Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Portugal - Investigação do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde recebe financiamento da Fundação «la Caixa»

Projetos nas áreas dos danos cerebrais, cancro e autismo estão entre os 34 distinguidos no âmbito do Concurso de Investigação em Saúde 2025


Desenvolver novas terapias para doenças neurológicas como o AVC, a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica, criar um dispositivo implantável para tratar o glioblastoma e melhorar a avaliação do risco de desenvolver autismo são os principais objetivos dos três projetos liderados por investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), que acabam de ser distinguidos no âmbito do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa”. O financiamento total ascende a quase três milhões de euros.

As três propostas do i3S estão entre um total de 34 projetos (portugueses e espanhóis) de investigação biomédica de excelência, que vão receber mais de 26 milhões de euros. Nesta oitava edição, foram apresentadas 714 propostas de investigação básica, clínica e translacional, tendo sido selecionadas nove portuguesas e 25 espanholas.

No âmbito deste concurso, a Fundação “la Caixa” concede até 500 mil euros a projetos com uma única instituição de investigação envolvida e até um milhão de euros a consórcios de investigação formados por várias instituições, como acontece com os projetos liderados por investigadores do i3S.

Uma nova forma de combater os danos cerebrais a partir do interior

Liderado por Ana Paula Pêgo, líder do grupo «NanoBiomaterials for Targeted Therapies» do i3S, o projeto «MIND» foi financiado pela Fundação “la Caixa” e pela FCT com um milhão de euros e vai focar-se nas doenças neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC), a epilepsia e a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que afetam milhões de pessoas em todo o mundo, provocando frequentemente incapacidades a longo prazo ou mesmo a morte.

Uma das principais causas do dano cerebral associado a estas doenças, explica a investigadora do i3S, “é a acumulação no cérebro de uma substância química que, em excesso, leva à morte neuronal. Apesar de décadas de investigação, nenhum tratamento conseguiu até agora proteger eficazmente o cérebro deste processo”. Embora a maioria dos estudos se tenha centrado em formas de neuroproteção focando-se nos neurónios, Ana Paula Pêgo considera que a chave poderá residir noutro tipo de célula cerebral: os astrócitos.

Este projeto propõe uma nova estratégia de proteção cerebral, que consiste em aumentar a eficiência dos astrócitos. Conforme explica Ana Paula Pêgo, “os astrócitos eliminam o excesso da substância química nociva, mas durante um AVC ou outro evento neurológico agudo, não conseguem manter o equilíbrio, o que leva à acumulação de danos”.

Como tal, a equipa propõe uma solução inovadora: “Introduzir diretamente nos astrócitos instruções úteis através de ARN mensageiro (mRNA) que dão indicações às células para produzir mais quantidade de uma proteína essencial para eliminar a substância química tóxica”. Para garantir a segurança e eficácia do tratamento, os investigadores estão a desenvolver pequenas partículas inteligentes capazes de libertar a sua carga apenas nas áreas danificadas do cérebro.

O projeto, que será desenvolvido em consórcio com os investigadores Francisco Campos, do Instituto de Investigación Sanitaria de Santiago de Compostela (IDIS) (Espanha), e Ben Maoz, da Universidade de Telavive (Israel), inclui ainda o desenvolvimento de um modelo tridimensional (3D) relevante para mimetizar o cérebro humano, que «permitirá testar a terapia em condições fisiológicas realistas, bem como a utilização de ferramentas de imagem avançadas para monitorizar os efeitos do tratamento, que será testado no contexto do AVC», sublinha Ana Paula Pêgo.

Se alcançar os objetivos propostos, garante a cientista, «esta abordagem poderá abrir caminho a novas terapias, não só para o AVC, mas também para outras doenças cerebrais com mecanismos semelhantes de dano neuronal».

Dispositivo implantável para administração de fármacos contra o glioblastoma

Financiado com 990 mil euros, o projeto liderado por Bruno Sarmento, em consórcio com os investigadores Bruno Costa, da Universidade do Minho, e Álvaro Mata, da Universidade de Nottingham (Reino Unido), vai centrar-se no tratamento do glioblastoma, o tipo de cancro cerebral mais letal em adultos. Os tratamentos atuais, que incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia e pouco têm evoluído nas últimas duas décadas, apresentam resultados limitados devido à resistência do tumor e à dificuldade em dirigir fármacos diretamente ao cérebro.

A equipa pretende revolucionar o tratamento do glioblastoma através do desenvolvimento de um sistema terapêutico implantável capaz de libertar moléculas anticancerígenos diretamente no cérebro após a cirurgia de remoção do tumor. O sistema, explica Bruno Sarmento, “foi concebido para libertar, de forma controlada e gradual, uma combinação de fármacos que combatem o cancro de forma mais eficaz e reduzem a necessidade de quimioterapia diária”.

O projeto, adianta, “envolve o desenho de um novo tipo de implante, capaz de libertar fármacos quimioterápicos, inibidores da resistência ao tratamento e sequências de ARN dirigidos especificamente às células cancerígenas”.  O objetivo, sublinha Bruno Sarmento, é que “esta estratégia inovadora melhore a efetividade dos fármacos, reduza os efeitos secundários e aumente a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes”.

Para já, os dados preliminares são promissores: “O novo sistema demonstrou reduzir significativamente o crescimento tumoral em modelos laboratoriais. Os resultados esperados incluem maiores taxas de sobrevivência, menores efeitos adversos e um novo padrão de cuidados para doentes com glioblastoma”, garante o líder do grupo «Nanomedicines & Translational Drug Delivery» do i3S. Estes avanços, adianta Bruno Sarmento, “poderão ainda abrir caminho ao desenvolvimento de tratamentos semelhantes para outros tipos de tumores cerebrais, com impacto significativo na saúde pública e nos custos dos sistemas de saúde”.

Como pequenas alterações no ADN moldam o cérebro em desenvolvimento

Sabe-se que o transtorno do espectro autista (TEA), que afeta aproximadamente uma em cada 44 crianças, tem uma forte base genética. No entanto, a maioria das alterações genéticas associadas ao TEA não se encontra propriamente nos genes, mas nas regiões não codificantes do ADN que controlam a ativação e inativação dos genes. A equipa liderada pelo investigador do i3S Diogo Castro quer compreender como essas alterações influenciam o desenvolvimento cerebral com o objetivo de “explicar a origem do TEA e melhorar os métodos de avaliação do risco de desenvolver este transtorno”.

Este projeto, financiado pela Fundação “la Caixa” em colaboração com a FCT com mais de 730 mil euros, visa descobrir o efeito dessas alterações genéticas não codificantes no desenvolvimento do cérebro, especialmente nas primeiras etapas, durante a formação da estrutura cerebral.

As equipas do consórcio, que inclui os investigadores Gaia Novarino, do Institute of Science and Technology Austria (ISTA) (Áustria), e Justin O’Sullivan, do The Liggins Institute, University of Auckland (Nova Zelândia), vão utilizar ferramentas avançadas para analisar milhares de variantes genéticas e observar como elas influenciam a atividade genética de células cerebrais humanas cultivadas em laboratório.

Além disso, explica Diogo Castro, “vamos utilizar ferramentas de inteligência artificial para identificar quais das alterações genéticas associadas com o TEA têm um maior valor de prognóstico. Isto levará à criação de um modelo que poderá ajudar a prever quais as crianças que estão em risco de desenvolver TEA, permitindo assim um diagnóstico e intervenção precoces”.

Para compreender como essas alterações afetam o desenvolvimento cerebral, os investigadores do projeto, “vão editar variantes genéticas específicas em células estaminais e cultivá-las em minicérebros ou organoides. Isso permitirá observar o efeito das alterações na formação e no funcionamento do tecido cerebral”. O projeto conta com a participação de especialistas em desenvolvimento cerebral, genética e ciência de dados, estando como tal bem posicionado para enfrentar um desafio complexo.

Sobre o concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” de 2025

A cerimónia de entrega dos prémios decorreu no dia 20 de novembro no Museu de Ciência CosmoCaixa. Segundo Àngel Font, subdiretor-geral de Investigação e Bolsas da Fundação ”la Caixa”, «a investigação biomédica é uma das formas mais poderosas de melhorar a vida das pessoas. Os 34 projetos premiados abordam desafios muito diversos a partir de diferentes perspetivas, mas todos partilham três eixos fundamentais para avançar rumo a um futuro mais promissor para os doentes e as suas famílias: colaboração, talento e inovação”. De acordo com a Fundação la Caixa, os projetos portugueses deste ano sobressaem pelo seu carácter inovador e elevado impacto social.

Este ano, A Fundação la Caixa desenvolveu acordos com a Fundação Breakthrough T1D e com a Fundação Luzón, o que permitiu dar maior destaque ao financiamento de iniciativas centradas na diabetes tipo 1, com dois projetos financiados, e na esclerose lateral amiotrófica (ELA), com um projeto financiado. O concurso conta ainda com a colaboração da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que destinou 1,8 milhões de euros para financiar três dos nove projetos portugueses premiados nesta edição.

Desde o início do programa em 2018, o montante total do concurso de Investigação em Saúde da Fundação ”la Caixa” ascende a 172,3 milhões de euros para 234 projetos, dos quais 162 são liderados por equipas espanholas e 72 por grupos de investigação portugueses. Universidade do Porto - Portugal


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Nigéria - Adolescente autista estabelece recorde mundial de pintura

Um jovem autista na Nigéria quebrou o recorde da maior tela de arte do mundo – oficialmente reconhecido pelo Guinness World Records. A sua tela visa destacar os desafios que pessoas como ele enfrentam em meio ao estigma e às representações sombrias do autismo



Um nigeriano autista de 15 anos estabeleceu o Recorde Mundial do Guinness para a maior tela de arte do mundo para consciencializar sobre o autismo.

A pintura de Kanyeyachukwu Tagbo-Okeke, que apresenta uma fita multicolorida - o símbolo do autismo - cercada por emojis, abrange 12.304 metros quadrados.

O objetivo é destacar o transtorno do espectro autista e os desafios que pessoas como ele enfrentam em meio ao estigma — como os comentários altamente controversos feitos por Robert F. Kennedy Jr.

O Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA declarou recentemente o autismo uma "epidemia", ao mesmo tempo em que afirmou que muitas pessoas autistas "nunca pagarão impostos, nunca terão um emprego, nunca jogarão beisebol, nunca escreverão um poema, nunca sairão para um encontro".

Gostaríamos de vê-lo realizar algo tão impressionante quanto a pintura de Tagbo-Okeke.

A obra de arte, criada em novembro de 2024, foi revelada e oficialmente reconhecida pelos organizadores do Guinness World Record na capital da Nigéria, Abuja, durante o Dia Mundial da Aceitação do Autismo, em abril.

O ministro da arte e cultura da Nigéria, Hannatu Musawa, disse que a arte de Tagbo-Okeke é “um farol de esperança e inspiração” para pessoas com autismo.



Reconhecemos as capacidades e o potencial únicos de indivíduos com autismo e nos dedicamos a fornecer oportunidades para que eles prosperem nas indústrias criativas”, acrescentou Musawa.

A tentativa de quebrar o recorde do jovem artista, acompanhada por uma campanha intitulada “A impossibilidade é um mito”, foi amplamente celebrada entre os nigerianos, em parte devido à sua pouca idade.

De facto, a sua arte eclipsou a de Emad Salehi, o recordista mundial anterior, que era quase três vezes mais velho, aos 42 anos, quando estabeleceu o recorde com uma tela de 9652 metros quadrados. 

“Sentimos uma enorme sensação de alívio e orgulho, sabendo das inúmeras horas e meses de esforço que ele dedicou para quebrar o recorde”, disse a sua mãe, Silvia. 

A tentativa de recorde mundial de Kanyeyachukwu também procurou arrecadar fundos para a Fundação Zeebah, uma organização sem fins lucrativos focada em fornecer suporte a pessoas dentro do espectro e suas famílias.

Há recursos limitados na Nigéria para iniciativas como esta e, embora não haja registos oficiais na Nigéria, cerca de 1 em cada 100 crianças no mundo tem autismo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Como em muitos outros países, o autismo geralmente não é diagnosticado na Nigéria até anos mais avançados. Euronews.culture com “AP”


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Portugal - Cientistas da Universidade de Coimbra usam inteligência artificial para estudar o autismo

O Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) está a desenvolver um projeto que visa estudar e caracterizar as perturbações do desenvolvimento do autismo, através de inteligência artificial.

Denominado Move4ASD, o projeto é desenvolvido em parceria com o Instituto de Imagem Biomédica e de Investigação Translacional de Coimbra (CIBIT) do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) da Universidade de Coimbra e com a Universidade de Oxford, Reino Unido, e pretende «utilizar abordagens tecnológicas baseadas em metodologias de inteligência artificial para caracterizar o autismo através da análise de tarefas de imitação», revela João Ruivo Paulo, investigador do ISR e coordenador do projeto na FCTUC.

Este projeto, prossegue, «estuda a hipótese de que, nos indivíduos diagnosticados com autismo, o mecanismo de aprendizagem designado neurónio-espelho está alterado, em relação a indivíduos saudáveis. Assim, acredita-se que a aprendizagem de atividades motoras, como andar e dançar, e outras atividades de interação social, possam ser mal interpretadas por indivíduos diagnosticados com esta condição».

De acordo com João Ruivo Paulo, o Move4ASD vai analisar dados neurofisiológicos e comportamentais, captados através de eletroencefalografia (EEG) e movimento tridimensional. «Estes dados serão processados por técnicas de aprendizagem máquina para descobrir distinções entre indivíduos saudáveis e participantes do grupo clínico. Através desta diferenciação entre grupos será possível identificar biomarcadores neurofisiológicos de padrões motores ainda pouco compreendidos, explica o coordenador do projeto.

Com esta investigação, a equipa acredita que «será possível contribuir para um melhor conhecimento do autismo, no que diz respeito ao sistema neurónio-espelho, podendo no futuro desenvolver-se uma ferramenta automática para identificar estes biomarcadores, que por sua vez, pode conduzir a uma caracterização otimizada destas perturbações».

Neste sentido, e para firmar uma colaboração com a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA), vários jovens da APPDA de Coimbra realizaram uma visita ao ISR, na qual tiveram a oportunidade de conhecer o trabalho desenvolvido pelo Instituto e de interagir com robôs, realizar jogos interativos e ainda, conhecer o projeto Move4ASD.

Segundo a equipa do Move4ASD, «esta colaboração será essencial para se desenvolver conhecimento científico relevante no âmbito destas perturbações de desenvolvimento».

Este projeto, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), envolve, além do investigador João Ruivo Paulo e dos professores Paulo Menezes e Gabriel Pires, do DEEC/ISR, o professor Miguel Castelo Branco e Teresa Sousa, do CIBIT/ICNAS, bem como, Tingting Zhu, investigadora da Universidade de Oxford. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Portugal - Universidade de Coimbra conquista 1,2 milhões de euros para estudar o autismo

Um consórcio internacional liderado por cientistas da Universidade de Coimbra (UC) acaba de conquistar 1,2 milhões de euros da ERA-Net NEURON para estudar o autismo.

O projeto, intitulado “Astrocytes dysfunctions in Phelan-McDermid syndrome: from mechanisms towards new therapeutic strategies (SHANKAstro)”, é liderado por João Peça, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), e conta com a participação de cientistas da Alemanha, Bélgica, Itália e Suíça.

O grande objetivo da investigação, que tem a duração de três anos, é perceber quais são as células do cérebro que têm um papel principal no autismo, e, em particular, como é que as mutações no gene SHANK3 têm impacto na função normal durante a fisiopatologia da doença.

João Peça explica que as mutações no gene SHANK3 «são uma das causas mais comuns diagnosticadas para o autismo. No entanto, surpreendentemente, ainda pouco se sabe sobre as consequências decorrentes de mutações neste gene. Desde a sua descoberta original, as mutações no SHANK3 têm sido mais comummente estudadas em neurónios».


Contudo, sublinha, «evidências recentes sugerem que os astrócitos, células do cérebro algo negligenciadas, também podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento do autismo. Os astrócitos fornecem suporte metabólico e trófico críticos para os neurónios e foram recentemente identificados como “atores-chave” na formação e maturação dos circuitos neuronais. Portanto, a disfunção dos astrócitos, resultante da mutação no gene SHANK3, pode levar a problemas na formação e maturação do circuito neuronal, o que acabará por levar a anormalidades comportamentais e cognitivas».

Neste estudo, que reúne vários especialistas na área do gene SHANK3 e da biologia dos astrócitos, vão ser utilizados modelos inovadores, incluindo modelos de ratinhos geneticamente modificados, bem como organoides de cérebro humano capazes de imitar de perto a fisiologia celular humana.

Se os cientistas conseguirem decifrar o impacto que as mutações no gene SHANK3 têm no autismo, será possível «descobrir e desenhar terapias bem-sucedidas para doenças do neurodesenvolvimento», conclui João Peça.

A ERA-NET NEURON é uma rede de financiamento europeu para investigação em Neurociência, focada em doenças do cérebro e distúrbios do sistema nervoso. Universidade de Coimbra - Portugal



quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Internacional - Estudo publicado na Science desvenda mecanismo crítico no desenvolvimento do cérebro

Um estudo publicado na prestigiada revista Science, que envolve duas dezenas de investigadores portugueses, espanhóis e franceses, desvenda um mecanismo essencial para a organização do cérebro nos primeiros anos de vida, fornecendo pistas para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para doenças como autismo, depressão, esquizofrenia ou doença de Alzheimer.

A descoberta é o resultado de mais de uma década de investigação, iniciada, em 2007, por Rodrigo Cunha, coautor do artigo científico e docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC).

Compreender como se desenvolve o cérebro nos primeiros anos de vida é fundamental, uma vez que os problemas que surgirem nesta etapa podem ter consequências para sempre. Quando nascemos, a rede de neurónios do nosso cérebro não está ainda organizada, é uma rede altamente plástica. A seleção de sinapses, o foco deste estudo, é um dos mecanismos centrais, pois as sinapses são responsáveis pela comunicação entre os neurónios.

No processo do desenvolvimento cerebral «são geradas cerca de cinco vezes mais sinapses do que aquelas que o nosso sistema nervoso necessita. Isto acontece com o objetivo de selecionar uma em cada cinco, isto é, escolher as sinapses que são ótimas para levar a cabo as funções do nosso cérebro», explica Rodrigo Cunha, também investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC.

Em particular, os investigadores estudaram, em ratinhos, a estabilidade das sinapses na fase em que elas são mais plásticas, num período correspondente em humanos entre os seis meses e os quatro anos de idade, período em que ocorre a maior seleção de sinapses. Se nesta altura «surgirem falhas na seleção de sinapses, ficamos mais suscetíveis, por exemplo, a depressão, a ter um consumo excessivo de fármacos psicoativos ou a desenvolver epilepsia. Isto já está demonstrado cientificamente. Por isso, é tão importante estudar os múltiplos mecanismos envolvidos no desenvolvimento do cérebro», observa Rodrigo Cunha.

Já era sabido que há uma competição entre as sinapses e que as mais ativas são as selecionadas. Porém, até agora, desconhecia-se como é que decorre este processo de seleção, um aspeto crítico para redefinir a organização de sinapses, visando corrigir disfunções em doenças do cérebro.

A equipa de Rodrigo Cunha, em conjunto com os investigadores de Espanha e França, descobriu justamente o principal mecanismo envolvido na seleção de sinapses:  a molécula de ATP – que funciona como a moeda de energia do nosso organismo e também como um sinalizador de atividade entre células no sistema nervoso – é a molécula chave neste processo.

Os cientistas descobriram que, à medida que uma sinapse está mais ativa, ela liberta mais sinais.  Um dos sinais presente em quantidades particularmente elevadas durante esta fase inicial de seleção de sinapses é o ATP. Ou seja, esclarece Rodrigo Cunha, «quanto mais ativas estão as sinapses no sistema nervoso, mais ATP libertam, e este ATP é muito mais rapidamente convertido em adenosina, que é algo em que nós temos trabalhado, desde há cerca de duas décadas, como sinalizador entre células. Neste trabalho mostramos que é fundamental, é crítico, o recetor ativado pela adenosina ser estimulado para a sinapse se manter estável. Quando diminui a atividade de uma sinapse, diminui a libertação de ATP, deixa de ser suficientemente ativado esse recetor para a adenosina e a sinapse literalmente desmembra-se, ou seja, toda a organização é destruída».

Os investigadores detalharam ainda todos os processos mecanísticos envolvidos nesta desagregação completa da sinapse. «Observámos, por exemplo, que uma sinapse pode estar cerca de 20 minutos sem funcionar, mas se ultrapassar este tempo, normalmente é eliminada. É um processo irreversível a partir dos 20 minutos», destaca.

Os resultados deste estudo fornecem informação que pode ser muito relevante para o desenvolvimento de futuros fármacos, pois, como explica Rodrigo Cunha, «para tentarmos corrigir falhas num equipamento, primeiro é necessário saber como é o seu funcionamento normal. O nosso trabalho insere-se na designada ciência fundamental, que abre novas portas para uma aplicabilidade imediata».

O próximo passo da investigação, adianta o cientista da UC, será realizar novas experiências em modelos animais, para estudar formas de «manipular este sistema de seleção de sinapses, visando diminuir a incidência de determinadas doenças. Pela primeira vez, mostramos qual o principal sistema que permite a seleção de sinapses. Por isso, em qualquer situação onde se verifique problemas relacionados com a seleção de sinapses, agora sabemos qual é o alvo que temos de utilizar».

Com a descoberta agora publicada na Science, conclui, «qualquer grupo, em qualquer parte do mundo, pode basear-se neste conhecimento para desenvolver e testar novos fármacos para doenças do neurodesenvolvimento e doenças neuropsiquiátricas que começam numa fase precoce da vida». Mas não só, este estudo também fornece pistas para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer, onde as redes de neurónios estão menos plásticas e manipular a dinâmica das sinapses poderá ser útil. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Portugal - Programa pioneiro quer formar autistas em tecnologias de informação

Um programa pioneiro em Portugal, desenvolvido pela Critical Software, quer formar e dar emprego em tecnologias de informação a pessoas com autismo ou síndrome de Asperger, disse à agência Lusa o diretor executivo da empresa sediada em Coimbra


O programa de talentos Neurodiversidade aceita, até 9 de julho, candidaturas de portugueses maiores de 18 anos com diagnóstico de autismo/Asperger e procura candidatos com motivação para a área das tecnologias de informação (TI) e conhecimentos de inglês de nível médio.

“É um programa de empregabilidade, dirigido a pessoas que estão no espetro do autismo ou de Asperger. E a motivação é muito simples: a Critical é uma empresa de pessoas, dependemos muitíssimo do talento. Para nós, a criatividade, a inovação e construir conhecimento são a chave para o nosso sucesso e esta é uma oportunidade para ter pessoas com características especiais envolvidas nesse processo de criação de inovação”, afirmou João Carreira, cofundador e diretor executivo (CEO) da Critical Software.

“Acredito que em todas as áreas, mas especialmente na nossa, em TI, a inovação, as ideias diferentes, vêm das zonas de fronteira, não vêm do ‘mainstream’ [do convencional]. Se as pessoas pensam todas da mesma maneira, eventualmente não vai haver muita inovação. E, portanto, pessoas neurodiversas vão trazer essa riqueza para dentro de empresa”, acrescentou João Carreira.

O CEO da Critical insistiu que a “grande motivação” é levar talento à empresa de sistemas de informação e recusou que se trate de caridade para com as pessoas no espetro do autismo.

“Não é uma caridade que estamos a fazer, não queremos este programa com essa mentalidade, mas sim para integrar as pessoas por aquilo que elas são. São pessoas com competências por vezes extraordinárias, que são incompreendidas e dificilmente aceites, e nós estamos a fazer este esforço para identificar e enquadrar essas pessoas”, argumentou João Carreira.

O programa da Critical Software é feito em parceria com a fundação dinamarquesa Specialisterne (que se traduz, em português, como ‘os especialistas’), uma entidade que está atualmente em 13 países e que tem como objetivo criar um milhão de empregos para pessoas com autismo.

“Eles estão a fazer um trabalho muito interessante já há bastantes anos, também na área de TI. E, entretanto, também nos apercebemos que em Portugal há outros programas de empregabilidade para pessoas com autismo ou pessoas neurodiversas, mas este programa da Critical é o primeiro dirigido essencialmente a esta área específica”, explicou.

“Neste domínio [das tecnologias de informação] não há [em Portugal] nenhum programa específico com este foco”, enfatizou João Carreira.

A seleção e avaliação dos candidatos ao programa Neurodiversidade vai ser realizada com o apoio da Specialisterne. A formação decorrerá, depois, durante cinco semanas, em áreas “relevantes para a empresa”, como o teste e desenvolvimento de software, cibersegurança e consultoria operacional de tecnologia de informação.

Neste primeiro projeto, João Carreira revelou que serão selecionadas nove pessoas, para serem integrados, após a formação e a partir de outubro, na Critical Software em Lisboa, Porto e Coimbra: “É a primeira vez, estamos a ver como funciona, mas, claramente, é um programa que, correndo bem, é para continuar”, garantiu.

Em paralelo à formação dos candidatos ao programa, a Critical Software vai também formar alguns dos seus quadros, especialmente os gestores de projeto, para saberem como lidar com o autismo.

“Vão saber como estar atentos a sinais de pessoas que são neurodiversas, como perceber a diferença e como tirar partido dessa diferença. Como perceber que essa diferença não é um problema, mas pode ser uma grande vantagem para os projetos em que eles estão envolvidos”, explicou João Carreira, definindo a formação dos colaboradores como “um efeito colateral muito interessante”.

“Os nossos gestores vão estar expostos a esta questão, que será uma nova realidade. Esta capacidade de olhar para o outro, olhar para a diferença, que num autista, muitas vezes, é muito evidente, pelas dificuldades que tem em termos interpessoais, ver para além disso e conseguir integrar as pessoas na equipa, é um desafio extraordinário, mas também enriquecedor e fonte de crescimento pessoal para as pessoas. E vai ajudá-las a tornarem-se melhores gestores e melhores líderes”, observou. In “Milénio Stadium” – Canadá com “Lusa”


sábado, 30 de junho de 2018

Portugal - Investigadora de Aveiro cria sítio para ensino da matemática a crianças com autismo

Chama-se ‘LEMA’, foi desenvolvido da Universidade de Aveiro, e é o primeiro sítio português criado para ajudar no ensino da matemática, as crianças com autismo



Criado por Isabel Santos durante o Doutoramento em Multimédia em Educação na Universidade de Aveiro (UA), o ‘LEMA’, para além do desenvolvimento do raciocínio matemático destas crianças, quer ainda auxiliá-las nas áreas da linguagem, da leitura, do planeamento ou da gestão de emoções.

“Os resultados obtidos nas sessões de aferição com crianças e com professores e educadores da Educação Especial permitem assumir o ‘LEMA’ (das iniciais em inglês de Learning Environment on Mathematics for Autistic children) como um importante instrumento de apoio à promoção do desenvolvimento do raciocínio matemático em crianças com PEA”, assume Isabel Santos.

A autora da plataforma facilmente acessível a partir da ligação http://lema.cidma-ua.org. revela que esta destina-se a crianças entre os 6 e os 12 anos diagnosticadas com autismo e contém dois perfis de utilizadores – um para o educador e outro para a criança.

Integra 32 classes de atividades de matemática, cada uma delas subdividida em cinco subclasses, de acordo com níveis de dificuldade.

A plataforma permite não só a seleção personalizada de uma até dez classes e subclasses de atividades tendo em conta o perfil funcional do utilizador-aluno, como ainda a visualização do registo de desempenho de cada aluno na realização das atividades propostas por parte do utilizador-educador.

Para além da Matemática, “o ‘LEMA’ é também um auxiliar aos desenvolvimentos da linguagem e leitura, do planeamento, da memorização, da gestão de emoções, da atenção e concentração e da interação entre pares”.

Isabel Santos defende que o ambiente digital “poderá constituir-se como um instrumento pedagógico relevante para a premissa de uma escola inclusiva, garantindo o acesso e equidade de crianças com PEA ao processo de ensino e de aprendizagem, preparando a sua transição para uma vida ativa em sociedade”.

Preparado para ser utilizado pelos mais variados dispositivos tecnológicos (computador, tablet, smartphone, etc) e nos mais variados contextos (sala de aula, casa, gabinetes psicoeducativos, etc), o trabalho de Isabel Santos foi orientado pelas professoras Ana Breda, do Departamento de Matemática, e Ana Margarida Almeida, do Departamento de Comunicação e Arte.

O número de alunos diagnosticados com autismo tem aumentado nas últimas décadas em Portugal.

O estudo mais recente realizado em Portugal pela Federação Portuguesa de Autismo, referente a 2011 e 2012, apontou uma prevalência de 15,3 crianças/jovens diagnosticadas com PEA em cada 10 mil. In “Mundo Português” - Portugal