Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 12 de março de 2026

Portugal - O escritor e jornalista Mário Zambujal partiu aos 90 anos

Mário Zambujal nasceu em Moura, Beja, a 5 de março de 1936. O escritor estreou-se em 1980 com o livro Crónica dos Bons Malandros, que se tornou num sucesso. A história foi adaptada ao cinema por Fernando Lopes e inspirou uma série de televisão realizada por Jorge Paixão da Costa.


Fim da Rua, À Noite Logo se Vê, Fora de Mão (coletânea de contos e crónicas), Primeiro as Senhoras, Uma Noite Não São Dias, Dama de Espadas, Longe É um Bom Lugar, O Diário Oculto de Nora Rute, Serpentina, Talismã, Romão e Juliana, Já Não se Escrevem Cartas de Amor, Então, Boa Noite, Rodopio, Fabíolo e Pirueta foram outras das obras do escritor.

Em dezembro, o escritor editou o livro O Último a Sair. “Estou a cumprir uma promessa que fiz a mim próprio. Esta é a tentativa de escrever um livro policial. Não será um típico. Um livro em que as personagens devem ter afeto e conflitos e contradições”, disse Zambujal.

Além de escritor, foi também jornalista desportivo na RTP. No canal, apresentou programa como "Grande Encontro".

Em 1984, o escritor foi distinguido com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2016, com a medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa. Presidiu à Direção do Clube de Jornalistas entre 2007 e 2021.

Em 2025, Mário Zambujal recebeu Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube de Jornalistas, em reconhecimento pela sua carreira.

Mário Zambujal, descrito como "um dos mais carismáticos prosadores portugueses", foi o principal homenageado da edição de 2020 do Festival Literário Escritaria, em Penafiel.

90 anos de vida e mais de 45 anos de carreira literária

Há menos de quinze dias, Rosa Margarida, no Clube de Leitura SAPO  recordou cinco obras do premiado autor com uma vasta biografia, entre contos, crónicas, romances e outros géneros literários, que ditaram a sua carreira ao longo dos anos.

CRÓNICA DOS BONS MALANDROS, edição comemorativa com lançamento em março de 2026, com selo Clube do Autor

"Sinto-me sequestrado por estes bons malandros. Aos livros que fui escrevendo, e outros que venha a escrever, não lhes valem possíveis méritos. Mais de trinta anos depois de saltarem à cena, sem outra pretensão do que fazer sorrir circunstanciais leitores, os bons malandros não arredam pé e ganharam a afeição de gerações sucessivas.

Nada mais surpreendente, para quem lhes deu vida, esta longevidade que permite divertir jovens de hoje, tal como acontecera com seus pais e mesmo avós. (…) Entretanto, o que o autor ambiciona é o mesmo de sempre: proporcionar prazer de leitura a quem se dispõe à descoberta das singulares aventuras destes bons malandros. Se eles vos divertirem, cumprem o seu destino".

"A síntese divertida de uma tragédia. Não se trata da queda de quem quis subir, mas bem pior do que isso: a queda de quem quis descer (da malandragem para o crime a sério). Eis uma síntese possível, mas há muitas outras. Por exemplo, esta: um livro divertido, rápido, que nos lembra que também já fomos novos (e isso é bondade e maldade ao mesmo tempo)".

Gonçalo M. Tavares in Prefácio

O ÚLTIMO A SAIR, lançado em novembro de 2025, numa edição Clube do Autor

Conheceremos a história de duas personagens caricatas: a psicóloga Lídia e o chefe de polícia reformado Rodrigo. Tudo começa com a morte estranha de um amigo e a decisão do casal de descobrir o culpado ou culpada. E, para gáudio dos leitores, eles vão até ao fim. Um livro repleto de bom humor, com o estilo inconfundível a que Mário Zambujal nos habituou ao longo dos anos.

Esta edição inclui a história Conto Final, Parágrafo, plena de humor e amor, num livro sempre fiel ao espírito do autor.

FABÍOLO, de novembro de 2021, com chancela Clube do Autor

Danças de um romântico incurável com deslizes pelo meio. Sedução, romance e suspense à boa maneira de Mário Zambujal.

Assente num divertido jogo de sedução, o romance do eterno bom malandro é um livro pleno de mistério, humor e criatividade. O protagonista, Fabíolo, é um homem de paixões. Honestas. E também de outros impulsos e deslizes.

Dividido entre dois romances com uma morena e outra ruiva, Fabíolo sucumbe facilmente aos encantos femininos. Mas é uma inesperada tentação de riqueza que leva este romântico por caminhos sombrios. Morte anunciada a prazo, 15 dias de espera e esquivas…

UMA NOITE NÃO SÃO DIAS, de outubro de 2020, com selo Clube do Autor Um romance pleno de humor e criatividade a que se junta a prosa escorreita tão característica do autor.

Tudo se passa na Avenida Vertical, nome de uma torre habitacional de 98 andares, símbolo citadino dos novos tempos, onde ocorrem dois misteriosos assaltos: o roubo de um helicóptero no heliporto que encima o edifício e o roubo da coroa da rainha Matilde, que casou com o infante D. Afonso e chegou a rainha de Portugal. É nesta atmosfera de mistério que desfilam as personagens principais: Antony, um historiador, a mulher deste, Grace, e o amigo escultor, James.

"O que vai ler é uma história verídica, a ocorrer, garantidamente, no ano de 2044. É possível que os inevitáveis cépticos e maldizentes tentem beliscar o rigor da narrativa, negando verosimilhança às novidades urbanas, técnicas e de costumes. Não importa, 2044 vem já aí. Depois conversamos.»

LONGE É UM BOM LUGAR, de outubro de 2011, numa edição Clube do Autor

Tânia Dulce é uma jovem com uma ampla capacidade para amar e cede aos rogos do Doutor Ângelo, narrador de uma movimentada relação de desfecho imprevisível. Médico com sonhos de romancista, o doutor Ângelo percorre caminhos paralelos, do romance real com Tânia Dulce e da trama ficcional que se esforça por escrever. E porque o resto são (também) histórias, o leitor acompanha uma sequência de pequenas ficções, originalmente publicadas na revista Tempo Livre, do Inatel, com o estilo inconfundível a que podemos chamar de zambujalesco. Mário Zambujal volta a cativar os leitores pelo ritmo vivo da prosa em que avultam as surpresas, o humor e a reflexão acerca de cumprimentos e situações.

Nas palavras de Mário Zambujal, "O longe é a meta quando se foge". Tiago David – Portugal in Sapo


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Portugal - Jornalista Sandra Inês Cruz lança livro sobre Campo de Concentração do Tarrafal

Lisboa – A jornalista portuguesa Sandra Inês Cruz lança, no dia 01 de Novembro, em Lisboa (Portugal), o seu primeiro livro Tarrafal, 1975. O Campo do Silêncio, sob as chancelas de Almedina e Edições Afrontamento.


“(…) Os discursos oficiais e a historiografia dão por encerrado o Campo de Concentração do Tarrafal a 01 de Maio de 1974, como pode-se comprovar nas várias publicações dedicadas ao tema. Acontece que em Dezembro de 1974, 58 homens, quase todos naturais de Cabo Verde, foram encarcerados no Tarrafal por motivos políticos”, declarou a autora, em entrevista à Inforpress.

Conforme explicou, “sem acusação formal ou processos conhecidos” estes homens que não se reviam no projecto de união de Cabo Verde com a Guiné-Bissau estiveram presos durante meses e foram libertados a 06 de Julho de 1975, no dia seguinte à independência de Cabo Verde.

Fez saber ainda que entre estes 58, 19 foram transferidos para Lisboa durante o mês de Junho de 1975, onde continuaram presos até Setembro, já Cabo Verde era independente.

Estas “vozes discordantes do caminho acordado entre Portugal e o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-verde (PAIGC)” reclamavam um referendo para que a população fosse consultada sobre o processo de independência, segundo Sandra Cruz.

Numa abordagem puramente jornalística com levantamento de notícias de jornais, arquivos e informação obtida através de entrevistas feitas a vários presos, viúvas, filhos e irmãs “que até hoje esperam uma explicação”, Sandra Cruz revela quem são os últimos presos do Campo de concentração.

E ainda “Porque foram silenciados? Como puderam ser detidos numa prisão que já tinha festejado o fim? Acima de tudo, porque é que ninguém diz os seus nomes?”, questionou.

“Portanto o livro é sobre um Tarrafal que tem sido ocultado da memória colectiva e da esfera pública. Um Tarrafal que foi reaberto depois do 25 de Abril, quando em Portugal se respirava liberdade. O meu objectivo e o deste livrinho que publico enquanto jornalista e não como académica, é acrescentar memória ao Campo. Nada mais”, finalizou Sandra Cruz.

A apresentação do livro, que terá como palco a Livraria Almedina, em Lisboa, na rua da Escola Politécnica nº 225, vai estar a cargo da jornalista Isabel Silva Costa, e a autora espera contar com a presença de pelo menos dois dos presos entrevistados. In “Inforpress” – Cabo Verde

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Portugal - Morreu Fernando Paulouro das Neves

Histórico diretor do Jornal do Fundão partiu na noite desta segunda-feira, aos 78 anos


O histórico jornalista Fernando Paulouro das Neves, antigo diretor do Jornal do Fundão e que nos últimos anos se dedicou à escrita, morreu na noite desta segunda-feira, um dia depois de ter apresentado o seu último livro, As Sombras do Combatente, editora Guerra & Paz, numa sessão realizada na Biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão, completamente cheia.

Fernando Paulouro, nascido em 31 de janeiro de 1947, na cidade do Fundão, dedicou quase toda a vida ao Jornal do Fundão, onde foi jornalista, chefe de redação e diretor. Por várias vezes integrou as estruturas do Sindicato dos Jornalistas e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Com uma ligação muito forte à cultura, também presidiu ao Teatro das Beiras e recebeu inúmeras distinções, entre as quais o título de sócio de honra da Sociedade Ibero-Americana de Antropologia Aplicada, o Prémio Gazeta de Mérito do Clube dos Jornalistas ou o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos. Em 2013, foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade do Fundão.

No próximo ano iria presidir à Comissão de Honra das Celebrações dos 80 anos do Jornal do Fundão.  

Como escritor, publicou, entre outros, "A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira" (com Daniel Reis), "O Foral: Tantos Relatos/Tantas Perguntas", "Os Fantasmas Não Fazem a Barba" (com Zé d’Almeida), "A Materna Casa da Poesia – Sobre Eugénio de Andrade", "Os Olhos do Medo", "Crónica do País Relativo – Portugal, Minha Questão", "Fellini na Praça Velha", "Brasil em Mim", "O Informador e Outros Contos", "Catorze Histórias Incríveis ou o Fabuloso Imaginário das Lendas da Beira Baixa" (com José Manuel Castanheira) e "O Tribunal das Almas". Organizou também a antologia António Paulouro: As Palavras e as Causas. InJornal do Fundão” - Portugal


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Brasil - A demissão de Daniela Lima

Toda vez que um jornalista é demitido, vem logo a pergunta - foi por razão política? Estudante de jornalismo aspirando chegar a um dos grandes órgãos de informação da chamada mídia hegemônica, se não tiver muito jogo de cintura, pode viver essa situação.

Essa instabilidade é mais frequente quando a situação política do país vive um momento de transição como aconteceu no Brasil com o Golpe de 1964. Neste caso, não havia garantia para jornalista carimbado como janguista ou favorável às reformas de base de Goulart. Teria muita sorte se, como o hoje nonagenário e na ativa Jânio de Freitas, trabalhasse nessa época na Última Hora do Samuel Wainer, jornal que na linguagem atual, poderia ser definido como populista de esquerda.

Nos dias de hoje, com a polarização atual, pode haver demissão por questão de ordem econômica, por renovação da equipe ou mesmo demissão voluntária, provocada por suspeita de tendência política diferente do pensar da família ou do grupo proprietário do órgão de informação, seja jornal, televisão, revista ou canal.

E aqui chegamos à nossa curiosidade - qual teria sido a razão da demissão da colega jornalista Daniela Lima, dois anos depois de ter sido contratada? A GloboNews explica com poucas palavras: a demissão ocorreu por conta do "movimento permanente de renovação do Canal". Fica uma pergunta: as renovações na GloboNews são feitas a cada dois anos?

Ou a demissão foi por outro motivo? Vale a pena observar a opinião de alguns colegas. Mas antes, é bom fazer uma rápida busca pela IA que, sem preocupação política, aceita a versão patronal de uma grande reformulação nos 30 anos do GloboNews e, indiscreta, fala num salário de 20 mil reais, pequeno se convertido para a moeda europeia, equivalente ao salário mínimo suíço. Daniela tinha o comando do programa matinal Conexão Globo News.

Álvaro Borba, ex-Meteoro agora Arvro, dedicou, no seu canal Youtube, um vídeo à demissão de Daniela Lima, informando que a contratação, há dois anos, da jornalista tinha sido, segundo GloboNews para renovar seus quadros antes da comemoração dos 30 anos do programa, no próximo ano. Mas sua demissão dia 25 de agosto significa que ela não estará na festa.

Na nota que publicou, Daniela não deu nenhuma pista quanto ao seu desligamento - "depois de dois anos, deixo a GloboNews com a sensação de missão cumprida, cabeça erguida, sedenta pelos próximos desafios. Viva o novo". Na linguagem do Linkedin, isso significa estar procurando emprego.

Daniela não foi a única fora da Globo, houve também a Eliane Cantanhêde e Mauro Paulino. Como isso aumentou a curiosidade, a Globo soltou um comunicado: "Eliane Cantanhêde, Daniela Lima e Mauro Paulino não integram mais o time da GloboNews, que agradece a eles a valiosa parceria na apresentação e análise dos importantes acontecimentos".

Arvro conta que a direita passou a ver na Daniela uma espécie de porta-voz da Suprema Corte, o STF, e mostrou a alegria do advogado Delton Dallagnol e da comemoração do canal Auriverde com a demissão da jornalista. Daniela logo passou a ser um alvo preferido dos bolsonaristas e o próprio Bolsonaro, antes mesmo da demissão da Daniela, já havia a ela se referido com chacota ao ouvir um de seus comentários.  Até Eduardo Bolsonaro comemorou no Texas a demissão de Daniela dizendo num de seus delírios "a família Marinho demitiu Daniela com medo de sofrer sanções pela Lei Magnitsky". Dallagnol especulou sobre uma mudança da Globo com relação ao STF por pressão de Trump.

No canal Meteoro, Sophia La Banca fala da cota minimamente progressista na mídia hegemônica citando Flávia Oliveira na GloboNews, Tiago Amparo, na Folha, Sakamoto no Uol, e lembra que a proximidade das eleições e a recuperação de Lula depois dos ataques do Trump parece fazer com que essa cota de progressistas possa ser reduzida.

A observação parece procedente e pode ser tomada como um prenúncio de maus acontecimentos diante do chamado motim dos deputados e senadores bolsonaristas, que se sentem apoiados por Trump e representados nos EUA pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro. Depois de terem atacado e saqueado a sede do Executivo, Legislativo e Judiciário, há dois anos, os líderes bolsonaristas queriam agora, com o chamado motim, paralisar o Congresso para impor uma anistia e uma intervenção no STF, esperando receber apoio de Trump para provocar o Golpe? Felizmente Hugo Motta controlou o motim!

Especulações à parte, não se pode esquecer a primeira tentativa de Golpe de Trump nos EUA para falsear as eleições de meio termo no Texas, com uma lei dividindo as atuais 38 circunscrições e permitindo ao Texas ter mais 5 deputados trumpistas no congresso em 2026. Diante dessa jogada política, os deputados democratas decidiram não dar quorum para a votação legal e fugiram para os Estados de Illinois e Nova York. Isso criou um clima de tensão e o governador trumpista do Texas promete cassar os mandatos dos democratas, já que não pode prendê-los, ameaça considerada legalmente impossível.

Esse clima de pré-instabilidade democrática favorecendo o fortalecimento do método Trump de governo já é levado a sério pela GloboNews como dá a entender Eduardo Bolsonaro?

De acordo com o site 247, a demissão de Daniela Lima foi depois de uma pesquisa da Qauest, segundo a qual parte dos assinantes considerava de esquerda parte da programação. Daniela era o principal alvo da crítica como progressista, por sua postura em análises políticas e postagens nas redes sociais com críticas a ministros conservadores do STF. Não houve um comentário do 247 sobre os resultados da pesquisa do Quaest ou crítica da GloboNews em favor de Daniela.

O canal Diário do Centro do Mundo assinala a demissão de Daniela mesmo a Globo sabendo "que ela sofria ameaças e usava carro blindado". Citando Fábia Oliveira, do canal Metrópoles, conta que a "vida de Daniela virou do avesso, nos últimos anos, por ser alvo constante de bolsonaristas, que comemoraram abertamente sua demissão".

O DCM deixou a seguinte observação, endereçada aos jornalistas: "o episódio expõe uma crescente vulnerabilidade de comunicadores em um ambiente político radicalizado, em que vozes dissonantes, como a de Daniela Lima, viram alvos". Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Moçambique - Armando Nhantumbo lança livro sobre o conflito em Cabo Delgado

Aconteceu hoje, 09 de abril, na Biblioteca Central da Universidade Pedagógica de Maputo o lançamento do livro A Guerra em Cabo Delgado, da autoria do jornalista e investigador Armando Nhantumbo. A obra propõe uma leitura crítica e fundamentada sobre o conflito armado que assola a província de Cabo Delgado desde 2017.



Com base em apuração no terreno e numa análise multidimensional, Nhantumbo procura recuperar o “relato negado” sobre a insurreição que atingiu praticamente toda a província, à exceção da capital, Pemba. Mais do que um registo testemunhal, o livro constitui uma investigação sobre os contornos sociais, políticos e económicos de uma guerra que redesenhou profundamente o Norte de Moçambique.

A sessão de apresentação contou com a intervenção do jornalista Jeremias Langa, responsável pela apresentação da obra, e os comentários do sociólogo João Feijó e do comunicador Erneste Saul (MC), que trouxeram diferentes leituras sobre o conteúdo e a relevância do livro no debate público nacional.

Promovido pela Ethale Publishing, o evento foi uma oportunidade para discutir um dos episódios mais marcantes da história recente do país, a partir de uma perspectiva informada e comprometida com a verdade factual. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


Moçambique - Jornalista Luís Nhachote apresenta o livro “Do Alto da Colina”

Será apresentado no próximo dia 17 de Abril, pelas 17h30, na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), o mais recente livro do jornalista e cronista Luís Nhachote, intitulado “Do Alto da Colina, Todas as Crónicas 2003–2005”. A obra, editada pela Gala-Gala Edições, reúne cerca de uma centena de textos publicados originalmente na coluna homónima do semanário “SAVANA”, entre 2003 e Junho de 2005.



Com um total de 304 páginas, o livro resgata uma fase marcante do jornalismo moçambicano, através da visão crítica, irónica e profundamente engajada de Nhachote. Entre os temas abordados nas crónicas destacam-se o mediático julgamento do Caso BCM, o debate em torno da suposta “morte da literatura“, os meandros do tráfico de drogas e a influência crescente da religião nas dinâmicas sociais do país.

Luís Nhachote sublinha que não se vê como escritor, no sentido clássico da palavra. No entanto, considera fundamental a compilação destas crónicas enquanto acto de resgate da memória histórica das inquietações que marcaram uma geração. O autor salienta ainda que este projecto se insere na mesma linha de intenção que norteou o seu livro anterior, Phambeni: Cartas ao Presidente Chissano (2023).

Para o editor da Gala-Gala Edições, Pedro Pereira Lopes, a publicação representa “um testemunho exemplar da capacidade da crónica em transcender o carácter efémero do jornalismo e inscrever-se no tecido da memória colectiva”. Acrescenta ainda que “a prosa elegante e o olhar crítico de Nhachote transportam-nos para um período vital da história moçambicana, com dilemas que, dois decénios depois, continuam a ecoar”.

O lançamento contará com intervenções do escritor Marcelo Panguana e do jornalista Milton Machel, que partilharam reflexões sobre o impacto e a actualidade das crónicas reunidas na obra.

Do Alto da Colina insere-se na Colecção Hinyambaan da Gala-Gala Edições, dedicada à publicação de textos que promovem a reflexão crítica sobre a sociedade moçambicana.

Sobre o Autor

Luís Nhachote nasceu em Maputo, em 1974. É um jornalista de investigação premiado. Trabalhou nos semanários Savana (onde iniciou a sua carreira, em 2000), Canal de Moçambique (do qual foi um dos membros fundadores, em 2006), no Zambeze e @Verdade. Foi editor dos portais digitais Confidencial, 1mãomz e Moz24h.

Foi, ainda, consultor da Chatham House (Reino Unido), da Transparência Internacional, do Centro de Integridade Pública (CIP), do Speed Program (Moçambique) e do Global Iniciative Against Organized Crime. Colabora com alguns meios de comunicação internacionais como o Mail & Guardian, The Wall Street Journal, Forbes Africa Magazine e Al Jazeera.

Foi chefe correspondente, para Moçambique, do The Continent e Mail & Guardian. Foi Director executivo do Centro de Estudos Moçambicanos e Internacionais (CEMO). Actualmente é coordenador-executivo do Centro de Jornalismo Investigativo (www.cjimoz.org) e Editor-in-Chief do portal digital Mozambique Insights. Publicou “Phambeni — Cartas ao Presidente Chissano” (2023). In “Moz Entretenimento” - Moçambique


domingo, 8 de outubro de 2023

Alemanha - Jornalista da diáspora Adélio Amaro na Feira do Livro de Frankfurt

O escritor português, e jornalista a trabalhar para a diáspora, Adélio Amaro foi convidado pela editora alemã Flyerzentrum para marcar presença na maior feira do livro do mundo, em Frankfurt, Alemanha, entre os dias 18 e 22 de outubro de 2023


Adélio Amaro, que recentemente lançou o livro “Insignes Açorianos”, em apresentações que ocorreram nos Açores, Lisboa e Leiria, estando agendado em mais oito localidades em Portugal e fora do país, referiu ser “uma enorme honra receber este convite para dar a conhecer o meu trabalho no coração mundial da promoção do livro”, disse à Agência Incomparáveis.

Quando questionado sobre o convite, o escritor português salientou que “não esperava este convite, ainda mais por uma editora alemã que tem edições em vários países e quando a participação editorial portuguesa na feira é enorme. Estou grato pelo convite e ansioso para fazer parte da maior feira do livro do mundo”.

No que diz respeito às suas expetativas, Adélio Amaro, que trabalha com várias comunidades portuguesas no mundo, segredou que “estou mais esperançado em ir aprender novos conceitos no mundo do livro do que na promoção do meu trabalho. Contudo, este foi um convite irrecusável e o qual agradeço à Flyerzentrum pela confiança e que, de certo, abrirá mais portas tanto para mim como para a BiblioRuralis e respetiva biblioteca”.

Adélio Amaro é diretor do jornal Gazeta Lusófona, na Suíça, coordenador da Cultura Popular da Câmara Municipal de Leiria, presidente do Centro do Património da Estremadura e presidente-fundador da BiblioRuralis, localizada em Leiria, e que conta com mais de 20 mil títulos. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 10 de setembro de 2023

Cem anos de Natália Correia: a criação literária e a intervenção política de uma mulher única

A expressão de Natália Correia (1923-1993) constituiu sempre um espetáculo: umas vezes as palavras eram macias e aveludadas, outras escaldantes de cólera e sarcasmo. Nunca recorreu a máscaras. Foi, orgulhosamente, ela própria. No centenário de seu nascimento, que se assinala na próxima quarta-feira, recordamo-la. (Texto publicado originalmente na revista do Expresso nº 2654, vol. 2, Lisboa, edição de 9 de Setembro, 2023)


Era uma força da natureza que desejava manter-se na íntegra. Mas só o pôde enquanto a saúde lhe permitiu. Natália Correia queria o impossível: continuar com o porte altivo, imponente, olímpico e a elegância física que faziam parar o Chiado, ou onde quer que passasse. Contudo, os últimos anos foram penosos. Fumar cigarros uns a seguir aos outros e ter apetite devorador para jantares opíparos e ceias pantagruélicas tem o seu preço. As caricaturas do Vasco não foram impiedosas. Um cartunista com força de Vasco podia ter sido muito mais cruel.

Nasceu a 13 de setembro de 1923, na ilha de São Miguel dos Açores, na freguesia da Fajã de Baixo, próximo da cidade de Ponta Delgada. O país mergulhara na turbulência social, na agitação política e na indisciplina militar. A crise financeira acentuava-se. As sucessivas alterações governamentais, na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler começavam a alastrar na primeira metade do século XX, um dos séculos mais trágicos e mais contraditórios da História. Foi neste quadro que se consolidou e expandiu o fascismo, o nazismo, o salazarismo e o franquismo.

Desenvolveu-se, partir de então, a indomável personalidade de Natália. Pai e mãe entraram em rutura quando tinha alguns meses. O pai emigrou para o Brasil. A mãe, Maria José Oliveira, professora primária que assimilou os valores cívicos e culturais da República, adquiriu formação laica e tendências libertárias. Colaborou em jornais e revistas. Frequentou tertúlias literárias e políticas, mas, desde sempre, preocupou-se com a educação das filhas: Carmen e Natália. Incutiu-lhes os princípios da liberdade, da independência, da solidariedade humana, os valores universais que fundamentam uma sociedade democrática.

O salazarismo arrancara com o patrocínio de um sector decisivo das Forças Armadas, da Igreja Católica — ferida pelas leis da República — e o contributo do poder financeiro e económico. A instauração da Censura, a vigilância sistemática da polícia política e o apoio incondicional de tribunais especiais reprimiram a opinião pública e silenciaram os vários sectores da oposição. Foi em 1934 que a mãe de Natália e de Carmen se instalou, definitivamente, em Lisboa.

Procurou dar às filhas outros horizontes. “Sendo uma intelectual que não se pôde realizar inteiramente devido ao meio e às circunstâncias — recordou Natália — quis preparar-nos.” Entendia que “o desenvolvimento intelectual da mulher corresponde a uma atitude social”. “A permanência em São Miguel, mesmo na cidade de Ponta Delgada, não reunia condições para nos desenvolver.” (...) era “um meio muito exíguo.” Natália Correia ainda passou pelo Liceu de Ponta Delgada; frequentou em Lisboa o Liceu Filipa de Lencastre, mas sem qualquer aproveitamento. Ficou, apenas, com o primeiro ciclo dos liceus.

Mostrou-se refratária aos métodos de ensino. Ela própria o declarou que “não podia aceitar regras impostas de fora: eu é que as tinha de criar”. A passagem pelos liceus foi, segundo as suas palavras, de “ave migratória”. O problema não se colocava, apenas, em São Miguel. Em Lisboa repetiu-se a mesma situação: os métodos eram semelhantes. A escola não constituía um espaço de formação. O ensino tinha de ser um ato de participação e cidadania, para habilitar os alunos a pensar e a interrogar o mundo.

Primeiras asas

Natália tornou-se, aos 22 anos — no esplendor da juventude —, uma figura de Lisboa ligada aos acontecimentos literários e políticos que permaneciam na ordem do dia. Nesta primeira fase — dos anos 40 aos anos 50 — conciliou o jornalismo, a literatura e a política. Ainda colaborou no Rádio Clube Português. Integrou-se nos círculos da oposição democrática.

Três jornalistas micaelenses, amigos da mãe, que trabalhavam em Lisboa, estimularam as aspirações de Natália. Trata-se de Rebelo de Bettencourt (1894-1969) amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, antigo chefe de redação do “Portugal Futurista” e que se acomodou, depois, a chefiar a redação da “Gazeta dos Caminhos de Ferro” e da revista “Viagem”; e o padre Diniz da Luz (1915-1988), antifascista e exaltado e antigermanófilo tempestuoso, embora redator do jornal “A Voz”, um dos diários monárquicos, católicos, ultraconservadores, onde se preparou a conspiração para implantar a ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, e introduzir , depois, o salazarismo.

Em 1946, Natália, principiou no quinzenário “Portugal Madeira e Açores”, empenhado na defesa dos interesses das então chamadas “ilhas adjacentes”. Chefiava a redação outro amigo da mãe: Breno de Vasconcelos (1909-1993), oriundo do “Correio dos Açores”, o memorialista do livro “A Paz Cinzenta” (1979).

Colaborou, depois, no semanário “O Sol”, fundado e dirigido por Alberto Lello Portela, (1893-1949), antigo político e parlamentar republicano e um dos militares que ingressaram nos primórdios da aviação.

Destacou-se com seu irmão, o advogado Raul Lello Portela, nos combates da oposição ao salazarismo. A chefia da redação de “O Sol” era assegurada por Alves Morgado (1901-1980), um outro profissional, conhecedor das regras do ofício. A distribuição de trabalho à redação (inclusive o desporto), nas relações com os colaboradores, nos contactos com a tipografia e na revisão escrupulosa de textos.

Tinha a colaboração de grandes nomes, como António Sérgio e Maria Archer, que deram visibilidade mediática a “O Sol”. Acrescente-se: Sérgio vacinou Natália contra o PCP e os outros núcleos marxistas e comunistas.

Natália falava e escrevia com desembaraço inglês e francês. Escreveu sobre política nacional e internacional: analisou as consequências da guerra de 1939 a 1945; as diretrizes de Mussolini e de Hitler, os efeitos do nazismo, os fundamentos do Reich, as extensões do fascismo na Europa (e a sua) disseminação em Portugal, na classe política e militar. Também escreveu sobre literatura e arte. Publicou um romance, um livro de poemas e um livro de reportagem e de crónicas de viagens.


O veneno da política

Herdou também da mãe — opositora declarada do salazarismo — o interesse pela política. Até à morte, a política constituiu uma solicitação irresistível: a ânsia incontrolável de possuir informação, em cima da hora, o desejo de partilhar nos debates e a disponibilidade para se embrenhar nas possíveis conspirações, num país repleto dos condicionalismos que se prolongaram até ao 25 de Abril.

Subscreveu as listas do MUD que reclamavam a reposição das liberdades e garantias fundamentais. Envolveu-se na candidatura de Norton de Matos, deslocou-se, expressamente, a Ponte de Lima, para entrevistar o general, na sua casa de férias.

Participou, em 1958, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, concedendo uma entrevista explosiva ao “Diário Ilustrado”. Apoiou outros movimentos, entre os quais a ocupação do navio “Santa Maria”, comandado por Henrique Galvão, para acelerar a queda de Salazar e para pôr termo à política colonial. Nas primeiras eleições do consulado de Marcello Caetano, em 1969, colaborou com Mário Soares e Salgado Zenha na formação da CEUD, em luta com o MDP/ CDE, que incorporava comunistas e outros radicais de esquerda. Incluindo os chamados “católicos progressistas”.

Apesar de toda esta intervenção, ao surgir o 25 de Abril, os dirigentes partidários recearam convidá-la. Era imprevisível e um perigo iminente, em momentos delicados e complexos. Na linhagem das “Cantigas de Escárnio e Maldizer”, Natália Correia criou as “Cantigas de Risadilha”, para escarnecer a classe política. Não poupou amigos como Mário Soares e o Partido Socialista: “Já não sei se é país se é orfanato/ pois nem vela, nem reza, nem sabá/impede que em berreiro ou desacato/ ande tudo à procura do Papá”. (...) “Tinha o PS pai. Mas o Marocas/ mandou alguns filhotes para o galheiro/ e do partido por trocas e baldrocas,/ já não consegue ser o pai inteiro”. (...) “nesta lusa farronca sem vintém,/ neste muda que muda sem mudança,/ venha o que venha, há de lixar-se quem/ do salsifré tiver a governança”.

Em termo desdenhoso alvejou Freitas do Amaral: “muito a preceito dos cristãos fervores/ do CDS, o Lucas é o retrato/ De um menino Jesus entre os doutores/ A meter mestre Freitas num sapato”. Devido ao insólito mergulho no Tejo e outras peripécias não escapou Marcelo Rebelo de Sousa, o “picareta falante”: “o Marcelo neste mapa/ a brincar aos cowboys não há nenhum./ passa rasteira: o mais subtil derrapa;/ dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.” Sempre que podia dissecava o poder político e a rotina social. Zurziu as prosápias de fidalguia; os vícios e as vilezas dos novos e novíssimos ricos, os intelectuais e artistas enfatuados, os políticos arrivistas e corruptos. Execrava, ruidosamente, a ignorância e o fanatismo.

Estreitou amizade com Francisco Sá Carneiro, ao apadrinhar a aproximação íntima com Snu Abecasis. Assim, só em 1979, por insistência de Francisco Sá Carneiro, ingressou na Aliança Democrática. Finalmente, passou a ser deputada pelo PSD. Assumiu, como era de presumir, posições em divergência frontal com a linha de orientação política e religiosa da quase totalidade do PSD e do CDS.

A defesa do aborto deu lugar a uma intervenção de Natália que agitou a Assembleia da Republica. Ficaram célebres os seus versos, ao arrasar o deputado do CDS João Morgado, por ter proferido, no auge do debate parlamentar sobre a legislação sobre o aborto, a afirmação perentória que “o ato sexual é para fazer filhos”. Natália não se conteve e escreveu, de jato, um poema que circulou, em todo o país, até porque sairia, no dia seguinte, no “Diário de Lisboa”: “Já que o coito — diz Morgado — /tem como fim cristalino, /preciso e imaculado/ fazer menina ou menino;/ e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca,/ temos na procriação/ prova de que houve truca-truca./ Sendo pai só de um rebento, /lógica é a conclusão/ de que o viril instrumento/ só usou — parca ração! — / uma vez. E se a função/ faz o órgão — diz o ditado —/ consumada essa exceção,/ ficou capado o Morgado!”

Confirmaram-se todas as apreensões. Nem o PSD lhe renovou o mandato, nem o PS — à frente do qual estava Jorge Sampaio — aceitou a proposta de entrar nas listas. Natália aderiu, então, ao Partido Renovador Democrático (PRD), que se constituiu sob a égide de Ramalho Eanes. Porque nada mais lhe restava, em 1992, cerca de um ano antes de falecer, juntamente com José Saramago e Luís Francisco Rebelo, entre outros, integrou a Frente Nacional Para a Defesa da Cultura (FNDC). Foi no segundo mandato presidencial de Mário Soares. Tinha por objetivo denunciar violações à liberdade de expressão, à ausência de pluralidade e diversidade na cultura e exigir uma estratégica para a real democratização do país. Os mal-entendidos e os conflitos reacenderam-se. O projeto extinguiu-se.

O percurso literário

Os primórdios da escrita de Natália Correia aproximam-se, em alguns aspetos, do neorrealismo. Demarcou-se, todavia, deste movimento literário e político. Ela própria explicou a sua opção: “Se pus ‘Anoiteceu no Bairro’ (romance da sua autoria, de 1946) à margem, não foi por ter sido escrito numa fase imatura da minha vida, mas porque o entendo inautêntico. Embora o livro corresponda a preocupações ideológicas que mantenho, não estou interessada em fazer literatura programada.” Era da opinião que, entre nós, “se fizera neorrealismo de empréstimo, de segunda mão” (...) “não se agitaram as pessoas e as instituições de forma a tornar visível o lodo depositado no fundo”(...) “Houve o medo” — concluiu — “de se realizar sequer um realismo a sério, porquanto este exige uma descida ao inferno e não vejo por aí quem se atreva além do purgatório”. Por isso se afastou do neorrealismo, cortou com a orientação literária e política de escritores portugueses que o representavam, muitos dos quais pertenciam ao Partido Comunista ou estavam próximo dele. Foi ainda mais explícita: “Não podemos competir — insistiu — com os mestres do neorrealismo americano e europeu, que, bons ou maus, para quem aprecia o género, já disseram a última palavra.”

Seguiu outro caminho que prosseguiu, com variantes óbvias. Passou a estar próxima do surrealismo. Já tinha relações pessoais com Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Alexandre O’Neill, Manuel de Lima, Mário Henrique Leiria e David Mourão-Ferreira. Acrescente-se Luís Pacheco, editor dos surrealistas e de livros de Natália nesta fase literária: “Dimensão Encontrada” (1957), “Passaporte” (1958), “Comunicação” (1959) e, mesmo, “O Canto do País Emerso” (1961).

A propósito da ligação ao surrealismo e aos surrealistas portugueses fez questão de observar: “Se existe qualquer relação entre a minha poesia e o surrealismo é francamente a posteriori, isto é para os que quiserem vê-la. Quanto a procurarem antecedentes, também temos por cá outros mais à mão que foram surrealistas sem pensar nisso: Gomes Leal e Sá Carneiro.”

A criação de Natália, sempre avessa a códigos literários e estéticos, verificou-se nos livros de poemas, nos romances, nas memórias, nas peças de teatro e nos ensaios, nasce e expande-se, em todos os sentidos, mergulha na complexidade do mundo, umas vezes numa interpelação provocatória, outras em torno das mais ínfimas e subtis realidades. Em suma, um todo bastante diverso, mas coeso, nas suas afinidades eletivas.

O último salão de Lisboa

Mesmo em vida, Natália Correia já pertencia à História de Lisboa. Residia num quinto andar do número 52 da Rua Rodrigues Sampaio, entre a Rua de Santa Marta e a Avenida da Liberdade. Ali permaneceu 40 anos, desde 1953 a 1993. Ali faleceu a 16 de março de 1993, horas depois de chegar a casa, ao regressar do Botequim. O lendário diretor do “Diário de Notícias” Augusto de Castro repetiu, até à exaustão, em livros, discursos e editoriais, que o “último salão literário de Lisboa” fora a casa, em Santa Catarina, de Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921). É certo que marcou um tempo cultural, mas cada época tem o seu salão literário.

Na segunda metade do século XX, a casa de Natália Correia, entre várias outras, foi um espaço privilegiado de convívio, rodeado de uma fabulosa biblioteca, de notáveis obras de arte e de surpreendentes peças de arte decorativa. A hospitalidade afetuosa conjugava-se com a estatura intelectual dos convidados de Natália, em noites inesquecíveis que avançavam pela madrugada. Durante a passagem por Lisboa ofereceu receções a Marcel Marceau (que entrevistei, em 1959, ao lado de Natália, para o jornal “República”); ao poeta russo Ievtuchenko, ao poeta Henri Michaux; e, já no Botequim, ao jornalista e escritor Dominique de Roux, autor do enigmático romance “O Quinto Império”; e ainda aos escritores americanos Graham Greene e Henry Miller.

Visceralmente açoriana

Ficou sempre agarrada aos Açores. Nasceu, viveu e morreu açoriana. Um dos seus muitos poemas de forte componente insular resume-se nestes versos: “Para Lisboa me trouxeram/ não de uma vez e embarcada:/ minha longa matéria foi/ pouco a pouco transportada./Recém-vinda de ficada/ em morosa maravilha,/ sempre a chegar a Lisboa/ e sempre a ficar na ilha”.

Num dos seus livros mais emblemáticos, “Não Percas a Rosa”, encontramos sucessivas recordações da infância e da adolescência associadas a memórias gustativas, olfativas e visuais como, por exemplo, o cozido das Furnas sempre com inhames e maçarocas de milho. Desce mesmo ao pormenor: “Cozidas na terra fervente e mole à beira da Lagoa e que depois comemos numa mesa de pedra sob as plumas dos fetos; por entre colinas de pedra pomes, líquenes, musgos, mantos verdes que pendem dos ribanceiros onde se abrem as alas rosadas e azuis das hortênsias.” Ficou a ser, por vários motivos e até ao fim, uma ilha dentro da sua própria ilha.

O Botequim

Multiplicaram-se as dificuldades financeiras. O marido, Alfredo Machado, um jogador compulsivo, deixou de ter os recursos para manter uma vida aparatosa para Natália possuir em casa um salão — o seu palco doméstico — para receções faustosas e requintadas.

Em 1971, Natália, com o marido e a escultora Isabel Meyreles fundaram, no Largo da Graça, onde existiu em tempo uma carvoaria, um bar restaurante que lhe permitiu um novo espaço para voltar a pontificar. Tinha necessidade permanente de espetáculo. Chamava-se O Botequim, um nome que remetia para os cafés e restaurantes de Lisboa, do século XVII, do tempo de Bocage, da implantação do regime liberal e da independência do Brasil.

Rapidamente, O Botequim ganhou a maior notoriedade. Existiam (e existem) outros centros de convívio e de conspiração: o Snob, na Rua do Século; o Procópio, nas Amoreiras; o After Eight, na Praça das Flores. Nenhum deles, comparável a O Botequim.

Concentravam-se no Botequim poetas e escritores de várias tendências. Políticos de todos os quadrantes. Deputados, ministros, atuais ou futuros, presidentes da República. Representantes da FLAD, o movimento da independência dos Açores. Incorporou as fases conturbadas do processo revolucionário e contrarrevolucionário que vivemos na sequência do 25 de Abril.

Encontrava-se Natália envolvida, em 1971, em controvérsias políticas e literárias que deram brado em todo o país. Desencadeara no consulado de Salazar e na “primavera marcelista” duas ruidosas polémicas que a levaram à barra do Tribunal Plenário de Lisboa. O primeiro processo, motivado pela introdução e coordenação da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica” (1965). O segundo processo devido à responsabilidade editorial das “Novas Cartas Portuguesas” (1972), da autoria de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Ambos os livros desencadearam o alarme da Censura e a imediata apreensão da PIDE. Natália foi julgada e condenada, ao cabo de nove anos de guerrilhas judiciais. O 25 de Abril determinou o ponto final.

A presença carismática de Natália pontificou, no Botequim, durante mais de 20 anos. Com a morte de Natália, morreu o Botequim. Revive, contudo, no livro de Fernando Dacosta “O Botequim da Liberdade” (Lisboa, 2013). Na “Fotobiografia de Natália Correia”, de Ana Paula Costa (2006) e na extensa biografia romanceada de Filipa Martins “O Dever de Deslumbrar” (2024). Um facto, porém, é incontestável: malograram-se as tentativas de revitalizar o Botequim. Com a morte de Natália, o Botequim ficou morto e enterrado.

Ela e só ela

A memória de Natália perdura na sua obra. Pouco antes de falecer reuniu as poesias completas em dois volumes e com o título genérico “O Sol das Noites e o Luar dos Dias” (1993). Clara Rocha classificou nesta síntese lapidar: “O retrato de uma voz que se modula nos sons da fúria ou da emoção lírica, do riso ou da mágoa, da saudade e da vivência, mas que estremece e, livre, resiste, se transforma e transforma.”

O nome de Natália encontra-se consagrado em ruas, de Lisboa e dos Açores, em diversas bibliotecas, no repertório musical de Carlos Alberto Moniz e num café de Angra do Heroísmo e com a seguinte lápide: “Quando me derem por morta/ de lágrimas nem uma pinga:/ um trevo de quatro folhas/ tenho debaixo da língua./ Está em regra o passaporte./ Venha o limite de idade/ não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade./ Túnel, poço ou espiral/ suga a alma. Fica o corpo./ Vai-se a cópia sideral/ e isso não é estar morto.”

As comemorações centenárias — a realizar de 2023 a 2024 — em Portugal, em França e noutros países vão, mais uma vez, demonstrar que está viva.

Recuperado o espólio de Natália Correia

O património familiar de Natália resumia-se aos bens de um tio, irmão do pai, o padre Francisco Oliveira Correia, muitos anos pároco da freguesia da Achadinha, na costa norte da ilha de São Miguel. Acumulou bens patrimoniais e depósitos bancários. Era extremamente conservador. Como poderia aceitar a separação da mãe do pai, a rebeldia literária e política de Natália e, ainda por cima, três casamentos civis consecutivos? — com Dias Ferreira, em 1949; com William Hylen, e com Alfredo Machado, um homem muito mais velho (e a partir de 17 de março de 1990 viria ainda a casar com um amigo íntimo de longos anos, o poeta e realizador Dórdio Guimarães). O resultado foi óbvio. O advogado José de Medeiros Tavares (1899-1986), da Ribeira Grande, a meu pedido, sem levar quaisquer honorários, consultou as possíveis disposições testamentárias. Obviamente, Natália e a irmã ficaram sem hipótese de se habilitar aos bens móveis e imóveis. No início do livro “Não Percas a Rosa” (1978), Natália aludiu ao tio com o maior desdém.

Pertenciam ao colecionador Manuel Cardoso Martha — a quem Natália, na casa da Rodrigues Sampaio deu acolhimento no final da vida — a biblioteca, os quadros, óleos, guaches, desenhos, esculturas e objetos raros de arte decorativa. Era amigo de sua mãe e também o professor de Natália que, durante anos, contribuiu para que ficasse com uma sólida cultura intelectual. Apurou-lhe os conhecimentos de língua portuguesa. Desenvolveu-lhe os rudimentos de francês e inglês, que passou a falar e a escrever corretamente.

O viúvo de Natália, o poeta e realizador Dórdio Guimarães, viria a ser o herdeiro natural de todos os bens de Natália que eram de Cardoso Martha. Após a morte de Dórdio Guimarães, que fizera 16 testamentos, Luís Fagundes Duarte, na altura diretor regional da Cultura, decidiu avaliar a importância da biblioteca. Como solução de emergência mandou fotografar cada uma das prateleiras das numerosas estantes. Incumbiu o advogado Álvaro Monjardino de clarificar este processo. Por tudo isto o espólio distribuiu-se por São Miguel, para a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; pela Biblioteca Nacional de Lisboa e pela Sociedade Portuguesa de Autores. Evitou-se o roubo e a dispersão. Manuel Cardoso Martha (1882-1958) figueirense dos quatro costados, lecionava em Lisboa na Escola Fonseca Benevides. Antigo seminarista, com profundo conhecimento das humanidades clássicas da literatura portuguesa e das várias literaturas europeias, Cardoso Martha era um notável erudito, bibliógrafo, bibliófilo, colecionador de manuscritos e de livros raros e antigos.

Entre numerosos manuscritos encontrou-se uma coleção de poesias — cuja capa reproduzimos — com o título “O Purgatório dos Poetas: Poesias Eróticas d’Alguns Escritores Portugueses dos Séculos XV a XIX / Coligidas por Cardoso Martha — 1935”. Revista e acrescentada com autores contemporâneos, viria a constituir a polémia “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”, coordenada por Natália Correia e editada por Fernando Ribeiro de Melo. A herança de Cardoso Martha — que organizou em 1912 e 1913 no Grémio Literário o I e II Salão dos Humoristas — possuía desenhos, aguarelas e guaches de Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Christiano Cruz, Jorge Barradas e outros participantes no primeiro modernismo.

O então presidente e vereadores da Câmara da Figueira da Foz fizeram diligências para que todo esse acervo literário e artístico ficasse depositado no Museu Santos Rocha, na altura a cargo de Vítor Guerra. Consultados os advogados Manuel João da Palma Carlos e Luís Francisco Rebello, amigos de Natália e do marido Alfredo Machado, apenas terão sido entregues à Figueira da Foz livros e opúsculos relacionados com a cidade e o seu concelho. Um tema ainda a investigar. António Valdemar – Portugal in “Blog de São João del-Rei”

António Valdemar - Jornalista e investigador, sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e sócio correspondente português para a ABL-Academia Brasileira de Letras-cadeira nº 3.




terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Nações Unidas - Jornalista português lembra da importância da rádio durante a crise em Timor-Leste

Miguel Caldeira trabalhou na programação da emissora durante anos de instabilidade no país de língua portuguesa. O profissional lembra que a rádio ajudava as famílias deslocadas a decidir o momento de voltar para casa e ainda popularizou a língua portuguesa


As Nações Unidas marcaram neste 13 de fevereiro o Dia Mundial da Rádio. Este ano, a data celebra a importância do veículo em situações de conflito, comemorando também os 75 anos das Missões de Paz da ONU.

A ONU News conversou com o português Miguel Caldeira, que esteve à frente das transmissões de rádio em Timor-Leste durante os anos de instabilidade política na nação do sudeste asiático.

O rádio como único meio de comunicação

Ele relata que o noticiário era uma das únicas formas de levar informações à população e lembra que, com a falta de recursos, os programas dependiam de voluntários e “muita coragem” para irem para o ar.

“A rádio era sem dúvida o principal informador. As pessoas, sobretudo que viviam longe da capital ou das duas principais cidades, só recebiam notícias através da rádio. As notícias chegavam a conta gotas, porque embora houvesse uma rádio de comunidade, em cada um dos distritos de Timor, não havia muitas vezes eletricidade e os voluntários que trabalhavam nas diferentes rádios não tinham total disponibilidade para informar. Muitas vezes, eles próprios também não tinham acesso a essa informação, mas quando tinham, era com muita coragem e muita dedicação que se deslocavam até estas casas. Eu lembro que num dos distritos, a rádio parava na casa de banho, tinham uma mesa de mistura por cima da retrete e era lá que se fazia, sem qualquer vergonha.”

As Nações Unidas atuaram em Timor-Leste de 1996 até 2012. Até 2002, a organização apoiou a transição para independência e eleições no país. No entanto, o país ainda sofreu com a instabilidade política e crises humanitárias, estendendo o mandato da missão por mais uma década.

Crise social e política

Miguel Caldeira contou à ONU News as suas memórias de quando esteve no país em 2006, em meio a uma crise política e social pela qual o Timor-Leste passava.

Em visita a um campo de deslocados, onde viviam cerca de 100 mil pessoas, ele pode observar a importância da rádio não só para levar notícias, mas também para que as pessoas pudessem saber quando era seguro voltar para casa.

“O rádio acabava por ser, mais uma vez, essa única fonte de informação. O governo usava e nós fazíamos programas de rádio para mostrar às populações como é que estava a situação em casa, se era ou não seguro regressar e para dar opções. Muitas destas pessoas e famílias não tinham nada, tinham a roupa que tinha no corpo e pouco mais. O governo disponibilizava material de construção, por exemplo, e de transporte, para as famílias regressarem a casa. Muitas destas pessoas tinham esses pequenos rádios nas tendas para ouvir e aqueles que não tinham rádio, nós pusemos altifalantes nos carros e íamos até aos campos e as pessoas sentavam se à volta, e mais uma vez, através do áudio, conseguia perceber quais eram as opções e muitas dessas famílias acabaram por regressar a casa. Enfim, graças à rádio”.

Língua portuguesa em Timor-Leste

Segundo o jornalista, o rádio também foi um importante meio para a popularização da língua portuguesa em Timor-Leste.

“Timor-Leste é um país com duas línguas oficiais. Também o indonésio é muito falado, mas o tétum e o português acabam por ser as línguas oficiais do país. E o programa, um dos programas que criámos, significava ‘reconciliação’. Esse programa e esses programas de rádio que começaram em tétum, percebemos que era importante também começar a promover conteúdo em português e criamos uma relação tanto para a televisão como para a rádio, de falantes de português, jovens que não eram jornalistas, mas que conheciam e tinham muito interesse na língua. Foram eles que começaram a desenvolver conteúdos em português para que as populações pudessem, muitas delas, reconciliar-se umas com as outras depois destes, destas convulsões sociais e políticas que aconteceram no país”.

Timor-Leste tem o tétum e o português como línguas oficiais. Durante a última Assembleia Geral, o presidente do país asiático, José Ramos-Horta, afirmou à ONU News que até 2030, metade da população deve falar português.

Segundo ele, no começo dos anos 2000, apenas 1% da população era lusófona. Atualmente, o governo acredita esse número já chegue a 40%.

Caldeira explica que o tétum é uma língua maioritariamente falada e com algumas variantes. Embora ele domine o idioma, o jornalista revelou que quando não sabia alguma palavra, trocava pelo português e todos eram capazes de entender.

Informação para população em deslocamento

Sobre a data, a chefe de comunicações estratégicas do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas, Francesca Mold, afirmou que as redes de rádio operadas nas missões são vitais para atingir comunidades diversificadas e de grande escala, especialmente em locais onde a penetração da Internet é fraca e a população é muito móvel devido a conflitos e deslocamentos.

Em mensagem, ela deixou o seu agradecimento aos que trabalham em estações de rádio de manutenção da paz, em situações difíceis e às vezes perigosas, pelo imenso esforço para ajudar a proteger as comunidades e construir a paz.

Francesca Mold também reconheceu o trabalho das demais emissoras, especialmente às redes independentes que ajudam a compartilhar informações baseadas em factos e a dissipar a desinformação.

Ela afirma que essas plataformas promovem o diálogo inclusivo, abordam questões de interesse para as populações locais e espalham mensagens de paz. ONU News – Nações Unidas


terça-feira, 22 de novembro de 2022

Brasil - Com texto sobre a relação da cidade de Santos com Portugal, escritor santista participa da FLIP


O jornalista, fotógrafo e escritor santista Ronaldo Andrade participa da 20ª FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), no estado do Rio de Janeiro, que acontece entre os dias 23 e 27 de novembro, com o texto ‘Santos, cidade de alma portuguesa’, que aborda a relação do município com Portugal.

Pela primeira vez no evento, Andrade terá o texto publicado em duas obras: ‘Coletânea da Academia Contemporânea de Letras’, com sessão de autógrafos no dia 26, às 10h, e na Antologia ‘Alma em palavras – Volume II’, com sessão de autógrafos no dia 27, também às 10h.

Os dois livros são da Editora Conejo, que terá um estande no evento para os lançamentos: a Casa Conejo (Rua da Lapa, 375 / 411), no Centro Histórico de Paraty.

‘Santos, cidade de alma portuguesa’, aborda as semelhanças do município com Portugal em diversos aspectos, como na arquitetura, gastronomia, cultura e especialmente nos laços familiares, visto que recebeu grande número de imigrantes portugueses que ajudaram a construir e moldar sua identidade – Braz Cubas, por exemplo, natural da cidade do Porto, foi o fundador de Santos.

O texto também faz menção ao ‘Patriarca da Independência’, o santista José Bonifácio de Andrada e Silva, que teve importante papel para a Independência do Brasil, em 1822, e que manteve fortes laços com Portugal por meio de estudos e de cátedra na Universidade de Coimbra.

Em Portugal, onde morou por três anos e meio, Andrade participou de três edições da Feira do Livro de Lisboa, com o lançamento dos livros ‘A mulher do comboio’ (publicação independente) e ‘Eleição de síndico’ (Chiado Editora), obra posteriormente traduzida para o espanhol (Editora Letraviva) e lançada na Feira do Livro de Buenos Aires.

Na Academia Contemporânea de Letras, Andrade tem como patrono o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, cujo centenário de nascimento foi celebrado no último dia 16.

Portugal representado na FLIP

A 20.ª edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty acontece a partir desta quarta-feira, com representantes de Portugal, como a escritora Patrícia Lino e ainda Alice Neto de Sousa.

“Palavra Livre” é o título da mesa que reúne Alice Neto de Sousa (Portugal), Lázaro Ramos (Brasil) e Midria (Brasil), no dia 26 de novembro, às 20h30. Com moderação de Anabela Mota Ribeiro (Portugal), a proposta que a curadoria traz para esta mesa “responde à emergência de novas vozes, às margens dos espaços clássicos de consagração literária, e traz a sua força lírica, a um só tempo poética e política. Em diálogo com outras linguagens, a mesa contempla a performance e a memória do corpo, que se reafirmam nas artes dramáticas e na própria escrita.”

A mesa é realizada com o apoio do Camões – Centro Cultural Português em Brasília. Confira toda a programação em https://www.flip.org.br/flip-2022/programa-principal/.

Neste ano, a Flip homenageia Maria Firmina dos Reis. O legado da autora é o de uma insistente vigilância sobre os valores humanos, capaz de situar, no centro do debate contemporâneo, a educação e a imaginação, mas também a educação para a imaginação. Trata-se de visibilizar quem trabalha pela palavra e por um ambiente cultural e educacional mais acolhedor, seja nas margens ou nos centros econômicos do país, segundo organização. In “Mundo Lusíada” - Brasil