Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Brasil - Mulheres de esquerda nos canais Youtube

Este texto não é exatamente um comentário, mas nasceu de uma curiosidade: depois de ter acompanhado alguns canais do Youtube dirigidos por mulheres politicamente de esquerda, eu quis saber se esses vídeos tinham muitas visualizações e inscritos. Fiquei sabendo e houve também muitas surpresas.

Assim, lancei na Internet o tema - vídeos feitos por mulheres de esquerda no Youtube - e logo surgiram diversas informações, entre as quais a mais precisa vinha pelo Instagram do canal "mídialivreoficial", me exibindo uma lista atualizada dos maiores canais de esquerda do Youtube. Bastava ir separando os canais de direção feminina.

Minha surpresa foi a de constatar ser da jornalista, Ana Lesnovski, doutora em Comunicação, o canal com maior número de inscritos, num total de 1,78 milhão. Meteoro Brasil foi criado em abril de 2017 com o objetivo de divulgar cultura pop, política, ciência e jornalismo. Nessa época e até 2024, o canal pertencia ao casal Ana Lesnovski e Álvaro Borba. Com a separação do casal, comentada aqui no OI, Ana herdou o canal Meteoro e passou a contar com a participação da jornalista Sophia La Banca, passando a se dedicar apenas aos comentários políticos e entrevistas.

Na sétima posição dos maiores e mais vistos vem o canal de Rita von Hunty, com o título de Tempero Drag, que eu ainda não conhecia e me apressei a visitar e me inscrever. Na verdade, Rita não existe, é uma "persona" criada e vivida por Guilherme Terreri Lima Pereira, drag queen, formado em arte cênica, ator, Youtuber. O sucesso de Rita von Hunty é espetacular porque a soma de seus seguidores, nos canais em diversas redes, ultrapassa 3 milhões. O canal Tempero Drag tinha por objetivo tratar de veganismo, mas hoje Rita discorre com bastante verve, na sua excelente e rápida expressão oral, sobre marxismo, política, ecologia, LGBTQIA, feminismo, sociologia e literatura.

Na oitava posição, vem a influenciadora Andréa Gonçalves, cujo crescimento no Youtube acompanhei, logo nos seus primeiros posts. Ela comenta três vezes ao dia, ao vivo, as principais atualidades políticas. Advogada, teve um crescimento rápido no Youtube, ultrapassando em pouco tempo os canais Ninja, o Portal do José e o portal do Clayson e reunindo mais de 1,30 milhão de inscritos. Não tem papas na língua.

Reunindo política e humorismo vem a pernambucana Damares de Oliveira com seu canal com nome bem sugestivo -  Igreja Biscateriana, no qual ela se identifica como Bispa Damares sem Goiabeira. Numa entrevista para o canal Forum, no qual fala do seu estilo escrachado, da sua linguagem chula, na qual distorce e debocha, (deboche santo, diz ela) dos nomes e dos políticos da extrema-direita bolsonarista.

Ela conta ter recebido um telefonema da senadora Damares, no qual ela pedia para não usar seu nome e nem a referência à goiabeira (a senadora dizia ter tido um encontro com Jesus, quando tinha subido numa goiabeira). Mas a Youtuber explicou ter também o nome de Damares, só poderia mesmo tirar a goiabeira. Agora seus vídeos têm a assinatura Damares sem Goiabeira. Ex-empregada de supermercado, sem ter completado seu curso de jornalismo, Damares diz viver hoje do seu canal e das contribuições por Pix dos inscritos.

Enfim, ainda não colocada entre os canais mais vistos, vem a influenciadora Aline Câmara, a primeira especialista brasileira na Síndrome do Trauma Religioso, como ela mesmo define, uma epidemia nacional vivida pelos evangélicos.

De origem pobre, lutadora e boa debatedora, Aline, ex-evangélica, tendo sofrido as repressões próprias da religião, faz no Youtube o inverso dos pastores - prega com inteligência e bons argumentos o ateísmo.  Seu sucesso chamou a atenção do influenciador Breno Altman, que a entrevistou no canal Opera Mundi. Rui Martins - Suíça

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Brasil - Clubes jovens fortalecem autonomia feminina para jovens e mulheres

Proposta é mudar contextos dominados por homens, oportunidades de misoginia e ensinar jovens a defender-se na esfera digital. A ONG Girls Up nasceu nos EUA e alastra-se a outros países. A socióloga Munah Munek disse à ONU News que debate entre meninas e meninos é essencial para construção de uma nova realidade


Quem ouve as jovens? Uma jovem brasileira que lidera clubes para jovens defende que elas precisam ocupar espaços de destaque, desde a própria comunidade até os grandes centros de poder.

Já uma socióloga participante na 70.ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher, CSW, considera urgente conquistar o direito e a legitimidade de falar de igual para igual.

Impacto na Sociedade

Neste mês de março, o Mês da Mulher, levou milhares de vozes femininas a Nova Iorque. Na sede da ONU, a 70.ª CSW teve brasileiras da iniciativa global Girl Up promovendo um evento especial com foco na saúde menstrual de adolescentes e principais perguntas de milhares de jovens.

Em 2026, os debates foram guiados pelo lema: “Justiça. Ação. Para todas as Mulheres e Meninas”. Em pauta: o direito à liderança, o acesso aos espaços de decisão e a luta ativa contra a desigualdade e a violência.

A ONU News conversou com Lucília, representante da ONG Girls Up. Ela atua diretamente com clubes locais que ajudam a quebrar as barreiras impostas às mulheres, na expectativa de mudar a trajetória e o futuro dessas jovens.

“O que acontece muito é que, às vezes, nós não temos voz, nós meninas mais jovens, acabamos não tendo tanta voz nos debates e existem muitas questões que as meninas precisam que sejam ditas. Então, um dos tópicos que a gente vem falando muito sobre ultimamente é a dignidade menstrual, como as necessidades que certas meninas têm com relação à sua saúde menstrual. Elas precisam ser ouvidas, quais as adaptações que precisam ser feitas, mas essa voz muitas vezes não ecoa onde ela precisa ecoar. Então, nós viemos aqui como uma forma de trazer essa mensagem, que essas meninas precisam que cheguem mais longe para que elas sejam atendidas.”

Expor o que jovens passam e precisam

Quem também participou da conversa foi a socióloga Munah Munek. Na conversa com a ONU News, ela ressalta que abrir espaço para a juventude debater e expor as suas necessidades é essencial, seja para meninos ou meninas.

Segundo a especialista, nada supera a sensação de saber que a sua voz tem valor.

“É um sentimento muito bom de abertura, realmente, porque, como eu falei, às vezes esse espaço não é aberto. Então, quando nós conseguimos abrir esse espaço e esses jovens e essas jovens, meninos, meninas, quando todos conseguem sentir que o espaço foi aberto para que o debate aconteça, para que nós consigamos trazer as nossas perguntas, é uma coisa muito boa, porque não existe nada melhor do que sentir que você está sendo ouvido. Então, é uma coisa realmente muito gratificante ver essas meninas, esses jovens, podendo trazer a sua realidade, falar, é isso aqui que acontece na minha região, na minha casa foi desse jeito, e essas pessoas sentem que, finalmente, estão podendo expor aquilo que elas passam e que elas precisam.”

Estratégias de segurança digital

A presença da Girl Up vai muito além do Brasil: trata-se de uma força global. Nascida nos Estados Unidos, a ONG atua em nações como México, Chile, Argentina e Índia, moldando as suas ações de acordo com as necessidades específicas de cada região.

A apresentação mostrou estratégias que as jovens usam para reivindicar direitos e engajar outras meninas de forma presencial ou virtual. Além disso, destacou a necessidade de fortalecer a conexão com jovens de outros continentes.

“Na Girls Up Brasil, a gente tem algumas parcerias para esse projeto, em especial, sobre saúde menstrual, que a gente vai falar hoje, nós temos a parceria do Instituto Alana, que é um instituto também que trabalha para promover a igualdade, o crescimento, o desenvolvimento de crianças no Brasil, e a Girls Up Brasil também se organiza em diversas frentes, além de menstruação. Nós trabalhamos também com democracia, com política, encorajando meninas a não só se candidatarem, serem lideranças, mas também trabalharem para promover o voto jovem, para consciencialização política pela democracia, trabalhamos também com as áreas de tecnologias, meninas nas ciências, estamos muito enfocadas também em seguranças e estratégias de segurança digital, e com o nosso pilar de saúde, onde está a saúde menstrual, a saúde mental, também trabalhando esses eixos.”

No diálogo, Munah Munek destacou ainda um avanço recente e importante para meninas na busca por equidade: a segurança digital dos menores, agora garantida por lei modernizada no Brasil.

Em vigor desde 17 de março, o chamado ECA Digital atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente e moderniza a proteção dos jovens na internet.

“ECA é o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é uma lei que nós temos no Brasil, se eu não me engano é desde 1992, é uma lei extremamente sofisticada no que tange à proteção dos direitos de crianças e adolescentes, desde garantir a eles o acesso à vida comunitária, o direito à saúde, educação, lazer, ao brincar, colocando crianças e adolescentes como prioridade absoluta em todos os temas que tangenciam as nossas vidas. O que a gente faz na Guerra UP é aumentar, extrapolar essa questão da segurança, também dando para essas jovens que trabalham, que estão dentro da nossa rede, conectadas dentro da nossa comunidade, a possibilidade de exercerem as suas lideranças”.

Para Munah, atualizar as ferramentas de segurança digital, criar um senso de comunidade e formar líderes são passos que transformam a realidade de milhares de meninas.

Maior projeção

Lucília, por sua vez, faz um alerta: é urgente que as meninas sejam ouvidas em todos os níveis de decisão. Ela acredita que, ao dar espaço para essas vozes, as jovens passarão a ocupar lugares de destaque, desde o dia a dia na comunidade até os grandes centros de poder.

"A primeira coisa que todas nós queremos é que o mundo esteja aberto a nos escutar, não só sobre a nossa saúde, mas, como a Munah falou, a Girl Up atua em diversos temas e nós queremos fazer parte de todos esses temas. Isso não significa necessariamente estar na ONU ou estar no Congresso Nacional, óbvio que estar nesses lugares é uma coisa maravilhosa, a Girl Up Brasil já esteve nos dois, então é claro que nós queremos essas oportunidades também, mas se nós pudermos ser ouvidas nas nossas casas, nas nossas ruas, bairros, cidades, onde tudo começa, exatamente, dos lugares menores aos de maior projeção, se nós pudermos ser escutadas em todos os temas que têm algo a ver com a nossa existência, aí eu acredito que as meninas vão ter o  direito e a propriedade para lidar com o mundo da forma que nós queremos”

Potencializado pela atuação dos clubes, o novo mecanismo para garantir um ambiente digital seguro e a proteção integral da infância exigirá uma responsabilidade compartilhada entre famílias, plataformas e o Estado. A medida também requer ferramentas rigorosas de verificação de idade e controlo parental.

O trabalho da Girl Up aborda, ainda, o combate à exploração sexual e os desafios impostos pelas plataformas digitais, que afetam as meninas de forma desproporcional. Eleutério Guevane – Brasil ONU News


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Estados Unidos da América - Mulheres não devem votar

Quando li, há dois anos, o livro premonitório do escritor Douglas Kennedy sobre uma nova secessão dos Estados Unidos, em 2045, depois de uma guerra civil, achei um tanto excessivo. A história começa com execução pública na fogueira de uma atriz de teatro, trans e judia nova iorquina, por haver proferido, numa de suas apresentações, reflexões consideradas blasfémias sobre Jesus, morrendo de medo antes de ser crucificado.

Donald Trump era só um possível pesadelo, porém, há dois anos ninguém poderia imaginar (exceto Douglas Kennedy) nem um terço do que vem sendo praticado por Trump nestes primeiros meses de governo.

Como ainda lhe restam três anos e meio, nada parece impossível em termos de rompimento com a tradição democrática norte-americana. Ninguém pode se considerar seguro num país sem garantia por tempo de serviço, sem garantia de função, onde ministros, professores, reitores, altos funcionários públicos são demitidos e onde Trump parece empenhado em limpar da história os lados negros da escravidão com uma triagem nos livros nas bibliotecas. Em breve haverá uma revisão nos programas escolares e já se pode prever censura política nos cenários de filmes e na edição de livros.

Estarei também sendo excessivo como critiquei o escritor Douglas Kennedy? Talvez não, infelizmente.

A Idade Média, durante a qual o Ocidente viveu alguns séculos, chegou ao fim, entre outros fatores, com a invenção da prensa de Gutenberg, facilitando o acesso ao conhecimento pelos livros e principalmente à livre interpretação dos textos sagrados. Uma importante consequência foi a Reforma acabando com a primazia da Igreja Católica e permitindo a prática independente do culto cristão sem submissão aos dogmas papais.

Pouco a pouco, o poder religioso de Roma foi se esvaecendo, enquanto o fim do feudalismo, transformações sociais, revoluções e crises econômicas impulsionaram na direção de formas democráticas de governo até as atuais grandes concentrações econômicas, oligarquias,  convivendo com ditaduras políticas e teocracias, sem se esquecer das novas tecnologias de comunicação, das high tech, geradoras das redes sociais e de novos tipos de comunicações humanas imediatas, tudo conectado à inteligência artificial.

Tudo isso são os albores de um novo mundo e de novas conquistas sociais? Aparentemente não. Ao contrário, esses albores parecem anunciar o despertar de tempos já vividos.

E um sucesso de livraria na Europa dos livros do escritor italiano Giuliano da Empoli A Hora dos Predadores e Os Engenheiros do Caos não são obras de premonição, mas tratam da nossa realidade.

Um mundo de populistas como Trump e Bolsonaro, como diz a apresentação dos livros, cuja incompetência e erros se transformam em qualidades para seus eleitores. Porém, eles seriam incapazes de ir mais longe se não fossem apoiados pelos especialistas do Big Data. Pessoas desconhecidas do grande público estão mudando as regras da política que, paradoxalmente, parecem provocar ou ameaçam provocar uma enorme marcha-a-ré nas relações internacionais e sociais do nosso mundo.

Por que essa forte dose de descrença? Ao ler mais um dos projetos retrógrados do governo Trump, anunciados pela imprensa - o de retirar das mulheres o direito ao voto.

Num comunicado trocado com pastores evangélicos norte-americanos, o ministro da defesa Pete Hegseth mostrou-se favorável ao fim do voto feminino e à sujeição das esposas ao seu marido, ao republicar no X um trecho das entrevistas de pastores evangélicos contra o voto feminino.

Isso no contexto de declarações do pastor Dough Wilson das Igrejas Reformadas Evangélicas, sobre os EUA como um país cristão num mundo cristão, sem mulheres participando das Forças Armadas.

Para reforçar essas tomadas de posição contra a liberdade e igualdade das mulheres com os homens, outro pastor declarou à CNN que, numa sociedade cristã ideal, o voto seria por família representada pelo marido.

Com esse tipo de regressão, as mulheres norte-americanas evangélicas acabarão perdendo seus direitos e se tornarão como as mulheres iranianas e islâmicas (que podem votar), cidadãs de segunda classe. Rui Martins – Suíça

___________

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Namíbia - Líder em igualdade de género

Trinta e cinco anos depois da sua libertação, a Namíbia, liderada pela SWAPO, tem uma Presidente, uma vice-Presidente e o Governo com mais mulheres em todo o continente africano.

Chefiado pela Presidente Netumbo Nandi-Ndaitwa ou NNN, como é carinhosamente tratada, eleita democraticamente, à primeira volta com 57% de votos, o novo Governo namibiano, com 60 por cento de mulheres, bate o record africano detido até então pelo Executivo cabo-verdiano do primeiro-ministro José Maria Neves que, em 2014, tinha 58% de mulheres



NNN, a segunda mulher africana eleita Presidente da República por sufrágio secreto, directo e universal, escolheu para vice-presidente Lucia Witbooi, 64 anos, tornando a Namíbia no primeiro país africano a ter duas mulheres nos dois principais cargos governamentais.

São essas mulheres e seus colegas homens minoritários que terão a missão de trabalhar para diversificar a economia, aumentar o investimento na agricultura para satisfazer as necessidades alimentares dos namibianos e atacar o desemprego com taxa de cerca de 19%, sobretudo o desemprego jovem que atinge os 39% de taxa, uma das piores chagas sociais do País com cerca de três milhões de habitantes.

Quinta Presidente do País fundado pelo panafricanista Sam Nujoma, depois de mais de duas décadas de luta armada pela independência nacional, Nandi-Ndaitwa, lutadora pela libertação da Namíbia, desde os 14 anos, escolheu um elenco governamental que faz jus ao seu percurso de defensora da paridade de género em todos os sectores da sociedade, particularmente na política.

Nesse percurso destaca-se a liderança de NNN do processo que culminou com a decisão da SWAPO de aprovar, no início deste século, a criminalização da violência de género, bem como de incluir na Constituição namibiana medidas de defesa da paridade de género em lugares de tomada de decisão.

Assim, como sublinha o Monitor de Género da SADC, a Constituição da Namíbia contém disposições sobre a igualdade de género, não discriminação e acção afirmativa das mulheres e, desta forma, está na base dos avanços alcançados pelo País.

Para garantir a adequada representação das mulheres nos órgãos electivos, a Lei Magna namibiana começa por reconhecer a marginalização e a discriminação de que as mulheres têm sido vítimas ao longo de séculos.

Depois, insta o Parlamento a adoptar medidas concretas para corrigir as desigualdades e a legislar pela promoção dos namibianos que têm sido "social, económica e educacionalmente desfavorecidas por leis ou práticas discriminatórias do passado.

Consequentemente, exige "a implementação de políticas e programas destinados a corrigir desequilíbrios sociais, económicos ou educacionais, decorrentes de leis e práticas discriminatórias do passado"

Determina ainda a adopção de medidas especiais para permitir que as mulheres desempenhem um papel de igualdade com os homens nos sectores público e privado.

Dessa alteração constitucional resultou diversa legislação pela igualdade de género, nomeadamente a "Lei de Acção Afirmativa" que atribui responsabilidades ao Estado "para garantir a igualdade de oportunidades para as mulheres, para que possam participar plenamente em todas as esferas da sociedade ".

Resultou também a Lei das Autoridades Locais que garante a apresentação pelos partidos de um sistema de representação proporcional.

Nessa senda, a Namíbia adoptou para o período 2025-2035 o terceiro programa nacional de equidade e igualdade de género que inclui o aprofundamento dos direitos das mulheres e adopção de direitos digitais com foco nas questões de género.

Avanços que traduzem um percurso coerente, centrado na Educação e com resultados que colocam o País em lugares cimeiros nos rankings africanos e internacionais em índices de igualdade e paridade do género.

Com uma taxa de alfabetização feminina (15-24 anos) de 96%, segundo dados do Banco Mundial, no Índice Global de Diferença de Género (2024), a Namíbia ocupa o oitavo lugar mundial e o primeiro africano no ranking dos países com mais igualdade de género, à frente de estados como a Espanha ou Reino Unido.

O Índice citado mede a distribuição da riqueza, as oportunidades entre homens e mulheres, as desigualdades de género na economia, no mundo laboral, na educação, na política, bem como a esperança de vida.

Desde a independência, mas sobretudo nos últimos dez anos, o País tem tido uma evolução constante nesse domínio. Passou do 44º lugar em 2013 para a actual oitava posição desse Índice, uma subida única no continente.

A nível do continente, de acordo com o Banco Africano para o Desenvolvimento (BAD), o País de Netumbo Nandi-Ndaitwa ocupa a primeira posição do Índice de Género em África, à frente do Rwanda que tem o parlamento com mais mulheres no Mundo, 63,8%.

Nessa avaliação englobando factores como a participação da mulher no desenvolvimento social, as oportunidades económicas e sua representação em espaços de poder, o BAD coloca a Namíbia no topo com 0,883 pontos, seguida do Lesotho (0,824) e do Rwanda (0,795).

Desde a alteração constitucional pela igualdade de género, a pátria de Sam Nujoma, que em 1997 tinha apenas 19,4% de deputadas, tem aumentado sucessivamente a percentagem de mulheres no parlamento, atingindo o valor máximo de 46,5% na legislatura anterior, 2020/2025.

Na actual legislatura, iniciada em Março passado, os 40,6% de mulheres parlamentares, representam o quinto lugar continental, segundo a União Interparlamentar (UIP), atrás do Senegal (41,2), Cabo Verde (44,4), Africa do Sul (44,8) e Rwanda, campeão africano e mundial (63,8).

O investimento de mais de nove por cento do PIB na Educação, o mais elevado da África Austral (quase cinco vezes mais que Angola), a aposta na educação das raparigas e a adopção de políticas de discriminação positiva a favor das mulheres, nomeadamente no domínio do digital estão a contribuir para essa transformação da Namíbia.

Gastos na Educação três vezes superiores aos do sector da Defesa e que representam cerca de 25% da despesa pública do País. Os namibianos, que têm ensinos primário e secundário grátis para todos até ao 12ª ano de escolaridade, gastam 353 euros/per capita na educação e apenas 107 euros/per capita na defesa, de acordo com cifras oficiais do País.

Estes avanços em matéria de igualdade de género são extraordinariamente relevantes num continente onde, até aqui, apenas 13% dos 54 estados membros, constituíram governos paritários.

Moçambique, África do Sul, Rwanda, Etiópia e Guiné-Bissau são os outros estados africanos que se juntam à Namíbia e Cabo Verde na restrita galeria de países africanos que já tiveram governos paritários.

Por outro lado, desde o advento das independências africanas, nos anos 50 do século XX, somente sete estados continentais (13%) tiveram mulheres presidentes da República. Ellen Johnson-Sirleaf, da Libéria (dois mandatos, 2006-2018), prémio Nobel da Paz-2011, foi a primeira africana eleita por sufrágio secreto, directo e universal.

Tal como acontece na Tanzânia com Samia Suluhu Hassan, actual Chefe de Estado, no Malawi, Joyce Banda, então vice-Presidente, chegou à liderança deste País da África Austral, membro da SADC, depois da morte do Presidente Bingu wa Mutharika, em 2012, levando o mandato até ao fim, 2014.

Ambas da África Austral, Netumbo Nandi-Ndaitwa e Samia Hassan da Tanzânia, que ascendeu ao cargo em 2021 na sequência da morte por doença do Presidente John Magufuli, são neste momento as duas únicas mulheres chefes de Estado em África.

Entre Janeiro de 2014 e Março de 2016, Catherine Sanza-Panza, eleita pelo Conselho Nacional de Transição assume a presidência da República Centro Africana, depois do golpe de Estado, que derrubou o Presidente François Bozizé, em Março de 2013.

Na História das mulheres chefes de Estado africanas há também presidentes sem poder executivo, em sistemas parlamentaristas, como a Etiópia e as Maurícias.

Sahle-Work Zewde, que terminou o seu mandato em 2024, foi eleita pelo parlamento etíope em 2018, em substituição de Mulatu Wirtu, que apresentara a sua demissão, num país onde a/o Chefe de Estado tem responsabilidades essencialmente simbólicas e honoríficas.

Noutro regime parlamentarista, nas Maurícias, entre 2015 e 2018, Ameenah Gurib, desempenhou as funções presidenciais, antes de se demitir na sequência de um escândalo financeiro.

Num continente sedento de bons exemplos, a Namíbia, mantendo-se na rota panafricanista, usa os seus vastos recursos naturais, designadamente diamante, urânio, cobalto, lítio, terras raras, petróleo e gás e seu PIB de 11,7 biliões de dólares em programas políticos que elevam o Pais a líder em igualdade e equidade de género. Luzia Moniz – Angola in “Novo Jornal”


quinta-feira, 10 de abril de 2025

Timor-Leste - Desigualdades contribuem para exclusão das mulheres, diz relatório

As desigualdades continuam a afectar as mulheres em Timor-Leste o que contribui para a pobreza e para a exclusão baseada no género, segundo um relatório temático sobre análise de género apresentado em Díli



O relatório foi feito a partir dos dados do Censo da População e Habitação de 2022 do Instituto Nacional de Estatística timorense com o apoio de várias agências do sistema das Nações Unidas.

O documento refere que o casamento precoce continua a ser uma preocupação com 12% das mulheres, com idades entre os 20 e os 24 anos, a terem casado antes dos 15 anos e 4,9% antes dos 18.

Segundo o relatório, os agregados familiares chefiados por mulheres, que representam cerca de 17,8% do total, são mais pobres e a dupla responsabilidade de cuidados diminui as suas oportunidades económicas. “A intersecção entre a pobreza, a exclusão do mercado de trabalho e as vulnerabilidades de género sublinha a marginalização contínua das mulheres, especialmente as dos grupos mais desfavorecidos”, salienta o documento.

Apesar de a esperança de vida à nascença para as mulheres ser maior, 69,2 anos, a taxa de mortalidade materna mantém-se elevada com 413 mortes por 100.000 nascimentos.

Apenas 59,2% das mulheres rurais receberam assistência qualificada no parto, em comparação com 91,8% nas zonas urbanas, refere o relatório. “Estas disparidades são ainda moldadas pelas variações no nível de educação materna e na riqueza dos agregados familiares”, pode ler-se no documento.

Em relação à educação, o relatório releva avanços com mais raparigas do que rapazes a frequentarem o ensino primário, secundário e universitário. Mas, mesmo com o aumento no acesso à educação, persistem disparidades na literacia com 33% das mulheres a nunca terem frequentado a escola, o que reforça os ciclos geracionais de pobreza e marginalização.

O relatório destaca que um dos “fatores mais críticos que impulsiona a pobreza baseada no género é a fraca participação das mulheres na força de trabalho”.

A taxa de participação na força de trabalho para as mulheres é de apenas 29,7%, o que significa que por cada 100 homens a trabalhar há apenas 70,9 mulheres. “As mulheres estão desproporcionalmente envolvidas em emprego vulnerável (50,1%), em comparação com os homens (39,2%), o que muitas vezes pode estar associado à falta de benefícios sociais, salários mais baixos e condições de trabalho inseguras”, sublinha o documento.

Aquela disparidade é ainda mais agravada pela responsabilidade tradicional de cuidado, que continua a ser assumida por mulheres e que as limita no acesso ao emprego formal e oportunidades económicas.

Para a secretária de Estado da Igualdade de Timor-Leste, Elvina de Sousa Carvalho, o relatório não é apenas um conjunto de dados estatísticos, mas um “espelho que reflete a realidade”. “Mostra-nos que apesar de progressos importantes, ainda há muito por fazer para garantir que todas as mulheres e raparigas possam alcançar o seu pleno potencial em todas as dimensões da vida”, afirmou a responsável governamental. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 13 de março de 2025

Angola - Associações rubricam protocolo em Portugal para formação de mulheres e jovens

A Associação para Mulher e Criança (AMC) e a Associação Juvenil de Apoio às Comunidades (AJACOM) rubricaram, na última terça-feira, em Braga, um protocolo com a Synergia Portugal para a formação de mulheres e jovens



O memorando tripartido assinado pelos presidentes da Synergia Portugal, AMC, e da AJACOM pretende lançar a Synergia Angola e impactar a vida de mulheres e jovens por meio da formação em Angola e de estágios em Portugal.

No acto de lançamento, Ricardo Sousa, citado por uma nota, enviada ao JA Online, explicou que com este protocolo as instituições estabelecem um compromisso para contribuir para a promoção do progresso educativo, económico, social e cultural da região, através de acções e projectos voltados para o desenvolvimento de competências.

As partes estão focadas, igualmente, na criação de mecanismos de cooperação que tornem possíveis a participação conjunta em iniciativas que reforcem a cidadania e a responsabilidade social, fortalecendo o capital humano e institucional.

Já o líder da AMC, Filipe Ndofula, destacou a necessidade de os parceiros investirem mais em acções que possam impactar mulheres, crianças e jovens em matérias de educação, saúde, formação profissional e empreendedorismo para a promoção de inclusão produtiva, económica e independência financeira feminina.

Por seu turno, o presidente da AJACOM, Hermenegildo Manuel, fez saber que, nesta primeira fase, deverá ser implementado, por um período de três anos, o projecto “Jovens em Acção – JÁ” para promover a qualificação de jovens e mulheres angolanas, por meio de cursos de formação profissional, capacitando-as nas áreas de Electricidade Civil, Frio e Climatização, Corte e Costura, Pastelaria, Serralharia Civil, Construção Civil, Ladrilho e Pladur, Canalização, Soldadura em Mig Mag e Culinária, refere o documento. In “Jornal de Angola” - Angola


sábado, 30 de novembro de 2024

Moçambique - Jovem diz que mulheres vivem “terror diário” em áreas de conflitos

Rafaela Andrade participa no 10º Fórum Global da Aliança das Civilizações que decorre em Cascais, Portugal, o evento reúne milhares de pessoas de todo o mundo, incluindo mulheres africanas que lutam pela igualdade de género



Rafaela Andrade sempre se interessou por temas relacionados com direitos humanos, mas com o ressurgir da violência em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, a atenção desta jovem moçambicana virou-se especificamente para as mulheres.

De Cascais, Portugal, onde participa no 10º Fórum Global da Aliança para as Civilizações, ela contou que centenas de mulheres estão a viver um terror diário ao serem violentadas, de formas inimagináveis, ou porque têm de deixar os seus lares, fugir e tentar outras oportunidades”.

A jovem moçambicana explica que as mulheres são desproporcionalmente afetadas, não apenas por conflitos, mas também por uma situação generalizada de pobreza no país.

“São as menos educadas, as que têm menos acesso a recursos, ao financiamento, são as que têm suas vozes muitas das vezes caladas”. A ativista acrescenta que a igualdade já existe na lei moçambicana, mas falha na aplicação prática.

Jovens mulheres pela paz

Rafaela Andrade fez parte de um programa-piloto de 2023 para jovens mulheres e a construção da paz, promovido pela ONU Mulheres, em colaboração com a Aliança das Civilizações, o Fundo de População das Nações Unidas, Unfpa, e o Fundo das Nações Unidas para Infância, Unicef.

A jovem moçambicana refere que a participação no programa marcou uma viragem na forma como olha para a paz e qual o seu papel para manter a segurança de mulheres e raparigas.

“Levantar a voz ainda é um desafio enorme no país. Portanto, jovens como eu, que tivemos a oportunidade de ter essa abertura para o mundo, somos nós responsáveis por também fazer essas vozes ouvirem-se ao nível do país”, defende.

Mais de 600 milhões afetadas pela guerra

De acordo com a ONU, 612 milhões de mulheres e meninas são afetadas por guerras atualmente, equivalente a mais da metade do que há uma década. No caso de Moçambique, a Unfpa revela que mais de 2,5 mil mulheres e meninas precisam de cuidados básicos como resposta à violência sexual.

Quanto à mediação de paz, a participação de mulheres na tomada de decisões e na política está estagnada em países afetados por conflitos. Na última década, a percentagem de participação feminina em negociações de paz ficou abaixo de 10% em todos os processos e em menos de 20% em iniciativas lideradas ou apoiadas pelas Nações Unidas.

Mulheres à mesa de debate

É um cenário que Rafaela Andrade quer mudar, através da criação de uma associação que possa servir de base para projetos de capacitação de mulheres e raparigas, defendendo uma participação ativa das mulheres no espaço público moçambicano.

“Precisam estar na mesa do debate, precisam ser ouvidas, precisam que se entenda quais são as suas reais necessidades, não faladas por outrem, mas faladas por elas próprias”, explicou à ONU News.

Projetos intergeracionais

Para já, a jovem ainda está a dar os primeiros passos, para perceber a aplicação das leis e como podem ser melhoradas. Espera contar com a ajuda das mulheres mais jovens, mas não só. O objetivo é trazer ao diálogo diferentes gerações, incluindo mulheres e os decisores políticos.

Segundo Rafaela Andrade, são esses que um dia irão tomar a decisão sobre o que realmente deve ser feito em nível de país. Sara Rocha – Portugal ONU News


quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Nações Unidas - Organização Internacional para as Migrações alerta para preconceitos contra imigrantes brasileiras em Portugal

Relatório da Organização Internacional para as Migrações destaca “estereótipo sexual” sobre as mulheres brasileiras. O projeto Brasileiras Não Se Calam quer dar voz a quem vive o preconceito na hora de imigrar

A Organização Internacional para as Migrações, (OIM) alertou para a persistência de um estereótipo sexual sobre as mulheres imigrantes de nacionalidade brasileira em Portugal, no Relatório sobre Migrações Mundiais 2024.

No relatório, a OIM revelou que “os estereótipos da hipersexualidade das mulheres nos países de destino também afetaram as mulheres migrantes, como as brasileiras em Portugal”. Elas seriam estigmatizadas como trabalhadoras de sexo o que estaria “a conduzir a riscos acrescidos de sofrerem assédio sexual e violência de género”.

Brasileiras Não Se Calam

O chefe de missão da OIM em Portugal, Vasco Malta, confirma à ONU News que este tipo de preconceito ainda persiste em Portugal. Esta realidade “faz com que estas mulheres tenham muita dificuldade em encontrarem uma habitação condigna e que sejam vítimas de preconceito, de xenofobia e de racismo”.

Mariana Braz conhece bem estas dificuldades, sobretudo desde que lançou, em 2020, o projeto Brasileiras Não Se Calam. Juntamente com outras quatro mulheres, criou uma página no Instagram com o objetivo de recolher relatos de assédio e discriminação contra brasileiras imigrantes em todo o mundo.

A psicóloga, que vive em Portugal há sete anos, revela à ONU News que o projeto já recebeu centenas de relatos de brasileiras em vários países da Europa, como Portugal, Espanha, Alemanha e Inglaterra, mas também já receberam mensagens de brasileiras a viver no Japão ou no Egipto.

“Não é uma coisa a nível pessoal, é uma coisa estrutural e acho que compartilhar os relatos acaba fazendo com que as mulheres tenham consciência dessas violências, tanto as que já emigraram e também as que pretendem emigrar, de irem um pouco alertadas de que isso pode acontecer.”



“Situação de muita vulnerabilidade”

A especialista confirma que a discriminação acontece nos mais diversos espaços, incluindo nos transportes públicos, no local de trabalho, nas universidades, mas o acesso à habitação é uma das principais dificuldades das imigrantes brasileiras.

“Embora isso seja uma prática que é criminalizada, acontece muito das pessoas ligarem e já na ligação falar não arrenda para brasileiros e aí a imigrante fica numa situação de muita vulnerabilidade.”

Muitas imigrantes brasileiras veem-se confrontadas com a exigência do pagamento de cauções muito elevadas ou acabam por ter de arrendar casa em zonas mais afastadas do local de trabalho. Mas para Mariana Braz, o relato com mais impacto até hoje chegou por parte de uma adolescente brasileira em Portugal que foi vítima de assédio sexual na escola por parte de colegas.

“Ela procurou a direção da escola para contar o que aconteceu e a direção culpabilizou-a porque ela é brasileira e foi para a escola de calça jeans”, afirma.

Séculos de preconceitos coloniais

Mariana Braz afirma que muitos destes preconceitos foram construídos ao longo de séculos, com início na colonização do Brasil, e que se mantêm até hoje no imaginário social português.

“Muitos desses relatos estão ligados a um suposto corpo colonial que é enxergado como podendo ser tocado sem consentimento, que é visto como exótico, como promíscuo e, por isso, supostamente sempre disponível para o ato sexual”, lamenta.

Vasco Malta lembra que a vaga de imigração brasileira nos anos 1990 também contribuiu para este estereótipo. O impacto da crise financeira dessa altura no Brasil, associada à entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia criou as condições para que muitos jovens brasileiros imigrassem para terras portuguesas, sobretudo pessoas com poucos recursos.

Mães de Bragança

O chefe de missão da OIM recorda o caso das “Mães de Bragança”, que em 2003 criou um movimento de mulheres portuguesas que procuravam a expulsão de brasileiras que trabalhavam em bordéis na cidade de Bragança. A repercussão foi tal que acabou por fazer capa em vários jornais de referência global.

“Muitos se lembrarão da capa da TIME sobre as Mães de Bragança, para relembrar que o preconceito e a ligação da mulher brasileira à prostituição já vem em Portugal desde essa altura”, acrescenta.

Apoio jurídico e psicológico

Com mais de 54 mil seguidores na rede social Instagram, o grupo Brasileiras Não se Calam evoluiu para uma rede de entreajuda para brasileiras a viver no estrangeiro, com grupos de apoio psicológico, jurídico, aulas e cursos. Em outubro o grupo vai lançar um podcast para dar voz a mulheres, cuja nacionalidade ainda é um rótulo.

Os relatos que vão chegando à OIM em Portugal são encaminhados para as autoridades, mas ainda é difícil denunciar.

“Acho que muitas pessoas acabam cometendo essa discriminação porque têm certeza da impunidade, têm certeza que não vai dar em nada, porque o processo é muito burocrático para que se faça denúncia.”

Mulheres imigrantes sofrem mais

O chefe de missão da OIM garante que as mulheres migrantes em Portugal enfrentam mais desafios e estereótipos que os homens migrantes, o que acaba por dificultar a plena integração na sociedade.

“Já foi reportado, algumas vezes, a violência de género e se a mulher está num âmbito de uma relação abusiva, não falando a língua, tem logo uma maior dificuldade em pedir apoio e tem uma muita dificuldade para escapar”.

Vasco Malta aponta ainda o acesso ao mercado de trabalho qualificado e à saúde como as principais dificuldades.

O Relatório sobre Migrações Mundiais 2024, divulgado em maio de 2024, incidiu ainda sob o impacto da pandemia da covid-19 para os fluxos migratórios e destacou a rapidez com que Portugal tomou medidas excecionais para responder às necessidades dos imigrantes, nomeadamente ter "regularizado temporariamente o estatuto de todos os migrantes". Sara Rocha – Portugal ONU News

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Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa


segunda-feira, 29 de julho de 2024

Portugal - Universidade de Coimbra premeia seis projetos criados e liderados por mulheres nas Tecnologias da Informação e Comunicação

O Departamento de Engenharia Informática (DEI) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), vai premiar, esta quarta-feira, dia 31 de julho, seis projetos criados e liderados por mulheres no ramo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), em Portugal.

A cerimónia de entrega do prémio “Founding Inspiring Futures” (FIF) 2024 terá lugar na sala A5.4 do DEI, pelas 14h30, e conta com a presença do diretor do departamento, Jorge Henriques, em representação do DEI e enquanto membro da comissão de acompanhamento do First Foundation.

De modo a promover o talento feminino e a importância da diversidade e da inclusão das mulheres no ramo das TIC, o projeto “Inspira - Balance” organizou esta iniciativa nacional de reconhecimento, visibilidade e premiação de projetos criados e liderados por mulheres nas TIC, ativas na academia, a nível nacional, contando com o apoio da Universidade de Coimbra e financiamento do First Foundation Project, promovido pela Feedzai Lda.,

No FIF 2024 serão premiados seis projetos desenvolvidos em contexto académico, divididos em Protótipo Intermédio e Projetos Implementados. As premiadas receberão um vale FNAC no valor de 500 (1.º prémio), 250 (2.º prémio) e 150 euros (3.º prémio).

Para assistir à cerimónia deve inscrever-se aqui. Universidade de Coimbra - Portugal



terça-feira, 11 de junho de 2024

Portugal – Universidade de Coimbra promove prémio “Founding Inspiring Futures” destinado a mulheres ligadas à área das TIC

O Departamento de Engenharia Informática (DEI) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai promover o prémio “Fouding Inspiring Futures” (FIF 2024), no âmbito do projeto “Inspira-Balance”, dedicado à promoção do equilíbrio de género na informática.


De modo a promover o talento feminino e a importância da diversidade e da inclusão das mulheres no ramo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), o projeto “Inspira - Balance”, com o apoio da Universidade de Coimbra e financiamento do First Foundation Project, promovido pela Feedzai Lda., vai dinamizar esta iniciativa nacional de reconhecimento, visibilidade, e premiação de projetos criados e liderados por mulheres nas TIC, ativas quer na academia, quer no tecido empresarial, em Portugal.

No FIF 2024 serão premiados o total de seis projetos (três desenvolvidos em contexto académico e três desenvolvidos em contexto empresarial). As premiadas receberão um vale FNAC no valor de 500 (1.º prémio), 250 (2.º prémio) e 150 euros (3.º prémio). As candidaturas estão abertas até ao dia 2 de julho e pode inscrever-se aqui.

Para participar é necessário submeter o formulário de inscrição e de consentimento, um vídeo até dois minutos a explicar o projeto e uma memória descritiva até mil palavras. Para mais informações sobre o concurso, consultar esta  ligação. Universidade de Coimbra - Portugal


terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Nações Unidas - Um quinto das moçambicanas com filhos sofreu violência

A parceria entre a Unicef e a Comunidade dos Países da África Austral aponta situação generalizada e persistente que afeta milhões de pessoas; pobreza, desemprego, fragilidade dos quadros legais, conflitos armados e crises humanitárias são factores que agravam o problema na região

Um relatório do Fundo da ONU para a Infância, Unicef, e da Comunidade dos Países da África Austral, SADC, indica que a prevalência de violência sexual, física e emocional na região está entre as mais altas do mundo.

A média de jovens e mulheres que são vítimas de sexo forçado durante a vida é de 17%. Até 80% das crianças sofrem episódios de violência em casa, segundo as estatísticas.



Moçambique com taxa reduzida na região austral

A ONU News em Maputo falou com a especialista do programa de géneros na Unicef em Moçambique, Rossella Albertini. Ela disse que uma das maiores preocupações é o baixo nível de procura de auxílio das autoridades.

“Em Moçambique, uma em cada cinco mulheres e raparigas que já tiverem filhos experimentaram alguma forma de violência por parte dos parceiros. Metade nunca procuraram ajuda. Apenas uma em cada sete foi encaminhada para os serviços. Pelo lado positivo, os esforços para mudar atitudes em relação à violência revelam um progresso importante, sendo Moçambique entre países da região com a taxa mais baixa de justificação para espancamento da esposa.”

As duas entidades que realizaram o estudo apelam à melhoria em campos como legislação, políticas e orçamentos para combater a violência baseada no género.

Fraca Denúncia

Para Rossella Albertini, apesar de Moçambique estar entre os países com menos casos de violência, há necessidade de intensificar o apoio à resposta à violência baseada no género.

Ela disse que essa medida poderá garantir uma cobertura nas zonas rurais e urbanas e uma assistência acessível e de qualidade às sobreviventes.

“Os dados revelam que esta violência continua a ser pouco denunciada e que as pessoas sobreviventes não têm acesso aos serviços de apoio, o que representa uma clara ameaça para a sua saúde física e mental. É um risco acrescido de gravidezes precoces, indesejadas que podem comprometer os resultados de desenvolvimento das crianças e ter repercussões importantes nos resultados escolares sobre tudo da rapariga.”

Prevenção a VBG

Uma das soluções para a redução de casos de violência baseada no género é o engajamento nas áreas de mobilização. A sensibilização das comunidades e a abordagem do tema nas escolas são prioridades.

A especialista citou também a confiança no processo de denúncia como elemento fundamental.

Direitos sexuais e reprodutivos

“A prevenção é crucial se queremos reduzir os casos e para que isso seja eficaz vamos ter de apoiar a mudança para formas de masculinidade que sejam positivas e não violentas nas diferentes gerações, adultos, jovens e adolescentes, promovendo relações de poder equitativo entre os géneros e capacitando as mulheres e raparigas para que possam exercer os seus direitos sexuais e reprodutivos num ambiente seguro.”

Recentemente, a diretora regional da Unicef para a África Oriental e Austral, Etleva Kadilli, afirmou que as causas profundas da violência contra crianças e mulheres assentam em desequilíbrios de poder. O abuso ocorre ao longo das dimensões da idade e do género.

A pobreza, o desemprego, os quadros legais frágeis, os conflitos armados e as crises humanitárias foram apontados como elementos que exacerbam a elevada prevalência de violência nos países da África Austral.

A taxa de mortalidade por homicídio entre crianças, adolescentes, meninas e mulheres na região da SADC foi quase o dobro da média do resto do mundo.

Violência envolvendo o parceiro íntimo

As uniões prematuras também prevalecem na África Austral, com 30% das jovens mulheres casadas antes dos 18 anos de idade.

O relatório aponta que quase um terço delas, ou 31%, foi vítima de alguma forma de violência pelo parceiro íntimo no último ano e em toda a região.

A Unicef e os países da SADC asseguram continuar a implementar os esforços pelo fim da violência contra meninas, rapazes e mulheres. A prioridade será para ações de prevenção, resposta e garantia de inclusão. Ouri Pota – Moçambique ONU News


terça-feira, 13 de junho de 2023

Moçambique - Associação Kulungwana lança concurso para estimular produção literária das mulheres

A Associação Kulungwana realiza a primeira edição do Concurso Tio Caderno 2023, dedicado, este ano, à literatura. A chamada está aberta até 7 de Julho e é dirigida a jovens mulheres moçambicanas com paixão pela escrita, até aos 35 anos.


O concurso promovido pela Associação Kulungwana acontece em resposta ao convite do espírito de iniciativa dum cidadão benemérito – que se pretende manter anónimo – e que dedicou a sua vida a apoiar os estudos de crianças e jovens moçambicanas. Estas acções fizeram com que, por onde quer que ele passasse – nas localidades, vilas e distritos onde distribuiu materiais didáticos – se tornasse conhecido de todos como Tio Caderno.

O concurso tem periodicidade anual e está aberto a todas as modalidades no domínio das artes e cultura. O mesmo tem como objectivo central incentivar e reforçar o apoio a jovens artistas e criativas moçambicanas, ainda em início de carreira ou com uma carreira individual curta e ainda não consagrada, com um limite de idade de 35 anos.

Paralelamente, o Concurso de Literatura Tio Caderno 2023 pretende também promover a criatividade no âmbito da literatura, sensibilizar o público para as narrativas e imaginário das mulheres autoras e para as temáticas por elas retratadas, estimulando na comunidade o gosto pela leitura.

Os formulários Google Forms para candidatura estarão disponíveis até ao dia 7 de Julho (inclusive) através da ligação nas redes Kulungwana.

Os originais devem ser identificados com título e um pseudónimo do autor e entregues em português no formato digital PDF. O texto deve ter entre 5 e 10 páginas A4, Times New Roman, 12, a espaço e meio.

Três jovens autoras serão seleccionadas e distinguidas por um júri de três elementos, de reconhecida idoneidade e competência técnica, escolhidos pela Associação Kulungwana.

O Concurso Tio Caderno 2023 atribui três prémios, no valor global de 150 mil meticais, sendo que o primeiro classificado ganha 70 mil meticais; o segundo ganha 50 mil e o terceiro 30 mil.

“Com este Prémio, é reforçado o apoio à nova criação e à promoção da jovem mulher criadora artística em diferentes áreas no domínio das Artes e Cultura, sendo em cada ano escolhida uma modalidade diferente, tendo por essa razão um regulamento redigido para cada edição”, lê-se no regulamento. Para a presente edição foi escolhida a literatura, nos géneros do conto e crónica, assente no imaginário local, temática livre, obedecendo aos critérios do presente concurso.

Os trabalhos apresentados deverão ser inéditos. Qualquer plágio será da responsabilidade da participante e motivo de exclusão do concurso.

Os originais devem ser assinados com um pseudónimo do autor e identificados com o título e o pseudónimo.

Os originais deverão ser apresentados no acto de preenchimento do formulário disponível no website e no Facebook do Kulungwana.

O anúncio das vencedoras e a entrega dos prémios irão realizar-se em cerimónia pública, a decorrer em Outubro, em local e data a divulgar nas redes Kulungwana, sendo as concorrentes notificadas em devido tempo. In “O País” - Moçambique




quarta-feira, 9 de março de 2022

Portugal - Exposição em Beja ‘conta’ histórias de mulheres assassinadas no Brasil e em Portugal


As histórias de mulheres e de uma menina assassinadas no Brasil e em Portugal estão em foco numa exposição de fotografia e expressão artística, da brasileira Di Barros, que pode ser visitada em Beja.

A mostra, intitulada “Carvão Só, Só Carvão”, está patente na Casa da Cultura, até dia 31 deste mês, e mostra imagens de desenhos feitos com pó de café, explicou a Câmara de Beja, em comunicado.

A iniciativa é fruto de um projeto artístico conceitual de Di Barros, brasileira residente em Portugal, com “forte inspiração da música ‘Pagú’, da cantora de rock brasileira Rita Lee”.

“A proposta considera as histórias de mulheres que foram assassinadas” e está interligada com a “minha experiência pessoal neste campo de violência, onde as vítimas não sobreviveram para contar a sua história”, disse a artista, citada pelo município.

Os trabalhos abordam as mortes da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, “assassinada em 2018, com três tiros na cabeça”, e de Eliza Samudio, “assassinada aos 25 anos, em 2010”, e cujo “mandante do crime” foi um ex-futebolista, pode ler-se nas informações sobre a exposição.

Também em foco estão duas mortes ocorridas em Portugal, a da portuguesa Valentina, a “menina de nove anos assassinada no dia 06 de maio de 2020 pelo pai, na presença da madrasta”, e a da brasileira Camila Mendes, de 30 anos, “morta à facada pelo namorado” e cujo corpo, “em outubro de 2019, foi encontrado numa mala de viagem em Arruda dos Vinhos”.

Além destes casos, Di Barros também dá a conhecer, através da arte, a sua própria história, visto que, no passado, “após terminar com o namorado, teve suas fotografias íntimas divulgadas em redes sociais, como um presente pelos 31 anos”, e recebeu ameaças de morte, acabando por mudar-se com os filhos para Portugal.

Segundo a artista, o objetivo passa por “dar voz às mulheres que foram silenciadas e mostrar que os crimes cometidos contra as mulheres são transversais a todas as idades e classes sociais”.

“Não se trata aqui de uma última homenagem, mas sim de um protesto”, realçou.

Nascida na cidade brasileira de Vitória, em 1984, a artista licenciou-se em Artes Visuais, em 2012, pela Universidade Federal do Espírito Santo, frequentando, já em Portugal, o mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais da Universidade de Évora. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”