Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Final da Copa - de que cor eram os fogos de artifício?

Faz apenas quatro dias, mas já parece longe a Copa do Mundo de futebol. Entretanto, ainda circulam pelas redes sociais algumas imagens reais, outras fakes geradas pela IA e muitas críticas ao comportamento de alguns jogadores argentinos ao final do último jogo vencido pela Espanha.

Parecia mesmo irreal ver o anfitrião Donald Trump ter descido do seu trono para entregar taça e medalhas aos jogadores, ao lado de Gianni Infantino, o suíço todo poderoso dirigente da FIFA. Já eram amigos ou foi a maneira autoritária como dirigem os EUA e a FIFA que os aproximou?

O episódio do cartão vermelho ao jogador Folarin Balogun da seleção norte-americana, anulado por Gianni Infantino a pedido de Trump, foi uma espécie de troca de favores entre dois manda-chuvas. Satisfeito, Trump disse à imprensa apoiar Infantino para deixar a FIFA e ir dirigir a ONU. Não é para se levar a sério esse tipo de proposta, que nem o próprio Infantino aceitaria, pois na FIFA é ele quem manda, enquanto no angú de países da ONU, nem o Guterres manda.

Mas o poder de Infantino na FIFA não é absoluto, tem de respeitar certas restrições. Ao que circulou nas redes sociais europeias como rumores entre comentaristas esportivos, tão criativos e bem informados como os comentaristas políticos, o troféu da Copa do Mundo estaria destinado à Argentina. Seria uma maneira de melhorar o Ibope do presidente Milei, da mesma patota do Trump e Infantino mas com dificuldades junto ao povo, esse eterno insatisfeito.

Isso poderia ser debitado como conversa mole de locutor esportivo, mas assumiu feições de verossímil ao se lançarem e se iluminarem os fogos de artifício em torno do MetLife Stadium.

Imaginem o que devem ter dito os espanhóis da Rioja ao verem surgir as cores azul e branca em lugar do vermelho e amarelo!!! Teria sido um crasso erro dos artífices mestres em colorir os fogos de artifício? Pouco provável, os fogos de artifício se preparam com dias de antecedência, para se ter as cores vermelha e amarela da bandeira espanhola seria preciso juntar compostos metálicos de estrôncio e sódio à pólvora. Mas, em lugar disso, tinham juntado cobre para se ter a cor azul da bandeira argentina.

Essa versão das cores dos fogos de artifício circula como verdadeira, mas o jornal suíço 20 Minutes destrói tudo como uma bela mentira, fake. Na verdade, os fogos teriam sido brancos tendo como fundo o céu azul. Foi uma simples montagem que circulou pelas redes sociais, principalmente Instagram, mostrando ser quase tudo possível com o uso da Inteligência Artificial.

No que se acreditar, no que desconfiar e no que rejeitar como fake?

Em todo caso, são verdadeiras as cenas de confusão e mesmo início de agressões, rapidamente controladas, ao final do jogo, vencido pela Espanha contra a Argentina. Nelas, o jogador argentino Leandro Paredes agride o espanhol Eric Garcia. A FIFA vai investigar e poderá haver punição para a equipe argentina. Também são verdadeiras as cenas mostrando parte da equipe argentina dando as costas para a cerimônia de premiação da equipe espanhola. Rui Martins - Suíça

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Borges, sob o olhar de Emir Rodríguez Monegal

A ausência de uma tradução em português desta biografia do escritor argentino é uma prova da indigência cultural brasileira                                

                                                                                    

                                                               I

Uma prova da assustadora indigência cultural que assola o País é o fato de a publicação de Borges: una biografía literaria (Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1987), do crítico uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985), nunca ter despertado o interesse de uma editora brasileira. Um processo de emburrecimento coletivo que, nos últimos tempos, só se tem acelerado com a invasão dos meios digitais, cujo exemplo dos mais representativos é o fato de a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), que sempre publicou obras importantes, ter sido extinta como editora de livros impressos em 2021.

Trata-se de uma obra que procura contar a história de vida do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), constituindo uma experiência das mais inauditas, pois foge a todos os padrões que se conhece. Foi lançada originalmente em inglês (Jorge Luis Borges: a literary biography), pela editora norte-americana E. P. Dutton, de Boston, em 1978, em tradução do jornalista uruguaio Homero Alsina Thevenet (1922-2005), realizada a pedido do autor, e ganhou em 1983 uma tradução em francês. Depois de lançada pela editora mexicana, a obra ainda recebeu segunda edição em 1990. E, hoje, constitui uma raridade que só se encontra à venda no site da empresa de tecnologia e comércio eletrônico Amazon, a um preço estratosférico.    

De fato, ao contrário das grandes biografias que geralmente abordam a vida e a obra de um escritor já falecido, este livro de Rodríguez Monegal foi escrito ao tempo em que o biografado estava vivo. Curiosamente, o biógrafo, mais jovem 22 anos, faleceu em 14 de novembro de 1985, antes do biografado, que morreu a 14 de junho de 1986. Por isso, em algumas partes do livro, fala-se de Borges como se ele estivesse vivo. Além de recuperar entrevistas que o escritor deu ao longo da vida, inclusive uma que concedeu ao grande jornalista brasileiro Leo Gilson Ribeiro (1920-2007), publicada pela revista Veja, em 26/7/1970, o biógrafo conversou pessoalmente com a mãe de Borges, em 1971. Sem contar que foi amigo pessoal de Borges, que, inclusive, citou-o em seu conto La otra muerte, que faz parte do livro El Aleph (1949).

 

                                                              II

A obra começa por mostrar os primeiros anos de Borges, que em criança era chamado de Georgie pelos familiares e amigos, sem deixar de fazer um retrospecto a respeito de seus antecedentes, entre os quais um bisavô materno, o coronel Manuel Isidoro Suárez (1799-1846), lembrado como “o herói da batalha de Junín” por ter comandado tropas de cavalaria peruanas e colombianas em suas guerras de independência, passando por seus genitores, o advogado e professor Jorge Guillermo Borges (1874-1938) e a tradutora Leonor Rita Acevedo Suárez (1876-1975), que ainda viviam com os pais quando Georgie nasceu. A preocupação dos pais de Georgie teria sido principalmente com os olhos do rebento, já que a cegueira era endêmica na família. De fato, essa debilidade acabaria por perseguir Borges, principalmente a partir dos 40 anos de idade.   

O pai de Borges se aposentara cedo devido a uma cegueira quase total e, em 1914, decide passar uma temporada com a família na Europa, instalando-se em Genebra, depois de fugazes passagens por Londres e Paris. Na Suíça, o futuro escritor descobre a literatura francesa, especialmente Victor Hugo (1802-1885), Émile Zola (1840-1902), Voltaire (1694-1778), Gustave Flaubert (1821-1880), Guy de Maupassant (1850-1893) e Charles Baudelaire (1821-1867), e a inglesa, além de aprender alemão e ler filósofos famosos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Por meio de uma tradução em alemão, descobre também o poeta norte-americano Walt Whitman (1809-1892), que o haveria de impressionar sobremaneira, a ponto de passar a imitá-lo, como confessa em sua autobiografia.

Cinco anos depois, a família se radica em Mallorca, na Espanha, transferindo-se depois para Sevilha, onde ele começa sua vida literária, que haveria de se intensificar ao mudar-se para Madrid, onde conheceria muitos poetas, especialmente Rafael Cansinos Asséns (1883-1964), que seria seu mestre, e Guillermo de Torre (1900-1971), que haveria de se casar com sua irmã, a artista plástica e crítica de arte Norah Borges (1901-1998). Em 1921, retorna a Buenos Aires e passa a participar de um grupo de poetas sob a liderança do escritor Macedonio Fernández (1874-1952), companheiro de estudos de seu pai, Jorge Guillermo, que também tivera aspirações literárias.  A essa época, o pai começa a escrever uma novela, que não agradaria muito ao filho, que já passara a ter projetos literários próprios. Viviam numa casa localizada na rua Bulnes, não muito distante do bairro de Palermo, onde o futuro escritor passou a desenvolver o hábito de caminhar pelas ruas de Buenos Aires, só ou na companhia de amigos.

 

                                                        III

Em 1923, publica, em edição de autor, Fervor de Buenos Aires, reunindo poemas que escrevera nos dois anos anteriores, com capa de Norah Borges. A partir daí, sua carreira literária deslancha, com a publicação de outros livros, como Luna de enfrente (1925), poemas, e Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928), três livros de ensaios que excluirá de suas Obras completas (1952). Por essa época, abandona o estilo neobarroco de sua juventude para aproximar-se do classicismo que haverá de marcar a sua obra na maturidade. Mas ainda encontra ânimo para escrever uma biografia de Evaristo Carriego (1883-1912), poeta popular argentino que costumava visitar aos domingos a casa de seus pais quando ele era criança.

Nos anos 30, ainda produz outro livro de ensaios, Discusión (1932), e conhece o escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1999), que seria seu discípulo e amigo fraterno. Já em 1933 a revista Megáfono dedica um número a sua obra, com artigos de escritores latino-americanos e espanhóis. Já consagrado como poeta e ensaísta, publica resenhas de livros, traduções e relatos supostamente autobiográficos. De 1935, é o seu livro Historia universal de la infamia, coletânea de narrativas que já haviam sido publicadas na revista Crítica, de Buenos Aires.

 

                                                     IV

Como observa Rodríguez Monegal, na véspera do Natal de 1938, já morto o pai em consequência de uma hemiplegia em função de um acidente vascular cerebral (AVC), o poeta, prejudicado por sua visão já falha, bate a cabeça numa janela, sofrendo um ferimento que infeccionou e produziu uma septicemia que quase lhe custaria a vida. A partir daí, segundo o biógrafo, começa a escrever narrativas francamente fantásticas. E passa a depender da ajuda de sua mãe, tal como fizera seu pai, já que se vai ficando gradualmente cego.

Em 1941, publica El jardín de los senderos que se bifurcan, narrativas fantásticas, e Antologia poetica argentina, com Bioy Casares e Silvina Ocampo (1903-1993), além de fazer traduções, nos quais se inclui a que fez de Las palmeras salvajes, do norte-americano William Faulkner. Em 1942, publica Seis problemas para don Isidro Parodi, contos policiais, com Bioy Casares, sob o pseudônimo H. Bustos Domecq, No ano seguinte, sai Poemas, que reúne sua obra poética até essa data.

Um episódio curioso da vida de Borges que Rodríguez Monegal recolhe é aquele em que, ao tempo do governo populista e autoritário de Juan Domingo Perón (1895-1974), o poeta é destituído de seu cargo na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, sendo “promovido” a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais, o que o levaria a pedir demissão do emprego público. Para sobreviver, passaria a fazer conferências e ditar cursos, sendo por isso vigiado por agentes da polícia política. Dá à luz outros livros em colaboração com Bioy Casares e, em 1947, publica, por sua própria conta, Nueva refutación del tiempo, ensaio fundamental em que argumenta que o tempo é uma ilusão e que seria recolhido em Otras inquisiciones (1952).

Com a queda de Perón em 1955, o novo governo nomeia Borges diretor da Biblioteca Nacional, atividade que divide com a função de professor de literatura inglesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, a partir de 1956. Escreve outros livros em colaboração com Bioy Casares, mas logo terá de abandonar a escritura, em razão de sua cegueira crescente.

Com isso, lentamente começará a aprender a compor textos de memória e a ditá-los para “familiares, amigos, colaboradores, entrevistadores, críticos e até inimigos”. Mesmo quase cego, começa a ficar conhecido em todo o mundo ocidental e é convidado a dar um curso na Universidade de Texas, em Austin, em 1962. No ano seguinte, aparecem nos Estados Unidos e Inglaterra dois livros seus em tradução: Ficciones e Labyrinths. Ainda em 1962, profere conferências em Inglaterra, Escócia, França, Espanha e Suíça. E continua a publicar livros, alguns em colaboração com Bioy Casares e María Esther Vázquez (1937-2017), que fora sua namorada no início dos anos 60 e que também publicou uma biografia do poeta dez anos depois de sua morte (Borges: esplendor y derrota).

 

                                                     V

A 21 de setembro de 1967, aos 68 anos, casa-se com a escritora Elsa Astete Millán (1910-2001), então viúva, que conhecera em sua juventude, quando ela tinha 17 anos, e que deixara de ver por mais de trinta anos. Aliás, apesar de solteirão, Borges, embora tímido, segundo o biógrafo, teria acumulado várias aventuras amorosas. Rodríguez Monegal ressalta que, na maior parte de sua obra, o sexo não aparece, ou melhor, “assim como o sexo está tecido na textura de seus sonhos, também está na textura das citações com que emascara sua voz privada”.   

Naquele ano viaja com sua mulher para os Estados Unidos, onde dá várias conferências. Em 1968, o casal vai até Israel, onde o poeta dita conferências em Tel Aviv. No retorno, em 1969, é homenageado por escritores argentinos pela passagem de seus 70 anos. Em 1970, publica El informe de Brodie, contos. Naquele ano, em outubro, divorcia-se de Elsa. Visita o Brasil para, em São Paulo, ganhar um prêmio oferecido pelo governo do Estado. Em enquete feita pelo jornal italiano Corriere della Sera obtém mais votos como candidato ao Prêmio Nobel do que o premiado escritor russo Alexander Solzhenitsyn (1928-2008). Aliás, a Academia Sueca nunca lhe distinguiria com o prêmio, o que só haveria de contribuir para o desprestígio da instituição.

Faria novas viagens aos Estados Unidos, Europa e Israel, onde receberia o Prêmio Jerusalém em 1971. Em 1975, publicaria três obras fundamentais: El libro de arena, contos fantásticos; La rosa profunda, poemas; e Prologos, que reúne textos de apresentação que escrevera para livros de outros autores. Nesse ano, morre aos 99 anos sua mãe, depois de uma agonia de dois anos.  Até então, ela “passara a ser os seus olhos”. Por essa época, o poeta teria conhecido a escritora Maria Kodama (1937-2023), que passaria a trabalhar como sua secretária. Com ela, viaja para visitar a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. A partir daí, as viagens, as homenagens, os prêmios, os simpósios, os doutorados honoris causa e novos livros haveriam de se multiplicar.

A 27 de março de 1983, o jornal La Nación, de Buenos Aires, publica o relato “Agosto 25, 1983” em que profetiza o seu suicídio nessa data. Mas não cumpre o prometido, tendo respondido mais tarde a um jornalista que não o fizera “por covardia”. Nesse mesmo ano, visita a Espanha em companhia da secretária Maria Kodama e do biógrafo Emir Rodríguez Monegal para dar conferência na Universidad Internacional Menéndez Pelayo e receber a Gran Cruz de Alfonso El Sabio. Por fim, em 26 de abril de 1986, casa-se com Maria Kodama no Paraguai e o casal instala-se em Genebra, mas, pouco depois, em 14 de junho, o escritor morre de câncer hepático.  Maria Kodama seria a única titular de seus bens após a sua morte.

           

                                                              VI


Nascido na cidade de Melo, Emir Rodríguez Monegal, um dos mais influentes críticos literários do século XX, atuou a partir de 1969 como professor de literatura contemporânea latino-americana na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Em Montevidéu, foi professor de literatura no Instituto Artigas e no Instituto Alfredo Vázquez Acevedo. Recebeu bolsa de estudos na Universidade de Cambridge por parte do governo britânico. Além da biografia de Borges, publicou obras sobre figuras literárias fundamentais da literatura hispano-americana como os chilenos Andrés Bello (1781-1865) e Pablo Neruda (1904-1973) e os uruguaios Horacio Quiroga (1878-1937) e José Enrique Rodó (1871-1917).

Foi também jornalista profissional, tendo sido editor da seção literária da revista Marcha, de Montevidéu, de 1944 a 1959. Entre 1966 e 1968, foi fundador e editor de Mundo Nuevo, revista literária em espanhol publicada em Paris, que chamou a atenção internacional para os escritores que compuseram o que ficou conhecido como o "boom do romance latino-americano": Gabriel García Márquez (1927-2014), Carlos Fuentes (1928-2012), Mario Vargas Llosa (1936-2025), José Donoso (1924-1996) e outros. Também ajudou a lançar as carreiras de escritores como Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993) e Manuel Puig (1932-1990), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Borges, una biografía literaria, de Emir Rodríguez Monegal. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 477 páginas, R$ 2.398,00 (Amazon), 1987. 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), publicado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br






quarta-feira, 3 de junho de 2026

Argentina - Lusodescendentes brilham com negócio agrícola e comercial

A família Silva Pais, composta por lusodescendentes, está a afirmar o seu percurso de sucesso em Virrey del Pino, na Argentina, onde alia a atividade agrícola ao comércio, mantendo viva a ligação às suas origens


“Hoje visitámos a Ferreteria Industrial Fátima e a exploração agropecuária da família da Silva Pais, em Virrey del Pino, onde fomos recebidos por Pablo e toda a sua família, descendentes de portugueses oriundos da Guarda, Serra da Estrela, Viseu e Algarve”, lê-se na publicação feita pela embaixada de Portugal na Argentina.

Com raízes em várias regiões de Portugal, a referida família construiu uma história marcada pelo trabalho, pelo empreendedorismo e pela ligação à terra.

De acordo com a informação divulgada pela embaixada de Portugal na Argentina, o percurso começou ligado à agricultura, tendo evoluído ao longo dos anos para a produção avícola e o cultivo de cereais, consolidando uma forte presença no setor agropecuário. Em paralelo, desenvolveram também uma atividade comercial através de uma ferreteria industrial, reforçando a sua expansão no tecido económico local.

Segundo a referida fonte, “para além do seu espírito empreendedor, trata-se de uma família fortemente ligada à comunidade portuguesa e às suas tradições, mantendo vivas as suas raízes de geração em geração”. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Internacional - Estudo mostra que a preferência das aves por frutos raros é importante para a manutenção da biodiversidade

Um estudo internacional, liderado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que a preferência das aves frugívoras por frutos raros desempenha um papel fundamental na manutenção da diversidade de plantas.


Com base em dados recolhidos de forma sistemática, ao longo de 12 anos, numa floresta em Coimbra, investigadores das universidades de Coimbra, Porto (Associação BIOPOLIS) e Córdoba (Argentina), analisaram de que forma a composição nutricional e energética dos frutos e a densidade de outras plantas influenciam as escolhas alimentares das aves e os serviços que estas prestam na dispersão de sementes.

Os resultados, publicados na revista científica Current Biology, mostram que as aves frugívoras preferem frutos raros, com características nutricionais mais distintivas em relação à vizinhança. Os especialistas verificaram, ainda, que as plantas beneficiam da proximidade de outras plantas com frutos, uma vez que assim conseguem atrair mais aves dispersoras de sementes para a mesma área.

«Esta preferência que as aves têm para comer frutos raros e dispersar as suas sementes mostram a importância das interações entre as espécies para a diversidade das plantas», considera Guadalupe Peralta, primeira autora do estudo e investigadora do Instituto Multidisciplinario de Biología Vegetal, CONICET, da Universidad Nacional de Córdoba.

A investigação fornece a primeira evidência empírica de que a tendência das aves para complementarem as suas dietas com nutrientes e frutos raros é um mecanismo importante para favorecer a dispersão de sementes das espécies localmente raras, contribuindo assim para a manutenção da biodiversidade vegetal à escala regional.

«É extraordinário que o simples facto de as aves tentarem diversificar a sua dieta, consumindo os frutos mais raros e estranhos que encontram, ajude essas plantas a não serem eliminadas por outras mais comuns e competitivas. Num certo sentido isto faz das aves as defensoras dos fracos e oprimidos na natureza e zeladoras da biodiversidade», realça Ruben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC e investigador do CFE. Universidade de Coimbra - Portugal


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Brasil - Adere à Convenção de transportes rodoviários e impulsiona Corredor Bioceânico

Acordo da ONU entra em vigor no país em 30 de julho deste ano e deverá reduzir tempos e custos no movimento transfronteiriço de mercadorias. A adesão do Brasil foi descrita como um sinal da relevância global do tratado


A adesão do Brasil à Convenção Aduaneira sobre o Transporte Internacional de Mercadorias ao Abrigo de Cadernetas, TIR, foi administrada pela Comissão Económica da ONU para a Europa, UNECE.

Este marco foi anunciado como um passo central para reforçar a integração aduaneira e o comércio regional na América do Sul. O tratado entrará oficialmente em vigor no Brasil em 30 de julho de 2026.

Corredor Bioceânico liga Pacífico e Atlântico

Com esta adesão, o Brasil junta-se à Argentina, ao Chile e ao Uruguai, tornando-se o 79.º Estado Parte a nível mundial no acordo da ONU que foi concebido para acelerar o transporte internacional de mercadorias e reduzir custos nas fronteiras.

Segundo dados apresentados, o sistema pode reduzir os tempos de transporte transfronteiriço em até 92% e os custos em até 50%.

A adesão ocorre num momento em que Argentina, Brasil, Chile e Paraguai trabalham para melhorar as condições de trânsito seguro e eficiente de mercadorias ao longo da chamada Rota Bioceânica.

O corredor rodoviário de 2396 quilômetros conecta os portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, ao porto de Santos, no Brasil, passando por Paraguai e Argentina.

O porto de Santos, localizado próximo de São Paulo, foi destacado como o mais movimentado da América Latina, responsável por quase 30% do comércio externo brasileiro, avaliado em US$ 629 mil milhões.

As estimativas indicam que o Corredor Bioceânico poderá transportar mais de 8,6 milhões de toneladas de produtos por ano. Estima-se que o impacto económico supere US$ 3 mil milhões em setores produtivos estratégicos, incluindo agricultura, celulose, indústria de carnes e mineração.

Redução de custos e tempo pode fortalecer competitividade regional

De acordo com as projeções apresentadas, o reforço da conectividade ao longo do corredor deverá reduzir os custos de transporte de carga em 30% a 40% e encurtar os prazos de envio em até 15 dias.

A adesão do Brasil à Convenção TIR foi também associada ao contexto recente de assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, bloco composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Em comunicado, a secretária executiva da UNECE, Tatiana Molcean, afirmou que “a adesão do Brasil à Convenção TIR trará múltiplos benefícios”.

A representante acrescenta que, além de fortalecer a integração aduaneira e comercial regional, a medida deverá “impulsionar o desenvolvimento global e a competitividade internacional das economias sul-americanas”.

Sistema eTIR simplifica procedimentos aduaneiros

A Convenção TIR estabelece um sistema global de trânsito aduaneiro para transporte rodoviário e multimodal de mercadorias, baseado em procedimentos padronizados e mecanismos de segurança.

A UNECE destaca ainda a implementação do sistema eletrónico eTIR, que elimina a necessidade de cadernetas físicas e reduz a burocracia associada ao transporte internacional.

Segundo a UNECE, a digitalização pode diminuir os tempos de espera e as filas nas fronteiras, reduzindo também o impacto logístico e operacional do transporte.

A adesão do Brasil foi descrita como um sinal da relevância global do tratado para criar oportunidades de conectividade e desenvolvimento económico através de mecanismos multilaterais. ONU News – Nações Unidas


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Argentina - 'Os nossos corpos arcam com o custo': Bombeiros da Patagónia combatem incêndios e austeridade em floresta ancestral

Os incêndios florestais continuam devastando a região da Patagónia, atingida pela seca, e arrasando as suas florestas antes intocadas


Atualmente, as majestosas encostas da floresta da Patagónia argentina parecem uma zona de guerra.

Nuvens de fumo em forma de cogumelo elevam-se como se fossem resultado de ataques de mísseis. Grandes chamas iluminam o céu noturno, tingindo a lua de um tom laranja-manga e transformando as vistas gloriosas que gerações de escritores e aventureiros gravaram na psique global em algo assombroso.

Vastas áreas do Parque Nacional Los Alerces, Património Mundial da UNESCO e lar de árvores com 2600 anos de idade, estão agora em chamas.

Incêndios florestais devastadores na Patagónia

Os incêndios florestais, entre os piores a atingir a região da Patagónia, assolada pela seca, em décadas, devastaram mais de 45 mil hectares de florestas argentinas no último mês e meio, forçando a evacuação de milhares de moradores e turistas. Na segunda-feira (2 de fevereiro), o incêndio ainda estava a alastrar.

A crise, com a maior parte da temporada de incêndios na Argentina ainda pela frente, reacendeu a raiva contra o presidente libertário radical do país, Javier Milei, cuja política dura de austeridade nos últimos dois anos reduziu drasticamente os gastos com programas e agências que não só trabalham para combater incêndios, mas também para proteger parques e prevenir que as chamas comecem e se espalhem.

“Houve uma decisão política de desmantelar as instituições de combate a incêndios”, diz Luis Schinelli, um dos 16 guardas-florestais responsáveis ​​pelos 259.000 hectares do Parque Nacional Los Alerces. “As equipas estão sobrecarregadas.”

Após assumir o cargo com a promessa de resgatar a economia argentina de décadas de dívidas exorbitantes, Milei cortou em 80% os gastos com o Serviço Nacional de Gestão de Incêndios em 2024 em comparação com o ano anterior, desmantelando o órgão responsável pelo envio de brigadas, manutenção de aviões-tanque, compra de equipamentos extras e monitorização de riscos.

O serviço enfrenta um novo corte de 71% nos recursos este ano, segundo uma análise do orçamento de 2026 feita pela Fundação Meio Ambiente e Recursos Naturais (FARN), um grupo argentino de investigação e defesa ambiental.

Será que a culpa é das alterações climáticas?

O recuo ocorre num momento em que as alterações climáticas estão a tornar os eventos meteorológicos extremos mais frequentes e severos, aumentando o risco de incêndios florestais.

“As alterações climáticas são inegáveis. Estamos vivendo isso”, diz o bombeiro Hernán Mondino, com o rosto sujo de suor e fuligem após um dia exaustivo combatendo incêndios no Parque Nacional Los Alerces. “Mas não vemos nenhum sinal de que o governo esteja preocupado com a nossa situação.”

O Ministério da Segurança, que assumiu a supervisão dos esforços de combate a incêndios depois que Milei rebaixou o Ministério do Meio Ambiente, não respondeu aos pedidos de comentários.

Incêndios como esses também contribuem para um ciclo de retroalimentação preocupante, pois libertam emissões de gases de efeito de estufa que agravam as condições quentes e secas, ao mesmo tempo que degradam o solo e eliminam árvores essenciais para a captura de carbono e o resfriamento.

Uma 'motosserra' para o estado

Os profundos cortes de gastos de Milei estabilizaram a economia argentina, que estava em crise, e reduziram a inflação anual de 117% em 2024 para 31% no ano passado – a menor taxa em oito anos.

As suas batalhas contra a “gordura” do governo e a cultura "woke" ajudaram-no a aproximar-se do presidente dos EUA, Donald Trump, cuja própria guerra contra a burocracia federal teve repercussões semelhantes na investigação científica e nos programas de resposta a desastres.

Após Trump anunciar, no ano passado, que os EUA deixariam o Acordo de Paris sobre o clima, Milei ameaçou fazer o mesmo. Ele boicotou as cúpulas climáticas da ONU e referiu-se às alterações climáticas causadas pelo homem como uma “mentira socialista”, enfurecendo os argentinos que entendem que o calor e a seca recordes, sintomas de um planeta em aquecimento, estão a alimentar os incêndios na Patagónia.

“Há muita raiva acumulada. As pessoas aqui estão muito incomodadas com a política do nosso país”, diz Lucas Panak, de 41 anos, que entrou numa viatura com os seus amigos na última quinta-feira para combater os incêndios que consumiam a pequena cidade de Cholila, depois que os bombeiros municipais foram enviados para outro local.

Gestão de desastres em meio à austeridade na Argentina

Quando um raio provocou um pequeno incêndio junto a um lago nos arredores do norte de Los Alerces, no início de dezembro, os bombeiros tiveram dificuldades para responder, devido à localização remota e à falta de aeronaves disponíveis para transportar as equipas e combater as chamas nas encostas.

O atraso inicial forçou a renúncia da administração do parque e levou os moradores a acusá-la de negligência numa queixa-crime, quando os ventos aumentaram e espalharam o fogo pela floresta nativa.

Mas alguns especialistas argumentam que o problema não foi a inação após o início do incêndio, mas sim muito antes.

“Incêndios não são algo que se combate apenas depois que eles acontecem. É preciso combatê-los antecipadamente por meio de planeamento, infraestrutura e previsão”, afirma Andrés Nápoli, diretor da FARN. “Todo o trabalho de prevenção, tão importante para ser feito o ano todo, foi praticamente abandonado.”

Além de cortar o orçamento do Serviço Nacional de Gestão de Incêndios, o governo de Milei retirou dezenas de milhões de dólares da Administração de Parques Nacionais no ano passado, o que levou à demissão ou renúncia de centenas de guardas-florestais, bombeiros e funcionários administrativos.

Com o aumento anual do número de turistas nos parques da Argentina, os guardas-florestais afirmam que os cortes orçamentais e as medidas de desregulamentação dificultam a monitorização do risco de incêndios, a limpeza de trilhos e a consciencialização dos visitantes sobre a preservação do parque. Em março passado, o governo revogou a exigência de que atividades turísticas como caminhadas em glaciares e escaladas em rocha fossem supervisionadas por guias licenciados.

“Se aumenta o número de visitantes enquanto reduz o número de funcionários, corre o risco de perder o controlo”, afirma Alejo Fardjoume, representante sindical dos trabalhadores dos parques nacionais. “As consequências dessas decisões nem sempre são imediatas; elas serão sentidas cumulativamente, progressivamente.”

Por que os bombeiros estão a ter dificuldades para acompanhar o ritmo?

Um relatório de 2023 da Administração de Parques Nacionais recomenda o destacamento mínimo de 700 bombeiros para cobrir a área sob a sua jurisdição. A agência emprega atualmente 391 pessoas, tendo perdido 10% do quadro de funcionários devido a demissões e pedidos de demissão nos últimos dois anos sob a gestão de Milei.

Os cortes orçamentais no Serviço Nacional de Gestão de Incêndios reduziram a capacidade de treino e os equipamentos disponíveis, dizem os bombeiros, fazendo com que muitos dependam de vestuário de proteção de segunda mão e equipamentos doados.

As autoridades de Los Alerces afirmam que sempre tiveram dificuldades financeiras, independentemente do governo, e insistiram que não faltavam recursos para combater o incêndio.

“Criticar é sempre fácil”, diz Luciano Machado, chefe da divisão de incêndios, comunicações e emergências da Administração de Parques Nacionais. “Às vezes, adicionar aeronaves não melhora as coisas. E para aumentar o número de bombeiros, é preciso mais comida, abrigo e rodízio.”

Mas os bombeiros dos parques nacionais, levados ao limite da exaustão, dizem que os seus efetivos estão a diminuir constantemente, seja por demissões, seja por pedidos de demissão devido a salários abaixo da linha da pobreza, que não acompanham a inflação.

O bombeiro médio nos parques da Patagónia ganha menos de US$ 600 (cerca de € 508) por mês. Em províncias com custo de vida mais baixo, o salário mensal cai para menos de US$ 450 (€ 381). Um número crescente de bombeiros afirma ter precisado realizar trabalhos extras como jardineiros e trabalhadores rurais.

“De fora, parece que tudo continua a funcionar normalmente, mas os nossos corpos sofrem as consequências”, diz Mondino. “Quando alguém sai, o resto de nós carrega mais peso, dorme menos e trabalha mais horas.”

A abordagem de Milei em relação ao incêndio, mantendo-se dentro da normalidade.

Durante um mês, enquanto as florestas ardiam, Milei quase não disse nada sobre os incêndios e seguiu a sua vida normalmente. Na semana passada, enquanto governadores provinciais imploravam para que ele declarasse estado de emergência a fim de libertar verbas federais, ele dançou no palco com a sua ex-namorada ao som de baladas de rock argentino.

A imagem em tela dividida forneceu aos seus críticos munição política poderosa. "Enquanto a Patagónia queima, o presidente diverte-se cantando", disse o deputado centrista Maximiliano Ferraro. Os partidos de oposição de esquerda organizaram protestos em diversas províncias.

Na quinta-feira, Milei cedeu, decretando estado de emergência, o que libertou US$ 70.000 (€ 59.000) para bombeiros voluntários e anunciando "uma luta histórica contra o fogo" nas redes sociais.

Num acampamento-base neste fim de semana, paramédicos voluntários movimentavam-se apressadamente entre bombeiros de olhos cansados, cuidando de gargantas irritadas, pernas doloridas e seios nasais inflamados. Alguns expressaram esperança de que mais ajuda estivesse a caminho. Outros descartaram o decreto como simbólico. Todos, olhando para as árvores fumegantes que levam gerações humanas para se regenerar, não conseguiam deixar de pensar no que já havia sido perdido.

“Dói porque não é apenas uma paisagem bonita, é onde vivemos”, diz Mariana Rivas, uma das voluntárias. “Há raiva pelo que poderia ter sido evitado e raiva porque a cada ano piora.” Isabel Debre – Argentina Euronews.green com “Associated Press”


domingo, 7 de dezembro de 2025

Argentina - Galeria De Sousa mantém viva herança de raízes portuguesas em Buenos Aires

Pablo de Sousa é designer gráfico e filho de Aldo de Sousa, lusodescendente e fundador da histórica Galeria De Sousa, criada em 1972, em Buenos Aires

A história da família De Sousa tem profundas raízes portuguesas. O avô de Pablo chegou à Argentina vindo de Loulé durante a Primeira Guerra Mundial, dedicando-se inicialmente ao ofício de antiquário. Mais tarde, o seu filho Aldo e a esposa estabeleceram-se em Villa Elisa. Aldo, também ele formado na arte de antiguidades, viria a orientar a sua carreira para as artes, fundando a então Galeria Aldo de Sousa.

Após passar por vários espaços ao longo das décadas, a galeria encontra-se atualmente instalada entre as ruas Paraguay e Maipú, numa zona emblemática da cidade conhecida como a “manzana loca” (quarteirão louco, em português). Este quarteirão ganhou esse nome por, há várias décadas, ter sido ponto de passagem e trabalho de figuras como Marta Minujín e Jorge Luis Borges, ícones da cultura argentina.

Atualmente, é Pablo de Sousa quem dá continuidade a este legado familiar. Há cerca de um ano e meio, a galeria está instalada no espaço da Paraguay 675, uma área com cerca de 500 metros quadrados, distribuída por três pisos. O espaço está aberto de segunda a sexta-feira, das 10h00 às 18h00 (hora local).

Antes de entrarem na zona expositiva, os visitantes encontram uma loja da galeria, onde é possível adquirir peças de vários artistas. Está igualmente prevista, para breve, a abertura de um espaço de cafetaria, que permitirá ao público desfrutar da visita num ambiente ainda mais acolhedor.

De acordo com a informação patente no sítio da galeria, “o projeto concentra-se em reunir artistas de diferentes gerações e origens para forjar uma ligação intemporal através da sua arte. A galeria presta consultoria a coleções e museus internacionais, promovendo uma plataforma para a visibilidade global ao exportar o seu trabalho para países como os Estados Unidos, Canadá, Espanha, Brasil, Colômbia, Peru, Chile, Venezuela, Porto Rico e Uruguai.”.

A embaixada de Portugal na Argentina visitou recentemente a galeria e deu conta dessa iniciativa através de uma publicação feitas nas redes sociais. Veja aqui, o vídeo da visita e consulte aqui as exposições que pode apreciar neste espaço. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo

 


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Argentina - Anuncia saída da Organização Mundial da Saúde

O Governo argentino anunciou, esta quarta-feira, a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS) por divergências profundas em torno da gestão da pandemia da Covid-19 e em nome da soberania nacional



"O Presidente Javier Milei deu instruções ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Gerardo Werthein, para que retirasse a Argentina da OMS. Esta decisão baseia-se nas divergências profundas no que diz respeito à gestão da saúde, especialmente durante a pandemia", anunciou o porta-voz da presidência argentina, Manuel Adorni, conforme a Lusa.

Segundo a mesma fonte, a Argentina responsabiliza a OMS e o anterior Governo, liderado por Alberto Fernández (2019-2023), pelo "confinamento mais longo da história da humanidade", e acusou a agência de saúde da ONU de se deixar contagiar pela "influência política de alguns Estados".

"Os argentinos não vão permitir que uma organização internacional intervenha na nossa soberania e muito menos na nossa saúde", concluiu. In “Jornal de Angola” – Angola com “Lusa”


terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Suíça - Descendentes de emigrantes exigem passaporte suíço

O direito à cidadania suíça é baseado no princípio da origem, sendo também herdado por quem nasce no exterior. Apesar disso, milhares de descendentes de cidadãos suíços que deixaram o país acabaram perdendo a sua nacionalidade. Uma petição quer mudar isso agora



Dylan Kunz, 23 anos, é descendente de emigrantes suíços. No século 19, os seus bisavós suíços emigraram dos cantões de Solothurn e da Turgóvia para a Argentina. Os seus avós eram cidadãos suíços e quatro dos seus cinco tios também são suíços. O seu pai Ruben e ele próprio, contudo, não são suíços. O seu pai, sem saber, perdeu a cidadania por não ter estado atento aos prazos exigidos para mantê-la.

Somente em 2021, quando o pai de 63 anos entrou em contato por e-mail com a Embaixada da Suíça em Buenos Aires, é que a família recebeu a informação de que ele não seria cidadão suíço. “Foi uma decepção enorme para toda a família e especialmente para o meu pai, pois ele passou a vida inteira a acreditar ser suíço”, conta Dylan. Entender que não era bem assim foi uma situação um pouco embaraçosa: “O meu pai e eu sempre dizíamos que a ‘a Suíça é o melhor país do mundo e que éramos suíços”, relata.

O registo do nascimento nunca chegou à Embaixada

A família Kunz sempre partiu do princípio de que Ruben, pai de Dylan, da mesma forma que os seus irmãos mais velhos, teria sido registado na Embaixada da Suíça na Argentina dentro do prazo regular. No entanto, em 1958, por ocasião do nascimento de Ruben, numa época na qual não havia e-mails, o correio argentino transportava as correspondências em parte por cavalos e carroças, não sendo, portanto, totalmente confiável. Os comunicados do nascimento de Ruben Kunz, bem como de um dos seus irmãos, registado na mesma época, não chegaram à Embaixada suíça, como concluiu a família decepcionada.

A legislação suíça determina que se uma pessoa não for registada na representação diplomática do país nem estiver inscrita no registro civil oficial até aos 25 anos de idade (em 1958, vigorava ainda o limite de 22 anos), ela perderá a cidadania. Esse foi o caso de Ruben Kunz em 1980, quando completou 22 anos.

Depois disso, ele poderia, teoricamente, dentro de um prazo de dez anos, ter entrado com um requerimento para ser novamente naturalizado. Essa oportunidade foi, porém, também perdida – visto que Ruben sempre partiu do princípio de que seria suíço. Hoje, ele tem apenas uma opção, caso queira naturalizar-se novamente: viver permanentemente na Suíça durante três anos. Isso, contudo, não é uma hipótese realista: “Para muitos de nós, que vivemos na Argentina, esse caminho é financeiramente impossível, além de que seria difícil poder trabalhar na Suíça do ponto de vista do direito de permanência”, diz Dylan.

Quando a cadeia é interrompida

Diante disso, o passaporte suíço é negado não apenas ao pai de Dylan, mas também aos seus descendentes. “Há aqui uma dependência em cadeia”, diz Barbara von Rütte, especialista em Direito Civil. Quando a cadeia é interrompida, torna-se cada vez mais difícil reaver a cidadania suíça. “Quanto mais próximo o momento da perda, maior a probabilidade de recuperar a nacionalidade”, explica.

O caso de Ruben e Dylan Kunz não é único. Nas últimas décadas, milhares de descendentes de emigrantes suíços devem ter tido o mesmo destino. “O Direito Civil suíço é muito marcado pelo princípio do jus sanguinis”, diz Von Rütte. Isso significa que a cidadania é transmitida por origem, não importando qual o local de nascimento da pessoa em questão. “A lei estipula que a cidadania suíça pode ser transmitida de geração em geração, quando a solicitação é feita”, alerta a especialista.

Um grande número de descendentes de emigrantes suíços considera os requisitos de transmissão da cidadania suíça muito rigorosos. Por isso, um coletivo, que tem Dylan Kunz à frente, lançou uma petição e colheu assinaturas de cerca de 110 cidadãos suíços e suíças no exterior, bem como de 11.500 descendentes de emigrantes suíços. O documento foi encaminhado ao Parlamento em julho de 2024.

“Nós, descendentes, somos discriminados”

“Pedimos ao Parlamento que reveja e reforme a lei que regulamenta a cidadania suíça, para que os descendentes de suíços no exterior até à quinta geração possam requerer a nacionalidade com mais facilidade. Essa reforma deve simplificar os procedimentos e reduzir as exigências burocráticas”, consta do texto da petição. O Direito Civil suíço discrimina os descendentes de cidadãos suíços no exterior ao impor restrições específicas à manutenção da cidadania, aponta o documento.

“Até ao início do século 20, a Suíça era um país de emigrantes”, diz Von Rütte. Portanto, há hoje muitos suíços de quinta ou sexta geração no exterior. Muitos acabaram perdendo a cidadania por diversas razões. Outros, contudo, conseguiram mantê-la e passá-la para os seus familiares.

Questiona-se se seria de facto tão difícil procurar uma Embaixada ou Consulado antes dos 25 anos de idade. “Esse não é um problema atual, mas histórico”, pontua Eduardo Puibusque, responsável pelo encaminhamento da petição em nome do grupo “Nacionalidade Suíça Para Descendentes“. Se hoje é evidente que os comunicados são rápidos e as informações chegam com agilidade, isso nem sempre foi assim.

Muitos perderam a cidadania por falta de informação

“É preciso considerar que a maioria dos emigrantes suíços não vivia em cidades, mas se estabelecia no campo”, lembra Puibusque. A Argentina é um país enorme, com grandes distâncias, sendo “ainda hoje difícil cortar o país de fora a fora”, observa. A ausência de conhecimento, resultante da falta de acesso a fontes de informação, levou, durante muitos anos, à perda da cidadania suíça “e isso não aconteceu apenas em áreas rurais”, comenta Puibusque. Entre outras coisas, ele refere-se às várias mudanças nas leis aprovadas ao longo das décadas.

O próprio Puibusque teve de lutar para reaver a sua cidadania suíça, pois a sua mãe a havia perdido na década de 1940, quando se casou com um cidadão argentino.

Puibusque teve sorte ao beneficiar de uma determinação transitória na lei da cidadania suíça, que permitiu a ele e à irmã que recuperassem os seus passaportes suíços. No entanto, os seus três filhos e seis netos não têm acesso à nacionalidade suíça. “Quando a minha condição de cidadão suíço foi finalmente reconhecida, os meus três filhos já haviam ultrapassado o limite de idade ‘arbitrariamente’ estabelecido”, diz ele. Para muitos descendentes, o acesso à cidadania suíça só pode ser recuperado a duras penas.

A petição reivindica que isso seja modificado. A recuperação da cidadania – de preferência até à quinta geração de parentes consanguíneos – por parte dos descendentes suíços no exterior deveria ser facilitada sem maiores obstáculos, tais como a idade ou as condições financeiras.

“Antigamente havia mais disposições transitórias que facilitavam a recuperação da cidadania suíça”, diz Von Rütte. Elas afetavam sobretudo quem havia perdido a sua cidadania devido à discriminação de género. Essas disposições foram se tornando de difícil compreensão, de forma que foram consolidadas e resumidas em 2017. “Isso também foi feito com a crença de que a maioria dos casos, afetados pelas disposições, acabaram sendo resolvidos no decorrer do tempo.”

No entanto, esse não parece ser o caso: “Somos tios, tias, filhos, filhas, netos”, diz Kunz. Todo o mundo perdeu a cidadania suíça. “Não queremos beneficiar nos do facto de sermos naturalizados outra vez, trata-se da nossa identidade e da nossa ligação com o país de origem”, conclui. Melanie Eichenberger – Suíça in “Swissinfo”


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Argentina - Mais de 350 livros em português vendidos na feira em Buenos Aires

A livraria do pavilhão de Lisboa na Feira do Livro de Buenos Aires vendeu uma média de 50 livros por dia na primeira semana, um número “muitíssimo surpreendente”, não só pela quantidade, mas também pela procura em língua portuguesa


Segundo Marcos Almada, o livreiro responsável pela venda dos livros do pavilhão de Lisboa, na primeira semana de feira – entre 23 e 30 de maio, incluindo os dois primeiros dias de jornadas profissionais – tinham sido vendidos mais de 350 livros, entre a seleção de 723 obras em língua portuguesa, levadas pela comitiva portuguesa, e os que o livreiro tem angariado junto das editoras latino-americanas.

“Dada a crise [económica] argentina que estamos passando, com os livros caros e as pessoas sem dinheiro, surpreendeu-nos bastante a quantidade de vendas, porque normalmente as cidades convidadas não têm tantas vendas como as dos grupos editoriais”, disse Marcos Almada.

Mais surpreendente ainda, para o livreiro, é a quantidade de livros em língua portuguesa que estão a ser vendidos.

“Isto mostra que há uma idiossincrasia para ler em português, para além da procura por visitantes do Brasil”, afirmou, explicando que além da curiosidade natural de quem quer experimentar a ler em português, há académicos, professores e tradutores, mas também alunos, porque “nos colégios estatais existe português como segunda língua”.

O interesse neste país pela língua portuguesa tem também outra raiz, esclareceu Marcos Almada, a procura por entender melhor a literatura e a música brasileira, sobretudo a bossa nova, que têm grande penetração na cultura argentina.

Quanto aos autores mais vendidos, o livreiro disse que há um equilíbrio entre clássicos e contemporâneos, sendo que dos primeiros, “Fernando Pessoa é sem dúvida o número um”, mas Eça de Queirós e José Saramago são também muitíssimo procurados.

Entre os contemporâneos, Marcos Almada destacou Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, que esgotou nos primeiros dias os exemplares disponíveis.

Outra razão que leva as pessoas a procurarem autores específicos é o facto de quererem conhecer as obras dos autores convidados.

O facto de haver uma programação cultural de Lisboa estendida e cartazes perto do pavilhão com as fotografias dos escritores é outro atrativo para comprar livros, acrescentou.

O responsável adiantou ainda que se verifica uma crescente procura por livros ilustrados e por livros sobre Lisboa, nomeadamente arte e arquitetura, que “também se vendem muito”.

A título de exemplo, aludiu a um livro sobre azulejos de Lisboa, que se vendeu logo nos primeiros dias.

Relativamente às obras que já esgotaram, apontou “O Livro do Desassossego” – “o mais procurado” – que, entretanto, foi reeditado e reposto, e livros de Lídia Jorge e Isabela Figueiredo. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


domingo, 7 de abril de 2024

Argentina - Portugal convidado de honra da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires

Para a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, em que Portugal será o convidado de honra, a autarquia de Lisboa vai levar 37 autores. A representação portuguesa também vai ser repleta de música (6 concertos) e de cinema (10 filmes)


Desta lista de 37 autores, 22 são argentinos que vão cruzar vários tipos de artes em conversas animadas. As semelhanças e diferenças entre Lisboa e Buenos Aires, na literatura, no futebol, no humor, por exemplo, são algumas das ideias que vão estar em debate durante os dias desta feira.

Vão ser um total de 100 atividades que vão ser desenvolvidas na feira internacional que tem Lisboa como a grande convidada. De Portugal até a capital da Argentina vão viajar nomes como; Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Ana Pessoa, André Letria, Bruno Vieira Amaral, Frederico Pedreira, Isabela Figueiredo, Jerónimo Pizarro, Joana Bértholo, Joana Estrela, José Luis Peixoto, Lídia Jorge, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira, Rosa Oliveira e Yara Monteiro. «A diversidade foi um dos fatores-chave que esteve na base da escolha da programação», lembrou a curadora da participação portuguesa, Carla Quevedo.

«Esta é uma feira completamente diferente, convida cidades, e recebemos este convite já há um ano e dissemos logo que sim, era uma realidade para nós extremamente importante, porque vai ao encontro daquilo que é a nossa estratégia para a cultura e para aquilo que é a estratégia de internacionalizar a cultura da cidade de Lisboa, e esta é uma excelente oportunidade», afirmou o vereador da Cultura de Lisboa, Diogo Moura. O espaço dedicado a Lisboa terá um total de 200 metros quadrados.

A Feira do Livro da Argentina é uma das maiores do mundo e vai acontecer entre 23 de abril e 13 de maio. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo