Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 19 de maio de 2026

Suíça - Quer fechar as portas

Dia 14 de junho, o povo decidirá por voto secreto se a Suíça deverá limitar sua população em 10 milhões de habitantes. Essa votação foi provocada pelo partido da extrema-direita, UDC, com o objetivo de impedir a entrada de novos imigrantes na Suíça. A sondagem mais recente mostra uma pequena vantagem dos conservadores favoráveis a um limite da população.

A Suíça é um raro país governado pela democracia direta. Isso significa a possibilidade dos suíços proporem modificações nas leis do país nas esferas municipais, cantonais ou estaduais e federais. Não é fácil, mas diversas leis vigentes tiveram sua origem por iniciativa popular, aprovada pela maioria dos votantes em todos os cantões.

Desde sua criação em 1891, já houve mais de 200 iniciativas federais propondo modificações na Constituição suíça, das quais 26 foram aprovadas e entraram em vigor. A mais recente foi a criação e aprovação pelo povo, em 2024, de um décimo terceiro pagamento anual para os aposentados. (Nisso, o Brasil antecipou a Suíça de 61 anos, o décimo-terceiro salário brasileiro criado em 1962, incluiu também a aposentadoria em 1963, no governo João Goulart, deposto no ano seguinte com o Golpe militar de 1964-85).

Existe hoje, na Suíça, uma preocupação pelas consequências negativas, caso a iniciativa popular "Não a uma Suíça de 10 milhões" seja aprovada pelo povo. Experiências parecidas vividas por outros países reforçam as más previsões econômicas para uma Suíça de fronteiras fechadas. Mesmo porque a Suíça seria obrigada a romper compromissos e tratados com a União Europeia tratando da livre circulação de pessoas.

Ainda na semana passada o primeiro-ministro inglês Keir Starmer, logo depois de sua derrota eleitoral, reconhecia os prejuízos da política isolacionista do Brexit e falava numa reaproximação com a União Europeia, embora evitasse tocar num retorno com anulação do Brexit pelas complicações políticas e econômicas decorrentes.

Na verdade, o Brexit foi um tiro no pé, mas a União Europeia não acredita num "Breturn", depois da vitória, nas eleições municipais do partido Reform UK, de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit, junto com Boris Johnson e David Cameron. Um "Swissexit", provocado por um voto popular suíço isolacionista, não teria o mesmo efeito negativo do referendo Brexit?

Outro exemplo de contenção do aumento da população foi o da política do filho único na China, de 1979 a 2015, com o objetivo de garantir o desenvolvimento chinês. Isso acabou criando um desequilíbrio de gênero na China, pois a maioria dos casais, obrigados a ter um só filho, preferia ter menino. A população foi se tornando idosa sem ser gradativamente substituída por jovens, isso gerando uma diminuição da força de trabalho. Desde 2021, os casais podem ter três filhos, mas agora são os casais que decidem ter um ou dois filhos provocando baixa taxa de natalidade e um desequilíbrio demográfico.

Para complicar ainda mais a situação, a China enfrenta uma explosão de casos de demência (síndrome designativa de funções cognitivas que incluem o Alzheimer) na sua enorme população de idosos. Sem esquecer da falta de "cuidadores" dentro da família chinesa para cuidar dos avós e pais envelhecidos. A política do filho único criou para os jovens a responsabilidade de assumir, durante a vida, os cuidados dos 4 avós e dos 2 pais.

O cronista Yves Petignat, do jornal suíço Le Temps, comenta como reagirá a Suíça, se o povo votar, no 14 de junho, pela limitação da população suíça. E destaca o paradoxo de que o partido UDC, autor da iniciativa popular, tem sua força justamente na Suíça rural, longe dos centros urbanos, onde a população está envelhecendo, existe desequilíbrio demográfico e a maioria dos jovens prefere ir viver nos centros urbanos.

Sem os imigrantes, a população suíça já estaria em declínio, principalmente nas zonas rurais. E isso implicaria na falta de mão de obra na lavoura e no tratamento do gado leiteiro. O exílio dos jovens em busca de melhores empregos nas cidades implicaria no fechamento de escolas, enquanto os idosos ficariam sem seus médicos, atraídos por melhores condições e ganhos nos centros urbanos.

Em síntese, uma Suíça egoísta, isolada e fechada, será também um tiro no pé como foi o Brexit para os ingleses. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Suíça – Cidadãos podem aprovar limite populacional inédito e frear imigração no país

A pouco mais de um mês da votação nacional de 14 de junho, o resultado da iniciativa sobre imigração “Não aos dez milhões” ainda é incerto. O referendo contra a reforma do serviço civil conta com uma maioria apertada        


As campanhas estão lentamente a ganhar força, mas, neste momento, o resultado da votação sobre a limitação da população suíça a dez milhões ainda é incerto.

“Observamos um impasse em todos os níveis”, afirma Lukas Golder, do instituto gfs.bern, que realizou a pesquisa em nome da Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SRG SSR), empresa controladora da Swissinfo.

O alto grau de polarização é demonstrado pelo facto de que a opinião dos eleitores já está, em grande medida, consolidada. Cerca de 79% dos entrevistados manifestaram a firme intenção de votar a favor ou contra a proposta. Embora se observem certas diferenças em função da idade, do género ou do rendimento, estas são, em geral, moderadas, afirmou Golder. A filiação partidária é um indicador fundamental.

Aqueles que apoiam o Partido Popular Suíço, de direita, estão praticamente unidos em torno da iniciativa, enquanto os de esquerda se opõem a ela de forma igualmente clara. No entanto, ela é controversa no centro político.

Os indecisos, que atualmente representam 6%, têm, portanto, um papel importante a desempenhar, assim como a capacidade de mobilização dos dois campos. Com 50%, a participação eleitoral prevista está acima da média de longo prazo de 47,1%.

“A mobilização é a grande questão nesta proposta”, afirma Golder.

O quadro é diferente para os cidadãos suíços no exterior: 55% são contra ou um pouco contra, e a proporção dos que são (um pouco) a favor é significativamente menor do que na Suíça, ficando em 38%.

“Esse é um padrão típico, já que a comunidade suíça no exterior tende a ver oportunidades quando se trata de imigração”, diz Golder. Mas também aqui a proporção de eleitores indecisos é da mesma ordem de grandeza que na Suíça.

Quando questionados sobre sua avaliação quanto à possibilidade de a iniciativa ser aprovada, uma maioria muito estreita de 51% dos entrevistados acredita que ela será rejeitada. A campanha ganhará agora força – pode-se esperar um resultado extremamente acirrado.

O argumento apresentado pelos defensores da iniciativa, de que a infraestrutura suíça está sobrecarregada devido ao crescimento populacional, é o mais convincente na pesquisa. Também é significativo o argumento de que o crescimento precisa ser limitado para proteger os recursos naturais.

Os argumentos mais convincentes dos que se opõem à iniciativa incluem as relações bilaterais com a UE, que não devem ser comprometidas, ou seja, a livre circulação de pessoas. Também é significativa a questão da mão de obra qualificada e da prosperidade da Suíça, que ficariam ameaçadas por um limite à população.

Estima-se que ambos os lados invistam um valor recorde de 15 milhões de francos suíços (19,25 milhões de dólares) na campanha – sendo que os opositores gastarão um pouco mais. As associações empresariais, os sindicatos e o Partido Socialista são os que mais gastam, enquanto o Partido Popular Suíço é o principal financiador da campanha pelo “sim”.

Uma pequena maioria é a favor da reforma do serviço civil

A primeira pesquisa mostra uma maioria de 52% a favor da alteração da lei do serviço civil. A esquerda, em particular, se opõe à medida, o que não é de se surpreender – ela também lançou um referendo contra a alteração prevista na lei.

“No entanto, a opinião pública aqui é muito menos estável do que no caso da iniciativa dos dez milhões”, afirma Martina Mousson, da gfs.bern. Esta proposta não está no centro das atenções.

O governo suíço e a maioria dos parlamentares consideram que há muitos homens prestando serviço civil em vez do serviço militar.

“Daria para pensar que existe uma escolha livre entre o exército e o serviço civil”, afirmou o presidente suíço Guy Parmelin antes da revisão da lei. No entanto, em teoria, o serviço civil deveria ser a exceção e não uma alternativa.

De acordo com a pesquisa, a segurança a longo prazo do exército é o argumento mais forte a favor do projeto de lei, que prevê maiores barreiras de acesso ao serviço civil.

“O contexto geopolítico, naturalmente, desempenha um papel importante na campanha”, afirma Mousson.

A oposição no exterior é tão forte quanto a da Suíça. Em contrapartida, o lado (mais) favorável é significativamente mais fraco, com 43%. No entanto, com 16%, a proporção de eleitores indecisos também é significativamente maior do que na Suíça.

No caso de propostas governamentais, a proporção a favor tende a aumentar durante a campanha, mas a posição inicial permanece em aberto. Como a vantagem é limitada e a formação da opinião ainda não está muito avançada, pode muito bem haver mudanças na fase da campanha.

O foco está no efeito de mobilização da iniciativa de imigração “Não aos dez milhões”. A dinâmica e as discussões em torno dessa campanha ainda podem influenciar a formação da opinião sobre a reforma proposta do serviço civil.

Os resultados da segunda pesquisa da SRG SSR serão publicados em 3 de junho. Giannis Mavris – Suíça in “Swissinfo”




domingo, 19 de abril de 2026

Portugal - Imigrantes pagam centenas por cursos de português com certificados inválidos

Imigrantes que não falam português estão a pagar largas centenas de euros por cursos de Português Língua de Acolhimento (PLA), com o objetivo de conseguirem a nacionalidade, mas alguns dos certificados passados não são válidos

A prova de conhecimento de língua portuguesa, que se obtém com o aproveitamento de um nível A2 do curso de PLA, dispensa o imigrante de fazer a “prova da nacionalidade” e por isso a sua procura tem aumentado, assim como as fraudes nesta área.

“Tem aumentado o número de fraudes que vamos tendo conhecimento e que afetam sobretudo pessoas muito vulneráveis”, afirmou à Lusa a diretora do Centro de Avaliação e Certificação de Português Língua Estrangeira (CAPLE), uma unidade orgânica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Segundo Nélia Alexandre, algumas instituições privadas cobram milhares de euros por formações online, como o caso de um imigrante que pagou cerca de 6000 euros por um curso alegadamente certificado, mas que na realidade não tinha qualquer valor.

Os casos chegam ao CAPLE através dos próprios lesados, convencidos que cabe a este centro a sua fiscalização, uma vez que é a única entidade portuguesa que avalia e certifica as competências escritas e orais em português como língua estrangeira.

Contudo, a responsabilidade sobre o desenvolvimento dos cursos PLA é das entidades que os promovem: Os estabelecimentos de ensino da rede pública, a rede de centros do Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP) e a rede de Centros Qualifica, o que se traduz no envolvimento de várias tutelas.

Com o crescimento da imigração em Portugal, sobretudo de cidadãos que não falam português, aumentou a procura destes cursos, com a oferta a não ser suficiente.

A falta de formadores dificulta a resposta, o que em parte se deve à legislação que obriga a que estes docentes sejam da área da língua portuguesa, como disse à Lusa a diretora do Departamento de Formação Profissional do IEFP, Luz Pessoa e Costa.

Atentas a esta procura, algumas empresas e associações privadas que estabelecem protocolos com as entidades oficiais cobram os valores que entendem por cursos que, em determinadas situações, não conduzem a um conhecimento mínimo do português e terminam com um certificado que não faz prova para efeitos de pedido de concessão de autorização de residência permanente, de concessão de estatuto de residente de longa duração e de nacionalidade portuguesa, o que estes imigrantes procuram.

A agência Lusa falou com vários imigrantes que pagaram largas centenas de euros para frequentar cursos de PLA, sobretudo online, porque os gratuitos tinham listas de espera de vários meses e receavam não conseguir a nacionalidade devido ao apertar das regras da imigração em Portugal.

Apesar de a lei determinar que a formação termina com a obtenção de um certificado, o que estes imigrantes procuram na esmagadora maioria dos casos, há registo de situações em que os diplomas não têm qualquer valor para o efeito pretendido.

“Já fomos contactados pela AIMA por esta ter dúvidas sobre determinados certificados de cursos, alegadamente promovidos pelo IEFP. Os casos que eram falsificações e com o uso indevido do símbolo do instituto foram encaminhados para o Ministério Público”, revelou Luz Pessoa e Costa.

Estas situações lesaram, sobretudo, os formandos que ficaram com um certificado sem validade para a aquisição da nacionalidade portuguesa e sem o dinheiro que pagaram pela formação.

Nélia Alexandra garante que, quando chegam ao CAPLE denúncias de situações irregulares, das mesmas dá conta à AIMA, ao IEFP e à ANQEP.

À AIMA, por exemplo, enviou, por email, à respetiva secção da Língua Portuguesa, correspondência e imagens a suportar as acusações, afirmou.

Contactada pela Lusa, a AIMA disse não ter registo de denúncias de situações fraudulentas, esclarecendo que não existe “um mecanismo oficial de reporte de fraude sob a sua responsabilidade”.

E indicou que “a qualidade dos cursos é da responsabilidade das respetivas entidades promotoras e das entidades que as tutelam”.

Isto apesar de a AIMA coordenar, desde 2021, o Grupo de Trabalho PLA, que tem como objetivos a monitorização e a avaliação dos cursos PLA, entre outros.

Em relação aos cursos de PLA ministrados por estabelecimentos de ensino da rede pública, fonte do gabinete do ministro da Educação, Ciência e Inovação disse que as situações de fraude que são reportadas à ANQEP dizem respeito a custos e à obtenção de certificados em entidades que não se enquadram nas entidades promotoras previstas na legislação.

E acrescentou que todas as situações de fraude “são objeto de análise pelas entidades competentes, podendo conduzir à revisão de procedimentos, cessação de protocolos, devolução de apoios financeiros ou outras medidas legalmente previstas”.

“Sempre que as denúncias contenham indícios suscetíveis de configurar a prática de ilícitos, nomeadamente de natureza criminal, as mesmas poderão ser encaminhadas para o Ministério Público, para efeitos de averiguação, nos termos legais aplicáveis”, adiantou. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


terça-feira, 9 de setembro de 2025

Coreia do Sul - Seul vai enviar avião para repatriar mais 300 trabalhadores sul-coreanos detidos nos EUA

A Coreia do Sul vai enviar um Boeing 747-8i da Korean Air aos Estados Unidos para repatriar os mais de 300 trabalhadores sul-coreanos detidos na operação de imigração realizada numa megafábrica da Hyundai na passada sexta-feira

O avião partirá o mais tardar esta quarta-feira do Aeroporto Internacional de Incheon com destino ao aeroporto Hartsfield-Jackson, em Atlanta, Geórgia (EUA), segundo fontes da indústria da aviação citadas ontem pela agência de notícias local Yonhap.

Seul já tinha anunciado que os mais de 300 trabalhadores sul-coreanos detidos após uma grande operação de imigração numa fábrica da Hyundai no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, iriam ser libertados e levados para casa.

As autoridades de imigração dos Estados Unidos anunciaram na sexta-feira que detiveram 475 pessoas, a maioria delas cidadãos sul-coreanos, quando centenas de agentes federais procederam a uma inspeção na fábrica da Hyundai na Geórgia, onde a marca sul-coreana tem uma linha de montagem de veículos eléctricos.

Os agentes concentraram-se numa fábrica ainda em construção, na qual a Hyundai fez uma parceria com a LG Energy Solution para produzir baterias que alimentam veículos eléctricos.

O chefe da diplomacia sul-coreana, Cho Hyun, anunciou no último fim de semana que mais de 300 nacionais da Coreia do Sul tinham sido detidos e que viajaria pessoalmente para os Estados Unidos para tentar acordar com as autoridades norte-americanas uma solução para o caso.

A operação foi a mais recente de uma longa série de inspeções realizadas no quadro da agenda de deportação em massa da Administração do Presidente Donald Trump. Ainda assim, distingue-se pela dimensão e porque o local visado tem sido apresentado como o maior projeto de desenvolvimento económico do estado da Geórgia.

Por outro lado, a operação também surpreendeu Seul, que é uma importante aliada de Washington. Em julho, a Coreia do Sul concordou em comprar aos Estados Unidos 100 mil milhões dólares (85,37 mil milhões de euros) de energia, assim como fazer um investimento em território norte-americano de 350 mil milhões de dólares (298,8 mil milhões de euros) em troca da redução das tarifas alfandegárias decretadas por Trump.

Há cerca de duas semanas, por outro lado, os dois chefes de Estado encontraram pela primeira vez na Casa Branca.

O episódio voltou a colocar em discussão a denúncia constante das empresas sul-coreanas sobre a falta de vistos adequados para enviar técnicos às suas fábricas nos Estados Unidos. A ausência de autorizações de trabalho adequadas levou muitos trabalhadores a viajar com vistos que não lhes permitiam realizar tarefas nas obras em causa, segundo Seul.

Paralelamente, o recente acordo comercial assinado com a administração Trump inclui compromissos de investimento por parte de Seul em áreas-chave como baterias e semicondutores, o que aumenta ainda mais a necessidade deste tipo de pessoal especializado.

O caso gerou um descontentamento geral na Coreia do Sul, que incluiu protestos em Seul. Uma pesquisa da Realmeter publicada na terça-feira mostrou que quase 60% dos cidadãos se declararam profundamente decepcionados com o governo norte-americano do Presidente Donald Trump devido a medidas consideradas excessivas, contra 31%, que disseram entender a medida como uma ação inevitável das autoridades migratórias americanas. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Suíça – Portugueses são a população maioritária no município de Täsch

Colada a um dos destinos turísticos mais conhecidos da Suíça, Täsch abriga 62% de estrangeiros e tem maioria portuguesa desde os anos 2000. A força de trabalho vinda de Portugal sustenta o turismo local, mas a integração entre comunidades ainda é limitada.


À primeira vista, poucos lugares são mais tipicamente suíços do que Täsch, com os seus tradicionais chalés de madeira, trilhos para caminhadas e proximidade direta com o Matterhorn, uma montanha tão icónica que há muito tempo adorna as barras de chocolate Toblerone. O pequeno vilarejo do cantão do Valais, situado num vale a mais de 1400 metros de altitude, é conhecida como a principal porta de entrada para Zermatt, um dos principais pontos turísticos do país.

Noutras palavras, em Täsch está a entrar na Suíça dos cartões-postais. E, no entanto, é talvez um dos lugares onde tem menos probabilidade de encontrar falantes nativos de “Wallisertitsch”, o dialeto local.

6 em cada 10 habitantes não são suíços

O município abriga a maior proporção de estrangeiros do país. Das 1366 pessoas que residiam lá durante todo o ano em 2023, 848 não tinham nacionalidade suíça, ou 62%, segundo o Departamento Federal de Estatísticas (BfS, na sigla em alemão). No total, vivem lá quase quarenta nacionalidades.

Num país onde mais de um quarto da população é estrangeira, não é surpreendente que algumas localidades tenham uma alta percentagem de estrangeiros. No entanto, é possível contar nos dedos das mãos os municípios que, como Täsch, abrigam mais estrangeiros do que suíços.

Mas o que torna Täsch verdadeiramente único na Suíça é o facto de uma nacionalidade estrangeira formar a maioria da população. Há vários anos, homens e mulheres portugueses superam em número os suíços (41% e 38% da população da vila, respectivamente).

Mais de 255 mil cidadãos portugueses vivem na Suíça, tornando-os a terceira nacionalidade estrangeira mais representada no país. O cantão de Valais, e em particular o Vale de Zermatt, é um dos seus locais preferidos.

Migrantes mantêm Zermatt em funcionamento

A explicação está justamente no forte poder de atração de Zermatt. O terceiro município mais visitado da Suíça recebe, todos os anos, turistas do mundo inteiro e registou, em 2024, 1,6 milhão de dormidas, distribuídas ao longo do ano.

É preciso muita gente para manter uma máquina turística deste porte a funcionar, e a maioria é de estrangeiros – em grande parte, portugueses. Centenas de trabalhadoras e trabalhadores imigrantes ocupam empregos de baixa remuneração nos setores de hotelaria e restauração (como ilustra este recente projeto fotográfico), manutenção e serviços de todo tipo.

Uma parte importante da população estrangeira vive na própria Zermatt. Mas a falta de moradias acessíveis na estação, somada ao facto de ser um local de difícil acesso (carros são proibidos), leva muitas pessoas que trabalham ali a preferirem morar em vilarejos vizinhos – Täsch, mas também Randa ou Saas-Fee.

A crise económica impulsionou a imigração

A presença da comunidade portuguesa na área de Zermatt remonta à década de 1980. Naquela época, essa força de trabalho, muitas vezes não qualificada, emigrou para encontrar trabalho nas regiões turísticas dos Alpes.

No início dos anos 2000, a entrada em vigor da livre circulação de pessoas incentivou a imigração para a Suíça de cidadãos de toda a União Europeia, permitindo que eles se estabelecessem permanentemente e trouxessem as suas famílias.


Posteriormente, a crise económica da década de 2010, que atingiu severamente vários países do sul da Europa, em particular Portugal, amplificou significativamente o fenómeno. Desde a melhoria da situação económica em Portugal, o crescimento da população portuguesa em Täsch estabilizou-se.

Choque cultural

No auge da crise em 2012, quando a imigração portuguesa estava a aumentar em Täsch, a Swissinfo foi um dos primeiros veículos de comunicação a relatar o choque cultural que isso representava, tanto para a pequeno vilarejo no Alto Valais quanto para os recém-chegados.

Vários meios de comunicação internacionais, incluindo a BBC e o jornal português Público, interessaram-se posteriormente por este enclave português aos pés do Matterhorn, onde se pode encontrar bacalhau e pastéis de nata no supermercado e onde também são celebradas missas em português.

“Os portugueses podem ser muito barulhentos”, brincou o representante da comunidade lusófona à BBC. “Os moradores vão dormir às nove da noite, ou mesmo meia-hora antes, e não gostam muito que façamos barulho antes das dez da noite. É algo a que temos de nos adaptar.”

Um membro da diretoria da Täsch disse à Swissinfo que os contactos eram bons, mas que os principais problemas eram o baixo nível de alemão e a baixa participação da população portuguesa na comunidade. Ele acrescentou, no entanto, que havia observado uma melhoria: “Os portugueses estão a investir aqui, comprando casas ou abrindo pequenos negócios. Eles estão a mostrar que vieram para ficar.”

Convivência pacífica

Noutra reportagem mais recente do canal de televisão SRF (em alemão), vários moradores de Täsch observam que estrangeiros e suíços vivem mais lado a lado do que realmente juntos. “Já não é mais uma única aldeia unida”, lamenta um homem entrevistado, garantindo, no entanto, não ter nenhum problema com a outra metade da população.

A delegada de integração Eva Jenni, por sua vez, fala de uma “convivência pacífica”, em que “cada um deixa o outro em paz”.


A política de integração de Täsch faz com que a localidade seja regularmente apresentada como um laboratório em matéria de imigração e convivência. As autoridades locais já haviam adotado, há vários anos, uma série de medidas para favorecer a aproximação entre as comunidades. Isso inclui, principalmente, um forte foco no ensino de alemão nas escolas, campanhas de informação e a organização de eventos interculturais.

Mas, ressalta Eva Jenni, “não se pode obrigar as pessoas a misturarem-se”. Os portugueses e portuguesas de Täsch “não têm realmente pressão para se integrar”, explica ela. A maioria deles vem não apenas do mesmo país, mas também da mesma região, e possui muitos parentes no local. Os membros da comunidade mantêm laços estreitos e poderiam, sem dificuldade, viver no dia a dia sem sequer precisar falar alemão.

Vilarejo revitalizado

Esses desafios, no entanto, são menos presentes na segunda geração, que na sua maioria domina melhor o idioma e tem mais vínculos com os habitantes locais.

Além disso, Täsch, cuja população nativa diminui ano após ano, também reconhece o quanto deve à imigração. “Se não houvesse mais estrangeiros aqui, teríamos menos mão de obra no setor do turismo. As escolas fechariam e os professores perderiam o sustento. Haveria toda uma série de problemas”, resume um morador entrevistado pela SRF. “Podemos analisar a questão de todos os ângulos, mas no fim das contas precisamos viver juntos.” Pauline Turuban – França in “Swissinfo”






segunda-feira, 4 de agosto de 2025

União Europeia - Nível de vida dos portugueses é o nono pior

Estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto mostra que a revisão em alta dos estrangeiros revelada em abril coloca Portugal abaixo de 80% do nível de vida da UE até 2026


O nível de vida dos portugueses face à União Europeia (UE) tem sido sobrestimado: segundo a Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), em 2023, o rendimento “per capita” terá sido de 78,9% da média europeia (na 19.ª posição, a nona pior) e não de 80,7% (18.ª), como reportou a Comissão Europeia (CE) nas previsões de maio e se confirma nos dados mais recentes do Eurostat.

Um relatório de abril da Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) mostra uma população estrangeira com estatuto legal de residente bem maior do que nos dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), contabilizando mais 250 mil pessoas nesse ano do que se supunha e, com isso, diminuindo o rendimento médio por habitante.

Admitindo como válida a informação da AIMA, a população reportada pelo INE aos organismos estatísticos europeus é inferior à real nos anos recentes, o que empola o indicador de nível de vida relativo de Portugal. Esta é a principal conclusão da análise Flash nº 3 de 2025 da FEP, que espera ver refletida a informação da AIMA nos dados do INE apenas daqui a alguns meses e, mais tarde, nos da UE.

O trabalho do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P) da FEP assinala que, usando pressupostos razoáveis de ajustamento da população em 2024 (com os dados disponíveis), nesse ano o nível de vida de Portugal terá sido de 79,2% da média da UE em vez de 81,6%.

Essa revisão em baixa de 2,4 pontos percentuais (p.p.) mantém-se nas previsões ajustadas da CE até 2026, ano em que o indicador se situará em 79,5%, na 21ª posição, a sétima pior, em lugar do valor oficial de 81,9% (19ª posição). O G3E2P conclui que não superámos os 80% do nível de vida da UE nos anos recentes – a última vez foi em 2010 –, quando para a CE tal sucede desde 2023.

“É preciso integrar mais rapidamente os dados da AIMA”

O estudo agora divulgado “evidencia as discrepâncias nos dados de estrangeiros e população total, que são cruciais para definir várias políticas – incluindo as de imigração, emprego, habitação e proteção social –, estimando-se que poderemos ter mais 378 mil pessoas no final de 2024 do que nos dados oficiais do INE, o que implica um nível de vida face à UE 2,4 p.p. inferior ao oficial”, afirma Óscar Afonso, diretor da FEP e coautor do estudo.

“É preciso integrar mais rapidamente os dados da AIMA nas estatísticas do INE e da UE para assegurar dados coerentes e atempados no suporte às políticas públicas”, acrescenta.

Para o diretor da FEP, ainda mais importante, “o estudo reforça a urgência da economia nacional se tornar mais competitiva: são precisas reformas estruturais para elevar o potencial de crescimento económico e preparar a redução esperada dos apoios europeus. Só assim poderemos alcançar o grupo de países com maior nível de vida da UE num horizonte aceitável e travar a emigração dos jovens portugueses”.

Novo controlo da imigração “pode reduzir crescimento económico”

Este estudo da FEP revê ainda em baixa a necessidade de entrada de imigrantes para que Portugal possa entrar, em 2033, na metade de países com maior rendimento “per capita” da atual UE. Em vez dos 138 mil imigrantes por ano (em média) calculados num estudo de 2024, só serão necessários 80 mil por ano até 2033, já considerando o número revisto atual de estrangeiros e um cenário mais realista em que a economia da UE cresce 1% ao ano, exigindo que Portugal cresça, no mínimo, 2,4% ao ano (após reformas), em média.

“A imigração deve ser regulada em função das necessidades da economia – e da capacidade de absorção da sociedade, dos serviços públicos e das infraestruturas, para integrar essas pessoas de forma digna –, o que não sucedeu nos últimos anos”, afirma Nuno Torres, responsável do G3E2P e co-autor do Flash.

O crescimento real do PIB foi 2,6% em 2023 e 1,9% em 2024, e a entrada de estrangeiros rondou os 300 mil em cada um desses anos, muito acima da nova estimativa de 80 mil se a economia crescer a um ritmo médio de 2,4%. “Um “grande desfasamento” que, para os investigadores da FEP, significa que muitos dos que entraram estarão na economia paralela, pois não pode ser explicado apenas pela inserção dominante dos imigrantes em setores com produtividade e salários abaixo da média – mas vitais à economia”.

Segundo Nuno Torres, outros dados do Flash reforçam a perspetiva de que é preciso mais controlo da imigração. No final de 2024, o número de estrangeiros com estatuto legal de residente deverá atingir 1,6 milhões, de acordo com a AIMA, correspondendo a 14,4% da população residente total revista, após 11,9% em 2023 (cerca de 1,3 milhões de pessoas) e 4,1% em 2017.

“Esta grande alteração demográfica em poucos anos confirma o descontrolo da imigração gerado pelo Regime de Manifestação de Interesse que o governo PS aprovou em 2017, por ser desligado da economia, justificando que o governo AD o tenha encerrado em 2024”, afirma Nuno Torres. “Em seu lugar, criou a ‘via verde da imigração’, que a regula pelas necessidades da economia, através do contrato de trabalho prévio – como sugeria o estudo de 2024 da FEP –, mas são precisas melhorias dada a baixa execução”. O pior, refere, é que “as medidas adicionais previstas de controlo da imigração, necessárias na sua maioria, vão longe demais em áreas em que podem reduzir o potencial de crescimento económico”.

Segundo Nuno Torres, “limitar os vistos de trabalho a estrangeiros altamente qualificadas ignora o perfil de especialização atual – que deve progredir com outro tipo de medidas –, podendo levar a falta de mão-de-obra em setores como a construção, o turismo e a agricultura, e conflitua com as restrições previstas ao regime de naturalização, ao torna-lo dos menos atrativos da UE também para os qualificados”.

“Reformas decisivas” e “uma imigração regulada pela economia”

O estudo do G3E2P assinala que as previsões da CE revistas em função dos dados da AIMA irão colocar Portugal com o sétimo pior nível de vida da UE em 2026, dois lugares abaixo do que sucede nos dados originais, e à beira de ser o sexto pior. Isto porque, neste novo cenário, Portugal só fica acima da Roménia por duas centésimas – 79,47% e 79,45% da UE, respetivamente –, quando este era um dos países mais pobres da UE ainda há poucos anos.

Óscar Afonso é perentório: “Evitar o cenário de ultrapassagem pela Roménia em nível de vida – o que parece provável e deve envergonhar o país – exige aumentar a potência do motor económico português, mas tal requer reformas estruturais que os governos têm adiado e demoram tempo a surtir efeito”.

A Roménia entrou bastante depois de Portugal na UE e recebeu menos fundos europeus, mas, segundo Óscar Afonso, “tem-nos aproveitado bem melhor, como mostra a maior tendência de crescimento económico e a forte convergência de nível de vida desde 1999, contrastando com a divergência de Portugal, pouco atenuada nos anos recentes”. O diretor da FEP sustenta que o país deve aproveitar “muito melhor” o Portugal 2030 e executar o PRR sem perder verbas, uma vez que “os apoios deverão baixar após 2026”.

Óscar Afonso conclui que “o crescimento recente da economia portuguesa acima da UE trouxe, afinal, pouca convergência de nível de vida: de 77,3% em 2019 para 79,2% em 2024, em vez do valor oficial de 81,6%”, a refletir uma economia de baixo valor acrescentado e pouco diversificada, demasiado dependente do turismo. Exprime ainda preocupação com o contexto externo muito adverso, no qual a guerra tarifária, a necessidade de elevar a despesa com Defesa e a redução esperada dos apoios da UE aumentam os desafios que se colocam a Portugal.

“É possível transformar esses desafios em oportunidades e aumentar a competitividade da economia, colocando-a a crescer mais de forma sustentada: tal pressupõe reformas decisivas e uma imigração regulada pela economia e capacidade de absorção social, ‘sem portas escancaradas’, mas também ‘sem muros’”, sustenta Óscar Afonso. O diretor da FEP prevê um recuo do Governo na política de vistos de trabalho, pois “não é razoável face ao perfil atual da economia, podendo até fomentar as redes de imigração ilegal, a combater com mais fiscalização”.

Enquanto complemento à “via verde”, Óscar Afonso defende “uma política de vistos de trabalho flexível e articulada com as entidades representativas das empresas, que melhor conhecerão as necessidades de profissionais nos diferentes setores”. Para ele, “esses vistos devem antes focar-se em trabalhadores especializados, com experiência e formação nas respetivas profissões, requerendo mais ou menos habilitações académicas”. O diretor da FEP propõe que se aproveite a regularização em curso de estrangeiros para, em articulação com a Segurança Social, combater situações de informalidade dos que ficarem em Portugal, de modo a reduzir a economia paralela e elevar o PIB oficial. Universidade do Porto - Portugal


sábado, 19 de julho de 2025

Portugal - Novas regras para imigrantes pouco distinguem cidadãos da CPLP dos restantes países

A lei de estrangeiros, aprovada na quarta-feira, altera a entrada em Portugal de cidadãos lusófonos, que passam a ter de pedir na origem um visto de trabalho ou de residência para obterem autorização de residência


Actualmente, no caso dos timorenses e brasileiros, podem entrar em Portugal como turistas sem visto e depois requererem a autorização de residência. Em relação aos restantes cidadãos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) devem apresentar vistos de turismo na entrada do país e depois pedir as autorizações de residência.

A nova lei de estrangeiros, aprovada com os votos do PSD, Chega e CDS, abstenção da IL e chumbo da esquerda, impõe que todos os vistos de trabalho tenham de ser pedidos nos países de origem. Caso esta lei venha a ser promulgada pelo Presidente da República, todos os cidadãos da CPLP necessitam de visto para entrar em Portugal, mesmo para turismo.

Na semana em que decorre em Bissau uma cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que possui um acordo de mobilidade subscrito por Portugal, a nova lei de estrangeiros cria constrangimentos adicionais a quem procure o país como destino migratório.

No novo diploma, pode ler-se que “se o requerente estiver abrangido pelo Acordo CPLP e for titular de um visto de residência pode solicitar uma autorização de residência temporária” e os cidadãos lusófonos que “sejam titulares de visto de residência, podem requerer em território nacional, junto da AIMA [Agência para a Integração, Migrações e Asilo] autorização de residência CPLP”.

Na prática, os imigrantes lusófonos terão de pedir nos consulados portugueses o visto de entrada em Portugal e só depois serão abrangidos pelo acordo de mobilidade.

As queixas de atrasos nos consulados portugueses têm sido frequentes, mesmo já depois do reforço de quadros por parte do Governo.

Naquela que é a 18.ª alteração da lei de 2007 que rege a “Entrada, Permanência, Saída e Afastamento de Estrangeiros do Território Nacional”, o Governo impôs novas regras para o reagrupamento familiar, sem distinguir os cidadãos lusófonos dos demais.

No caso de não terem filhos menores a cargo, o “cidadão com autorização de residência válida e que resida, há pelo menos dois anos, legalmente em território nacional, tem direito ao reagrupamento familiar com os membros da família que se encontrem fora do território nacional”, pode ler-se.

Na prática, esta medida adia para daqui a dois anos os pedidos de reagrupamento familiar dos mais de 300 mil imigrantes que obtiveram autorizações de residência, na sequência da figura jurídica das manifestações de interesse, um recurso que permitia a regularização de quem chegava a Portugal com visto de turismo.

Os lusófonos são também abrangidos, porque as anteriores autorizações CPLP apenas permitiam estar em Portugal e as novas autorizações incluem o espaço Schengen. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Estados Unidos da América - ‘Pior que a pandemia’: buscas por imigrantes paralisam comércio em Los Angeles

Nayomie Mendoza estava acostumada a ver uma fila de clientes formar-se no seu restaurante à hora do almoço no bairro da moda de Los Angeles, o LA Fashion District. Mas as operações migratórias da administração de Donald Trump esvaziaram as suas mesas.


“As nossas vendas caíram 80%”, disse à AFP Mendoza, responsável pelo Cuernavaca’s Grill, um colorido restaurante mexicano do popular bairro comercial.

“O que nos salva é que temos muitos envios ao domicílio, cerca de 20%”, disse Mendoza, ao explicar que na região muitos têm medo de sair às ruas.

No coração de Los Angeles, o LA Fashion District é um vibrante bairro com inúmeras lojas de roupas e acessórios, mas com uma predominante mão de obra latina, tornou-se também alvo da ofensiva anti-imigração do governo Trump, com operações em fábricas e outros pontos comerciais de Los Angeles.

Agora as suas calçadas estão vazias, mesmo neste início de Verão, quando turistas lotam a cidade californiana.

A administração Trump aumentou a pressão sobre Los Angeles, declarada “santuário” de protecção para imigrantes pelas suas autoridades democratas em oposição ao presidente republicano.

Com um terço da população de origem estrangeira e uma estimativa de centenas de milhares de pessoas em situação irregular, a investida federal contra os imigrantes enfureceu os habitantes, que saíram às ruas para protestar no mês passado.

O governo Trump, entretanto, não parece estar disposto a recuar.

“É melhor que se habituem connosco, porque muito em breve isso será normal. Vamos a todos os lugares, na hora que quisermos, em Los Angeles”, disse à Fox News Gregory Bovino, da Patrulha de Fronteira dos EUA, avisando que “o governo federal não vai sair de Los Angeles”.

Mas, Nayomie Mendoza afirma que as operações não só atingem estrangeiros ou sem documentos, como também indústrias inteiras, num momento em que os comerciantes tentam recuperar de um começo de ano difícil, após os vorazes incêndios que atingiram a região de Los Angeles em Janeiro.

Devido à falta de clientes, Mendoza fecha as portas às 15:00. Um contraste com o ano passado, quando trabalhava até à noite devido à procura. “Isso é provavelmente pior do que a pandemia”, comentou.

Manuel Suárez, dono de uma loja de brinquedos numa rua próxima ao restaurante, concorda. “Agora é pior porque na pandemia, embora fosse pandemia, havia vendas”, afirmou Suárez, que trabalha há 35 anos no popular bairro.

“Agora está completamente em crise”, lamentou, ao explicar que muitos comerciantes decidiram fechar as lojas por precaução, à medida que as operações se intensificam na cidade.

Outros reduziram o número de funcionários devido à queda nas vendas.

“O gato e o rato”

As operações “semearam o medo na nossa comunidade latina”, disse Jose Yern, administrador da Anita’s Bridal Boutique, especializada em vestidos para debutantes.

“As pessoas têm medo de vir (ao distrito), mas se vêm, vão a uma loja específica, fazem o que têm de fazer e depois voltam para casa”, acrescentou o comerciante, enquanto no passado, possíveis clientes caminhavam entre os coloridos vestidos expostos em manequins.

O medo é palpável nas ruas: qualquer som de sirene dispara os alertas. Os comerciantes comunicam com walkie-talkies e notificam qualquer barulho, helicóptero ou presença uniformizada nas ruas próximas para avisar aqueles que não têm documentos.

Alguns até observam dos telhados e dão o sinal de alerta ao grito de “a migra”.

“É lamentável que o governo não entenda que quando nos ataca, todos perdemos”, comentou um vendedor que preferiu não se identificar. “Mas não vamos embora. O que vai acontecer aqui é que vamos ficar a jogar o gato e o rato. Vamos ver quem se cansa primeiro”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências Internacionais”


terça-feira, 3 de junho de 2025

Portugal - Vai notificar 5386 brasileiros para que deixem o país

Imigrantes terão 20 dias a partir do recebimento da notificação para saírem voluntariamente; após esse prazo, podem ser expulsos à força

O ministro da Presidência de Portugal, António Leitão Amaro, disse que 33.983 pessoas serão notificadas nos próximos dias para deixarem o país voluntariamente. Dentre essas, 5386 são brasileiros.

Os imigrantes terão 20 dias a partir do recebimento da notificação para deixar voluntariamente o país. O governo português poderá iniciar processos de expulsão caso os notificados não saiam dentro do prazo estipulado.

Segundo o jornal Público, dos quase 34.000 imigrantes, a maioria são indianos (13.466). Os brasileiros aparecem na sequência, seguidos pelos imigrantes de Bangladesh (3750). Completam a lista, nepaleses 3279, paquistaneses 3005, argelinos 1054, marroquinos 603, colombianos 236, venezuelanos 234, argentinos 180 e outras nacionalidades 2790.

Segundo Amaro, a Aima (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) notifica cerca de 2000 imigrantes por dia para que deixem Portugal. Em pouco mais de 1 mês, o número de pedidos de residência negados quase dobrou. InPoder 360” - Brasil


quinta-feira, 27 de março de 2025

Macau - Amélia António exorta MNE a “explicar” posição de Portugal em relação à China

A presidente da Casa de Portugal em Macau (CPM) defendeu, numa antecipação à visita de amanhã do ministro dos Negócios Estrangeiros português ao território, a importância de Paulo Rangel esclarecer a comunidade portuguesa sobre o posicionamento do Governo relativamente à China.



“Estamos aqui, sofremos as consequências dessas relações [entre Portugal e China], boas ou más. Tivemos relações muito próximas durante muito tempo, o que se alterou com a covid. Ainda não vi as coisas voltarem a ser como eram, e penso que era importante o senhor ministro explicar qual é a posição”, declarou à Lusa Maria Amélia António, referindo que Portugal não tem de “alinhar fielmente com tudo o que se diz na Europa e, sobretudo, nos EUA”, salientou.

Antes da pandemia, lembrou, existia “comunicação permanente” e “muito intercâmbio” entre as autoridades portuguesas e chinesas. Hoje é perceptível um “endurecimento relativamente aos portugueses” em matéria de imigração em Macau, declarou Maria Amélia António, sublinhando, porém, não poder afirmar categoricamente se a posição está relacionada com “esse afastamento” entre a China e o Ocidente.

As autoridades de Macau não aceitam desde o ano passado novos pedidos de residência no território para portugueses, para o “exercício de funções técnicas especializadas”, permitindo apenas justificações de reunião familiar ou anterior ligação ao território. As orientações eliminam uma prática firmada após a transição de Macau, em 1999. A alternativa para um nacional português garantir o Bilhete de Identidade de Residente (BIR) passa por uma candidatura aos programas recentes de captação de quadros qualificados. Outra hipótese é a emissão de um ‘blue card’, autorização limitada ao vínculo laboral, sem os benefícios dos residentes, nomeadamente ao nível da saúde ou da educação.

Estas limitações têm afectado a CPM na contratação de profissionais para integrarem a Escola de Arte e Ofícios. Mencionando a relação estratégica entre a China e o universo de língua portuguesa e o interesse de Pequim na língua portuguesa, a líder associativa lamentou a postura “um pouco contraditória”.

“Não podemos fazer omeletas sem ovos, nós que estamos aqui e que trabalhamos com a cultura portuguesa e com a língua portuguesa, temos muita dificuldade em ter pessoas que substituam aquelas que foram saindo. Saíram muitos portugueses de Macau, e trabalhar nestas áreas com essa falta [de pessoas com essas qualificações] é muito complicado”, rematou.

Também o presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) considerou os novos obstáculos à residência de portugueses “uma questão importante”, embora admita que a história não é garante de “estatuto especial”. “Como português, pessoa em Macau, claro que gostaria que os meus patrícios fossem bem tratados e, naturalmente, que a residência em Macau seja sempre facilitada”, ressalvou Miguel de Senna Fernandes.

O presidente da APIM notou que a dificuldade de contratação teve impacto na Escola Portuguesa (EPM), sob a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Espera-se, referiu, que o Estado português “continue sempre a prestar uma atenção especial” à EPM.

Senna Fernandes, também vice-presidente da Fundação da EPM salientou, porém, uma “atitude distante” das autoridades portuguesas “em relação às coisas de Macau”. A viagem de Rangel à RAEM, acredita, vai trazer poucas mudanças. “É um pró-forma, porque, sem querer ser pessimista, não estou a ver que faça muita diferença. Mas, claro, que é sempre bom que o ministro dos Negócios Estrangeiros visite Macau. (…) Nunca fez diferença. Aliás, nunca nenhum político ou ministro em Macau tem feito alguma diferença”, referiu. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


Trump, o fim do estado de graça

Não é ainda uma grande reação popular, incluindo uma parte de eleitores republicanos decepcionados, mas surgem os primeiros sinais, nos EUA, de descontentamento com o governo de Donald Trump. É o fim do estado de graça, assinalam alguns comentários na imprensa, e o início da oposição contra a desencontrada avalanche de decretos trumpistas.

Os primeiros sintomas se fizeram sentir com o aumento da inflação nos supermercados, agravado com o desaparecimento dos ovos num país onde fazem parte tradicional do breakfast. Os gestos de mãos de Trump, jogando a responsabilidade no governo anterior do velho Biden, não estão convencendo a todos.

Uma sondagem Reuters-Ipsos mostra estar mudando o humor da população, desaprovando os impactos das medidas de Trump no custo de vida. Em outras palavras surgem as primeiras decepções e o resultado não deixa dúvidas: mostram 57% dos estadunidenses descontentes nos supermercados, outros 51% não aprovam sua política econômica e 40% aprovam sua política de demissões.

Esses primeiros resultados em dois meses são maus presságios, diante das próximas repercussões do aumento dos preços dos produtos importados. Porém, não se pode esquecer a força de penetração da Tv Fox, repercutida nas redes sociais apoiadas pela plataforma X de Elon Musk, mais o reforço dominical dos pregadores fundamentalistas, no sentido de tranquilizar o rebanho trumpista. Nas redes sociais da globosfera da direita e extrema-direita estadunidense, tudo foi culpa da gripe aviária, já sob controle, ou do Joe Biden. Logo toda situação estará sob controle, garantem.

Senão, no caso de crescerem as críticas, existe a hipótese não descartável de Trump jogar a culpa sobre Elon Musk com seu Departamento de Eficácia Governamental, DOGE, responsável pela série de demissões em massa de funcionários federais, mesmo se muitos deles votaram em Trump.

Outro setor começando a temer a política protecionista de Trump é o mercado financeiro, apesar do presidente estadunidense, alertado pelas más repercussões, ter juntado a frase "haverá flexibilidade nos direitos aduaneiros". Essa frase mostrou uma reavaliação pela Casa Branca, diante dos temores criados pelo aumento dos direitos aduaneiros recíprocos, e provocou uma alta na bolsa de Nova York. Essa marcha-à-ré diminuiu os impactos da anunciada guerra comercial prevista para 2 de abril. Trump irá realmente flexibilizar as tarifas aduaneiras e mesmo anular algumas, num retrocesso bem recebido pelas bolsas?

Essa tática do quente e do frio poderá ser adotada também em outros setores, diante do risco de perda de apoio? Embora sensível ao mercado financeiro, Trump deverá manter suas medidas relacionadas com a imigração, cultura e universidades por agradarem ao seu eleitorado conservador.

Entretanto, existe um setor externo importante, cujas reações às medidas de Trump poderão provocar crises dentro dos EUA. É o relacionado com o turismo, pois um número crescente de viajantes está decidindo não mais viajar aos Estados Unidos, numa espécie de boicote não organizado, por divergir da política trumpista, por temer uma alta de preços com a inflação e mesmo para evitar as exigências para o visto de entrada nos EUA.

Está prevista uma queda de 5% na entrada de turistas nos EUA, quando se previa um acréscimo de 8,8% neste ano de 2025, ou seja, somando-se as previsões de aumento com a diminuição das entradas, a estimativa é de uma queda de mais de 13% de turistas nos EUA, afetando os setores de hotéis, restaurantes, diversões, áreas turísticas e comércio em geral. E mesmo nos transportes aeroviários e locação de carros.

A linguagem e as medidas racistas de Trump contra a imigração, mais as medidas comerciais protecionistas e as ameaças ao Canadá, Panamá, Groenlândia e a suspensão do apoio militar à Ucrânia estão criando um clima de animosidade e rejeição com relação aos Estados Unidos nos países latinos, no Canadá e países europeus, com rejeição da compra e consumo de produtos importados dos EUA. Essa rejeição inclui uma importante baixa de venda, na Europa, dos carros elétricos Tesla do multimilionário Elon Musk. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.