Morreu, na quarta-feira, dia 10 de
junho, aos 92 anos, o suíço Jean Ziegler, um suíço como
nenhum outro. Professor, sociólogo, escritor, político e, o mais importante, o
inimigo número 1 dos bancos suíços, cujo livro A Suíça Lava mais Branco,
foi denúncia internacional, editado também no Brasil.
Ziegler foi o intelectual suíço mais detestado e mais
criticado na Suíça e, ao mesmo tempo, o mais amado e respeitado no que se
chamava de Terceiro Mundo. Foi amigo de Sartre, de Simone de Beauvoir, de
Guevara e dos grandes líderes de esquerda da época.
Quando num encontro com Guevara, disse querer ir lutar na
América Latina, Guevara lhe respondeu - "Não, você tem de ficar na Suíça, onde está a cabeça do
monstro".
Ziegler foi professor universitário, deputado federal
suíço e relator especial da ONU sobre direito à alimentação.
Era detestado na Suíça
O nome de Jean Ziegler começou a ser detestado pelos
financistas, pela elite financeira e bancos suíços em 1976 com a publicação do
livro Uma Suíça Acima de Qualquer Suspeita, no qual Ziegler denunciava
os lucros das multinacionais suíças às custas dos países pobres, o segredo
bancário incentivador da sonegação de impostos com a fuga para a Suíça de
capitais estrangeiros e o controle das instituições suíças pelos meios financeiros.
Alvo de numerosos processos por bancos e entidades
financeiras, Ziegler revelava, no fim da vida numa entrevista para Swissinfo, ter perdido seus
bens nas condenações de que fora alvo. Felizmente, tinha o cargo de relator da
ONU para a Alimentação e havia a publicação de uma vintena de livros com
bastante sucesso no Exterior.
No dizer da imprensa, seus livros eram suas armas, tanto
que o jornal suíço Le Temps chamou-o de
"guerrilheiro da sociologia", ao noticiar sua morte.
Um desses livros, responsável por processos e notoriedade
no Exterior, foi A Suíça Lava mais Branco, pelo qual seus colegas
deputados federais lhe tiraram a imunidade parlamentar. Veio a seguir A
Suíça, o Ouro e os Mortos, tratando da neutralidade suíça, durante a
Segunda Guerra Mundial. Os livros de Jean Ziegler eram publicados no Brasil
pela Editora Brasiliense.
Embora de família suíço-alemânica protestante e
conservadora, Ziegler aderiu ao marxismo ao estudar Direito em Paris.
Eu havia lido, em Paris, seu livro Uma Suíça Acima de
Qualquer Suspeita, e ao me mudar para a Suíça, onde trabalhei para a Rádio
Suíça Internacional, quis logo conhecer e entrevistar Jean Ziegler. Fiz
diversas reportagens sobre ele para a Rádio Suíça Internacional e, mais tarde,
para jornais e rádios brasileiros e portugueses.
Acabamos ficando amigos e quando estourou o escândalo do
desvio de dinheiro público para bancos suíços pelo ex-prefeito e ex-governador
Paulo Maluf, recebi o convite do Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial
para contar num livro minhas reportagens para a CBN sobre Maluf. Foi Jean
Ziegler quem escreveu o prefácio desse livro, cujo título é Dinheiro Sujo da
Corrupção.
Essas reportagens tinham custado minha demissão da CBN, como
contou para o Observatório da Imprensa o jornalista paraibano Carlos Aranha.
Também o jornalista Lúcio Vilar, no texto Políticos
Viraram Marionetes, publicado no Correio da Paraíba e Observatório da Imprensa,
escreveu: "Se o dinheiro é o sangue dos pobres... os milhões de dólares
transferidos por Maluf e escondidos na Suíça, com a cumplicidade dos banqueiros
suíços, são o sangue e as lágrimas dos favelados de São Paulo" assim
escreveu Jean Ziegler... no prefácio do livro O Dinheiro Sujo da Corrupção.
Rui Martins – Suíça
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Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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