade de Nottingham (Reino Unido), vai centrar-se no tratamento do glioblastoma, o tipo de cancro cerebral mais letal em adultos. Os tratamentos atuais, que incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia e pouco têm evoluído nas últimas duas décadas, apresentam resultados limitados devido à resistência do tumor e à dificuldade em dirigir fármacos diretamente ao cérebro.

A equipa pretende revolucionar o tratamento do glioblastoma através do desenvolvimento de um sistema terapêutico implantável capaz de libertar moléculas anticancerígenos diretamente no cérebro após a cirurgia de remoção do tumor. O sistema, explica Bruno Sarmento, “foi concebido para libertar, de forma controlada e gradual, uma combinação de fármacos que combatem o cancro de forma mais eficaz e reduzem a necessidade de quimioterapia diária”.

O projeto, adianta, “envolve o desenho de um novo tipo de implante, capaz de libertar fármacos quimioterápicos, inibidores da resistência ao tratamento e sequências de ARN dirigidos especificamente às células cancerígenas”.  O objetivo, sublinha Bruno Sarmento, é que “esta estratégia inovadora melhore a efetividade dos fármacos, reduza os efeitos secundários e aumente a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes”.

Para já, os dados preliminares são promissores: “O novo sistema demonstrou reduzir significativamente o crescimento tumoral em modelos laboratoriais. Os resultados esperados incluem maiores taxas de sobrevivência, menores efeitos adversos e um novo padrão de cuidados para doentes com glioblastoma”, garante o líder do grupo «Nanomedicines & Translational Drug Delivery» do i3S. Estes avanços, adianta Bruno Sarmento, “poderão ainda abrir caminho ao desenvolvimento de tratamentos semelhantes para outros tipos de tumores cerebrais, com impacto significativo na saúde pública e nos custos dos sistemas de saúde”.

Como pequenas alterações no ADN moldam o cérebro em desenvolvimento

Sabe-se que o transtorno do espectro autista (TEA), que afeta aproximadamente uma em cada 44 crianças, tem uma forte base genética. No entanto, a maioria das alterações genéticas associadas ao TEA não se encontra propriamente nos genes, mas nas regiões não codificantes do ADN que controlam a ativação e inativação dos genes. A equipa liderada pelo investigador do i3S Diogo Castro quer compreender como essas alterações influenciam o desenvolvimento cerebral com o objetivo de “explicar a origem do TEA e melhorar os métodos de avaliação do risco de desenvolver este transtorno”.

Este projeto, financiado pela Fundação “la Caixa” em colaboração com a FCT com mais de 730 mil euros, visa descobrir o efeito dessas alterações genéticas não codificantes no desenvolvimento do cérebro, especialmente nas primeiras etapas, durante a formação da estrutura cerebral.

As equipas do consórcio, que inclui os investigadores Gaia Novarino, do Institute of Science and Technology Austria (ISTA) (Áustria), e Justin O’Sullivan, do The Liggins Institute, University of Auckland (Nova Zelândia), vão utilizar ferramentas avançadas para analisar milhares de variantes genéticas e observar como elas influenciam a atividade genética de células cerebrais humanas cultivadas em laboratório.

Além disso, explica Diogo Castro, “vamos utilizar ferramentas de inteligência artificial para identificar quais das alterações genéticas associadas com o TEA têm um maior valor de prognóstico. Isto levará à criação de um modelo que poderá ajudar a prever quais as crianças que estão em risco de desenvolver TEA, permitindo assim um diagnóstico e intervenção precoces”.

Para compreender como essas alterações afetam o desenvolvimento cerebral, os investigadores do projeto, “vão editar variantes genéticas específicas em células estaminais e cultivá-las em minicérebros ou organoides. Isso permitirá observar o efeito das alterações na formação e no funcionamento do tecido cerebral”. O projeto conta com a participação de especialistas em desenvolvimento cerebral, genética e ciência de dados, estando como tal bem posicionado para enfrentar um desafio complexo.

Sobre o concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” de 2025

A cerimónia de entrega dos prémios decorreu no dia 20 de novembro no Museu de Ciência CosmoCaixa. Segundo Àngel Font, subdiretor-geral de Investigação e Bolsas da Fundação ”la Caixa”, «a investigação biomédica é uma das formas mais poderosas de melhorar a vida das pessoas. Os 34 projetos premiados abordam desafios muito diversos a partir de diferentes perspetivas, mas todos partilham três eixos fundamentais para avançar rumo a um futuro mais promissor para os doentes e as suas famílias: colaboração, talento e inovação”. De acordo com a Fundação la Caixa, os projetos portugueses deste ano sobressaem pelo seu carácter inovador e elevado impacto social.

Este ano, A Fundação la Caixa desenvolveu acordos com a Fundação Breakthrough T1D e com a Fundação Luzón, o que permitiu dar maior destaque ao financiamento de iniciativas centradas na diabetes tipo 1, com dois projetos financiados, e na esclerose lateral amiotrófica (ELA), com um projeto financiado. O concurso conta ainda com a colaboração da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que destinou 1,8 milhões de euros para financiar três dos nove projetos portugueses premiados nesta edição.

Desde o início do programa em 2018, o montante total do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” ascende a 172,3 milhões de euros para 234 projetos, dos quais 162 são liderados por equipas espanholas e 72 por grupos de investigação portugueses. Universidade do Porto - Portugal


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Internacional - Cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde descobrem "interruptor" que evita erros na divisão celular

Nova investigação revela um mecanismo molecular que ajusta o tempo da divisão celular para prevenir erros genéticos associados a cancro


Uma equipa internacional de cientistas liderada por Carlos Conde, investigador no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), identificou um mecanismo que atua como um interruptor de segurança durante a divisão celular (mitose). Esta descoberta, publicada na prestigiada revista Current Biology, revela como este interruptor controla uma proteína que consegue travar todo o processo de divisão até que esteja garantido que os cromossomas são distribuídos com exatidão. Conhecer e compreender este mecanismo abre caminho para novas estratégias terapêuticas capazes de interromper a divisão descontrolada de células com erros, como as células de cancro.

A divisão celular é um evento de alto risco, exigindo uma precisão única. “Se o material genético não for distribuído igualmente, as células resultantes dessa divisão adquirem um número errado de cromossomas (um estado chamado aneuploidia), que é uma característica de quase todos os tumores sólidos e de muitas perturbações do desenvolvimento”, explica Carlos Conde, investigador do grupo «Cell Division & Genomic Stability» no i3S e docente no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da U.Porto.

Para garantir esta precisão, continua o investigador, “as células empregam um sistema de controlo de qualidade chamado «Checkpoint Mitótico» que atua como um travão, interrompendo a divisão celular até que todos os cromossomas estejam perfeitamente ligados à maquinaria celular de microtúbulos que os distribui para as novas células que se vão formando”.

O mistério central tem sido identificar o mecanismo que liberta este travão rapidamente, mas não prematuramente. Este estudo, sublinha Carlos Conde, “identifica um interruptor molecular simples, mas poderoso, que controla uma enzima específica, a PP1, sendo esta a responsável por desengatar o travão quando tudo está pronto a ser dividido”.

O artigo agora publicado, e que tem como primeira autora a investigadora Margarida Moura, do grupo «Epithelial Polarity & Cell Division» do i3S, mostra ainda que, quando este interruptor está defeituoso, ocorrem erros na distribuição dos cromossomas e uma acumulação de células aneuploides, isto é, células com potencial para formarem um tumor. “Isto demonstra que o ajuste fino da atividade da enzima PP1 (o interruptor) é essencial para que as células de um organismo se dividam no tempo certo de forma a gerar novas células livres de erros genéticos”, esclarece Carlos Conde.

“Esta descoberta tem implicações futuras. Os investigadores têm agora uma nova estratégia molecular para controlar a divisão celular”, garante o cientista do i3S, sobre um conhecimento que abre caminhos para a exploração de novas estratégias terapêuticas.”

Potencialmente pode levar ao desenvolvimento de medicamentos que atinjam seletivamente este interruptor molecular para interromper a divisão descontrolada de células cancerígenas. Pode igualmente ser importante para melhorar o sucesso da medicina regenerativa onde o crescimento celular preciso é necessário”, conclui. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 11 de outubro de 2025

Espanha - Eliminadas mutações genéticas que originam alguns dos cancros mais mortais

Um grupo de cientistas espanhóis deu um passo importante na luta contra o cancro ao conseguir eliminar, em laboratório, mutações genéticas responsáveis por alguns dos tumores mais agressivos. O avanço foi possível graças a uma técnica de edição de ADN de alta precisão.


Investigadores da Universidade de Granada, em Espanha, conseguiram detetar e eliminar mutações no gene KRAS que podem impulsionar o desenvolvimento de vários tipos de cancro, avançou esta semana a Europa Press.

"O estudo representa um marco ao demonstrar que é possível eliminar mutações-chave diretamente do ADN tumoral. (...) Pode redefinir a forma como abordamos certos tipos de cancro", disse o professor da Universidade de Granada e líder da investigação do Genyo, Pedro P. Medina.

O gene KRAS atua como um interruptor molecular que informa as células sobre quando devem crescer e dividir-se, segundo os investigadores do Centro de Investigação Genómica e Oncológica da Pfizer da Universidade de Granada e do Governo Regional da Andaluzia, que realizaram o estudo, em Espanha.

“Interruptor molecular” fora de controlo

De acordo com o estudo, publicado na revista científica Nature Communications, quando o KRAS sofre uma mutação, "este interruptor fica preso na posição ligado", causando uma multiplicação descontrolada" que resulta em tumores agressivos e um mau prognóstico (previsão sobre o desenvolvimento de uma doença), refere a Europa Press.

As mutações do gene KRAS causam cancro do pulmão, do pâncreas e do cólon, alguns dos mais letais, segundo a investigação.

Para eliminar as mutações associadas ao crescimento tumoral, os investigadores desenvolveram uma terapia baseada no sistema de edição genética HiFi-Cas9.

"Em vez de bloquear a proteína já produzida pela célula, pensamos eliminar a mutação na sua origem genética. Desta forma, o tumor perde a base para o seu crescimento", indicou Medina.

Edição genética de "alta-fidelidade" mostra resultados promissores

O sistema utilizado permite aos cientistas editar o DNA com precisão, cortando e modificando genes específicos para tratar doenças, sendo este, uma versão de "alta-fidelidade do sistema de edição genética CRISPR-Cas9", segundo a Europa Press.

A estratégia foi validada em testes com células e em tecidos de ratos com cancro do pulmão.

Nas células, a edição genética "reduziu drasticamente a viabilidade das células tumorais portadoras do KRAS mutado", segundo a Europa Press.

Nos tecidos de ratos, a edição com HiFi-Cas9 atrasou "significativamente o crescimento tumoral" e em alguns casos, a eficácia foi ainda superior à do medicamento para o cancro do pulmão Sotorasibe, segundo a mesma fonte.

Medina indicou que a terapia ainda não pode ser usada nos pacientes e destacou que é necessário descobrir como utilizar a edição com HiFi-Cas9 de forma eficiente, garantindo a segurança dos utentes a longo prazo. In “Sapo” – Portugal com “Europa Press” e “Lusa”


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Portugal - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde desenvolve terapia "altamente eficaz" contra tumores agressivos

Estudo representa um avanço significativo no campo da imunoterapia, abrindo novas perspetivas para cancros com opções de tratamento ainda muito limitadas


Uma equipa do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) desenvolveu uma nova terapia com células CAR T “altamente eficaz” contra tumores sólidos, como os do estômago, pâncreas e ovário. O estudo, publicado na prestigiada revista científica Cell Reports Medicine, representa um avanço significativo no campo da imunoterapia, abrindo novas perspetivas para cancros com opções de tratamento ainda muito limitadas.

Esta investigação, coordenada por Celso A. Reis, líder do grupo «Glycobiology in Cancer» do i3S e docente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), “baseou-se na utilização de linfócitos T (células T) do sistema imunitário do próprio doente, modificados geneticamente com recetores artificiais, os Chimeric Antigen Receptors (CARs), desenhados para reconhecer glicanos tumorais, estruturas de açúcar alteradas presentes exclusivamente à superfície de células cancerígenas”.

“Selecionar um alvo tumoral altamente específico é um dos fatores determinantes para o sucesso das terapias com células T”, explica Rafaela Abrantes, primeira autora do artigo, desenvolvido no âmbito do programa doutoral em Ciências Biomédicas do ICBAS. “Neste trabalho focámo-nos num glicano chamado Sialyl-Tn (STn), ausente em tecidos saudáveis, mas abundantemente expresso em muitos tumores de origem epitelial, como gástrico, pancreático e colorretal, acrescenta a atual investigadora no grupo «Glycobiology in Cancer».

No âmbito desta investigação, a equipa desenvolveu um novo anticorpo monoclonal, o AM52.1, que reconhece exclusivamente o glicano STn. A partir desse anticorpo, foi então construído um recetor artificial que, expresso em células T, originou células geneticamente modificadas, as novas células CAR T, “que se revelaram altamente eficazes no reconhecimento e eliminação seletiva de células tumorais”, refere Celso A. Reis.

Vários testes funcionais, acrescenta Rafaela Abrantes, “mostraram que, ao reconhecerem as células tumorais que expressam o glicano de interesse, as novas células CAR T ativam-se de forma robusta, produzindo citocinas inflamatórias e compostos tóxicos, eliminando eficientemente as células-alvo”.

Esta nova terapia, a que a equipa dá o nome de AM52.1CAR T, foi também testada em vários modelos pré-clínicos, desde organóides até modelos animais com tumores derivados de pacientes (xenotransplantes). Os resultados, referem os investigadores, “mostraram uma eliminação eficaz das células tumorais, mesmo em tumores com níveis reduzidos de STn ou com características que normalmente representam barreiras à eficácia das terapias celulares, demonstrando a sensibilidade e robustez desta abordagem”.

Importa destacar que, “dada a elevada especificidade da terapia desenvolvida, não foram observados sinais de toxicidade nem efeitos adversos em modelos pré-clinicos, um requisito essencial para garantir a segurança do tratamento”. “Conseguimos desenvolver uma terapia altamente específica, mesmo em tumores com níveis variáveis do alvo”, sublinha Celso A. Reis.

Este estudo, que contou com a colaboração da Unidade de Terapia Celular do Hospital Universitário de Oslo, na Noruega, “reforça o potencial translacional para ensaios clínicos em doentes e posiciona o i3S na vanguarda da investigação em terapia direcionada e imunoterapia para tumores sólidos, propondo uma estratégia promissora que poderá, num futuro próximo, ser aplicada no tratamento de pacientes com cancros de difícil abordagem clínica”, enfatiza o líder da equipa. Universidade do Porto - Portugal


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Macau – Universidade de Macau descobre nova combinação de fármacos para tratar cancros

Um grupo de cientistas da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Macau identificou uma nova combinação de medicamentos, que possibilita melhores terapias para tratar cancros


Uma equipa de investigação liderada por Chuxia Deng, docente da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Macau (UM), identificou uma nova estratégia, que aumenta a eficácia de tratamentos contra tumores sólidos. A abordagem recorre a uma combinação dos medicamentos “tetratiomolibdato de amónio”, “plerixafor” e “bortezomib”, de acordo com um comunicado.

Os resultados do estudo demonstram que esta combinação de fármacos pode ajudar a melhorar tratamentos de cancros da mama. Os inibidores de proteassoma, como o “bortezomib”, são amplamente utilizados em terapias, por serem eficaz para tratar tumores líquidos, como cancros do sangue. Contudo, os inibidores de proteassoma não são tão eficazes contra tumores sólidos.

O grupo de investigadores descobriu que o “tetratiomolibdato de amónio” e o “plerixafor” podem sensibilizar as células do cancro da mama ao “bortezomib”, revertendo eficazmente a resistência dos tumores. O comunicado refere que este estudo tem um “potencial clínico significativo” e fornece uma nova estratégia de combinação de fármacos para a terapia baseada em inibidores do proteassoma contra tumores sólidos.

A investigação atraiu bastante atenção na área da biomedicina e foi publicada na revista internacional “Cell Reports Medicine”. A equipa de investigadores incluiu os doutorandos Tang Dongyang, Lin Shiqi, Chu Xiangpeng, Li Ling, He Lin e Qiao Yunfeng, os pós-doutorandos, Josh Lei Haipeng e Zhou Jingbo, e os professores Shao Fangyuan, Sun Heng e Xu Xiaoling. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


terça-feira, 29 de abril de 2025

Portugal - Bolsa de Doutoramento Nuno Grande premeia estudo sobre Doença do Enxerto Contra Hospedeiro

Leonardo Moço, estudante do ICBAS, é o vencedor da 3.ª edição da Bolsa de Doutoramento Nuno Grande (BDNG), com trabalho na área da hemato-oncologia

O projeto vencedor da Bolsa de Doutoramento Nuno Grande (BDNG) 2024, da autoria de Leonardo Moço, estudante do 1.º ano do Programa Doutoral em Ciências Médicas do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, procura encontrar uma terapêutica eficaz que garanta o bem-estar dos doentes sem necessidade de recorrer ao uso intensivo e prolongado de corticoides para a Doença do Enxerto Contra Hospedeiro (DECH). Trata-se de uma patologia resultante da transplantação de medula óssea, a que muitos doentes com cancros hematológicos (principalmente leucemias agudas) são submetidos.

Em Portugal, cerca de 4700 pessoas são diagnosticadas, anualmente, com cancros no sangue ou sistema linfático cujo tratamento, para além de uma quimioterapia intensiva, pode passar por um transplante de medula. “Quando a doença assume características de alto risco, o tratamento curativo poderá passar por um transplante de progenitores hematopoiéticos, ou seja, submete-se o doente a uma quimioterapia muito intensiva que faz o reset da sua medula óssea, para posteriormente repovoá-la com o sistema hematopoiético e imunológico de um dador (alogénico) – para que o sistema imunitário dessa outra pessoa reconheça as células malignas do doente como estranhas e as combata”, explica o vencedor do prémio.

Ainda segundo Leonardo Moço, “este fenómeno – excerto contra o tumor/leucemia – é eficaz, mas tem um grande problema, o reverso da moeda, que está precisamente no facto de as células do dador poderem atacar também as células boas do doente, conduzindo ao fenómeno excerto contra hospedeiro”, esclarece.

Mais de um quarto dos doentes submetidos ao transplante de medula óssea desenvolve a Doença do Enxerto Contra Hospedeiro, sendo que destes, cerca de 11% desenvolve doença aguda de grau 3 ou 4 (os mais severos). Trata-se de uma doença que, na fase aguda, afeta essencialmente a pele, o fígado e o tubo digestivo. Para além disso, a taxa de sobrevivência, nos casos mais severos de DECH, ronda os 40% ao fim de um ano. Números muito significativos que “fazem desta doença a principal causa de morte não decorrente da recaída do cancro”.

No trabalho vencedor da BDNG 2024, Leonardo Moço propõe-se a desenvolver um fármaco que reduza os efeitos colaterais e as comorbilidades associadas ao tratamento da DECH que assenta na toma de corticóides, “cuja exposição a longo prazo sabemos ter efeitos muito negativos, como obesidade, diabetes mellitus tipo 2, osteoporose severa, fraturas patológicas, patologia articular, cataratas, perturbações psiquiátricas, maior vulnerabilidade a infeções, entre outras. Para além disso, ao suprimir o sistema imunitário com corticóides, estamos a diminuir o efeito positivo enxerto contra tumor, e a aumentar a probabilidade de recaída da doença oncológica primária”, explica.

O trabalho de investigação premiado propõe-se a encapsular uma molécula de corticóide numa nanopartícula, dirigida às células T do dador (a principal maquinaria responsável pelo efeito enxerto contra hospedeiro), pretendendo-se assim uma resposta mais duradoura, mais eficaz, mais seletiva e com menos efeitos secundários.

Este trabalho é coordenado por Delfim Duarte, hematologista e responsável pelo grupo Hematopoiesis and Microenvironments no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), em parceria com Bruno Sarmento, investigador responsável pelo grupo de investigação Nanomedicines & Translational Drug Delivery, também no i3S.

Para o Leonardo Moço “este prémio será essencial para a aquisição de ferramentas e para o desenvolvimento de missões de aprendizagem que, acredito, me farão crescer muito como médico-investigador”. Além disso, constitui um enorme reconhecimento por parte de uma casa “que me diz muito, afinal foi no ICBAS que me constituí, em grande parte, como a pessoa e profissional que sou hoje – devo muito a esta instituição, por todas as experiências que me proporcionou, todas as pessoas que me deu a conhecer e por me ter trazido até aqui. Para além disso, ganhar este prémio, de um nome maior que todos nós, no ano em que se comemoram os 50 anos do ICBAS, é sem dúvida um enorme, e simbólico, privilégio”.

A Bolsa de Doutoramento Nuno Grande é uma iniciativa da família do histórico médico, professor e fundador do ICBAS, do próprio Instituto e da Fundação BIAL, à qual Nuno Grande esteve ligado mais de 20 anos. A edição deste ano será entregue, formalmente, no Dia do ICBAS, agendado para maio, no Edifício Histórico Abel Salazar. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 5 de abril de 2025

Moçambique - Após aumentos de casos de cancro, o país reforça parcerias internacionais

A Agência Internacional de Energia Atómica, a OMS e a Agência de Pesquisa sobre Cancro realizam revisão ImPACT, a meta é promover ações do governo para aumentar acesso a diagnóstico e tratamento. A capital Maputo tem apenas 1 unidade radiológica para 30 milhões de pessoas



Todos os anos, Moçambique, o país de língua portuguesa no sul da África, regista 26 mil novos casos de cancro. Segundo estatísticas oficiais, até 2045, o número de casos da doença deve mais que dobrar.

O ministro da Saúde, Armino Tiago, afirma que os dados são alarmantes e preocupantes. O país decidiu investir em parcerias internacionais para socorrer quem precisa.

Expansão de casos

Este ano, Moçambique convidou duas entidades da ONU: a Organização Mundial de Saúde, OMS, e a Agência Internacional de Energia Atómica, Aiea, para realizar uma revisão chamada ImPACT.  A meta é analisar o que pode ser feito contra a expansão de casos no país e expandir o tratamento.

A ação é acompanhada da Agência Internacional para Pesquisa sobre Cancro.

O cancro já é responsável por quase metade das mortes prematuras por doenças crónicas.

Muitas pessoas somente chegam a uma consulta médica nos últimos estágios do cancro, o que torna o tratamento mais complicado. E no caso de Moçambique, muitos que precisam não recebem os cuidados por falta de equipamentos e pessoal.

Segunda maior causa de morte no mundo

O cancro é hoje a segunda maior causa de morte em todo o mundo. As revisões ImPACT tentam auxiliar os países em avaliações de causas e capacidades para ajudar os governos a responder ao problema controlando o número de novos diagnósticos.

Uma das propostas é criar um plano nacional de cancro com informações para doadores e adesões do país às iniciativas da OMS como cancro infantil, da mama ou cervical.

Para o Ministério da Saúde, a parceria com a ONU capacita e beneficia os sistemas de saúde locais e nacional.

Os especialistas são da África, da Europa e das Américas e atuam em áreas como oncologia, patologia, cuidados paliativos e epidemiologia. Muitos falam português, a língua oficial de Moçambique, o que ajuda no contato com os cidadãos.

Preparação na internet antes de chegar ao terreno

A Aiea, que tem um programa dedicado ao combate ao cancro, envia especialistas em radiologia, segurança de radiação e diagnósticos e outros equipamentos.

Reuniões e preparativos ocorrem na internet antes da produção de um relatório e plano de ação e antecede à chegada da missão ao país.

Como parte da prevenção do cancro, os profissionais recomendam fatores como dieta adequada, cartão de vacinas em dia e uma vida sem tabaco que pode ajudar a evitar em até 40% todos os casos de cancro.

O diagnóstico cedo também aumenta as possibilidades de cura. Com o tratamento, a meta é curar a doença e prolongar a vida com qualidade. Já os cuidados paliativos focam-se nas necessidades dos pacientes e das suas famílias desde o diagnóstico até à capacidade de enfrentar a doença.

Quando chegam a Moçambique, as equipas já têm um bom conhecimento do terreno e deslocam-se aos hospitais e centros de saúde pública, onde se reúnem com profissionais do setor, representantes da sociedade civil e tomadores de decisão.

Dar prioridade às crianças e mulheres

Uma das prioridades da iniciativa ImPACT em Moçambique são crianças e mulheres que vivem com cancro. Num dos centros, o Primeiro de Maio, foram analisados o impacto do atendimento de saúde básica com prevenção e diagnóstico a tempo, especialmente para cancro infantil, da mama e cervical.

Um dos especialistas em oncologia infantil, do Gana, que participa da missão afirmou que mais de 80% dos casos de cancro em crianças têm cura, mas o mundo está apenas no patamar de 30% de cura em países de rendimentos baixos e média.

Equipa de brasileiros

Há mais de uma década, a Aiea tem atuado no Hospital Central de Maputo com atendimento a pacientes de cancro. Uma equipa de especialistas brasileiros realizou o treinamento de radioterapia com o apoio da agência da ONU.

Como Moçambique tem acesso limitado aos equipamentos de radiologia e outras tecnologias, fica mais difícil apoiar os pacientes que precisam do tratamento.

A capital Maputo, por exemplo, tem apenas uma unidade de radiologia para uma população de mais de 30 milhões de pessoas. ONU News – Nações Unidas


quinta-feira, 27 de março de 2025

Galiza - Água tóxica e um cheiro nauseabundo: como a criação de porcos transformou uma cidade espanhola num "monte de esterco"

Os moradores têm muito medo de beber água dos poços locais ou de abrir as janelas por medo do fedor das criações de gado que se encontram próximas



Pela primeira vez na história da justiça, cidadãos espanhóis entraram com uma ação judicial contra autoridades nacionais e regionais por causa da criação intensiva de porcos.

Os moradores dizem que a má gestão da poluição causada por décadas de criação industrial de porcos tornou a vida na sua comunidade "inviável" - e está a colocar a sua saúde em risco.

É a primeira vez que um tribunal na Europa ouvirá um caso sobre os impactos nos direitos humanos das operações intensivas de pecuária em fontes de água.

Moradores têm medo de beber água de poços

Existem centenas de herdades de criação intensiva de suínos e aves na região de A Limia, na Galiza, que dependem do que são vistas como aprovações automáticas das autoridades locais para operar.

Tanto a lei nacional quanto a europeia exigem que as autoridades protejam a saúde e o bem-estar dos moradores locais. Os reclamantes argumentam que, legalmente, esse princípio deve determinar se as instalações de agricultura industrial são aprovadas.

No entanto, as condições de vida na área tornaram-se terríveis, fazendo com que os moradores tenham medo de beber água dos poços locais ou de abrir as janelas por medo do fedor das criações de gado que estão próximas.

Nalguns casos, o abastecimento de água municipal também foi poluído.

“Estamos tão preocupados com a poluição que até a ideia de caminhar perto do reservatório se tornou inviável”, diz Pablo Álvarez Veloso, presidente da associação local de moradores e autor do caso.

“No entanto, em vez de avisar a nossa comunidade sobre a verdadeira extensão da poluição na área, as nossas autoridades locais estão a alegar que a água está em 'boas condições'. Todo o ano, eles dizem que as crianças podem nadar e brincar no reservatório sem um aviso à vista de quão tóxica a água pode ser.”

“Durante os meses mais quentes do ano, temos medo até de abrir as janelas para refrescar a casa, porque é quando o cheiro do reservatório é pior”, acrescenta Mercedes Álvarez de León, outra reclamante no caso e proprietária de uma empresa local.

Como a representante da Friends of the Earth, Blanca Ruibal, que apoia o caso, resume sucintamente, “[a cidade] tornou-se um monte de esterco”.

Moradores espanhóis levam autoridades ao tribunal por poluição causada pela criação de porcos

Como as repetidas tentativas de pedir às autoridades locais e outras que resolvam a poluição que assola a área falharam, os moradores da cidade de As Conchas estão agora tomando medidas legais.

O grupo entrou com uma ação no Tribunal Superior de Justiça da Galiza pelo que eles alegam ser uma violação da legislação nacional e europeia.

Eles são apoiados pelas instituições de caridade ambientais ClientEarth e Friends of the Earth Spain. Entre os reclamantes está a organização de consumidores CECU, representando a região de A Limia.

“Tentámos muitas vezes levantar essas questões diretamente com o governo local - mas acreditamos que não estamos sendo ouvidos”, diz Álvarez Veloso. “Então, estamos a tomar as questões nas nossas próprias mãos - estamos indo ao tribunal para proteger a nossa comunidade.”

A poluição causada pela criação de porcos pode colocar os moradores em risco de cancro

Um nível extremamente elevado de nitratos foi registado no reservatório local, o que é um fator de risco bem conhecido para vários tipos de cancro, incluindo cancro da tiroide, mama, ovário, estômago, pâncreas e bexiga.

A sua presença também foi associada ao linfoma não-Hodgkin (LNH) e à metemoglobinemia, uma doença potencialmente fatal originária do sangue.

Além de nitratos, estudos encontraram no reservatório bactérias resistentes a antibióticos, conhecidas por causar doenças muito difíceis (e em alguns casos impossíveis) de tratar.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que estes tipos de superbactérias resistentes a antibióticos estão entre as dez maiores ameaças à humanidade.

O forte odor dessas instalações intensivas é produto, como alega a denúncia, de partículas finas no ar, que podem causar problemas respiratórios e asma, principalmente em jovens e idosos. 

“Durante o verão, as dores de cabeça que tenho desde 2012 só pioram e ficam mais frequentes. Fui ao médico várias vezes para descobrir o que está a causar isto e eles parecem não conseguir descobrir. Acho que é por causa dessa poluição”, diz Álvarez de León.

“A situação está tão ruim que tem dias que nem saio de casa.”

Novas fazendas ainda estão a receber licenças apesar das preocupações com a saúde

Mesmo com os riscos claros à saúde pública expostos no processo e as dificuldades que os moradores de As Conchas enfrentam diariamente, as autoridades locais continuam a permitir que estas fazendas industriais operem como estão.

Licenças ainda estão a ser concedidas para novas herdades, apesar das obrigações que as autoridades têm sob a constituição espanhola, a Convenção Europeia de Direitos Humanos e a legislação ambiental nacional e europeia.

“Acreditamos que as autoridades estão a falhar com esses moradores, pois, apesar de saberem e verem o impacto em tempo real da criação industrial de gado na área, elas continuam a aprovar esses locais repetidamente”, diz a advogada da ClientEarth, Nieves Noval.

“Esta falha é ilegal - e levou à situação com a qual os nossos reclamantes têm de conviver dia após dia. A poluição descontrolada colocou a sua saúde em risco e comprometeu a sua água, o ar que respiram e o solo em que cultivam os seus próprios produtos agrícolas.”

As autoridades regionais da Galiza disseram que estão a trabalhar com os conselhos locais e a indústria de criação de suínos para encontrar soluções - e acrescentaram que o governo nacional também deve envolver-se.

Numa declaração enviada por correio eletrónico à Reuters, as autoridades da Galiza disseram que estão "a trabalhar num projeto de economia circular para a pecuária sustentável que envolve a transformação de resíduos em recursos". Euronews.green


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Portugal - Descoberta do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde ajuda a compreender erros na divisão celular

Estudo destacado na revista "EMBO Reports" salienta o papel da proteína Distrofina na regulação da interação entre as células epiteliais



Uma equipa do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) estudou várias proteínas que regulam a interação entre as células epiteliais (que revestem a superfície dos órgãos humanos) e o seu ambiente e descobriu que uma destas proteínas, a Distrofina, tem um papel fundamental na fase final da divisão celular. Esta descoberta, que ajuda a compreender a ocorrência de falhas no processo de divisão das células e o aparecimento de tumores malignos, é capa da revista EMBO Reports de janeiro de 2025.

“Temos cerca de 37 biliões de células, mas todos começamos por ser uma só. Esta capacidade da célula se multiplicar através de divisão celular é um dos fenómenos mais fascinantes da biologia”, começa por esclarecer Eurico Morais de Sá, líder do grupo «Epithelial Polarity & Cell Division» do i3S, e coordenador desta investigação que inclui colaborações com o Institut Curie, em Paris, e o Institut de Génétique, Reproduction et Développement (iGReD), em Clermont-Ferrand.

“Tendo em conta que a maior parte das células epiteliais não estão isoladas e aderem continuadamente às células vizinhas, ao mesmo tempo que são sustentadas por uma matriz extracelular (uma espécie de “solo” que dá sustentação mecânica aos tecidos dos nossos órgãos), pareceu-nos fundamental perceber qual o impacto dessas interações com o ambiente na capacidade de uma célula se dividir”, acrescenta.

A equipa liderada por Eurico Morais de Sá descobriu que várias proteínas que asseguram a coesão entre as células vizinhas e a ligação à matriz extracelular «promovem a eficiência da fase final da divisão celular (chamada citocinese), e que uma delas, a Distrofina, normalmente associada à distrofia muscular, tem um papel até então desconhecido e que consiste em assegurar a eficiência da citocinese em tecidos epiteliais», adianta Margarida Gonçalves, primeira autora do artigo agora publicado.

É precisamente uma imagem ilustrativa de defeitos em divisão celular que ilustra a capa da EMBO Reports. “Trata-se de uma imagem de microscopia a mostrar como, perturbando geneticamente a Distrofina, se formam células epiteliais com dois núcleos devido a falhas em citocinese”, explica Eurico Morais de Sá.

A equipa recorreu à mosca da fruta para investigar a divisão celular no tecido epitelial. Nestes tecidos, explica Eurico Morais de Sá, “as células têm que conseguir dividir-se ao mesmo tempo que se mantêm fortemente unidas umas às outras. Desenvolvemos, então, um sistema de perturbação genética que nos permite interromper a função, in vivo e em tecidos específicos, de cada um dos genes envolvidos na ligação entre células e nas suas interações com a matriz celular”. Na sequência disso, acrescenta, “percebemos que há um conjunto de proteínas, conservadas desde a mosca até ao ser humano, que promovem e eficiência do processo”.

Já Margarida Gonçalves nota que “este trabalho é focado em biologia fundamental, mas a longo prazo, poderá ter implicações na compreensão de doenças como o cancro”.

“Quando uma célula falha o processo de divisão, gera erros que podem servir como ponto de partida para o desenvolvimento de tumores, e cada vez mais estudos têm demonstrado que a duplicação do genoma, fenómeno provocado por falhas em citocinese, é uma anormalidade genética frequentemente presente em células cancerígenas. Sabendo que cerca de 90% dos tumores malignos têm origem em células epiteliais, torna-se particularmente relevante entender como é que o processo de divisão celular é assegurado neste tipo de contexto”, sublinha a investigadora. Universidade do Porto - Portugal


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Portugal - Arte e Ciência "falam" sobre cancro em exposição no i3S

A exposição “O Estranho Terrível Outro” reúne obras produzidas pelo artista Agostinho Santos a partir de imagens reais obtidas por Sobrinho Simões



Patente, desde o passado dia 16 de janeiro, no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), a exposição “O Estranho Terrível Outro” resulta de um conjunto de conversas sobre cancro entre o artista Agostinho Santos e o patologista Manuel Sobrinho Simões.

Partindo do diálogo entre os dois mundos, a exposição reúne um conjunto de pinturas, desenhos e esculturas que o artista plástico produziu a partir de imagens reais de tecidos humanos obtidas por Sobrinho Simões.

“Tenho muito orgulho em ter ajudado o Agostinho a fazer isto. Eu sou da ciência pura e dura, mas ele interpretou o que lhe passei e, ao interpretar, ganhou valor. Esperamos que quem passar por aqui (no i3S) perceba que fizemos uma articulação entre a ciência e a arte a partir de uma coisa que nos dá um medo horrível, que é o cancro. Acho que é um desafio engraçadíssimo”, convida o patologista.

Com curadoria de Felícia de Sousa, a exposição “O Estranho Terrível Outro” pode ser visitada até 19 de março, entre as 9h00 e as 17h00, no átrio principal do i3S. Universidade do Porto - Portugal