Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 25 de julho de 2026

Catalunha - Lança concurso de escrita em português

O consulado de Portugal em Barcelona convida os interessados a participar na III edição do Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha, iniciativa que este ano assinala o nascimento da escritora portuguesa Fernanda Botelho


Promovido pelo Instituto Camões, pelo Centro de Língua Portuguesa em Barcelona, pelo consulado de Portugal em Barcelona e pela Universitat Autònoma de Barcelona, o concurso pretende promover a língua portuguesa e divulgar o universo literário em português.

O prazo para a apresentação dos trabalhos decorre entre 27 de maio e 31 de outubro, estando a divulgação da decisão do júri prevista para o final de novembro.

Podem participar estudantes e antigos estudantes do Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Barcelona, estudantes de português na Universitat de Barcelona, Universitat Autònoma de Barcelona, Instituto Guimarães Rosa de Barcelona e Escola Oficial d’Idiomes – Drassanes, independentemente da nacionalidade. O concurso está igualmente aberto a qualquer pessoa residente na Catalunha com conhecimentos de língua portuguesa.

Fernanda Botelho, homenageada nesta edição, é considerada uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Depois de se estrear na poesia, destacou-se como romancista pela originalidade da sua escrita, abordando temas como a condição feminina, a identidade, as relações humanas e as transformações da sociedade portuguesa do pós-guerra.

Criado em março de 2022, o Concurso de Escrita Criativa em Português na Catalunha procura incentivar a criação literária e reforçar a promoção da língua portuguesa junto da comunidade residente na região.

Leia o regulamento completo aqui. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




quinta-feira, 23 de julho de 2026

Final da Copa - de que cor eram os fogos de artifício?

Faz apenas quatro dias, mas já parece longe a Copa do Mundo de futebol. Entretanto, ainda circulam pelas redes sociais algumas imagens reais, outras fakes geradas pela IA e muitas críticas ao comportamento de alguns jogadores argentinos ao final do último jogo vencido pela Espanha.

Parecia mesmo irreal ver o anfitrião Donald Trump ter descido do seu trono para entregar taça e medalhas aos jogadores, ao lado de Gianni Infantino, o suíço todo poderoso dirigente da FIFA. Já eram amigos ou foi a maneira autoritária como dirigem os EUA e a FIFA que os aproximou?

O episódio do cartão vermelho ao jogador Folarin Balogun da seleção norte-americana, anulado por Gianni Infantino a pedido de Trump, foi uma espécie de troca de favores entre dois manda-chuvas. Satisfeito, Trump disse à imprensa apoiar Infantino para deixar a FIFA e ir dirigir a ONU. Não é para se levar a sério esse tipo de proposta, que nem o próprio Infantino aceitaria, pois na FIFA é ele quem manda, enquanto no angú de países da ONU, nem o Guterres manda.

Mas o poder de Infantino na FIFA não é absoluto, tem de respeitar certas restrições. Ao que circulou nas redes sociais europeias como rumores entre comentaristas esportivos, tão criativos e bem informados como os comentaristas políticos, o troféu da Copa do Mundo estaria destinado à Argentina. Seria uma maneira de melhorar o Ibope do presidente Milei, da mesma patota do Trump e Infantino mas com dificuldades junto ao povo, esse eterno insatisfeito.

Isso poderia ser debitado como conversa mole de locutor esportivo, mas assumiu feições de verossímil ao se lançarem e se iluminarem os fogos de artifício em torno do MetLife Stadium.

Imaginem o que devem ter dito os espanhóis da Rioja ao verem surgir as cores azul e branca em lugar do vermelho e amarelo!!! Teria sido um crasso erro dos artífices mestres em colorir os fogos de artifício? Pouco provável, os fogos de artifício se preparam com dias de antecedência, para se ter as cores vermelha e amarela da bandeira espanhola seria preciso juntar compostos metálicos de estrôncio e sódio à pólvora. Mas, em lugar disso, tinham juntado cobre para se ter a cor azul da bandeira argentina.

Essa versão das cores dos fogos de artifício circula como verdadeira, mas o jornal suíço 20 Minutes destrói tudo como uma bela mentira, fake. Na verdade, os fogos teriam sido brancos tendo como fundo o céu azul. Foi uma simples montagem que circulou pelas redes sociais, principalmente Instagram, mostrando ser quase tudo possível com o uso da Inteligência Artificial.

No que se acreditar, no que desconfiar e no que rejeitar como fake?

Em todo caso, são verdadeiras as cenas de confusão e mesmo início de agressões, rapidamente controladas, ao final do jogo, vencido pela Espanha contra a Argentina. Nelas, o jogador argentino Leandro Paredes agride o espanhol Eric Garcia. A FIFA vai investigar e poderá haver punição para a equipe argentina. Também são verdadeiras as cenas mostrando parte da equipe argentina dando as costas para a cerimônia de premiação da equipe espanhola. Rui Martins - Suíça

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Europa - Existe uma solução "imediata" para as energias eólica e solar na rede elétrica que está obsoleta?

“As ambições políticas não significam nada se os elétrons limpos ficarem presos em filas de conexão”


A rede elétrica "ultrapassada" da Europa está com dificuldades para acompanhar o crescimento das energias renováveis, mas especialistas afirmam que uma solução "imediata e sem intervenção" está prestes a ser descoberta.

Relatórios anteriores do think tank de energia Ember alertaram que mais de 120 GW de projetos de energia renovável previstos estão atualmente em risco devido a congestionamentos e "capacidade insuficiente da rede".

Para se ter uma ideia, uma central elétrica com capacidade de 1 GW poderia abastecer aproximadamente 876.000 residências durante um ano, caso elas consumam a média anual de 10.000 kWh de eletricidade.

Os parques solares e eólicos existentes também estão a ser limitados pela rede elétrica do continente, que foi originalmente construída em torno de centrais de carvão concentradas.

Isso, aliado à inflexibilidade da energia eólica e solar – que dependem das condições meteorológicas para a geração de energia, em vez da procura real – significa que enormes quantidades de energia limpa são desperdiçadas todos os anos.

Embora o armazenamento em baterias e o investimento a longo prazo na rede elétrica sejam frequentemente apontados como as únicas soluções reais para enfrentar este problema, uma nova análise da Ember descobriu que a Europa poderia adicionar 25 GW de energia eólica e solar em sete países da UE sem construir capacidade adicional na rede por meio da "hibridização".

O que é hibridização?

A hibridização combina tecnologias como energia eólica, solar e de armazenamento numa única conexão à rede elétrica. Imagine as três fontes a compartilhar a mesma "tomada" na rede de eletricidade.

A Ember afirma que, na Europa, as centrais hidroelétricas são "particularmente adequadas" para a hibridização, porque grande parte da sua capacidade de geração de energia fica ociosa durante o dia.

Isto ocorre porque as centrais hidroelétricas funcionam como baterias sob procura, que podem ter a sua produção aumentada quando o consumo de eletricidade aumenta (o que normalmente acontece no início da manhã e no início da noite, quando as pessoas estão em casa) ou operar com baixa produção nos horários de menor consumo.

“Ao adicionar energia eólica ou solar no mesmo ponto de conexão de uma central hidroelétrica, os desenvolvedores podem entrar em operação mais rapidamente e os operadores podem usar a infraestrutura da rede de forma mais eficiente – em média, dobrando a utilização – mantendo-se dentro dos limites de exportação”, afirma Elisabeth Cremona, líder de infraestruturas de energia da Ember.

O relatório constatou que, na Áustria, Bulgária, França, Itália, Portugal, Roménia e Espanha (os principais mercados de energia hidroelétrica da UE), a hibridização poderia integrar 18% das novas energias renováveis ​​previstas para 2030 sem exigir capacidade adicional na rede elétrica.

A hibridização oferece uma solução "imediata".

Dos sete mercados estudados pela Ember, apenas Portugal e Espanha possuem regras específicas para projetos híbridos. Os demais países carecem de "marcos regulatórios claros", segundo o relatório.

Os especialistas defendem, portanto, uma legislação nacional, juntamente com uma priorização mais rápida dos projetos híbridos, para remover as barreiras à implantação de energias renováveis ​​e fazer um melhor uso da infraestrutura existente.

“As ambições políticas não significam nada se os elétrons limpos ficarem presos em filas de conexão”, acrescenta Cremona. “Para os países que enfrentam congestionamentos, a hibridização oferece uma solução imediata e sem intervenção.” Euronews


sábado, 23 de maio de 2026

Espanha - António Lobo Antunes homenageado na cidade de Madrid

O escritor português António Lobo Antunes vai ser homenageado em 14 de junho em Madrid, na feira do livro deste ano da capital espanhola, anunciou a organização


A homenagem a António Lobo Antunes ocorre “poucos meses depois do seu falecimento”, em 05 de março, aos 83 anos, e será “um diálogo para recordar a pessoa e a obra de um dos escritores europeus mais universais dos últimos 50 anos”, disse a organização da Feira do Livro de Madrid, no programa oficial da edição deste ano.

A iniciativa dedicada a António Lobo Antunes será uma “conversa entre Maria José Lobo Antunes, filha do autor, e o escritor [português] Rui Cardoso Martins”.

A conversa será moderada pelo jornalista e autor espanhol Javier Peña, que é também responsável pelo ‘podcast’ dedicada à literatura “grandes infelizes”, da editora independente Blackie Books, de Barcelona.

Segundo a embaixada de Portugal em Madrid, a homenagem a António Lobo Antunes está pensada “em torno da relação entre a obra do autor e o tema deste ano da feira: o humor”.

Rui Cardoso Martins “procurará refletir sobre a dimensão do humor, muitas vezes subtil, feroz ou profundamente melancólico” presente nos livros de António Lobo Antunes, segundo a mesma informação da embaixada enviada à Lusa.

Estão ainda previstas leituras de textos de António Lobo Antunes em português e espanhol, disse a mesma fonte.

A 85.ª Feira do Livro de Madrid decorre de 19 de maio a 14 de junho, no parque do Retiro, no centro da capital espanhola, e a homenagem a Lobo Antunes terá lugar no último dia, no Pavilhão Europa.

Em 03 de junho, será apresentada e debatida na feira, na biblioteca Eugénio Trías, localizada dentro do parque do Retiro, a trilogia “Trifolium”, publicada pela Universidade de Salamanca e dedicada aos Estudos Portugueses nesta instituição.

“Oferece uma radiografia integral da investigação lusófona atual, estruturando-se em três eixos fundamentais: linguística, didática e literatura”, segundo o programa da Feira do Livro de Madrid.

A iniciativa é organizada pelas Edições Universidade de Salamanca em colaboração com a Embaixada de Portugal em Madrid e o Instituto Camões.

No dia anterior, em 01 de junho, o presidente da Associação Portuguesa de Editoras do Ensino Superior (APEES), João Caetano, participará no III Encontro Ibero-americano de Edição e Editoras Universitárias e Académicas, destinado a profissionais, no Pavilhão Ibero-americano da Feira do Livro de Madrid.

A Feira do Livro de Madrid 2026 tem como tema o humor e a sátira e será inaugurada no dia 29 de maio pela rainha de Espanha, Letizia Ortiz.

Com um orçamento de 1,9 milhões de euros, contará com 366 quiosques de 118 livrarias, 220 editoras, 12 distribuidoras e 16 organismos oficiais. Terá ainda espaços específicos para grémios e associações territoriais, editoras singulares e independentes, uma zona internacional e outra dedicada à ciência.

Estão previstas mais de 400 atividades durante os dias da feira e entre as centenas de autores que passarão por quiosques para autógrafos está o poeta português João Luís Barreto Guimarães, no dia 30 maio, no espaço da editora Vaso Roto. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 17 de maio de 2026

Portugal - Antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz presente na conferência promovida pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda

O antigo embaixador e ministro António Martins da Cruz considera que a “Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade que Portugal desfrutava em Macau”, alertando para a necessidade de as autoridades portuguesas terem mais presença na RAEM


Foi na palestra “Oriente e Ocidente – o Mundo em 2026”, que decorreu na sexta-feira em Lisboa, que o antigo embaixador e ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz deixou um alerta para o crescente peso que a Espanha está a ganhar no relacionamento com a China e, consequentemente, com Macau.

“Em Macau e na ilha de Hengqin todas as associações e institutos que conheço tinham como objecto o comércio e relações económicas entre a China e países de língua portuguesa, e agora em todos foi acrescentado Espanha, ou países de língua espanhola”, referiu no evento promovido pela Associação dos Novos Amigos da Rota da Seda (ANRS).

“Espanha está a condicionar, de certo modo, alguma exclusividade de que Portugal desfrutava em Macau”, acrescentou António Martins da Cruz, falando da mais recente visita oficial de Sam Hou Fai, Chefe do Executivo da RAEM, a Portugal e Espanha.

“Desde Dezembro de 1999 que há uma tradição do Chefe do Executivo de Macau vir a Lisboa na primeira viagem que faz, mas, pela primeira vez, depois de Lisboa, foi a Madrid, onde até ficou mais umas horas do que tinha estado em Lisboa.”

À margem destas declarações, António Martins da Cruz disse ao HM que não acredita, porém, que haja uma grande mudança ou transição a curto prazo no relacionamento entre Macau e Portugal, com Espanha pelo meio. Mas o que é certo é que o país “passou a estar ao mesmo nível de Portugal sem nunca ter estado em Macau”, defendeu, referindo-se ao papel na administração do território e histórico que Portugal detém.

“Portanto, é uma coisa que pode afectar as empresas portuguesas”, frisou o responsável, que acredita que as autoridades de Macau, com este novo cenário, “estão contentíssimas, porque é mais um interlocutor”. No caso de Portugal, o que deve fazer para contornar esta questão é “intensificar as relações e aproveitar melhor Macau como plataforma, dando mais importância a Macau, e levando lá mais membros do Governo”.

António Martins da Cruz, que preside ao conselho de administração da OVIA – Oeiras Valley Investment Agency, tem sido, ele próprio, presença frequente na RAEM, declarando que vai novamente a Macau em Junho “com o secretário de Estado da Economia da Madeira”. “A Madeira interessa-se por Macau. Vou na qualidade de presidente da assembleia-geral da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira”, explicou.

Aproveitar a Grande Baía

António Martins da Cruz entende que “as empresas portuguesas devem aproveitar melhor a plataforma de Macau para o mercado da Grande Baía, que tem cerca de 80 milhões de habitantes e mais de 25 por cento do PIB [Produto Interno Bruto] chinês”, sendo “a zona mais rica da China”.

Porém, não deixou de destacar limitações no mercado interno de Macau. “Infelizmente, chegamos a Macau e nem há distribuidores de vinho e cerveja. E não há por uma razão: há 20 anos, os macaenses faziam isso e é preciso encontrar chineses que façam isso agora. Chegamos a Macau, e além do Banco Nacional Ultramarino e de dois ou três bancos, o que há? Três ou quatro empresas só. E temos de encontrar as nossas empresas e saber aproveitar as coisas, e daí partirmos para a Grande Baía.”

Não ouvir Bruxelas

Na sessão de sexta-feira não faltaram algumas farpas ao posicionamento que a União Europeia (UE) tem tido no relacionamento com a China, incluindo Portugal. “Esperemos que a UE ouça mais vezes as vozes do entendimento necessário e útil com a China ao invés de alguns que chegam, às vezes, de instituições de Bruxelas, para não dizer o nome do Parlamento Europeu, que por vezes dificultam o diálogo e acordos.”

António Martins da Cruz destacou que a “Europa tem, neste momento, outras preocupações e, sobretudo, uma indefinição total” em matéria de política externa. “A aproximação com a China passa por uma definição de políticas externas, mas não nos podemos esquecer do seguinte: temos 27 países na UE e, provavelmente, há seis ou sete que têm políticas externas. Os restantes têm políticas regionais”, destacou.

Martins da Cruz destacou “hesitações da Europa nas relações com a China”, relatando o exemplo de 2019, quando a UE, “por proposta da Comissão Europeia, aprovou uma posição estratégica, definido a China de três maneiras: um parceiro para a cooperação económica e negociação, um competidor económico e um rival sistémico”. “Ou seja, cabe quase tudo nesta indefinição propositada”, frisou, considerando que “continuaram as hesitações” em relação à China, sem se terem definido nunca “os riscos concretos” do relacionamento com o país.

Tal permite, na visão do antigo embaixador e ministro, “que cada um dos 27 Estados-membros definam, eles próprios, qual o conceito e critério de risco” neste relacionamento.

António Martins da Cruz entende que o caso da Huawei e da rede 5G, e o facto de ter merecido “diferente tratamento de diferentes países europeus é exemplo de que a Europa tem concepções diferentes de risco com a China”. “Até pensamos que algumas instituições em Bruxelas se esquecem que o comércio entre a UE e a China representa 29,6 por cento do comércio global e que a Europa importa da China 500 milhões de mercadorias por ano. Para termos uma ideia, o comércio entre a Europa e a China são 2 milhões por minuto. Se estivermos duas horas fechados nesta sala, o comércio entre a Europa e a China é de 240 milhões de euros. E há muitas capitais da Europa que têm tendência a esquecer isto.”

No contexto dos 27 países que fazem parte da UE, “Portugal tem todas as condições para ser o criador de dinâmicas positivas e aproveitando melhor a plataforma de Macau”, além de “facilitar investimentos chineses e reforçar as nossas linhas de comércio e de exportações para a China”.

O antigo embaixador lembrou ainda o facto de Portugal ter sido “um dos poucos países da UE que assinou com a China, na última visita do Presidente Xi Jinping, um memorando sobre a participação de Portugal na Nova Rota da Seda”.

Martins da Cruz realça estratégias de longo-prazo de Pequim

A conferência protagonizada por António Martins da Cruz aconteceu no mesmo dia em que terminou a visita à China do presidente norte-americano Donald Trump. O antigo embaixador defendeu que serão necessários “alguns dias ou semanas para ler os sinais dos resultados dessa visita”, devendo o relacionamento entre os Estados Unidos da América (EUA) e China ser analisado “sob os prismas estratégico, político e económico”. Andreia Silva – Macau in “Hoje Macau”


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espanha, França e Portugal - A corrida pelas energias renováveis intensifica-se à medida que os governos se esforçam para reduzir as contas de energia

"Enquanto dependermos do petróleo e do gás, continuaremos a pagar o preço das guerras de outros povos", disse o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu


Com a guerra entre EUA e Israel contra o Irão a mergulhar o mundo no que o chefe da AIE (Agência Internacional de Energia) chamou de "a maior crise energética que já enfrentámos", os governos estão a procurar soluções desesperadamente.

Felizmente, algumas das maiores economias da Europa têm a clareza de que as energias renováveis ​​são a forma mais confiável e barata de se proteger contra choques energéticos, ao mesmo tempo que atingem as metas de redução de emissões.

O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão e os numerosos ataques à infraestrutura energética no Médio Oriente levaram à "maior ameaça à segurança energética da história", de acordo com o Dr. Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA).

A dependência da importação de petróleo e gás já custou à UE 24 mil milhões de euros, para além do que já estava previsto. Sem as energias renováveis, esta despesa seria ainda maior.

A energia solar economizou mais de 100 milhões de euros por dia na Europa desde o início da guerra, e as energias renováveis, em geral, são um fator crucial para a redução das contas de luz. Graças ao aumento da disponibilidade de energia renovável, os preços da eletricidade foram, em média, 24,2% menores entre 2023 e 2025 em 19 países.

Após recuperarem do choque inicial da guerra, os governos começaram a aconselhar cidadãos e empresas a economizar energia sempre que possível. Dirigir de forma eficiente em termos de consumo de combustível, trabalhar em casa e até mesmo gerar a própria energia em casa foram algumas das recomendações feitas.

Mas a transição para a energia limpa depende muito mais das políticas governamentais do que das ações individuais.

Aqui, analisamos como Espanha, França e Portugal responderam à crise dos combustíveis fósseis.

Espanha intensifica seus esforços em energias renováveis.

A Espanha tem sido amplamente elogiada pelos seus investimentos em energias renováveis, e isso mostrou-se extremamente vantajoso durante a crise energética.

Entre 2019 e 2026, o país duplicou a sua capacidade de energia solar, atingindo 40 GW – mais do que qualquer outro país da UE, com exceção da Alemanha , cujo mercado de energia é o dobro do tamanho do espanhol. Essa visão de futuro fez com que as contas de luz dos espanhóis permanecessem entre as mais baixas da Europa, apesar da guerra com o Irão ter afetado gravemente o fornecimento de energia.

Desde o início da guerra com o Irão, a Espanha intensificou os seus esforços em energias renováveis. Num Decreto Real publicado em 20 de março, o país anunciou medidas para acelerar a eletrificação, a implantação de energias renováveis ​​e o armazenamento de energia. Estas medidas incluem a desburocratização, a melhoria da infraestrutura da rede elétrica para evitar o desperdício de energia renovável, a criação de normas mais rigorosas para a construção de data centers que não sejam comprovadamente sustentáveis ​​e o incentivo à criação de comunidades energéticas.

França proíbe caldeiras a gás em novos edifícios

A França está a investir fortemente na eletrificação, prometendo € 10 mil milhões em apoio estatal para a transição do petróleo, gás e seus derivados para a eletricidade, conforme noticiado pela Reuters.

As bombas de calor também fazem parte do plano, com a instalação de mais um milhão por ano, e as caldeiras a gás serão proibidas em edifícios recém-construídos a partir de 2027.

“Hoje, 60% do nosso consumo de energia provém desses combustíveis fósseis importados, embora a energia que produzimos internamente seja três vezes mais barata”, disse o primeiro-ministro Sébastien Lecornu ao anunciar as novas políticas. “Enquanto dependermos do petróleo e do gás, continuaremos a pagar o preço das guerras de outros povos, que infelizmente persistirão e nos empobrecerão”, acrescentou.

Portugal promete um limite máximo de preços

O aumento das contas das famílias tem sido uma preocupação mundial desde que os ataques dos EUA e de Israel ao Irão levaram ao encerramento do Estreito de Ormuz.

Portugal, conforme noticiado pela Reuters, prometeu limitar temporariamente os preços da eletricidade, se necessário. O mecanismo de proteção ao consumidor seria implementado caso os preços da eletricidade no retalho subissem mais de 70%, ou ultrapassem 2,5 vezes a média dos últimos cinco anos, ultrapassando € 180 por megawatt-hora. O governo cobriria o custo inicial do apoio, que “seria recuperado posteriormente”, segundo o Ministro António Leitão Amaro.

Portugal é menos dependente do gás natural para a sua eletricidade. em comparação com muitos países europeus e, nos dois primeiros meses do ano, cerca de 79% da eletricidade consumida em Portugal provém de fontes renováveis, de acordo com dados oficiais.

Polónia destina verbas para energias renováveis

“Ao longo da próxima década, o nosso país investirá 1 trilhão de zlotys em energia, infraestrutura, linhas de transmissão e centrais elétricas”, anunciou o primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, durante a Cúpula de Energia PowerConnect em Gdańsk, em 18 de março.

Desse montante, mais de 220 bilhões de zlotys (51,8 mil milhões de euros) serão destinados a energias renováveis ​​e armazenamento, 234 bilhões de zlotys (55 mil milhões de euros) à distribuição e 160 bilhões de zlotys (37 mil milhões de euros) à energia nuclear.

Em 2024, carvão, petróleo e gás representavam 83% da energia da Polónia.  

Mas o país está a esforçar-se para aumentar a participação de energias renováveis, passando de 21% em 2022 para 28% em 2023, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia). Euronews


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Europa – Cinco países vão economizar 58% nas contas de energia este ano graças à energia limpa

Consumidores em cinco países da UE economizarão até € 8,5 mil milhões nas suas contas de energia este ano, em comparação com aqueles que possuem a matriz energética mais poluente.

Espanha e Portugal também estão a beneficiar do investimento acelerado em energias renováveis, tendo registado um crescimento de 21% na energia limpa em 2025 em comparação com 2022. Este crescimento foi impulsionado, em grande parte, por um aumento de 74% na energia solar.


Os países da UE com a matriz energética mais limpa estarão protegidos do aumento vertiginoso do preço do petróleo e do gás, uma vez que a guerra contra o Irão continua a evidenciar o verdadeiro custo da dependência dos combustíveis fósseis.

Dois dias após os bombardeamentos atingirem o Médio Oriente, os preços do TTF holandês (referência para os preços do gás no grosso em toda a Europa) dispararam 68%, chegando a € 52,8 por megawatt-hora, o nível mais alto em dois anos.

No início desta semana (segunda-feira, 20 de abril), o TTF holandês estava a ser negociado a um preço bem mais baixo, de € 40,2 por MWh. A queda ocorre após sinais de significativa desaceleração em meio a um cessar-fogo de duas semanas, mas ainda é consideravelmente mais alta do que antes do início do conflito (€ 31,5 por MWh).

Grande parte da volatilidade se deve ao controlo do Irão sobre o Estreito de Ormuz, uma passagem de 38 km que transporta cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo e gás. Em março, as exportações de gás natural liquefeito (GNL) para a UE caíram 11%.

Isso levou o comissário de energia da UE a recomendar que os países reabasteçam os seus estoques de forma constante durante o verão para "mitigar a pressão sobre os preços e evitar uma corrida no final do verão".

Isso também abriu caminho para um rápido interesse em energias renováveis ​​produzidas localmente, que são cada vez mais consideradas um investimento mais estável em vista das tensões geopolíticas.

“Não há aumentos acentuados nos preços da luz solar nem embargos à energia eólica”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, no mês passado.

Será que a energia limpa pode proteger a UE do aumento dos preços do gás?

Um novo relatório do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo (CREA) constatou que, apesar da forte alta dos preços e dos crescentes temores sobre a diminuição da oferta, o bloco permanece "mais bem protegido" da sensibilidade aos preços do que em 2022 – após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Isso deve-se principalmente ao crescimento explosivo das energias renováveis, que atingiram novos recordes em 2025 e poderão economizar para a UE a impressionante quantia de € 5,8 mil milhões em 2026, substituindo o gás natural, que é caro.

Especialistas apontam que esse valor seria significativamente maior se os preços do gás não fossem responsáveis ​​por definir o preço da energia em muitos países, devido ao mecanismo de precificação marginal da UE.

Em 2025, cada aumento de €1/MWh no preço do gás levou a um aumento de €0,37 por MWh nos preços da eletricidade – uma redução de oito por cento em relação a 2022.

“Isto está diretamente ligado à separação [do preço da eletricidade] do gás e aos investimentos em energia limpa, cuja participação na geração de eletricidade na UE cresceu 14% em 2025, em comparação com 2022”, explica o relatório.

Quais são os países da UE que estão mais protegidos do aumento dos preços do gás?

Todos os Estados-membros da UE têm observado uma redução na sua sensibilidade às flutuações dos preços do gás nos últimos anos, na sequência do aumento da energia limpa.

Mas são os consumidores de cinco países da UE em particular – Dinamarca, Finlândia, França, Suécia e Eslováquia – que beneficiam da maior participação de energia limpa na sua matriz elétrica. O relatório afirma que estas nações economizarão € 8,5 mil milhões nas suas contas de energia este ano. Isso representa uma redução de 58% nas contas em comparação com os países com a matriz energética mais poluente (Polónia, Itália, Grécia, Estónia e Países Baixos).

A estimativa baseia-se na premissa de que o consumo permanecerá o mesmo este ano em comparação com 2025, levando em consideração os preços mais altos e a sensibilidade do preço do gás.

De acordo com dados de 2025, a Suécia saiu vitoriosa como o país da UE com a menor sensibilidade às oscilações do preço do gás. Em média, para cada aumento de €1 no preço do gás, a Suécia regista um aumento de apenas €0,04/MWh nos preços da eletricidade no mercado grossista.

“Embora a Suécia seja um dos nove países com reservas de gás natural significativamente abaixo da média da UE, a sua baixa dependência dessa fonte de energia – com 99% de sua eletricidade proveniente de energia limpa – protege ainda mais o mercado de eletricidade de choques de preços”, afirma o relatório.

Espanha e Portugal também estão a beneficiar do investimento acelerado em energias renováveis, tendo registado um crescimento de 21% na energia limpa em 2025 em comparação com 2022. Este crescimento foi impulsionado, em grande parte, por um aumento de 74% na energia solar.

Ao mesmo tempo, a sensibilidade de ambos os países aos choques nos preços do gás diminuiu 53%. No ano passado, para cada aumento de €1 no preço do gás, a zona de produção conjunta de Espanha e Portugal registou um aumento de €0,089 por MWh, o terceiro mais baixo do bloco.

A França também testemunhou uma redução acentuada na sua sensibilidade aos preços do gás, principalmente devido ao crescimento da energia limpa, que fez com que a sua sensibilidade ao gás caísse pela metade entre 2022 e 2025.

Quais são os países que estão a pagar o preço pela sua dependência de combustíveis fósseis?

Apesar de ter registado um aumento de 31% na geração de energia limpa, os Países Baixos continuam mais sensíveis aos preços do gás do que em 2022.

Apesar da participação da energia solar e eólica na geração de eletricidade do país ser superior à média da UE, o gás continua sendo a principal fonte individual de eletricidade no país.

“A sua sensibilidade também está ligada à sua elevada integração no mercado europeu de gás – muitas vezes como tomadores de preços – e, portanto, à sua suscetibilidade a choques transmitidos por países vizinhos como a Alemanha”, acrescenta o relatório.

“O gás tem tradicionalmente desempenhado um papel desproporcional na produção centralizada de eletricidade nos Países Baixos (22%), enquanto as fontes de energia limpa, especificamente a solar, têm um papel mais importante na geração descentralizada de eletricidade.”

Por exemplo, nos Países Baixos, a energia solar é muito utilizada durante o dia, mas à noite é preciso recorrer a outras fontes de energia, muitas vezes com necessidade de gás.

A Polónia é outra anomalia na tendência geral da UE. Apesar de registar um crescimento anual de 48% em energias renováveis ​​desde 2022, a sensibilidade do país aos preços do gás permanece alta.

Isso deve-se principalmente ao facto de a Polónia estar a incentivar a geração de eletricidade a gás, num esforço para substituir e reduzir o carvão, que continua sendo essencial para mais da metade da produção total de eletricidade no país.

“A mudança de foco da Polónia para o gás, em vez de fontes de energia limpas, fez com que a geração de energia a partir dessa commodity aumentasse 132% em 2025 em comparação com 2022”, explica o estudo.

“Essa maior dependência, que representou 13% do total em 2025, fez com que a sensibilidade aos preços do gás também aumentasse em 87%.”

Para cada aumento de €1 no preço do gás, a Polónia regista um aumento de €0,36 por MWh na eletricidade.

A Hungria também demonstrou maior sensibilidade aos preços do gás em comparação com 2022, registando um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Embora o país tenha testemunhado um crescimento expressivo da energia solar, a falta de capacidade de conexão à rede elétrica faz com que a Hungria ainda seja obrigada a depender do gás natural para manter a estabilidade. Euronews


segunda-feira, 20 de abril de 2026

França - Elsinha lança “Liberdade”, um álbum que cruza culturas e histórias pessoais

A artista lusófona baseada em Paris, Elsinha, prepara-se para lançar o seu primeiro álbum de estúdio, “Liberdade”, no próximo dia 3 de junho. Depois do EP “Salvação” (2019), o projeto afirma uma identidade artística construída a partir da fusão de múltiplas influências culturais.


Nascida em França de pais portugueses, Elsinha cresceu num ambiente onde a música fazia parte da própria história familiar. Neste novo trabalho, a cantora apresenta uma sonoridade híbrida, onde se cruzam referências afro-brasileiras, elementos da tradição lusófona e influências ibéricas, incluindo melodias andaluzas e nuances do fado. O resultado é um álbum emocionalmente intenso, que reflete tanto o percurso pessoal da artista como a sua experiência multicultural.

Um álbum com identidade definida

Comparado com o trabalho anterior, a artista considera que este novo projeto revela uma maior maturidade artística e uma direção mais clara. “Este álbum tem cores mais harmoniosas e uma identidade mais comum”, explica, destacando uma maior coesão sonora e conceptual com o apoio e direção artística do coletivo Mix et Métisse.

O projeto inclui temas em português e espanhol, refletindo o percurso internacional da artista, que já viveu em França, Brasil e Espanha. A artista integra de forma intuitiva influências adquiridas nos diferentes países onde viveu. Das palmas flamencas às sonoridades brasileiras e incluindo elementos mais clássicos constrói uma linguagem musical própria e não deixa de sublinhar o impacto que teve na sua música o facto de ter crescido em Paris, num ambiente que caracteriza como “marcado pela diversidade cultural”.

O single “Soledad”, já disponível com videoclipe, antecipa o tom intimista do disco: “é uma música carregada de lembranças de infância, uma época onde me sentia sozinha e incompreendida”, explica.

A herança e a reconstrução do passado

Para além da dimensão cultural, Liberdade afirma-se como um projeto profundamente pessoal, onde a artista revisita a sua história familiar e a relação ambivalente com a música. Com raízes numa família onde o bisavô tocava acordeão nas Arcadas do Fado, em Almancil, e a mãe tinha paixão pelo fado, este caminho foi durante anos visto com receio: “Na minha família, a perceção era que não dava para viver da música”.

Durante anos, o tema foi um tabu na família, até ao momento marcante em que a mãe assistiu, pela primeira vez, a um concerto seu no Café de la Plage, em Paris. “Ela segurou-me a mão, a chorar, e disse: agora percebo porque é que queres fazer isto, foste feita para isto”.

Iniciado há três anos, sem uma direção definida, o projeto foi ganhando forma à medida que a artista revisitava o passado e transformava esse processo num caminho de cura e libertação. “Foi toda uma recompilação do passado que depois se revelou no meu trabalho, e a direção foi-se mostrando aos poucos”.

O resultado é um disco que cruza memória e presente, num gesto de cura que a própria define também como coletivo: “Sinto que este trabalho foi feito para mim, mas também para libertar as memórias da minha mãe, da minha avó e dos meus ancestrais”. A participação da mãe na última faixa reforça esse simbolismo, encerrando o álbum como um momento de união e reconhecimento. Catarina Franco – França in “LusoJornal”


sábado, 18 de abril de 2026

Macau - Empresários e associações procuram novas “oportunidades” em Portugal

Uma delegação de empresários e associações, organizada pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento, vai passar por Portugal e Espanha, no âmbito da visita do Chefe do Executivo à Europa, esperando-se que possa contribuir para o reforço da cooperação. Ao Jornal Tribuna de Macau, empresários e líderes associativos sublinharam que há ainda caminho por desbravar no que respeita ao papel de Macau como plataforma, sendo que a extensão da “missão” do território à Espanha divide opiniões. Apesar disso, disseram procurar novas “oportunidades” na Península Ibérica, esperando conhecer novas empresas e marcas com as quais possam colaborar


Empresários e associações que integram a delegação do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento (IPIM) tencionam agarrar novas oportunidades de negócio e de cooperação com Portugal e com Espanha, no âmbito da visita à Península Ibérica. A comitiva integra mais de 120 empresários e mais de 20 empresas da Grande Baía e de outros locais da China Continental.

Numa nota ontem divulgada pelo Gabinete de Comunicação Social, o Governo da RAEM sublinha que a delegação empresarial integra representantes de “várias empresas-chave do Interior da China”, para além de empresários de Macau e Hengqin, numa missão conjunta para expandir os mercados internacionais, aproveitando melhor o papel de Macau enquanto “interlocutor com precisão” entre a China e os países de línguas portuguesa e espanhola.

Humberto Carlos Rodrigues, gerente da F. Rodrigues, que conta com mais de 100 anos de existência, é um dos empresários macaenses que integram a delegação. “É uma visita especial, no âmbito da ida do Chefe do Executivo a Portugal, com uma delegação numerosa. Portanto, do meu ponto de vista é uma visita bastante importante, porque há possibilidade de fazer novos contactos com outras empresas e assegurar o papel de Macau como plataforma”, afirmou, em declarações ao Jornal Tribuna de Macau.

“Vamos tentar, com esta ida a Portugal, ver se conseguimos mais oportunidades de negócio, não só a minha empresa, como as restantes”, acrescentou, dizendo que “qualquer oportunidade de negócio é importante para ambos os lados, quer para os empresários de Macau, como para os empresários portugueses”. Nesse sentido, frisou, “temos de aproveitar o máximo possível”.

O empresário, que trabalha sobretudo no ramo da importação de produtos alimentares e vinho de alta qualidade vindos de Portugal, explicou que o negócio tem vindo a decorrer de boa forma, apontando, contudo, que se tem verificado uma quebra na procura de vinhos. Em contrapartida, nos produtos alimentares observa-se até um crescimento.

Questionado sobre o modo como olha para o papel de Macau como plataforma, Humberto Carlos Rodrigues foi peremptório: “O Fórum de Macau, desde a sua existência, tem feito muito pouco pelos empresários em Macau”.

“Quando precisamos de colocar determinados produtos na China, como é o caso das nossas conservas, há entraves. Há mais de 10 anos que não conseguimos exportar sardinhas de Macau para a China, já ando nesta luta há mais de uma década”, vincou. A este jornal, lembrou que já falou com Chefes do Executivo, com Secretários, com o secretário-geral do Fórum de Macau: “Até agora nada feito, ainda não conseguimos resolver essa situação”.

Segundo clarificou, importar os produtos directamente de Portugal para a China é um processo que decorre sem obstáculos, contudo, “passando por Macau há esse problema”, reiterou, acrescentando que se prende com o certificado de salubridade. Problema esse que, na sua opinião, “podia ser resolvido facilmente”. Segundo disse, esta é uma questão que tem afectado a sua, mas também outras empresas locais.

“Acho que o Fórum de Macau podia ajudar, se não para que serve? No que respeita aos empresários, não vejo nada, não tem ajudado nada”, lamentou Humberto Carlos Rodrigues. “Para ser sincero, acho que o Fórum está mais preocupado com os números. E, tudo bem, é natural, mas acho que também se podia preocupar um bocadinho mais com os empresários locais e com as dificuldades que têm, porque há muitos entraves que não se justificam”, defendeu.

Jorge Valente, presidente da Associação Sino-Lusófona da Indústria e Promoção de Intercâmbio Cultural (Macau), começou por dizer igualmente que “esta é uma viagem muito importante, porque é a primeira viagem do Chefe do Executivo ao exterior e, indo a Portugal, vemos que quer manter o laço e a ligação com Portugal”. E “são várias as expectativas” que tem, desde logo no que respeita a acordos de cooperação.

Sobre o papel de Macau como plataforma, Jorge Valente observou que conta já com mais de duas décadas, “mas parece que ainda temos muito a fazer”. Apesar disso, observou que “desde a covid-19, a plataforma começou a ter mais movimento, mais pessoas a investirem nela, mais pessoas a trabalharem nela”. “Na China Continental, embora soubessem da plataforma com os países de língua portuguesa, a verdade é que não se interessavam muito e a pandemia fez com que os compatriotas chineses tivessem mesmo de vir a Macau e procurar como sair e ir para os países lusófonos”, explicou, vincando que foi essa a experiência que teve no âmbito da associação que dirige.

Jorge Valente descreveu que “empresas chinesas que vieram a Macau e procuraram parcerias, foram levadas depois ao Brasil ou Angola, chegaram lá e conseguiram começar a trabalhar em projectos com equipas de Macau ou ter locais de Macau como consultores ou que trabalhem nessas empresas”.

Já no que respeita a dificuldades encontradas na cooperação com Portugal e outros países lusófonos, o empresário afirmou que, com Portugal, não tem sentido quaisquer entraves. “A relação entre Macau e Portugal tem sido sempre bastante boa, claro que podemos dizer que Portugal podia fazer mais ou nós podíamos fazer mais… há sempre melhorias a fazer, mas a ligação Macau-Portugal sempre foi boa e fácil”, prosseguiu.

O mesmo não acontece com outros pontos do mundo lusófono. “Em relação a outros países de língua portuguesa, ainda há muito por explorar. Há certos países que não estão tão preparados para ter Macau como porta ou janela de saída dos chineses, nem os chineses se lembram de passar por Macau para chegar até eles”, afirmou. Jorge Valente notou que são nove países, espalhados por três continentes: “Não podemos dizer que todos os países lusófonos têm a mesma relação que Portugal tem com Macau e realmente seria muito bom se a tivessem”.

Apontando ser útil que a delegação integre empresários da Grande Baía, incluindo de Hengqin, e de outras partes do Interior da China, Jorge Valente defendeu que “o mais fácil é os países usarem Macau para entrarem em Hengqin”. Na sua visão, a Ilha da Montanha é ainda uma questão complicada para as pessoas em Portugal e Espanha: “É diferente, é uma zona económica tão especial que não vão entender muito bem, nem saber como melhor tirar proveito dela. É nestas situações que as equipas locais têm a sua mais-valia”.

Convidar grandes marcas para visita a Macau e Hengqin

Também Eduardo Ambrósio, presidente da Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos, segue para a Península Ibérica com a delegação do IPIM. Ao JTM, defendeu que “Macau, limitado pela sua área e população, podia antes concentrar os esforços e recursos somente nas relações económicas e comerciais com os Países de Língua Portuguesa”.

Na sua perspectiva, com a administração de Hengqin juntamente com o Governo da Província de Guangdong e a construção do complexo do Centro de Negócios Económicos e Comerciais entre a China e os Países da Língua Portuguesa/Espanhola, “já há espaços e recursos humanos para se expandir as relações comerciais tanto com a Espanha, mas também com os países da América Latina”.

De qualquer forma, Eduardo Ambrósio mostrou-se confiante com o papel que os empresários que integram a delegação irão desempenhar no que respeita à promoção de informação sobre Hengqin. “Estou confiante de que os empresários de Macau, de Hengqin e da Província de Guangdong vão divulgar as favoráveis políticas de Hengqin na promoção de parcerias, comércios bilaterais e investimos para os empresários de Portugal e Espanha”, afirmou.

“O Governo da RAEM deve, nesta visita, organizar sessões sobre o recente desenvolvimento de Hengqin e convidar as grandes marcas de Portugal e Espanha a fazer uma viagem a Macau e a Hengqin para, em conjunto, explorar indústrias e projectos viáveis que resultem em parcerias de mútuos benefícios”, acrescentou Eduardo Ambrósio.

Por sua vez, o director-geral da Associação de Transmissão ao Vivo de Macau, José Chan Rodrigues, disse acreditar que “Macau é uma plataforma muito importante entre os países de língua portuguesa e a comunidade chinesa no seu todo”. “Temos uma história e uma ligação muito ricas com Portugal há 500 anos, e a razão pela qual Macau é importante é também de natureza política, pois esta é uma das principais missões que nos foi confiada pelo Governo Central da China, é realmente algo que temos de fazer bem”.

Lembrou depois as palavras do Presidente Xi Jinping, afirmando que “não devemos limitar-nos a estabelecer ligações com os países lusófonos, mas devemos também estabelecer ligações com os países de língua espanhola e, no fundo, com todos os países que não falam inglês”. Para Chan Rodrigues, “Macau tem muito a fazer no futuro”, afirmou, vincando que irá aproveitar para agarrar oportunidades em Espanha.

“Esperamos sinceramente poder avançar a um ritmo mais acelerado e que, muito em breve, possamos ter algo a apresentar ao público em termos dos resultados concretos dos trabalhos realizados”, acrescentou.

Acordo com a FUNIBER e exposição no CCCM

Por outro lado, Jorge Valente revelou a este jornal que a Associação Sino-Lusófona da Indústria e Promoção de Intercâmbio Cultural (Macau) vai assinar um acordo de cooperação com Fundação Universitária Ibero-Americana (FUNIBER) relacionada com educação e com o emprego dos estudantes. “É um bom primeiro passo. A Fundação está baseada em Espanha, mas está representada em vários países, nomeadamente têm universidades em Angola e na América Latina”, explicou.

A FUNIBER é uma instituição internacional, criada em 1997 na Espanha, que actua como intermediária entre alunos e universidades estrangeiras. O protocolo a assinar, que incluirá todo grupo, vai permitir que a associação comece “a contratar os recém-licenciados dos cursos que têm da Universidade de Angola”, acrescentou, indicando que um membro da associação está a lançar projectos em Angola e precisa de trabalhadores locais.

Jorge Valente apontou que a “a associação trabalha na plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, portanto, tudo o que é nesta área é do nosso interesse, e tudo o que fortalece essa plataforma é do nosso interesse”. “Os países de língua espanhola são agora uma extensão desta plataforma, nós queremos também expandir os nossos horizontes para os países de língua latina”, vincou.

Em Portugal, está pelo menos prevista a assinatura de um acordo na área do sector alimentar entre uma empresa portuguesa e outra de Macau.

Além disso, o também presidente da direcção da Associação de Amizade Cultural Sino Luso Macau indicou que a associação irá inaugurar uma exposição intitulada “Um Vislumbre da Cultura Chinesa”, no Centro Cultural e Científico de Macau, em Lisboa. A mostra ficará patente de 19 de Abril a 1 de Maio.

Com organização do Instituto Cultural, a exposição “assinala dois anos da iniciativa conjunta entre o Diário de Notícias e o Macao Daily News, dedicada ao fortalecimento dos intercâmbios culturais entre Portugal e a China”.

Super Bock entra na China através do Douyin

José Chan Rodrigues, por seu turno, disse estar “muito entusiasmado” com a visita a Portugal e Espanha. “No ano passado, fomos a Portugal com o apoio do IPIM e da Direcção dos Serviços de Economia e de Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) e contactámos com o primeiro evento de vendas por transmissão em directo realizado em Portugal, que na verdade, foi bastante bem-sucedido”, afirmou. Segundo indicou, a associação fê-lo em parceria com a Quinta do Gradil, tendo conseguido cerca de seis mil transacções, com valor de vendas de cerca de 1,1 milhões de renminbis.

“Desta vez, uma vez que se trata da primeira visita do Chefe do Executivo a Portugal e da primeira vez que a RAEM realiza uma visita oficial a Espanha, estamos a abrir novos mercados e, na verdade, esperamos aproveitar muito mais oportunidades desta forma”, continuou José Chan Rodrigues.

A associação que dirige foi fundada em 2020, sendo que, dois anos depois criou o Centro de Serviços de Transmissão ao Vivo de Macau, com o apoio da DSEDT. Esse espaço “presta uma variedade de serviços ao público e a quem tem um interesse genuíno no sector do comércio electrónico e da transmissão ao vivo”. Os serviços incluem vendas por transmissão ao vivo, logística transfronteiriça, promoção e exposições online, formação de talentos, expansão global da marca e utilização de agentes de IA, entre outros.

Chan Rodrigues explicou que a sua associação tem duas equipas, uma das quais viajou há já alguns dias para Portugal e outra que vai estar em Portugal e Espanha. A primeira realizou uma transmissão ao vivo de vendas, no Porto. “A ideia é destacar a cerveja Super Bock, colaborando com a Douyin”, adiantou ao Jornal Tribuna de Macau.

“Esperamos apresentar muitos mais produtos e marcas portuguesas ao mercado chinês. Além da cultura e da gastronomia, penso que apresentar diferentes tipos de marcas é também uma forma muito boa de dar a conhecer Portugal e de criar um laço mais forte entre a China Continental e Portugal”, sublinhou.

José Chan Rodrigues vai, por sua vez, dedicar-se a “conhecer mais marcas e empresas novas em Portugal, bem como explorar o mercado espanhol”. Tem também agendada uma apresentação sobre transmissões ao vivo, comércio electrónico e aplicações de Inteligência Artificial, tanto em Portugal como em Espanha. “A nossa associação gostaria muito de criar mais cooperação com Portugal e com os países lusófonos, através de meios digitais, como novos media e transmissões ao vivo”, concluiu. Catarina Pereira – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”


sábado, 14 de março de 2026

Espanha - "Biblioteca oculta de Barcarrota": fidalgo português emparedou livros proibidos no século XVI em Badajoz

O proprietário da famosa "biblioteca oculta de Barcarrota", com livros do século XVI, descoberta em 1992 dentro das paredes de uma casa perto de Badajoz, era de um fidalgo português, Fernão Brandão, perseguido pela inquisição, segundo um estudo recentemente publicado

O estudo A biblioteca oculta de Barcarrota e o fidalgo português Fernão Brandão, de Pedro Martín Baños, doutorado em Filologia Hispânia, foi publicado recentemente pela Universidade da Extremadura e pela Universidade Autónoma de Barcelona.

"A hipótese defendida neste trabalho é, precisamente, que o ocultador dos livros emparedados foi o fidalgo português Fernão Brandão, perseguido pela Inquisição no seu país, que deve ter passado algum tempo em Roma e depois veio parar a Barcarrota", afirma Pedro Martín Baños.

Acusações da Inquisição a Fernão Brandão

A biblioteca encontrada em 1992 incluía 12 volumes, um manuscrito e um elemento determinante para a identificação de Fernão Brandão, um amuleto de papel que tinha inscrita "uma dedicatória com um nome, um lugar e uma data: Fernão Brandão, de Évora; 23 de abril de 1551. Roma, 23 de abril de 1551."

A partir desta inscrição, Pedro Martín Baños centrou a investigação em registos com o nome de Fernão Brandão e identificou o fidalgo português nos arquivos da Inquisição de Évora, onde foi alvo de diversas acusações e queixas entre 1547 e 1549, e depois em Barcarrota, em documentos relacionados com transferências de propriedades da localidade.

Fernão Brandão foi acusado pelo Tribunal da Inquisição de Évora por "impiedade e irreligiosidade" e "sodomia", por possuir "um livro de sodomia", forrado como se fosse religioso, "em que estão homens representados cavalgando contra a natura uns a outros por trás".

Segundo as acusações da inquisição portuguesa, citadas no estudo agora publicado, estavam que comia peixe e carne todas as sextas-feiras, domingos e outras festas religiosas, nunca rezava, jogava à bola com os criados em vez de ir à missa, desaparecia da cidade durante a Quaresma para se refugiar numa casa no campo, não se confessava, blasfemava contra Deus e os santos e possuía pequenas figuras de metal com que praticava rituais de magia e feitiçaria.

Fernão Brandão exilou-se em Castela "pelos excessos cometidos no seu reino", segundo genealogistas portugueses citados no estudo.

Livros do século XVI proibidos pela Inquisição em Portugal e Espanha

Os livros da "biblioteca oculta de Barcarrota", comprada pelo governo regional da Extremadura em 1995, são do século XVI e estão escritos em castelhano, português, francês, italiano e latim.

O conjunto inclui livros proibidos e não só pela Inquisição em Portugal e Espanha, como uma edição desconhecida de "Lazarillo de Tormes" (impressa em Medina del Campo, Espanha, em 1554), um exemplar de Alborayque, uma sátira aos judeus convertidos, dois tratados sobre quiromancia, um manual de exorcismos, uma obra de Erasmo de Roterdão, um livro de orações em vários idiomas, uma Oração da Emparedada em português e um diálogo erótico de carácter homossexual, La Cazzaria, do italiano Antonio Vignali.

O livro agora publicado em Espanha sugere que Fernão Brandão emparedou a sua biblioteca entre finais de 1559 e início de 1560, quando se publicou em Espanha o "Índice de Livros Proibidos do Inquisidor Fernando de Valdés".

A lista do inquisidor Fernando de Valdés, de 1559, foi o primeiro índice sistemático da inquisição espanhola e proibiu 698 obras por serem consideradas hereges ou imorais. In “SIC Notícias” – Portugal com “Lusa”