Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Japão - Nos bastidores da obra-prima de mistério "A Devoção do Suspeito X"

Keigo Higashino, um dos principais escritores de mistério do Japão, faleceu. Pedimos a Yoshiyuki Hatori, editor-chefe da revista literária "All Yomimono", onde a sua obra-prima "A Devoção do Suspeito X" foi publicada em série, que relembrasse o verdadeiro carácter do autor e o fascínio pelas suas obras


As únicas palavras que me vêm à mente agora são "um gigante caiu". Alguns podem achar essa uma maneira antiquada de pensar, mas para alguém que esteve envolvido com a publicação de romances por tanto tempo, esta expressão parece a mais adequada. Keigo Higashino, um autor de best-sellers que deixou mais de 100 obras e cujas vendas acumuladas ultrapassam facilmente 100 milhões de exemplares, não só liderou o cenário de romances de entretenimento no Japão, como também conquistou muitos leitores em mercados globais como os Estados Unidos e a China, faleceu repentinamente neste verão.

Nunca trabalhei diretamente com o Sr. Higashino, nem tive uma relação particularmente próxima com ele, mas como membro da editora que publica a sua obra mais representativa, a "Série Galileu", tive a oportunidade de estar na sua presença. Com gratidão por essa gentileza e um profundo sentimento de perda com o falecimento de um autor tão grandioso, escrevi este humilde texto.

"Vou te mostrar um truque que ninguém jamais imaginou."

A obra-prima de Higashino e um marco da ficção policial japonesa, A Devoção do Suspeito X, foi publicada na All Yomimono, uma revista literária da editora Bungei Shunju. Como editor-chefe durante a publicação em série, eu aguardava ansiosamente as cerca de 30 páginas de manuscrito que chegavam mensalmente, mas também sentia uma certa ansiedade em relação aos imprevisíveis desdobramentos da trama. Certo dia, quando encontrei Higashino numa festa ou bar em Ginza e compartilhei as minhas impressões sobre a publicação em série, ele disse-me estas palavras.

"Vou mostrar-vos um truque que ninguém jamais imaginou, nem no passado nem no presente", disse, com o rosto repleto de confiança e convicção.

A essência de um mistério reside no seu artifício, e a confiança de um escritor deriva da ambição de conceber um artifício que ninguém poderia ter previsto e de surpreender os amantes do mistério em todo o mundo.

Fiquei encantado. A verdade é que não só eu e o editor responsável, mas toda a editora no Bungei Shunju tínhamos grandes esperanças de que esta obra finalmente lhe rendesse o Prémio Naoki. Na época, Higashino já era um autor de grande sucesso, mas, quando se tratava do Prémio Naoki, ele havia sido indicado diversas vezes, sem nunca conseguir vencer.

O resultado foi de tirar o fôlego. Um matemático solitário usa todo o seu intelecto para lutar contra o seu amigo e rival da faculdade, um físico genial (o renomado Professor Galileu), a fim de encobrir um assassinato cometido por uma mãe e filha que moravam na casa ao lado. A chave do seu plano era cometer outro assassinato para encobrir o primeiro. Fiquei completamente estupefato com esse truque inesperado e cativado pela perfeição do mistério.

Contudo, o fascínio desta obra não termina aí. O cerne do mistério reside no maior enigma: por que um matemático cometeria um assassinato por um vizinho com quem apenas trocara cumprimentos? Esse mistério contém o tema profundo da obra. Parafraseando Higashino, o maior mistério é o coração humano, e o verdadeiro encanto desta obra-prima reside na profunda compreensão da natureza humana que convence o leitor dessa mensagem.

A Devoção do Suspeito X ganhou, com muita alegria, o Prémio Naoki. Eu estava a moderar a reunião do comité de seleção, e até mesmo os escritores veteranos que até então haviam sido relativamente críticos das obras de Higashino a elogiaram bastante, e Yumie Hiraiwa, que a apreciava desde o início, entusiasmou-se com a profundidade do mundo criado no romance. Essa foi a primeira incursão de Higashino em conquistar um público mais amplo, e ele rapidamente ascendeu ao posto de um dos principais concorrentes. Nos 20 anos seguintes, ele jamais abandonou essa posição. Algo assim nunca havia acontecido antes.

Na exibição de pré-estreia de A Devoção do Suspeito X

Antes disso, sua coletânea de contos "Detetive Galileu" havia sido adaptada para um popular drama televisivo estrelado por Masaharu Fukuyama. Após ganhar o Prémio Naoki, A Devoção do Suspeito X finalmente foi adaptado para o cinema. Na exibição privada para os envolvidos com o filme, eu estava sentado ao lado de Higashino. No final, quando a "devoção" desesperada do matemático se mostrou inútil, e ele uivou e chorou como um animal, fiquei completamente devastado. Não só não consegui conter as lágrimas (havia muitos colegas mais jovens por perto), como acabei soluçando alto, envergonhado. No meu choque, deixei escapar algo que não deveria ter dito a Higashino.

"Consegue assistir sem pestanejar, não é?"

Respondeu Higashino com um sorriso irónico.

"Seria estranho se eu chorasse."

O filme A Devoção do Suspeito X foi um enorme sucesso, arrecadando quase 5 mil milhões de ienes nas bilheteiras. Acredito que o romance original, incluindo as edições de bolso, tenha vendido bem mais de 3 milhões de cópias. Desde então, inúmeros livros da série foram publicados e adaptados para o cinema, tornando-se um pilar de receita para a Bungei Shunju. O volume final da série, Memória Eterna, tem lançamento previsto para o dia 05 de agosto. Gostaria de saborear o mundo desta obra final com profunda lembrança.

Fresco por fora, mas quente por dentro.

Acho que a impressão geral que se tem de Higashino é que ele é descolado e elegante. Além disso, ele é bonito. Aliás, quando Higashino e Masaharu Fukuyama estavam sentados juntos num bar em Ginza, nós, que estávamos ao redor, cochichávamos uns com os outros.

"Não sou inferior a Fukuyama."

Contudo, em bares noturnos onde estava rodeado apenas pelos seus editores mais próximos, ele transformava-se num verdadeiro nativo de Osaka, fazendo todos ao seu redor rirem com o seu entusiasmo e espírito prestativo. O Sr. Higashino tomava goles de uísque com gelo, e nós ficávamos extasiados com sua vasta gama de assuntos e a sua inteligência em contar histórias, como se o tempo tivesse parado para nós. As nossas conversas às vezes estendiam-se até as 2, 3 ou até mesmo 4 da manhã. Ele parecia tranquilo e sereno, mas era uma pessoa que nunca deixava de demonstrar consideração pelos outros e oferecer palavras de encorajamento.

Talvez por isso, ele também fosse um mestre da oratória. O seu grande antecessor, o escritor de romances de viagem e mistério Kyotaro Nishimura, faleceu, e uma cerimónia em sua memória foi realizada em Atami, onde ele morava. De pé no palco, diante de muitos profissionais do ramo editorial, Higashino concluiu o seu elogio fúnebre com estas palavras.

"Durante os primeiros 10 anos após a minha estreia, os meus livros não venderam nada. A única razão pela qual consegui publicar livros foi porque o Sr. Nishimura tinha um grande público leitor e estava enriquecendo a editora. Se me permitem a ousadia, agora assumirei esse papel. Por favor, apoiem todos os escritores que estão a lutar para sobreviver."

Enquanto escrevo isto, as palavras memoráveis ​​de Higashino continuam a vir-me à mente. No funeral de Masako Bando, que tinha quase a minha idade, ele esforçou-se ao máximo para expressar em palavras o quão talentosa escritora Bando era. Fiquei profundamente comovido com a genialidade dos seus elogios e com a profundidade da sua tristeza pela morte da sua colega escritora.

Ele faleceu aos 68 anos. Enquanto lamentamos a sua morte prematura, considerando o imenso poder que possuía para deixar um legado tão vasto de obras-primas, é inevitável pensar que ele vivia num ritmo duas vezes mais acelerado que o de uma pessoa comum. Há algum fundamento para essa ideia, já que editores próximos sabiam que, quando ele se machucava praticando snowboard, desporto que tanto amava, os seus ferimentos cicatrizavam com uma velocidade impressionante. O próprio Sr. Higashino parecia achar isso estranho e disse o seguinte:

"Mesmo quando eu era criança, as lesões cicatrizavam muito rápido. Acho que minhas células provavelmente se dividem mais rápido do que as de outras pessoas."

O genial autor, que utilizou o conhecimento científico para criar uma obra-prima da ficção policial, faleceu tão repentinamente quanto o vento. O mundo editorial está agora em profundo luto. Yoshiyuki Hatori – Japão in “Nippon”

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Keigo Igashino. (04 de fevereiro de 1958, Ikuno-ku, Osaka - 23 de julho de 2026, Japão), é um dos mais destacados autores japoneses da atualidade, tendo já sido publicado em 14 países.

Os seus bestsellers foram galardoados com vários prémios, incluindo o Mystery Writers of Japan Award e o Prémio Naoki, e obtiveram reconhecimento nacional e internacional com as subsequentes adaptações cinematográficas e televisivas.

A Pequena Loja dos Grandes Milagres, publicado pela “Presença”, já vendeu mais de 15 milhões de exemplares em todo o mundo. In “Wook”




segunda-feira, 20 de julho de 2026

Brasil - Morreu Celso Lungaretti, o náufrago da utopia

Morreu o Celso Lungaretti, combatente contra a ditadura militar. Como defini num texto aqui recentemente publicado – Celso personificava o Náufrago da Utopia, seu blog e seu livro. Apesar da distância, éramos amigos e trocávamos textos publicados ou a publicar. Deixo registrada minha tristeza e peço para distribuir para seus amigos jornalistas e companheiros que lutaram e lutam contra as ditaduras.


Celso carregava sequelas das torturas. Uma delas estava nos joelhos. Num último whatsapp, retomando a conversa interrompida, me disse – “caí, querem me levar ao hospital”. Tinha quebrado o fêmur, foi operado, ficou muitos dias mal sem se recuperar. Sentindo que viria o pior, publiquei meu texto em homenagem, que convido para ler ou reler, clicando na ligação. Mais um combatente que se vai… Rui Martins – Suíça

Artigo de Celso Lungaretti publicado no:Observatório da Imprensa

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Rui Martins – Direto da Suiça – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI



 

 

sábado, 11 de julho de 2026

Portugal - Morreu Bonnie Tyler, a cantora que bateu barreiras das plataformas digitais

A cantora galesa Bonnie Tyler, conhecida por êxitos dos anos 1980 morreu quarta-feira à noite, 08 de Julho, na cidade de Faro, aos 75 anos, anunciou a família num comunicado. “A família e a equipa da Bonnie estão de coração partido ao anunciar que a Bonnie faleceu inesperadamente ontem à noite num hospital em Portugal, em consequência da doença para a qual estava a ser tratada”, pode ler-se num comunicado publicado na conta do Facebook da cantora.


A cantora de 75 anos, que tinha casa no Algarve, foi internada no Hospital de Faro em Maio, na sequência de uma cirurgia de emergência.

Bonnie Tyler, nome artístico de Gaynor Hopkins, destacou-se pela voz rouca e o sucesso de “Total Eclipse of the Heart”, de 1983, que já bateu a barreira de mil milhões de reproduções nas plataformas digitais.

Nascida em 08 de Junho de 1951, em Skewen, na região de Swansea, no País de Gales, cresceu numa família amante de música, como nota a sua biografia. Admiradora da Motown e de Janis Joplin, atravessou a adolescência entre o coro da igreja anglicana e os concursos locais de talentos, até à entrada nas Dixies, coro de apoio do cantor Bobby Wayne, com que percorreu bares e pequenas salas de concerto, na viragem da década de 1960 para a seguinte.

Com pouco mais de 20 anos, e depois de ter adoptado o primeiro nome artístico, Sherene Davis, criou a primeira banda, Sherene and Imagination, e actuou regularmente no Townsman Club de Swansea, onde foi descoberta pelo produtor Roger Bell, da Chappell Music, de Londres. Atento à voz rouca da cantora, Bell mobilizou de imediato os compositores e produtores Ronnie Scott e Steve Wolve para a criação de um novo repertório. Sucederam-se os contratos, as primeiras gravações e o nome artístico definitivo: Bonnie Tyler.

O seu primeiro ‘single’, “My, My Honeycomb”, de 1976, conquistou as rádios. Mas foi com “Lost in France”, do seu primeiro álbum, “The World Starts Tonight” (1977), que atingiu as tabelas dos mais vendidos. A consagração internacional chegaria um pouco mais tarde, em 1983, com “Total Eclipse of the Heart”, que esteve duas semanas em primeiro lugar no ‘top’ do Reino Unido, quatro semanas no ‘top’ norte-americano, e que em Janeiro passado ultrapassou mil milhões de reproduções no Spotify e 1,2 mil milhões de visualizações no YouTube, segundo a BBC.

O sucesso de “Total Eclipse of the Heart” deu a Bonnie Tyler uma nomeação para os Grammys, o que também aconteceu com o ‘single’ “Here She Comes” e o álbum “Faster Than the Speed of Night” (1983), que vendeu mais de quatro milhões de cópias e ocupou o primeiro lugar nas tabelas do Reino Unido. Entre os maiores sucessos da época contam-se ainda “It’s a Heartache”, do álbum “Natural Force” (1978), e “Holding Out for a Hero”, que fez parte da banda sonora do filme “Footloose”, de 1984, e, mais recentemente, de “The Super Mario Bros. Movie”, um dos maiores sucessos da década nos cinemas.

A carreira de mais de cinco décadas de Bonnie Tyler conta com perto de uma centena de álbuns, entre os de estúdio, as colectâneas e os gravados ao vivo, destacando-se títulos como “Bitterblue” (1991), “Angel Heart” (1992), “Heart Strings” (2003) e “Rocks and Honey” (2013). “The Best Is Yet to Come” (2021), o seu mais recente álbum de estúdio, foi seguido do álbum ao vivo “In Berlin” (2024).

Ao longo da carreira, Tyler somou colaborações com músicos como Mike Oldfield, Todd Rundgreen, Rick Wakeman, Cher e o brasileiro Fábio Jr., com quem gravou “Sem Limites para Sonhar”, em 1986. Em 2013, representou o Reino Unido no Festival da Eurovisão, ficando em 19º lugar, entre 26 participantes.

Em 2023, foi condecorada com a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados à música.

A cantora tinha marcada uma nova digressão, até ao final deste ano, que começava em Malta, no próximo dia 22, e terminava no País de Gales, em 17 de Dezembro, com concertos na Alemanha, Chéquia, Hungria, Turquia, Áustria, Escócia, Inglaterra e Roménia.

Entre as mais recentes actuações de Bonnie Tyler em Portugal, contam-se os concertos no Casino Estoril e no Campo Pequeno, em Lisboa, em 2023, e no Coliseu dos Recreios e no Coliseu do Porto, em 2024. Residente no Algarve, Bonnie Tyler apresentou-se noutros palcos do país, dos Açores a Guimarães.

No passado mês de Janeiro, quando “Total Eclipse of the Heart” bateu a barreira de mil milhões de reproduções, Bonnie Tyler recordou à BBC o trabalho com o compositor Jim Steinman, sobre a canção: “Quando a ouvi a primeira vez pensei: ‘Esta música é incrível’. Nunca me canso de a cantar”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Suíça - Morreu Jean Ziegler, o inimigo dos bancos suíços

Morreu, na quarta-feira, dia 10 de junho, aos 92 anos, o suíço Jean Ziegler, um suíço como nenhum outro. Professor, sociólogo, escritor, político e, o mais importante, o inimigo número 1 dos bancos suíços, cujo livro A Suíça Lava mais Branco, foi denúncia internacional, editado também no Brasil.

Ziegler foi o intelectual suíço mais detestado e mais criticado na Suíça e, ao mesmo tempo, o mais amado e respeitado no que se chamava de Terceiro Mundo. Foi amigo de Sartre, de Simone de Beauvoir, de Guevara e dos grandes líderes de esquerda da época.

Quando num encontro com Guevara, disse querer ir lutar na América Latina, Guevara lhe respondeu - "Não, você tem de ficar na Suíça, onde está a cabeça do monstro".

Ziegler foi professor universitário, deputado federal suíço e relator especial da ONU sobre direito à alimentação.


Era detestado na Suíça

O nome de Jean Ziegler começou a ser detestado pelos financistas, pela elite financeira e bancos suíços em 1976 com a publicação do livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, no qual Ziegler denunciava os lucros das multinacionais suíças às custas dos países pobres, o segredo bancário incentivador da sonegação de impostos com a fuga para a Suíça de capitais estrangeiros e o controle das instituições suíças pelos meios financeiros.

Alvo de numerosos processos por bancos e entidades financeiras, Ziegler revelava, no fim da vida numa entrevista para Swissinfo, ter perdido seus bens nas condenações de que fora alvo. Felizmente, tinha o cargo de relator da ONU para a Alimentação e havia a publicação de uma vintena de livros com bastante sucesso no Exterior.

No dizer da imprensa, seus livros eram suas armas, tanto que o jornal suíço Le Temps chamou-o de "guerrilheiro da sociologia", ao noticiar sua morte.

Um desses livros, responsável por processos e notoriedade no Exterior, foi A Suíça Lava mais Branco, pelo qual seus colegas deputados federais lhe tiraram a imunidade parlamentar. Veio a seguir A Suíça, o Ouro e os Mortos, tratando da neutralidade suíça, durante a Segunda Guerra Mundial. Os livros de Jean Ziegler eram publicados no Brasil pela Editora Brasiliense.

Embora de família suíço-alemânica protestante e conservadora, Ziegler aderiu ao marxismo ao estudar Direito em Paris.

Eu havia lido, em Paris, seu livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, e ao me mudar para a Suíça, onde trabalhei para a Rádio Suíça Internacional, quis logo conhecer e entrevistar Jean Ziegler. Fiz diversas reportagens sobre ele para a Rádio Suíça Internacional e, mais tarde, para jornais e rádios brasileiros e portugueses.

Acabamos ficando amigos e quando estourou o escândalo do desvio de dinheiro público para bancos suíços pelo ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf, recebi o convite do Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial para contar num livro minhas reportagens para a CBN sobre Maluf. Foi Jean Ziegler quem escreveu o prefácio desse livro, cujo título é Dinheiro Sujo da Corrupção.

Essas reportagens tinham custado minha demissão da CBN, como contou para o Observatório da Imprensa o jornalista paraibano Carlos Aranha.

Também o jornalista Lúcio Vilar, no texto Políticos Viraram Marionetes, publicado no Correio da Paraíba e Observatório da Imprensa, escreveu: "Se o dinheiro é o sangue dos pobres... os milhões de dólares transferidos por Maluf e escondidos na Suíça, com a cumplicidade dos banqueiros suíços, são o sangue e as lágrimas dos favelados de São Paulo" assim escreveu Jean Ziegler... no prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.



 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Portugal - O escritor e jornalista Mário Zambujal partiu aos 90 anos

Mário Zambujal nasceu em Moura, Beja, a 5 de março de 1936. O escritor estreou-se em 1980 com o livro Crónica dos Bons Malandros, que se tornou num sucesso. A história foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes e inspirou uma série de televisão realizada por Jorge Paixão da Costa.


Fim da Rua, À Noite Logo se Vê, Fora de Mão (coletânea de contos e crónicas), Primeiro as Senhoras, Uma Noite Não São Dias, Dama de Espadas, Longe É um Bom Lugar, O Diário Oculto de Nora Rute, Serpentina, Talismã, Romão e Juliana, Já Não se Escrevem Cartas de Amor, Então, Boa Noite, Rodopio, Fabíolo e Pirueta foram outras das obras do escritor.

Em dezembro, o escritor editou o livro O Último a Sair. “Estou a cumprir uma promessa que fiz a mim próprio. Esta é a tentativa de escrever um livro policial. Não será um típico. Um livro em que as personagens devem ter afeto e conflitos e contradições”, disse Zambujal.

Além de escritor, foi também jornalista desportivo na RTP. No canal, apresentou programa como "Grande Encontro".

Em 1984, o escritor foi distinguido com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2016, com a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa. Presidiu à Direção do Clube de Jornalistas entre 2007 e 2021.

Em 2025, Mário Zambujal recebeu Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, em reconhecimento pela sua carreira.

Mário Zambujal, descrito como "um dos mais carismáticos prosadores portugueses", foi o principal homenageado da edição de 2020 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.

90 anos de vida e mais de 45 anos de carreira literária

Há menos de quinze dias, Rosa Margarida, no Clube de Leitura SAPO  recordou cinco obras do premiado autor com uma vasta biografia, entre contos, crónicas, romances e outros géneros literários, que ditaram a sua carreira ao longo dos anos.

CRÓNICA DOS BONS MALANDROS, edição comemorativa com lançamento em março de 2026, com selo Clube do Autor

"Sinto-me sequestrado por estes bons malandros. Aos livros que fui escrevendo, e outros que venha a escrever, não lhes valem possíveis méritos. Mais de trinta anos depois de saltarem à cena, sem outra pretensão do que fazer sorrir circunstanciais leitores, os bons malandros não arredam pé e ganharam a afeição de gerações sucessivas.

Nada mais surpreendente, para quem lhes deu vida, esta longevidade que permite divertir jovens de hoje, tal como acontecera com seus pais e mesmo avós. (…) Entretanto, o que o autor ambiciona é o mesmo de sempre: proporcionar prazer de leitura a quem se dispõe à descoberta das singulares aventuras destes bons malandros. Se eles vos divertirem, cumprem o seu destino".

"A síntese divertida de uma tragédia. Não se trata da queda de quem quis subir, mas bem pior do que isso: a queda de quem quis descer (da malandragem para o crime a sério). Eis uma síntese possível, mas há muitas outras. Por exemplo, esta: um livro divertido, rápido, que nos lembra que também já fomos novos (e isso é bondade e maldade ao mesmo tempo)".

Gonçalo M. Tavares in Prefácio

O ÚLTIMO A SAIR, lançado em novembro de 2025, numa edição Clube do Autor

Conheceremos a história de duas personagens caricatas: a psicóloga Lídia e o chefe de polícia reformado Rodrigo. Tudo começa com a morte estranha de um amigo e a decisão do casal de descobrir o culpado ou culpada. E, para gáudio dos leitores, eles vão até ao fim. Um livro repleto de bom humor, com o estilo inconfundível a que Mário Zambujal nos habituou ao longo dos anos.

Esta edição inclui a história Conto Final, Parágrafo, plena de humor e amor, num livro sempre fiel ao espírito do autor.

FABÍOLO, de novembro de 2021, com chancela Clube do Autor

Danças de um romântico incurável com deslizes pelo meio. Sedução, romance e suspense à boa maneira de Mário Zambujal.

Assente num divertido jogo de sedução, o romance do eterno bom malandro é um livro pleno de mistério, humor e criatividade. O protagonista, Fabíolo, é um homem de paixões. Honestas. E também de outros impulsos e deslizes.

Dividido entre dois romances com uma morena e outra ruiva, Fabíolo sucumbe facilmente aos encantos femininos. Mas é uma inesperada tentação de riqueza que leva este romântico por caminhos sombrios. Morte anunciada a prazo, 15 dias de espera e esquivas…

UMA NOITE NÃO SÃO DIAS, de outubro de 2020, com selo Clube do Autor Um romance pleno de humor e criatividade a que se junta a prosa escorreita tão característica do autor.

Tudo se passa na Avenida Vertical, nome de uma torre habitacional de 98 andares, símbolo citadino dos novos tempos, onde ocorrem dois misteriosos assaltos: o roubo de um helicóptero no heliporto que encima o edifício e o roubo da coroa da rainha Matilde, que casou com o infante D. Afonso e chegou a rainha de Portugal. É nesta atmosfera de mistério que desfilam as personagens principais: Antony, um historiador, a mulher deste, Grace, e o amigo escultor, James.

"O que vai ler é uma história verídica, a ocorrer, garantidamente, no ano de 2044. É possível que os inevitáveis cépticos e maldizentes tentem beliscar o rigor da narrativa, negando verosimilhança às novidades urbanas, técnicas e de costumes. Não importa, 2044 vem já aí. Depois conversamos.»

LONGE É UM BOM LUGAR, de outubro de 2011, numa edição Clube do Autor

Tânia Dulce é uma jovem com uma ampla capacidade para amar e cede aos rogos do Doutor Ângelo, narrador de uma movimentada relação de desfecho imprevisível. Médico com sonhos de romancista, o doutor Ângelo percorre caminhos paralelos, do romance real com Tânia Dulce e da trama ficcional que se esforça por escrever. E porque o resto são (também) histórias, o leitor acompanha uma sequência de pequenas ficções, originalmente publicadas na revista Tempo Livre, do Inatel, com o estilo inconfundível a que podemos chamar de zambujalesco. Mário Zambujal volta a cativar os leitores pelo ritmo vivo da prosa em que avultam as surpresas, o humor e a reflexão acerca de cumprimentos e situações.

Nas palavras de Mário Zambujal, "O longe é a meta quando se foge". Tiago David – Portugal in Sapo


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Macau - Morreu chef António, “grande figura” da gastronomia portuguesa

O chef António faleceu em Macau, aos 77 anos. Considerado uma “grande figura” da gastronomia portuguesa, é recordado como uma pessoa “afável”, “brincalhona”, por vezes, “um pouco polémico nas opiniões”. António Neves Coelho foi galardoado com a medalha de mérito turístico pelo Governo da RAEM em 2013 e recebeu também a medalha de mérito das comunidades portuguesas do Governo Português


António Neves Coelho, mais conhecido por chef António, faleceu aos 77 anos, em Macau. Figura incontornável da gastronomia portuguesa no território, chegou a Macau pela primeira vez em 1970, onde cumpriu serviço militar obrigatório durante dois anos. Décadas depois, em 1997, decidiu começar um novo capítulo a Oriente. Um “autêntico artista” e “brincalhão”, pessoa “afável”, por vezes, “um pouco polémico nas opiniões”, o chef António é recordado como tendo dado “grandes contributos” na área da gastronomia.

Vera Alcobia trabalhou, durante cerca de cinco anos, como assistente de António Coelho no restaurante que tinha o seu nome, num espaço que projectou a qualidade da comida por ele confeccionada. “Ele era um autêntico artista, para além de ser um grande amigo, sempre muito brincalhão com toda a gente que trabalhava com ele e muito preocupado com os funcionários”, começou por referir ao Jornal Tribuna de Macau aquela que esteve ao lado do chef em muitos momentos da sua vida pessoal e profissional em Macau, e que o considerava “quase como um pai ou avô”.

Para Vera Alcobia, também ela ligada à restauração e à hotelaria, “ele tinha aquela forma de abrir as garrafas com uma espada e fazia sempre as suas demonstrações”, acrescentando que o António “usou sempre o lema de que não é preciso ralhar para ensinar bem as pessoas”.

Mesmo que “amado por uns e odiado por outros”, o chef António Coelho “foi uma figura que conseguiu manter a qualidade da comida portuguesa, fabricando tudo no próprio restaurante, incluindo o pão, os rissóis, tudo, primando pela qualidade”, considerou, adiantando que “ainda hoje há muitos funcionários espalhados por Macau que continuam com o trato dele na forma de cozinhar”.

O mais recente projecto do chef foi o Angela’s Café and Lounge, no Hotel Lisboeta. “Ele estava a adorar o novo desafio, de voltar a ver os clientes e servir as coisas que ele gostava de fazer”. Para Vera Alcobia, o amigo “partiu” numa altura em que também ela está de partida do território. “É triste”, conclui.

Foi também com “muita tristeza” que Santos Pinto, dono do restaurante “O Santos”, recebeu a notícia. “Mais um amigo que partiu… Vinha aqui muitas vezes [ao restaurante], acompanhei-o sempre de muito perto”, afirmou em declarações a este jornal, recordando todos os passos dados por António em termos profissionais.

“Éramos amigos próximos. Depois quando ele abriu o ‘António’ aqui na Taipa, ficou muito mais ocupado, já não tínhamos tanto tempo, mas havia sempre aquele abraço, com muita amizade”, acrescentou. Santos Pinto sublinhou que António “deu muitos contributos para Macau, concretamente à gastronomia portuguesa e macaense”.

Carlos Cabral, presidente da Confraria da Gastronomia Macaense – da qual António Coelho foi confrade -, disse que “é uma grande tristeza a perda de uma grande figura na gastronomia portuguesa aqui em Macau”. Durante anos, realçou Carlos Cabral, o chef “praticou e desenvolveu o seu trabalho sempre bem prestado à comunidade portuguesa e macaense, bem como aos turistas de vários cantos do mundo”.

Pedro Lobo recorda igualmente a “figura incontornável” de António na cozinha em Macau: “É uma perda muito grande na cena da gastronomia. Era alguém que dava o seu toque, o seu cunho pessoal na comida portuguesa, na maneira como servia os seus clientes, na maneira como respeitava os seus clientes”.

Segundo disse, “o chef António era uma das pessoas que conhecia a fundo a gastronomia portuguesa”. “Às vezes, era um pouco polémico nas opiniões que emitia, mas de qualquer dos modos era alguém que tinha valor e que ficará sempre marcado na história da gastronomia de Macau, nomeadamente na área da comida portuguesa”, prosseguiu Pedro Lobo.

Vincando que o chef gostava, por vezes, de “provocar discussões, no bom sentido”, Pedro Lobo sublinhou que “era uma pessoa sempre afável, impecável”. “Era uma pessoa muito amiga, com quem nós convivíamos, brincávamos, por isso será sempre alguém que será recordado com muita saudade”, apontou.

Galardoado com a medalha de mérito turístico pelo Governo da RAEM em 2013, António Neves Coelho recebeu também a medalha de mérito das comunidades portuguesas do Governo Português.

Quando chegou ao território pela segunda vez, já perto da transferência de soberania, trabalhou em vários restaurantes, tendo sido chefe de cozinha no Clube Militar e no restaurante “Espaço Lisboa”. Teve também uma breve passagem por Hong Kong.

Em 2007, abriu o restaurante com o seu nome, na Taipa Velha, o qual recebeu vários elogios internacionais. Foi ainda destacado, durante 12 anos consecutivos, com o “Guia Michelin Hong Kong e Macau”.

Além de confrade da Confraria da Gastronomia Macaense e membro da Associação Culinária de Macau, António Neves Coelho era também “Maitre Rotisseur” da Association Mondiale de la Gastronomie, de França. Catarina Pereira e Vítor Rebelo – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Portugal - Morreu Fernando Paulouro das Neves

Histórico diretor do Jornal do Fundão partiu na noite desta segunda-feira, aos 78 anos


O histórico jornalista Fernando Paulouro das Neves, antigo diretor do Jornal do Fundão e que nos últimos anos se dedicou à escrita, morreu na noite desta segunda-feira, um dia depois de ter apresentado o seu último livro, As Sombras do Combatente, editora Guerra & Paz, numa sessão realizada na Biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão, completamente cheia.

Fernando Paulouro, nascido em 31 de janeiro de 1947, na cidade do Fundão, dedicou quase toda a vida ao Jornal do Fundão, onde foi jornalista, chefe de redação e diretor. Por várias vezes integrou as estruturas do Sindicato dos Jornalistas e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Com uma ligação muito forte à cultura, também presidiu ao Teatro das Beiras e recebeu inúmeras distinções, entre as quais o título de sócio de honra da Sociedade Ibero-Americana de Antropologia Aplicada, o Prémio Gazeta de Mérito do Clube dos Jornalistas ou o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos. Em 2013, foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade do Fundão.

No próximo ano iria presidir à Comissão de Honra das Celebrações dos 80 anos do Jornal do Fundão.  

Como escritor, publicou, entre outros, "A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira" (com Daniel Reis), "O Foral: Tantos Relatos/Tantas Perguntas", "Os Fantasmas Não Fazem a Barba" (com Zé d’Almeida), "A Materna Casa da Poesia – Sobre Eugénio de Andrade", "Os Olhos do Medo", "Crónica do País Relativo – Portugal, Minha Questão", "Fellini na Praça Velha", "Brasil em Mim", "O Informador e Outros Contos", "Catorze Histórias Incríveis ou o Fabuloso Imaginário das Lendas da Beira Baixa" (com José Manuel Castanheira) e "O Tribunal das Almas". Organizou também a antologia António Paulouro: As Palavras e as Causas. InJornal do Fundão” - Portugal


terça-feira, 22 de julho de 2025

Cabo Verde lamenta a morte de Kiki Lima

O Presidente da República, Governo, familiares e amigos publicaram mensagens de condolências a propósito da morte do pintor e compositor cabo-verdiano Kiki Lima, aos 72 anos, em Portugal, onde se encontrava em tratamento médico


“Kiki Lima deixa um legado inestimável para a cultura e a arte de Cabo Verde. A sua obra, marcada pela cor, pelo movimento e pela profunda identidade cabo-verdiana, retratou com mestria as vivências do nosso povo, elevando o nome de Cabo Verde nos palcos artísticos nacionais e internacionais”, destaca a Presidência da República, num comunicado divulgado nas redes sociais.

No mesmo comunicado, a Presidência da República refere que Kiki Lima é considerado por muitos como um dos maiores pintores cabo-verdianos de todos os tempos. “Kiki Lima foi um verdadeiro embaixador da nossa cultura, cuja paixão e dedicação à arte inspiraram gerações”.

A mesma fonte sublinha ainda que o artista deixa igualmente um legado como músico e estudioso da música tradicional cabo-verdiana, com álbuns publicados como Txuva e Midje má tambor. “A sua memória e o seu contributo para o património cultural de Cabo Verde permanecerão vivos e serão sempre recordados com admiração e respeito.”

Também o Governo, através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, lamentou o desaparecimento físico do artista, considerando que Cabo Verde perdeu um embaixador da cultura nacional, que soube cruzar linguagens visuais com a música e o design.

“Figura incontornável da cultura nacional, Kiki Lima, uma das maiores referências das artes plásticas de Cabo Verde, possuiu uma carreira notável, marcada por uma criatividade vibrante, um estilo único e uma entrega total à arte e à identidade cabo-verdiana”, frisa.


Em comunicado, o Ministério da Cultura acrescenta que Kiki Lima é autor de mais de mil obras e participou em mais de 200 exposições individuais em Cabo Verde e no estrangeiro, levando as cores, os símbolos e as emoções do arquipélago ao mundo.

O artista plástico Tchalé Figueira lembrou com carinho o legado de Kiki Lima. “A sua pintura é o retrato da nossa sociedade crioula em tonalidades quentes, do azul do mar ao amarelo solar, e de diversos temas que considero etnológicos da diversidade cultural do nosso país: do pescador ao vagabundo, das menininhas bonitas à pequena burguesia, das festas juninas ao batuque, etc.”

Tchalé Figueira destacou ainda a herança pictórica e musical do artista: “E não posso deixar de mencionar as suas composições, muitas com letras de cariz crítico-social, gravadas na voz de Dudu Araújo. O ciclo de Kiki Lima hoje encerra-se, mas para Cabo Verde, este artista deixa uma grande herança que ficará na memória da nossa identidade.”

“Foi com profundo pesar que recebi a notícia do falecimento de Kiki Lima, pintor maior de Cabo Verde e meu colega de infância, aos 72 anos. Com ele parte não apenas um artista singular, mas também um amigo leal, companheiro das alegrias e sonhos da nossa geração”, escreveu o escritor Manuel Brito-Semedo, no seu blogue Esquina do Tempo.

Para Brito-Semedo, Kiki Lima foi um verdadeiro embaixador cultural de Cabo Verde, retratando com mestria a morna, os mercados, as mulheres, as festas populares e as paisagens da infância.

“Kiki foi muito mais do que um pintor consagrado. Foi o amigo de adolescência com quem cresci num Mindelo pobre, mas sonhador, fértil em talento e solidariedade. Sempre discreto e sereno, impressionava pela determinação inabalável de viver da arte – missão que abraçou até ao fim”, concluiu. Dulcina Mendes – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


segunda-feira, 2 de junho de 2025

Portugal - Morreu António Barbedo de Magalhães, um dos principais defensores da causa timorense

Professor Emérito da Universidade do Porto foi uma das principais vozes de defesa da independência de Timor-Leste durante o período de ocupação indonésio daquele território


António Barbedo de Magalhães, Professor Emérito da Universidade do Porto, faleceu aos 82 anos. O também Professor Jubilado da Faculdade de Engenharia (FEUP) foi uma figura incontornável no ensino da engenharia e uma voz forte na defesa da independência de Timor-Leste durante o período de ocupação indonésio no território.

A sua ligação à causa timorense remonta a 1974, ano em que cumpriu o serviço militar em Timor. Já doutorado em Ciências Aplicadas pela Universidade de Ghent, na Bélgica, em 1973, na área da Metalurgia, coordenou o trabalho de uma equipa luso-timorense que elaborou um projeto para a reestruturação do ensino em Timor, com vista a uma eventual independência a médio prazo.

Membro da Comissão para os Direitos do Povo Maubere, da Associação Paz e Justiça para Timor-Leste e da Comissão Organizadora das Jornadas de Timor da Universidade do Porto, além de ter organizado numerosas conferências em Portugal, Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Brasil e outros países, é autor de sete livros sobre Timor-Leste, o último dos quais, editado pela Afrontamento em 2007, tem 3 volumes (1000 páginas) e cerca de 10.000 páginas em documentos anexos, sobre a história política de Timor-Leste desde 1942 até 2007.

Em 2017, a Biblioteca da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) acolheu a apresentação pública dos acervos documental e bibliográfico relacionados com a história de Timor-Leste e com a política internacional acumulados ao longo de décadas pelo Professor António Barbedo de Magalhães. A iniciativa promovida pelo Serviço de Documentação e Informação da FEUP surgiu na sequência de um tratamento inicial de preservação do acervo documental realizado no âmbito de um projeto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

António Barbedo de Magalhães foi condecorado pelo Estado Português (Ordem do Infante D. Henrique) e pelo Estado Timorense (Ordem de Timor-Leste) pelas suas ações em defesa dos direitos do povo timorense. Desde 1989, teve nessas atividades o apoio da Universidade do Porto, a qual representou em múltiplas iniciativas em diversos países, levando a questão de Timor até ao ‘Caucus’ dos Direitos Humanos do Congresso Americano.

A pedagogia como base no ensino da engenharia

António Barbedo de Magalhães começou a lecionar no Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) em 1968, ano em que terminou o curso. Antes disso, foi membro da Comissão Instaladora da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), que nunca conseguiu legalizar-se durante a vigência do Estado Novo. Formou-se em Engenharia Mecânica, em julho de 1968, com 17 valores, apesar de ter trabalhado durante parte do curso como desenhador e, depois, na fundição de uma empresa metalomecânica.

Doutorou-se em 1973, na área da Metalurgia, com a Máxima distinção. Foi professor da FEUP até à sua jubilação, quando fez 70 anos, em fevereiro de 2013, e diretor de um centro de investigação e apoio à indústria de fundição, do INEGI (instituto de interface entre o Departamento de Engenharia Mecânica da FEUP e a indústria), criado em 1986 quando era diretor do DEMec.

Autor de cinco patentes de invenção na área das tecnologias da fundição, propôs em 2004 uma componente pedagógica inovadora na FEUP, de projetos liderados por estudantes e realizados por equipas multidisciplinares de estudantes de diferentes cursos e idades, podendo incluir alunos do ensino secundário. Estes projetos, com a designação de PESC (Projetar, Empreender, Saber Concretizar), envolveram centenas de estudantes e dezenas de professores da FEUP e numerosas pessoas ligadas a empresas e organismos públicos. Em 2008 estes projetos interdisciplinares foram generalizados a toda a Universidade do Porto, com a designação de Projetos Lidera e em 2008/09 envolveram mais de 450 estudantes, dos quais cerca de 80 do ensino secundário.

Dirigiu o Programa Doutoral em Segurança e Saúde Ocupacionais da U.Porto, fruto da colaboração de 12 das 14 faculdades da Universidade do Porto, e do qual resultaram, em dois anos, mais de 100 publicações dos respetivos estudantes.

Ciclo de Debates “Novos Paradigmas”

Em 2010, com mais dois colegas da Faculdade de Engenharia, Rui Azevedo e Alcibíades Guedes, Barbedo Magalhães propôs a realização semestral de debates sobre “Novos Paradigmas” sobre os temas mais diversos. Entre março de 2012 – data em que foi lançado publicamente o seu e-book «A evolução dos modelos educativos e a formação de engenheiros-cidadãos para o mundo» – e finais de 2016 grande parte destes debates teve como tema central a Educação.

Na sequência destas iniciativas, foi criada, a Rede para o Desenvolvimento de Novos Paradigmas da Educação (RedeNPEdu), mediante um Memorando de Entendimento, com sede na Faculdade de Engenharia.

O funeral de Barbedo Magalhães realizou-se na passada quinta-feira, dia 29 de maio, na cidade do Porto. Universidade do Porto


domingo, 1 de junho de 2025

Brasil - Falece Evanildo Bechara, um dos maiores gramáticos do país

A nossa comunidade linguística perdeu um de seus mais brilhantes expoentes com o falecimento do professor Evanildo Bechara em 22 de maio de 2025, aos 97 anos, no Rio de Janeiro. Bechara deixou um legado indelével no estudo e ensino da nossa língua, sendo reconhecido como “o maior especialista em língua portuguesa, com fama que ultrapassa nossas fronteiras”, nas palavras de Merval Pereira, presidente da Academia Brasileira de Letras.



A sua produção intelectual foi vasta e influente. A “Moderna Gramática Portuguesa”, publicada pola primeira vez em 1961, alcançou as 37 edições, sendo continuamente atualizada polo autor. Outros trabalhos fundamentais incluem a “Gramática Escolar da Língua Portuguesa” (2001) e “Lições de Português pela Análise Sintática” (2004), obras que formaram gerações de estudantes e professores.

Bechara teve uma atuação académica destacada como professor titular e emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, além de ter lecionado em prestigiadas instituições internacionais como as universidades de Coimbra (Portugal) e Colónia (Alemanha). A sua abordagem combinava o rigor científico com a acessibilidade didática, sempre enfatizando a importância de relacionar pesquisa linguística com o ensino prático.

Atuação institucional e reconhecimentos

Eleito para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras em 2000, Bechara assumiu a posição em 2001 e tornou-se uma figura central na instituição. Exerceu funções como Diretor Tesoureiro e Secretário-Geral, além de presidir a importante Comissão de Lexicologia e Lexicografia, responsável por obras de referência como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp).

Como representante brasileiro nas negociações do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Bechara desempenhou um papel fundamental na padronização da escrita nos países lusófonos. A sua atuação nesse processo refletia a sua visão de uma língua unificada na sua diversidade.

Ao longo da carreira, recebeu inúmeras honrarias, incluindo o título de Doutor Honoris Causa pola Universidade de Coimbra e a medalha Oskar Nobiling da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura. Foi membro de prestigiadas instituições como a Academia Brasileira de Filologia, a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Galega da Língua Portuguesa.

Relação com a Galiza e visão sobre a língua

Ainda que a sua principal contribuição foi no campo da gramática brasileira, Bechara manteve um diálogo frutífero com pessoas estudiosas galegas que defendem a reintegração do galego no universo lusófono. Em 2008, como representante da Academia Brasileira de Letras, participou ativamente do lançamento da Academia Galega da Língua Portuguesa em Santiago de Compostela, onde proferiu palavras marcantes: “do ponto de vista linguístico, o galego é uma vertente desta realidade da língua histórica que se chama língua comum […] o galego nunca se separou do português”

Esta participação não foi isolada. Bechara já colaborava com o movimento reintegracionista galego desde as décadas finais do século XX, tendo participado de congressos e publicado na revista Agália da Associaçom Galega da Língua (AGAL).

A morte de Evanildo Bechara encerra um capítulo nos estudos linguísticos no Brasil, mas o seu legado permanecerá através das suas obras fundamentais e das gerações de professores e pesquisadores que formou. Como afirmou a Academia Brasileira de Letras em nota oficial: “Nos despedimos de um dos maiores nomes da educação e da linguística brasileira, mas o seu legado segue imortal”. In “Portal Galego da Língua” - Galiza


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Namíbia - Fórum de editores elogia Sam Nujoma como defensor da liberdade de imprensa

O Fórum de Editores da Namíbia (EFN) elogiou o falecido presidente fundador Sam Nujoma como essencial à liberdade de imprensa africana, creditando-lhe o seu papel na histórica Declaração de Windhoek



Num comunicado à imprensa emitido na tarde de domingo, a EFN prestou homenagem a Nujoma, que morreu na noite de sábado após um período de problemas de saúde.

“Sem a bênção do então presidente, a iniciativa e o seminário dos jornalistas africanos, que foram apoiados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, sob o título de 'promover uma imprensa africana independente e pluralista', não teriam sido possíveis”, afirmou a EFN.

A EFN destacou a visão de Nujoma da Namíbia como um modelo de liberdade de imprensa na África e elogiou a sua liderança em estabelecer esse precedente.

“O pai fundador deve, entre muitos outros atributos, ser lembrado por proclamar a política de 'reconciliação nacional', que levou a relações harmonizadas entre os namibianos.

“Ele não apenas acreditava na construção de uma nação unificada, respeitando a diversidade da nação namibiana, mas também garantiu que a Namíbia se tornasse uma nação que honra a democracia e observa o estado de direito”, observou a EFN. Shelleygan Petersen – Namíbia in “The Namibian”


domingo, 30 de junho de 2024

Portugal – Faleceu o artista plástico Manuel Cargaleiro

Manuel Cargaleiro “morreu tranquilo, rodeado pelos seus, adormeceu”, disse a sua companheira


O artista plástico nasceu em 16 de março de 1927 em Chão das Servas, no concelho de Vila Velha de Ródão, no distrito de Castelo Branco.

A sua obra foi fortemente inspirada no azulejo tradicional português. Em 1949, ingressou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e participou na Primeira Exposição Anual de Cerâmica, no Palácio Foz, em Lisboa, onde realizou a sua primeira exposição individual de cerâmica, no ano de 1952.

No início de carreira, ainda na década de 1950, recebeu o Prémio Nacional de Cerâmica Sebastião de Almeida, e o diploma de honra da Academia Internacional de Cerâmica, no Festival Internacional de Cerâmica de Cannes, em França, numa altura em que iniciara funções de professor de Cerâmica na Escola de Artes Decorativas António Arroio e apresentara as suas primeiras pinturas a óleo no Primeiro Salão de Arte Abstrata.

Em Castelo Branco, viria a ser inaugurada a Fundação Manuel Cargaleiro, em 1990, depois expandida com o respetivo museu e mais tarde, no Seixal, distrito de Setúbal, a Oficina de Artes Manuel Cargaleiro.

No último ano teve patente as exposições “Eu Sou… Cargaleiro”, no Mosteiro de Ancede – Centro Cultural de Baião, no distrito do Porto, uma mostra de pintura na Casa Museu Teixeira Lopes – Galerias Diogo de Macedo, em Vila Nova de Gaia, intitulada “Cargaleiro, Pintar a Luz Viver a Cor”, e uma exposição de gravura no Fórum Cultural de Ermesinde, em Valongo, de nome “A essência da cor”. Este ano levou obras nunca expostas à sua oficina, no Seixal. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo