Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Brasil - Fim do voto feminino?

Marli Gonçalves, a editora do site “Chumbo Gordo”, criado em 2015 por Carlos Brickmann, já falecido, talvez tenha sido quem deu o berro mais alto ao chamar Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, "de um imbecil, geneticamente transtornado".

Porquê? Por ter defendido num áudio, nos EUA onde está foragido, e distribuído pelas redes sociais a ideia de que as mulheres não sabem votar -"Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido".

Não é essa a primeira imbecilidade postada nas redes sociais, existem milhares invadindo seu celular ou computador. Mas essa declaração, logo depois curtida por milhares de outros transtornados, se tornou importante por ter sido dita e defendida pelo amigo próximo de dois filhos do ex-presidente, um deles, Flávio Bolsonaro, candidato à presidência nas próximas eleições de outubro. E isso se agrava, quando lembramos ser o próprio ex-presidente Bolsonaro um convicto misógino.

Origem: Chumbo Gordo

Mas para quem acha ser uma brincadeira de mau gosto essa história de acabar com o voto feminino, a realidade norte-americana mostra ser um projeto em andamento, defendido pela extrema-direita e por grupos evangélicos. 

A ideia básica é a de que as mulheres são emotivas na escolha de seus candidatos. Por isso, a solução seria a de se acabar com o voto individual feminino em favor do voto familiar, que poderia ser debatido dentro de casa, mas caberia ao marido, chefe do lar, exercer o ato de votar, havendo só seu nome na lista de votantes.

Uma reportagem no The New York Times mostra haver mesmo mulheres conservadoras favoráveis ao fim do voto feminino.

O direito ao voto feminino foi uma longa luta das chamadas sufragistas e entrou na Constituição em 1920. Para muitos conservadores, entre eles líderes evangélicos, o voto das mulheres é, na maioria, pelo partido democrata, progressista, em favor do aborto e pela política de gênero.

Entre os líderes contra o voto feminino, como Paulo Figueiredo, amigo de Flávio Bolsonaro, estão os pastores Douglas James Wilson, Dale Partridge e o influenciador Jack Neel Nick Fuentes.

O escritor norte americano Douglas Kennedy escreveu um livro tratando de uma secessão provocada pelo crescimento dos evangélicos conservadores (cujos missionários vieram ao Brasil) e pelo desenvolvimento do chamado nacionalismo cristão, seguidores da teologia do domínio, pela qual as regras bíblicas devem ser aplicadas na sociedade dirigida por líderes evangélicos pentecostais.

Um sinal estranho ocorreu no dia 9 de março, quando o governo dos Estados Unidos se negou a assinar, na ONU, as conclusões da Comissão da Condição Feminina. 

O mais estranho é constatar que essa ameaça de regressão dos direitos das mulheres nos EUA por pressão religiosa, combatida pela esquerda, progressistas e feministas em geral, já é realidade nos países islâmicos, inclusive na teocracia iraniana, sem haver o mesmo protesto e a mesma mobilização da esquerda, dos progressistas e feministas.

Talvez com uma ligeira diferença, as mulheres podem votar no Irão mas não são consideradas iguais aos homens e não podem se candidatar aos postos de comando. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sábado, 20 de junho de 2026

Angola - Investigação associa o país a empresa suspeita de interferência em eleições

Companhia israelita Blackcore averiguada em França. A Viginum, agência governamental francesa que monitoriza, detecta e caracteriza eventuais operações de interferência digital estrangeira afirma que a BlackCore coordena dezenas de perfis e grupos falsos no Facebook que defendem o governo e o MPLA

O que começou por ser uma investigação sobre influência estrangeira e manipulação das eleições locais em França, rapidamente se transformou num caso que envolve vários países e actividades suspeitas no Togo, Escócia, EUA e Angola. No centro das investigações está uma obscura empresa de origem israelita, chamada BlackCore, que em Fevereiro de 2026 terá sido contratada pelo Governo angolano, segundo as autoridades francesas.


No passado dia 12 de Junho, a Viginum, agência governamental francesa encarregada de monitorizar, detectar e caracterizar operações de interferência digital estrangeira, que é tutelada pelo Secretariado-Geral de Defesa e Segurança Nacional (SGDSN) de França, divulgou publicamente um relatório com o título "Rokh Solis: Análise de um modus operandi informativo que teve como alvo as eleições autárquicas de Março de 2026", que divulga as informações apuradas sobre as operações da BlackCore naquele país.

No caso de Angola, a agência identificou dezenas de contas, grupos e perfis falsos, que actuam de forma coordenada para expandir, abafar ou interferir directamente em narrativas e informações que circulam nas redes sociais e na internet, sobretudo para veicular mensagens favoráveis ao governo e ao MPLA. "As investigações conduzidas pela Viginum permitiram identificar", para além das contas associadas às eleições autárquicas em França, outro conjunto "com características idênticas, mas que, desta vez, visavam públicos em Angola", segundo consta no relatório oficial consultado pelo Expansão.

"Com efeito, foram identificadas 48 contas ainda activas, que apresentam vários elementos semelhantes ao conjunto descrito anteriormente: fotografias geradas por inteligência artificial, utilização de nomes com conotação lusófona («Maria Sousa», «Paulo Carvalho», «Luísa Pereira», etc.), partilhas em comum entre estas diferentes contas e coordenação das suas interacções nas mesmas publicações através de "gostos" ou comentários", descreve a Viginum. Miguel Gomes – Angola in “Expansão”


terça-feira, 28 de abril de 2026

Cabo Verde - Número de eleitores cresce 5,95% com maior expressividade na diáspora

Os dados provisórios da Direcção-Geral de Apoio ao Processo Eleitoral (DGAPE) indicam que, em comparação com as últimas eleições, o número de eleitores registados aumentou em 23.384, o que representa uma variação de 5,95%. O crescimento é mais expressivo na diáspora, onde se registou uma subida de 36,5%, passando de 52.752 eleitores em 2021 para os actuais 72.051, distribuídos por 22 países


Conforme explicou a presidente da CNE, Maria do Rosário Pereira Gonçalves, o aumento do número de eleitores na diáspora deve-se, sobretudo, à implementação de um novo sistema de recenseamento, que permite aos cidadãos cabo-verdianos residentes no exterior inscreverem-se no recenseamento eleitoral quando recorrem aos serviços consulares para emissão ou renovação do passaporte.

No total, encontram-se inscritos para estas eleições 416.335 eleitores, dos quais 344.284 no território nacional e 72.051 na diáspora.

Ainda no que se refere à diáspora, verificou-se um crescimento significativo no número de mesas de voto, que passaram de 236, em 2021, para 284 nas presentes eleições. A nível do território nacional, foram constituídas 1058 mesas de votação.

No que se refere às candidaturas, a CNE recebeu dos tribunais um total de 48 listas apresentadas por cinco partidos políticos. O Movimento para a Democracia (MpD) e o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) lideram, com 13 candidaturas cada, sendo os únicos a concorrer em todos os círculos eleitorais.

O Partido Popular (PP) e o Pessoas, Trabalho e Solidariedade (PTS) apresentaram seis candidaturas cada. O PP concorre nos círculos de Santiago Sul, Santiago Norte, Boa Vista e na diáspora (África, América e Resto do Mundo), enquanto o PTS apresenta listas em Santiago Sul, Santiago Norte, São Vicente e também nos círculos da diáspora.

Já a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) submeteu 10 candidaturas, ficando de fora dos círculos da Brava, Maio e Boa Vista.

Das 48 listas admitidas, que representam um total de 556 candidatos, 300 são efectivos e 256 suplentes.

Em termos de distribuição por sexo, 294 candidatos (52,88%) são do sexo masculino e 262 (47,12%) do sexo feminino. A CNE destacou que todas as listas cumprem a Lei da Paridade, não se registando qualquer candidatura com representação inferior a 40% de um dos sexos.

Questionada sobre a avaliação do período pré-eleitoral, a presidente da CNE considerou que se tratou de uma fase “bastante competitiva”, marcada por elevada atenção por parte das candidaturas e dos partidos proponentes às eleições legislativas.

A presidente da CNE revelou ainda que foram registadas várias queixas durante a pré-campanha, sobretudo relacionadas com alegadas violações do dever de neutralidade e imparcialidade da administração pública.

“O que nós podemos dizer é que, sim, houve bastante discussão em torno desta questão, que já é recorrente. O respeito pelo princípio da neutralidade e da imparcialidade continua a merecer centralidade na fase da pré-campanha eleitoral em Cabo Verde”, concluiu a presidente da CNE.

A conferência de imprensa culminou com a entrega dos fac-símiles às candidaturas às eleições, na presença dos membros da CNE. Anilza Rocha – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Brasil - Flávio quer intervenção de Trump no país se perder em outubro

Depois do comício pelas Reformas de Base no 13 de março de 1964, a queda do presidente Jango Goulart era questão de dias. Esta não é uma simples lembrança do golpe militar ocorrido há 62 anos, vale como uma advertência, pois tem gente querendo repetir a dose, com uma diferença: a situação política no Brasil de hoje nada tem a ver com o clima político da época de Goulart. Essa nova tentativa de golpe quer aproveitar o momento favorável da presidência de Donald Trump nos EUA.

Ninguém esqueceu dos esforços de Eduardo Bolsonaro, quando ainda deputado federal, junto ao governo Trump, por uma intervenção dos EUA no Supremo Tribunal Federal, conseguindo incluir o ministro Alexandre de Moraes em todos os rigores da lei Magnitsky, e a revogação do visto de entrada nos e EUA para outros 14 outros nomes do Judiciário, Ministério Público e Advocacia Pública.

A tentativa golpista acabou sendo prejudicial ao próprio Eduardo, mas isso não desestimulou seu irmão Flávio, agora candidato à presidência, de continuar no mesmo caminho. A atração exercida sobre os filhos de Bolsonaro pelo golpismo levou o próprio jornal Estadão a elaborar a teoria de ser genética essa tendência. Na verdade, seria mais que uma simples tendência natural, e sim uma estratégia empregada diante de resistência e obstáculos contrariando seus desejos e objetivos.

É importante assinalar essa posição do Estadão, uma espécie de mea culpa por ter se aliado aos militares golpistas em 1964. Lembro-me bem do telegrama recebido do velho Mesquita, quando secretariava, ao lado de Mário Martins, a última grande reunião pública de crítica e protesto contra a ditadura, o Encontro com a Liberdade, em janeiro de 1967, no Teatro Paramount abarrotado, em São Paulo.

No telegrama, o velho Mesquita se solidarizava com o Encontro contra a Lei de Imprensa. Enquanto eu lia o telegrama, esperava uma reação positiva daquele grande público formado, na grande maioria, de jovens. Mas veio, para minha surpresa, uma enorme vaia contra o Estadão e contra os Mesquitas.

No dia seguinte, o jornal deu algumas linhas ao Encontro sem mencionar as vaias. Sempre me ficou a impressão de se ter perdido ali uma grande oportunidade de união contra a ditadura, mas os ânimos estavam excitados e a moçada universitária de esquerda não perdoava o apoio do Estadão ao Golpe, três anos atrás.

Tantos anos depois, o candidato Flávio à presidência, da dinastia Bolsonaro, não aceitou a derrota golpista do pai e foi aos EUA, com já fizera seu irmão pedir apoio da extrema-direita, direta, evangélicos norte-americanos para uma nova tentativa golpista, desta vez com o apoio do presidente Trump. Indiretamente, Flávio sugere que Trump poderia repetir a extração do presidente Lula do Palácio do Planalto em Brasília, como fizera com Maduro em Caracas.

O argumento é o mesmo já empregado por Trump e por Bolsonaro:  se Flávio Bolsonaro ganhar em outubro, as eleições terão sido livres e corretas, mas se Flávio perder, terá havido fraude nas eleições e os EUA deverão intervir! E como reagem os patriotas vestidos com a bandeira ou com as cores da nossa bandeira?

Isso é grave, não se trata de uma hipótese de intervenção no Brasil, mas de um pedido quase direto de intervenção de um candidato à presidência, considerado pelas primeiras sondagens em situação de empate com Lula. Ou seja, se perder poderá provocar um novo 8 de janeiro para justificar uma intervenção militar norte-americana. Se ganhar, irá governar como um vassalo de Trump, um lacaio, um vendido, um entreguista de nossas riquezas e um traidor.

O próprio Estadão não deixa por menos no seu editorial com o título “Tal pai, tal filho”. O jornal se reporta ao discurso de Flávio Bolsonaro na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), um ponto de encontro da extrema-direita em Dallas, onde não pronunciam só discursos, mas se tramam golpes.

E continua o Estadão: Flávio defendeu o monitoramento das eleições brasileiras pelos EUA e sugeriu pressões diplomáticas externas para "garantir um pleito livre e justo", alegando que se perder terá havido fraude e manipulação nas eleições. Isso deveria ser suficiente para um processo de tentativa pré-golpista! Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Camarões - Coligação da sociedade civil pede a Presidente há 42 anos no poder que desista da recandidatura a novo mandato

Uma coligação de professores universitários, membros da sociedade civil e líderes tradicionais lançou um apelo público instando o Presidente dos Camarões, Paul Biya, no poder desde 1982, a não se recandidatar — ou a ser destituído caso o faça. Defendem que, aos 92 anos, a permanência de Biya no poder simboliza um sistema político estagnado, inadequado para lidar com crises urgentes como o conflito anglófono, as dificuldades económicas e a corrupção endémica

Estas vozes colectivas desencadearam um novo debate: enquanto alguns autarcas locais e chefes tradicionais insistem que Biya personifica a estabilidade, outros — incluindo líderes religiosos — descrevem a sua candidatura como «irrealista» e alertam que ameaça o progresso democrático.

A Human Rights Watch e outros observadores também criticaram o regime por reprimir a oposição e os grupos independentes antes da votação, alegando detenções e restrições à actividade política. In “Jornal de Angola” - Angola


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Alemanha - As células comunistas e as igrejas evangélicas no Brasil

Seria possível se fazer observações paralelas entre realidades distantes, como o comportamento dos eleitores da antiga Alemanha Oriental comunista (ex-RDA) atraídos pela extrema-direita (AFD), com o crescente alinhamento das camadas populares de antigas áreas urbanas e industriais brasileiras às propostas da extrema direita calcadas numa linguagem fundamentalista de fundo religioso?

O que nos atrai nessa sutil comparação são certas semelhanças existentes entre a antiga população da Alemanha Oriental com o imaginário político do proletariado ou operariado das regiões urbanas brasileiras.

De acordo com uma sondagem feita na RDA e publicada em 2009, um quinto da população vivia com nostalgia dos tempos do Muro de Berlim com seu regime comunista. Para eles, a região tinha sido uma espécie de "paraíso social", onde havia emprego e moradia para todos.

Vivendo uma crise econômica, os alemães do Leste esqueciam as privações de liberdade, os pequenos salários, as dificuldades de viajar para fora da Alemanha, a censura, a polícia Stasi e outras tantas.

Numa outra pesquisa, nesse mesmo ano, publicada pelo jornal Der Spiegel, 57% dos alemães do Leste não hesitavam em defender o antigo regime de partido único.



Mas 16 anos depois, o resultado das eleições legislativas demonstrou, as boas lembranças se perderam e os alemães orientais não aceitam os atrasos ainda existentes numa comparação com a Alemanha Ocidental.

E já reencontraram, como no passado, os responsáveis: são os imigrantes. E o partido de extrema-direita Alternativa Para a Alemanha (AFD), que dobrou o número de votos e ultrapassou os 30% na antiga RDA, tem a solução: a remigração ou a expulsão de todos os imigrantes.

Alice Weibel, a dirigente do AFD, partido também qualificado como neonazista, rejeita qualquer sanção contra a Rússia, nega mudança climática, quer a saída da zona Euro e da União Europeia, defende a família tradicional e os sexos masculino e feminino como modelos. Seu slogan, populista e nacionalista, Tudo pela Alemanha vai na linha dos adotados pela extrema-direita nos EUA e no Brasil. Elon Musk, próximo do presidente Donald Trump, fez campanha eleitoral para Alice Weibel e utilizou também a plataforma X para isso.

Qual a semelhança com a evolução da política brasileira?

Talvez a nova geração não saiba e os mais velhos tenham esquecido, mas as ideias marxista fizeram seu caminho no fim dos anos 1930 e, nas primeiras eleições depois da ditadura de Vargas, em 1945, o Partido Comunista teve candidato próprio para presidente, Ledo Fiúza com 10% dos votos. O candidato mais votado para o Senado foi Luiz Carlos Prestes e foram eleitos 14 deputados federais.

Com o PCB na legalidade, concorreram nas eleições intelectuais e artistas de prestígio como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Candido Portinari, Mario Schemberg e Di Cavalcanti. Em 1947, o PCB foi declarado ilegal e os eleitos tiveram seus mandatos cassados. 

O mais grave foi a repressão policial fechando todas as células do partido em todo país. O PCB era forte na cidade portuária de Santos, com maioria eleita na Câmara e chamada de Cidade Vermelha, nas cidades do ABC e São Paulo, em fase de industrialização e com grande população operária.

Embora mantendo influência nos meios universitários, entre intelectuais e artistas, a proibição e perseguição do Partido impediu uma popularização e influência política, embora surgissem líderes carismáticos de esquerda como Leonel Brizola.

Até o surgimento do Partido dos Trabalhadores com a liderança de Lula, criando um populismo ou militantismo de esquerda com a criação de conquistas sociais, na sequência das criadas por Vargas.

Em 1947, o movimento social e político comunista era extremamente ativo e crescia nas camadas populares com as células que promoviam cursos, reuniões políticas, mas igualmente festejos em espaços abertos em bairros e cidades com participação de jovens e mesmo crianças, numa espécie de grandes reuniões populares de famílias. Me lembro dessas festas no Morro de São Bento, na cidade de Santos, para onde me levava meu pai.

Esses tipos de encontros populares desapareceram, nem o PT conseguiu refazê-los com a mesma constância, criando vínculos entre as pessoas e as famílias.

Até chegarem os evangélicos com suas congregações e igrejas, seus cultos, reuniões de jovens, mulheres, escolas dominicais, uniões de mocidade e festas preparadas por seus pastores e fiéis. Na verdade, revivem as células do partido comunista, que permitiam sociabilidade, fortaleciam as amizades e se multiplicavam.

O formato é quase o mesmo, com ligeiras variações, mas o conteúdo é muito diferente, com a religião como fator agregador e a política como objetivo, servindo como propagador do credo fundamentalista, próximo da extrema-direita.

Nem as redes sociais conseguem o mesmo resultado porque essas células garantem o contato humano direto e se tornam imbatíveis.

Quaisquer semelhanças entre essas duas realidades, alemã e brasileira, pode ser mera coincidência. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


sábado, 22 de fevereiro de 2025

Alemanha - E se os neonazistas ganharem domingo?

Domingo, muita gente poderá levar um susto com o aparecimento do fantasma de Hitler saindo das urnas alemãs, bastando o partido Alternativa para a Alemanha, AFD, chegar em segundo lugar para posar de vencedor. Partido de extrema-direita, qualificado de neonazi por seu programa, o AFD goza do apoio de Putin, que já declarou não ver no AFD nada de nazista.

Mas não é simples definir o AFD porque um de seus grandes cabos eleitorais é Elon Musk, o também chamado de primeiro-ministro de Donald Trump, autor do gesto nazista, cuja foto rodou mundo. Nesta altura, os europeus estão preocupados e confusos porque sentem-se abandonados pelos Estados Unidos, agora interessados numa aproximação com a Rússia.

Dois dias antes, o presidente norte-americano Donald Trump tinha conversado com Vladimir Putin por telefone e, como bons amigos "imperadores", acertaram um encontro para negociarem entre eles uma lucrativa paz na Ucrânia.

Acabou o isolamento da Rússia mas por iniciativa dos Estados Unidos ou, mais corretamente, por iniciativa do presidente norte-americano Trump. Como no passado, serão esses dois grandes quem ditarão agora os destinos de muitos países.

Melhor ainda do que na época da Guerra Fria porque Trump e Putin têm muita coisa em comum. Enganou-se a esquerda brasileira, que apoiou a invasão da Ucrânia, confundindo a Rússia de Putin com a antiga URSS em luta contra o imperialismo norte-americano. Enganaram-se a extrema-direita e os evangélicos brasileiros, para os quais a Rússia ainda era o bicho papão comunista. Mas uma coisa é certa, tanto Trump como Putin representam o grande capital no poder, os bilionários e os oligarcas, como diria Marx.

Em Ryad, Serguei Lavrov e Marco Rubio começaram a acertar como será negociado o fim da guerra na Ucrânia. Quando estiver bem feita a partilha, sem a presença de Zelenski, o resistente ucraniano, e sem representantes da União Europeia, haverá o encontro dos dois chefes mundiais, Trump e Putin, poderíamos dizer os donos de boa parte do mundo.

Diante dessa inusitada partilha, os 22 países da Liga Árabe marcaram um encontro urgente, dia 4 de março, para apresentar a Trump uma outra alternativa ao seu plano imobiliário e de Riviera para Gaza, no qual a Autoridade Palestina deverá tomar do Hamas o controle de Gaza.

Não foi só o mundo ocidental quem acordou em plena mudança, a próxima etapa será no Oriente Médio, onde a queda do ditador sírio Bashar al-Assad desequilibrou outra ditadura, a da teocracia islâmica persa do Irão, com sérios problemas econômicos.  Além disso, seu aiatolá envelhecido está sem um sucessor desde a morte do presidente Ebrahim Raisi num acidente de helicóptero.

O recente fortalecimento de Israel com a vitória de Trump e a quase liquidação do Hamas já desestabiliza o Irão, que apoia o Hamas e era ligado à Síria, tanto que o filho do Xá Reza Pahlavi, deposto em 1979 pela ascensão do aiatolá Khomeini, já convocou os iranianos do exílio para ajudarem na antecipação da queda da teocracia iraniana, prometendo um governo não religioso..

Na Europa abandonada pelos EUA, a extrema-direita ameaça, na Alemanha, chegar mais perto do poder nas eleições de domingo 23, com o partido Alternativa para a Alemanha, AfD, comparado por muitos com os nazistas da época de Hitler. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Guiné-Bissau – Supremo Tribunal de Justiça decreta fim do mandato do Presidente da República em 04 Setembro

O Supremo Tribunal de Justiça da Guiné-Bissau decretou que o mandato do Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, termina dia 04 de setembro de 2025 e que só cessa funções com a posse do novo Presidente eleito.

O despacho, a que a Lusa teve acesso, datado de 03 de fevereiro, resulta de um requerimento do presidente do Partido Republicano da Independência para o Desenvolvimento (PRID), António Afonso Té, como se lê no documento.

O PRID é um dos partidos que integra a Plataforma Republicana “NÔ KUMPU GUINÉ” de apoio a Sissoco Embaló, e recorreu ao Supremo Tribunal para este se pronunciar na qualidade de Tribunal Constitucional, já que na ordem jurídica guineense assume também esta competência.

O Tribunal decidiu que “os cinco anos de duração do mandato constitucional do Presidente da República começam a contar a partir do dia 04 de setembro de 2020 е terminam no dia 04 de setembro de 2025, devendo o chefe de Estado manter-se no exercício incondicional do cargo até a tomada de posse do novo Presidente eleito”.

A decisão judicial surge entre a polémica que marca a atualidade política na Guiné-Bissau, com a oposição a defender que o mandato do Presidente termina a 27 de fevereiro, enquanto para o chefe de Estado só terminará a 04 de setembro.

A discussão tem envolvido altas figuras do sistema judicial, como o bastonário da Ordem dos Advogados, Januário Correia, para quem “a lei é clara” e o mandato termina a 27 de fevereiro, e o Procurador-Geral da República, Bacari Biai, que defende que, de acordo com a legislação, o mandato só termina a 04 de setembro, que as eleições presidenciais realizam-se no ano do término do mandato e que este só termina com a posse do novo Presidente eleito.

Esta é a tese defendida pelo Ministério Público na ação do partido PRID e que o Supremo Tribunal acompanha no despacho, especificando que “os cinco anos começam a contar a partir da data da proclamação dos resultados definitivos, assegurados por Acórdão N° 6/2020-proferido pelo plenário do Supremo Tribunal de Justiça em sede do Contencioso Eleitoral”.

O contencioso eleitoral a que se refere o despacho foi desencadeado pelo adversário de Umaro Sissoco Embaló nas eleições presidenciais de 2019, Domingos Simões Pereira, presidente do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Simões Pereira contestou os resultados que deram a vitória a Sissoco Embaló, na segunda volta das eleições, em dezembro de 2019.

Declarado vencedor pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), Sissoco Embaló tomou posse numa cerimónia simbólica, num hotel de Bissau, a 27 de fevereiro de 2020.

O então Presidente da República, José Mário Vaz, entregou a pasta a Umaro Sissoco Embaló na cerimónia convocada pelo na altura vice-presidente da Assembleia Nacional Popular (ANP), Nuno Gomes Nabiam.

O então presidente da Assembleia, Cipriano Cassamá, demarcou-se do ato classificado como “uma atitude de guerra” e “golpe de Estado” pelo primeiro-ministro à época, Aristides Gomes.

Os contestatários criticaram a tomada de posse ao arrepio das normas legais por ainda não haver uma decisão do tribunal sobre o recurso dos resultados eleitorais.

A decisão judicial foi conhecida a 04 de setembro de 2020, confirmando a vitória eleitoral de Umaro Sissoco Embaló.

Esta é a data a partir da qual começam a contar os cinco anos de mandato, segundo o despacho recente do mesmo tribunal, assinado pelo presidente, o juiz André Lima, que substituiu, em novembro de 2023, José Pedro Sambu, que renunciou ao cargo depois de homens armados e com farda militar serem enviados para a sua casa.

O Governo da Guiné-Bissau, de iniciativa presidencial, anunciou recentemente que vai propor ao Presidente da República a realização em simultâneo de eleições gerais, presidenciais e legislativas, para entre 23 de outubro e 25 de novembro, a data em que a lei eleitoral prevê a realização de eleições no país.

O chefe de Estado dissolveu, em dezembro de 2023, o parlamento de maioria PAI-Terra Ranka, coligação liderada por Domingos Simões Pereira, que se perfila para nova candidatura às eleições Presidenciais, assim como Umaro Sissoco Embaló.

O Presidente marcou legislativas antecipadas para 24 de novembro de 2024, que foram adiadas por falta de condições técnicas. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa” 


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Moçambique - Escritor Mia Couto muito contestado no seu país

O escritor Mia Couto causou polémica ao solicitar ao Bastonário dos Advogados equilíbrio na actuação da Ordem dos Advogados no contexto da crise pós-eleitoral em Moçambique. Críticos desconfiam que Mia Couto esteja a “cooperar com um regime extremamente repressivo” em nome dos seus interesses empresariais, ao não mencionar numa carta a violência excessiva das autoridades policiais contra os cidadãos.

Face aos protestos intensos, o mais conhecido escritor moçambicano escreveu uma carta, publicada pelo jornal Carta de Moçambique, na qual parabeniza o Bastonário dos Advogados pela independência face ao poder político e pela defesa da Constituição e do Estado de Direito, na sequência da crise eleitoral que se instalou em Moçambique. Ao mesmo tempo, Mia Couto exige que a Ordem dos Advogados informe sobre “as regras que a lei define”. O escritor escreve: “Solicito que voltem a público para que, com o peso da vossa instituição, contribuam para a normalização da vida do nosso país”.

A reivindicação indignou alguns sectores da sociedade moçambicana que reagiram imediatamente ao teor da referida carta, como é o caso do escritor Jessemusse Cacinda. “A sua voz a nível internacional acaba dando a ideia de estar a transmitir uma voz que representa Moçambique. E, por via disso, é natural que, quando os moçambicanos não se sentirem representados nos seus pronunciamentos, mostrem indignação”, reage Cacinda.

Por sua vez, o jornalista e activista social Zito Ossumane considera “Mia Couto um colonizador disfarçado” por este não ser o primeiro posicionamento do escritor que indigna alguns sectores no país.

Ossumane aponta Mia de ter feito acusações graves aquando da organização de uma marcha em homenagem ao rapper Azagaia, em 2023. Mia Couto teria considerado os organizadores como “marionetes de partidos políticos e influências externas”.

Na sequência destas declarações, Ossumane diz que o escritor de renome internacional “está a tentar condicionar o pensamento dos cidadãos moçambicanos”.

Entretanto, a Constituição que prevê o direito à manifestação também consagra o direito à liberdade de expressão, mesmo que esta não vá de encontro ao sentimento de uma maioria. Por outro lado, um pedido para que não prevaleça o lema “dois pesos e duas medidas” não representa crime ou ofensa.

A Deutsche Welle perguntou: Seria justo condenar o escritor por algo que lhe é legítimo enquanto cidadão? Em resposta à DW, Jessenusse Cacinda relativiza esses direitos, porque, a seu ver, Mia Couto escolheu estar do lado da injustiça.

“A partir de momento em que um escritor fica em silêncio diante de repressão, assassinatos cometidos pela polícia e um regime contra cidadãos, torna-se problemático crer nesse escritor”, afirma.

Para Jessenusse, a carta de Mia Couto “mostra um posicionamento totalmente parcial, em que, por um lado, não condena a repressão, mas por outro condena o facto do Bastonário dos Advogados estar a exigir justiça eleitoral por mover procedimentos para defender cidadãos”. De acordo com Jessenusse, “definitivamente ele está a defender que haja denegação de justiça”.

Motivações financeiras

Numa entrevista recente ao jornal brasileiro “O Globo”, Mia Couto revelou que recebeu “ameaças veladas” e que foi pressionado a apoiar o candidato presidencial Venâncio Mondlane, algo que se recusa a fazer. No entanto, assegura na referida entrevista que não vai ser “censurado pelo medo”.

Porém, os críticos ouvidos pela DW desconfiam da existência de motivações financeiras por detrás dos posicionamentos do escritor moçambicano.

Zito Ossumane diz que Mia Couto é respeitado por representar “parte essencial da cultura” moçambicana. “Mas faz-me lembrar que Mia Couto tem interesses económicos muito assentes que ele tenta defender por conta deste regime”, sustenta. “A saída da FRELIMO não lhe favorece em nenhuma medida, porque tem empresas. Não é só a fundação da sua família, mas são empresas de consultoria para a área ambiental, etc.”, reforça Zito.

A Impacto, empresa de Mia Couto, presta serviços na área ambiental à Anadarko – multinacional do gás que opera no norte de Moçambique -, bem como a outros relevantes projectos económicos para o país. Jessemusse Cacinda recorre à história para mostrar que os escritores estiveram ligados ao poder político desde sempre e deixa claro que actuação persiste até hoje.

“Questões como estas, de certa forma, levantam a suspeita de que a pessoa esteja a cooperar com um regime extremamente repressivo”, elucida Cacinda, que lamenta o facto disto estar a acontecer este ano. “Estamos a assistir ao Mia Couto a fazer pronunciamentos apelando ao diálogo, mas chamando atenção para que os manifestantes não pilhem bens. Entretanto, há vídeos a circularem em que mostram a polícia a pilhar bens. Há jovens de joelhos e a polícia a atirar contra eles. Em nenhum momento no discurso deste escritor que no espaço internacional é visto como a voz de Moçambique, ele se insurge contra isso”, critica Cacinda.

Perante a dimensão da incredibilidade, o jornalista Ossumane lamenta “ver um monstro da literatura moçambicana, africana e lusófona nessa condição”, por lhe causar “problemas de interpretação”. Lembra que Mia Couto defendeu as liberdades no processo de descolonização de Moçambique. “E é-me difícil acreditar que neste momento se esteja a prestar a um papel tão ridículo como este”, afirma Ossumane.

Contactada pela DW, a Ordem dos Advogados de Moçambique disse que se irá pronunciar em breve “sobre este e outros aspectos ligados à situação política do país”.

“Que se procure a verdade nos consensos e no diálogo”. In “Jornal Tribuna de Macau – Macau com Nádia Issufo “Deutsche Welle”


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Moçambique – Uma análise de Ungulani Ba Ka Khosa às eleições gerais de 2024

Para quem, como eu, tem acompanhado, ao longo de mais de quarenta anos, como professor e, acima de tudo, escritor, o percurso da Frelimo, em tanto que Frente de libertação de Moçambique e, subsequentemente, como Partido de orientação marxista, desembocando em Partido sem estratégia ideológica, estas eleições não me surpreenderam de todo


Ao acompanhar a leitura dos resultados feita pelo Presidente da Comissão Nacional de Eleições, veio-me à mente a durabilidade no poder de um outro partido do sul global, o PRI (partido revolucionário institucional), do México, que esteve no poder entre 1929 e 2000. 71 anos no poder. Longo e asfixiante tempo! As críticas que se faziam, nas sucessivas eleições, centravam-se na fraude eleitoral, na sucessiva repressão contra os eleitores, na sistemática violação dos princípios democráticos, na falta de lisura no trato da coisa pública. Tal e qual a nossa situação. 

A propósito, o grande Poeta e intelectual mexicano Octávio Paz, dizia, com a linguagem que lhe era característica: “Os moralistas escandalizam-se diante das fortunas acumuladas pelos antigos revolucionários, mas não reparam que a este florescimento material corresponde outro verbal: a oratória transforma-se no género literário de pessoas prósperas. Mais que um estilo é uma marca, um distintivo de classe.

Ao lado da oratória e das suas flores de plástico, triunfa e se propaga a sintaxe bárbara nos jornais; as inépcias nos programas de televisão; a desonra diária da palavra nos alto-falantes e nos rádios, a cafonice enjoativa da publicidade – toda esta asfixiante retórica, ao mesmo tempo nauseabunda e açucarada, de gente satisfeita e amodorrada por comer demais. Sentados sobre o México, os novos senhores e os seus cortesãos e parasitas lambem os beiços diante de gigantescos pratos de lixo florido.

Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que gangrena é a linguagem. A crítica da sociedade, em consequência, começa com a gramática e com o restabelecimento dos significados.”  Atenção intelectuais e sociedade civil! Li, algures, por entre os textos que circulam nas redes, uma máxima que me encantou e que restabelece, de facto, os significados: “O povo não é prejudicado pela greve. O povo está em greve por ser prejudicado.” 

É profundo. E é a resposta popular à recente política editorial dos média, e não só, em dar enfoque aos prejuízos económicos resultantes das manifestações. Uma manifestação, a ideia não é minha, li-a algures, é sempre um simulacro de revolução. Ela visa inquietar o poder, abanar os alicerces corroídos, provocar rupturas, e influenciar as decisões do governo. Não esqueçamos que o nosso modelo democrático funda-se na representatividade, na delegação do poder. Se a árvore que nos representa não dá frutos, é  preciso repensar na sua utilidade dentro do nosso espaço  vital.

No nosso caso, a população quer mudanças profundas, está cansada da esperança prometida, quer que a realidade do dia a dia mude radicalmente, em actos e propostas urgentes; mas o poder, anquilosado na cadeira que o sustenta há mais de 49 anos, não quer ver a realidade que está nas ruas. E isso pode ser fatal para um partido que já foi uma Frente de Libertação e que soube, a seu jeito, adaptar-se aos conturbados momentos da luta de libertação. Mas quando se transformou em Partido, a ortodoxia e o conservadorismo tomou as rédeas do que era o movimento de libertação. Afirmações desconexas e infantis do comandante geral da polícia, bem como o comunicado tão fora do tempo histórico, como o que foi proferido pela senhora Alcinda Abreu, em nome da Comissão Politica da Frelimo, revelam uma pobreza intelectual e ideológica tão confrangedora que me custa afirmar que a Frelimo está à deriva, desconectada da realidade, e muito longe de um ancoradouro sustentável. Mas está mesmo! 

Reencontrem-se e dialoguem com esta juventude que representa o Futuro. O futuro pertence-lhes! E a nós também. Ungulani Ba Ka Khosa – Moçambique in “Moz Entretenimento” com “Facebook”


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Brasil - Sobre os maus resultados do PT nas municipais

O segundo turno da eleição para prefeito da cidade de São Paulo foi um importante teste para se avaliar as forças políticas que voltarão a se enfrentar dentro de dois anos. O resultado desse teste não é nada animador para o PT e por tabela para o presidente Lula.

Os petistas perderam em quase todas as principais cidades brasileiras e ganharam apenas em Fortaleza, revelando uma perda de fôlego na corrida aos postos executivos municipais. Essa situação provocou mesmo uma crise dentro da direção do partido com duras críticas à sua presidenta, Gleisi Hoffmann, acompanhadas de uma reflexão negativa quanto à possibilidade de Lula se reeleger.

Gleise se defendeu atacando Padilha, uma espécie de porta-voz do governo, mas dificilmente escapará de um remanejamento na estrutura do PT, para evitar o pior em 2026 com perda de governo e retorno dos bolsonaristas à direção do país. Onde tem errado a estratégia do PT? Ou é o governo de compromissos de Lula com o centrão o principal culpado?

Talvez ambos. Os velhos militantes do PT não perceberam as mudanças sociais, relações de trabalho e outras formas de exploração aplicadas pelos detentores do capital, mais uma série de inovações tecnológicas que vêm revolucionando o modo de vida das populações às quais o PT não se adaptou, nem em termos simples de dominar o conhecimento e o uso das redes sociais.

Face à linguagem populista da extrema-direita e à utilização das fake news, que já haviam elegido Bolsonaro em 2018, o PT não inovou e não encontrou nem um antídoto, preferindo repetir chavões sem ressonância. Faltam figuras criativas como a de Carlito Maia no passado, um misto de publicitário político, criador de slogans até hoje ainda utilizados, porém sem o mesmo efeito de quarenta anos atrás.

Na campanha eleitoral para a mais importante prefeitura brasileira, a de São Paulo, houve uma espécie de choque entre as ultra-modernas técnicas populistas dominadoras das redes sociais com o esquema clássico já ultrapassado de publicidade política, tipo discursos, entrevistas, depoimentos na televisão. Mal comparando, são as calmas missas tradicionais católicas frente aos cultos evangélicos barulhentos entremeados de cânticos, tanta é a participação direta dos fiéis aos brados e comandos dos pastores. Não basta ter um 247, no estilo clássico, é preciso uma equipe de jovens inovadores e dominadores das redes sociais.

As lições colhidas em São Paulo, onde a esquerda tinha o hábito de ganhar, são preocupantes para o PT, que se vê diante de uma mudança de comportamento do eleitorado. Teria sido a presença inusitada de um candidato de extrema-direita até então desconhecido, sem um programa definido mas com uma linguagem nova e provocadora?

Sem dúvida! A chegada de Pablo Marçal à campanha eleitoral com seu estilo neofascista de contato com o eleitorado utilizando mentiras, ofensas, agressões verbais para desmoralizar os adversários, conjugado com a maestria no uso das redes sociais, fazendo circular seus verbetes e slogans na proporção de 600 milhões de visualizações para apenas 80 milhões de seus adversários reunidos, como contou o especialista Renato Dolci, numa entrevista à CNN.

Uma visão rápida dos resultados do segundo turno em São Paulo revela algo um tanto inédito - o atual prefeito Ricardo Nunes foi reeleito com cerca de 31% dos votos do total dos eleitores paulistanos, porém, somando-se o número dos votos brancos, nulos com as abstenções, obtém-se 36%.

Ou seja, Nunes, embora reeleito, foi indiretamente rejeitado pela maioria do eleitorado. O grande número de abstenções teria sido também decorrente da decisão de Pablo Marçal, eliminado no primeiro turno, de não pedir aos seus eleitores para votarem em Nunes. Essa fragmentação da extrema-direita torna ainda mais dramática a derrota de Guilherme Boulos, colocado num distante terceiro lugar, depois dos brancos, nulos, abstenções e Ricardo Nunes, sem chegar aos 30% dos eleitores habituais do PT na capital paulista.

Enfim, outro fator, praticamente ignorado pela direção do PT em suas autocríticas é o peso dos votos dos evangélicos nas eleições. Assim como ocorre nos EUA, onde o voto fundamentalista e conservador dos evangélicos permanece estável, o voto evangélico no Brasil corresponde ao de um partido em expansão. E porquê?

Porque a maioria das igrejas e congregações evangélicas funcionam como se fossem, embora oficialmente não sejam, diretórios dos partidos bolsonaristas, alimentados doutrinariamente semanalmente. A fusão religião-política fundamentalista obtida nos EUA, e que poderá significar a vitória de Trump, é também uma nova realidade brasileira, que nenhum partido de esquerda, como o PT, poderá ignorar. Embora Lula durante seus governos passados tivesse favorecido os evangélicos, na esperança de receber um retorno, a situação atual é a de representarem uma forte e bem organizada oposição. E os recentes pronunciamentos de Lula contra Israel só reforçaram essa oposição religiosa, já que os evangélicos se identificam e apoiam a política de extrema-direita de Israel. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Brasil - Pablo Marçal não é o primeiro a atrair os paulistanos

A rápida ascensão política de Pablo Marçal na campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo não é novidade. Ainda sem as facilidades criadas pelas redes sociais digitais, houve um clima parecido de sensação eleitoral, em 1953, quando um deputado estadual, ex-vereador, decidiu enfrentar as forças políticas da época com uma campanha populista, na qual o símbolo era uma vassoura, para varrer a corrupção.

Outra coincidência, Jânio Quadros, o fenômeno eleitoral eleito prefeito com o voto dos bairros populares, não era paulistano mas matogrossense, quase da mesma região de Pablo Marçal, que é goiano.

Agora uma diferença, Jânio tinha sido vereador trabalhador e um tanto minucioso; como deputado combatia a corrupção e fazia a fiscalização dos gastos públicos. Em síntese, um populista de direita, com discurso conservador, preocupado com a pauta de costumes: era contra os jogos de azar, contra a prostituição e chegou a proibir o uso do biquini.

Apesar de Jânio ter frustrado seus seguidores com sua renúncia e de ser considerado um dos principais responsáveis pela instabilidade política brasileira que levou ao Golpe militar, Jânio manteve o rigor na defesa dos bens públicos e no combate à corrupção.

O retorno do populismo ao poder depois dos governos petistas de Lula e Dilma, foi com outra roupa, sem as caspas de Jânio, e o combate às corrupção ficou só nas palavras. Deixou de ser populismo de direita para se afirmar como populismo de extrema-direita, sem independência internacional, atrelado aos EUA e à política trumpista republicana, visando o desmantelamento do Estado e o enfraquecimento das regras republicanas, tudo consubstanciado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Esse novo populismo mais extremo veio acompanhado de um novo elemento também importado dos EUA, destinado a assegurar mais coesão e fidelidade entre os seguidores pertencentes às camadas mais pobres e menos instruídas: a presença religiosa invisível mas penetrante do evangelismo e suas variantes neopentecostais, capazes de obter contrôle e submissão sem um aparelho repressor visível.

É nesse quadro que surge Pablo Marçal, justamente quando havia a impressão ou esperança da sociedade civil estar se desembaraçando do populismo bolsonarista. Bolsonaro parece agora como um aprendiz de feiticeiro diante do esperto Marçal, conhecedor do funcionamento das redes sociais, capaz de se transformar em algumas semanas num dos prováveis eleitos para a prefeitura de São Paulo.

Ao mesmo tempo, o surgimento das redes sociais criou uma nova maneira de se fazer política com o investimento dos candidatos e dos partidos na publicidade digital. A intensa publicidade de Pablo nas redes levou-o à imprensa escrita e televisão, onde o candidato ganhou terreno e em pouco tempo, com promessas mirabolantes mas difíceis de realizar, alcançou os primeiros colocados Boulos e Nunes à Prefeitura de São Paulo. A vitória de um dos três primeiro-colocados dependerá, no segundo turno, da transferência de votos dos candidatos derrotados.

Até que ponto a Justiça Eleitoral pode intervir impedindo, até novembro, a participação de Pablo nas eleições municipais da maior cidade brasileira? Nos EUA, sem justiça eleitoral, o candidato Donald Trump prossegue candidato apesar de ser alvo de diversos processos. Terão algum resultado as acusações claras e precisas da candidata Tábata Amaral?

Provavelmente não. Em todo o caso, Pablo não cumpriu os 4 anos e cinco meses de prisão por furto qualificado, porque a Justiça Federal reconheceu já ter prescrito o crime. Isso lembra Paulo Roberto de Andrade, que deu o golpe do Boi Gordo, enganou mais de 30 mil investidores, mas saiu livre dos processos por prescrição do crime. Ou seja, a prescrição acaba valendo como declaração de não culpabilidade.

Se tiver assegurada sua impunidade, a presença de Pablo Marçal na campanha para a Prefeitura de São Paulo muda o quadro político por enfraquecer a imagem do governador paulista Tarcísio de Freitas e esvaziar a candidatura de Ricardo Nunes. Na hipótese de Pablo ir para o segundo turno com Boulos, é quase certo ter o voto dos bolsonaristas e ser eleito.

Se isso ocorrer, a vitória de Pablo poderá significar o fim definitivo para Bolsonaro e família, pois ficará difícil continuar a receber a totalidade dos votos dos evangélicos. Diante disso, Pablo já começa a negociar a possibilidade de receber um apoio do clã Bolsonaro, ofendendo e rejeitando o apoio de Joyce Hasselmann, chamando-a de traíra ou traiçoeira, enquanto acena aos evangélicos, declarando seu apoio à pauta de costumes por eles defendida. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Moçambique – Filósofo Severino Ngoenha critica falta de transparência nos processos eleitorais

O académico Severino Ngoenha defende que se deve repensar os erros cometidos nas eleições autárquicas para que não manchem as eleições gerais deste ano. Ngoenha falava à margem do debate sobre a integridade dos processos eleitorais no país, esta terça-feira, em Maputo.


O académico lançou duras críticas à forma como é gerido o processo eleitoral no país, falando de um espaço para promover interesses particulares dos que concorrem no escrutínio.

Severino Ngoenha entende que é arriscado que prevaleça a falta de confiança em relação aos que gerem o processo eleitoral.

Para o filósofo, a falta de integridade dos processos eleitorais no país está ligada à maneira como é encarada a democracia.

Severino Ngoenha defende que deve haver separação plena dos poderes para garantir o exercício pleno da democracia. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Venezuela - Fraude ou golpe? As redes sociais explicam

Quem não tem acompanhado o governo de Nicolás Maduro na Venezuela ou quem ignora ou confunde países e tendências políticas na América Latina pode ter dificuldade para fazer um juízo de valor: houve fraude nas eleições ou há uma tentativa de golpe pela extrema-direita?

Num momento desses, pode-se testar a validade e utilidade das redes sociais, porém, há o risco da pessoa ser enganada, ser convencida por uma inverdade, ou ficar totalmente desorientada, diante de "influenciadores" de orientações políticas opostas. Sem se falar nos canais especializados em criar falsas informações ou deturpar notícias verdadeiras, as conhecidas fake-news.

É possível se fazer um teste e conseguir obter um resultado correto e próximo da verdade? Não custa tentar, pois entender as eleições venezuelanas é uma oportunidade rara que nos oferecem as redes sociais. Vamos dar uma volta entre algumas delas, na busca de uma orientação segura para chegar a uma conclusão segura.

Mas é sempre bom lembrar haver maus perdedores. Donald Trump ao perder na tentativa de reeleição para Joe Biden espalhou a história de ter sido roubado e de ter havido fraude nas urnas e nas apurações. Acusação talvez possível de ser levada a sério, pois os EUA usam ainda o sistema de voto impresso e o envio do voto por correspondência.

Essa explicação de fraude nas urnas e nas apurações foi também utilizada pelo ex-presidente Bolsonaro ao perder a reeleição. Com uma ligeira diferença, Bolsonaro falava em fraudes nas urnas eletrônicas antes mesmo das eleições, gerando uma certa desconfiança quanto às suas intenções e deixando a suspeita de pretender recorrer ao argumento das fraudes, no caso de perder a reeleição. Tanto Trump como Bolsonaro são políticos da extrema-direita.

Mas vamos saber o que circula nas redes sociais e imprensa, em busca de uma boa orientação.

Começamos com o canal Opera Mundi, de Caracas, onde está o jornalista Breno Altman, que se refere ao comunicado do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela anunciando a vitória de Maduro. Ele explica ser digital o voto com identificação biométrica do votante mas com uma comprovação impressa - ou seja, depois de votar, o eleitor recebe um recibo confirmando ter votado, e esse recibo é colocado numa urna. Na chamada auditagem das urnas, existe a ata das urnas e a contagem dos recibos de votações, que devem ser iguais.

Breno conta ter havido tentativas de hackers, da Macedônia, tentando interferir na votação. As atas auditadas têm o prazo de 72 horas para serem autenticadas ou três dias. Em síntese tudo está em ordem, segundo Breno, é a direita e a extrema-direita que colocam em dúvida a validade do resultado das eleições.

No seu relato, Breno Altman citou o Centro Carter como o responsável pela criação do sistema eleitoral venezuelano, um dos mais confiáveis do mundo. Ora, o canal MyNews, de esquerda, conseguiu uma declaração oficial do Centro Carter criticando os resultados das eleições. De acordo com Sylvia Colombo, correspondente do MYNews, o Centro Carter funciona como uma ONG sem vínculos políticos. Ela também fala de restrições às atividades de jornalistas na Venezuela, razão pela qual preferiu não ir à Venezuela nas eleições.

Trechos da declaração oficial do Centro Carter circulam pela Internet e fazem sérias críticas às eleições, do tipo “O processo eleitoral da Venezuela não atendeu aos padrões internacionais de integridade eleitoral em nenhuma de suas etapas”.

O canal Meteoro, de esquerda, adota uma posição de cautela, reproduzindo entrevista da TV LCI, no qual se fala da campanha da oposição para descredibilizar Nicolás Maduro. Mas critica a ex-candidata Maria Corina, ultra liberal, que está chamando o exército para intervir no país.

O canal petista Brasil 247 sentiu a divisão criada dentro da esquerda por ter apoiado a reeleição do presidente Maduro, decisão reforçada com a declaração da dirigente petista Gleisi Hoffmann, com a posição do PT favorável ao presidente Maduro. Para o Brasil 247, a Venezuela é um posto avançado da luta contra o imperialismo americano. O canal critica a demora do Brasil em reconhecer a vitória de Maduro, mas a declaração neutra do presidente Lula vem sendo criticada por muita gente de esquerda como o jornalista Ricardo Kotscho, tanto no UOL como numa entrevista para o MyNews.

De uma maneira geral, a imprensa critica Maduro. O jornal Le Monde publica no seu sítio um vídeo no qual responde à pergunta - por que é contestada a vitória de Maduro? O canal UOL foi unânime nas críticas ao presidente Maduro.

Essas opiniões diferenciadas sobre as eleições na Venezuela ajudaram a formar uma opinião? Maduro é também criticado por permanecer muito tempo no poder. Com esse terceiro mandato ficará 17 anos na presidência. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI